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Pescoço de Girafa... (2)

(Continuação)

A PÁLIDA VISITANTE

Como qualquer leitor, dediquei alguns anos a ler um pouco das literaturas antigas, especialmente a grega e a latina. Conheci também parte da literatura egípcia: o Livro dos Mortos, os Contos do Harpista, as epopéias das Aventuras de Sinuhé e das Desventuras de Unamon, o conto mítico O náufrago, e outros. Antes disso, havia lido estudos como A Literatura no Egito Antigo, de Thorbjörn Ling. E aqui se inicia minha visita ao mistério da morte de cinco homens de diferentes latitudes. Talvez por um acaso tenha lido uma página da biografia de Ling. E então minha curiosidade se voltou exclusivamente para a vida (e a morte) do lingüista sueco, me fazendo esquecer os seus estudos. Vasculhei bibliotecas imensas em busca de outras biografias dele. Interessavam-me a morte de Ling e, especialmente, a doença que o matou. Como podia um europeu ter morrido de lepra no Egito?
Thorbjörn Ling me levou a Jacob Grillparzer, autor de uma História do Egito Antigo. Em um dos capítulos mais curiosos e interessantes narra pragas de insetos ocorridas no Egito Antigo. Uma dessas pragas de gafanhotos é narrada com refinada arte e com tantos detalhes que não tive como não voltar ao Êxodo: “Estendeu, pois, Moisés a sua vara sobre a terra do Egito, e o Senhor trouxe sobre a terra um vento oriental todo aquele dia e toda aquela noite; quando amanheceu, o vento oriental tinha trazido os gafanhotos. E subiram os gafanhotos por toda a terra do Egito, e pousaram sobre todo o seu território; eram mui numerosos; antes destes nunca houve tais gafanhotos, nem depois deles virão outros assim. Porque cobriram a superfície de toda a terra, de modo que a terra se escureceu; devoraram toda a erva da terra, e todo fruto das árvores, que deixara a chuva de pedras, e não restou nada de verde nas árvores, nem na erva do campo, em toda a terra do Egito”.
A narração de Jacob é muito mais rica, mais minuciosa do que a bíblica. Parece-nos ver as nuvens de insetos sobrevoando as plantações e o chão. Ouve-se o chiar medonho dos gafanhotos devorando tudo, num craque-craque incessante, como se se visse o desfolhamento contínuo das árvores. Sente-se o odor da seiva no momento de sua sucção pelos acrídios.
O livro de Jacob transcreve trechos de inúmeros clássicos, assim como de obras menos conhecidas. Uma destas é O Egito e os Hebreus, de Gustav Hus. Segundo o biblicista tcheco, o capítulo bíblico da praga dos gafanhotos se referia, originalmente, a um tipo de gafanhoto já desaparecido. Não seria apenas uma figura de retórica o trecho seguinte: “Antes destes nunca houve tais gafanhotos, nem depois deles virão outros assim”. Na verdade, tais gafanhotos teriam existido somente naquele tempo, naquela estação do ano, naqueles dias de praga, ou naquele dia e naquela noite terríveis. O nome dessa espécie teria constado de manuscritos hebraicos, gregos e latinos. Estaria mencionado em uma versão da Bíblia, tendo sido dela extirpada por volta do terceiro século da era cristã. Consoante Hus, os insetos teriam sido transmissores de uma doença, espécie de lepra, que teria acometido populações inteiras do Egito e de toda a região desde o Rio Nilo até a Assíria.
O latinista Juan Carnicer afirma desconhecer, em textos latinos, qualquer alusão ao gafanhoto de Gustav Hus. Faz referência aos primeiros documentos latinos do século VII a.C. e transcreve trechos de obras de diversos escritores romanos, como Lívio Andrônico, Névio, Plauto e Ênio. Dedica algumas linhas a Plínio e sua locusta, e ainda descreve a anatomia de animais como a lagosta-gafanhoto.
Denis Papineau publicou numa revista científica um estudo intitulado Origem e Evolução dos Gafanhotos. Apesar do título, o biólogo francês não se limita aos gafanhotos — refere-se também às lagostas, aos grilos e às esperanças. E lembra algumas doenças, como gafa, sarna e lepra. Porém não afunda na História e muito menos nas origens da palavra locusta.
