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POEMAS DE JORGE TUFIC

Manoel de Barros

O inframundo pantaneiro,
barro de um só menestrel,
tem caramujo solteiro,
resina, lagarto e fel.

Começa de onde termina
todo silêncio imprestável:
do inútil consagra a rima,
do nada saca o provável.

Entre ou modos vimarenses
e a Cobra Grande, norato,
seu jeito é único e denso,
tira o rico do barato.

Compêndios ou assovios.
seu microscópio é de estudo.
De qualquer luz extrai fios.
Tudo nele é conteúdo.


DOIS SONETOS

I

Que fim levara o sol dourando a espiga
das manhãs argentinas de meus ombros?
Que fim levara a polidez dos seixos
e a magia do riso entre os escombros?
Que fim levara a roupa do menino
seus cadernos suas penas seu tinteiro,
plumas de ganso ao fogo azul e branco,
pepitas de ouro e galo no terreiro?
Que fim levara a esguia namorada
e as chuvas regulares copas verdes,
chão coberto de mangas? Se este nada
era tudo e tão fundo e tão sublime
que nem toda a existência de palavras,
nem a vontade de morrer, exprime.

IV

Estas vozes de outubro nos ciprestes
farfalham guilhotinas. Rosas pensas
cantam para morrer. Unhas de vento
dobram páginas rubras quando sopram.
Estas vozes de outubro nos ciprestes
anotam meus presságios: quem nos salva
das intrigas, da morte ou da velhice?
Granítica falésias onde ancora,
o musgo, ancora a sombra dos navios.
Estas vozes de outubro nos ciprestes
desenham tempestades, traçam planos
para um barco de sólidos conveses.
Zorba dança e circula no apogeu
das lágrimas. E ganha o que perdeu.


ALVENARIA DE SIGNOS

Olhos me olham, cegos, diminutos.
Inscrições relativas, traço duro
que me vê de onde estou; fundo interroga
largamente da esfinge ao cardiograma.

Salpicos da matéria e do calcário
onde a massa peleja contra o pó.
Rumores de ansiedade. Essa energia
se articula, gritante, subtrai-se.

Golpes, leveza, cânticos, linguagens,
gravam signos rebeldes, manuscritos
sobre a história dos muros: desde quando?

Pego do lápis, rápido; mas nada
do que escrevo ele aceita (o tempo voa)
murificado e só, código tenso.

Jorge Tufic

PARA TORHRTON WILDER


Depois deste gole de conhaque
eu nunca mais serei o mesmo.
Depois que vi o rosto de Tutênkanon,
sete mil anos contidos,
eu nunca mais serei o mesmo.
Depois de passar por esta rua
que já foi de outras cidades,
eu nunca mais serei o mesmo.

Sob cada relâmpago de eventos
eu nunca mais serei o mesmo.
Tomo um porre de estrelas,
converso com a lua dos índios,
me escovo de plumas reluzentes,
e nunca mais serei o mesmo.

Quem pode ser o mesmo
depois de ouvir o som de uma Picareta
que bate em milênios
de fetos adormecidos?

Alguém testemunha a ocarina de um fêmur
no que restara de Sodoma ou Gomorra.
O esquecimento flui
dessa música presa.
Jorge Tufic

POMPÉIA

(Para Aricy Curvello)

As cadeiras pousadas na varanda
flutuam sobre os arcos da preguiça.
Dois pombos testemunham de um terraço
o estupro de uma cabra por cobiça.
Praças, banhos, ruelas, chafarizes,
são vigílias que dormem sob urânio.
O gesto de beber e o corpo em transe
paralisados, negros de fuligem,
tomam conta do mesmo subterrâneo.
O talhe de uma flor em barro fino
lembra o colo de Circe; e um ar de amônia
faz subir destas harpas o som cavo
da cinza,
quando as lavas do Vesúvio
se fecharam nos olhos de um menino.


CARTAS

Para Nilto Maciel

Largai, pombos correios, espremidas
letras nos envelopes amarelos;
cartas, poemas, lágrimas, anelos,
asas, enfim, sobrevoando ermidas,

rios, mares, choupanas esquecidas,
para encurtar distâncias, pesadelos
desfazer quando lúgubres castelos
se abrem diante das novas recebidas.

Caligrafias íntimas, desenhos
feitos à mão na superfície branca
das lâminas de palha, estes engenhos

são da caverna: a escrita nos conforta.
Cartas voam do Acre a Salamanca.
Chegam também, de leve, à minha porta.

DESAFIO

Estou mais alegre que a rua
nos dias de carnaval;
riso tamanho da lua,
longe do bem e do mal;
quem for mais feliz no mundo
me fale de igual pra igual.

