JOSÉ HÉLDER DE SOUZA: CONTOS
CONTOS DE JOSÉ HÉLDER DE SOUZA
José Hélder de Souza nasceu em Massapê (1931) e cedo se mudou para o Rio de Janeiro e depois Brasília, onde faleceu. Contista, poeta, romancista e crítico literário, é autor de Coisas & Bichos (1977), Rio dos Ventos (1992) e Pequenas Histórias Matutas (2000), no gênero conto. Em outros gêneros publicou A Musa e o Homem (1959), A Grandeza das Coisas (1978), Os Homens do Pedregal (1979), Sonetos de São Luiz (1981), De Mim e das Musas (1982), Cabo Plutarco, O Berro D’água (1982), Raul de Leoni, Poeta de Transição (1984), Relvas do Planalto (1990), Brilhos e Rebrilhos de Goiás (1990).
DE COMO VIVEU E MORREU O QUINCA
DAS CONTENDAS
Madrugadinha, o arrebol quebrando a barra do horizonte, a claridade do sol se espalhando devagar pelo mundo iluminou a silhueta do coronel Joaquim Mariano – o velho Quinca Mariano – montando seu bem ajazeado quartau baio para mais uma de suas costumeiras viagens para percorrer suas terras, usufruir suas três ricas casas e gozar os amores, os afagos de suas três mulheres, uma legítima, casado pela segunda vez, depois de viúvo, no juiz e no altar, as duas outras amigações. Iniciava o percurso de sua perambulação, na segunda feira, saindo da cidade de Massapé, subia a Serra da Meruoca, em dois dias descia a serra indo para a vila do Mombaba, sábado estava de volta a Massapé.
Também chamado de Quinca das Contendas, o nome da maior de suas fazendas, herdada do pai Manoel Jerônimo, propriedade da família desde tempos bem antigos, vinda de seu avô, Joaquim como ele, que a tivera de seu bisavô, Capitão Godofredo Hortêncio de Aguiar, fidalgote alentejano da Vila Pouca de Aguiar, ribeira de Xarrama, freguesia de Alcaçovas, vindo para as margens do Rio Acaraú, costa nordeste do Ceará, no princípio dos setecentos, tempos do aldeamento dos índios Tremembés pelos padres da Companhia de Jesus, em torno da igreja da Almofala, na praia de Lençóis. Dali, depois da expulsão dos padres por ato do Marquês de Pombal, Godofredo penetrou para o sertão, subindo o Rio Acaraú, estabelecendo se na sesmaria denominada Contendas, no sopé da Serra da Meruoca.
Por muitos e muitos anos viveram os Aguiar nas Contendas, casando primos com primas, criando filhos e netos, a sesmaria do velho Godofredo Hortêncio sendo dividida e subdividida entre seus herdeiros, diminuindo o latifúndio e a força política e econômica dos descendentes do fidalgote alentejano, com título e benesses adquiridos por seus ancestrais godos nas lutas cristãs com os mouros, nas planícies do Alentejo, pontas da península ibérica, comandando troços de almogávares a incursionar no campo inimigo da mourama até de jogá los para fora do Algarve.
Família grande a dos Aguiar, fundadores de vilas como a do Mombaba e de cidades como Massapé e de forte presença na política e na vida social e econômica daquela região, com a setecentista cidade de Sobral e sua vizinha Santana do Acaraú, como os centros. Os machos da família, todos muito viris, homens de muitas mulheres. O patriarca Capitão Godofredo Hortêncio criara, desde os tempos da Almofala, dezoito filhos legítimos, de vinte e três partos de sua mulher Ana Mendes, filha de Dona Brites Mendes de Vasconcelos, descendente de Vaz Carrasco, o primeiro colonizador do Acaraú, chegado no fim do século XVII àquelas praias. Godofredo teve mais oito filhos apanhados. Joaquim, seu filho, sustentou quinze rebentos de sua mulher Angélica e semeou, pelas vastas terras sesmeiras de seu pai, dez filhos de moita, dizia se, em barrigas de moças solteiras e de mulheres casadas. Manoel Jerônimo, o terceiro da linha, casou três filhos, um deles o primogênito Quinca Mariano, da segunda, Maria Amélia, teve mais oito. Fez muitos outros nas amigações que teve.
