Vasto Abismo (4)
(Continuação)
Enquanto isso, lia e relia autores latinos e tentava traduzir o Gurgite vasto. Logo fez outra importante descoberta: Sallustius parodiava as poesias de seus compatriotas.
Isaque conhecia pouco a literatura latina. Talvez meia dúzia de livros: O asno de ouro, umas fábulas de Fedro, odes de Horácio, A arte de amar, Eneida, etc. Lidos ao longo dos anos, em traduções nem sempre elogiadas. Agora, porém, queria mais. E de uma só vez levou para casa quase trinta autores, de Apuleio a Virgílio. Uns em latim, outros em português.
A descoberta de Isaque se deu por acaso. Havia lido durante horas umas epigramas de Marcial. Chegou a fazer observações à margem das folhas do livro e até decorou uma das poesias. Em seguida voltou a Salústio e defrontou com uma epigrama curiosa. Salvo engano, já a conhecia. E pôs-se a cismar. Daí a pouco correu de volta a Marcus Valerius Martialis. Sim, uma epigrama imitava outra.
A partir de então se dedicou a um duplo trabalho: traduzir o livro de Sallustius e esquadrinhar as obras de outros escritores. Até encontrar nestes peças parecidas com as daquele.
No entanto a vespa da paixão não deixou de ferroar Isaque. Precisava rever Vânia. E pedir-lhe explicações. Afinal, não eram adolescentes. Se ela recusava uma aventura, por que não serem amigos? Para que fazerem-se inimigos?
Sim, iria procurá-la. No máximo ela diria ser casada, direita, e gostar muito do marido. Com mais otimismo, Isaque poderia ouvir uma confissão fundamental: ela jamais namorara outro homem, após o casamento, porém não gostava do esposo. Apenas o suportava. E então estaria aberta uma porta para a aventura. Tudo dependeria dele, de sua habilidade de cortejador.
Munido de tais raciocínios, dirigiu-se à Câmara. Na bagagem levou ainda uma relação de títulos de obras latinas. Ponto de partida para chegar à moça.
Antes de alcançar a biblioteca, encontrou uma amiga de Vânia. Haviam se conhecido lá mesmo. Por que não voltara mais? Desculpou-se: trabalhando muito, sem tempo para os livros.
O nome de Vânia logo veio à baila. Cheia de problemas. Pensando até em pedir remoção para outra seção. Seria, pois, de boa prudência que Isaque não visitasse tão cedo a biblioteca.
E Joana o chamou a um canto. Vânia andava apavorada. Pois, se Humberto descobrisse “tudo”, uma tragédia poderia ocorrer.
Ainda fingiu não estar entendendo nada. Não conhecia nenhum Humberto. A moça sorriu. Sabia de todos os detalhes do caso. Por pouco Humberto não vira as poesias enviadas a sua esposa por Isaque. Tomasse muito cuidado. Não repetisse tamanha tolice.
Num primeiro momento sentiu enorme pavor. Viu-se morto, um tiro no coração, estendido no meio da rua. E a multidão a correr, gritar. Não, Vânia não devia ter contado nada ao marido. E nem contaria.
Procurou um barzinho. Precisava se acalmar. Nada de apavoramento. Contudo não enviaria outros versos a ela. Não cometeria mais esse pecado juvenil. Aliás, aquela poesia melosa estava fora de moda. Nenhum homem nestes tempos de “sexo explícito” seria capaz de seduzir mulher com versos românticos. Coisa ultrapassada. O tempo das serenatas há muito passara.
Por que não levar a Vânia as poesias eróticas de Salústio Segundo? Pois todos os poemas do romano tangiam a lira de Eros. Pelo menos aqueles já traduzidos. Como a paródia do “Anni tempora”, de Ovídio.
Com certeza ela não se escandalizaria. Até porque já devia ter lido muita porcaria. Sobretudo nos romances norte-americanos. Pois adorava esse tipo de literatura. Apesar de trabalhar junto a livros tão diferentes disso.
Isaque não a censurou por ler aquelas histórias feitas de crimes, espionagem e sexo. Apenas riu e prometeu-lhe seus próprios livros. Ela iria gostar muito de O punhal de Brutus – brincou. Devia ser um “romance emocionante” – ela dissera, emocionada.
Não conseguia vender seus livros. A não ser nas sessões de autógrafo. Vinte a trinta pessoas, todas parentes e amigos. Depois a corrida atrás dos leitores. Deixava dez exemplares em cada livraria da cidade. O resto levava para casa, enviava a escritores desconhecidos ou ofertava.
