Pescoço de Girafa... (3)
(Continuação)
A GRANDE AVE DE RAPINA
Quase morri de espanto e medo, quando vi pela primeira vez a grande ave. Instintivamente deitei-me. Talvez por isso ela não deva ter visto a minha pessoa. Pousou lentamente, recolhendo as asas. Vagou a vista pela plantação e, a passos largos, dirigiu-se ao espantalho. Horrorizei-me: com duas bicadas violentas estraçalhou o boneco.
Parece um gavião, não fosse este tão pequeno. As pernas são de dois metros a mais. O bico figura tesoura de cortar galhos. Quando estende as asas lembra um avião.
Quase todo dia vejo o pássaro gigante. Surge de inopino, em vôo rasante, comete uma rapina e foge. Às vezes pousa no lombo de uma vaca. Espeta as garras na barriga da presa e levanta vôo. No céu aquele gavião imenso e uma rês em gemidos de morte. Os animais menores ele os devora no próprio local da captura. Pousa, dá uma bicada na cabeça da vítima, e, em pouco tempo, não resta mais nada a mastigar.
Impotente, fui à cidade em busca de socorro. Alguns riram de mim. Agüentei calado as zombarias. Afinal, eles são autoridade. São aves de rapina, eu sou bichinho do mato. Disseram não existir ave maior no mundo que a águia. E em nossos ares não voam tais predadores. Sou um mentiroso. Nunca me haviam chamado assim. E, se eu não parasse de aterrorizar o povo com notícias falsas, um calabouço me esperava. Outros vieram em meu socorro: eu certamente me fizera louco. Nada de interrogatório e tortura. Bastava me internarem num manicômio. Com camisa-de-força, choque elétrico e outros tratamentos eu logo esqueceria as aves de rapina. Um senhor muito risonho sugeriu amarrarem-me pés e mãos e conduzirem-me ao campo onde tem aparecido o pássaro. Outro senhor me prometeu uns chifres. Assim eu semelharia um boi. Falaram ainda em espantalho. E gargalhavam: “com duas bicadas o gavião acaba esse espantalho”.
Depois da viagem nunca mais falei da grande ave de rapina. Se encontro um vaqueiro, fujo com medo de conversa. Vaca sumida, vaca comida.
E fico aqui sozinho, dia após dia, tremido de medo, miudinho, olho no gavião, que volta e meia retorna, espeta aqui e bica ali, devorador e insaciável.
ODE À TARDE
Um passarinho cansou de voar e pousou num galho. Cantou uma ode à tarde e tencionou alimentar-se. Voou ao chão e defrontou uma serpente. O guizo dela agitou-se.
— Por que me olhas assim, cascavel?
O pássaro deu um saltinho para trás. Melhor não esperar resposta. Saltitou, deu pequenos vôos ao redor do ofídio.
— Tu me odeias porque não sabes voar, não é? Ora, se voasses, o que seria dos pequenos seres como eu? Contenta-te com rastejar.
Cantou trecho da ode à tarde e riu.
— Também me odeias porque não sabes cantar? Eu canto porque não conheço o ódio.
Calada, a serpente mirava o passarinho. E o seduzia com os olhos. Falando e cantando, a avezinha também mirava a cobra.
E deu-se o bote.
