Astrid Cabral
RITUAL DE PARTIDA
Para Ângela de Campos
Enquanto me dilacero
rasgando papéis em resmas
mais as redes da rotina
Sibipirunas me espiam
pernas plantadas tranqüilas
mas pupilas amarelas
passeando persianas.
Enquanto desato nós
e arranco de mim raízes
tropeçando nas lembranças
sibipirunas me espiam
livres, bagagem nenhuma
somente a roupa do corpo
cintilando no após chuva.
Enquanto a casa esquartejo
em cordilheiras de caixas
(talvez caixões de um enterro)
sibipirunas me espiam e espiam
imersas na imensa paz
de quem já transpôs o caos.
Elas me espiam e espiam
enquanto eu, perdida,
dedos nos ossos dos anos
devo embalar tanta vida
em vastos armários de ar
(a alma, um armazém de tralhas)
Elas me espiam e espiam
enquanto eu, partida
devo ir onde sopra o vento.
HERANÇA
Bênçãos e maldições vêm de bem longe
embaladas em ovos, sangue e esperma
em arquivos que jazem sob a terra
lacrados, chaves já perdidas no ontem.
Os vivos farejamos crus mistérios
e giramos perguntas parafusos
que mal roçam a cútis dos arcanos:
o olhar terá nascido no jurássico?
o tom de tez e voz será adâmico?
De quem decorre esta imprevista herança
de sermos o que bem ou mal nós somos?
Família, amor, jogo de sexo e espelhos
por onde assim perplexos nos lançamos
ou, dizendo melhor, lançados fomos.
PRISIONEIRO
Peixe no aquário, o homem
atrás do muro de vidro
cumpre o burocrático oficio.
Rio e mar cantam além
convidando à aventura
de nas águas navegar.
Mas ali se contém
reduzido a figura.