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Vasto Abismo (6)

(Continuação)

- V -
Zé Carroceiro apoiou-se na vassoura e cuspiu longe, em tempo de sujar o homem que puxava um jumento carregado dágua.
– Não foi por gosto.
Um pedacinho de riso arranhou os dentes de Chico Preto. A pata do animal cobriu o resto da masca de fumo.
– Toque-toloque-toque.
O jipe de Raimundo Pitanga freou ao lado da bomba de gasolina.
– O tratorista.
Um cachorro enfiou a venta no cuspo do carroceiro, deu uma fungada e sarpou.
– E o prefeito arribou mesmo?
Cotia cutucou o carro, disparou feito bala e a catinga de gasolina tapou a boca de Chico.
– Hein?
Voltaram os dois a barrer a coxia, envergados, num vaivém cadenciado.
– Lá vem o trator.
Atrás deles, montinhos de lixo, bosta de cavalo, ponta de cigarro, capim seco, jornal velho, resto de osso.
– Basta uma faísca para isso pegar fogo.
Longe, o magote de flagelados espiava o tempo, comia farinha de cócoras, espantava o sol com chapéus furados.
– Será que o prefeito vai trazer verba?
O trator roncou junto aos ouvidos dos varredores. Zé subiu a calçada de um pulo.
– Isso lá é carroça de gente.

- VI -
Amontoados debaixo das marquises, os flagelados resmungavam.
– Esse Pitanga não é flor que se cheire.
Um cutucava os dentes com um pedaço de pau, a fazer caretas, feito soim.
– Tanta carne e a gente com fome.
O boi deu um longo mugido para as bandas de longe.
***
Luiz Macedo saiu esmagando gorgulhos e parou à porta do armazém.
– Bom-dia, compadre.
O outro parou, acendeu um cigarro, pigarreou.
– E esses cassacos?
O atacadista franziu a testa, espantou a fumaça, abriu e fechou a boca, mexeu e remexeu os beiços, assanhou o bigode, engelhou a cara.
– A salvação é o boi.
***
Os varredores encostaram as vassouras na parede, tiraram os chapéus, pediram cachaça.
Joaquim Traçalha abocanhou a cortiça com os dentes, fechou os olhos, chegou a garrafa aos copos.
– E aquele boi da carroça?
Zé engoliu o seu bocado, estalou os dedos, cuspiu ao pé do balcão.
– Triste que só vendo.
Chico Preto pediu um tico de farinha, esfregou a costa da mão, nos beiços, lambuzou-a toda.
O bodegueiro apresentou-lhe a cuia cheia do pó.
– Se não matarem o boi, os flagelados vão saquear o comércio.

CALVÁRIO

- I -
Navegava a lua para as bandas do Candeia, feito cabaça na correnteza, passavam por ela tufos de nuvens, latiam cachorros no mundo. E Zé Carroceiro escorregava pelos becos, tochas acesas, garras afiadas, sem um miado na goela seca.
Dormia o boi no curral, exposto ao sereno e aos morcegos, tadinho! Acordou, abriu os olhos, levantou a cabeça, remexeu-se. A sombra do carroceiro atravessava a cerca, a bosta, o chão, e foi se apagando cheia de psius, carinhosa, mansinha.
– Sou eu, amigo velho.
Os calos do homem alisaram a testa do antigo puxador de carroça, e o curral se encheu de cicios.
– Meu boi bonito, eu vim fugido, feito um gatinho, sem alarido, muito contrito, para bem pertinho só de você.
Explicou Zé Carroceiro o motivo daquela visita tão fora de horas, enquanto o boi concordava com as preocupações de sou protetor.
Ao fim do entendimento, deixaram ambos o curral e, pelos becos mais escuros, alcançaram o quintal da palhoça do homem.

- II -
Amontoados defronte o prédio da Prefeitura, os flagelados assopravam o sol. Queriam comida e providências, água e satisfações.
– Mate aquele boi.
Raimundo Pitanga se empapava de suor e cuspia soluções. A verba chegava de trem, o governo não ia falhar. Esquecessem o animal, funcionário da municipalidade.
Os homens escarravam, caras de herege, e num instante o cuspe virava mancha na calçada.
– Conversa para fazer boi dormir.

