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FERNANDO MENDES VIANNA

FERNANDO MENDES VIANNA (1933-2006)

“Faleceu neste domingo, 10/9, em Brasília, e será enterrado nesta segunda, às 11h, no Campo da Esperança, o poeta e tradutor Fernando Mendes Vianna. Nasceu no Rio de Janeiro em 1933. É poeta e tradutor de poesia. Estreou em 1958 com Marinheiro no Tempo e Construção no Caos (Rio de Janeiro, ed. Simões). Seguiram-se A Chave e a Pedra (Rio de Janeiro: São José, 1960), Proclamação do Barro (Rio de Janeiro: José Álvaro, 1964). O Silfo-Hipogrifo (Rio de Janeiro: José Olympio/ MEC) mereceu o Prêmio Literário do INL de 1972, na categoria de inéditos; Embarcado em Seco (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira/MEC, 1978); Marinheiro no Tempo: antologia (Brasília: Thesaurus, 1986) – Prêmio Literário Nacional do INL na categoria obra publicada); Ah, Último Paraíso (Zaragoza, 1998); Antologia Pessoal (Brasília: Thesaurus, 2001); A Rosa Anfractuosa (Brasília: Thesaurus, 2004). Traduziu Quevedo e os clássicos espanhóis em geral, assim também Victor Hugo”. (Ronaldo Cagiano)

“Ontem de manhã perdemos o Fernando Mendes Vianna. Faleceu subitamente, enquanto escrevia. E fico pensando que morre com ele um dos representantes maiores de uma raça de poetas de tutano, de pensamento generoso, extraordinária força verbal e uma volúpia que se manifesta no trato amoroso da palavra, um poeta completo, mas tão esquecido em seu canto... A morte do poeta, penso, ilustra dolorosamente o seu editorial, muito bem pensado e muito bem escrito, sobre a dramática, trágica mesmo, difícil e precária sobrevivência de toda literatura que se pretenda um pouco acima do chão”. (Anderson Braga Horta)

“É com tristeza e muito pesar que damos esta notícia. Nesta segunda-feira, às 11 horas, no campo da esperança, enterro de um grande amigo.
Se eu e Ronaldo Costa Fernandes soubéssemos que não mais teríamos oportunidade de encontrá-lo, não teríamos ficado ali estáticos, no último sábado, na Livraria Cultura, fazendo promessas de marcar encontro com o amigo Fernando Mendes Vianna.
Ainda no último dia 4 de setembro, ao ir à Feira do Livro de Brasília para o lançamento do livro Meninos, eu li, de Alan Viggiano, ele me abraçou com o afeto dos grandes poetas.
No dia seguinte, à noite, ele telefonou para a minha casa para expressar a satisfação de ter conhecido a poesia do meu livro Ruínas ao sol, que Tânia, carinhosamente, tinha lido para ele, já que nos últimos tempos padecia do agravamento da deficiência visual. Fez questão de dizer, no entanto, que o problema não o estava afetando, pois aproveitava para ter outras experiências com a vida. Falou uns vinte minutos. Foram os minutos mais elogiosos que a minha poesia já mereceu. E estes minutos mais se prolongaram, pois, em seguida, ligou para Ronaldo Costa Fernandes e continuou o enaltecimento ao nosso livro.
Agora à noite, neste 10 de setembro, depois de um telefonema do João Carlos Taveira, a perda do amigo, a perda do poeta, a perda do animador dos encontros de escritores — seja na Associação Nacional de Escritores, nos lançamentos ou nas residências dos amigos — dói no meu coração. A literatura de Brasília perde um dos seus fundadores!
Fernando Mendes Vianna, que foi acometido de um infarto na manhã desse domingo, começou a publicar em 1958, e seu último livro, A Rosa Anfractuosa (Brasília: Thesaurus), é agora de 2004. Sua poesia foi duas vezes premiada pelo Instituto Nacional do livro. E sei que permanece inédita grande parte de sua produção. Diversas vezes ele me disse que tinha dificuldade em selecionar poemas que comporiam o novo livro. A sua poesia é clássica, fundada no rigor da métrica e da metáfora limpa, destes textos que mantém viva a língua da tradição.
Hoje eu lamento ter provocado apenas “um” encontro com ele em minha casa. Todos os meus familiares tinham viajado. Só nós dois ficamos na casa. Até de madrugada ele sustentou conversa útil, repassando as suas experiências com a poesia e com a cultura hispânica. Eu deveria ter amanhecido haurindo de sua experiência, de seu conhecimento e inteligência, pois, depois que deitei, pude notar que ele circulava pela casa com dificuldade para dormir. Certamente a poesia o mantivesse animado.
Agora terei de passar as minhas noites em branco sem a oportunidade de Fernando Mendes Viana circular pelos cômodos de minha casa imantado pelos chamamentos da poesia. (Salomão Sousa)