O Quinca, sempre orgulhoso de sua ascendência, quando viu a terra de seu bisavô minguando nas muitas partilhas de heranças, cuidou de dar novamente grandeza à casa senhorial das Contendas. Foi no tempo da borracha, nos mil e novecentos, os seringais amazônicos transbordando em riqueza. Vendeu boa parte dos bois e vacas de sua fazenda para ter alguns mil réis para se estabelecer na nova vida e tocou se então para a selva, em busca de fortuna. Deixou suas terras confiadas ao primo Nicácio de Aguiar Oliveira. Casou se, antes de partir, nos seus bons vinte anos, pela primeira vez, com a parenta Francisca da Glória e foi morar na selva e nela abrir estradas de seringueiras. Foi parar nas margens do Rio Juruá, na Boca do Acre, onde, com meia dúzia de agregados levados das Contendas, venceu um bocado de mata e estabeleceu o seringal do Maxirixi. Ganhou dinheiro muito, vendendo borracha por libra esterlina, em Manaus. De seis em seis meses fazia a viagem de mais de mês descendo os rios, noites e dias, em batelões próprios, do seringal até a capital do Amazonas, para ele mesmo vender as bolas de borracha, centenas, produzidas no Maxirixi, na casa exportadora dos ingleses, não confiava em correspondentes que, dizia, enganavam os tabaréus seringalistas. Formado um bom cabedal, vendeu o Maxirixi a um outro paroara, voltou para o sertão do Acaraú, com mulher e os quatro filhos nascidos na selva, ocupando novamente a casa avoenga das Contendas, decidido a reviver a grandeza dos Aguiar.
Começou comprando, dos primos e aderentes, os pedaços de chão desmembrados, por heranças, do corpo de terra sesmeira de seus avôs. Em pouco tempo tinha restabelecido os limites da antiga Contendas, quatro léguas, da beira do Rio Acaraú até o pé da Serra da Meruoca, com uma légua da largura. Nesta vastidão botou novamente centenas de vacas leiteiras e muitos touros e boiotes, bois mansos para puxar carro e bolandeira de engenho de cana e casa de farinha. Nos campos, lotes de bestas e seus potrilhos e muitos cavalos, tanto alotador como de sela. No fim do inverno ferrava para mais de quinhentos bezerros e poldros. Nas beiras do rio, terrenos ricos, de aluvião, muitas plantações de milho e feijão. Nas capoeiras, os algodoais; nas beiradas das lagoas, o capim manteiga e a canarana para alimentar o gado nos meses de estio. E mais: bodes e cabras, aos bandos, rebanhos de carneiros, além das criações de galinhas, patos, perus e capotes nos terreiros da fazenda. Com a força das libras comprou outras terras nas margens do Acaraú e também no alto da Serra da Meruoca. Na serra construiu outra casa senhorial, sediando se no Sítio Capim Frio, com engenho de cana e casa de farinha.
Em Massapé, cidade nascida no tempo da construção da Estrada de Ferro Sobral-Camocim, em 1881, nas terras da antiga Fazenda Santa Úrsula, outra velha propriedade dos Aguiar ergueu a casa de morada da família propriamente dita, com oito janelas de frente, portada alta e larga, com bandeirola bem no meio das janelas, escada de seis degraus para chegar A sala principal e ao resto do casarão. Francisca da Glória e seus quatro filhos foram nela instalados. A mãe da família, Dona da Glória, como era chamada, gozou pouco do conforto desta residência. As febres da Amazônia, a maleita pegada no Maxiriri acabaram por destruir, paulatinamente, sua saúde e, finalmente, sua vida.
