Pescoço de Girafa... (6)
(Continuação)
À BEIRA DO CAIS
A lua bruxuleava nas ondas. Alfonso não parava de fumar, e a luz do cigarro às vezes semelhava outra lua. Figuras de contornos vagos surgiam e desapareciam nas águas. Sereias ou iemanjás. Quando apareceu Maria. Pediu cigarro e propôs beberem. Besando al marinero que te quiere mármol amante nadador y puro, que por ti rasga el mar y en ti se muere. Ela riu e gargalhou. Ora, não esperava conhecer naquela noite um estrangeiro.
Há muito tempo Alfonso Ordóñez se dedicava aos irmãos Pinzón. Acreditava em suas descobertas. Sobretudo no descobrimento do Brasil por seus compatriotas.
No bar pediu para sentar-se voltado para o mar, o cais. Ali, no Mucuripe, há 458 anos, Vicente Yáñez Pinzón plantou uma cruz. Maria riu de novo. Ora, tinha um irmão também chamado Vicente. Coitado, havia morrido. Plantaram-lhe uma cruz no lugar onde o mataram. A lua beijava o mar. A melodia das águas embalava os olhos de Alfonso. !Rómpete, luna! En diez espejos rota...
Chegado de Madri há poucos dias, Ordóñez planejava conhecer todo o litoral cearense, Aracati, o cabo Santa Maria de la Consolación e, sobretudo, pisar e fotografar a ponta do Mucuripe, o Rostro Hermoso, exatamente onde estiveram Vicente Pinzón e Diogo de Lepe. No rádio um locutor driblava a língua com Garrincha, rolava bolas com Mazola, em delírio com Didi, êxtase nos pés de Pelé. No entanto, Maria bebia muito e anunciava o fim da noite. Junto ao bar havia uns quartos, e cama, sossego e banho. Pois, logo mais, José, seu homem, ressurgiria.
Alfonso bebia e falava, o tempo todo, de navegadores de antigamente. Escrevia um livro monumental — O Descobrimento do Brasil pelos Espanhóis.
Bêbados gritavam “Brasil, Brasil”. Mulheres pediam bebidas e se enroscavam nas pernas dos homens. Uma delas se pôs a dançar. Queria música. O jogo havia acabado. O dono do bar pôs um disco na vitrola: “Dolores Sierra vive em Barcelona à beira do cais”. Maria falava de dinheiro. Quanto o gringo lhe daria? Pois José não se conformava com ninharias. Chegava a surrá-la, quando ela não conseguia bom dinheiro.
Nas ondas do mar a lua bruxuleava ainda. Alfonso bebia e fumava e falava da cruz plantada por Pinzón. Ali, no Mucuripe, há 458 anos. No entanto, a seleção brasileira de futebol caminhava para a conquista da Copa do Mundo. “Viva o Brasil!”.
Maria não queria mais saber de antigüidades nem de futebol. Precisava ir logo para o quarto. José não gostava de muita conversa. Gostava dela, sim, porém do seu dinheiro também. Dolores Sierra um dia partiu para conhecer Dom Pedrito, que prometeu e não cumpriu. Aqui e ali ainda estouravam artifícios de fogo. Mulheres pediam bebidas aos homens. Os garçons corriam para lá e para cá. “Brasil, Brasil”. Dolores Sierra sorriu para um homem e ganhou a primeira peseta. Alfonso Ordóñez ria, de olho na lua. Rostro Hermoso. ¿Qué mar hubiera sido capaz de no llorarte?
E então Maria estremeceu. À porta do bar um vulto se plantou na penumbra, feito uma cruz de horror.
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N. A. Os versos em espanhol são de Rafael Alberti, extraídos dos poemas “Narciso”, “El arquero y la sirena” e “Platko”, todos de Cal y Canto.