- III -
Num meio de noite, Zé deu um berro do tamanho do mundo e só faltou cair da rede. Maria não morreu, porém os meninos choraram até de manhã.
– Pesadelo doido, mulher.
A velha acendeu a lamparina e mandou os filhos de volta às fiangas.
– Doidice desse doido.
Na parede, o carroceiro cresceu, cabeça de tacho, orelhas de abano, ombros de aleijado, pernas de sete-léguas.
Tremia a chama da candeia e ora a venta de fole do narrador tomava o lugar de uma orelha, ora sua mão de alabarda destelhava a cabana.
Os meninos soluçavam uns por cima dos outros, cobertos de olhos por todos os lados, arrependidos de todos os pecados, mãezinha do céu.
O pai procurava facões debaixo dos pés e a mãe o agarrava pelas costelas e implorava a Deus.

- IV -
Plantado no quintal de Zé Carroceiro, o boi balançava as orelhas, o rabo e a caceta, guarda da casa de seu colega de lixo. Cuidou, o chão tremia. Varava a terra o dragão do fim do mundo ou andava ao léu a leva dos sem-terra? Esbugalhou os olhos na direção da assombração. Qual nada de fabuloso! Marchavam sobre o quintal eram os bichinhos de dois pés. Vinha nu e enfurecido o safado do prefeito, armado de espingarda. Junto ao seu ombro direito, Luiz Macedo carregava munição. Nos calcanhares deles, Joaquim Traçalha, e mais atrás Manoel Cotia abraçava buchas e mais buchas.
– Lá está ele.
Engrossava a procissão toda nação de gente, olhos fitos no boi, garras e dentes de fora, feito feras.
Enquanto o diabo esfregava o olho, derrubaram a cerca e cercaram o boi. À primeira cutelada, minou sangue dos chifres e ninguém podia contar as mãos que açoitavam o condenado.
Súbito Raimundo Pitanga ordenou silêncio e calma e se dirigiu à turba para uma última questão: queriam mesmo o boi ou preferiam esperar pela verba?
– O boi.
Então o prefeito se afastou e deu passagem aos urubus, que voltaram a surrar o animal.
Um deles correu a um canto da cerca, colheu uns galhos espinhentos, engendrou uma coroa e se precipitou para o local do sacrifício. E coroou o boi, em meio a gargalhadas.
– Salve, boi dos sertanejos.
E davam-lhe bofetadas, cuspiam-no, feriam-no com suas armas.
Tiveram a idéia de fazer uma cruz para maior alegria do pagode, saírem pelas ruas e crucificarem o boi, porém o dia amanhecia e urgia preparar o almoço.
E as todas facas da fome tiravam do boi o couro, rasgavam as carnes duras, faziam de matadouro o quintal do carroceiro, mineiros à cata douro.

Junho/1980 a julho/1982.

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O BOM SELVAGEM

PRESENTE

As noites aqui no Boqueirão já foram mais alegres. Agora nem saio mais de casa. Se há luar, olho para o céu, feito poeta de antigamente. Porém não dura um minuto sequer meu namoro com as estrelas. E volto ao caderno, onde escrevo em minha língua a História do Brasil. É uma tradução apenas.
Quem me encarregou dessa missão foi padre Tonelli. Quer ensinar aos bororo a História do Brasil. Já ensina português, aritmética, geografia, religião. A católica, logicamente.
Padre Tonelli é meio esquisito. Diz que índio deve continuar índio, preservar suas tradições. Sobretudo sua língua. Mas deve renegar alguns costumes. Como o de viver nu.
Não sei mais viver nu. Além do mais, todos por aqui usam roupas. Mesmo os índios mais atrasados. Os padres da Missão não permitem a nudez. Chamam de pecado. E chamam a Missão de Colônia.
Tudo mudou muito em minha vida. Primeiro mudou meu nome. De Bokodori passei a Daniel Álvares. Deixei a aldeia indígena, um amontoado de cabanas de palha, e fui viver no meio dos brancos.
Hoje sou de novo um bororo, um selvagem. Ninguém me aceitaria de paletó e gravata, falando português, andando pelas ruas das grandes cidades, dentro de automóveis.
O padre missionário, no entanto, não se cansa de querer me desfigurar. Devo voltar a ser professor. Esquecer os dissabores. Levar uma vida cristã e moderna. Educar os filhos, viver em paz com Lucina.
Não quero desgostar padre Tonelli. Vou cumprir minha promessa, traduzir para o bororo o livro de História. Ele é um homem de bom coração. E me trata com muito respeito e amizade.
Deixarei de lado este caderno e dedicarei algumas horas à tradução. Aos heróis portugueses e seus descendentes. Os matadores de índios.