Recentemente tive um sonho esquisito. Eu me encontrava no Egito, como turista. Já havia visitado a Esfinge, as pirâmides e outros templos da cultura egípcia. Acompanhava-me sempre um homem branco, louro, cinqüentão, robusto, alto, com quem eu conversava o tempo todo. Falávamos de faraós, dinastias, deuses. Ao despertar, tive a idéia de o homem do sonho ser Thorbjörn Ling, cuja fisionomia nunca tinha visto, por mais que a buscasse nas enciclopédias. Dias depois, porém, consegui um exemplar da edição sueca de seus ensaios dedicados à literatura no Egito Antigo. Numa das primeiras páginas está estampada uma fotografia de Ling. Não tenho dúvida de que retrata exatamente a fisionomia e o corpo do personagem do meu sonho. Há no livro também uma biografia dele: nasceu em 1833 e faleceu em 1893. Dedicou sua vida a estudos de literaturas asiáticas e africanas. Matou-o uma espécie de lepra, uma doença de pele, que o consumiu em poucos dias, quando visitava o Egito. Nem sequer conseguiu voltar à Europa. O corpo de Ling, inteiramente desfigurado, foi embalsamado e conduzido à sua terra natal.
Renovei correspondência com estudiosos da Literatura Egípcia antiga. Pietro Landini, professor de Literatura em Roma, me enviou uma longa carta. Eu o tinha conhecido em 1994, quando visitei a Universidade onde lecionava. Convidou-me a voltar à Itália. O resto do escrito é dedicado a Gustav Hus e sua obra: nascido em 1764, viveu quase sempre na miséria. Faleceu em 1824, quando de uma epidemia ocorrida em Praga. O professor dedica algumas linhas à importância do biblicista, ao seu livro citado no início deste comentário e a uma coletânea de lendas por ele publicada. Uma dessas lendas teria como enredo uma praga de gafanhotos. Talvez se tratasse da mesma narrativa estudada por Jacob. A curiosidade me levou a solicitar a Pietro um exemplar da coletânea. Ou, se isto lhe custasse muito trabalho, pelo menos uma cópia da lenda. No entanto, não obtive resposta. Pietro faleceu exatamente no dia em que me escreveu a carta.
Como Jacob Grillparzer conhecera a obra de Hus? Reli alguns capítulos de sua História, especialmente o das pragas de insetos ocorridas no Egito Antigo. Como da primeira vez, achei-o interessantíssimo, uma obra de arte literária. Li também uma pequena biografia do historiador alemão: primeiro filho de um casal de judeus, nasceu em 1821, em Bremen, e faleceu em 1881. De que morreu Jacob? De uma febre terrível, possivelmente causada por picadas de insetos. A informação é concisa e vaga. Que insetos teriam matado o historiador?
Dediquei-me, a seguir, a Juan Carnicer e os escritores latinos por ele estudados. Essas leituras me fizeram recordar o meu pobre latim e minha antiga paixão pelo Império Romano. No entanto, Carnicer não me saía da cabeça. Queria saber mais dele, de sua vida e sua morte. O ano de seu nascimento é 1907; o de seu falecimento, 1967. Matou-o uma indigestão. Havia jantado com amigos num restaurante de Barcelona. Segundo os seus amigos e o garçom que os serviu, o prato escolhido por Juan havia sido lagosta. Durante todo o jantar falaram de crustáceos, romanos e latim. Ao se despedirem, ele se queixou de muito sono. Encontraram-no morto, no dia seguinte, as mãos retorcidas, os dedos feito garras, e todo o seu sangue derramado no chão do quarto.
Restava-me Denis Papineau. Folheei revistas de biologia e enciclopédias. Não encontrei qualquer referência a ele. Procurei biólogos brasileiros. Nenhum deles conhecia o francês. Telefonei a um amigo parisiense, Charles Sautet, e falei-lhe de minhas buscas. Ele me prometeu descobrir o paradeiro de seu compatriota. Alguns dias depois, telefonou-me: iria mandar livros que me interessariam muito. Um desses livros é uma biografia de Denis: nascido em 1912, faleceu em 1972. Matou-o um câncer de pele.
Ontem regressei do Cairo. Trouxe livros e fotografias. E mais mistérios. Lembram-se do meu sonho, do homem com quem conversava o tempo todo? Pois lá o encontrei novamente. Apresentou-se a mim como Jacob. Falava alemão, tendo nascido em Praga. Não me falou de literatura nem de história nem da Bíblia. Disse-me ser professor de latim. Perguntei-lhe se conhecia Juan Carnicer. Ele sorriu: “Quem dii oderunt, paedagogum fecerunt”*. Indaguei se a praga dos gafanhotos ocorrida no Egito Antigo havia sido registrada por escritores romanos. Ele conduzia exemplar da revista onde Denis Papineau publicou o estudo sobre os gafanhotos. Fez-me doação dele. E se pôs a citar Horácio: “Pallida mors aequo pulsat pede pauperum tabernas regunque turres (...)”**. Depois olhou para mim com um olhar de eternidade, e prometeu: “Quando chegares à tua terra, eu te visitarei”. E desapareceu atrás de uma pirâmide.
Eu o espero.