Acusam-no de amadorismo. Escritor não devia dar livros. Nem pagar para ser editado. Antes exigir pagamento de direitos autorais e deixar por conta dos livreiros a comercialização dos livros. O leitor – diziam – não respeita escritor amador. Não respeita e não lê.
“De uma forma ou de outra, sou escritor” – objetava Isaque. E ria dos “escritores eternamente inéditos”.
Porém ria sem convicção. Sua obra talvez não merecesse mesmo ser publicada e lida. Daí a decisão de não mais escrever. Pelo menos durante um ou dois anos. E se dedicar à leitura dos clássicos.
Tão devotado andava a ler os latinos e a traduzir Salústio que chegou a sonhar escrevendo versos em latim.
Uma feita acordou em pleno sonho. Pulou da cama, agarrou caneta e papel, e anotou – Odi et amo: quare id faciam, fortasse requiris.
Imaginava ter escrito o verso para Vânia. Mas logo percebeu o engano – Catulo escrevera a epigrama para Lésbia.
Sonhava também vivendo no tempo dos Césares. Num desses sonhos procurava Marcus Sallustius Secundus. Andava pelas vias de Roma, a perguntar pelo poeta. Ninguém conhecia tal cidadão. Cansado de vagar pelas colinas, terminava o dia no interior do Coliseu. Súbito ouvia um rugido de leão. E acordou.
Enquanto traduzia, Isaque tentava esboçar uma biografia de Salústio. Mas como fazê-lo, se as enciclopédias nenhuma referência faziam do poeta?
A primeira pergunta seria: em que tempo ele vivera? Sua própria obra poderia dar a resposta. Bastava encontrar menção a nomes de imperadores, cônsules, tribunos, etc. Ou de poetas, historiadores, filósofos, etc. Para começar, relacionou alguns nomes, bem como os respectivos anos de nascimento e morte.
Descobriu, então, num dos poemas de Salústio, alusão a Lucio Apuleio. Logo, teria sido, no mínimo, contemporâneo deste. Ou seja, poderia ter vivido entre os anos 125 e 170.
Antes descobrira semelhanças entre algumas epigramas de Salústio e de Marcial. Como este viveu até 104 d.C., aquele havia sido posterior a Catulo, Estácio, Horácio, Ovídio, Plauto, Terêncio, Virgílio, e outros poetas.
Assim, Salústio Segundo teria nascido durante o governo do imperador Antonino e morrido sob Sétimo Severo. Suspeitou Isaque haver o grande parodista cometido suicídio.
Satisfeito com seus achados, escreveu a alguns amigos e telefonou a outros. Logo a notícia se espalhou. Muitos escritores, porém, novamente não lhe deram crédito. Jair Vitória riu. Que interesse podia haver naquilo? Afinal, latim era língua morta. Guido Heleno fez trocadilhos, inventou piadas: Salústio Segundo vivera até demais, pois chegara a Sétimo Severo. Outros dois, no entanto, deram importância à nova. Nilto Maciel e Salomão Sousa. Este quis até conhecer Isaque Paiva: “Apresente-me a ele, Nilto.”
Entretanto Isaque só queria rever Vânia. E comunicar-lhe o resultado de seus estudos. Aproveitaria a ocasião para mostrar-lhe os poemas já traduzidos. Mas como seria recebido?
Encontraram-se à saída da Câmara. Ela assustou-se e apressou o passo. Ele precisava falar-lhe. Só um minutinho. Ela ainda opôs resistência. Não queria mais conversa com ele. Seu casamento corria riscos. Humberto seria capaz de matá-los.
Isaque mudou de assunto. Só desejava falar-lhe do livro de Sallustius. E pôs-se a falar. Sentia-se agora um homem singular. Ninguém antes havia traduzido ao português aqueles poemas. Além do mais, o romano era completamente desconhecido. Nem as enciclopédias o citavam. E tudo graças a ela. “Por quê graças a mim?” Não fosse ela, jamais teria achado aquela raridade. Pois foram seus olhos que o prenderam àquela biblioteca. Iria publicar o livro em português. E o dedicaria a ela.
Ao despedirem-se, ofereceu-lhe cópia dos poemas já traduzidos. Lesse e desse opinião. Ela disse não estar interessada em ler poesia. Mas enfiou na bolsa a papelada. E saiu, quase a correr. Como que petrificado, ele se deixou a olhar para aquele vulto serpeante e lesto, que ora sumia, ora reaparecia, no amplo estacionamento.
