A Última Noite de Helena (1)
Nilto Maciel
Romance (Campinas, SP, Ed. Komedi, 2003)
(1.º lugar no XXII Concurso Literário da Secretaria de Cultura e Esporte do Governo do Distrito Federal (âmbito nacional, categoria romance), Prêmio Brasília de Literatura, 1990, sob o título A Última Noite de Helena)
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Helena morreu ao cair da torre do sino da matriz. Segundo a polícia, ela não pulou. O delegado de Palma, tenente Agenor, descartava a hipótese de suicídio.
Morte misteriosa e escandalosa. Em Palma nunca matavam mulher. Nem mesmo nos cabarés, onde costumeiramente ocorriam desordens. Quanto mais em igreja, onde só morria o filho de Deus. Durante a missa.
Jogando baralho no Café Progresso, Alceu, o pintor, distraidamente, arrumava na mão seu leque de cartas. Ouvissem bem: Tratava-se de puro simbolismo.
Os outros jogadores também pareciam mais interessados no crime do que no jogo.
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A primeira suspeita da morte apontava para o padre Diógenes. Nem podia ser diferente. Ora, toda a cidade falava então do namoro dele com a jovem. Uma devota de Nossa Senhora de Palma se esgoelava pelas ruas. Um escândalo! Sim, Palma inteira se sentia escandalizada: Um padre assassino! E, ainda mais, da própria amante! Outra devota completava o coro: O fim dos tempos! No entanto, nem todos se rendiam à evidência. Não podia ser verdade aquela história. Padre Diógenes jamais cometeria um pecado daqueles. Mais dia, menos dia, descobririam e prenderiam o criminoso. E então tudo seria esclarecido: A fulaninha... Catarina, a zeladora da matriz, debruçada à janela, olhos perdidos na rua, benzia-se três vezes. Deus tapasse-lhe as oiças! ... a fulaninha nunca teve namoro nenhum com o padre. Não porque fosse direita. Lá isso não. Pelo contrário, uma errada, uma sem-vergonha, uma cadela. Leda, irmã mais nova de Catarina, se enchia de curiosidade. Existia mesmo burra-de-padre, não existia? E descobria cachorros montados em cachorras, jumentos atrás de jumentas, todos na maior safadeza. Se a língua do povo não existisse apenas para levantar falsos, talvez Catarina se transformasse um dia em mula-sem-cabeça. Não, não, tudo não passava de calúnia. Sua irmã jamais cometeria um pecado daqueles. Ora, só vivia para a religião, a Igreja, dedicada a criar os irmãos órfãos. Uma verdadeira mãe!
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Mesmo sendo irrefutáveis os indícios da participação do padre no crime, quase ninguém em Palma admitia a hipótese levantada pelo delegado. O professor Lisandro se exaltava. Uma heresia! Se ainda existisse a Inquisição, só queria ver a cara do policial. Com toda a certeza, seria queimado vivo. Uma grande fogueira no centro da cidade. No meio da praça da matriz, diante da igreja. Todavia, para felicidade do patife, vivia-se noutra era. Nada mais a lei considerava crime. Ou, então, não havia mais punição. Um estímulo à prática do pecado, do delito, da imoralidade, como em Sodoma e Gomorra.
Dirce, a mulher de Lisandro, remexia-se na cama, como se milhares de diabinhos lhe fizessem cócegas. Aquele tenente não passava de um herege, um ateu, um inimigo da religião. Dava até vontade de rir, gargalhar, afastar o lençol, retirar a camisola. Contudo, o marido nem ligava para os diabinhos invisíveis e continuava sério como sempre, quem sabe até cheio de cólera. Não precisava exagerar, a mulher. Afinal, a coisa aconteceu dentro da igreja. E não se deu no patamar? Lisandro até riu. Não dava crédito à suspeita do policial. Entretanto, não havia como negar o fato: Jogaram a moça da torre da matriz. E sussurrava para a mulher: O sacristão também podia estar envolvido no crime. Dirce se mostrou feliz, como se o marido lhe tivesse sussurrado palavras de amor. Claro, só podia ser outro o assassino. O sacristão, por exemplo. Esse ela até admitia. E olhou para bem longe, como a buscar nos confins da memória a figura de Timóteo. Lisandro abriu os olhos. Não fosse sair por aí acusando o homem.
