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Pescoço de Girafa... (5)

(Continuação)

CENA DE CARNAVAL EM OLINDA

Fantasiado de príncipe, o pequeno Maurício bebia goles e mais goles de cachaça. E prometia uma semana de folia. Os amigos também bebiam, riam e davam passos desequilibrados de frevo. Não havia carnaval como o de Olinda. O melhor e mais alegre carnaval do Brasil, do mundo.
A fuzarca tomava conta das ruelas de Ouro Preto. Todos os rádios tocavam frevos. Meninos e meninas brincavam e pulavam junto aos esgotos descobertos. Cachorros latiam e corriam, espantados.
Apareceu um bloco de esfarrapados. E no meio dele se meteu Maurício. Sua majestosa fantasia precisava mostrar a outros curiosos. Aos turistas, aos grã-finos. Aquele povinho do Ouro Preto não sabia apreciar beleza. Uns invejosos!
E foram ficando para trás os casebres, as ruas enlameadas, os vira-latas.
Tudo se transformava. Olinda ressurgia em todo seu esplendor. Casarões coloniais, igrejas antigas, lojas e restaurantes modernos. O pequeno Maurício crescia. O carroceiro virava príncipe. E se desgarrava do bloco de esfarrapados, da grei sem rumo.
Ouviu sons de música. Parou. Quis ler o letreiro na parede. Chegou à porta. Homens e mulheres bem vestidos, roupas coloridas, sorrisos escancarados. Toalhas de pano cobriam as mesas. Garçons de branco e preto, circunspectos.
Alguns olhos se voltaram para Maurício. Uns de espanto, outros de desdém. Quem seria aquele homem? Mendigo, palhaço, louco?
— Sou o Príncipe Maurício de Nassau!
Não tardou, escorraçaram-no os garçons. Ali ele não cabia. Fosse para junto dos seus. E o empurraram para a rua.
Enfurecido, o folião esperneava e se dizia príncipe.
E logo chegaram soldados, para impor a paz e levar dali o desordeiro.
— Sou o Príncipe...
— Cala a boca, filho da puta!
E mil cacetadas prostraram para sempre o pequeno Maurício.

UM GRANDE HOMEM

Salazar não conseguiu dormir quase nada naquela noite. Levantou-se mais de dez vezes, tentou ler, ligou a televisão. Voltava à cama, olhava para a mulher dormida, imaginava um segundo de safadezas, desistia, metia-se debaixo do lençol. Não, não seria daquela vez que o sono viria. E como conseguiria dormir? Só se fosse um insensível. Mais de dez anos atrás daquela mesa, a dar ordens, organizar o serviço, e, sem qualquer motivo, ser destituído da função. Uma injustiça inominável! E se virava na cama, olhos arregalados, quase cheios de ódio. Se ao menos a mulher acordasse para conversarem! Mas, não, a desgraçada dormia feito uma porca. Nem ligava para sua insônia, suas preocupações, aquela tragédia em sua vida. Uma insensível!
Na sala, releu pela centésima vez a notícia da queda do avião no Pará. Destroços na selva, mais de uma centena de mortos. História sem qualquer emoção. Coisas do cotidiano. Muito pior o que lhe acontecera. Ora, dez anos na direção do departamento e, num piscar de olhos, a destituição. Uma vergonha! Seus antigos subordinados não o chamavam mais de doutor, e riam pelos cantos. Uns calhordas! Fulano, leve este processo ao desembargador. E fulano virava a cara, fazia-se de desentendido. Falou comigo, Salazar? E pensar nos sonhos de seu pai! “Meu filho vai ser um grande homem”. Pobre velho! A vida toda a falar em riqueza e poder. “Ou você acha que eu dei esse nome a ele por acaso? Sim, há de ser um grande homem. Talvez um ditador”.
A televisão mostrava uma seqüência de assassinatos. O superpolicial metralhava bandidos como a dona-de-casa mata moscas com spray. E nada o impressionava. Aquilo parecia filmes de noites passadas. Olhou para o jornal, fez menção de agarrá-lo, mas preferiu desligar a televisão. Exatamente quando uma rajada de tiros estraçalhava a cara de um bandido.
Foi à geladeira e bebeu suco de uva. Os invejosos da repartição não o trataram sequer por senhor. Teve vontade de dar gritos. Exigir respeito. Ora, subalternos deviam chamar chefe de doutor. Pelo menos de senhor. Nada de intimidades. Não, não podia exigir nada. Afinal, não era mais o chefe. Uma vergonha!
Sentou-se na beira da cama, pensou em rezar, olhou de viés para a mulher gorda que roncava, deitou-se bem devagar. Quem seria o seu substituto? Talvez um velhote qualquer, desses de bigodes e óculos bifocais. Nomeado exclusivamente com o propósito de infernizar sua vida. Desmoralizá-lo perante os funcionários. “Salazar, faça isso, faça aquilo”. Aos gritos. Como ele fizera durante tanto tempo.
No entanto, o sono chegou. E Salazar se viu pequeno, raquítico, quase anão, a servir café a todos. Especialmente à jovem e terna Rosa, sua substituta na chefia do departamento.