Todo balão muito cheio
fica fácil de estourar;
gosto mais desse entremeio
não sendo terra nem mar.
Felicidade é uma dança
que poucos sabem dançar.

Pois eu lhe digo que estouro
de ser feliz quando quero;
gargalhar é o meu tesouro
soltar peidos meu bolero;
sou dono de mar e terra
tenho tudo e nada espero.

Assim foi que Zé Gamela
se emparelhou com o Zambeta,
cada qual numa janela
a olhar o mesmo planeta;
só que um tocava flauta
e o outro toca punheta.



A INJÚRIA*


Pequenos acordes alados
teimaram em ficar.

O ar está zonzo, e doente.
Os rios agonizam
pela guelra dos peixes.

Pequenos acordes alados
cruzam as tempestades,
ponteiam as fogueiras da noite.

E haverão de ficar.
Até que as sementes
estourem das covas.


A CAL DO SOM*

A tinta dos armários
no olfato da música.

A nuvem se funde
com a barra do edifício.

Uma data escoada
respinga da mesa.

No pulso, a hora
é uma trava, inox.

* Poemas extraído do livro Dueto para Sopro e Corda.

Jorge Tufic
em seis idiomas

VERSÕES


Ao poeta-inventor

Pedro Henrique Saraiva Leão



Gravura


Um rosto se divide
entre o giz e a lousa,
não é branco por dentro
nem preto por fora.


Este rosto é projeto
de equações onduladas,
e onde o risco é visível
a tragédia é invisível.


De sombra e de pedra
são as letras e o - traço
que isenta o sorriso.


Nem duelo nem contraste
separam os elementos
que a gravura ilumina.


Grabado


Um rostro se divide
entre la tiza y la pizarra,
no es blanco por dentro
ni es negro por fuera.


Ese rostro es proyecto
de ecuaciones onduladas
y donde el riesgo es visible
la tragedia es invisible.


De sombra y de piedra
son las letras y el - trazo
que inhibe la sonrisa.


Ni duelo ni contraste
separan los elementos
que el grabado ilumina.

(Por Newton Sabbá Guimarães)

Remington, Pluie


PAIRO
acima do teu milagre,
envolto como teus próprios
dentes encardidos

na poeira,
na poeira

onde cavo este solo e
cultivo um trabalho sem
campo, arado ou flores

A solidão fundamental
ateia lá
fora seus gumes,

praça
bonde
mar
palavra
enquanto, DEUS MEU!
vou sendo lançado
(inevitavelmente)
contra esse furor
magnético
onde chove
seco o
poema



Remington, Pluie


Je m’arrete
en haute de ton miracle
enveloppé
comme tes mêmes
dents jaunâtres
de la poussière
de la poussière
où je creuse dans ce sol et
jé laboure un travail sans
chantier, charrue ou fleure
La solitude fondamentale
provoque la
en dehors ses guises
Place
train
mer
parole
cependant, mon dieu!
Je me vois lancé
inevitablement
dans cette fureur
mechenique
où je pleut
séc
le
poème



(Por L. Augusto Ferraz)


III


O poeta vai pela rua.
Ninguém está vendo o poeta
porque o poeta é transparente.


O poeta atravessa a ponte
o poeta desfolha a rosa
o poeta contempla o mar.


Ninguém está vendo o poeta.
Mas duvido que ninguém capte
a sua presença abstrata.


III

Poetul merge pe stradă.
Nimeni nu vede pe poet
pentrucă poetul e transparent.


Poetul trece pe pod.
Poetul rupe petalele trandafirului
Poetul se uită la mare.


Nimeni nu vede pe poet
dar e dubios că nimeni să nu simtă
prezenta lui abstractă.

(Por Luciano Maia)


Parágrafos

O domingo é um parque
cercado de feiras
por todos os lados.


A poesia é singular
e excludente; quanto menos
folhagem, mais fruto.


Os fios da tarde
são frios.
Pinos de sol que fixam
a extinção
dos movimentos.
E vão sepultando
os ossos
por baixo do trigo.

Paragrafe


Duminica e un parc
coplesit de târguri
pretutindeni

Poezia e singură
si excludenta: cât mai
putină frunză
mai mult fruct.


Firele serii
sunt reci.
Razele soarelui ce
fixează
stingerea
miscărilor.
Si înmormântează
oasele
pe deasupra grâului.


(Por Luciano Maia)


O Cemitério dos Passarinhos


Quanto mais leve o ar
mais agudo o som.


À luz e à cor
pertence o meu dia,
vidrado e passaredo.


Ninguém sabe, contudo,
para onde vão estes pequenos esquifes
de alpiste e solidão.



The bird’s graveyard


The lighter the air,
the sharper the sound.

