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A Rosa Gótica (5)

(Continuação)

Os Inimigos de Richelieu
Outra lenda criada por Lamartine é a de seu primeiro
ancestral franco-brasileiro, Léonce Renard ou Reinach. Com outros franceses, teria desembarcado no Maranhão em data não determinada do século XVII.
Nas memórias e nas cartas meu primo pouco diz desse personagem. Assim mesmo, traçou-lhe o perfil. Teria sido um homem dado a leituras, apesar de soldado e aventureiro. E argumenta: “Não foram poucos os homens de ação que também se dedicaram às letras. Bastaria citar Júlio César.”
Em nenhum momento Lamartine afirma ter sido Léonce escritor. Chama-o apenas de “amante dos livros”. E, ainda, de “amigo de escritores, provavelmente”. Pelo menos de um escritor teria sido amigo. Trata-se de François Lesage.
Vasculhei minha enciclopédia e nada encontrei desse personagem. Lamartine, porém, faz-lhe uma biografia. Autor de inúmeras obras, conhecedor dos trovadores de Provença, leitor de canções de gesta e romances de cavalaria, possuía uma das mais completas bibliotecas particulares da Europa.
As principais obras de Lesage são Mémoires, Épigrammes, Élégies, Satires, Églogues, Hymnes e Correspondance. Deixou também ensaios sobre Bertrand de Born, Arnaud Daniel, Marcabran, Bernard de Ventadour, Guillaume de Machaut, Eustache Deschamps, Christine de Pisan, Alain Chartier, Charles dOrleans e François Villon.
A amizade de Léonce e Lesage não impediu decidisse aquele deixar Paris e buscar a inóspita América. Como lembrança, doou o escritor parte de sua biblioteca a Léonce. E ainda um manuscrito de século XIII. A doação dos livros é aceitável, vez que havia outros exemplares deles. A do manuscrito é inexplicável. Ou François Lesage estaria louco? Teria cópia do manuscrito?
Estas e outras perguntas relativas à vinda do manuscrito para o Brasil estão nas cartas de quase todos os correspondentes de Lamartine. As respostas são nebulosas, cheias de conjeturas.
A Jean Auguste Vitrac explicou: “Apesar de amigo de Descartes e Corneille, esse François Lesage não conseguiu se notabilizar. Ao contrário, cedo de tornou malquisto por quase todos. E morreu completamente ignorado e até menosprezado por seus pares.”
Depois dessa carta, nunca mais Vitrac escreveu a meu primo. Acredito tenha ele vislumbrado na informação de Lamartine uma invencionice.
Gérard Jaulin também deixou de escrever a meu primo, após receber a carta em que este naufraga num mar de suposições sobre Lesage: “A desgraça final dele teve início em 1644. Escreveu um ensaio intitulado Je pense, onde analisa a obra filosófica de René Descartes. Ao ler o ensaio, Blaise Pascal se horrorizou. Aquilo significava a demolição da obra do grande pensador.”
Mais adiante, Lamartine completa a informação: “Na verdade, Je pense não investia contra o pensamento cartesiano. François Lesage descia ao fundo do poço metafísico e via em toda a filosofia, desde Aristóteles, nada mais que o vazio. A Igreja Católica o condenou. Não foi preciso crucificá-lo ou queimá-lo. Lesage se matou.”
A última carta de Lamartine a Eugène Laloux traz estas informações e mais o seguinte comentário: “É possível terem sido Lesage e Léonce membros de um grupo, um partido político de oposição ao regime do cardeal Richelieu e, depois, do cardeal Mazarino. Talvez um partido de camponeses. Ao se ver acuado, Lesage teria recomendado a Léonce a fuga para o Brasil. Salvava-se seu companheiro e, assim, salvava seus livros e manuscritos. Entre estes, o Roman de la rose gothique. E por que também não fugia? Certamente por ser pessoa muito conhecida das autoridades e, assim, tornar-se impossível misturar-se aos soldados e aventureiros que freqüentemente partiam rumo ao Brasil.”
Durante algum tempo Simone Jabés supôs ser o Romance obra de François Lesage. Ou seja, o manuscrito encontrado por Lamartine seria do século XVII, e não do século XIII. Depois mudou de idéia e se disse ludibriada por meu primo. Não acreditava na existência de Lesage. E em nenhuma informação contida nas cartas de Lamartine. Inclusive na existência de Léonce Renard ou Reinach. Tudo obra da imaginação de meu primo. E então lhe fez um grande elogio. Chamou-o de escritor muito criativo.
Como não acredito na autenticidade das cartas, como penso terem sido escritas todas elas por Lamartine, só me resta uma dúvida – quem escreveu o Romance da rosa gótica?


