Vasto Abismo (3)
(Continuação)
Impressionado com o velho e suas histórias, ao deixar a tapera, busquei a Gruta dos Morcegos, crente de lá encontrar pelo menos inscrições dos antigos jenipapos. Helena não quis se aventurar a escalar as pedras. Deixou-se ficar a uns dez metros da entrada da caverna. Meti-me entre as rochas.
Logo ao primeiro passo ou rastejo, ouvi vozes, como se nos subterrâneos pessoas estivessem presas.
Sons estranhos se misturavam uns aos outros. Pareciam ecos, ondas de sons. Como se uns se sobrepusessem a outros, infinitamente. Do fundo do tempo emergiam vozes. Como se o tempo fosse um imenso abismo. Como se a caverna fosse um buraco sem fim. A gritos, ais, impropérios, lamentações seguiam-se risos, louvores, hinos, cantos. Esquisitas palavras, jamais ouvidas por mim: ucá, nhurae, ané, dé, inghé, prodonhé, croné, keri, pri, nhado, cri, tidzi, dinhacri, hi, radamy, canghi, sacri, dinateri, dupari, bidzamu, pocu, cru, puru, tçambu, dzu, boronunu, duramã, damã... (*)
Minha cabeça parecia uma caixa de ressonância, como se eu todo ou só ela fosse a própria gruta. Ou a terra. Eu sentia dentro dela o passado, as vozes dos antepassados. O tempo, em confusão, sem qualquer cronologia, rolava dentro de mim. O caos. Como se eu penetrasse no túnel do tempo. Descesse ao fundo do poço das eras. As primeiras vozes falavam de morte, destruição, guerra. Aconteciam batalhas, morticínios. Ais coletivos. Gemidos plurais. Dores absolutas. Bandeirantes furiosos decepavam crianças com suas espadas.
Preciso me desmentir: nada ouvi, nenhuma voz. Só vi os morcegos, em nado veloz nas tormentas da treva, perdidos, doidos. Pressentia-os no vácuo da caverna. Porque entre aquelas pedras ninguém podia viver ou estar.
No entanto quem sussurrava, gemia, chorava? Ou o eco de duzentos, trezentos anos pode permanecer entre paredes de pedra?
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Naquele momento também teorizei que um só ai mil vezes repetido pode engendrar palavras e frases.
Acreditei estar no único recanto da serra onde pudesse encontrar os vestígios de meus ancestrais e suas últimas vozes resguardadas pelas pedras da gruta. E me fiz atento, calado, inerte, pronto a recolher cada uma das palavras perdidas da fala dos jenipapos. Seus lamentos e prantos, seu desespero e sua dor de gente destruída a ferro e fogo. E por que não havia levado um gravador? Mas como imaginar a possibilidade de ouvir os mortos? Devia, então, ter levado lápis e papel. E a memória? Sim, a memória é capaz de tudo, sobremodo na treva.
Louco! – diria Eduardo. Os morcegos me farejavam o sangue.
Gruta é útero. Para ela voltamos. Vivos ou mortos. A terra nos espera.
Por que Eduardo não quis subir a serra? Medo nunca teve. Sempre se mostrou corajoso e aventureiro. Ou queria me deixar a sós com Helena? Ora, não precisava se preocupar tanto com minha libido.
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(*) Palavras cariris que significam, respectivamente: amar, filho, sonho, mãe, criança, além, nu, animais, sangue, morreu, mulher, mortos, eu, sepultura, bom, nasceu, trabalho, matador, feiticeiro, lágrimas, rio, flor, cabeça, água, escravo, inimigo, longe...
Quero escavar meu chão. Pisar de novo minha terra. Rever a casa onde moramos. Se possível, seu interior, da sala ao quintal. Passar um ou dois dias lá. Dormir até. Eu e Helena. Os proprietários ou inquilinos compreenderão minha angústia. Como da outra vez, quando nos autorizaram a entrar. Não tive, porém, coragem de pedir mais. E a visita durou apenas alguns minutos. Que valeram anos.
Da próxima vez, no entanto, quererei muito mais. É-me imprescindível revisitar o quintal, aquele paraíso onde eu e a menina nos perdemos. Ou o verbo adequado não é este?