COMO UM SOL QUE EXPLODE
Todo dia Abelardo seguia os passos de Camilo. Porque quase nunca este se encontrava com Maria no mesmo lugar. Um dia Camilo perguntou se Abelardo gostava de sofrer. Ficou mudo e se afastou do irmão. Não sabia explicar por que necessitava ver, de perto e sempre, aquelas cenas animalescas. Mordia os lábios, arregalava os olhos e estremecia. Talvez devesse apresentar-se no momento do êxtase do casal e interromper aquela sem-vergonhice. Não, não tinha coragem para nada na vida. Um covarde, um medroso. Certa vez não precisou seguir Camilo. No dia anterior ouvira, por três vezes, Maria e o namorado se despedirem assim: “Amanhã na ponte”. Saiu de casa antes do irmão. Escondido, viu a moça chegar. As águas do rio corriam lerdamente. Os mosquitos voavam e ziniam. E Camilo não aparecia. Maria olhava para os lados, sentava-se, andava e resmungava: “Amanhã na ponte. Ou amanhã na fonte? Na ponte, na fonte”. Olhos arregalados na direção da amada, Abelardo mordia os lábios. Por que Camilo não chegava? Talvez perdido na fonte. E Maria já se preparava para partir. Oh! não partisse. Prometia-lhe mil beijos, carícias de mãos, um abraço imensurável e o amor mais ardente. Porém ela sumiu entre as folhagens, feito uma fada, e ele gemente, os lábios em sangue e o corpo todo em chamas.
Em outro desencontro do casal, porém na fonte do Riacho do Marco, deu-se de Maria não aparecer. O chiado das águas parecia cantar: “espera, amor, já vou, já vou”. E Camilo sossegado, assobiando e às vezes rindo. Súbito levantou-se do chão e caminhou em direção aos olhos arregalados de seu irmão. “Por que você me segue todo dia?” O sol já não queimava tanto e os passarinhos voavam ao redor das árvores. “Enquanto você quer sofrer, eu quero me livrar do sofrimento”. Abelardo pedia desculpas, perdão. Só faltava ajoelhar aos pés do irmão. “Você ama mesmo Maria? Por que não luta por ela? Eu não a amo, meu irmão. E ela tem piedade de mim. Ninguém me ama. Papai? Meu genitor. Mamãe? Minha genitora. Nunca me quiseram. Como você é diferente. E você sabe disso. Você é o filhinho predileto deles”.
Camilo convidou Abelardo a sentarem-se. E retirou um revólver da cintura. Pretendia matar Maria e, em seguida, se matar. Sua história acabaria ali, naquela fonte. Maria não seria de mais ninguém, sobretudo de Abelardo. No entanto, havia mudado de idéia. Não haveria mais mortes. Ou poderia acontecer apenas uma morte.
Apanhou de novo a arma e girou o tambor cinco vezes, retirando cinco balas. “Você já ouviu falar de roleta-russa?” E propôs: primeiro o irmão, depois ele. Uma tentativa para cada um. Se Abelardo não morresse, ele apontaria a arma para a própria cabeça. E Maria seria do irmão. A entrega dela a Abelardo se daria no dia seguinte àquele, ali mesmo na fonte. Camilo ficaria atrás da moita, enquanto o irmão se apresentaria à moça. Falaria de seu amor por ela e de seu conhecimento dos encontros dela com Camilo. Se ela oferecesse resistência, ele prometeria contar para toda a cidade as sem-vergonhices dos dois. O pai dela a enxotaria de casa e todo homem daria mil réis por uma horinha de cama com ela. Nem Getúlio Vargas a salvaria da desonra. Convencida, Maria se deitaria no capim, e o próprio Abelardo retiraria suas vestes. No melhor momento da cena, Camilo surgiria do mato. E ela não teria mais como voltar para ele.
No horizonte a luz vermelha do sol se misturava ao verde da serra. Os pássaros piavam melodicamente nas árvores. Abelardo mordeu os lábios, fechou os olhos e levou o cano da arma à própria cabeça.
E deu-se um estampido como o de um sol que explode.
LIÇÕES DE ZOOLOGIA
Quando a mulher morreu, o homem nem sequer chorou. Cavou um buraco e jogou para ele os restos dela.