Enterrada a mulher no mausoléu dos Aguiar, no cemitério de Massapé, depois de muito choro, muita reza e missa de corpo presente, com a parentada toda dos Aguiar comparecendo aos funerais, Quinca foi mudando sua vida.
Para encher as noites solitárias no alto da serra, botou na casa do Capim Frio uma cabocla nova e faceira que lhe fazia cafuné, quando anoitecia, depois do jantar. Passava o dia em idas e vindas pelo canavial, engenho e casa de farinha, dando ordens aos trabalhadores, administrando alambique destilador de cachaça e a feitura de rapadura e de farinhadas nos seus estabelecimentos. No fim do dia, sentado numa cadeira espreguiçadeira, no alpendre, olhando a noite cair, o sol sumindo nas quebradas dos cumes, deliciava se com os cafunés de Maria das Dores, filha mais nova da viúva Marialva, antiga moradora das terras serranas, seu marido fora rendeiro da propriedade. Dizia a língua do povo que, antes da filha, Quinca Mariano vivera seus amores com a viúva. Passados uns tempos, depois de muitos cafunés, seduziu a moça virgem e com ela amasiou se. Da mancebia resultaram muitos filhos enchendo a casa do alto da serra, Das Dores sempre prenha, barriguda.
Numa casa menor, porém igualmente confortável, não muito distante da senhorial sede da fazenda Contendas, no Mombaba, acabou abrigando uma segunda mulher, a Ambrosina, a encher suas noites com o frescor dos seus vinte anos e o perfume de manjericão de que trazia sempre um ramo nos cabelos. Casa a encher se, mais tarde, de outros filhos da segunda amigação.
No fim de um ano de viúvo, casou de novo com a prima Adelina, a quem já confiara, depois da morte de Dona da Glória, a casarona da praça da matriz de Massapé e seus quatro primeiros filhos. Adelina, dentro de algum tempo, nos seus belos 25 anos – casara com 19 incompletos –, era a madrasta dos quatros primeiros e mãe de mais sete filhos de Quinca Mariano, um parto a cada ano e grandes festas domingueiras de batizados na matriz, com fartos almoços para os padrinhos e os convidados, no salão da casa de nove portas.
Joaquim Mariano, nos seus tempos de fausto, assistia à missa, aos domingos, na matriz de Massapé. Saía de seu casarão, às seis da manhã, de braço com Adelina, muito louçã no seu vestido de seda pura, mangas compridas, fechadas nos punhos e com breve decote a mostrar lhe um tanto do colo alvo e altaneiro, os seios ainda rijos. Calçava borzeguins de cano de seda adamascada e cobria se com elegante sombrinha de seda amarela. Ele metido numa calça listada de branco e preto, paletó preto de alpaca, colarinho alto, o peitinho coberto com um desusado plastrão calçado em botinas de pelica e coberto com uma meia cartola. Todo solene, acompanhado da filharada, de irmãos e primos que abrigava e protegia e de alguns comensais e criados, atravessava a praça, entrava, descobrindo se, na igreja, minutos antes de começar a celebração, ia até o arco cruzeiro e lá deixava Adelina, os filhos e os agregados em cadeiras da primeira fila alugadas por mês à paróquia. Voltava e postava se, em pé, próximo da porta principal, de onde assistia toda a cerimônia religiosa. Ficava naquele canto da igreja por uma questão de gosto, para apreciar a garridice das moças a entrar no templo para suas devoções. Depois da missa passeava com a mulher e a filharada pela cidade, visitando compadres. Deixava a família em casa, por volta das nove horas, para a merenda e ia até a casa do apatacado Vergniau Frota Aguiar, seu primo e compadre, jogar não mais que quatro partidas de bisca, nas quais perdia alguns tostões e tomava taças de conhaque português, uma para cada partida. O almoço era sempre em casa, arrodiado dos filhos e de compadres e comadres especialmente convidados, fartava se com pratos da rica cozinha da preta Maria José, tudo sob o comando de Adelina. Não dispensava uma garrafa de vinho tinto, espanhol ou português, do mais fino. Depois a sesta numa bonita rede branca, armada na varanda do pátio interno de sua vasta casa. Terminava o dia sentado, com familiares, em boas cadeiras de vime, na calçada do oitão, gozando a chegada da fresca da noite, no correr do vento aracati, e a contar casos da vida cotidiana da família ou da cidade. Dormia cedo, se não havia algum baile a que levasse a mulher, filhos e filhas já mocinhas.