ANTEPASSADOS

Minha tarefa estou para concluir. Mais algumas páginas, nomes, datas, fatos, e fim. Aliás, o autor devia ter ficado por aqui. O resto está tão recente que nem devia ter sido escrito. A história de um país é diferente da história de uma pessoa. Na minha vida, por exemplo, 17 anos valem muito. Na de um país são migalha. Eu mesmo não me lembro de nada muito importante ocorrido aqui nos últimos tempos. Comigo, sim, aconteceram coisas para lá de desastrosas. E é disso que vou tratar agora. Deixarei de lado essa História do Brasil e me voltarei para mim mesmo. Ora, sou mais importante para mim do que esses marechais.
Aprendi um pouco de tudo. Aprendi caminhos desconhecidos. Aprendi, sobretudo, que o sonho passa por nós feito nuvem. E emigra para longe, na eterna correria do tempo.
Aproveitando o método do livro que traduzo, relembrarei tudo, desde meu nascimento.
O Brasil – diz o livro – nasceu dos portugueses. Já eu, embora brasileiro, não venho de portugueses. Meus pais eram bororo, que viviam aqui muito antes de o Brasil nascer. Engraçadíssima essa história! Em compensação, só tenho a idade da República. Antes de mim houve o Império. Anteriores a este, porém, são meus avós.
Para falar de mim, devo começar lembrando meu povo. Só assim os leitores – pois pretendo publicar isto um dia – poderão me entender melhor.
Contam os mais velhos terem sido Bacororo e Itubori os primeiros bororo. Foram gerados de um canguçu e uma mulher, viveram inúmeras aventuras na selva, ditaram leis aos homens e animais, tiveram poder sobre todas as coisas, foram príncipes dos bororo, e o serão para sempre.
Meu defunto pai chegou a chefe de tribo, assim como seu pai, etc. E todos muito inteligentes. Conheciam os Tereno, os Botocudo e outros povos. Iam do Paraguai até Goiás, grandes caçadores que eram. E eu herdei tudo isso. Só não sou chefe porque hoje não temos mais tribo. Em compensação, aprendi várias línguas e vivi na Europa. Ouvi falar da teoria quântica e conheci Marconi. Li Rilke e Conrad e vi os quadros de Picasso. Admiro profundamente Einstein e Santos Dumont. Discuti a teoria da deriva continental, em francês, com estudantes parisienses. Hoje me interesso pelos Nêutrons e pelos estudos de John Logie Baird. Seus inventos ainda vão revolucionar o mundo. Quero ler Virgínia Woolf, Pirandello, William Faulkner e ver de perto a arquitetura de Le Corbusier.
Tudo isto, no entanto, de nada me serve. Aliás, se falo de progresso, desenvolvimento, mudança, é por mera vaidade. Ou talvez para não olhar para dentro de mim mesmo e de meu povo. Por isso, me chamam de índio metido a besta. Por outro lado, meus irmãos de sangue me olham com desdém. Tiraram-me de meu mundo e agora vivo isolado, como se fosse estranho a uns e outros. A solidão, essa cadela marcada, me segue os passos. Não sou mais índio, porque me ensinaram a ser europeu, branco, cristão. Não sou europeu, porque nasci índio. Para tentar conciliar as duas situações, ensino aos bororo a língua, a cultura e a História dos brancos. Traduzi do português para o bororo a Bíblia, e agora me dedico a essa estúpida História do Brasil. Desde Pedro Álvares Cabral. De quebra, me deram o nome de Daniel Álvares. A escolha do nome pode ter sido casual. Poderiam me chamar de Pedro Caminha.
Terão tido propósitos de me ridicularizar?
Há quem ainda me chame pelo meu nome indígena – Bokodori. Noto, porém, um certo ar de deboche na pronúncia. Como se quisessem dizer: você é um selvagem, mesmo sabendo falar português e francês.