Quando se deu conta da solidão em que se achava, Isaque pensava nas suas memórias. No projeto de escrevê-las. Há mais de ano recolhia documentos pessoais e de familiares. E fazia anotações. Sobretudo de datas e fatos importantes. Como o seu ingresso na Universidade. O agitado 1967. As grandes passeatas, jornalecos revolucionários.
No entanto só lembrava os nomes de dois ou três colegas de Faculdade. Recordava, sim, as feições de quase todos. E alguns fatos do cotidiano. Os livros, os namoros, uma colega bonita chamada Alice. A vontade de aproximar-se dela, atraí-la para si. Chegaram a estar a sós na sala de aula. Ela, porém, não o deixou abrir a boca. Falou o tempo todo, talvez meia hora, do Camarada Mao, da Guerra Popular, da necessidade da luta armada...
À noite, Isaque escreveu um conto. Intitulou-o “A camarada”. Uma estudante maoísta chamada Célia, que amava um poeta chamado Basílio. Esse conto está no seu primeiro livro, editado em 1971.
A maravilhosa Alice ele nunca mais a viu. Disseram-lhe ter desaparecido ainda em 1970.
Quando recordava pessoas já mortas, Isaque se deprimia e pensava em desistir de escrever as memórias. Melhor ler os clássicos. Até que Salústio Segundo apareceu e o fez esquecer os pesadelos do passado: “Vivamus, mea Julia, atque amemus...”
A quem teria Sallustius amado? Descobriu Isaque alguns nomes de mulher nos versos do poeta. O mais citado talvez seja Julia. Há, porém, ainda Justina, Livia e Lucila.
Julia teria sido amante do Imperador Cômodo. Pois um dos poemas de Salústio termina assim: “Amada minha, que teu senhor te esqueça e nunca mais te incomode.”
Uma de suas mais bem realizadas paródias foi escrita a partir do famoso poema que Catulo dedicou a sua amada:
“Vivamus, mea Lesbia, atque amemus,
rumoresque senum severiorum...”
Quase toda a poesia de Salústio fala de amor. Daí parodiar poetas que dedicaram muito de sua arte a Cupido. Há até um pequeno poema cujo título copia o do notável Ars amandi de Ovídio.
Outras vezes Salústio simplesmente utilizava provérbios para intitular seus poemas. Como Amor tussisque non celantur (Não se pode esconder o amor e a tosse). Ou Nit transit amantes (Nada escapa aos amantes).
Um dos poemas satíricos do parodista intitula-se Rerum novarum. Fala de escravos e senhores. Para Isaque ocorreu mera coincidência ao haver Leão XIII dado o mesmo título à sua famosa encíclica.
O escritor Guido Heleno dava explicação para a “coincidência”: Salústio vivera após 1891. Seu verdadeiro nome poderia ser Isaac, Isaque ou mesmo Nilto.
Ao tomar conhecimentos da pilhéria, Isaque Paiva se aborreceu. Arrancaria a peruca de Guido, em pleno Beirute, num sábado à noite.
Zangado ainda, dirigiu-se à Câmara. Precisava desabafar urgentemente. E só Vânia lhe servia de confidente.
Ela riu do chiste de Guido. Devia ser uma pessoa muito engraçada. E os poemas, lera? Sim, pareciam bem escritos. E bem traduzidos. Parabéns pela tradução!
Conversavam animadamente, quando apareceu Humberto. Fora buscá-la de carro. Saíra mais cedo do quartel. Vânia apresentou um ao outro, meio assustada. “Isaque é um grande escritor”. Humberto apertou, com firmeza, a mão do rival. E perguntou se o expediente já encerrara. Isaque alegou estar apressado, e retirou-se da sala, quase a correr.
SEGUNDA PARTE
Humberto perguntou como ia o escritor. Vânia se fez de desentendida. A que escritor ele se referia? Na televisão passava um filme publicitário. A seguir passou outro. Ela se aborreceu. Havia propaganda em demasia. Queria ver logo a outra parte do drama.
Finalmente acabou o tempo dos comerciais e Las Vegas reapareceu na tela. Cassinos iluminados, homens e mulheres elegantes a jogar. Humberto e Vânia calaram-se.
Mesmo longe da biblioteca, vez por outra ela sentia cheiro de livro velho. E jurava mudar de função. Voltaria à máquina de escrever. Preferível passar o dia datilografando ofícios a andar fedendo a traça e mofo. Além do mais, aparecia cada tipo esquisito à procura de cada livro estranho!