Quinca Mariano assim viveu – amando as mulheres e fazendo filhos – por largos anos, seguindo estes passos raramente alterados por eventuais viagens a Sobral e ao porto de Camocim, onde ia vender peles de cabras e couros de bois: segunda feira, manhã cedinho montava seu bom cavalo de sela e galopava até o pé da ladeira do Pinto, por onde subia a Serra da Meruoca, indo para o sítio Capim Frio, viver, por dois dias, os amores de Maria das Dores e cuidar de suas fábricas e plantações de cana e de café; na madrugada de quarta feira montava novamente e ia almoçar com Ambrosina, no Mombaba, na casa pegada à fazenda Contendas, e lá ficava por outros dois dias fazendo negócio na vila do Mombaba, cuidando de seu gado, apartando, com seus vaqueiros, garrotes e criações para venda na feira de Sobral e de noite vivendo seu concubinato com a perfumada Ambrosina. Na boca da noite de sexta feira, montava novamente seu puro sangue para vencer as três léguas que separam o Mombaba de Massapé, ia jantar e dormir com Adelina. Na manhã de sábado passeava pelo comércio, cuidando de negócios e das finanças, comprando e vendendo, como também sabendo das novidades da vida massapeense e da política do Ceará. Nunca quis cargos – deputado ou prefeito –, mas dava seus palpites e influía nas eleições e nas escolhas dos titulares dos cargos municipais. Embora latifundiário, era rabelista, tinha ares liberais e apoiara o Coronel do Exército Marcos Franco Rabelo na governadoria do Estado. Não concordara com o movimento sedicioso do coronelato latifundiário, chefiado cavilosamente pelo também latifundiário Padre Cícero Romão Batista, que aliciou facínoras e cangaceiros de toda espécie e, postos sob o comando de seu lugar tenente Floro Bartolomeu, para invadir Fortaleza e depor o governador eleito e preferido do povo, Franco Rabelo. Na Coletoria demorava se em conversa mais minuciosa com o coletor federal Guilherme Ferreira de Vasconcelos, sabedor das coisas da República; recebia pelos correios jornais de Fortaleza e do Rio de Janeiro. Dava, depois, sua passada pelo bar da Chicuta, velha meretriz de seios fartos, planturosa, mexeriqueira e alcoviteira oficial do Massapé, tomava seu conhaque e se informava sobre alguma moradora nova das casas das Madalenas, no Alto do Bode, para onde iam as mocinhas botadas na vida pelos defloradores, fazendeiros e ricaços da região. Se valia a pena, pelas informações; de Chicuta, ver uma delas, dava uma passada por lá, antes do almoço. Domingo, já se viu, reunia a família, os irmãos, os primos e os amigos para almoços fartos e festivos. Viveu assim seus bons setenta anos.