MENINO OFENDIDO

Moisés estava morrendo. Lentamente. Coberto de chagas. No mundo inteiro mulheres choravam. Cenas de histeria e desespero. Jornais e televisões exploravam o infausto fim daquele homem tão glorioso.
No ápice de sua glória, Moisés inventou um dos mais fascinantes espetáculos de prazer. Era sua Roma, sua Sodoma. Mistura de motel e cassino. Cinco pavimentos, mais de cem quartos. Uma entrada, com bilheteria. Como nos cinemas e teatros. Galeria de arte, labirintos, saunas, piscinas. Proibida entrada de homens e travestis. Permanência de uma hora, no máximo. Preço do ingresso: dez dólares.
A fortuna de Moisés se fez em pouco mais de três anos, após a fase de modelo e manequim. Considerado um dos homens mais bonitos e atléticos do mundo, nunca se casou. Jamais esteve unido a qualquer mulher.
— Para não atrapalhar os negócios — dizia.
E como teve início aquele império do sexo?
“Comparável a Hollywood”, afirmou uma revista.
— Meu primeiro passo foi um pequeno anúncio. Recebia em meu apartamento mulheres carentes de amor. Em troca de alguns dólares.
— Mas isso não era novidade nenhuma, Moisés.
— Eu era a novidade. Os outros se vendiam há muito tempo.
Logo depois o modelo alugou uma mansão, contratou meia dúzia de belos rapazes e inaugurou seu primeiro bordel.
— Não convidei o governador, o prefeito, deputados, empresários, homem nenhum.
— Essa gente gostaria de conhecer seus apolos.
— Mas eu nunca gostei dessa gente.
A vaidade, ou outra ilusão, fez Moisés despedir seus pupilos. E ficou só. As clientes não gostaram da idéia. Muitas desapareceram. Fazia-se a seleção da clientela.
— Você também foi ator.
— Sim, de inúmeros filmes. E também diretor. Além disso, editei revistas. As primeiras onde homens posavam nus.
Apesar de toda a dedicação ao trabalho, Moisés viajava muito. Conheceu quase o mundo todo. Dinheiro e fama não lhe faltavam.
— Como surgiu a idéia do Palácio dos Prazeres?
— Tive um sonho. Eu não era um, porém muitos. Como se multiplicado por espelhos. Então arquitetei a casa de cem quartos. Eu poderia estar em todos eles e receber cem mulheres ao mesmo tempo. O verdadeiro harém.
Formavam-se filas diante do portão. Mulheres de todos os tipos. A maioria coberta de xales. Outras usavam óculos escuros. Porém todas dentro de carros de luxo.
Os quartos eram numerados, e muitas mulheres acreditavam serem determinados números propícios a elas. E esperavam horas e horas pela desocupação do quarto número tal. Porém alguns números vinham acompanhados de cores e nomes. Assim, havia o quarto vermelho, o quarto de Lucrécia Bórgia, o quarto azul da orgia divina, etc.
— E a coisa dos sorteios?
— Quem me encontrasse, recebia de volta o dinheiro do ingresso, com direito de participar do próximo sorteio.
— E quem o encontrasse no quarto tinha direito a que mais?
— A uma hora de prazeres de todos os tipos, sobretudo os sonhados pela cliente.
— E agora, morrendo, coberto de chagas, o que dizer da vida?
Moisés se pôs a chorar, feito menino ofendido.