(*) A quem os deuses odeiam, fazem-no professor.
(**) A pálida morte bate com pé igual nas barracas dos pobres e nos palácios dos reis (...)

PESCOÇO DE GIRAFA NA POEIRA

Mal o dia amanheceu, Fátima arregalou os olhos, assustada. Que horas já eram? Conteve-se. Todos ainda dormiam. Até seu pai. Se pulasse da rede, despertaria a mãe, as irmãs, os irmãos. E seu plano poderia gorar. Melhor dormir mais um pouco. Afinal, talvez tenha permanecido acordada grande parte da noite. Não se lembrava de nenhum sonho. E sentia sono.
***
O circo havia se instalado na cidade há quase um mês. Fátima não se interessou logo por ele. Conhecia outros circos, desde menininha. Os mesmos palhaços, os mesmos trapezistas, os mesmos acrobatas, os mesmos animais amestrados. Não, não iria ver o novo circo. A menos que arranjasse ingresso gratuito ou as amigas insistissem muito.
***
Durante o café Dona Zita percebeu sonolência nos olhos da filha. Preocupada com os estudos? Se não fosse ao circo toda noite não precisaria estudar a tarde inteira. Ainda bem que aquele circo miserável já havia ido embora. Não, não fora até então. Alguém mentira. Não lembrava quem.
***
O acrobata chamava-se Igor. As roupas coloridas realçavam sua musculatura, as formas vigorosas. A cabeleira loura voava ao compasso de suas piruetas. E Fátima suspirava, roía as unhas, esfregava as mãos, amassava o vestido.
Terminado o espetáculo, insistia com as amigas para ver os leões. Ora, os leões, aqueles bichos fedorentos? Melhor passear na praça, ver os rapazes fumando e contando vantagens.
***
A aula de português não acabava nunca. A freira gritava ciclos. E girava ao redor da sala: Ciclo Carolíngio, Carlos Magno, Ciclo Bretão, rei Arthur, Ciclo Clássico. Por que não ia rezar baixinho na capela? E relógio, quem tinha relógio? Precisava ver os ponteiros girando, quase parados, talvez parados, quebrados. E o sol? A pino, a pino, a pino. A freira repetia os ciclos. “O sol é grande, caem co’a calma as aves, do tempo em tal sazão, que soe ser fria”...
Fátima suspirava, absorta, os olhos no soneto de Sá de Miranda.
***
Uma noite Fátima desgarrou-se das amigas e escondeu-se no circo. Queria ver Igor de perto, falar-lhe. Nas noites seguintes viram-se frente a frente, conversaram, beijaram-se. No entanto, uns olhos azuis os espreitavam. E pertenciam à trapezista Catarina.
***
Durante o almoço Fátima apenas beliscou a comida. Dona Zita reclamou. Talvez a filha estivesse com vermes. Não, apenas preocupada com o dever de casa. Precisava ler muito o Ciclo Carolíngio e decorar uma poesia de um tal Sá de Miranda. Se não fosse toda noite ao circo... Ainda bem que já iam todos embora: palhaços, animais, trapezistas.
***
Sob os olhares de Catarina, acertaram Igor e Fátima a fuga dela. Escondida num dos caminhões. Tornar-se-ia trapezista. Ao meio-dia ela deveria estar no acampamento. O circo desmontado e pronto para a viagem.
***
Mal tiraram os pratos da mesa, saiu Fátima à rua. Ao longe avistou a caravana do circo. O pescoço da girafa atingia as nuvens. O palhaço fazia graças na carroceria de um dos carros. Fátima correu ao encalço dos veículos. Quis gritar o nome do acrobata. Meninos aplaudiam tudo. A poeira tornava o sol mais amarelo. Os caminhões embalavam. Fátima corria junto aos meninos. Catarina ria numa das cabines. As últimas casas da rua pareciam mais pobres. Surgia a estrada de barro. Fátima só conseguia ver o pescoço da girafa. Tudo era poeira, longe.