Quando mais velho, trocou o cavalo galopeiro e trotador por uma besta mansa em que fazia suas viagens em chouto baixo, quase sempre acompanhado de Pedro Monteiro, seu homem de confiança e companheiro desde os tempos do Amazonas. Adelina, que nunca ia passear nas propriedades do marido, por saber com quem vivia, é que impusera, por cautela, a companhia do Monteiro, como arrieiro de Quinca Mariano, prevenindo algum acidente. Nas chuvaradas de abril Pedro Monteiro não pôde acompanha-lo atacado que estava de sezão. Subiu, solitariamente, como fazia nos bons tempos, a serra da Meruoca. O salseiro da chuvarada o fez demorar, mais que de costume, no Capim Frio. Na manhã de sexta feira, quando o sol abriu o olho, mesmo sentindo uma certa canseira e umas palpitações, montou e desceu rumo ao Mombaba. No caminho entre o sítio do alto da serra e a fazenda Contendas passava o riacho do mesmo nome, assim chamado por ali ter se travado muita briga dos primeiros sesmeiros com os tapuias Arariús, moradores do alto da Meruoca, que até ali iam para caçar bichos e cata frutas. O leito do Contendas era fundo, cavado pelas enxurradas vindas do alto da Meruoca, onde nasciam suas águas. Nos dias de muita chuva a torrente era violenta e os cavaleiros a atravessavam com água na altura da sela. Chegando na beira do Contendas, a montaria de Quinca Mariano refugou, temendo a correnteza. O velho, assim mesmo, firmou se nos estribos, encurtou as rédeas e esporou a besta para fazê la descer a ribanceira e vencer as águas do riacho, cheio de uma margem a outra. A velha Sinhá Quaresma, da janela de sua casinha, pouco acima da margem esquerda do Contendas, viu quando animal e cavaleiro sumiram nas águas barrentas. Quinca Mariano e sua besta ainda apareceram uma vez lutando contra as águas, para depois de novo ser engolfados pela torrente que os foi levando, até sumir de vez. Ambrosina, já quarentona, mas ainda perfumada de manjericão, esperou inutilmente o seu Quinca, que morreu em pé, ou melhor, sentado na sela de sua montaria, viajando para ver seus amores.
CALUNGA, O HOMEM DE UM TIRO SÓ
Na pia batismal da igreja matriz de Conceição do Pereiro, nos idos de 20 para 30, recebeu o nome de Antonio Silvestre, mas era conhecido mesmo como Calunga, por ser feio e mal-ajambrado, como os bonecos de barro. Tinha nome bucólico, mas não era nada bisonho. De ingênuo pouco tinha, tendia mais para argúcia e picardia, era o que o povo costuma chamar de mija-mansinho, embora fosse de falar rasgado. Criou-se ali mesmo no Pereiro, mas, quando ficou taludo, o pai o mandou para a capital, Fortaleza, queria vê-lo sentar praça. Morou na casa de um tio, na beira da lagoa de Messejana, até completar a idade de entrar para o Exército. Lá, conforme o desejo do pai, devia mudar de vida, aprender a ler e deixar de ser, como ele, um pobre plantador de roça, na terra dos outros.
Calunga, de fato, no quartel do 23º Batalhão de Caçadores, mudou de vida. Não só aprendeu a ler, como apurou sua arteirice. Largou a casca de matuto serrano e, com dois anos de quartel, virou um perfeito citadino. Com meses de farda, depois da dispensa dos quarenta dias de recruta, entrou na gandaia, andou à malta pelo puteiro da praia do Mucuripe, frequentador do cabaré “Canção do Mar”, engalicou-se e, dizem, mas não foi provado, mandou para as caldeiras de Pedro Botelho o praça Otaviano que o desfeiteou, numa farra na casa da Mandica Peituda. O certo é que Otaviano amanheceu de olho duro, com a barriga aberta por um golpe de sabre-baioneta, quando largou, madrugadinha, o serviço de sentinela, numa beira de mato, no fim do grande cercado do 23. Na achada do corpo, o Calunga estava de serviço no outro extremo da cerca do quartel, perto da Avenida Rio Branco, na guarita do lado direito do portão. Aberto inquérito policial militar, nada foi apurado sobre a autoria do assassinato. Ficou só a desconfiança de que foi ele o matador, que a desavença foi grande no cabaré da Mundica, motivada por uma quenga nova na zona.