DOIS SERES
Há poucos dias estamos aqui. Trouxeram-nos um homem, uma mulher e uma menina. Chegamos dentro de uma jaula. Vivíamos numa jaula maior, com outros inúmeros semelhantes nossos. Não sabemos como eles estão, nem se ainda vivem no mesmo lugar. Nossos dias e nossas noites são sempre iguais. Dormimos muito, porque não temos quase nada a fazer. Passamos quase todo o tempo comendo a ração que nos dão, dormindo ou brincando numa roda. Às vezes o homem aparece, fuma, bebe, olha para a rua, o céu, conversa sozinho. Olha para nós e some. A mulher surge sempre à mesma hora: põe a ração dentro do pequeno estojo, despeja água noutro estojo, molha as plantas, fala alto e nos xinga. A menina pouco vemos. Fala-nos com carinho, olha para nós demoradamente e nos chama por nomes esquisitos. Os nomes certamente ela os inventou, porque antes nunca os ouvimos. Do outro lado da porta há sempre gente falando e às vezes cantando. São figuras pequenas, mais ou menos do meu tamanho, dentro de uma tela iluminada. O homem parece ouvi-las à noite. Não sei para onde vai durante o dia. A mulher nunca se senta ao lado do homem. Não sei mais o que fazer. Penso em fugir, mas a pequena prisão é de metal e entre as hastes mal cabe minha pata. Se eu conseguisse fugir, nem sei para onde deveria ir. Onde estarão meus irmãos e meu pais? Também penso em morrer logo. Não sei se duraremos muito nesta vida, embora não nos falte comida e água. O sol é muito quente de manhã. Faz frio de noite. Há uma casinha dentro da jaula e nela às vezes nos refugiamos. No entanto, é muito quente, abafada, sem ar. E meu companheiro é muito egoísta. Não me dá espaço. O jeito é arranhar as hastes da jaula e pensar em fugas. A mulher aparece e grita: “Sossega, bicho danado”. Se emagrecer muito, talvez consiga fugir. Para onde, não sei. O homem surge diante de nós e resmunga: “Esses bichos devem pensar também”.
INCÊNDIO
Carlinhos brincava no quintal. Olhou para o chão e viu uma sombra deslizar, correr. Cheiro de coisa queimada. Depois o mormaço. Ergueu a cabeça. Talvez a nuvem prenunciasse chuva. O sol quase o cegou. Levou as mãos à testa e correu para junto da mãe, que lavava roupa próxima ao tanque. Nem sequer deu atenção ao menino. Fosse brincar na sala e não lhe desse mais sustos.
Carlinhos atravessou o corredor e chegou à porta da rua. Às janelas, mulheres debruçavam os olhos para as bandas do céu. Mexericavam medos antigos de fogos vindos do alto para castigo dos pecadores. Nas calçadas, esquecidas pelos meninos, castanhas de caju se assavam. Pés descalços não suportavam a quentura do chão. Evolava-se dele uma fumaça espessa.
— Incêndio, minha gente, incêndio!
O homenzinho parecia aflito, suava muito e fedia a cachaça. Talvez fugisse para a Serra. O jumento, no entanto, mostrava-se manso, sem a mínima vontade de andar. Com certeza, sentia-se cansado de conduzir a carga de bugigangas nos caçuás. E olhava o chão, imune ao medo.
— Incêndio, meu povo, incêndio!
À falta de ouvintes para sua notícia, o homem vibrava o chicote no ar, como a alertar o animal. O fogo devorava a fábrica de descaroçar algodão. E ninguém ia apagar as chamas? O jumentinho dava um passo, catava capim, resfolegava. Olhos fitos na fumaça que passeava sobre todas as coisas, mais e mais pessoas saíam às ruas. Ninguém ia apagar o fogo?
Apavorado, Carlinhos voltou ao quintal. Acocorou-se ao pé de uma bananeira. A terra úmida lhe molhava os pés e o confortava. No alto, porém, a fumaça corria e, de vez em quando, fazia sombra. Parecia até nuvem de chuva. O homem e seu jumento talvez já tivessem ido embora. Carlinhos olhou para o muro. Não fossem os cacos de vidro, poderia ver as ruas, a fábrica, o incêndio. Línguas vermelhas lambiam o céu azul e branco. E as casas, toda a cidade. Sim, o fogo devoraria tudo, coisas, pessoas, animais. A menos que fossem todos para o meio da rua, das praças. Melhor para a igreja-matriz. Lá o fogo não chegaria. O padre dizia que, quando o mundo pegasse fogo, só as igrejas seriam poupadas. E quando o mar invadisse a terra, no dilúvio final, quem quisesse se salvar, buscasse abrigo no interior das igrejas. As águas não passariam dos degraus do patamar. O resto do mundo estaria todo alagado.