REMIÇÃO

“O amor e a morte trazem gozo para o espírito; também acalmam o corpo após um transe rápido e orgástico”.
Manoel Lobato, O Cântico do Galo

Naquela noite Dr. Paulo tudo fez para não mais pensar em Helena. E quase nela não pensou. Como se tivesse morrido uma paciente qualquer. No entanto, não dormiu logo. Mesmo depois de tomar um comprimido de Gardenal. Talvez quisesse apagar da retina a imagem daquele corpo agora debaixo da terra. Dele e de seu fruto. Vagou pelo quintal da casa de sua infância, pela cama da mãe adotiva, pelos corredores da Santa Casa, e se acomodou no orfanato. Reviu companheiros de estripulias, ressuscitou a galinha que um dia furtou para matá-la. Por onde saía o xixi? Arrancou-lhe penas do rabo, futricou-lhe a cloaca com um dedo. Exasperada, a ave esperneava. Excitado, ele torceu-lhe o pescoço. E realizou a primeira cirurgia de sua vida. Com o canivete de ameaçar meninos zelosos e delatores cortou ao meio a galinha. Insatisfeito, examinou-lhe o intestino e o oveiro. Retirou bosta e óvulos e imaginou fogo onde pudesse assar a carne.
Revirou-se na cama, olhos abertos. Talvez devesse apanhar na gaveta do criado-mudo as fotos de mulheres nuas. Masturbando-se, certamente dormiria. E acordaria indisposto. Não, melhor aguardar a chegada de Morfeu. E, sem abrir a boca, pôs-se a construir frases. “Abnegado ministro do rei Sono, o senhor Morfeu vigiava o palácio todas as noites, feito cão-de-guarda. Nada de ruídos, quer de ratos, quer de ventos. Nada de rastros, nada de ventres. Grave e respeitável Morfeu, inimigo dos morféticos, dos moribundos, dos mostrengos. E viva a morfina!”
Sacudiu-se. O comprimido parecia fazer efeito indesejado. A galinha, onde deixara a galinha? Ora, morta e silenciosa. Como quer o rei. E a rainha? Estavas, linda Inês, posta em sossego. Fechou os olhos. Tal está, morta, a pálida donzela, secas do rosto as rosas e perdida a branca e viva cor, com a doce vida.
O prefeito gosta de discursos. Quanto mais empolados, melhor. O vigário gosta de sermões cheios de ira e vinho. Ou de latim com mitra. Castis omnia casta. Quem seria casto naquela cidade? Ou no mundo? Nem as crianças conseguem ser castas. O incesto começa no útero.
Viu a sombra de sua mãe aproximar-se da cama. Arregalou os olhos. O jaleco branco pendurado no cabide. Feito uma enforcada. Criou a imagem de seu pai. Devia ter morrido na forca o assassino. Terá cortado os pulsos ou ingerido veneno? Não, nunca recordava a ex-amante de seu pai. A não ser ao tempo em que dormiam na mesma cama. Estranha sensação ao encostar seu corpo miúdo ao daquela mulher a quem chamava mãe.