Não importa a palavra, interessam o pensamento, o sentido.
Andava farto de aventuras. Conhecia cada palmo da cidade. Minhas noites dariam mil e uma. Mulheres de todos os feitios. Poucos amores, passageiros. Algumas amizades, até certo ponto duradouras. Como a de Helena.
Não sei por que já durava tanto minha relação com ela. Talvez fosse compaixão. Suas dores me doíam. A estupidez de seus pais. A falta de perspectiva no mundo do trabalho. Estudos interrompidos. Uma paixão frustrada. Tudo numa pessoa tão cândida, com um jeito de menina ensimesmada.
Nossas conversas às vezes terminavam em lágrimas. As dela eu enxugava, as minhas eu reprimia.
Helena adorava “filmes românticos”, praias, cerveja, dança. E também estar comigo. Eu atendia quase todos os seus desejos. Quando dispunha de tempo e me sentia dela compadecido. Ou quando não maquinava fugas, durante minhas crises de nostalgia.
Não gostava de falar de mim para ela. Preferia ouvi-la. Ou falarmos dos outros. Apesar disso, não me escondia inteiramente. E ela conhecia um pouquinho de mim.
Quando contei meus devaneios, pela primeira vez, Helena apenas ouviu. E olhava para meus olhos, como se quisesse entender, em toda sua profundidade, minhas palavras. No dia seguinte me pediu para contar mais.
E eu temia não passar da primeira frase. Um riso de deboche a me fazer mudar de assunto.
Embora tenha encontrado uma Palma transfigurada, modernizada, descobri alguns “sítios arqueológicos”. Daí a necessidade de repetir a aventura. Só ou com Helena.
Se ela não fosse tão melindrosa, poderíamos volta à Serra. O velho da tapera talvez nem exista mais. E agora, com esta seca terrível, nenhuma chuva atrapalharia nosso passeio. Iríamos à gruta ouvir as vozes dos jenipapos. Não, isto com certeza a assustaria. Ora, ninguém resiste a tanto. Vozes soterradas, seus ecos, são coisa do outro mundo. Pura fantasmagoria.
Tanguera sou eu. Tanguera não existe. Tanguera é aquele menino que envelheceu e virou fantasma. Tanguera não tem nome. Tanguera é a solidão, a angústia, a dor.
TERCEIRA PARTE
Na semi-escuridão sentiu medo. Bichos venenosos se esconderiam nas fendas da gruta. Permaneceu imóvel, olhos bem abertos, quase paralisado. Sentiria a picada mortal e mal teria tempo de chegar a campo aberto. Logo seria devorado por cobras e lagartos. E depois – se tivesse sorte – curiosos como ele descobririam sua ossada. Algum pesquisador diria tratar-se de restos de indivíduo da tribo dos paiacus, dos jenipapos, dos canindés, dos quixelôs... Paleontólogos falariam em homem pré-histórico. Até que exames mais apurados revelariam a verdade – o esqueleto pertencera a um cidadão de Palma, até meio claro, com algum sangue português nas veias, e recentemente falecido. Um maluco que andara à procura de índios e cavernas, a vagar pela Serra.
No meio do mato avistaram aquele homem e sua distração, figura torta, sem simetria, no ir e vir das horas. Um homem parado feito marmota, como se ali o tivessem posto para espantar os passarinhos que chegavam aos bandos e pios, na algazarra dos cios, voavam, faziam piruetas e fugiam, ao pressentirem vida nos olhos de gente daquele boneco.
Decerto daquelas bandas não era, nem de perto. De que terra então teria vindo? De bem longe, das distâncias, das alturas, das funduras? Cruz-credo!
Não trazia, porém, feições de tentador, antes de quem não se acostumou a ver bicho e pasmado se fica.
Teria nascido das águas ruidosas e apressadas do Choró ou os ventos do mar o haviam remado contra a correnteza? Mas não mostrava jeitos de peixe, antes de seixo.
