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Vasto Abismo (5)

(Continuação)

Muito antes dessa noite, porém, já Humberto andava no encalço de Isaque. Descobriu onde morava e trabalhava, assim como os lugares que mais freqüentava.
Por muitas noites estiveram no Beirute. Quase sempre próximos um do outro. Humberto ia só e sentia dificuldades em arranjar mesa. Pedia um cantinho, quase por caridade. Como precisava estar ali, sentir a presença de Isaque, o inimigo, a presa! Cada palavra dele soava-lhe como um insulto. Cada gesto uma bofetada. O copo levado aos lábios significava talvez a morte.
Humberto remoía ódio, embebedava-se de solidão e silêncio. Aquele homem a seu lado, cercado de amigos, a falar de livros, poesia e amor, parecia feliz.
Não, não devia atormentar-se tanto. E passou meses sem sequer passar diante do Beirute. Cambada de bêbados, veados, vagabundos!
Voltou com muito alarde. Como a retomada de uma praça de guerra. Humberto e um grupo de sargentos. Seguidas sextas- feiras. Bebiam à vontade e só se retiravam de madrugada.
O primeiro encontro não se repetiu. O grupo de Humberto chegou cedo e ocupou duas mesas. Ao perceber a chegada de Isaque, fez desocupar uma das mesas. E logo chegaram amigos do escritor.
Propositalmente, Humberto e seus amigos falavam alto. Iam de futebol a fórmula um, de mulher a política.
Isaque reconheceu logo Humberto. Porém nem sequer o cumprimentou. O sargento parecia transtornado. Como quando Isaque o viu pela primeira vez. “Um grande escritor”, brincou Vânia, o belo sorriso nos olhos, na face. Aquilo deve ter ferido ainda mais o militar. Para vingar-se, apertou com força a mão de Isaque. Poderia quebrar-lhe os dedos frágeis.
Isaque olhou várias vezes para Humberto. Não sentiu medo, ódio ou ciúme. Talvez um pouco de compaixão. Teve vontade de falar do rival aos amigos. Terminou nada dizendo. Nas vezes anteriores nunca o “vira”. E nem pudera, pois o militar usara disfarces.
Perto da meia-noite o sargento deu um viva à “Revolução de 64”. Houve vaias, algum tumulto. Isaque não se manifestou. Até sugeriu irem embora.
Em casa anotou o incidente num diário bissexto. E lembrou de retomar as memórias. Escreveu dez linhas sobre as passeatas estudantis de 67 e 68. Mais uma vez relembrou Alice, a colega de Faculdade desaparecida em 70. Enquanto escrevia, seus olhos se molharam. Sentiu-se muito deprimido. Tentou escrever uns versos. A indignação, porém, o sufocava. E nada mais escreveu naquele dia.
Depois disso esteve poucas vezes naquele local. Havia ultimado a tradução do livro de Salústio e procurava editor. Escreveu cartas a mais de trinta editoras. Duas ou três deram-lhe resposta: não tinham interesse em publicar poesia. Pensou em arcar com a despesa da edição. Venderia o carro, reduziria os gastos domésticos e pessoais. Não, não valia a pena nada disso. Bastava o malogro de sua própria literatura. Seis livrinhos medíocres, nenhum comentário nos jornais. E talvez nem meia dúzia de leitores. Apenas parentes, amigos e sobretudo “colegas de ofício”. Muita desilusão acumulada. A vida inteira dedicada a inutilidades. Sim, seus livros não passavam disso. Para que, então, gastar dinheiro editando outro livro?
A editora acabou sendo Vânia. Belíssima impressão, com uma homenagem comovente a Isaque, escrita por Nilto Maciel, a pedido de Vânia.
Na primeira folha a dedicatória há muito escrita: “À minha última paixão – Vânia Verbena.”
Isaque tencionava escrever um livro de poesia dedicado a Vânia. Dele fariam parte o “Soneto da paixão insana” e alguns outros dados como concluídos. Porém a maior parte dos poemas restaram inacabados ou simplesmente rascunhados.
E sua última paixão não teve o privilégio de ser musa em livro.
A última sexta-feira de Isaque, o epílogo de sua tragédia não teve sequer testemunhas. Havia bebido duas garrafas de cerveja e voltava para casa. Caminhava absorto para seu carro, após esperar duas horas por uma pessoa. Haviam se conhecido há dias, apresentados por Nilto. Marcaram encontro no Beirute. Trocariam livros. “Ao novo amigo Emanuel Medeiros este As sete patas do monstro, com grande admiração.”
Como o tempo corria! Há dois anos descobrira o secular Marcus Sallustius Secundus. E como sua vida havia mudado de lá até aquele dia! Aliás, dupla descoberta num só dia: o poeta romano e a bela Vânia. Nem sabia qual dos dois lhe trouxera mais prazer.
A dois passos de seu carro recebeu o primeiro tiro. O segundo varou o livro, levado instintivamente ao peito, como escudo. Tombou junto ao veículo e mais quatro balas se alojaram em seu corpo.
E assim findou o tempo de Isaque Paiva, seu vasto abismo.
Brasília, 1991.


