Glauco Mattoso: Poemas
SONETO INCONSÚTIL
Se alguém inda rejeita metro e rima,
ou crê na obsolescência do soneto,
ao vate alagoano é que o remeto:
ninguém menos que o meu Jorge de Lima.
Aos treze sonetava, tudo em cima.
Ao modernismo adere de panfleto.
Mas, décadas depois, como cometo,
de novo dos catorze se aproxima.
O caso é que o soneto permanece
acima das marés, que vêm e vão,
tal como se no céu sempre estivesse.
É um ponto que ilumina a escuridão,
e não, como o cometa, algo que desce
ou passa, vanguardando a ocasião.
SONETO ONTOLÓGICO
Não sei se o ser é somos ou estamos;
se somos ser somente estando em vida,
ou se já está de fato resolvida
a máxima questão: "Para onde vamos?".
Se depender do sábio Nostradamus,
a vida sobre a Terra é destruída.
Mas, para algum profeta, algum druída,
é bom que as esperanças não percamos.
Questão não é "to be or not to be";
Questão é termos crença de não ser
inútil que estejamos por aqui.
Não é coisa difícil de entender:
O pensamento é válido por si.
Pensamos que existimos. Resta crer.
CONTO DIGLADIADO [soneto 479]
No bárbaro sertão, um fazendeiro
inventa a rinha humana e escolhe escravos
na arena, que se matam como bravos
guerreiros. Rindo, assiste o carniceiro.
Cercado de seu grupo baderneiro,
o chefe lasca o relho, masca favos
e joga entre os guris alguns centavos
a fim de ver disputa no terreiro.
É jovem, mas almeja, pelo voto,
chegar logo ao local poder de mando.
Eleito, apoia a bota e ri na foto.
Coloca em altos cargos o seu bando.
Cobiça algum curral maior, remoto,
mas tromba e tomba aos pés de outro Fernando.
TRESANDADO (soneto 516)
A fêmea, quando dá pra ter chulé,
supera muito macho chulepento!
É como diz Padim Jantonho Bento:
"Fartura de fartum, pé de mulé!"
Um dia, passeando em Catolé,
topei com Virgulina Sacramento,
famosa no pedaço pelo vento
que vem das sapatilhas de balé.
Xaxava assim calçada nos forrós,
depois ia pra cama com três "cabas"...
Naquela noite, fomos... mas só nós!
Palavra que a catinga era das brabas!
Provei e falei franco: "Ô cheiro atroz!"
Diz ela: "Tu te queixas mas te babas..."
MOTES MOMENTOSOS:
Quem mandou pisar na bosta?
Agora limpa a sujeira!
GLOSA
Quando alguém diz que não gosta
De política, mas vota
No ladrão, só borra a bota:
Quem mandou pisar na bosta?
Mal seu pé naquilo encosta,
Sente o que o governo cheira!
O eleitor erra a primeira,
Na segunda o voto nega:
Confiou na escolha cega,
Agora limpa a sujeira!
MOTE MARTELADO
Bem melhor que foder diariamente
É escrever um poema a cada dia.
GLOSA AGALOPADA
O romano, que é prático e prudente,
Já falou: "Nulla dies sine linea"
E a missão do escritor assim define-a:
Bem melhor que foder diariamente.
Tem razão o latino, porque a gente
Nove meses demora pra dar cria.
Mais vantagem, portanto, percebia
No martelo e na glosa que na foda,
Pois o gozo, a quem nunca se acomoda,
É parir um poema a cada dia!
MOTES XIBUNGUISTAS
MOTE
O cego chupando rola
faz melhor que puta ou bicha.
GLOSA
A questão parece tola,
mas erra você se infere
que a quenga ou que o gay supere
o cego chupando rola.
Basta alguém na boca pô-la
e sem queixa ele capricha
até ver que a porra esguicha!
Sou sensível! ele explica
e, ao sentir gosto de pica,
faz melhor que puta ou bicha!
MOTE
O cego lambendo sola
faz melhor que massagista.
GLOSA
Ninguém aprende na escola
tratamento relaxante
nem massagem que suplante
o cego lambendo sola!
Sua língua até extrapola
o maior tesão que exista!
No cheiro se encontra a pista:
seu fraco consiste nisso
e, ao sentir chulé, submisso,
faz melhor que massagista!
SONETO 1004 MELEQUENTO
Hesito, titubeio, mas, enfim,
depois de mil sonetos, reconheço:
ainda não falei, desde o começo,
daquilo que mais nojo causa em mim.
Meleca do nariz: isso é o que vim
em verso protelando. É mais travesso,
porém, o impulso mórbido, e obedeço
sem vômito ou remorso. Antes assim!
O monco esverdeado, quando adere
ao dedo, é repulsivo e só desgruda
se alguma força líqüida interfere.
Na falta da torneira que me acuda,
que a náusea das catotas eu tolere!
Provei: é salgadinha a mais graúda...