Por que não sentia sono? E se tomasse outro comprimido? Ou se voltasse às fotos de mulheres nuas? Belas pernas, seios durinhos, bundas nutridas. Excitou-se. Não, não devia mais se masturbar. Parecia até um adolescente. Impossível voltar aos tempos do orfanato. A galinha capturada, examinada, degolada. Ninguém soube de seu “crime”. Nem os colegas mais íntimos. Contava-lhes quase todos os seus atos e pensamentos. Eles retribuíam na mesma proporção. Quando perdia o sono procurava-o no dormitório. Porém não podiam conversar. Quem fosse flagrado em colóquio após a hora de dormir teria castigos por uma semana.
Helena teimava em reaparecer, ora viva, ora morta. No entanto, Dr. Paulo não preferia rever nem uma nem outra. Havia passados menos amargos, deletérios. Como quando conheceu a nova enfermeira. Um amor de Celinha. Desde logo atraído por seu corpinho ainda adolescente. Ou quando fundou a Maternidade. Enfim, médico respeitado, em ascensão. A amizade do prefeito de Pocrane. A promessa de torná-lo seu sucessor. Os tempos de Santa Casa de Misericórdia. Os bancos escolares, a Faculdade.
O jaleco pendurado no cabide já não figurava sua mãe. Fechou os olhos. Há muitos anos, numa noite qualquer, insone, vislumbrou na semi-escuridão do dormitório a silhueta de um menino de bruços. Quem seria? Parecia dormir, indefeso às tentações. E se apalpasse aquelas nádegas salientes? Melhor, talvez, retirar o lençol. Poderiam estar desnudas. Faria um carinho sutilíssimo. Conteve-se. O sangue parecia subir-lhe ao rosto. O coração batia num compasso de samba. Não, não deixaria a cama. Outros olhos porventura o veriam em pecado. E aos castigos se ajuntariam os achincalhes.
Dr. Paulo fugiu voando daquela região nubilosa. E se viu de novo frente a frente ao cadáver da enfermeira. Ainda belo na sua palidez de morte. E como fora sublime aquele corpo! Quanto prazer conheceu e ofereceu-lhe! Devia morrer de hemorragia. Ninguém, além dele mesmo e de Célia, saberia disso. A morte é redenção. Para todos, inclusive recém-nascidos.
Em desespero, como se se afogasse num poço, o médico buscou salvação nas dobras do lençol. Apertou-o, e parecia-lhe agarrar-se a umas pernas. Talvez as daquele menino do orfanato. E lançaria mão de tudo, valer-se-ia de qualquer lenho, para se livrar da lembrança de Helena e seu filho.
Por fim dormiu. Remido.

