POEMAS DE LEONTINO FILHO
Difácio
Eu sei do fácil
olhares trocados
sei do fácil fácil
juras de amor
sopros de paixão
Eu sei do difícil
mar comprimido em ondas
sei do difícil difícil
o encontro do eu-mistério
Vou
qualquer esforço
Eu sei
Linhas linhas Entre Traços traços
Eu sei
O homem
e a sua luta
fácil fácil
c i o
igualzinho
difícil difícil
c i o
fome revirando os olhos
Eu sei
dos detalhes
antropofágicos
do fácil
o c i o
do difícil
o c i o
pelas ruas do meu ser
Canção Incontida
para Carmelita Pinto Fontes
entre palavras divergentes
fiz um balanço
e as certezas
caíram por terra
o tempo
este amigo incerto
não calcula seus estragos
o tempo
esta dança agitada
não mede seus perigos
entre canções disparatadas
fiz a conspiração
das horas
e as vozes
acordaram
todas as ausências
fatigado
adormeci
a poesia me fez
reviver
amiúde
a madrugada
te anuncia
entre corpos sedentos
fiz a travessia
da perfeição
e os amores gastos
engavetaram
cada paixão
abandono
palavra por palavra
o direito
de preencher lacunas
o ser poeta
é esta dúvida
— fugaz ansiedade
de ser feliz
o ser poeta
é este começo
— máscara que cai
no correr da cena
o ser poeta
é esta vontade
— tuas declarações
tatuando a beleza
SOMOS O POEMA
A dor pelos trilhos soltos
valsa na alma do indivíduo
que sangra todas as noites
feito um vigia sonolento.
Ela que se alimenta
na loucura do suicida
espreita o poema
e arma o circo da morte
porque seu remorso é antigo
e tomba frente à saliva do ar.
A dor, ausência do gosto,
assusta as horas
porque reparte fogos,
violência, frio e morte
sobre os vidros do medo.
Ela anda no mundo
floresce, e seu segredo
é desejar ser coletiva.
A dor chega,
e surge o poema.
II
Sorrateiramente, a correnteza
sustenta o poema:
templo onde se fuma o amor,
trincheira rasgada de paixão.
Levemente o vazio é banido.
Faminto, ele ensaia sua dança:
estranho rasgo de dignidade e obscenidade.
Antes de qualquer proclamação
ele se coroa habitante do infinito
que milita e amamenta
as manhãs do amanhã;
por isso:
um grito de Deus
é o poema,
uma vontade do homem
é o poema,
o gorjeio dos pássaros
é o poema,
as raízes do vento presas no cabelo
formam o poema,
o remanso da infância
é o poema.
O poema é de amor.
III
Agora
corpo e alma estão no amor
desenrolando o mel
pelo capim de cada um.
Agora
provável e improvável
juntos estão,
quando escapam pelos becos das cicatrizes
e renovam seu gozo,
e não pensam jamais
em separação;
já que pedalam artérias,
palmilham teias
na busca da eterna ligação.
Agora
Deus foi renovado
em algum lugar
em outra cidade
com a explosão da terra,
da vida que continuará.
IV
O itinerário do mistério
os ossos da pátria.
O itinerário do eco
os gestos do horizonte.
O itinerário da virtude
as páginas dos livros.
O itinerário do braço
um simples trote.
O itinerário do terrível
os fogosos bagaços.
Meu itinerário:
o poema de amor.
V
Guiado pela líquida bússola
caço a madrugada,
que foge com a velocidade do relâmpago
para as hastes da chuva;
navego na brisa
da aventura que estranha
o meu rosto
coberto pela aliança com o sol;
espio o oceano renovado
e seu semblante corrosivo:
clara ventania a respirar.
Guiado pela temperatura da paciência,
sustento o amor
que vaga pelos becos do poema.
O poema é de amor.
VI
Se é de amor:
planta
as sementes da fascinação,
escorre raso
a mostrar a face de Deus,
suporta
a violência contida
no seio da ambição,
cobre
o abismo que conversa
com o deserto dos homens.
Se é de amor:
ama.
VII
Sinto o amargo nó da labareda
que passeia em minha desajeitada
entrega a ti.