My day which is
glazed and winged
belongs to
light and color.

But no-one knows
where these coffins of solitude,
tiny and seedlike
are going to.

(Por Marco Antonio Rosa)


Possível soneto à Dalva


Dalva, o seu nome. O resto uma cidade
e nela o meu orgulho. Uma janela
e Dalva no ar de sonho que flutuava
sobre tudo; um vapor, uma agonia!


Deu-se então, como às vezes acontece,
o inevitável: mágoa? Alumbramento?
Foram ver-me no quarto. E que tristeza
havia que eu não via em meu semblante?


(Que balões de mil cores pela noite
pintados pela febre!) O doutor veio
e disse: muito doente. Atrás do vidro


a imagem redourada de uma lua
– igual a um forno - e nele o fogo brando
como Dalva em meu peito, a consumia.


Kiaima


Tupá Manha xa icu Ae Raïra
Tayira xa icu ayete i Manha;
Ab aeterno u sema, Ae se Memïra
Se ara pe xa sema, ixe i manha.


Ae se munhangara, se Raïra
Xa icu i manhãsaua, ixe i Manha
Prodigio icu Divino uicu Raïra
Tupá pauïma mai x’icu i Manha.


Yepeuasu nungara icu Manha Raïra,
Marese Taïra sui u sema i Manha
Manha sui yu munhã yure Taïra


Se ê Taïra sui u sema i Manha
O yunheê cu, icu kïa Taïra
O kïa ïma yunheê curi i Manha.



(Por Isidoro Gonçalves de Souza)


A Pororoca


Cobra Grande varou a boca do Atlântico.
O mar fecha a boca
para torar seu corpo no meio.
Ela sente a mordida na pele e ergue a cauda
de margem a margem da foz do Amazonas.

Então, tudo se vê levado no ronco das águas
que ficaram doidas: árvores, peixes, folhagens,
troncos, casas, navios, canoas,
bichos terrestres e seres humanos.

O disparo da onda espanca as estrelas,
varre o céu de nuvens.
Seu barulho desliza nos ares como um bando
de queixadas que estivesse descendo
pelos braços do arco-íris.

Poroc poroc desorienta a rota dos pássaros,
golpeia de estrondo as barrancas,
escurece o rio
fende as praias,
revira enseadas,
arrebenta lagoas,
destrói caminhos de chuva, roçados,
plantações, flutuantes e nivela a fúria cega
dos elementos irreconhecíveis,
entre o caos e a violência pacificada.


Depois da luta o oceano reflui,
põe suas barbas de molho.
E a Cobra Grande se manda para o fundo
engolindo pachorrentamente os indícios
da catástrofe,
como se nada tivesse acontecido.


Pororoko


Trairigîris Kobro trae busego de Atlantiko,
Maro apertas buson
Ekprenante la longa korpon
Kiam sentis mordegon Kobro,
Cielen altigis voston,
Flanke - flanke en Riverego.

Furiozigas akvoj,
Cie bruegon vastigas,
Cielen ascendas ondoj,
Nubojn, ec stelojn dispusas;
Kvazaú pekariaro tra arboj
Descendas gis teren la bruon
Tra cielarko kolora *.

Pororok, pororok, krake bruas,
Frapante, klakante, fendante bordojn...
Birdoj sinperdas,
Riverdoj furiozas,
Plagoj inundigas,
Vastigas Golfetoj,
Detruante plantejojn, domojn, urbetojn,
Ec arbojn, bordojn, boatojn,
Homojn, bestojn, herbajon,
Cion blinde nivelas furio.
Farigas subite sovagaj,
Kvietaj elementoj;
Tute kaoso fiaskas, frakasas...*

Oceano regresas...
Dolce, milde kvietigas.
Reiras funden do Kobro
Pacience katastrofan restajon
Englutante, purigante
Por ke nenio restu vidota.
Sekundantoj foriru,
Renovigas naturo.

(Por Jayme Pereza)

Drummondiana


Antes do ser, o lugar de ser.
Antes da lã, a pastagem.
Antes da lágrima, o lenço.
Antes da fonte, o rochedo.
Antes do olhar, a paisagem.
Antes do número, o infinito.
Antes da mesa, o lagar.
Antes do pano, a roleta.
Antes do monge, o cilício.
Antes do caso, o acaso.
Antes do salto, o edifício.


Drummondina


Antes de ser, el lugar de ser.
Antes de la lana, el pastado.
Antes de la lágrima, el pañuelo.
Antes del mirar, el paisaje.
Antes del número, el infinito.
Antes de la mesa, el trujal.
Antes del paño, la ruleta.
Antes del monge, el cilicio.
Antes del caso, el ocaso.
Antes del salto, el edificio.

(Por Fernando Vega)