Teria sido simples pedra tosca feita humana imagem baça ao longo de tantos ventos? Ou teria surgido das folhas das árvores, nos tormentos da agonia, à moda de borboletas, essas voantes margaridas? Larva invisível, teria saltado do ovo primitivo, feito um fantasma, e adquirido forma de asquerosa lagarta peçonhenta? E depois de crisálida, para diurnamente e descorada adejar no meio da folharia, pronta a imitar a vida que ao seu redor pulava? Mas não semelhava bicho, antes pau. Seria então carnaúba desfolhada pelo mal de tantos ventos?
De costas para o litoral, o homem olhava e mirava o sertão. E os braços estendia – um querendo beber o rio e sua correnteza, outro tocando a verdura do mato e sua ingremidez.
Aquele homem-marmota parecia querer desvendar o mistério dos limites de um velho país chamado Curiancó. A terra dos sonhos de dois lusitanos que imaginaram estender braços e pernas, feito raízes eternas, fazê-los crescer e abarcar a selva dos jenipapos. E tornarem-se gigantes, novos atlantes – uma bota no meio do rio, outra no pico da serra. Imensa sesmaria que mais tarde pudesse competir em largura com o Paiz do Jaguaribe.
Homem ou marmota, nunca ali nem noutra era aquele estranho se achara. Jamais os braços estendera com tanta liberdade, nem os olhos alongara por tanto tempo na direção de tamanhos horizontes, quer nos idos dos jaguares, quer na idade dos mastodontes. Nunca as oiças afrouxara para tão chorosas águas, nem o peito estufara para tão insanos ventos, nem em tão formoso leito os pés deitara.
Aquele espantalho não usava chapéu de palha nem roupa remendada. Apenas espantava gente. Seria por acaso alma penada de morto de tocaia, coitado capinador transformado em desafeto de coronel?
Medrosa, aquela gente crédula não lhe deu bom-dia, nem lhe fez pergunta alguma. Os mortos que vivam em paz, no compasso das ave-marias.
E ele desapareceu, assim, sem deixar rastro. Teria sumido no oco da serra, se metido no seio da terra, fugido de pássaros e ventos, de bichos e gentes?
Talvez se tratasse de cidadão areado que não mais encontrava o caminho de volta, perdido entre a visão e a loucura.
Viram-no em todas as partes, visível e invisível, detrás de árvores, nos altos dos picos, no meio dos rios, só, sempre só, venerado por bichos, à distância, de perto.
Viram-no com o pé na estrada, retirante que parte sem nada. No Pico Alto, pequenino ponto entre o sol e a terra, perdido animalzinho nas cumeeiras do mundo, inesquecível vagabundo.
Nas cercanias da ladeira de Itapaí, braços estendidos, como a querer parar o trem da morte.
Por último foi visto na Tijuca, mãos a escavacar a terra, à cata de possíveis vestígios de índios. Tinha, então, feições de bicho da lama, estátua de barro a locomover-se ao léu, nu feito um selvagem, coberto de ramaria. Pura assombração.
Aquele homem, desde pequeno, na sonolência dos crepúsculos, no correr dos dias bisonhos, escancarava a janela dos anseios e se via a saltar grotas e abismos. Fugia de seus semelhantes, de si mesmo, olhos nunca fartos. Num pulo mágico, num salto trágico, voava de casa para o alto da Serra. A solidão a abrir-lhe caminho para os desregramentos da carne e a insânia da arte.
Nos invernos, a névoa tomava conta do verde, como se o céu descesse. Obnubilava-se tudo – sonho e realidade. E o menino virava poeta. As nuvens caíam feito setas, e até sua tristeza se enchia de frio.
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VASTO ABISMO
Apparent rari nautis in gurgite vasto.
Virgílio, Eneida
PRIMEIRA PARTE
Durante mais de vinte anos Isaque Paiva se imaginou um homem incomum, quase excepcional. Dias antes de morrer, porém, compreendeu quão vulgar havia sido sua vida. Mesmo enquanto durou aquela paixão tão censurada e tão repelida. Uma ligação perigosíssima, é certo, mas ainda assim vulgaríssima.
Acreditou-se, desde adolescente, fadado aos livros. Lia tudo, com sofreguidão. Enquanto seus irmãos brincavam na rua.
Aos 36 anos havia escrito e publicado seis livros. Porém uma enorme insatisfação o roía. Não passava de um principiante, um ilustre desconhecido. As seis edições tomavam conta de todas as brechas das estantes de sua casa. Além disso, não via mais qualidades em nenhuma das obras que escrevera. Tudo inutilidades.
