POEMAS DE RONALDO CAGIANO
Ronaldo Cagiano, mineiro de Cataguases, é autor de Palavra Engajada e outros livros.
BRASILHA
Desértica paisagem traz-me aos olhos
o vento adolescente do Planalto Central.
Presa aos vértices da cidade,
a mentira da carne implode o que ainda há de negro
nesses homens que deambulam
entre catedrais de ausência
e templos de solidão.
Os estômagos do poder,
vísceras psicopáticas de império e lama,
diluem-se no ácido de seus donos
enquanto estes afundam irremediavelmente
em suas histórias insondáveis
guardadas nos mármores profanos
sob castelos impunes.
Há outono de todos os sonhos
e obscuros pântanos
além da visão de Dom Bosco:
tragédias inexpugnáveis da imoralidade.
Brasília, brasa, ilha, rasa milha,
asas de Ícaro de norte a sul,
fora dos eixos,
cosmoplanáutica invenção,
de sonhos desfeitos
da manha acabada,
de sanha sofrida,
escoadouro da nação agonizante.
RETROVIAGEM
Adiada a chegada
o mar é só vertigem
o porto está distante.
A noite nos oceanos
é uma tragédia de negrumes
onde se perdem
os homens ávidos de idílios
entre cetáceos ressabiados
e atlânticas saudades.
A estrela que me acompanha
(ou a persigo, em solitária romaria?)
restabelece o ancoradouro
que precocemente fugiu
das garras tênues
de um viandante inconcluso.
Mais inquieta é a esperança
se nela não navego
ou galopam outros sonhos.
A geografia dessas águas
fabrica desafios,
enquanto no rosto
mareja o sacrifício da espera.
EPITÁFIO
E se perguntarem
quem aqui está,
digam apenas
que fiz versos.
O que fui ou tive
não se presta para a última viagem:
é matéria inanimada
que não coube nos meus livros.
Entre meu nascimento e a
passagem derradeira,
cada tempo, cada luta
são coisas que me pertencem
nesse inventário de inútil registro.
Quando passarem ao largo
da campa que me abriga,
olhem as flores, as ervas, quiçá o mofo
e os vermes intransigentes
que jazem comigo
—eis a inevitável simbiose
(forçosa admissão do esquecimento)
entre o que passou
e o que virá.
PROSOEMA
Les poètes sont des oiseuaux:
Tout bruit les fait chanter.
Chateaubriand
O cinismo caviloso das elites
a ignomínia persistente dos canalhas
a malversação indecorosa dos políticos
a alienação da Justiça empedernida
o descompasso dos poderes ultrajados
a clandestinidade da infância desterrada
a indigência dos sem-teto, dos sem-terra
a nutrir a opulência dos obituários
o arrivismo de nayas e jorginas
o malabarismo dos collors e das zélias
— a delinqüência intangível
dos poderosos e dos pulhas —
fermento de tragédias tão impunes
caldo efervescente da miséria
que se reproduz na crônica
frialdade dos noticiários.
Quase Sísifos,
em nosso desesperado
escalar de íngremes torturas;
feito Teseus perseguindo
Minotauros,
sem perder o fio de Ariadne
de nossos próprios labirintos;
ou Prometeus acorrentados,
no moto-contínuo de nossas poucas vidas
— ainda sonhamos,
como Ícaros redivivos,
a voar sobre esse espectro dissonante
e não deixar que conspurquem
os olhos daquela estátua
que hiberna tediosa
na Praça dos Três Poderes.
QUASE POEMA PARA HÉLIO DUTRA
(ao amigo que conheci em Cuba)
Cultivo una rosa blanca
en julio como en enero
para el amigo sincero
que me da su mano franca.
José Martí
Quero saudar Hélio Dutra
no alto de sua
revolucionária serenidade.
Quero abraçar Hélio Dutra
na catedral de sua
experiência e nas suas lutas.
