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Pescoço de Girafa... (8)

(Continuação)

BELO CÉU, VERO CÉU

Enquanto vasculhava o céu com sua luneta, Gilbert Seurat sonhava com a Terra. Queria conhecer o mundo, viajar pelo planeta. A Europa já lhe parecia a própria casa. Amigos o aconselhavam a se radicar na Alemanha. Falavam de Effelsberg. Porém Gilbert guardava rancor aos alemãos. Seu pai havia morrido em combate aos nazistas. “Coisas do passado”, justificavam. Fosse, então, para os Estados Unidos, se não preferisse a União Soviética ou a China. “O observatório de Fred Whipple...”. Não, nada de comunismos, ideologias, guerras nas estrelas. Queria apenas descobrir outro planeta. E entrar para a História da Astronomia. Por que não chegar ao “teto do mundo” e de lá, com sua luneta, avistar de mais perto a explosão do Universo?
Falaram-lhe de um brasileiro chamado Rubens de Azevedo. Onde ficaria o Brasil? A leste de Plutão, ao sul de Cayenne. Pegou a luneta, levou-a ao olho e sonhou. “É um estudioso da Lua”, leu numa revista.
Partiu de Paris num dia de tempestade. Chegou a Fortaleza numa “tarde belíssima”, como escreveu a um amigo. “Beau ciel, vrai ciel, regarde-moi qui change!”
Apresentou-se ao colega cearense como amador de astronomia. E deu-lhe de presente uma réplica da luneta predileta de Johannes Kepler.
Conversaram durante mil noites e dias. Seraut leu tudo o que lhe apresentou Rubens. Aprendeu logo a língua de Alencar e a fala do Ceará.
Num dia de tempestade viajou de volta a Paris. Levava na bagagem alguns novos astros. E diversos estudos sobre a origem da Lua.

POR CULPA DE ANOUILH

Três dias antes de morrer, Jean Anouilh recebeu a visita de Jorge Menezes. Testemunhas oculares referiram-se a um grande susto do dramaturgo. Jorge apresentou-se em trajes de coveiro. E, pior, leu trechos de seu drama ( ou dramalhão, como diziam alguns críticos ) “Covas, o democrata do Inferno”.
Falaram em mau agouro. Inimigos do dramatista afirmaram ser ele responsável pela morte de muita gente. Sobretudo de colegas de arte. Assim, ficaria só no cenário do teatro brasileiro. Teria pauta com o Diabo. Ou poderes maléficos. Um bruxo, enfim.
Jorge Menezes dizia ter nascido em Oeiras, Piauí. E disso se vangloriava. Ser oeirense causava-lhe orgulho. Muito mais do que ser piauiense e brasileiro. Falava sempre da antiga capital do Piauí. E chegou a escrever o drama Major Fidié, onde narra batalhas travadas entre portugueses e brasileiros durante as lutas pela Independência. Cenário: Oeiras.
A primeira mulher de Menezes dizia, no entanto, ser ele natural do Rio de Janeiro. O pai português de Trancoso. A mãe brasileira e mulata. Mais de dez irmãos, todos pobres.
Começou motorista de madame de Ipanema, fez-se amigo de jornalistas e boêmios, formou-se em Comunicação Social e decidiu ser dramaturgo. Não perdia uma só encenação de Nelson Rodrigues.
É desse tempo a obsessão por fantasias. Vez por outra aparecia vestido de padre, palhaço, mordomo, coveiro... Dizia estar vindo do teatro. Sim, além de escrever dramas, representava.
Ligado ao Partido Comunista e amigo de diplomatas de direita, em 1986 Menezes viajou à Europa. Não gastou um centavo. Hospedou-se em hotéis cinco estrelas, jantou nos melhores restaurantes. E ainda namorou beldades do cinema. Diz ser pai de um dos filhos de certa Sandrine Deneuve. E que Alain Resnais se interessou muito por seus dramas. Para transformá-los em filmes.
Em Paris, Londres, Roma freqüentou redações de jornais, teatros, cafés, livrarias. Conheceu escritores, atrizes, jornalistas e, sobretudo, gente de teatro. E acabou responsável pela morte de Anouilh. Aproveitou-se da acusação para escrever o drama Caro Jean, pasticho de Caro Antônio, do francês. Nunca encenado. Segundo Jorge Menezes, por culpa de Anouilh.