— O mundo vai se acabar.
E, se não fosse pela água, seria pelo fogo. Por que não corriam todos para a igreja?
— Vamos, mãe.
Fazer o que na igreja àquela hora do dia? Deixasse de besteiras, fosse brincar.
Obediente, Carlinhos atravessou de novo a casa, aos pulos. Da janela avistou o jumentinho, a comer o capim da rua, conformado com sua carga, manso como antes. O homem, no entanto, falava mais alto e gesticulava muito, cercado de curiosos. No céu, a fumaça negra fazia sombras enormes no chão.
Aflito, o menino buscou refúgio no quarto de dormir e se ajoelhou diante do santuário. Deus o protegeria. Olhou para o teto: a telha de vidro servia de clarabóia. No entanto, a luz do sol quase não penetrava no quarto. E seu pai, onde estaria? Correu mais uma vez para perto da mãe. Ela saberia do pai.
— Está para chegar.
Precisava ter certeza daquilo. Numa carreira medonha, atravessou a cozinha, a sala de janta, e chegou à sala.
— O que é isso, meu filho?
O homem tirou o chapéu da cabeça e se dirigiu aos fundos da casa. Estava salvo do fogo.
Mais longe, o jumento não parava de mastigar. Onde andaria o homenzinho suado? Carlinhos esticou o pescoço — o desgraçado apareceu à porta de uma bodega e cuspiu.
O SONHO DA PRINCESA
Fugiu do castelo montada num cavalo branco. A noite parecia a mais escura de todas. E se bruxas saíssem em seu encalço? E se vampiros sedentos de sangue virgem a esperassem nos atalhos? E se o dragão, aquele imenso monstro, aparecesse? Pela estrada, porém, seu pai, o rei, todo dia cavalgava. E nunca o atacaram seres maus. Se o atacassem, seriam dizimados por sua furiosa espada. E pelas armas dos leais soldados.
Havia, porém, outro perigo. Se o cavalo deixasse a estrada e se metesse na floresta? Não, aquele cavalo, o predileto do rei, não se atreveria a cometer tamanha insensatez. Nem ele nem outro. Nem mesmo cavalos cegos.
Reclusa no castelo, a princesa imaginava reinos distantes e, sobretudo, seu príncipe encantado. Quando o conhecesse, imediatamente se casaria com ele. Teriam muitos filhos e viveriam felizes para sempre. No reino do faz-de-conta.
No meio da noite, a princesa sentiu sono e fadiga. Freou o animal e apeou. A estrada parecia sem fim. O reino de seu pai abarcava o mundo. E onde ficava o reino onde vivia o príncipe de seus sonhos? Olhou para o céu. As estrelas a protegeriam das trevas. As nuvens deslizaram mais e a vaga luz da Lua chegou até aquele perdido pedaço do reino. Que maravilha! A princesa ensaiou passos de dança. Rodou, rodopiou, sorrindo. Parou, cambaleou, olhando para o animal. E teve um grande susto. Havia um chifre no meio da testa dele.
Era um licorne.