A idéia de recomeçar, deixar o passado para trás, ser um novo Isaque, engendrar outro sonho conduziu-o aos antigos. E pôs-se a ler e reler Homero, Virgílio, Horácio, etc. Logo descobriu a imensa pobreza das traduções brasileiras da velha literatura, sobretudo a grega e a latina. As livrarias dispunham apenas dos livros mais conhecidos. Autores como Teócrito, Calímaco e Plauto não constavam sequer nos catálogos das editoras. Isso o levou a interessar-se por obras raras e autores esquecidos. Mas onde os encontrar? Talvez nas velhas bibliotecas.
Chegou a elaborar uma lista enorme de nomes de escritores antigos e esquecidos, assim como de suas principais obras. Entre eles os poetas Joaquim de Sousa, Mário da Silveira e Alf. Castro.
De posse de tantos nomes e títulos, Isaque bateu às portas da Biblioteca da Câmara. E num só dia fez duas descobertas maravilhosas: o secular Marcus Sallustius Secundus e a vintaneira Vânia Verbena.
O livro parecia não ter sido sequer manuseado alguma vez. Pois as folhas dobradas assim permaneciam. No entanto recebera capa dura e letras douradas: GURGITE VASTO – Marcus Sallustius Secundus.
A curiosidade de Isaque se aguçou ao perceber que não se tratava de tradução. Sim, tudo em latim. Embora a edição fosse inglesa e datasse de 1847. Na última folha havia até uma referência à recente publicação de O Morro dos Ventos Uivantes.
Tentou ler alguns versos. Não conseguiu entender quase nada. Seu latim não ia além dos aforismos mais divulgados: Abyssus abyssum invocat. Manus manum lavat. Verba volant, scripta manent. Et coetera.
Com certeza não havia tradução portuguesa daquela obra. Não se lembrava sequer daquele nome. Havia, sim, outro Salústio, porém Caius Sallustius Crispus.
De qualquer forma, levaria o livro por empréstimo. Não poderia perder a oportunidade de “ler” aquela obra rara. Sim, rara. Talvez raríssima.
E dirigiu-se, com afobamento, a uma funcionária. Queria levar um livro. Quanto tempo poderia ficar com ele? E se não conseguisse ler o livro dentro do prazo?
Diante da moça assustada, de rosto sereno e belo, Isaque lembrou-se das ninfas e deusas da mitologia. Mas precisava sair logo dali, voltar para casa, folhear o livro, ler aqueles versos latinos. Noutro dia olharia com mais atenção para aqueles olhos tão doces. Não, nada de ninfas, nada de mitologias. Devia, sim, cuidar de sua literatura, de seus interesses de escritor. Poderia, por exemplo, reescrever tudo. Pelo menos os versos. Não, jamais conseguiria transformá-los em boa poesia. Obra da juventude. Alguns escritos há vinte anos. Quase um menino ainda.
Reconhecia, embora tardiamente, sua mediocridade. Seis livros medíocres! Uma vida inteira dedicada a escrever, acreditando-se um escritor talentoso. Vinte anos enganado. Enganando-se. Primeiro dizendo-se poeta. Depois contista e romancista. Por último crítico literário.
Procurou o velho dicionário de latim. Faltavam folhas, além das capas. Uma relíquia! Nem lembrava mais como e quando o adquirira. Melhor comprar outro. E por que não voltar à Biblioteca? Assim reveria a funcionária bonita.
Sentiu no peito uma pontada. Remorso. Ana não merecia um pai daqueles. E Fátima, tão boa, tão dedicada à casa, à filha, a ele mesmo, nunca deveria ter rivais.
Ora, não havia nada entre ele e a moça de biblioteca. Nem sabia o nome dela. Talvez tivesse um nome horrível. Geraldina, Raimunda, Salustiana.
E que mal havia em achar bonita uma mulher? E mesmo admirá-la? E até desejá-la? Quem se julgasse livre de tais “pecados” que lhe atirasse a primeira pedra.