INFÂNCIA
Passou mais uma noite. Não pude dormir. Revi quase minha vida inteira. Não consigo, no entanto, me lembrar de meus dias mais remotos. Depois de tanto viver, de tanto ouvir e ler, de tanto forçar a memória, é-me impossível reconstruir meu primeiro passado. Confundo-me com personagens de mitos, com outros meninos reais e imaginários, e me represento adulto em tempos de criança.
Há pouco reli trechos da História do Brasil, assim como as páginas que ontem escrevi. Os primeiros me parecem destituídos de vida. As segundas estão incompletas. Não me interessa, porém, dar vida aos capítulos da História, a menos que eu pudesse incluir nela meus antepassados. Mas como, se mal conheci meus pais?
Imaginei minha mãe, viva, tão terra, tão natureza, de repente desesperada. E depois calada, triste e morta. Sigo-lhe o destino, eu que há 36 ou 25 anos sequer supunha um só dia de desespero e solidão. Naquele tempo tudo para mim era festa e eu comemorava até minhas estupefações. Revejo todas as cenas que se seguiram aos primeiros olhares de curiosidades do padre Pittini, às suas primeiras palavras a mim dirigidas. Sua figura alva, bonita, simpática me animou, me fez sonhar mil maravilhas. Meu primeiro desejo foi entender-lhe a fala, o significado dela, traduzir seus gestos, para, em seguida, compreender a razão de tudo – da batina, da cor de sua pele, seus cabelos e olhos, dos seus passos e, sobretudo, do seu interesse por nós e por mim, em particular. Ele me cativou e por mim se enfeitiçou desde o primeiro contato. Conversou comigo, fez-me todas as perguntas do questionário humano e prometia transformar-me num sábio, num salvador ou guia de meu povo. E eu só tinha 11 anos de idade.
Hoje compreendo quase tudo. Eu seria a isca e o modelo, para ser devorado e mostrado. E, mais do que isca e modelo, o boneco bem conservado para as exposições, espécie de atleta ou manequim, objeto de carne e osso, filhote de troglodita transformado em gentleman pelas mãos hábeis e santas do cristianismo. Aprendi a rezar, primeiro como me ensinaram e depois a meu modo. Pura lamentação. Assim: Minha madrinha, Nossa Senhora, tu vês o mundo todo verde, não é? Meus olhos, no entanto, são tão pretos! Ah! Minha Nossa Senhora, pinta meus olhos, que eu quero verdes os dias futuros.
Decorei orações latinas, nomes e vidas de santos, descobri pecados e virtudes e elegi um deus todo-poderoso. Credo in Deum Patrem omnipotentem, creatorem e caeli et terra. Reneguei Ké-Marugodu, o personagem lagarto de uma das principais lendas de nosso povo. Fiz tudo para esquecê-lo. Apagar da memória meu passado de selvagem. E enchi de jactâncias e me cobri de outro nome.