Antes, nada levava,
agora, levo no bolso
a luz enrolada pela fumaça do poema:
sinal de minha cristalizada agonia;
levo nas mãos
os raios transistorizados pela distância:
insuportável limite
de tua recusa;
levo na boca
o morno encanto da esperança
que se limita a aproximar
minha sede de tua fome,
como uma operária
que abotoa a primavera
aos pés magistrais do céu.
VIII
Quero os teus abraços,
seguir teus passos,
estreitar nossos laços,
abandonar nossos embaraços.
Quero medir teus compassos
e decifrar teus traços.
Quero soltar o luar preso
por cadarços,
amor, amarra me em teus braços.
IX
Os fragmentos da dor
continuam rebeldes
bailam na criação –
dilatando a vida.
Os sentinelas da dor
cristalizam o coração
funda floresta do mundo –
transpondo o silêncio.
Os desertores da dor
ironizam o bem
lâmpada natural no universo –
contornando o olhar do fogo.
A dor ainda é alma.
Resto de areia
não consumido pelo mar.
Ainda é fruto,
resto de flor,
triste como o gesto banal.
A dor ainda dói,
e é dor.
X
Mas o poema é de amor:
espiritual e corpóreo,
nele estamos
e duramos
(ponta de cigarro que se apaga).
O poema
é amor,
vista abstrata
que amamos
(dinamite em nosso ser).
É amor
o poema
viola que rasga o som
(ruminando o tom).
Nós somos o poema,
e do amor
seremos.
PEDRA, AINDA CHÃO
A Foed Castro Chamma
A cidadela das imagens e o seu duplo
desfazem os desertos e preparam vôos
paisagens ausentes, desdobradas ilusões
íntima invasão do silencio.
As faces do belo no olho cego
olhar anterior, cintilações da liberdade
gritos e gestos da linguagem conquistada
o corpo nas sombras de luz.
O delírio nas trevas opostas à voz
ritos da claridade, soma múltipla
corrosão do verbo irreal, arcanos vazios
ali o tempo se manifesta mudo.
Os espaços da perda e o brilho circular
da natureza em combustão, hierarquia do pensamento
o homem refaz a geometria especular
das verdades perdidas, recolhe as suas sombras – queda.
Nos subterrâneos fugidos dos segredos
os espaços labirínticos da síntese
perda ardente, convite à solidão
antiga operação do fogo, corpos em duplicata.
A sucessão, dos sopros comunica
os eternos símbolos das coisas
o desejo a costurar infinitas falas
agonia esfacelada pelas falsas identidades.
Descobertas iguais, dúplice imitação
imaginação e os abismos abstratos
a beleza e os conflitos estranhos
impulsos atrativos do gozo, encanto indispensável.
Em cada fórmula, a intrínseca
ancestralidade da pedra – palavra
situada entre o áspero e o macio
sonhos de mesma crispada medida.
À noite, a vida repousa
prepara suas próximas estações
chuvas alegóricas na profunda escritura
da pedra tensa expressão do finito.
No princípio, o vazio e as fugas
oblíquas as vertigens, espaços interditos
da memória, soluços dilacerantes do outro
mergulho no azul alquímico da natureza.
* *
a leitura e o seu duplo
seres enrugados
lâminas que ferem
a ventania e a sua loucura
margens frias
vontades que despertam
o circulo e o seu espanto
metáforas solidárias
flores que transmudam
o muro e a sua força
vultos espelhados
o rosto frágil da lei
o retrato e as suas trans(a)parências
novelos encantados na fúria do vento
* * *
Por detrás das máscaras, a multidão
em disparada ira acesa.
Por detrás dos estigmas, o mistério,
em peregrinação - simetria amorosa.
Dos contornos luminosos, clama
o herói, canto a perdição.
Por detrás das consciências, o veneno
da ciência, engrenagens sofisticadas da mentira.
Por detrás do tempo, a manhã
arrasta se, pássaro sem céu.
* * * *
Comunica a unidade poética
o homem, a terra
o ódio, o ócio.
Recupera a inconstância vital
a alma, a água
o fogo, o ar.
Mergulha na aurora pastora
a infância, a velhice
eternidade e sussurro.
Percorre o peso das lentas
o vento e as plantações
ossadas morte.
A pedra e o nada, eu vi
as eventualidades da matéria
quando as imagens dividiam os seres
e o coração feito bússola
girava no desgoverno do só
Expelho exilado de mim.