Fez-se silêncio por alguns minutos na alcova. Os olhos da mulher vagavam pelas ruas de Palma, buscavam o assassino, talvez escondido atrás de uma carinha de anjo. Reparando bem, ele tinha mesmo cara de bandido.
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Enquanto o acusavam nas alcovas, Timóteo apagava as luzes da igreja, sem nenhuma pressa, a resmungar para os santos mudos dos altares. O demônio entrava até na casa de Deus. E benzia-se seguidamente.
Seu nome, porém, não figurou logo na lista dos suspeitos. Muito antes de se lembrarem dele, o nome do soldado Filipe habitou a boca do povo. Ora, o fato de estar fazendo ronda na noite do crime não o eximia de ser acusado.
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Alceu escavacava as unhas com um palito de fósforo, a remover restos de tinta. Polícia não cometia crime? Como cometia! Se ao menos pudesse criar com liberdade, não se importaria tanto com aquela sujeira. E todos os padres do mundo poderiam viver suas vidinhas como bem lhes aprouvesse. Se quisessem, transformassem as igrejas em belos e majestosos randevus. Ora, nenhum mal haveria nisso. Afinal, sexo significava vida. Então por que aquela história de anjos assexuados? Só na cabeça idiota do padre Diógenes. Ou todos os padres pensavam assim? Pois é, o crime não era privilégio dos fora-da-lei.
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A autoridade policial convocou e interrogou alguns suspeitos, embora nem sempre dispusesse de maiores indícios de suas possíveis participações no crime. Assim, até Alceu se viu às voltas com o tenente.
Crisóstomo, o tabelião, coçava o queixo. O coitado do pintor seria incapaz de matar uma só mosca. Aquilo só podia ser obra, invenção de padre Diógenes.
Dia a dia se convencia mais da calamidade originada da simples existência de padres, igrejas e religiões. Um bando de sanguessugas. O pior, ainda assim, era não poder dizer isto a plenos pulmões. Seria apedrejado e morto, como um cachorro doido. Sua própria mulher atiraria a primeira pedra. E o mundo continuaria cheio de padres e igrejas. Sim, uma luta desigual. Eis a razão da necessidade de agirem os materialistas com muita cautela. Um trabalho de sapa, como dizia Alceu.
Na verdade, o pintor e o vigário não se entendiam direito, apesar de este ter contratado aquele para pintar a matriz, até mesmo afrescos. Antes disso, entretanto, mal se conheciam. O desentendimento surgiu quando Alceu desenhou os primeiros anjos no teto. Uma imoralidade, aquilo! Referia-se aos anjinhos gordinhos e nus saídos do pincel do artista. E apontava para o teto, indignado, vermelho, engasgado. O pintor, por acaso, desconhecia o preceito católico segundo o qual anjo não tinha sexo? Não, não sabia. Aliás, sabia: Anjo tinha, sim, sexo, para ele.
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O tabelião se irritava. Um artista não matava. E, de tanto defender o pintor, acabou Crisóstomo também suspeito.
O vigário só faltava perder a cabeça. O crime só podia ter sido praticado por gente sem fé, sem religião, sem Deus. O notário não freqüentava a igreja e, vez por outra, se declarava descrente. Daí as chincadas do religioso.
O delegado dava voltas pela sala. Então o tabelião confessava não acreditar em Deus?
Todo mundo se tornou suspeito, até prova em contrário.
O próprio tenente terminou também acusado, embora não tenha sido levado a interrogatório. A princípio, apenas sussurravam o seu nome. Lisandro andava a murmurar teorias pelas esquinas. Se não havia descoberto ainda o criminoso, era porque não queria descobrir nada. Conhecia inúmeros casos de policiais envolvidos em crimes. Ora, Agenor podia muito bem ter assassinado a professora. Aliás, a falsa professora. E isto talvez não constituísse um verdadeiro crime. No máximo, um crime necessário. Ou conveniente.