SEM FADAS

Acordou assustado. Três homens dentro do quarto, a gritar, armas apontadas para ele. Amordaçaram e amarraram sua mulher. As crianças choravam no quarto vizinho. Um dos homens conduzia a mulher para junto dos filhos. Não iria maltratá-los. Ficasse sossegado o doutor Fulgêncio. Aliás, as crianças e a mulher ficariam presas no banheiro.
Por via das dúvidas, algemaram o dono da casa. Que desejavam, afinal? Iriam assassiná-lo? Não, nada de mortes. Doutor Fulgêncio não podia morrer. A sociedade carecia de sua autoridade, sua competência, sua experiência.
Apesar de não ter recebido socos ou pontapés, tudo doía em Fulgêncio. Até seu nome na boca daqueles celerados. Se ao menos se calassem! Doutor Fulgêncio, como sua casa é bonita! Como brilha o chão! Como devem ser caros os móveis!
Sentiam muita fome. Havia comida na cozinha? O doutor delegado podia lhes fazer um favorzinho? Passar uns bifes. Vestisse o avental. E, enquanto cortasse a carne, cantasse uma canção da moda. Qualquer que fosse. Não tinha boa voz? Cantasse assim mesmo. E não esquecesse a cebola. Para abrir mais ainda o apetite, aceitavam um aperitivo. Uísque não fazia mal. Contanto que fosse scotch.
A mulher e as crianças choravam baixinho. Coitadinhas, não mereciam aquele sofrimento! Infelizmente, a dor não escolhia suas vítimas. Doutor Fulgêncio conhecia bem a dor. Sobretudo a dos outros, dos presos. Aliás, desligasse a televisão. Poderia chamar a atenção dos vizinhos. Além do mais, preferiam show ao vivo. O delegado talvez soubesse fazer imitações. De políticos, cantores, atores. Não, melhor dançar. Como bailarina. Ou como porta-bandeira? Tirasse logo o pijama e vestisse roupas da patroa. Como se chamava mesmo? Verônica? Lindo nome.
O uísque desaparecia lentamente, gota a gota. As crianças talvez já tivessem dormido. Coitadinhas, deitadas no chão frio do banheiro!
Um dos assaltantes parecia cochilar. Que tal levarem-no para a cama? Sorriu. Queria uma canção de ninar. Ou um conto de fadas. Podia ser o de Ana e os três porquinhos. Se o doutor Fulgêncio ainda se lembrasse dessas coisinhas.
Esquecido de quase tudo, o delegado pediu água. Deram-lhe uísque. Assim, soltaria a língua. Narrasse umas historias. Nada de mentiras. Só fatos vividos por ele. Especialmente na delegacia. Se nem disso se lembrasse, descrevesse as etapas do uso do pau-de-arara, por exemplo. À medida que teorizasse, os visitantes agiriam. Poriam em prática a teoria do doutor Fulgêncio. Nele mesmo. Explicasse, então, como arrancar unhas.

CARLIM

Apesar de muito vivido, Carlim não entendia quase nada do que falavam as pessoas. Nem mesmo porque o chamavam dos mais variados nomes e nunca de Carlim. Aliás, esse nome ele mesmo se deu.
Andava um dia perdido, porém satisfeito, quando parou junto a um muro e sua sombra. Só queria descansar e situar-se. Talvez não estivesse tão longe de casa. Isto é, de seus amigos, da rua onde costumava dormir.
Recostado ao muro, ouviu vozes de crianças. Faziam perguntas a uma mulher. Gritavam, riam, num vozerio babélico. A moça falava do Sacro Império Romano Germânico. De imperadores, reis, príncipes. De Carlos V, Maximiliano, Borgonha, Solimão, etc. Palavreado difícil, nunca antes ouvido.
Curioso, Carlim procurou ver as crianças e a moça. Descobriu uma janela. Primeiro viu a professora. Falava sem parar, explicava, lia. A certa altura, apontando para uma figura do livro, disse: este é Carlos Quinto. Porém viu Carlim e nele fixou o olhar. Mirou-o profundamente. E havia tanta ternura ( ou tanta piedade ) em seus olhos, que aquele instante Carlim sentiu como sendo o seu batismo. Sentiu-se filho, sentiu ter tido mãe. Pois os olhos da moça lembravam os de outra...
A mãe de Carlim morreu debaixo de um carro. E ninguém parou para socorrê-la ou remover seu pobre corpo a lugar seguro. Carlim ainda tentou arrastá-la para a calçada. Por um triz, não morreu também.
Sim, Carlim não entendia quase nada do que falavam as pessoas. Nem do que faziam. Mesmo os gestos e as palavras mais repetidas. “Fulano não vale nada. É um cachorro”. Quando se aproximava de alguém, era enxotado. “Sem-vergonha, vira-lata, cão-sem-dono”.
Carlim procurou os amigos. Quem sabia o significado de cão-sem-dono? E passaram a conversar mais. Precisavam se unir, lutar por direitos básicos: casa, comida, carinho, etc. Propuseram a criação de uma sociedade. Alguém brincou: Sociedade dos Cães-Sem-Dono.
A reação dos “outros” não tardou. Devem ter visto Carlim na televisão. Nada de casa, comida e carinho para aqueles vagabundos. Nada de nome. Quem vivia na rua era cão-sem-dono. Portanto sujeito a comer lixo, levar pontapé, morrer debaixo dos carros. Além do mais, não havia casa para todos. Se aqueles sarnentos deixassem as ruas, eles, os “outros”, estariam perdidos. Adeus casa, comida, carinho, nome...
Pobres de tais rebeldes! Pois muitos foram considerados doidos e, por isso, mortos. Passavam dias e noites a latir, protestar. Cachorros doidos!
Em compensação, Carlim e seus amigos continuaram ao léu, perdidos nas ruas. E a toda hora morre um deles debaixo dos carros. Ontem mesmo foi a vez de Carlim.