COLÉGIO
Carrego sempre comigo meu álbum de fotografias. No entanto não gosto de mim no passado nem de meu passado. Como fui tolo e enganado! Fizeram-me crer em tantas ilusões!
Talvez me fascine o mistério do retrato. A gente poder perenizar-se, rever-se. Também o espelho me encanta. A gente duplicar-se, multiplicar-se. Copiar-se. A máquina fotográfica, seu mecanismo, sempre me inquietou. Antes eu fazia muitas perguntas a estranhos sobre ela. Hoje não tenho mais a inocência de perguntar. Ora, vão dizer, um homem tão estudado não devia fazer tantas perguntas.
Uma das fotografias que mais me fazem pensar é aquela onde apareço vestido de colegial . A primeira tirada com pose e logo após chegar ao colégio de Cuiabá. Eu tinha 12 anos de idade.
De início, estranhei a nova vida, o clima da cidade, os colegas, o colégio, apesar de ter sido apresentado como aluno exemplar. Pouco a pouco fui me adaptando ao novo ambiente, mesmo sem dispor de muito tempo para conversar e brincar. Os mestres exigiam demais de mim e eu conseguia estar sempre adiante de suas exigências. O latim aprendi com grande facilidade, a ponto de dentro de um ano já ler trechos clássicos, sem nenhuma dificuldade. Gutta cavat lapidem.
Quantas e quantas expressões decoradas e aprendidas! Melior canis virus leoni mortuo.
Não deixei o francês para trás. E como era gostoso ler e falar francês!
“Un loup navait que les os et peau,
Tant les chiens faisaient bonee garde.”
As fábulas de La Fontaine. Até inglês já nos ensinavam. E eu aprendia a gostar de sandwich, jazz, girls e dos United States e da England.
Ensinaram-se também números arábicos e romanos, operações, frações, álgebras. E tudo eu aprendia com distinção e louvor. Até as histórias de Sodoma e Gomorra, as vidas de Rebeca, Raquel e Lia, José e seus irmãos.
– Então fez o Senhor chover enxofre e fogo.
– A moça era mui formosa de aparência, virgem, a quem nenhum homem havia possuído. À tarde, vindo Jacó do campo, saiu-lhe ao encontro Lia, e lhe disse: Esta noite me possuirás.
– Teve José um sonho, e o relatou a seus irmãos; por isso o odiaram ainda mais.
Minha cabeça se enchia de palavras. Um, duo, trois, four. Eu todo me compunha de lições. Acordava ainda com os sonhos numerais, históricos, lingüísticos, para rezar a Deus e aos santos, e depois ler, copiar e estudar lições que nunca meus pais viveram.
– Senhor, posto que o Capitão-mor desta vossa frota...
Hoje me abraço de novo àquelas palavras, a parte daquelas lições, por ofício, razão daquele mesmo aprendizado ou talvez por ironia do destino. Não mais decoro o texto que me deram. Vou mais adiante: traduzo para minha antiga língua a história do aniquilamento de meus próprios antepassados. História de heróis estrangeiros. Vasco da Gama, D. Manuel, o Venturoso, Pedro Álvares Cabral (e eu não descendo dele, meus filhos!), Gaspar de Lemos, Martim Afonso de Souza, Diogo Álvares Correia, o Caramuru (nem deste herdei nada). Uma fileira de nomes, antes tão estrangeiros. Eu, Bokodori, tradutor, professor.

VIAGEM À EUROPA
Nunca me preocupei com fazer um paralelo entre a História do Brasil e a minha. Não quero me perder em análises, sobretudo porque prefiro contar simplesmente minha vida. Além do mais, não vivi os grandes acontecimentos históricos. Eles não me despertaram sequer a atenção. Nem hoje consigo interessar-me por eles. O passado do Brasil e da Humanidade são para mim apenas textos ou lições escolares. Se aceitei traduzi-los para minha primeira língua, o fiz por qualquer motivo, menos pelo de ser um cidadão ocupado com a História.
Tenho notado o quanto escrever é traiçoeiro. Ora, eu não queria me perder em análise e cá estou perdido.
Escrever é desmentir, é negar hoje a afirmação de ontem. É contradizer-se, brigar consigo mesmo.
Meu primeiro intento hoje é, no entanto, situar a quarta fase mais importante de minha vida no contexto da História do Brasil. Aos 15 anos de idade viajei à Europa. Governava o Brasil o Marechal Hermes. No Ceará um padre comandava uma revolta. Fala-se agora da importância daqueles fatos. Eu, porém, ainda me sabia menino, apesar de toda a sabedoria e da ambição que me empurrava. Ler e falar francês não me custavam nada. E atravessei os mares e fui passear na capital do mundo moderno. Eu me sentia grande, notável, excelente. Um ex-selvagem brasileiro transitando pelas ruas e praças mais cultas da Terra, como um intelectual europeu. Depois eu soube: há mais de quatrocentos anos alguns índios brasileiros desfilaram nus pelas ruas de Ruão, para gáudio do rei Henrique II e sua pomposa corte. Não me senti um animal exótico, digno dos olhares concupiscentes de nobres ou burgueses. Antes, um homem até mais inteligente do que eles, pois não falavam bororo e nunca ouviram falar de Ké-Marugodu, enquanto eu também falava francês e sabia da história de Adão e Eva. Além do mais, eles sempre me pareceram uns macacos, todos fracos, baixos, magros, horríveis.
Conheci também Roma, vi o papa e todas as fantasias da Igreja Católica.
Paris e Roma me encantaram. A história e a arquitetura. Notre-Dame, Versalhes, Via Appia, Arco de Tito, Catedral de Reims, Place Royale, Coliseu, Basílica de São Pedro.
Foram dois anos de intensa vida social. Conheci Louises e Luigis, Françoises e Francescas, freqüentei as mais luxuosas e burguesas casas, sempre bem tratado e acompanhado. Recitavam-me versos dos mais distintos poetas franceses, antigos e modernos, numa incessante chuva de belas palavras. Presentearam-me livros e mais livros e alguns poemas até consegui decorar. Hoje restam-me apenas fragmentos deles, perdidos nos cantinhos da memória:
“Dictes-moy où, nen quel pays,
est Flora, la belle Romaine?”
Nunca pude esquecer um soneto que todas as noites uma bela parisiense me dizia:
“Quand vous serez bien vieille, au soir à la chandelle,
Assisse aupres du feu, deuidant & filant,
Direz chantant mes verses...”
Em Paris aprendi a ser romântico e, quando me via só, rabiscava versos para a moça com quem me casaria. Chamava-se Aroia. Depois, os padres arranjaram-lhe um nome português: Lucina. Disto, porém, falarei adiante. Quero, agora, recordar versos que escrevi para ela. Alguns deles consegui reter na memória, como estes:
Ah! quantas vezes, quantas! junto dela
Não senti tremer sua mão na minha.
Até um soneto cheguei a compor:
Em seu leito de flores bem deitada,
Palidamente bela e escurecida,
Ela dormia, a minha doce amada,
E sonhava, de tudo esquecida.