Com o passar dos dias, os sussurros adquiriram outras tonalidades e mais gente passou a relacionar, às claras, o nome do tenente com o crime. Crisóstomo não perdia oportunidade de ir ao Café, mesmo quando o cartório se enchia de gente. Todo mundo sabia: O delegado vivia arrastando a asa para o lado da moça. Aliás, como muita gente mais. Uns desabridamente, outros com recato. Menos ele. Dava-se respeito. Afinal de contas, exercia o alto cargo de tabelião. Um nome a zelar, uma posição social invejável. Como o delegado também devia ter. Feito um dom-joão qualquer. Lisandro apalpava as cartas diante dos olhos. Aquilo não queria dizer nada. O notário, ainda irritado com a autoridade, por tê-lo intimado a comparecer à Delegacia, se enfadava. Todos deviam saber disso: Um homem tinha lá seus orgulhos. Chegou a se exaltar, alterar a voz e jogar, com força, uma carta sobre a mesa.
Na tentativa de amainar o amigo, enquanto estudava pacientemente o jogo, Lisandro filosofava. Tudo era possível, tudo era possível.
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Segundo os boateiros, o padre e a moça haviam escolhido um lugar privilegiado para seus encontros amorosos: A torre do sino da matriz. Lá eles se sentiam livres da curiosidade popular e, ao mesmo tempo, faziam amor acima de todos os mortais.
Aqueles versados em antigos romances de amor lembravam até histórias comoventes de princesas aprisionadas em castelos. Outros, irritados, chamavam aquilo de profanação do templo sagrado. O professor Lisandro saía aos brados: Um sacrilégio! Então não se respeitava mais nem a casa de Deus! Uma pouca vergonha! O tempora! O mores! E de nada adiantavam a escola, a educação escolar, se a imoralidade começava nos lares e nas igrejas. Só podia resultar numa juventude transviada, descontrolada, perdida.
O professor levava para casa a sua irritação. Mesmo na hora de dormir, a remexer-se todo na velha cama, não parava de bradar: Um sacrilégio, minha velha! Dirce parecia ter perdido o sono. Muito pior, meu velho! E um calor dos diabos tomava conta do lençol, da camisola, do colchão. Dava vontade até de tirar a roupa. Lisandro mudava de assunto. Melhor dormir.
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Se poucos admitiam a possibilidade do namoro do vigário com a moça, um ou outro aceitava a hipótese de o crime ter sido executado pelo padre. Ora, se entre eles existia amor, paixão ou outro sentimento, por que haveria o sacerdote de matar a jovem? Crisóstomo, no entanto, tinha lá seus argumentos. Ciúmes, ciúmes. Ela, bonita, não faltava quem não andasse de olho nela. E mirava e remirava os valetes, reis e damas agrupados em leque diante dos olhos. Ou duvidavam de paixões de padres? Por aquele Diógenes, pelo menos, não botava a mão no fogo. Suas filhas, mesmo, não queriam mais se confessar com o danado. E isso devia acontecer com todas as moças da cidade. A morta, coitada, não teve forças para resistir à lábia latina. Por isso, mais dia, menos dia, proibiria suas filhas de porem os pés em igrejas. Um antro das piores safadezas. Duvidavam? Pois então dissessem que diabo faziam o padre e a mulher na torre do sino. O castelo do amor. Voltava-se para Alceu. Era aquilo ou não era? O pintor ria. Não negava - a garota passava de uma tentação.
O próprio policial, todos sabiam, não se cansava de importuná-la com seus galanteios. O tabelião confirmava a história. A mais pura verdade. Ainda assim, nenhum mal havia naquilo. Mulher gosta de ser cortejada, seja ela direita ou errada. Ele mesmo não perdia oportunidade de lançar suas iscas. Um dia era do peixe, outro do pescador. Com Djanira tinha sido assim. E com outras e outras. Só não podia permitir o seguinte: Sua esposa e seus filhos tomarem conhecimento dessas coisas. Lisandro alisava o bigode. Na certa ela dava confiança.
E catava a carta fatal, indeciso entre jogar o ás de paus ou dizer mais duas ou três palavras sobre a psicologia do amor. Talvez fosse melhor falar mal dos estudantes avessos ao estudo e especializados em atirar bombas incendiárias na polícia.