Saiu então decidido a ir às livrarias. Compraria uma gramática e outro dicionário latim-português. Terminou, porém, indo logo à Biblioteca. E, ao cabo de uma hora de idas e vindas pelos corredores, colheu duas importantes informações: a moça chamava-se Vânia e era casada.
Ao ver Isaque, ela o reconheceu, pois sorriu e perguntou pelo “poeta romano”. Se já iniciara a leitura.
Nos dias seguintes ele voltou à biblioteca. Olhava as lombadas dos livros, folheava um ou outro e, ao final, se dirigia a Vânia.
Um dia ofereceu-lhe exemplar de seu livro As sete patas do monstro. Ela devia gostar de ler, pois trabalhava entre livros. Sim, adorava ler. Sobretudo romances.
Na primeira folha ele escreveu: “Para Vânia – uma flor em pessoa – com a amizade nascente e a admiração crescente de Isaque Paiva.”
Em casa e no banco dedicava horas seguidas a estudar latim. Fazia exercícios, declinava vocábulos, traduzia frases. Lembrava o tempo de estudante, menino ainda. Os colegas, o colégio, os estudos. O professor de latim, a exigir que os alunos decorassem tudo. Fábulas de Fedro, historinhas curtas e cheias de graça. Fame coacta vulpes alta in vinea... Trechos das catilinárias: Quosque tandem, Catilina, abutere nostra patientia? E também da guerra gaulesa de Júlio Cesar: Gallia omnis est divisa in tres partes...
Porém não conseguia tirar da cabeça a imagem da funcionária risonha. A vontade de revê-la arrastava-o de casa ou do banco para a rua, e desta para a biblioteca. E a vontade logo se fez necessidade. Precisava ver todo dia aquela criatura.
Mas o que diria ela? Com certeza já percebera o excesso de idas dele à biblioteca. E os outros? Já conhecia porteiros, ascensoristas, bibliotecárias. Melhor passar uns dias sem pôr os pés na Câmara. Podia xerografar o livro de Salústio, devolvê-lo e nunca mais ver aquela moça.
Xerografado o livro, Isaque tratou imediatamente de devolvê-lo à biblioteca. Sentiu até um alívio, como se retirasse um peso da cabeça, da consciência.
E pôs-se a pensar com persistência na hipótese de ter em mãos uma obra latina nunca traduzida para o português. Mas quem poderia tirar essa dúvida? Logicamente que especialistas em literatura latina, professores de latim, etc. E quem eram essas pessoas? Não se lembrava de conhecer uma só delas.
Escreveu cartas a alguns amigos escritores. Falou de Salústio e do livro. Suspeitava ter descoberto uma raridade. Não se referiu, no entanto, ao sonho de traduzi-lo.
Sim, se Gurgite vasto não tivesse tradução portuguesa, ele, Isaque Paiva, poderia se tornar um homem famoso. Por descobri-lo e por traduzi-lo.
A notícia do achado de Isaque logo se propagou pela cidade. Poucos, porém, lhe deram importância. Outros riram. Então já havia até descobridores de livros?! E quem seria esse tal de Isaque Paiva? Decerto algum impostor. Brincadeira de desocupado. Adrino Aragão chegou a declarar que tudo – Isaque, Salústio, livro –, tudo era obra de Nilto Maciel. Houve risos no bar Beirute. Emanuel Medeiros pediu até outra cerveja. “Essa é por conta do amigo Nilto Maciel.”
Nada, porém, afastava a imagem de Vânia do pensamento de Isaque. Se tentava ler os versos do romano, toda puella assumia as feições da moça. E a via no lugar de toda dea, confundia-a com Vênus. Se escrevia cartas, o nome dela teimava em aparecer no papel. Rememorava com exatidão os mais triviais gestos dela. Recapitulava todas as palavras ditas por ela.
Tais ruminações logo deixavam o leito do acontecido, do vivido, para conduzi-lo a caminhos imaginários. Da biblioteca saltava para as ruas. Destas para os parques. Destes para os bosques. E terminava príncipe encantado a beijar a bela adormecida.
Acordava-se, assustado. Para que tanta fantasia? E voltava à Câmara, a tal dia, àquelas palavras tão cheias de graça, àquele olhar tão misterioso.