BOI DA CARA TRISTE
(Parábola de escárnio e maldizer)


Meu boi bonito,
Boi zabumbeiro,
Espalha essa gente
Que está no terreiro!

Do Bumba Meu Boi.


PROFECIA

-I -
Deu um tapa no lombo do boi e saiu capengando. O animal entortou o pescoço em sua direção e berrou. Zé Carroceiro estacou e virou-se.
– Volto já.
Enfiou o chapéu na cabeça e retomou a marcha. Tropicava nas pedras mal assentadas da rua, olhos pregados no chão e no casario adiante. Risinho no canto da boca, resmungava, à cadência dos passos.
– Que será?
Diante da Prefeitura, parou, benzeu-se e levou às mãos o chapéu. Ciscou feito galinha e, de supetão, venceu os sete degraus da entrada e todo o corredor que ia dar na sala do prefeito. Resfolegava, camisa grudada no corpo. Escorreu o fura-bolos na testa e despejou gotas de suor no chão. Com a mesma mão bateu à porta, de leve.
– Entre.
Frente à autoridade, cumprimentou-a com o chapéu e abaixou a cabeça, solenemente.
Retratos a óleo do Marechal Deodoro, do Presidente da República, de personalidades estaduais e municipais há muito pendurados à parede cercavam Raimundo Pitanga. Ladeavam-no bandeiras do Brasil e do Ceará. Sobre a mesa, papéis, canetas, cinzeiros, cigarros, um jarrinho de flores. Toda a sala recendia a silêncio e respeito.
– É só para falar do lixo.
Zé dizia sim com a cabeça, testa franzida, olhos piscando, boca aberta, mãos atadas ao chapéu. Prendia a respiração, aquelas barbas, aquelas patentes, aquelas imponências falando pela boca do prefeito.
– O progresso, o senhor sabe.
A voz grossa enchia a sala de palavras escolhidas, bonitas, sonoras, difíceis, às vezes engasgadas. E se misturavam à mão-caneta que ia e vinha sobre o papel, riscando, desenhando, anotando. Um cigarro atrás do outro envolvia a carroça, o boi e o lixo da cidade num nevoeiro imenso.
– Um trator.
O carroceiro amolegava a palha do chapéu, fitava as autoridades, lambia os beiços, fazia caretas.
– Entendo, sim, senhor.
Uma negra trouxe café para o edil, que o sorveu devagar, caneta apontada para o funcionário.
– Carroça, coisa do tempo do bumba, não é?

- II -
Caminhava, lerdo, mãos estiradas segurando o chapéu surrado, chinelos varrendo a rua, assustando os cachorros dorminhocos.
– Do tempo do bumba-meu-boi?
Zé atravessava a praça, atrapalhando a brincadeira da meninada, que jogava bola-de-meia, corria e gritava.
– Pára.
Parou, franziu a testa e os moleques debandaram, sumindo detrás dos benjamins. A bola contorcia-se, pequena, indefesa, aos pés do carroceiro, que a chutou, desajeitado, zambeta.

***
O pagode começou já tarde da noite, o terreiro cheinho de gente, a lua ajudando os candeeiros.
– Viva o boi.
Zé fantasiado de chifres de mesmo, arranjados com finado Capitão Marcelino, vestido de couro de remendos, balançando o chocalho no rumo do povo, dançando feito uma dama, rindo para os que iam matá-lo.
E o boi morreu e renasceu depois de um tempão de brincadeira.
– Quede a cachaça, pessoal?
– Eu não era boi de vera, ele.