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A morte de Helena ocorreu um ano após sua chegada a Palma. Desceu do trem, alugou um jipe e aportou no Hotel Três Estrelas. Pretendia permanecer na cidade, arranjar emprego de professora ou mesmo estabelecer uma escolinha por conta própria. O prefeito, todavia, não lhe deu nenhuma esperança. Só conseguia emprego para seus correligionários. Se nem a conhecia, se nem sabia de onde vinha, como podia conceder-lhe uma sinecura daquelas? E a jovem terminou alugando uma casa, que lhe servia de morada e escola.
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Enedina, a mulher do sacristão, parou de varrer o chão. Surgia cada novidade em Palma! Timóteo olhou de soslaio para ela. Que novidade? Na certa sua mulher andava conversando demais com as vizinhas. Se o ajudasse a tomar conta da sacristia da matriz, não saberia de tantas novidades. Ou podia cuidar de outra igreja. Bastava querer e o vigário concordar. Referia-se ela não exatamente à presença da moça de fora na cidade, mas ao fato de Helena alugar uma casa para morar só.
Logo, toda Palma sabia da existência de uma moça estranha, isolada numa casa do Beco do Labirinto. Varrendo a calçada, Enedina puxava conversa com Dirce. Não entendia como ela, a fulaninha, se sustentava. A mulher do professor também não entendia aquilo. Tudo muito esquisito. Mulher nenhuma se sustentava sem homem. Solteira, precisava do pai; casada, carecia do marido. A tal professora talvez tivesse padrasto ou padrinho rico.
Todo esse falatório tinha então sua razão de ser: A escola ainda não existia. Entretanto, não tardou a aparecer na frente da casa uma tabuleta onde se via escrito: “Escolinha da Tia Helena”. E, na sala, uma grande mesa e dois bancos compridos.
Apesar disso, custou a apresentar-se o primeiro candidato a aluno. As pessoas passavam diante da casa, liam a tabuleta, olhavam para a mesa e os bancos, e seguiam caminho. Meninos e meninas brincavam sob os olhares da jovem, sorriam e nunca lhe dirigiam a palavra. Todos muito pobrezinhos, pela palidez do rosto, pela roupa rasgada, pela aparência.
Nas ruas de casas mais amplas, a mulher solitária continuava sendo o prato do dia, às vezes ao lado de personagens mais imprecisas ainda. Leda, olhos enfiados nas pernas dos homens que passavam, olhava para a irmã. De onde vinha ela? Catarina não dava resposta, dava lição à irmãzinha inocente. Devia ser gente muito perigosa.
E, debruçadas na janela, olhavam para o Beco do Labirinto. Casada, solteira, amancebada? A zeladora da matriz se inflamava. Só se fosse casada com o capeta. Ora, nem toda mulher aceitava casar. Umas porque queriam liberdade, vida fácil, o pecado grudado na carne desde o nascimento, no sangue, feito doença. Outras por falta de sorte, o destino, o príncipe encantado que sumia em cavalo espantado, como num sonho angustiante, indesejável, febril. O jeito, então, era viver tudo apenas no pensamento. Constantemente. Embora também pecasse. Mas quem, a não ser Deus, descobriria seu segredo? Ninguém confessava amor, nem paixão, ao confessor. Assim, nem os mexeriqueiros, nem padre Diógenes jamais saberiam de sua condenação. A outra, sim, a tal Helena só, com certeza pecadora confessa, aquela, sim, um dia teria seu nome na boca do povo. E todos impiedosamente lhe apontariam o labéu estampado no rosto.
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Mesmo professora, mesmo com escola instalada, a moça não conseguia quebrar a barreira erguida para separá-la dos outros habitantes da cidade. Lisandro, enquanto se benzia, rezava e se estirava na cama. Que diabo tinha ido fazer em Palma? Dirce, deitada de lado, não dava resposta. Só Deus sabia.
A existência da jovem, entrementes, já martirizava o professor. Então ele, um mestre calejado em milhares de horas de aula, um homem capacitado como poucos em Palma, não ter direito à sua própria escola, enquanto uma fulaninha qualquer, ainda mais estranha à cidade, tornar-se dona de uma escola! Não, aquilo lhe causava asco. E revolta. Devia ser uma... Não, a mocinha não podia ser uma aventureira, uma emissária do mal, uma pessoa perigosa. Se fosse, não seria uma professora, não se dedicaria a educar crianças. Além do mais, demonstrava ser católica praticante, assistia à missa todo santo dia, vestia-se com decência. E tudo fazia para cativar as pessoas, ora com largos sorrisos, ora com cordiais cumprimentos.