Antonio Silvestre largou a farda para trabalhar com o major Juvêncio Pereira, seu conterrâneo, filho do velho coronel da Guarda Nacional, Salustino Pereira, quando o militar conseguiu, com o beneplácito de seu pai e chefe político de Conceição do Pereiro, sair do quartel para a política, eleito deputado estadual, na primeira eleição depois da queda de Getúlio, nos quarenta e seis. Silvestre, quando na tropa, foi ordenança do major Pereira. Dada a baixa, ficou como um faz-tudo na casa do deputado e uma espécie de guarda. Patrão e empregado, por motivos da política estadual, passaram a ir muito da capital até Conceição do Pereiro. Calunga na direção do Chevrolet. Com o andar dos tempos surgiram desavenças, e o deputado, para sua maior segurança, armou o Calunga com um revólver 38 cano longo, conhecido do povo como “Colt cavalinho”, que ele traria sempre na cintura por muitos e muitos anos. Cada defunto que aparecia na região do Pereiro, morto à bala, na calada da noite, o povo dizia ter sido obra do Calunga e seu grande revólver, principalmente quando o finado tinha alguma diferença com o major. Os cadáveres tinham um só furo de bala, no meio do peito ou na testa, entre os olhos. Para não estragar o couro — diziam.
Passou o tempo, o major Pereira cresceu na política, foi para a Câmara dos Deputados e o Calunga crescendo junto, bem recompensado, dono de casas no Conceição do Pereiro e até um sítio no alto da serra. Chegou a ir para a Capital Federal por uns tempos, mas preferiu viver mesmo entre os seus, onde era conhecido e respeitado. O patrão foi eleito, depois, para o Senado e, quando fazia campanha para governador, morreu num desastre de avião.
Nessa altura, perdida a proteção do major Pereira, Calunga, já meio velho, achou prudente se afastar, principalmente quando viu o grupelho do militar-político debandar e alguns irem pousar até mesmo nos galhos dos adversários do falecido, e a casa grande dos Pereiras ficar vazia de gente da política. Sumiu, sem o poder que o livrasse de encrenca com os muitos inimigos que fizera ao longo de sua carreira de capanga do major, encostou as armas, foi morar no seu sítio do alto da serra, voltou a ser plantador de roça, só que em terras suas.
A política de Conceição do Pereiro, sempre quente, ferveu quando o José Fernandes Proença, o Proencinha, achou de mandar na política da cidade e enfrentar o que restava dos Pereiras nas eleições para deputado. O prefeito, Júlio Proença, seu tio, apadrinhava a candidatura, fiado nos votos que tivera na última eleição. Lá um dia, na boca da noite, na rua do Feijão, por trás da igreja, o Prefeito, quando vinha da casa de sua rapariga, foi alvejado nove vezes. Corre daqui, corre dali, acudiram o homem e o levaram para operar na Santa Casa. Salvou-se, apesar do número de furos de bala, uns cinco dos tantos que lhe desferiram. O maior escândalo político dos últimos tempos. O governador Jorge da Rocha mandou apurar, no seu governo não podia haver crime de cangaceiro. Ordenou ao próprio Chefe de Polícia, Joaquim Belém, comandar os trabalhos para apurar o atentado. Belém instalou-se em Conceição do Pereiro com um magote de gente da sua secretaria. Quem foi, quem não foi, com dias de investigações, não se apurou nada.
No auge das diligências, estendidas a outras partes do Estado, o prefeito Júlio Proença já tendo alta, curado dos buracos de bala, o Proencinha achou de levantar a suspeita de ter sido o Calunga. Um reboliço, devia ter sido mesmo o velho pistoleiro do Major Pereira.
— Vão buscar o homem — ordenou o Chefe de Polícia.
Um delegado militar, Tenente Macário, e uma volante da meganha subiram a serra. No outro dia, de manhã, o Calunga chegou, debaixo de ordem, ao quartel. Interrogado pelo próprio homem do governo, negou terminantemente, com seu jeito de falar rasgado. Diante de tanta segurança, Belém exigiu que ele provasse sua inocência.