***
Chegou junto ao animal, alisou-lhe a cara, vagarosamente, e disse baixinho que se preparasse para receber a notícia: o prefeito ia trocá-lo por um tal de trator. O boi estremeceu, fitou-o com demora, gemeu e chorou.
– Você não é tão velho assim, nem nunca dançou, não é?
O boi balançou o chocalho, estendeu a língua para o companheiro, como se o quisesse lamber, e em seu focinho desenharam-se as marcas de um sorriso. O carroceiro abraçou-lhe o pescoço e fungou.

- III -
Montinhos de terra e capim ao longo do fio-de-pedra, aos pés do boi, como se arrumados sob medida. O poste pintado de branco até à altura de uma pessoa descia em sombra sobre o animal, cortando-o ao meio. As paredes amarelas do Grupo, o muro alto, uma lagartixa que acenava, janelas de combogós, tudo como numa paisagem desbotada.
– Amigo velho.

***
Passavam defronte à casa amarela de porta e janela azuis na Praça Waldemar Falcão e Chico Preto pediu que parassem. Saía sangue de sua mão esquerda.
– Foi nessa lata.
Zé bateu palmas à porta da casa e pediu qualquer coisa para fazer um curativo: água, álcool, pó de café, fiapo de pano velho que fosse. Veio uma velha coberta de cabelos brancos, debulhando um rosário nos lábios murchos e arrastando umas chinelas mofadas.
O boi mugiu qualquer coisa e tiveram que pedir auxílio aos vizinhos.

***
As portas laterais da Matriz fechadas. Morcegos chiavam desesperados entre as paredes seculares. As casas, ao redor da praça deserta, refulgiam como arco-íris, assediando a Prefeitura imponente. Do chão, do calçamento evolava a fumaça do meio-dia. O carroceiro cochilava sobre os chinelos gastos, pés rachados como o sertão, calças frouxas e remendadas, cintura amarrada a cordão, mãos calosas em busca da terra, feito papungu no meio do mundo.

***
No monturo, cheiro de podridão, urubus alvoroçados, saltitantes, cachorros, porcos e galinhas disputavam restos de comida, pedaços de ratos e baratas, molambos sujos de sangue e bosta.
– Eu não me acostumo com imundícia.
Zé e Chico despejavam mais lixo para o repasto dos bichos caseiros.
– E quem vai se acostumar?
– O diabo.
O boi deu um berro tão esculhambado que os cachorros saíram em disparada, os porcos escapuliram aos roncos, as galinhas disputaram o céu aos urubus, Zé benzeu-se e Chico subiu à carroça.
– Valha-me, Santo Deus.

***
Escanchado no fio, um passarinho escorregava montado num tufo de nuvem na direção da serra. A sombra do carroceiro beijava os pés do boi, recostando a cabeça comprida no travesseiro de terra e capim.
– Eita vontade de tirar uma modorna.
O animal ergueu os chifres, olhou para o sol e respingou baba sobre a cama de pedra da rua.
– Estou é brincando, bichinho. Vamos trabalhar.
***
O prefeito, montado no jipe, passou no rumo do Potiú que parecia uma bala. Nem olhou para a carroça carregada de lixo.
– Já vai, danadinho?
O boi deu uma risada da caçoada, sem se importar com a poeira levantada pelo carro.
– Lixo de rapariga é vidro de perfume.

***
Pelos pés do carroceiro passeava uma formiga apressada. Parou no unhão e caiu no chão. Nenhum outro animalzinho andava pelo corpo do velho. Só um urubu pousava pequenino entre o chapéu e o telhado do Palácio Entre Rios.

- IV -
Com pouco, apareceu de novo o focinho de gato do jipe velho do prefeito. Aqueles dois olhões de enxergar todo mundo, aquele riso escangalhado.
A poeira subia e os cachorros atrás, malucos, inconformados com a velocidade do bicho.
– Ainda mato um peste desses.
Custou a pregar as patas redondas no calçamento. Fuçava o chão, em tempo de botar os bofes pela boca.
– Quem é, Chico?
Não o montava mais Pitanga, cavalgava-o Manuel Cotia, dentes de ouro a ranger. Apeou-se, rodou a chave no dedo, balançou as calças.
– Sede da gota.
Nem piscava o olhão amarelo do sol em cima de tudo. O chão chiava de se crestar. Zé Carroceiro apertou os olhos. Da venta de Chico escorria catinga de lixo. No lombo do boi não encostava nem mosquito.
– Vai ser jipeiro agora?
Manuel arreganhou os dentes para morder o tempo, coçou o fundo, bateu nas ancas duras do carro. Gostava lá daquela geringonça!
– Sou é tratorista.
E a chuva, caía ou não passava da Bahia? Parecia até a seca do quinze. Coitado do povo do sertão, nem chão, sem são nenhum de proteção.
– Mas Deus é grande.
O carroceiro cobriu a vista com a mão do coração e se afundou nas lonjuras do céu.
O boi almoçava o capim da coxia, incréu e sem berro.

