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POEMAS DE SÉRGIO CAMPOS

Nasceu Sérgio Campos em 1941, na Ilha do Governador, Rio de Janeiro. Formado em Direito, exerceu a advocacia dativa e foi professor universitário. Estreou em 1984, com o volume de poemas A Casa dos Elementos (Ed. Achiamé, Rio de Janeiro). Seguiram-se Bichos (edição dos autores), álbum artesanal com serigrafias de Mário Wagner, 1985; Ciclo Amatório (Ed. Scortecci, São Paulo, 1986), 1º lugar no Prêmio Jorge de Lima do II Concurso Nacional de Poesias da Universidade Federal de Alagoas; Montanhecer (Ed. Scortecci, SP, 1987), menção especial no Prêmio Manuel Bandeira, União Brasileira de Escritores, Pernambuco; Nativa Idade (Mundo Manual Edições, Nova Friburgo, RJ, 1990); O Lobo e o Pastor (Mundo Manual, 1990); As Iras do Dia (Mundo Manual, 1990), 1º lugar no Prêmio Cidade de Belo Horizonte, 1989; Móbiles de Sal (1991); A Cúpula e o Rumor (Mundo Manual, 1992); Leitura de Cinzas (idem, 1993); Mar Anterior (1994), antologia pessoal, todos de poesia. No gênero ensaio publicou Ponto & Contraponto (Mundo Manual, 1992) e Leitura de Cinzas (1993). Na apresentação do segundo livro, Antonio Carlos Villaça afirma: “Sérgio Campos, montanhês e musical, é um grande poeta de nossa língua. Um poeta essencial. Um poeta ontológico”.(...) “Sérgio Campos é um poeta filosófico, mítico, místico, assim como Blake, Merton, Jorge de Lima, com quem se parece”.Diversos críticos comentaram a poesia de Sérgio. Um deles, Paulo Rónai, nas abas de Montanhecer, anotou: “Sentimos que para ele o campo de criação é inesgotável: qualquer tema que toque adquire ipso facto um intenso halo poético e insere-se numa cosmovisão original. Vai buscar no tesouro da língua, que conhece como poucos, suas palavras, que ganham nova palpitação, e assumindo sua acepção mais densa, aglomeram-se em conjuntos significativos de estática gravidade. Fecundada pela experiência humana do dia-a-dia, mas também pela leitura, a reflexão e audição, esta poesia, esta tomada de posse premeditada do universo, desencadeia um hino polifônico à vida.” A revista Literatura, de que SC foi um dos idealizadores e colaboradores, prestou-lhe pequena homenagem no nº 21 (agosto, 2001), em artigo intitulado “Homenagens de Literatura”, escrito por Dimas Macedo. Sérgio Campos faleceu em 28 de dezembro de 1994.

FACE NA TREVA
‘Salí trás ti clamando y eras ido.”
San Juan de la Cruz

As depressões noturnas são panteras
no frêmito das garras ansiosas
e como a insônia é órfã destas feras
tornam-se mais as noites perigosas
As depressões noturnas são procelas
rugindo como chuva de verão
e há tantas tempestades dentro delas
que a ira as torna escravas do que são
Enquanto a insônia ceia com a treva
a solidão espalha as derradeiras
cinzas cruéis que a ventania leva
E como as depressões tudo corroem
também são estas feras prisioneiras:
as noites não terminam caem
doem


NOTURNO EM LUMIAR

Devo habitar o pátio das ausências
pois deserdado estou das utopias
Movido por estigma ou demência
meu sol deixou de margear os dias

Lancei-me em desventura pelos mares
nos arabescos de maus portulanos
e embora saciando os avatares
salgou-me o sol de secos oceanos

Tentei reconhecer mitos antigos
mas vi apenas ira em fogos sacros
Por isso dissolvi-me entre postigos
para fazer da sombra confidente

Viver é conjurar com simulacros
em busca de uma dor benevolente


O NAVEGANTE E SUA LENDA

Soprou um vento fatal
varreu nosso ancoradouro
fez-se nossa expiação

Quando a maré sossegou
o porto se transformara
em campo de girassóis

Como navio-fantasma
remamos entre espantalhos
de marinheiros possessos
em trapos de febre e sonho

Chagamos as mãos nos remos
pois navegamos o exílio
e navegamos a dor

Tomamos posse do frio
de cemitérios de búzios
nossos ossos são ruínas
legado da pedra ao tempo

Muitos de nós se morreram
somos o luto de Egeu
velas negras no horizonte
de lendas adormecidas

Não temos noite ou aurora
somos um sol vertical
resgate da sombra ao frio
por um punhado de luz

Por isso te demandamos
de nosso mar feito chão
devolve nossas marés
a bordo de alguma ilha
ao oceano que somos

Teus enigmas vermelhos
salgarão nosso convés*

* Do livro Leitura de Cinzas.

Chega-nos a notícia do falecimento do poeta Sérgio Campos (1941-1994). Um dos fundadores de Literatura, é, sem dúvida, um dos melhores poetas brasileiros contemporâneos. Estreou em livro com A Casa dos Elementos, em 1984. Publicou mais de uma dezena de excelentes livros de poesia e dois ensaios. Seu último livro é Mar Anterior, antologia pessoal do autor, no dizer de Jaci Bezerra.
Para encerrarmos esta pequena homenagem (este número já estava composto quando nos chegou a notícia), transcrevemos o pequeno poema–prólogo de As Iras do Dia:
- um mar navega outro mar
até o mar derradeiro
em busca do mar primeiro

Sim, poeta Sérgio Campos, teus mares navegaremos enquanto navegantes formos. Adeus.


EVOCAÇÃO

Às vezes pensava
que minha mãe era uma sala
primorosamente encerada
de móveis polidos
e cortinas engomadas
onde ninguém jamais permanecera
por um momento sequer.


INAUGURAL

Vede que para nós é a flor do sol
e os pássaros
depõem em nossas mãos os augúrios de maio

Vede que a tarde ainda provisória
pousa na vidraça
e nos revela seu azul mais contente

E vede a noite que nos inaugura
para cingir com a lã do zelo
o encontro dos silêncios e dos gestos
Pois que em nós o mistério se faz nitente
e nos habitamos


FLOR

Há na montanha
desinvenção
de sua flor

planta retendo
o tempo e forma
do dividendo
Por que plantar
árvore aqui
fora de si?

Se a flor se nega
o corpo à alma
não se aconchega
Ela só gera
quando a raiz
quer e opera

Se há flor há alma
árvore dócil
copada e calma

Doce portanto
é o reciclar
de flor a flor

Pois na montanha
o que floresce
é por amor

VERÃO AMATÓRIO

Hoje no mar as aves são mais raras
brancas ao líquido escarcéu da espuma
reinvenção no equóreo de esculturas
de ímpetos salinos agregados
Visão marinha de um verão dourado
que se perpetra audaz e navegante
as proas redescobrem suas trilhas
na comunhão das velas consteladas
E surgem peixes líricos e exatos
que se navegam pelo mar inteiro
em busca de universos de coral
enquanto nas bandeiras dançarinas
a náutica manhã pacificada
veleja seus domingos amatórios

(Poema extraído do livro Ciclo Amatório, João Scortecci/Chico Moura Editores, São Paulo, SP, 1986)