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Não tardou, Helena travou amizade com padre Diógenes, a quem confessou seus planos educacionais e contou resumos de sua vida. E por que não permaneceu junto aos pais? Eles mesmos a incentivaram a tomar aquela decisão. Afinal, há muito deixou de ser menina.
E terminou pedindo ajuda ao religioso. Já havia alugado a casa e adquirido os móveis. Só faltavam os alunos. Falasse bem dela aos pais de família da cidade. Podia contar com ele.
Com pouco, a jovem ensinava o á-bê-cê a mais de dez meninos e meninas.
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Catarina chegou à janela e olhou para o mais longe possível. Desconfiou da dona desde os primeiros momentos. Leda ajeitou os cabelos da irmã. Desconfiou de quê? Segundo a zeladora, a professorinha pareceu muito oferecida, desde quando se aproximou do padre Diógenes, em busca de ajuda.
No auge da confidência, Catarina contou o quanto se sentiu alegre quando soube da morte da mulher solitária. A meninota se espantou. Aquilo não era pecado?
No meio da rua, um cachorro lambia a parte traseira de uma cachorra.
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Mais adiante, ao redor de uma mesa do Café Progresso, um grupinho de homens também se deliciava com a tragédia da professora. Homero se pôs em pé. Para tudo aquilo acontecer, a moça devia ser bonita e atraente. Alceu levantou a voz. Então para o rapaz o assassino só podia ser o padre. Homero se aborreceu. Não, apenas queria dizer o seguinte: O padre se apaixonou por Helena e vice-versa. Ou somente ela por ele. Ou vice-versa.
Passado um minuto do último “vice-versa”, os fregueses do Café permaneceram ainda com os olhos fitos no rapaz.
Crisóstomo fez menção de se retirar. Homero talvez andasse lendo demais certos livros.
Homero afastou dos companheiros de mesa os olhos e fitou Júlio Verne sob o cotovelo direito. E riu, sem jeito.
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Pressionado pela opinião pública, dois dias após a ocorrência do crime, o delegado tratou de desmentir o boato segundo o qual padre Diógenes se apresentava como o suspeito número um da morte da jovem. E, para o lugar do vigário, indicou o soldado Filipe.
Pois que diabo tinha ido fazer o soldado diante da matriz?
Ora, de acordo com a portaria baixada pelo tenente, Filipe havia sido escalado para fazer, naquela noite, a ronda nas ruas 7 de Setembro e 15 de Novembro, e respectivas travessas. No meio da noite, entretanto, o soldado resolveu ir até a praça da matriz. Quando chegou perto da igreja? Não sabia. E se pôs a gaguejar Filipe. Acreditava ter sido pouco depois da meia-noite.
O relógio da matriz batia uma hora, quando o soldado parou diante da casa de Agenor. A cachorrada da rua e das casas latia desesperadamente. Filipe gritava: “Tenente, tenente, sou eu”.
A lâmpada da sala iluminou, através da vidraça, um pedaço da calçada. A voz sonolenta da autoridade resmungou um amontoado de porcarias. Aquilo não era hora de acordar autoridades. Se não se tratasse de assunto importante, melhor ir embora. Algum terrorista morto? O soldado se aproximou mais da porta. Tenente, mataram a professora. Ainda ofegante, soprou um rosário de palavras, entre elas quatro substantivos repetidos: matriz, patamar, corpo e sangue. Tinha certeza da morte?
A caminho da igreja, outra pergunta embaraçou Filipe: Seria mesmo a professora? Só se a morta fosse muito parecida com ela.
Caminhavam, quase a correr, enquanto os cachorros se assanhavam e ladravam. Aqui e ali, chutavam pedras soltas do calçamento e trocavam idéias. O tenente rezingava. Quem teria cometido uma desgraça daquela?
O soldado mal falava, só respondia sim e não, a controlar os passos para não passar à frente do chefe. Viu mesmo o corpo no chão? Ia ver, teve um sonho, enquanto cochilava nalgum banco de praça. Jurava ter visto. Além disso, nunca dormia no ponto.
Outra surpresa, no entanto, aguardava os policiais.
(Continua)