NEVER MORE
Ivo subiu à calçada. De longe avistou umas pernas desnudas. Quem seria aquela criatura? À esquerda um carro parado. O motorista de bigodes ria. De quê? E se também estivesse a olhar pelo espelho as pernas da garota? Cabelos louros a esvoaçar, distraída. Porém não podia ficar ali parado, feito um vagabundo. Havia mais gente na praça. O coração bateu mais intensamente. De relance viu a calcinha branca. À direita um homem e uma mulher conversavam, em pé. Riam também. Alguma piada. A mulher sacudia-se toda. O homem olhou para outra pessoa, sentada no banco, à direita. Com certeza esta também já percebera as perninhas alvas à mostra. A areia parecia mais seca. O vento de vez em quando levantava poeira. Há dias não chovia. Inquieto, Ivo meteu as mãos nos bolsos. Sentiu-se excitado. O sangue queimava-lhe a pele. O coração em ritmo de batucada. Podia ter um enfarte. Melhor sair logo dali, não olhar mais para as pernas da garota. Um cachorro atravessou a praça, distraído. Cruzou exatamente a linha imaginária que ia das pernas escandalosas ao olhar de Ivo. Maldito cão! O homem do carro ainda ria ou escondia os bigodes com a mão. Talvez ouvisse piadas pelo rádio. O casal conversava, sem perceber quase nada. Dois rapazes também conversavam, mais para a direita. Um deles podia estar vendo a causadora do pecado de Ivo. Porém só a veria de perfil. O cachorro desapareceu. Ivo se aproximou vagarosamente da pequena. Não podia parar. Ela se sentiria olhada, mirada, vasculhada. E os outros o recriminariam, com certeza. O homem do carro talvez até chamasse a polícia, se ele mesmo não fosse policial. Porém aquele instante poderia ser único na vida de Ivo. Olhou para trás. De perfil, o nariz do motorista lembrava o bico de um corvo. Never more. As costas do homem que contava piadas estavam molhadas. O velhinho do banco parecia cochilar. Os dois rapazes andavam no sentido contrário ao de Ivo. Ainda bem. Mais de perto viu como eram alvas as pernas da criatura inatingível. Porém não viu mais a calcinha. Nem sequer as coxas. Caminhou, mais devagar, e mesmo assim tudo foi ficando para trás. Não podia parar. O instante maravilhoso já havia passado. O medo e a emoção se misturavam em Ivo. Never more.
O ARCANJO E A PRINCESA
Estando a porta entreaberta, o arcanjo vagou a vista pelo corredor e, sorrateiro, passou ao quarto. Da janela escancarada vinha uma brisa suavíssima. A luz da Lua rebrilhava no leito. A princesa, deitada, dormia. E só então o arcanjo percebeu não ser de lençóis a alvura que o ofuscava. Era do corpo nu da virgem. Sentiu arrepios e voou até a janela. A Lua pareceu-lhe maior e mais radiosa. Junto aos muros do castelo, ladravam cães. Talvez assustassem ladrões. E nada mais parecia vivo àquela hora.
Voltou à beira do leito. A princesa dormia deveras. Alheia às especulações do vento. Com certeza sonhava anjos e paraísos.
Por cautela, o arcanjo fechou a porta. O rei, astuto, podia ter preparado a armadilha. Afinal, vampiros, lobos-maus e homens vis rondavam donzelas dia e noite. Sendo assim, a princesa não dormia. Fingidora! Aliara-se ao pai na funesta intriga. Sim, só isso explicava sua nudez, estando porta e janela abertas.
Quedou-se o arcanjo junto à porta, olhos postos naquele corpo exposto ao pecado. E durante longo tempo esperou um mínimo movimento que o fizesse fugir pela janela. Não, nada se movia na princesa. E o rei, com certeza, também dormia.
Pé ante pé, o arcanjo caminhou no rumo do leito. E pôs-se de joelhos junto ao rosto dela. Os longos cabelos loiros cheiravam a camomila. Os cílios, tão sutis, pareciam veludosos pêlos de boneca. O nariz, a boca, o queixo, tudo no seu rosto lembrava deusas gregas. E o pescoço, o colo, cândidos, macios. O ventre, o pequenino umbigo de donzela, maravilhas intocadas.
Perplexo — nunca vira de tão perto um corpo nu de ninfa — , sentiu anseios de desmaio, de uma dor qualquer, da dor chamada morte. Porém um cheiro de açucena o fez sorrir, querer viver.
Quis beijar aquela flor, lírio-do-vale. Conteve-se. As coxas semi-abertas, alvas, roliças, encantavam-no. E se nunca mais a visse assim, deitada, dormida, imaculada? Ousou tocar a pele da princesa-flor. Mui levemente. Como quem toca pétalas. E, como nenhuma reação houvesse, beijou o púbis inocente, lírio-branco. Olhos arregalados, viu abrir-se a flor. E cheirou corola, estames, gineceu. Beijou-os docemente, feito colibri. Depois, abelha, sugou-os longamente. Lambeu os lábios róseos. Língua eriçada, tocou as pétalas abertas. E tão sem controle se sentiu que, a gemer, caiu exangue aos pés do leito.