- V -
O relógio da Matriz badalou doze vezes e as tripas de Zé roncaram.
– Lombriga.
Chico Preto diminuía cada vez mais de tamanho, no rumo do Beco de Labirinto. Pisava lá e acolá, feito urubu cangueiro.
– Sou é tratorista.
Mais nem sinal do Cotia, nem do jipe.
Fungou o carroceiro, levantou um pé, inclinou o esqueleto, quase escorregou no próprio escarro. Arrastou as chinelas na fornalha da calçada, em perseguição da sombra de sua lerdeza.
A cachorrada se metia nas latas de lixo soltas no chão, fuçava, lambia, sonhava.
Pelas janelas abertas das casas saltava a zoada de colheres cavando pratos, de meninos enjoados, homens e mães enjoados.
– Se não comer, não vai brincar.
Na praça, burros arrancavam raízes dos pés de benjamins e o mundo sobre o chapéu de Zé era uma terrinha azul com uma gema de ovo no fundo.

- VI -
Escancaradas as portas da bodega de Joaquim Traçalha, feito portão de feira. Na boca do carroceiro, nem um tiquinho de cuspe. Língua de papagaio.
– Bote uma preu matar o bicho.
O bodegueiro deu-lhe as costas, chupou os dentes, alcançou as prateleiras.
– Colonial ou Guaramiranga?
Meiou um copo nas barbas de Zé. Se chegava ou completava.
Arrolhou de novo a garrafa e viu as gengivas podres do freguês. E a cachaça a ferver na goela e se encachoeirar no rumo dos peitos do carroceiro.
– Boa, hein?
Zé meteu a mão no bolso. Dinheiro amassado e sem valor. Cobrasse e botasse outra. Criar coragem de chegar em casa.
– Calor dos seiscentos.
O bodegueiro deu o troco, retirou a tampa da garrafa, despejou a cachaça no copinho. Enfiou outra vez os olhos dentro da boca de Zé. E encolheu o nariz.

- VII -
– Lá vem o pai.
Abaixou-se o carroceiro ao passar pela porta. E só faltou quebrar os chifres.
Desbotados, grudados na parede, São Francisco, padre Cícero e Virgem Maria olhavam para o dono da casa.
Num canto, o pote, inchado, da cor de nada. O cururu havia voltado. Não adiantou desperdiçar tanto sal.
– Bicho teimoso.
Maria esfregou as mãos nos remendos do vestido, deu um pito no cachorro, caçou a vassoura.
– Trouxe a farinha?
A que tinha não dava um pirão escaldado.
O cachorro velho, cego, carga de ossos, lambia os beiços debaixo da mesa. Um magote de caneludos coçava perebas, catava piolhos, chupava catarro, fedia a bosta e ceroto.
– Vá ali na comadre, Chiquinha, e peça uma xícara de farinha emprestado. De tardinha eu pago.
A menina ensebou as canelas e chispou.
Soprou a trempe a mulher, cinza para todos os lados. E o homem ali, a rondar a mesa, tropicar nos mondrongos do chão.
– Essa menina parece que foi buscar a morte.
Levantou a vista Zé, arrotou cachaça, remoeu o lixo da goela.
– Fala, cristão.

***
Olhava para as paredes limpas da sala do prefeito, mesa repleta de tinteiros, ordens, tudo lustroso, cercado de Osório, Caxias, Deodoro, Ananias.
– O progresso da cidade, o senhor entende?
As mãos de Raimundo Pitanga desenhavam arabescos, labirintos, encenavam dramas, tragédias, e tudo encandeava o carroceiro, fazia-o perder o sossego, o equilíbrio, a razão.
– Compramos então um trator.
Sobre o bureau, fotografias exóticas, um bicho de grandes rodas, sistema dum jipe aloprado.
– E, como o senhor compreende, contratamos um tratorista.
A sala toda se retorceu, feito animal debaixo de chicote, girou, deu cambalhotas, entrou num remoinho danado. O prefeito pulava a mesa, as cadeiras rebolavam, a tinta do tinteiro sujava as paredes, os heróis pulavam fora dos quadros e se atracavam, o Palácio só faltava desabar.
– É o seu Manuel.

