Anderson Braga Horta: Poemas
POEMAS DE ANDERSON BRAGA HORTA
INDAGAÇÕES
A prancha, o papel, os óculos, a caneta.
E a inspiração não vem.
Donde surge o poema?
De que portas que se fecham
e que tento arrombar,
ferindo-me nos escombros?
Ah! donde vem o poema?
Da indisfarçável dor que carrego nos ombros?
Do encontro, da cópula,
do amor das palavras,
umas levando a outras em livre contubérnio?
Ou de uma luz interna,
que pinga pelas brechas, pelas trincas do muro?
Donde sangra o poema?
De um equívoco? de um útero?
de algum nebuloso agregado de acasos?
De que nebulosa?
É um parto? um jogo? um grito?
De onde desce o poema?
Nasce por gravidade?
por leviana vaidade?
por ato de vontade?
Desce do espírito? sobe da matéria?
Flui do coração
ou da mente?
É tijolo que se acrescenta
ou mera imitação?
É suor, cálculo ou flora?
É tudo isso em mistura,
retrato da criatura
que em criador se arvora?
Não sei. Só sei que tonto,
perdido em meio às taças,
bebo os álcoois do poema.
E suplico ao Incógnito
que, indagando do poema,
de mim ache a resposta.
LASCIVA EMBRIAGUEZ
Lasciva embriaguez da poesia,
da música e do amor! uma só cousa
sois vós para quem quer, para quem ousa
o mergulho na vaga fugidia
que é o impulso da vida. Fugidia
mas constante, um arder que não repousa,
que desconhece o falso estar da lousa,
que funde o ser na sempiterna via.
Ó lasciva embriaguez, toma-me os passos
e deixa-me sonhar pelos espaços
do Ser, indiferente à realeza
da fortuna e da glória, inteiro e salvo
de toda circunstância, que é teu alvo
o coração fremente da Beleza!
UM SONHO
“I have a dream.”
Martin Luther King.
Eu tenho um sonho.
Um sonho grande e belo
como a vida.
E essa bandeira agitarei como um libelo
ante o nariz da morte.
Eu tenho um sonho.
Aos sequazes da morte,
aos profiteurs da morte,
aos que industrializam a morte,
aos traficantes da morte
será morte o meu sonho.
Não me ofereçam coroa de rei
nem coroas de louros.
Eu tenho um sonho.
O homem que tem um sonho
é maior do que o rei,
é mais forte que o herói,
é mais belo que o poeta.
Mas eu,
que não sou belo,
nem forte,
nem grande,
eu tenho um sonho.
Sim,
eu tenho um sonho.
Farei comícios demagógicos,
comporei poemas ridículos,
escreverei cartas comprometedoras,
cantarei canções piegas,
serei escravo,
mendigo
e palhaço
para que vingue o meu sonho.
Pois tenho um sonho.
Acreditem os adoradores do Lucro,
os beneficiários da Força,
os idiotas da Contenção do Verbo,
os anti-românticos por falta de inspiração
ou por conveniência,
os solitários do Medo,
os bandoleiros do Vício:
Eu tenho um sonho!
E no meu sonho a Terra é azul e verde
e o homem tem a cor de sua alma.
Por Deus, eu tenho um sonho!
E nesse sonho o Homem se levanta
acima das contingências,
acima da dor e do dólar,
acima do sigma e do estigma,
acima da fome e do estrume,
acima da cor e do décor,
acima do grotesco e do sublime,
acima de todas as desagregações,
acima de todas as degradações,
acima de todas as ruínas.
Eu tenho um sonho.
E porque tenho um sonho
sou Homem.
Brasília, 22 de julho de 2001.
PLANALTO
§
O mar é um grande pulso que lateja.
O planalto é um mar de vagas imobilizadas na diástole,
e o pulso anula-se na tensão áspera da pele.
§
Gritos mineralizados. O tempo
lapida os cristais fendidos do silêncio.
E das fissuras mana (imperceptível)
uma saudade marinha.
§
Esmagado espanto vegetal. Pássaros
nadam entre as algas. Seres
estranhos
deslizam no fundo. Restos.
§
O Homem, navegador crispado,
vem sulcar estas águas
coaguladas. Decifra na face
do planalto (memória
de mar petrificada)
seu arcano, e semeia-lhe
arquipélagos.
§
Sobre as vagas imóveis
um vivo mar agita-se.
HOCHEBENE
Tradução de Curt Meyer-Clason*
§
Das Meer ist ein grosser Puls der klopft.
Die Hochebene ist ein Meer von in der Diastole lahmgelegten Wellen,
und der Pulsschlag setzt sich in der rauhen Spannung der Haut ausser Kraft.
§
Mineralisierte Schreie. Die Zeit
schleift die von der Stille gespaltenen Kristalle.
Und aus den Rissen taucht (unmerklich)
eine Meeressehnsucht.
§
Erdrückter pflanzlicher Schrecken. Vögel
schwimmen zwischen den Algen. Seltsame
Wesen
gleiten auf dem Grund dahin. Reste.
§
Der Mensch, zusammengezuckter Seefahrer,
wird diese geronnenen Gewässer
befahren. Auf dem Antlitz der Hochebene
(versteinerte Erinnerung an das Meer)
entziffert er sein Geheimnis
und besät es
mit Inselgruppen.
§
Auf den reglosen Wogen
bewegt sich ein lebendiges Meer.
* Curt Meyer-Clason, de Munique, é o mais notável tradutor de escritores brasileiros para o alemão. Atesta-o, por exemplo, a monumental tradução de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, avalizada pelo autor.