Isaque talvez não fosse um tipo esquisito. Nem lembrava mais a primeira vez em que o vira. Quando se deu conta de sua presença, já ele havia passado talvez horas a mirá-la. “Hoje vim aqui só para te ver”. Sorriu, e lhe perguntou o nome. Procurava livros de autores antigos. De preferência gregos e romanos. Se houvesse uma seção assim... Havia, sim; ficava mais para o fundo.
Tantas vezes ele voltou, que ela não mais o esqueceu. Fazia perguntas sobre livros e sobre ela. Ia e vinha, namorava aquele ambiente de cheiro forte, perdia-se entre as estantes. Disse-lhe, com certo prazer íntimo, ser casada e mãe de dois meninos. Só não falou da idade. Se ele não perguntava, não tocaria no assunto. Se tivesse 30 ou mais, subtrairia 4 ou 5.
Isaque não disse logo ser escritor. Até brincou: “Sou um leitor inveterado, sem cura.” Ela também gostava de ler. Não autores antigos. Preferia os modernos. Lia desde menina. E até escrevera poesia. Agora lia menos. Dispunha de pouco tempo. Os filhos, a casa, o trabalho. De qualquer forma, ele queria dar a ela um de seus livros. “Você é escritor?”
Não teve coragem de levar para casa o livro ofertado por ele. Aquela dedicatória, se lida por Humberto, seria causa de briga. Chamava-a de flor e falava em amizade e admiração.
Falou de Isaque a algumas amigas. Estaria ele querendo envolvimento amoroso com ela? Ou apenas amizade? Uma delas, Joana, arregalou os olhos, quase entrou em pânico. Melhor dar um basta naquilo. Falar sério com ele. “Você não disse ser casada?” Dissera, sim. E mesmo assim ele continuou a atacar? Só podia ser um grande sem-vergonha. Cuidado, muito cuidado! Aquilo acabaria em tragédia! Bastava a história chegar aos ouvidos de Humberto.
Seguiu à risca os conselhos das amigas. Ao primeiro convite para saírem juntos disse “não”. Ele não insistiu, mas voltou nos dias seguintes à biblioteca. Vânia escondia-se, fugia dele. Passava horas em aflição, feito criança medrosa. Por que não enfrentá-lo?
Ocorreu, então, outro curto e áspero diálogo entre eles. Não desejava nenhuma amizade com Isaque. Nada de intimidades. Se não fosse possível conversarem como simples conhecidos um do outro, melhor ele sequer lhe dirigir a palavra. Como se nunca tivessem se conhecido.
Sabia ter sido ríspida, mal-educada. Talvez Isaque não merecesse aquele tratamento. Pois apresentava-se sempre muito amável. E poderia mesmo querer somente amizade.
Não, Joana tinha razão. Um homem não importuna uma mulher senão com intuitos amorosos. Claro que alguns contestam isso. E até essa contestação faz parte do jogo da conquista.
Além do mais, adorava Humberto. Não exatamente a pessoa, mas o macho. Com ele satisfazia-se plenamente na cama. Um homem ideal. Chegava a ser bruto, animalesco. Sobretudo após beber. Ameaçava-a de morte, caso ela o “traísse”.
Vânia não entendia o motivo das ameaças. Pois nunca dissera a Humberto nada como: “Não me traia, para não ser traído.” Pelo contrário, jurava amor e fidelidade até a morte. Não descumpriria o juramento prestado perante Deus.
E todos os domingos assistiam à missa. Desde crianças.
Pois exatamente ao regressarem da igreja, num domingo chuvoso, Humberto encontrou em casa umas “poesias imorais”. Dez ou mais folhas de papel. Entre as páginas de um velho romance. De certo Boter Wrigus. Presente de aniversário de Vânia, dado por uma amiga.
Humberto não conseguia ler nada. Só jornais. Lia os cadernos sobre esportes, boletins do Exército, folhetos da Igreja. Qualquer livro dava-lhe sono, preguiça, tédio. Folheava-o, lia uma frase aqui, outra ali, e nada lhe despertava interesse por aqueles pequenos objetos feitos de papel.
A curiosidade, ou a ociosidade, levou-o a folhear o romance de Boter Wrigus. Um dos maiores vendedores de livros do mundo. “Esse escritor é americano, meu bem?” Se não fosse americano, seria inglês, australiano, irlandês... De qualquer forma, um homem muito rico.