***
Horrorizada, Dona Maria fazia os pratos de arroz, feijão e farinha.
– Agora é ser varredor de rua.
Os meninos mordiam os beiços, chupavam as línguas, devorando o barro das panelas, olhos cheios de garras.


Páscoa

- I -

Manuel sungou as calças, alisou a cabeleira, moleques atrás de uma bola-de-meia, caras curiosas nas janelas, calorzão dos infernos. Deu uma volta ao redor do veículo e pulou para riba do bicho.
No queixo do tratorista, canhões escuros apontavam para o mundo. Entre os beiços e os buracos da venta, um bigode preto assanhado. Cara dura fincada no pescoço grosso de touro.
***
No curral da prefeitura, o boi dormia em pé e berrava. Num canto, a velha carroça coberta de moscas. Aqui e ali, touceiras de capim amarelado.
– Só resta matutar, meu boizinho.
Zé largou a pá e alisou o lombo do companheiro.
E fungou.
***
No rio, a meninada brincava de procurar água, enfiava as mãos na areia, corria, pulava, dava bundacanascas, mentia de nadar e se afogar.
– Socorro.
***
No terreiro de casa, Zé Carroceiro amarrava mato seco a um pedaço de pau.
– Que diabo é isso, homem?
Ora, se não podia mais dirigir a carroça, ia varrer rua, arrastar vassoura no calçamento.
Nem sequer levantou a vista para Maria, as mãos calosas entretidas nos nós. Também não tinha mais idade e sustança para sair correndo de porta em porta, carregando latas de lixo, como Chico Preto. Nem perder o emprego. Deus o livrasse dessa desgraça.
Fizeram o sinal-da-cruz, beijaram as pontas dos dedos.
E a carestia?
– Tudo pela hora da morte.
- II -
Antes de ser boi-de-carroça, de carregar a porcaria das casas e da rua para o monturo, vidinha besta, porca, foi garrote o amigo de Zé Carroceiro. No sertão, fartura e fome, chuva e seca, e a promessa de virar cozido. Terras de Raimundo Pitanga. E a decisão do prefeito de a Prefeitura adquirir um garrote para os serviços de limpeza pública.
De tanto fazer força e o tempo passar, cresceu, virou boi, agigantou-se. Quando pisava, o chão tremia. E todo dia passeava defronte das casas, orientado por Zé, que pouco ou quase nada nele batia, seguido de Chico Preto, que enchia até à tampa a carroça.
Tudo se limpava para se sujar de novo.

- III -
Espantou-se o boi com a passagem de homens descalços, magros, cor de cera.
– Boi bonito, hem!
Magote de sertanejos sujos e pedintes.
– Aqui pelo menos tem sombra.
Arrancharam-se diante do Palácio Entre-Rios, cobertos de chapéus de palha esfiapados, calças remendadas, pele queimada.
– Esse prefeito tem que arranjar comida.
Choro de crianças, lamentos, pragas. Seios murchos de fora e bocas sedentas a chupá-los.
– É a fome, minha gente.
Raimundo Pitanga surgiu à porta, engomado, branco, duro, a cuspir verbos.
A multidão se alvoroçou na calçada.
– O povo quer é comer, seu prefeito.
A autoridade pediu paciência, calma. Se Deus não mandava chuva, rezassem. Cada um no seu lugar. Água salgada no mar, padre na igreja, sertanejo no sertão, sapo na lagoa.
– Só se for a sua lagoa.
Riram as multidões. E cada um disse a sua, gritou, socou o chão com os pés. Menino chorou, faca riscou o cimento. Se o prefeito não arranjasse comida, invadiam a feira.
O boi lá longe fez mum.
E ninguém riu.

- IV -
Pulou do jipe Pitanga, diante do armazém de Luiz Macedo.
– Um cafezinho, chefe.
No chão, pó de tudo quanto hai, montanhas de sacos de algodão, cheiro de milho, feijão e gorgulho.
O prefeito beijava a xícara, assoprava e revirava os olhos.
– Bando de esmoleres.
Bichinhos miúdos atacavam seus pés, fartos, redondos, muitos.
– E o que se vai fazer?
Escorria suor das caras do prefeito e do atacadista. Colarinhos amarelos, bigodes tabacudos, olhos acesos.
– Caso de polícia.
Aceso, o palito de fósforo caiu bem em cima de um bichinho preto, que esticou os cambitos, estorricado.
– É a única solução.

(Continua)