Pela maré das águas embalada,
Era a virgem do mar adormecida.
Em maravilhosos sonhos banhada,
Mais parecia um anjo de outra vida.

Como eram aqueles seios belos!
Ah! seus negros olhos me fascinavam.
Ah! suas formas nuas me enlouqueciam.

Não te rias de mim, de meus anelos.
Por ti – vivi noites que me matavam,
E morrerei como os loucos morriam.

Já se foram vinte anos. Meus livros de poetas franceses perderam-se, rasgaram-se, queimaram-se, levaram-nos os ventos fortes de todas as desilusões. Para que conhecer Gérard de Nerval ou Leconte de Lisle, Victor Hugo ou Ronsard, se até os padres que me ensinaram francês me enxotavam? Para que guardar versos, ainda mais cheios de nymphes, amours, spectres, se só me restavam homens duros, ódios e a vida nua e crua? Meu desejo é esquecer o que aprendi e pôr para fora minhas verdadeiras emoções, ser eu mesmo, Bokodori e não Daniel Álvares.
Não me fazem falta François Villon ou Baudelaire, Mallarmé ou Apollinaire. Não sinto saudades da mademoiselle do soneto de todas as noites. Nem sequer lhe recordo o nome. Talvez seja Caroline, Marguerite ou mesmo Jeane Darc. Se estiver viva, será uma quarentona gorda, cheia de filhos e varizes, e certamente nem se lembrará mais de um selvagem chamado Daniel Álvares, que em 1913 conheceu Paris. Provavelmente também esqueceu os versos do poeta e, à luz da vela, sentada ao pé do fogo, aflita e decadente, contará apenas sua solidão.
Onde andará certo Henri Barrès que também escrevia poesia e me chamava de “bon sauvage”? Apaixonado de Jean-Jacques Rousseau, tudo lhe servia de pretexto para citar seu mestre. Sonhava com viajar ao Brasil e conviver com os índios. Terá se casado com mademoiselle Caroline? Ou vive no Amazonas, com uma silvícola? Talvez seja deputado pelo Parti Socialiste, não faça mais versos e nem se lembre mais do “bon sauvage Bokodori”.
E por que estou eu, neste relato breve e simples, a recordar-me dele, de seu entusiasmo estudantil, e da bela senhorita que declamava sonetos? Por que relembro Paris, poetas franceses, meus 15 anos, ora bolas? Hoje sou de novo apenas um selvagem brasileiro, já quase velho, cão sem dono, professor de inutilidades para meus pobres descendentes, historiador de segunda mão, que um dia acreditou em tudo, inclusive na Beleza da palavra. Je suis. Coitado de mim! Sou apenas um fantasma que se refugia na solidão da natureza. Contra a solidão, porém, nada se pode fazer.

(Continua)