Há anos não se toleravam mais. Não se chamavam mais pelos nomes. Tratavam-se como inimigos. “Peste ruim, já fizeste as compras?” Sem mostrar aborrecimento, ele respondia: “Ainda não, traste”.
Em busca de sossego, o animal comprou um cachorrinho. Parecia uma bola de lã. Deu-lhe um nome: Ball. Irritada, a coisa maltratava o bichinho com palavrões e pontapés. Se ao menos morassem numa casa! Ora, apartamento não era lugar onde se criasse cachorro.
Afeiçoado a Ball, o diabo decidiu mudarem-se para uma casa. Dias depois o cãozinho amanheceu morto. A desgraçada ria à toa. “Foi você, megera? Pois vou comprar um cão enorme, um Cérbero. Já ouviu falar no cão que guarda a porta do inferno? Pois vai ser ele o nosso cão de guarda”.
Às voltas com os latidos ensurdecedores, aqueles dentes enormes, a fome infinita daquele mastodonte, os excrementos montanhosos, madame rabuja não parava de reclamar e de descobrir novos nomes para o seu marido. Ainda terminariam despedaçados pela fera. No meio da noite, indefesos, rasgados em mil pedaços. Se ao menos morassem numa fazenda, num sítio, no meio do mato!
Enfastiado da cidade, o senhor tinhoso comprou uma fazendinha e para ela conduziu Cérbero. Dias depois o cão do inferno apareceu morto. E a fidaputa ria como nunca. “Foi você, peçonhenta? Pois vou arranjar um lobo, um lobo-mau. E sabe quem vai ser a vovozinha?”
Assustado com os gritos da velhaca, o pobre lobo mal podia pensar em chapeuzinho-vermelho. Assim mesmo, não durou muito. “Foi você, mulher-macho? Pois fique sabendo que agora eu vou criar uma onça”.
O pequeno felino mais parecia uma gatinha de pelúcia. Dona pelanca, no entanto, jurava-lhe morte a toda hora.
Passados meses, Puma já devorava pintos e patinhos. A seguir deixou de lado a pedofilia e se voltou para as galinhas. Teve desenvolvimento rápido. Das galinhas passou às cabras e destas, às vacas. “Isso é um monstro, jaguar de duas patas”. O homem sorria. Mais dia, menos dia, Puma devoraria a mulher.
UM SONHO CARTESIANO
O capítulo mais soberbo de Sonhos Ilustres, de Domenico Moravia, talvez seja aquele dedicado ao filósofo Descartes.
O autor nem sempre informa onde teria colhido o material para a elaboração de sua interessante e volumosa obra. Porém são os livros de memória a fonte principal de sua pesquisa. Não no caso de René Descartes.
Estranhamente, Moravia duvida da autenticidade do sonho cartesiano inserido e analisado em seu livro. Teria sido produto dos dons de ficcionista do pensador francês.
Para reforçar sua tese, o escritor noticia a existência de um romance deixado por Descartes. Inacabado embora, teria a mesma importância do Dom Quixote. Um exagero, certamente.
O livro de Moravia tem causado muita discussão. Chamam-no até de embusteiro, apesar da grandeza de Sonhos Ilustres.
Na verdade, é crença generalizada que o polêmico italiano inventou o tal sonho de Descartes. Se não, subtraiu a “história” das mãos de outro “embusteiro”.
Porém a história da “criação” do sonho deixa de ter qualquer importância diante dele mesmo.
Resumidamente, é ele assim:
Descartes e outra pessoa conversavam. Ele falava, ela ouvia. Um aposento cheio de luzes e brilhos. Parecia um salão de palácio.
Quando a outra pessoa falou, o filósofo compreendeu finalmente tudo: conversava com a jovem rainha Cristina. A filha de Gustavo Adolfo, o falecido rei da Suécia.
Além deles, não havia mais ninguém no salão. A não ser as quase vivas figuras dos quadros colados às paredes. Maravilhas de Botticelli, Rembrandt, Rubens e outros.
Recordava Descartes episódios de sua infância. A casa onde nascera, os pais, Touraine. Sim, apesar de conhecer quase toda Europa, não conseguia esquecer Touraine.