Retirou as folhas de papel de entre as do livro e leu um verso. Sentiu-se mais curioso. Aquilo cheirava a “porcaria”. Leu todo o primeiro poema. E passou a outros. Sim, um amontoado de bobagens. E quem as trouxera para dentro de seu lar? Talvez a doméstica. Sua mulher não seria capaz de ler tamanha imundície.
Ainda desejou rasgar as folhas, queimá-las, levá-las à lixeira. Só desistiu disso quando percebeu que as palavras Marcus Sallustius Secundus constavam em todas as folhas. Seria o autor das poesias?
Ao vê-lo às voltas com os versos, Vânia pensou em arranjar um bode expiatório que a livrasse de reprimendas ou mesmo agressões. E pôs-se a rir. Ele ergueu a mão que segurava as folhas: “Estou esperando uma explicação para isto.” Ela continuou rindo. Brincadeira de uma amiga. Aliás, não lera ainda uma só folha. Pois não devia ler mesmo. Pura imoralidade! E quem escrevera aquilo? Um poeta romano. Ele riu. Desde quando ela gostava de poesia? Se ainda fosse “poesia romântica”! Nem prostituta lia aquilo. Qual o nome da amiga? Joana não seria capaz de tanta baixeza.
Pressionada, Vânia acabou contando parte da verdade. Aquela papelada pertencia a um amigo. “E com que intenção ele lhe deu isto?”
As rusgas tornaram-se freqüentes. Ela vivia nervosa, agitada. E ora se sentia culpada, ora inocente. Via-se adúltera e mal conseguia olhar nos olhos de Humberto. Com remorsos, transformava-se em cozinheira, copeira, arrumadeira. Ele estranhava as atitudes dela. À noite ela o provocava, beijando-o, abraçando-o. E jurava a si mesma dar um ultimato a Isaque, no dia seguinte. Ou ele deixava de perseguí-la, ou ela contaria tudo a Fátima e Humberto.
Não, não diria nada nem à mulher de Isaque nem a seu marido. O tiro poderia sair pela culatra. Não acreditariam em sua versão. Humberto diria sempre que estupro só acontece com criança. Mulher adulta sabia se defender, se quisesse. Machista como o resto dos homens!
Nesses momentos sentia-se apenas vítima dos desejos de Isaque. Sem culpa e sem pecado. Inteiramente inocente. E jurava não cozinhar, não arrumar a casa, não lavar a louça. Deixar tudo por conta de Cristina. E, se Humberto não a solicitasse de noite, dormiria o melhor dos sonos.
Uma noite teve um sonho inusitado. Após ler os poemas de Salústio. Banhava-se numa fonte com outras ninfas. Súbito, de entre os arbustos, surgiam alguns faunos. Entre eles Isaque. Apavoradas, punham-se a correr. E assim terminava o sonho.
No dia seguinte ele a convidou para saírem juntos. Lembrou-se da perseguição noturna e disse-lhe não. Melhor afastarem-se um do outro. Se fossem solteiros, poderia ser diferente. E, sempre que o via aproximar-se da biblioteca, escondia-se, retirava-se. Contava com a ajuda, o socorro de Joana. “Ele chegou” – avisava. Logo Isaque percebeu o jogo de Vânia. E durante dias seguidos não apareceu. Já acreditava ter ele desistido dela, quando Isaque reapareceu. Só restava ameaçá-lo. Caso continuasse a perseguí-la, faria escândalo.
Parecia até brincadeira, jogo de esconde-esconde. Quando menos esperava, ele reaparecia. Se o aguardava, ele não dava sinal de vida. Ou Isaque tramava outras maneiras de se fazer presente. Como quando enviou ao endereço dela um envelope recheado de versos. Ao recebê-lo, das mãos de Humberto, sentiu um arrepio em toda a pele. Como se adivinhasse o nome do remetente. No entanto Isaque utilizou nome feminino – Quésia. Na verdade, um anagrama. “Quem mandou essa carta?” Vânia titubeou e terminou dizendo: “Uma amiga”. Apesar de não se lembrar de nenhuma Quésia.
Eram poemas do próprio Isaque. Todos escritos para Vânia. Um deles – “Soneto da paixão insana” – deixou-a profundamente comovida. Talvez pela declaração de amor.
Uma loucura aquela atitude de Isaque. E se Humberto lesse os versos? Melhor, pois, queimar toda a papelada. Quando, onde? Pois não se queimam cartas de amigas.