POEMAS DE FERNANDO MENDES VIANNA (Enviados por Ronaldo Cagiano)

EMBARCADO EM SECO

Embarcado,
emborcado
- embarcadiço
sediço no beco -,
no muro viço,
entre muros viço.

Quando seco,
o sol ameaça
abrir-me em túnel
sem saída.
Mas a vida
- ave de aço –
vara o funil.

E continuo
contínuo barco
no verso onde zarpo
e fico ao largo
- embora seco.

PEIXE-VOADOR

Alo-me, embora em remos
de bote – meu peixe
voador. Apesar de galé
com amarras em terra,
lá vou eu, aos pulos e tombos,
aquático bailarino maluco,
subindo, caindo, subindo,
funâmbulo peixe de circo,
fugindo em vão à função.
De tanto pulo, encalho
e na areia sucumbo
entre piche e refugos.
E não existe fuga.
Apodrecidas escamas
- ainda há pouco asas –
já lixo de urubu.
Engolido, sou devolvido ao ar.


POÉTICA

Nas quatro paredes do meu quarto
crucificado no crepúsculo
em trêmulos reflexos nos muros,
o mar sorri
um sorriso enigmático e oblíquo.


O MIGRANTE

Emigrante e imigrante de mim mesmo,
sem passaporte sigo nos mares e ares.
Não me atrapalha o mundo e seus lindes,
e cruzo qualquer pátria clandestino.

Limites impressos em códigos e mapas
não são fronteiras, não, para um poeta.
Inferno é o mundo máximo. O resto,
pegadas vãs – pó e pó, barro no barro.

Vou e volto dentro do eu-planeta,
ao sopro do poema – vento no velame
do barco da carne. O corpo voa!

Não me detém o mundo: suas alfândegas,
feitas de mofo, o vento as leva
- enquanto chego e parto a qualquer hora.

SETE AUTO-RETRATOS
I
Delicadas escamas
de finíssima platina
recobrem minhas guelras
roxas.
Cota de malha de lua
nesta arena rubra.

II
Cada copa de árvore
é um balão verde
na mão de um morto
menino
- menino oculto
nas raízes.

III
A nuvem é meu talismã,
minha tatuagem,
minha única ruga,
minha fotografia azul
de tuareg.

IV
De cada veia cortada
jorram rosas,
rosas brancas, azuis, amarelas, malvas
- nunca rubras.
As rosas escarlates,
essas uivam ocultas
nas vísceras...
petisco do abutre.

V
Minha elegante roupa burocrática,
meu terno
é um vil disfarce medieval
de servo.
A gravata,
fútil corda de enforcado
fauno.

VI
O turbante é real:
Príncipe do Nepal
meditando nos píncaros
do Tibé
o vazio das trombetas,
o cadáver anatômico
dos cavalos e das bailarinas
o sepulcro de seda amarela

do vale no outono.

VII
Não fosse a ração de azul
o areal seria total,
total a sede
nestas andanças
nas areias e areias
do convívio.

Meu absinto é o sol.


SONATA CREPUSCULAR SEM VENTO

Olhando-se num espelho de prata,
o vento está parado. Sua face é halo.
Seu som, hálito do silêncio.
Tudo flutua, flauta em penumbra,
alta, alada, alva garça
que volta devagar à árvore
oculta na distância e na sombra.
Bóia na água, na terra e no ar
uma vaga lembrança violácea
e áurea, lenço de adeus do sol.
Na água plácida, um barco
parece levitar, peixe num aquário.