A ÚLTIMA GUERRA DE HIROHITO

Japonezinho mirrado, já velho, enrugado, banguela. Vigiava carros num estacionamento. Em troca recebia minguadas moedas. Quando a fome apertava, corria ao vendedor de pastéis. Esmigalhava com os dedos a iguaria e enchia a boca de farelos de carne moída e trigo assado. Pedia caldo de cana e sorria. Os moleques o chamavam de “japa”. Ele se zangava, cuspia farelos e pingos de caldo.
Deitado no catre imundo, Hirohito recordava a Grande Guerra. Dores, mortes, destruição. E a fuga para o Brasil. Dormia, cansado, e sonhava horrores. Milhões de pulgas a roê-lo vivo. Baratas e ratos fardados, enormes, violentos. Prendiam-no, arrastavam-no, molestavam-no.
Mal amanhecia, pulava do gramado e, tonto, buscava a aurora. Fechava os olhinhos sujos e enfiava as mãos na água da bacia. A fome de novo. Imaginava pastéis macios. Esquecia os inimigos, a guerra, os insetos. Corria para pegar o ônibus. Precisava chegar cedo ao estacionamento. E disputar com os moleques o direito de receber moedas dos donos dos carros. Moedas e insultos. “Vai trabalhar, vagabundo!”
Um dia lhe disseram que no Japão havia muita riqueza. Indústrias e mais indústrias. Como em nenhum outro país. O povo vivia farto e feliz. Nem parecia aquele povo destruído em 45. Riu. Não acreditou naquilo. E, se fosse verdade, mesmo assim preferia viver no Brasil, onde não havia guerra.
Noutro dia houve tiroteio entre policias e ladrões de carro. O estacionamento virou campo de batalha. Tiros a torto e a direito. Correria e gritaria. Um pandemônio. Assustado, o velho japonês correu. Talvez alcançasse a barraca dos pastéis. Quando aquilo acabasse, mataria a fome. Porém, antes de alcançar refúgio, uma bala se incrustou em seu peito. Atirado ao chão, rolou para debaixo de um carro. Se sentia dor, não sabia. Na verdade, tudo parecia grandioso aos seus olhos semi-abertos. Aviões devastavam céus. Tanques rolavam sobre os inimigos, que viravam pastéis. As tropas japonesas invadiam ásias e américas. E ele, Hirohito, imperador do Japão, comandava a vitória. O poderoso exército do Império do Sol Nascente. Quando a guerra terminasse, o Japão seria dono do mundo. E ele, Hirohito, o homem mais poderoso da Terra.
E expirou.