TERCEIRA PARTE
Humberto não sabia explicar, mas sentiu que aquele homem magro, moreno e feio seria, ou já era, seu inimigo. Lembrava-se perfeitamente daquele fim de tarde, do calor, da agitação nas ruas. Havia no ar algo de diferente dos outros dias. Talvez uma molécula de ódio. Como um ser invisível, a voar em torno de sua cabeça. O demônio, qualquer espírito mau.
Vânia conversava animadamente com o sujeito. Certamente tramavam novos encontros. E aquele devia ser o décimo, o centésimo.
O momento exato do surgimento do diabinho deve ter sido quando foram apresentados um ao outro: “Isaque, meu marido; Humberto, um amigo.” Ou logo a seguir, quando Isaque se retirou, apressado. Provavelmente com medo, rabo entre as pernas, feito cachorro.
Um dia teria que acontecer aquilo. Mesmo não sendo comum ir à biblioteca buscá-la. Naquele dia, porém, conseguira sair mais cedo do quartel. E decidira encontrar Vânia. Doutras vezes nada disso lhe passava pela cabeça. Ia para casa, ficava na rua, procurava amigos, tomava cerveja. Daquela vez, porém, o demônio já devia rondar-lhe a testa. Um dia aconteceria o pior.
Há algum tempo, no entanto, percebia nervosismo em Vânia. Por tudo se irritava. E alegava excesso de trabalho. O chefe exigia demais, os colegas não colaboravam. Discutiam quase todo dia. Chegaram a falar em separação, divórcio. E os meninos? Quem cuidaria deles? Ela se arrependia, chorava, pedia desculpas.
Até então Humberto de nada suspeitava. Não lhe chegava à cabeça nenhuma idéia de adultério. Acreditava no amor de Vânia. Na sua sinceridade, na sua honestidade.
Mas vieram os poemas de Salústio, e o veneno da dúvida se instalou no peito do sargento. Nenhum mal haveria se os versos fossem de Camões ou de Vinícius. Poderiam até ser de Gregório de Mattos. O mal estava em terem sido copiados por um amigo de Vânia. De quem eram os versos? “De um poeta romano.” E desde quando ela gostava de versos? Ali havia mistério, com certeza.
Por que mentia? Por que aceitara a papelada? Talvez não imaginasse que o marido lesse um só verso. Ou, mesmo lendo, não percebesse seu teor. Ingênua! Chamava-o de burro e agia tão asnamente. Ou pusera em prática a teoria de que o esconderijo mais seguro é o guarda-roupa do chifrudo.
Humberto ainda quis exigir explicações de Vânia. Não, talvez não valesse a pena. Afinal, toda mulher é tentada com palavras e gestos. Mesmo as feias, ou as mais feias. O que dizer, então, de Vânia? Muitas vezes percebia os olhares ávidos dos homens, absortos à passagem dela. Sim, tudo nela chamava a atenção: o porte, as ancas, os cabelos lisos e castanhos, o rosto bem delineado, o jeito de olhar, falar, andar. Portanto, o tal amigo dos versos romanos devia ser apenas mais um tentador à espreita da bela presa.
Mas outros versos apareceram entre os objetos de Vânia, em suas bolsas, em gavetas. Com certeza escritos pelo amiguinho brasileiro, o tal Isaque, embora não houvesse neles indicação de autoria. Pois soavam bem atuais, diferentemente dos primeiros. Em vez de Vênus, vestais e quimeras, só uma mortal neles aparecia – Vânia. Como no “Soneto da paixão insana”. O cúmulo da indecência!
Ainda assim preferiu Humberto esperar. Aquilo não significava traição de sua mulher. Não podia acusá-la de nada. Talvez de receber versos de um dom-juan. Que é o mesmo que ouvir palavras de sedução na rua. E toda mulher as ouve. Até as surdas.
Pensou em falar aos irmãos. Ou apenas a um deles – Artur. Vez por outra trocavam idéias, confessavam pequenos pecados. Um confiava no outro. Desistiu da idéia. Artur poderia tomar alguma decisão precipitada. Talvez até agisse sozinho, com uso de violência. Melhor procurar um amigo, algum colega de farda. Seus familiares jamais saberiam a verdade. Lembrou-se de Fernandes. E o convidou para uma cervejada. Quem mais iria ao bar? Ninguém. Precisava fazer uma confidência.
Tomaram duas cervejas, e nada de Humberto contar o segredo. O outro chegou a se aborrecer. Se Humberto não confiava nele, por que fizera o convite?