Muito depois, o Sol a queimar-lhe o rosto, acordou o arcanjo. De um pulo, pôs-se de pé. A princesa ainda dormia, o corpo nu e abandonado. Vozerio de criados ao longe. Cães latiam. A passarada piava. Festa no castelo.
Cheio de remorsos, o arcanjo quis sofrer. Apalpou o peito: amava. Sorriu. Olhou para o rosto da princesa. Como era bela! Caminhou no rumo da cabeceira. Pôs-se de joelhos. Por que não acordava a donzela? Que sono pesado e duradouro!
E nunca mais acordou a princesinha.
COM UNHAS E DENTES
Há uma semana Dalila virava a cara para Aleodoro. Se ele fazia pergunta, ela não dava resposta. Ou respondia “com quatro pedras nas mãos”. Por qualquer motivo mandava os cinco dedos na cara dos filhos. E deixava o arroz queimar, esquecia de descongelar a carne, quebrava pratos na pia.
Aleodoro não pedia explicações. Sabia muito bem a causa de tanta birra. Andava cansado, aborrecido, sem vontades. Tantos anos de trabalho, e nem uma casa onde morar. Tanta dedicação à família, e aqueles filhos vagabundos, idiotizados. Tantos sonhos, e só desilusões.
Poderia muito bem pedir desculpas pelas palavras ásperas, pela cerveja em excesso, pela falta de carinho. Mas não queria se render, se humilhar, virar cachorrinho.
Aleodoro lia pedaços do jornal, imaginava Dalila pintando unhas. Não, aquilo não eram horas para pintar unhas. Resolveu tomar uma cerveja. A goles lentos, passaria mais uma hora. Tempo para Dalila voltar.
Não, aquela mulher estava se excedendo. Melhor dar um basta naquilo. Ora, nem o almoço fizera! Um desaforo! “E já estou de saída. Vou ao salão de beleza”.
Os filhos, aqueles inúteis, não sabiam de nada. Talvez Dalila estivesse na cozinha. Ou na vizinha. Por que não batia à porta do vizinho?
Absurdo um homem não almoçar, depois de quatro horas de trabalho! “Então arranje uma cozinheira”.
Rasgou o jornal, desligou a televisão, bebeu um trago de conhaque. Onde andava Dalila? Não podia estar ainda no salão. E se tivesse sido atropelada na rua?
Apavorado, o homem tomou outra dose e saiu. Devia ir primeiro ao salão ou aos hospitais? Talvez à polícia. E apressou o passo. Não, a desgraçada de sua mulher com certeza pintava unhas e dentes. E ria dele, o cachorrinho faminto. Melhor tomar umas cervejas regadas a fumegantes bifes acebolados. E só voltar para casa de madrugada.
Decidido a vingar-se, parou diante do primeiro bar. Bêbados gritavam, gargalhavam, expandiam-se. Todos livres de suas megeras domésticas.
Aleodoro ia sentar-se, quando uma gargalhada medonha explodiu a seu lado. Olhou: a cena lhe pareceu impossível: Dalila, cercada de três senhores, afetava toda a alegria do mundo, os dentes luzindo na noite.
COLOMBO E AS CARÍCIAS
Desnorteados, Colombo e sua jangada vagavam pelo mar das tempestades. O sol há muito se metera nas profundezas das águas. Nenhuma estrela indicava rumos.
Era esperar pelo pior. Horas e dias de perdição, fome e sede. Depois a morte.
E o jangadeiro adormeceu.
As correntes, entanto, levavam a jangada ao reino do deus-dará. E antes do amanhecer aportou numa remota ilha. Encalhou na praia.
Com o sol no rosto, Colombo despertou. O barulho das ondas quebrando e o sossego da jangada pouco diziam. Não se lembrava ainda do desespero de horas atrás. E nem quis pensar.