— Doutor — respondeu o Calunga —, se tivesse sido eu, o homem estava morto. Quer ver, veja!
Pediu para dois soldados estenderem um cordão um palmo acima do chapéu do Chefe de Polícia e distanciou-se uns cinco metros, mais ou menos a distância em que o Júlio Proença levara nove tiros. Ficou de costas para o doutor Belém, até dizerem pronto. Virou-se e, com um revólver emprestado pelo Tenente Macário, sem dormir na mira, com um só disparo, partiu a linha em duas, sem sequer triscar no chapéu do doutor Joaquim Belém.
O ESTOURO DO HOMEM FAMINTO
Ora se deu, conta dona Zefa numa história difícil de crer, mas que é veraz, jura ela de pés juntos por tudo que lhe é sagrado, ter um homem sem nome morrido espocado no copiar de sua casa, nos Gerais dos Buritis, depois de passar fome e ter comido um sapo.
Era no tempo seco, os cerrados estorricados, já pela secura de agosto, já pelo fogo mesmo que se alastra na macega e vai devorando tudo: as cobras, as muçuranas, as cascavéis, jararacas e jararacuçus que as muçuranas não haviam comido ainda; os gambás, os tiús, os ratos, os guaxinins-da-mão-pelada, até guará e tamanduá, tudo que é inseto, bichos viventes dos descampados dos cerrados e campos. Menos os sapos, bicho tinhoso, fugidor das labaredas, capaz de se esconder numa loca, num socavão quando vêm as línguas de fogo comendo o capim alto e tostando a folhagem dos pequizeiros, sucupiras e jatobás. Passado o fogo, no rescaldo das cinzas ficam os restos das plantas e dos bichos e o gavião, tudo que é versidade deles, fica nos ares, no alto, penerando devagar, catando os restos dos bichinhos, descem rápidos quando avistam o morto. Só não comem os sapos, parece que têm ciência e sabem que o bicho é envenenado. Só o carcará se atreve a comer sapo, assim mesmo só a barriga.
O fogo tinha vindo de todo jeito: da trempe do terreiro do rancho onde a sinhá dona fez um cozinhado qualquer; do distraído que deixou largado pra lá o pito e a brasinha do fumo passou seu quente para as folhas secas donde nasceu o fogaço; do sol que bateu seu raio num vidro branco, num cristal, e fez, num prisma, espargir aquele feixe de luz colorida que esquentou a folhagem estorricada do barba-de-bode e levantou um fogaréu doido e, mais ainda, do próprio homem botando tudo que é fogo no pasto para ver nascer das cinzas a rama nova, nas primeiras chuvas.
O dito homem que espocou, da história de dona Zefa, era um coitado que vivia só, metido debaixo de um rancho de capim, na beira dum capão seco, nas lonjuras das chapadas, num lugar chamado mesmo Chapadão dos Neris, por conta do povo desse nome e dono daquelas terras ruins. Sua mulher, ao que se soube, foi se embora, fazia tempo, pois que o marido mandrião não queria muito saber de trabalho e só botava a coitada para roçar mato, fazer plantação e cuidar de encontrar bicho para ele comer. Comia não só os bichinhos que todo cristão devora quando está com fome: galinha, porco, pato ou boi, como também tiú, gambá, tatu, e esses outros viventes dos matos que ela caçava, principalmente paca e cotia, caçadas com bodoque ou armadilha, no meio dos capões de mato.
A mulher largou para lá o homem filho da preguiça e ele ficou com pouca coisa para matar a fome. Quer dizer, não teve milho, nem capim, nem abóbora plantados no terreirinho e muito menos o arroz que plantava no brejinho perto do rancho, para comer no resto do ano. Ele ainda andou jogando na terra uns caroços de feijão e de milho, cavando com um caco de enxada, mas deu pouco.