A história terminou mal contada. Os personagens não se chamavam Vânia, Humberto e Isaque. De qualquer forma, havia um poeta que enviava versos a uma mulher casada. Aquilo só podia ser coisa de veado.
Não soube quantas cervejas tomou. Só voltou para casa tarde da noite. Vânia fingia estar adormecida. Humberto pôs-se a despi-la e ainda ela apenas resmungava, como sempre. Tudo fingimento dela. E ele gostava que fosse assim. Talvez o estranho desejo de possuí-la em sonho.
Como de outras vezes, ela disse que o amava muito e ele repetiu que adorava possuí-la. Repetiu também a ameaça: se soubesse de qualquer traição dela, matava-a. Vânia mais uma vez reafirmou fidelidade conjugal.
E estava mais acordada do que nunca.
QUARTA PARTE
Ana vivia ultimamente triste. Quase não via seu pai. Deixou de ser aluna estudiosa e até repetiu o último ano do primeiro grau. Talvez se sentisse só. Por que seus pais não lhe “fizeram” uma irmãzinha? Repetia a pergunta de muitos anos atrás, quando confundia bonecas de pano e plástico com criaturas de carne e osso.
Isaque ainda tentou arranhar desculpas para suas ausências. Andava lendo muito, pesquisando, preocupado com sua vida íntima de escritor. Precisava encontrar novo rumo. Sentia-se perdido, atônito, confuso. Teria valido a pena escrever aqueles seis livros? E se construísse um grande romance? Sim, de vez em quando imaginava-se autor de um livro como Ulisses. Talvez lendo os clássicos gregos e latinos encontrasse o fio da meada. Um herói do século XX inspirado na Grécia ou em Roma antigas.
E falava de poetas antigos para a menina. Lia em voz alta versos em latim:
Nec bibit inter aquas, nec poma petentia carpit
Tantalus infelix, quem sua fata premunt;...
Onde andava o velho dicionário de latim? Terminou comprando novo dicionário. Àquele faltavam a capa e várias folhas. Precisava traduzir Salústio. Se não tivesse voltado à biblioteca, tudo teria sido diferente? Talvez o destino explicasse aquela história. Vânia havia sido posta em seu caminho pelos deuses. Inútil querer a vida de outra forma. Nec bibit inter aquas...
Ana não sabia latim, não gostava de poesias e fugia dos livros. Uma vez até chorou, após ouvir uma sátira de Horácio. Choro sem explicação.
Isaque teve vontade de também chorar. Ou gritar, fugir, sumir. Aninha não merecia um pai como ele. Nem Fátima merecia aquela traição. Tão boa, tão dedicada ao lar. Não deveria ter rivais. Não, aquilo era apenas uma paixão passageira. Logo esqueceria Vânia. Aliás, talvez nem se tratasse de paixão. Apenas desejo.
Quando Fátima descobriu a ponta do fio, nada disse a Isaque. Talvez esperasse novas provas. Não lhe fez sequer uma pergunta. Ele negaria tudo.
Certo de que ninguém no mundo sabia de seus novos sentimentos, Isaque vivia aquela paixão em toda sua plenitude. Para ele, Fátima não imaginava um só átomo de seu tormentoso momento. E por que andava tão nervosa? E a menina, macambúzia, arreliada?
Fátima chegou a seguir os passos de Isaque. Sim, ele só podia ter outra mulher. E queria saber quem era ela. Esteve no banco onde ele trabalhava. Conversou com colegas dele. Sondou diversas pessoas. Não encontrou o menor indício da outra. Pensou em contratar um detetive.
Além do mais, Isaque se dedicava então aos versos. Dia e noite a rabiscá-los. Com certeza havia paixão ali. Ninguém escreveria “versos apaixonados”, se não vivesse uma paixão.
E o nome dela até aparecia em alguns poemas. Sim, chamava-se Vânia. E iria conhecê-la, encontrá-la. Talvez matá-la.
De tanto seguir os passos de Isaque, chegou à Câmara. Perdeu-o de vista logo à entrada. Voltaria noutro dia. Não, melhor esperar. E meia hora depois Isaque saía, acompanhado de uma mulher. Exultou. Enfim descobrira a amante de seu marido. Por que não matá-los logo? Não conduzia arma. Uma faquinha sequer.
Nervosa, Fátima os seguiu. Mais adiante ele se despediu da mulher. Nem um só beijo. Não, aquela não poderia ser a amante, a musa dele. Até porque parecia ter a idade dele, se não fosse mais velha. E nenhuma beleza.