DEZ CUECAS PARA A ETERNIDADE

Carlos sentou-se num banco de praça e abriu a sacola para conferir as cuecas compradas há pouco. Contou uma a uma. Ao largo, pessoas passavam apressadas. Nos demais bancos, homens sentados. Uns fumavam. Talvez filosofassem. Disseram-lhe ser o ato de fumar propício a filosofar. Não tanto os cigarros. O cachimbo se adequava mais aos filósofos. Nunca deixou de acreditar na existência de Deus e na imortalidade da alma. Crenças rasas, adquiridas ao longo da vida, desde menino, com a mãe, os padres, os professores. Casou-se na igreja com Gessilda do Espírito Santo. Nasceram-lhe três filhos. Não chegou a cursar faculdade, porém ingressou no serviço público e cedo passou a ganhar salário invejável. Adquiriu imóvel e nunca deixou de freqüentar a igreja e rezar diariamente. Sabia de cor diversas orações. Confessava-se regularmente, sempre contando ao padre os mesmos pecados: “desejei a mulher mais próxima, porém logo me arrependi; quase todas as atrizes do cinema e da televisão; pecado passageiro e idiota”.
Rapazes e meninos sujos andavam pela praça. Um deles aproximou-se de Carlos e logo se afastou. Sumiu na multidão. Carlos levantou-se do banco e se pôs a caminho do estacionamento. Numa das mãos conduzia a sacola com as cuecas. Um colega de trabalho dizia-se ateu e, vez por outra, tentava infundir-lhe suas idéias. Deus não existia. Para existir, deveria ser o único ente do Universo. Nada de homens, animais e vegetais. Porque uns devoram outros, uns necessitam de outros. Os da mesma espécie também se matam. Os homens, sobretudo. E nada, ninguém seria capaz de impor outra ordem. Se ninguém — Deus, por exemplo — pode ordenar o mundo, a vida, impedir o crime, o assassinato, a matança, então não há esse alguém.
Andando pela calçada, Carlos não percebeu a aproximação do rapaz que o havia mirado na praça. Chamava-se José, aparentava 18 anos de idade, vestia-se pobremente e vivia de pequenos roubos. Também acreditava na existência de Deus, porém quase nunca se lembrava dessa crença. Não freqüentava igreja, não sabia rezar e confessava seus pecados a Maria, sua companheira. Seria mãe em breve. Se fosse menino, o nome seria Fernando; menina, Fernanda. Nasceria negro ou negra, como os pais, porém não seria doméstica ou ladrão. Seria médica ou deputado.
Súbito José arrancou da mão de Carlos a sacola e voltou-se, para fugir. No entanto, chocou-se com o corpanzil de outro pedestre. Desequilibrado, caiu. Assustado, Carlos quis fugir também, porém decidiu recuperar as cuecas. E pôs-se a pisotear e dar socos em José. Logo outros homens cercaram José e passaram a linchá-lo. Já havia muito sangue na calçada e José não reagia mais. Vendo isso, Carlos, de posse das cuecas e arfando feito animal caçado, retirou-se do local. Mais adiante entrou num bar e pediu água. Como demonstrasse cansaço e nervosismo, o homem do bar ofereceu-lhe cerveja. Nunca havia bebido, não fumava, não praticava qualquer vício. Achava abjetos os bêbados, suicidas os fumantes e pecadores os viciados. Gostava de futebol, torcia por grandes times, porém sem nenhum fanatismo. Votava sempre nos candidatos do centro, abominava os esquerdistas. Apesar disso, conhecia um marxista. Não um comunista, apenas o criador do cachorro Marx. Daí dizer-se marxista: amava Marx, o cão. Puro deboche.
Diante de Espírito Santo, demorou a contar o ocorrido. “Você bebeu?” Brigaram. Ele contou tudo, ou quase tudo. “O ladrão morreu?” Devia ter morrido. No dia seguinte, os jornais noticiaram o fato: José havia falecido. Seus agressores o mataram a pontapés, socos e pauladas, e depois encharcaram seu corpo de gasolina e álcool e atearam fogo. Maria virou mendiga e deu ao filho o nome de José. Teve outros filhos, porém José morreu antes de dois anos de idade. Carlos passou a beber muito. Alguns anos depois morreu de enfarte. Espírito Santo reza todo dia por sua alma, que subiu aos céus, segundo o padre, os filhos e ela mesma.
As dez cuecas — nunca usadas — também desceram à sepultura.

(Continua)