Por uns tempos ele andou catando o de-comer no mato. Além dos bichos mais impróprios para comida de gente, ele catava umas frutinhas, até lobeira e principalmente as guabirobas, os palmitos e os buritis. Amassava os cocos do buriti, fazia um caldo e passava dias comendo a gorozoba.
Às vezes andava pelas fazendas das vizinhanças. Procurava um servicinho leve que, dizia, estava sem saúde. Com essas tarefas bobas nas casas dos vizinhos, arranjava o que comer e com alguma bondade do povo, umas roupas velhas para se cobrir quando andava andrajoso, aos trapos. Deu de passar, quando ia deixando os trabalhinhos maneiros nas roças e indo embora para seu ranchinho, pelo galinheiro ou pela pocilga e levar, de furto, um franguinho, um bacorinho. Com o sumiço dos bichos o povo foi desconfiando e deixando o preguiçoso sem nome, sem servicinho, sem comida e sem roupa. Se queria tinha mesmo é que trabalhar no eito, como os outros, de sol a sol.
Mesmo querendo arranjar um trabalho para poder ter o que comer, o homem não encontrava abrigo em fazenda nenhuma, as lavouras paradas, o trabalho com gado sem serviço, tudo esperando as chuvas de setembro e o homem, com fome, catando o que comer. Protegeu-se debaixo dum pé de cagaita e lá ficou comendo o docinho das frutinhas amarelas. Comeu tanto que quase se acaba de tanto ir ao mato cagar. Mas não se acabou e continuou sua fome pelos campos, catando o que comer.
Já fazia uns três dias que o homem não comia nada que prestasse, só folha e água, naturalmente. Numa das andanças viu um sapo pinchando na terra seca de um carreirinho de formiga. Se lembrou do carcará que come sapo sem se engasgar, só deixando o couro nas cinzas dos campos das queimadas. Se carcará podia ele ia poder também. O sapo pinchou outra vez e ele pegou um pau e matou o bicho. Pegou da binga, faiscou, fez um fogo de graveto ali mesmo, sapecou bem o sapo, principalmente na barriga. Com um quicézinho, abriu o bicho e comeu uns nacos. Depois disto encostou-se numa sucupira e descansou daquela sua lida de procurar comida. O sapo enchera um cantinho do seu bucho faminto espantando um tanto a roedeira lá dentro, e ele dormitou encostado no tronco.
O sol já ia baixando quando acordou com uma sede dos diabos, como se tivesse comido o sapão com sal ou então sal com sapo. Levantou procurando grota, e grota por ali não havia. Andou já meio derrubado de sede, uma gastura danada na barriga e viu lá adiante uma casinha. Se achegou, chamou ô de casa. Veio uma mulher, a dona Zefa contadeira de histórias. Pediu água, ela deu. Pediu mais, ela deu mais. Como o homem sem nome quisesse mais água para matar sede grande e ela estivesse muito ocupada na cozinha, dona Zefa mostrou o pote, deu o caneco e mandou-o beber à vontade que ia cuidar da sua vida.
O homem encostou-se num canto, perto do pote e bebeu, bebeu – diz ela –, bebeu tudo que podia. Lá para as tantas ela escutou ele dizendo: – Dona, estou indo. Ao que ela foi e respondeu: – Vá com Deus. Ele se sentindo esmilinguido, perrengando, demais da conta, disse de novo com voz fraca: – Dona, estou indo. – Vá com Deus – respondeu ela de novo, acrescentando para não largar da sua ocupação: – Quando sair feche a porta. Ele ainda disse mais uma vez, com voz sumida, de agonizante, que estava indo, quando ela ouviu um estouro. No que correu para ver o que era, viu que o homem tinha espocado todo, a barriga aquele oco e no meio dum aguaceiro espalhado no chão perto do homem morto, numa sujeira de tudo que é porcaria, pedaços inchados de sapo por tudo que era lado...