A rainha ria. Seu riso, porém, era de deboche. Ora, Descartes só podia estar fantasiando. Deixasse daquilo. Mentir não ficava bem para um filósofo. Ela sabia perfeitamente nunca ter ele deixado a França. Nem Touraine.
Nesse ponto da narração, Domenico Moravia discorre sobre a Suécia dos séculos passados, esboça um retrato político e intelectual de Cristina e se refere à amizade dela com Descartes.
No sonho, o francês, aborrecido, punha-se a passear pelo salão. As palavras reais o feriam e contrariavam. Devia ou não devia reafirmar que conhecia quase toda Europa? Talvez fosse mais cauteloso mudar de assunto. Sim, a rainha merecia seu respeito, sua amizade.
Acalmado, voltava ao sofá. Aquelas luzes o enfadavam. E a outra pessoa por que se calara? Buscava-a com os olhos. A pessoa continuava no mesmo lugar. Olhava com atenção para ela. Tratava-se, então, de Richelieu.
Explica Moravia não ter havido a transformação de uma personagem em outra. Igualmente não teria ocorrido a substituição física da rainha pelo cardeal. Na verdade, é como se Descartes estivesse sempre a conversar com Richelieu.
De fato, a conversa continuava a mesma de antes. Reatava-se. O outro reafirmava nunca ter Descartes saído de Touraine. E ia mais além: vivera até aquele dia preso na casa de seus pais.
Para não dizer grosserias, o filósofo se punha a andar pelo salão. Talvez Botticelli o acalmasse. Ora, lembrava-se muito bem das longas viagens pela Europa. Não podia esquecer os anos de estudos no colégio de La Flèche.
Como se ouvisse seus pensamentos, Richelieu o chamava de mentiroso. Jamais estudara com os jesuítas. Tudo invencionice. Além do mais, não sabia nada. Um falso pensador.
Disposto a mudar a opinião de seu interlocutor, René Descartes voltava ao sofá. E dava com a presença de Galileu. E era como se estivesse desde o início do sonho a conversar com este. No entanto, nem parecia o amigo de antes. Como ousava duvidar de sua sabedoria? Toda Europa já conhecia suas obras. Ou não lera ainda nada de sua autoria? Buscaria os livros.
Galileu ria, debochava de René. Não acreditava numa só palavra dele. Nunca escrevera nada. Nem sequer cartinhas familiares.
Enfurecido, Descartes corria a uma estante, arrebatava alguns livros e os jogava aos pés do outro. Eram tratados de sua autoria, escritos e publicados em latim.
Ria novamente Galileu. Aqueles livros não traziam nenhuma letra. Tudo em branco. Simples papéis.
Do meio do salão, Descartes fitava Francis Bacon, e não mais Galileu Galilei.
Como das outras vezes, não percebera qualquer transformação dos personagens. Nem também a substituição de um por outro. Como se estivesse durante todo o sonho a dialogar com Bacon.
Olhos fitos no inglês, René Descartes batia no peito e dizia ser um grande filósofo. Além das obras monumentais já escritas, pretendia escrever outras. Uma delas sobre a alma.
Discursava, a passear pelo salão. De vez em quando olhava, ufano, para o outro. O mundo inteiro ainda dependeria de suas idéias.
Falava, quase aos gritos.
Em dado momento, porém, o outro também gritou. Descartes assustou-se, parou no meio do salão. Olhou. O rei Gustavo Adolfo parecia enfurecido.
Segundo Domenico Moravia, também neste momento Descartes não percebeu qualquer transformação ou substituição de personagem. Como se, desde a rainha Cristina, estivesse a falar com Gustavo Adolfo.
Ordenava o rei silêncio. Nenhum homem, por mais filósofo que fosse, poderia jactar-se de sabedoria.
René Descartes talvez nem homem fosse. Ou não passasse de uma figura, como as de Botticelli.
Calado e parado diante do rei, o filósofo ouvia insultos. Talvez Descartes nem existisse.