Não, não devia ficar ruminando o passado. E muito menos sonhando encontros. Devia, sim, procurá-la, convidá-la para tomarem um chope. Se ela dissesse não, insistiria. Persistindo a recusa, só lhe restaria desistir de tudo. E voltar a Salústio, aos romanos, ao latim, à velha e destruída Roma.
Afinal encontrara um novo ruma na vida. E não devia evitá-lo. Ao contrário, seguí-lo apaixonadamente. Pois perdera vinte anos de vida, a escrever uma literatura de quinta categoria. Iludido, certo de ter versos eternos e histórias modelares.
Lembrava-se perfeitamente da emoção sentida quando da publicação do primeiro livro. Título latino, a evidenciar erudição. Sentira-se um novo gênio. Revelação no gênero conto. Tivera até a breve ilusão de um dia viver de literatura. Tornar-se novo Jorge Amado. Porém o livro não chegou sequer aos jornais. A pequena tiragem teria encalhado em três ou quatro livrarias, não tivesse Isaque oferecido a parentes e amigos a maior parte dos exemplares.
Procurava fugir dessas recordações. Como se fossem aves agourentas. Espantava-as, irritado. Aliás, só queria mesmo o presente. Nada de passado. A não ser o dos livros. E por falar nisso, quem teria sido aquele poeta Salústio? Pois nenhuma enciclopédia o citava. O único Sallustius célebre fora historiador, e não poeta.
Se Marcos Salústio Segundo não tivesse existido, quem teria escrito Gurgite vasto? Ora, aquele nome poderia ser um pseudônimo – brincou Guido Heleno. E quem garantia ter sido escrito ao tempo de Roma Antiga? Por que os versos não podiam ser de muito depois? Mesmo do século 19? Talvez de algum inglês extravagante.
Não, Isaque não queria simples hipóteses. Em algum livro deveriam constar referências ao seu Salústio. E pôs-se a consultar Histórias de Roma, biografias de escritores latinos, ensaios, estudos, tudo sobre a literatura romana.
Diariamente voltava à Biblioteca da Câmara. E conversava com Vânia. Falavam dos livros, do trabalho dela, da pesquisa dele, disso e daquilo.
O primeiro “não” ele ouviu dela numa tarde muito quente. Desapontado, instalou-se numa cadeira de bar e só se retirou quase à meia-noite. Bebeu algumas cervejas e rabiscou versos sobre versos.
O “não”, pensando bem, poderia ter sido um “sim”. Questão de som. Pois ela o disse a rir e sem qualquer sombra de hostilidade.
No dia seguinte, porém, o “não” se confirmou em toda a sua plenitude. Pois Vânia mal cumprimentou Isaque. E até, em dado momento, deixou a mesa onde trabalhava, para só voltar muito mais tarde, quando confirmou ter Isaque ido embora.
Sentira-se ofendida. Por ser casada, comprometida com um homem. Se aceitasse o convite, estaria maculando sua própria imagem. Como se jogasse fezes no espelho onde se mirasse.
Ele tentou reaproximar-se dela. Nada, porém, fazia Vânia mudar de idéia. Melhor Isaque afastar-se definitivamente dela. Não a procurasse mais. Como se nunca tivessem se conhecido.
Desesperado, ele bebia e lia poesia todo dia. Releu em duas semanas alguns livros. Sobretudo os poetas líricos. Fez uma seleção dos versos que julgou mais adequados a seu estado de espírito. Tirou cópia deles e os enviou, pelo correio, a Vânia. Ao mesmo tempo se pôs a também escrever poesia. Primeiro aventurou-se pelo latim. Mas logo desistiu dele. Jamais realizaria tamanho intento.
É desse período o “Soneto da paixão insana”:
Este é o soneto da total insânia,
da mais completa, mais total loucura.
Nele o amor não vem da antiga Albânia,
não tem segredos, muito menos jura.
O amante não nasceu na Mauritânia,
sequer andava em busca de aventura.
Não se chamava a bela moça Jânia,
talvez não fosse muito bela e pura.
Essa paixão assim mediterrânea
é faca que maltrata, que perfura,
amor que pode dar em desventura.
O nome dela é, meus leitores, Vânia,
e esta paixão é tão terrível e dura
que até na morte não teria cura.
(Continua)