Conseguiu aproximar-se da estranha. Chamava-se Joana e trabalhava na Biblioteca da Câmara. Conhecia, sim, Isaque. Porém há pouco tempo. Ele freqüentava a biblioteca, à cata de livros antigos. “E você quem é?”
Fátima passou a ler todos os manuscritos, rascunhos, anotações de Isaque. Queria a história completa da traição. Desde quando ele a traía e não mais a amava.
Leu até as memórias, as poucas folhas já escritas. Quem seria uma tal Alice? Talvez mais uma das namoradas de Isaque. Não, ele falava de um passado distante. A pobre Alice havia desaparecido em 1970. Provavelmente assassinada pelos militares.
Deixou de lado aquele caderno melancólico. Revirou outras gavetas e encontrou os versos traduzidos de Salústio Segundo. Talvez fosse o próprio Isaque. Um pseudônimo. E uma tal de Julia não seria outra senão Vânia.
Quando leu o “Soneto da paixão insana”, quase ensandeceu. Ali estava a prova mais concreta do crime. O nome da outra aparecia com todas as letras. Tudo às claras. Como se Isaque fizesse questão de revelar sua traição.
Quis rasgar, queimar tudo. Não deixaria um só registro daquela malfadada paixão. Tolice. Com certeza havia cópia.
Leu, com sofreguidão, o prefácio para a edição brasileira dos poemas de Marcus Sallustius Secundus. E só então se convenceu de que não eram de Isaque aqueles versos às vezes tão repletos de lubricidade.
Depois encontrou o velho exemplar do Gurgite vasto. Tudo latim. Isaque não teria escrito aquilo. E nunca lhe falara de tal livro. Tentou ler alguns versos. Inútil. Não entendia nada. "Vivamus, mea Julia, atque amemus..."
Sim, Julia vivera há 2.000 anos. Estava morta, virara fóssil. E sentiu um desmedido alívio, como se de sua alma todos os tormentos sumissem no Infinito.
Mesmo assim, nada mudou na vida dos dois. Continuaram distantes um do outro. Cada vez mais distantes. Como se caminhassem em sentidos opostos. Ela para leste, ele para oeste.
Aconteceu, então, o primeiro ato da tragédia. E Isaque por pouco não perdeu o juízo. Um acidente automobilístico deixou Vânia ferida. E o causador de tudo teria sido Humberto. Bebera em demasia. O carro chocou-se contra um poste de iluminação pública. Vânia foi lançada contra o painel.
Isaque só soube do fato no dia seguinte. Queria visitar Vânia. Precisava vê-la, ter certeza de que nada havia de grave. Não, Joana não tinha razões para mentir. “Você não deve ir à casa dela.” Então telefonaria.
Não, não deveria telefonar. Vânia talvez nem falasse nada. Ou dissesse alguma grosseria. Como naquela tarde muito quente em que a convidara para saírem juntos. O primeiro “não” dela. Um golpe fundo na carne. Para curar a ferida, só a bebida. E sentou-se numa cadeira de bar, bebeu cerveja e escreveu uns versos amargos. É desse dia o pequeno poema “Vasto abismo”:
A dor,
seja a de ficar,
seja a de partir.
O amor,
por mais negado,
por mais aceito.
Tudo é abismo,
o vasto abismo,
onde se afunda
o Ser.
Porém aquele “não” de Vânia já era passado. Agora precisava saber do estado dela. Mesmo por telefone.
Isaque não se identificou e Humberto não insistiu. Passo o fone a Vânia, que falou com tranqüilidade, segurança. Voltaria ao trabalho em quinze dias.
Foram quinze dias de ansiedade para Isaque. Como desejava rever Vânia! Aquilo só podia ter sido proposital. Humberto quisera matar a esposa. Ou matar-se com ela.
Não demorou muito, Humberto e Vânia se separaram. Decisão menos trágica que a morte. Conheceria outras mulheres. Talvez menos tontas que aquela.
Só às vésperas da separação Humberto contou a história a seus irmãos e amigos. Não a mesma que tentou narrar ao sargento Fernandes, no bar. Agora havia mais capítulos. Artur fez-se pasmo e em nenhum momento falou em reação violenta. Se o mano desejava aquilo, só restava cuidar da papelada.
E por que não matar o outro? A idéia veio à tona como uma purgação. Houve até risos e comemorações. E todos quiseram pagar a despesa. Artur quase chorou ao ombro do irmão. O sargento Fernandes dançou, deu vivas ao colega, despejou cerveja na mesa.
(Continua)