Sem delongas, levantou-se e pulou para a terra. Sim, lembrava-se de tudo e se sabia salvo. O mar não o sepultara daquela vez.
Exultante, andou para lá e para cá. Pensou até em rabiscar umas figuras na areia. Talvez umas letras. Ser menino de novo. Construir uns castelos enormes, cheios de torres.
Súbito, parou. Ora, aquilo só podia ser uma ilha, terra nova, desconhecida dos homens. Maravilha! Voltaria ao Ceará e anunciaria ao mundo a sua descoberta. Iria aos jornais, às rádios, às televisões. Até ficaria famoso.
Enquanto sonhava, uns indivíduos o cercaram.
— Quem é você?
— De onde veio?
— O que quer aqui?
Colombo disse ser de paz, etc. Tão pacífico que não portava armas e andava só.
— Sou apenas um jangadeiro.
Os nativos da ilha terminaram encantados dele. E, para não o verem partir, destruíram a jangada.
Porém Colombo queria voltar à mulher, aos filhos e companheiros do mar. Aquela ilha não o encantava. Muito menos seus habitantes.
E, numa noite sem lua, meteu-se no mar e se pôs a nadar. Batia os braços com sofreguidão. Um dia chegaria ao Ceará.
No entanto, as braçadas do nadador fugitivo logo se transformaram em socos. E a vítima deles, coitada!, talvez sonhasse carícias.
Aos gritos, a mulher de Colombo acordou.
CONSCIÊNCIA TRANQÜILA
D. Evinha ainda parecia nervosa. Um milagre não terem morrido. Aquele maluco devia estar preso, bem preso. Para nunca mais quase matar pessoas indefesas. Nereida chorava de vez em quando, embora não tivesse nenhum ferimento. Apenas uma pancada no joelho.
***
Preocupado com as conseqüências do pequeno acidente, Silvano se lamentava: quisera apenas ajudar a velhinha. Coitada, sob aquele sol do meio-dia, esperando ônibus! Mara, porém, duvidava ter sido esse o motivo da atitude do marido. Não teria parado o carro por causa da mocinha?
***
Revoltada, Mara contou detalhes do acidente à amiga Maria Serpa. Uma freada brusca e quase matou a velhinha e sua neta. A outra quis saber se Silvano conhecia as duas mulheres. Nem uma nem outra. Viu a mocinha à beira da calçada e parou o carro. Depois arranjou a desculpa da misericórdia pela velhinha exposta ao sol a pino. Um miserável! Vivia atrás de mulheres. Não respeitava ninguém.
***
Mal se deitaram, Maria Serpa puxou conversa com o marido. Se já sabia do acidente causado por Silvano. Sim, coisa sem importância. A anciã nem sofrera nada. Porém havia a mocinha. E o tarado talvez até estivesse pegando nas pernas dela. Não, Silvano não seria capaz disso, jurava Coutinho. Era, sim. Disso e de muito mais. Capaz de estuprar a própria filha.
***
À hora do recreio, Nereida encontrou Ione. Quase morrera no dia passado. Um doido num carro. Ofereceu-lhe carona e por pouco não bateu noutro carro. Não, não o conhecia. Se estivesse sozinha, não teria entrado no carro. Apenas conversaram. Não, não fez nenhum convite. Nem tocou em suas pernas. Coitada da vozinha. Muito assustada. Talvez descuido dele. Parece chamar-se Silvano. A polícia queria prendê-lo.
***
Silvano contou tudo a Coutinho. Um descuido. A velhinha falava sem parar, a garota ria. Não, não conhecia nenhuma delas. Podia ter sido grave o acidente. E se a velhinha tivesse morrido? Nem pensar nisso. Quisera apenas praticar uma boa ação. Mara gostava de dizer tolices. Então não se preocupasse mais com aquilo. Não, de jeito nenhum. Tinha a consciência tranqüila.
E mudaram de assunto.
(Continua)