ECCE HOMO SAPIENS

Aos trinta anos de idade, Giovanni Cristofori já havia publicado três importantes obras: A vida do homem de Pequim, O homem de Piltdown e Como surgiram os prossímios. A seguir, se voltou para o Brasil, e leu Roquete Pinto, Artur Ramos e Gilberto Freyre. Quis conhecer os índios, a Amazônia, Sete Cidades, São Raimundo Nonato, cavernas, sítios arqueológicos, etc. Aconselharam-no a instalar-se no Rio de Janeiro. Poderia escrever A mulher de Ipanema. Sociólogos indicaram-lhe Recife, onde encontraria o autor de Casa Grande e Senzala. No entanto, aportou em Fortaleza, e, no dia seguinte, rumou até Palma. Apresentou-se às autoridades e falou de seus interesses científicos. O prefeito se mostrou surpreso: desconhecia cavernas nos arredores da cidade. Talvez o italiano encontrasse pequenas grutas, algumas cobras e, no final, a morte.
Giovanni se vestia com simplicidade, trazia barbas longas e falava o tempo todo em homo erectus, homo habilis e homo sapiens. O padre não tirava da boca o nome de Pio XII, e, como querendo ser amável com o visitante, vez por outra recitava o nome do soberano pontífice: Eugenio Pacelli.
Dias e dias metido nos sítios, Giovanni não encontrou nenhuma caverna e muito menos utensílios, ferramentas e crânios da era pré-colombiana. No entanto, não desistia de achar vestígios do homo sapiens de Palma. E perdia horas seguidas em discussões com o padre Ponce. O homem-macaco ereto, com mais de quinhentos mil anos... O sacerdote se enfurecia e mostrava ao cientista versos retumbantes, Adão rimando com trovão; Eva, com treva.
Estando um dia num sítio a escavar o chão, viu-se o italiano cercado de soldados. “A quem buscais?” Os policiais empunharam as armas e gritaram: “Buscamos ao herege”. E o algemaram.
Conduzido à presença do delegado, o cientista quis saber o motivo de seu aprisionamento. Ora, então não cometia crime quem invadia propriedade alheia e no seu chão buscava ouro? Giovanni riu. Não, não catava ouro, mas vestígios do homo sapiens. A autoridade gargalhou. Existia o homem-sapo? Um dos soldados deu uma bofetada no estrangeiro. “É assim que falas ao tenente?”
Após horas de diálogo, concluiu o delegado não dever conservar preso o italiano. O Código Penal não se referia ao homo sapiens. Talvez se tratasse apenas de heresia. E ordenou fosse o réu conduzido à presença do padre Ponce.
Diante da igreja, centenas de católicos gritavam, cantavam e rezavam. Também no interior do templo não cabia mais ninguém. O sacerdote subiu ao púlpito, benzeu-se e abençoou os fiéis: Dominus vobiscum. A seguir, mudou o tom da voz e perguntou à multidão: “Que acusação fazeis a este homem?” O povo respondeu a uma só voz: “Ele é um herege”. O padre desceu da tribuna e se dirigiu a Giovanni: “És tu um herege? Que fizeste?”
O interrogatório se completou com palavras obscuras para a grei cristã: Homo erectus, errare humanum est, homo habilis, habemus confitentem reum, homo sapiens, sapienti sat. E o sacerdote se voltou para os fiéis: “Eu não acho nele crime algum”. A plebe se enfureceu, ululou e exigiu a punição do cientista. Rendido, o padre Ponce se retirou. E logo apareceu na cabeça do estrangeiro uma coroa de espinhos.
A santa missa, no entanto, precisava ser rezada. Então o sacerdote caminhou até o altar, levou o rosto à taça de vinho e aspirou seu aroma. A seguir, introduziu os dedos no vaso sagrado e repetiu: “Eu não acho nele crime algum. No entanto, eu o entrego a vocês. Ecce homo”.