Quero regozijar-me
com o cidadão Hélio Dutra
e sentir nos cabelos encanecidos
desse soldado mais vivo que todos nós
a pujança do caminho percorrido
nas duras sendas da libertação.
Quero encontrar Hélio Dutra
e com sua inexcedível Ela
arrastar-me noite a dentro
(dentro de nossa noite latina e sem sorte)
e viajar em suas histórias
em que o mel, a luta, o fel e o luto
de sua gente misturou-se aos sonhos
pra fazer outro país e vencer.
Quero aprender pelas mãos de Hélio Dutra
esse artesanato de resistência;
e nos segredos do vigilante intrépido,
o sentinela apaixonado pela causa,
que também é nossa
e vasculhar os meandros difíceis
da grande tarefa libertadora
nas mãos de soldados
como ele, intimoratos.
Quero descobrir que a vida vale a pena
quando há homens que perseguem idéias
no diáfano intento da revolução
seja nas madrugadas indormidas
de Sierra Maestra
ou nas greves justas do ABC paulista
e é com Hélio Dutra
que vou tomar esse bastão
e na sua pedagogia
aprender o inadiável esforço
contra todos os inimigos
e os poderosos de todos os tempos e lugares;
e, destarte, de sol a sol, de sal a sal,
resistir, como resistiram bravamente
os companheiros de Santiago
ou os que escudaram seu povo
nas areias de Playa Girón.
Quero o fogo anímico desses combatentes,
que, endurecendo, como Chê, sem perder a ternura,
irromperam, indomáveis, nesse ideal
de resgatar o povo, o país e a dignidade
e reerguer a Cuba dos cubanos
tirando-as das narcísicas patas de Batista.
Quero aprender com esses olhos
que nunca se fatigaram diante das pedras
e saber do navegante
o segredo de passar além das procelas
ou da rosa decepada,
para construir a primavera definitiva
e singrar mares mais tranqüilos.
Ah, como ressurgem diante de minha existência
a lucidez de atitudes,
a racionalidade do engajamento,
o compromisso indesviável
e o entusiasmo libertador
desse octogenário maior que todas as idades!
Enquanto anoiteço no desespero e no fracasso
de nossa História cheia de coices e poucas vitórias,
reabilito-me em Hélio Dutra,
esse Homem que amanhece sempre
e vai carpindo uma linda trajetória em sua (nossa!) ilha
na argamassa inviolável de profícua lida.
Esse homem feito de fermento e luz
repito,
chama-se Hélio Dutra Domingues,
querido como a ilha
que defende com unhas e dentes,
esse Brasil que ainda sobrevive, a duras penas,
ao imperialismo e à dominação dos inimigos do Norte.
Hélio Dutra,
cubano, brasileiro, latino,
não importa de onde veio e para onde foi
esse cosmopolita fluminense
de São Francisco de Paula,
pois seu evangelho é ajudar a mudar
a triste sina dos dominados,
operário que tem sido
nessa jornada
de pavimentação de destinos e ideais.
Sinto que Hélio Dutra
é um pedaço da pátria brasileira,
da nação adormecida pelas noites de obscurantismo,
do País abandonado aos tubarões ianques;
Hélio Dutra é uma parte de nosso choro e dos nossos protestos,
é uma fatia da nossa liberdade e da nossa recuperação,
é um pouco do sonho e da utopia
de tantos olhos e tantas bocas,
é a extensão hospitaleira de tantos quantos
foram os defenestrados pela violência do poder ilegítimo
em tempos de fel e cicuta.
Hélio Dutra é tudo aquilo que um cidadão pode ser,
sem jactar-se do que fez: revolucionário,
consciente, defensor, indomável em seus princípios,
altivo e brilhante, estrela maior
nessa constelação de guerreiros,
para quem a História tem um débito
irresgatável quase.
Hélio Dutra, um ser que nos fertiliza
de disposição revolucionária,
cúmplice de uma América que ainda tem sonhos.
(Havana, abril/1990)