LAMPIÃO À ITALIANA

Ruggero Figini descobriu o Brasil em 1974. Desembarcou na Bahia e logo tratou de conhecer o Pelourinho. Porém queria muito mais que acarajé e candomblé. Cobiçava um papel no filme Dona Flor e seus dois maridos. De preferência o de um deles. Procurou Bruno Barreto. Talvez estivesse no Rio de Janeiro. E Sônia Braga? Ninguém sabia dela.
Lembrou-se do tempo das filmagens de I Girasoli. Nunca esperara ser trocado por Mastroianni. Desesperou-se, arquitetou escândalos. Imaginou até uma agressão física a De Sica.
Desde menino Ruggero sonhava nos braços das mais belas mulheres da Itália. Um dia ainda contracenaria com Claudia Cardinale, Silvana Mangano, Monica Vitti, Virna Lisa. E ainda escolheria o diretor. Fellini com fulana, Visconti com sicrana, Antonioni com beltrana. E alcançaria o Oscar. Mais de um. Seria famoso no mundo inteiro.
No entanto, os anos se passavam, as atrizes envelheciam, e só lhe sobravam pequenas atuações em filmes medíocres.
E por que não se fazer cineasta? Tudo dependia de encontrar um belo roteiro. Logo alcançaria a fama de Rosselini, Pasolini, Bertolucci. Fossem para o inferno Arnaldo Jabor, Bruno Barreto, Cacá Diegues e todo o alfabeto do cinema brasileiro. Sim, iria dirigir um filme monumental: a vida do cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Em italiano o título seria Il Lampione.
Restava encontrar o roteirista. E por que não o já velho amigo Airton Acaiaca? Até porque Airton e Virgulino haviam nascido no Ceará. “Não, Ruggero, Lampião não era cearense. Nem Airton. E onde nascera o roteirista? “Dizem que é mineiro, se não for baiano”. O italiano concluiu: “Melhor assim. Filmaremos em Canudos”. E pôs-se a falar de Antonio Conselheiro.
Para Ruggero, o Lampião do roteirista mais parecia um gângster, um Al Capone. E terminaram se desentendendo. O cineasta chamou Airton de incompetente. Não conhecia a História de seu próprio povo. O brasileiro também não se conteve: “Aventureiro, ator fracassado, impostor”.
Dias depois dessa rusga Ruggero Figini regressou a Roma. Não levava nada, a não ser o roteiro de Acaiaca.
Il Lampione alcançou enorme sucesso na Europa. Não teve, no entanto, a direção de Ruggero, que preferira vender o roteiro a um produtor cinematográfico.
Uma fortuna.

PINTANDO O SETE NA BÉLGICA

Há na “Casa de Benedito Moreira” uma escultura de Constantin Meunier. Consta, porém, ser do brasileiro a peça. Chama-se Homem cansado, e deve ser de 1891.
Na “Casa”, dirigida por Heloísa Moreira, bisneta do escultor cearense, estão alguns utensílios domésticos e objetos de trabalho usados e utilizados por Benedito. Sem contar esculturas e quadros tidos como de sua autoria. Os mais valiosos seriam uma estátua de Napoleão, um retrato de Darwin, máscara de Brahms. Os quadros parecem imitações de obras famosas. O mais estranho é copiarem pintores de todas as épocas: Hugo van der Goes e Grant Wood, Adriaen van Ostade e Toulousse-Lautrec, Hans Holbein e Paul Cézanne, numa miscelânea dos diabos.
O escultor-pintor brasileiro viveu na Bélgica, entre os anos de 1887 e 1896. Teria sido “discípulo” de Meunier. E também amigo de James Ensor. Obras como “A entrada de Cristo em Bruxelas” e “Máscaras singulares” teriam nascido diretamente da orientação de Benedito. Soltasse mais a fantasia. Introduzisse nas cenas do cotidiano figuras de sonho, como máscaras e esqueletos.
Meunier teria lamentado o destino de seu colega. Aquilo levaria Ensor ao fracasso. Ninguém compraria seus quadros. E Moreira teria respondido: melhor para você, meu caro discípulo.
Para Caio Barroso, no entanto, tudo isso é mentira. Há uma só verdade: Benedito furtou esboços de James Ensor e de Constantin Meunier.
Heloísa não chegou a conhecer o bisavô famoso. Desde cedo, porém, dedicou-se a seguir os passos de Benedito — quer pintando e esculpindo, quer preservando-lhe a memória. Escreveu até um livro: A Influência de Benedito Moreira na Obra de Constantin Meunier. Um equívoco clamoroso, segundo Caio Barroso. Ora, se influência tivesse havido, o influenciado teria sido Benedito. Como não pintou nem esculpiu nada durante sua longa vida, a influência não existiu. E, por não constar ter Meunier sido gatuno, a verdadeira arte de Moreira nada deve ao belga. E Caio assim define seu compatrício: “astuto ladrão de esboços, quadros e esculturas. Mais um trapaceiro no mundo das artes”.

RATO SONÂMBULO

O compositor Francisco Vitória viveu entre 1731 e 1800. Deixou pouquíssimas composições. Algumas sonatas, meia dúzia de árias, cantatas, concertos, fugas, fantasias, serenatas e uma sinfonia inacabada. A mais conhecida é a Sonata Sonâmbula para Violino.
Vitória quase nada viveu no Brasil. Toda sua formação musical se deu em capitais européias. Em Paris conheceu grandes nomes da música, como Jean-François D’Andrieu. Sonhava tornar-se organista. Ser um novo Bach. O sucessor de Jean na capela real. Tais fantasias, no entanto, jamais poderiam se realizar. Faltava-lhe talento, embora tenha imitado compositores do tamanho de Haendel e Haydn. Além do mais, o ser brasileiro significava impedimento ao cargo. Por último, tocava órgão como o pior dos organistas.
Pesa sobre ele grave acusação: quase toda sua obra seria resultado de plágio. Há quem diga mais: teria ele se apropriado de originais de compositores como Bach e Buxtehude. Suas fantasias e fugas, segundo estudiosos, têm a marca de Bach. Sua Sonata Sonâmbula seria obra de Jean-François D’Andrieu.
O furto poderá ter ocorrido às vésperas da morte do organista francês. Vitória parecia a sombra de Jean. E chegou ao cúmulo de se candidatar a depositário dos despojos do compositor. Muito antes da morte deste. D’Andrieu repeliu prontamente a proposta. Mesmo assim, o brasileiro não se afastou dele. Seguiu-lhe os passos até a morte.
Segundo os acusadores, a sonata de D’Andrieu nunca havia sido divulgada. Talvez não tivesse passado de rascunho.
Assim, Francisco Vitória seria apenas um rato de orquestra. Um compositor sonâmbulo. Ou coisa pior.

(Continua)