A GUERRA DOS BÁRBAROS

Descalça, Tereza esfregava um pé no outro. A barra da saia ora descia até os joelhos, ora subia até o princípio das coxas. A mão direita alisava o pano. As unhas pintadas se confundiam com as bolinhas vermelhas que ornavam o fundo azul do tecido. Pequenina aranha passeava entre uma das pernas da mesa e a parte inferior da tábua. Na parte superior, um livro aberto, e sobre ele a outra mão da moça. “Sujeito é o ser a respeito do qual”(...) Tentou cobrir todas as letras, espalmando a mão sobre o livro. “Sujeito oculto”. Olhou para a rua. Um chapéu, uma cabeça, um pescoço apareceram e desapareceram num relance. Tudo brilhava, como se caísse uma chuva de estilhaços do Sol. A menina fechou o livro e abriu um caderno. “Tive um sonho horrível ontem”.
O rosto de Ruggero brilhava, suado. E parecia mais bonito assim. Os raios do sol tingiam de amarelo pedaços do chão coberto de folhas secas. Talvez, debaixo delas, cobras preparassem botes. Pisassem com leveza, como se voassem. E por que não voarem? Ruggero já havia voado, num filme. Tereza pouco ia ao cinema. Tudo uma porcaria, no dizer de seu pai. Coitado, as onças já o teriam comido. Seu Joaquim surgiu, então, montado num cavalo. Por onde tinha andado? Ruggero agachava-se, catava mangas no chão e se punha a chupá-las. Muito doces. Joaquim aproximava-se de sua filha e segredava: ele vai morrer envenenado. As mangas encerravam veneno de cobra. O italiano estirava-se no chão, a gritar.
Na parede alguns rabiscos a lápis. Certamente obra dos irmãos de Tereza. Coisa de bárbaros. Há quantos dias os estrangeiros se encontravam na cidade? Se ainda não haviam realizado nada, pelo menos a apatia do povo andava sumida. Uns até exageravam na euforia. Aqui e ali apareciam crianças fantasiadas de índios. Como se fosse carnaval. Muitos, porém, não acreditavam na palavra dos estranhos. Filme coisa nenhuma. No mínimo, espionavam. E deviam ser russos ou americanos. Falavam italiano e português para engabelar todo mundo.
Tereza riu e brincou com a caneta. Na janela da casa defronte da sua, meio corpo de Dona Gal vasculhava a rua. Talvez houvesse muita gente na praça. Abriu o caderno. “Sentei-me no banco da praça, para descansar ou pensar”. Súbito surgiram meninos a gritar. Logo após, os carros dos italianos. Todos sorridentes. Iam para os sítios, o meio da serra. Há dias haviam chegado, em grande alvoroço. Pareciam gente de circo. A meninada até se enganou e alegrou. No entanto, a notícia imediatamente se espalhou. Nada de circo; tratava-se do pessoal do filme. Que filme?
A moça deu um salto. Voou até o quarto, abriu o guarda-roupa, uma gaveta, meteu as mãos entre livros e cadernos. Cantarolava. Fez tudo ao contrário, até sentar-se à mesa de estudos. Abriu o caderno buscado. E foram aparecendo rostos bonitos e famosos: Burt Lancaster, Anthony Quinn, Yul Brynner. Como os achava maravilhosos, embora nunca os tivesse visto em movimento. E Ruggero Vasari? Por que as revistas não estampavam o rosto dele? Passou outras folhas: Brigitte Bardot, Sophia Loren, Claudia Cardinale. Ah! ainda seria atriz. Primeiro iria embora daquela porcaria de cidadezinha. Conheceria astros e estrelas. Sua mãe choraria muito. Seu pai diria “não”, esbravejaria e seria capaz de amaldiçoá-la para o resto da vida.
Abandonou o álbum e retornou ao diário. Moscas voaram e novamente pousaram na mesa. “O filme se chamará A Guerra dos Bárbaros. Distribuíram folhetos. Precisam de centenas de figurantes. Como se fossem índios de verdade. Basta vestirem tanga e se pintarem de jenipapo e urucu. Muita gente aqui tem mesmo cara de índio. E eu nem imaginava que aqui tivesse vivido índio. Muito menos sabia dessa guerra. Os folhetos trazem informações novas para mim. E, certamente, para quase todos nós. Essa guerra teve início em 1687. Os nativos do Nordeste se levantaram contra os brancos. Por isso nos documentos da época o movimento foi também denominado Levante Geral dos Tapuias. Eu não quero ser apenas figurante. Só me interessa papel importante. Ao lado de Ruggero”.
Tereza viu de novo Dona Gal à janela. Parecia sorrir. Coçou a coxa. Um homem cumprimentou a mulher e sumiu. A moça abriu o livro: “Sujeito determinado”.
Fantasiado de índio, um rapazote chegou à porta, esbaforido. “Menina, chame sua mãe, depressa”. Tereza assustou-se. “Seu Joaquim esfaqueou um homem no mercado”. A mocinha se levantou: “Mamãe, mamãe”. O visitante suava e tremia. “Parece que morreu. Discussão por causa dos estrangeiros, do filme”. A mulher chegou coberta de espumas. “O delegado prendeu Seu Joaquim”.
Um enxame de moscas levantou vôo, feito um bando de bárbaros.

(Continua)