Enquanto Gustavo falava, ele tentava olhar para as luzes, os quadros colados às paredes. Porém não conseguia mover-se, sequer dar um passo.
Tentava falar, mas sua língua parecia presa aos dentes.
E pensar?
Nem isso conseguia mais.
A IDÉIA DE MATAR PILATOS
Jesus Cristo havia sido crucificado e sepultado. A paz reinava, afinal, em Jerusalém. Falava-se, porém, no desaparecimento do cadáver. Os mais fanáticos acreditavam em ressurreição.
Entre inquieto e feliz, Pôncio Pilatos decidia ir a Roma. Transmitiria pessoalmente as novidades a Tibério, o imperador.
E montava seu fogoso cavalo.
Dias e dias de viagem, por desertos, montanhas, penhascais.
Passavam-se meses, anos. E nada de chegar a Roma. Para trás a solidão dos caminhos. Para todos os lados uma só desolação.
Cansado, descia do cavalo e recostava-se ao tronco de uma árvore. Quanto tempo já durava aquela jornada? Cem anos? Mil anos? Melhor voltar. Mas para onde? E para quê?
Remontava e tomava o caminho de volta. Não importava para onde. Aos poucos recobraria a memória.
E tal acontecia. Cada passo do cavalo significava a volta de um instante passado. O tempo se repetia, voltava.
Sucediam-se dias, meses, anos. E o cavaleiro chegava a Jerusalém. Falavam no desaparecimento do cadáver de Cristo.
Inquieto, Pôncio descia do cavalo e se punha a andar pela cidade. Decorriam horas, dias. Chegava ao Calvário. Crucificavam mais um homem. Olhava com atenção para o desgraçado. Lia palavras escritas numa tabuleta: “Este é Jesus, o rei dos judeus”. E mandava soltarem Cristo da cruz. Arrancassem do chão a cruz, retirassem os pregos do corpo do moribundo.
— Não, eu quero morrer — gemia o judeu.
— Cumpram minhas ordens — gritava Pôncio Pilatos.
— O destino não pode ser mudado. Se eu não morrer agora, crucificado, minha história será outra.
Obedientes, os guardas arrancavam do chão a cruz, deitavam-na e retiravam os pregos que prendiam Jesus ao madeiro.
Livre, Cristo se punha de pé.
— Você me condenou à morte; cumpra sua palavra.
— Mas mudei de idéia e quero que você viva muito e morra de velhice.
A discussão se tornava áspera. Insultavam-se em latim, grego e hebraico.
Súbito o ex-morto se apoderava da espada de um soldado e investia contra a autoridade romana.
Prestes a ser atingido, Pôncio Pilatos deu um grito e acordou.
A DIVISÃO DO MUNDO
Na latrina, Carlos Magno cismava. Conquistar mais terras, expandir o reino, o Regnum Francorum, tornar-se Imperador do Ocidente. No entanto, aquela dor não passava. Maldita comida! Mandaria matar todas as cozinheiras do palácio.
Sim, um novo Império Romano, milhares e milhares de soldados e súditos, terras e mais terras para pilhar, pisar e legar aos filhos.
A dor tornou-se mais intensa. Gemer, a sós, não lhe tiraria o cetro, o título de Rex Francorum et Langobardorum. Mesmo assim, nunca mais comeria tanto. Já não era tão moço.
Uma dor maior sacudiu o rei francês. Evacuou mais. Olhou para baixo. A dor passava. O reino seria expandido, sim. Muitas terras, o mundo inteiro a seus pés. E tudo deixaria para os filhos. Um pedaço para Luís, outro para Pepino, terceira parte para Carlos.
Livre das dores, Carlos Magno lavou-se, vestiu-se e deixou a latrina.
Numa sala, os três meninos brincavam de dividir o reino. Rasgavam um mappa mundi, e riam como nunca.
O rei olhou para eles. Por que haviam feito tudo antes dele?
Pepino olhou para Luís, Carlos para Pepino, Luís para Carlos. Não, não tinham feito nada ainda.
E correram para a latrina.
O mundo ficou dividido no meio da sala.
(Continua)