Coqueiros Loucos
Ou tudo é invencionice ou tudo é loucura. Ou Lamartine
brincou o tempo todo, sobretudo com seus correspondentes europeus, ou havia enlouquecido. Pois a loucura é freqüente na nossa família. Não sei do passado mais antigo, mas o avô de meu primo não devia ser muito lúcido. Basta lembrar as declamações de poemas em praça pública. Se declamasse Castro Alves, Olavo Bilac ou outro poeta brasileiro, nada de esquisito haveria. Pois declamava versos em francês. E em Palma ninguém sabia francês, a não ser ele mesmo e, depois, o filho Ernesto e, muito mais tarde, o netinho Lamartine. Saía de casa carregado de livros e metia-se nas praças e ruas. Nos dias de feira competia com cantadores e repentistas. E muitas vezes conseguia mais ouvintes do que os violeiros. Dezenas e dezenas de matutos se postavam diante dele e, embasbacados, ouviam-no gritar versos de Musset, Victor Hugo, Lamartine, Leconte de Lisle, Gautier, Prudhomme e outros poetas franceses. Se alguém ousasse rir e censurá-lo por recitar versos franceses para aquelas pobres criaturas, quase todas analfabetas, ele respondia: as igrejas estão lotadas, e, no entanto, os padres rezam a missa e cantam hinos em latim.
Com o passar dos anos, o velho Carlos se fez mais excêntrico. Não se importava mais com o público. Já não ia às feiras. Saía de casa a qualquer hora do dia ou da noite, um saco repleto de livros, e escolhia os mais diversos lugares onde pudesse ler, em voz alta, seus poetas prediletos. Às vezes o coreto da praça, e então as crianças se tornavam seus ouvintes. Outras vezes a calçada das igrejas, para competir com os padres. E noutras ocasiões buscava o cemitéro. Para dar aos mortos pelo menos o prazer de ouvirem boa poesia.
Uma filha de Carlos, de nome Aurore, andava nua pelas ruas de Palma. A família tratou de impedir tais escândalos e vestiu-lhe uma roupa de couro, cheia de laços. A coitada moça mais parecia um animal. Até desaparecer de vez das ruas. Trancafiaram-na num quarto da casa. Tempos depois fizeram-lhe o enterro.
Ernesto, o pai de Lamartine, morreu em 1951. Dizia-se “filho do imperador”. Não se lembrava mais do pai verdadeiro, Carlos Coqueiro. Se lhe perguntavam, os ex-amigos, se o imperador se chamava D. Pedro ou Napoleão, zangava-se e prometia castigo, prisões e mortes a quem lhe dirigisse a palavra.
Laura, a mãe de Lamartine, parece nunca ter sido contaminada pelo veneno dos Coqueiros. Viveu quase uma eternidade, lúcida como poucos.
Também não posso incluir no rol dos doidos o nome do outro Victor Hugo, o irmão de Lamartine. Já contei como o tornaram louco e simularam sua morte por afogamento.
Outros casos de loucura aconteceram na nossa família. Tios e primos meus, cujos nomes e cujas histórias fogem agora ao meu interesse, também tiveram comportamentos estrambóticos.
Já o ramo dos Coqueiros originado em papai não conheceu nenhum anomalia. E, ao se unir a mamãe, parece ter depurado de vez o sangue dessa parte da família. Meus irmãos e eu somos todos sãos, quer da mente, quer do resto do corpo. Meus filhos e sobrinhos têm saúde de ferro. Pode ocorrer outra degeneração, se se casarem com pessoas provindas de famílias degeneradas. Dou-lhes conselhos: conheçam antes os antecedentes de suas futuras esposas ou de seus futuros maridos. Exijam deles exames psiquiátricos. Ou tragam à minha presença esses rapazes e essas moças. Em meia hora de conversa saberei dizer se têm algum defeito mental. Eles riem e me chamam de sábio. Falo de Freud, Jung, Adler, Rank, Ferenczi e outros estudiosos da mente. Conto-lhes histórias divertidas desses homens e também piadinhas de doido. A do homem que pensava ser galinha sempre resulta em boas gargalhadas. Meus netos também riem e fazem mil perguntas. Um deles quis saber como aprendi tantas piadas e histórias e tantos conhecimentos. E eu lhes aponto a enciclopédia.


Dança de Pétalas
Tive um delírio, se não tiver sido sonho. Não tenho
certeza de ter dormido, porém, talvez haja cochilado. No sofá. Após o almoço. Como ocorre diariamente há muitos anos. Alzira gostava desse hábito meu. Se me dispunha a sair de casa logo após o almoço, ela estranhava: “E o cochilinho?”
Havia bebido vinho. Quiçá tenha me excedido na dose. Há muito me afastei das bebidas. Aqui e ali provo um vinho ou vermute. Quando jovem até me embriaguei. Contudo nunca cheguei ao vício nem ao hábito.
Se não tiver sido delírio, foram divagações do ócio.
Uma rosa vermelha no chão. Em derredor dela plantinhas, tudo verde. Aproximava-me dela, cauteloso e, ao mesmo tempo, curioso. As pétalas cresciam, quase imperceptivelmente. Expandia-se a flor, e eu recuava. Temor de machucá-la. Uma voz me continha: “Não vá embora. Não tenha medo.” A voz parecia vir do interior da rosa. “Veja se consegue saltar até a corola, sem tocar as pétalas.”
Instigado pela voz, recuei para correr e saltar. “Venha logo, porque a rosa cresce sempre.” Caí entre as pétalas. O perfume excessivo me deixou sufocado. Ao mesmo tempo o vermelho se transformava em outras cores. Tonto, procurava me equilibrar e dar passos. Parecia dançar, rodopiar.
Não ouvia mais a voz. As pétalas haviam se fechado sobre mim. A rosa voltara a botão. Asfixiado, tentava escapar pelas estreitas aberturas ainda visíveis. Enfiava dedos e mãos nessas fendas. As folhas ou paredes resistiam ao meu desespero, como se quisessem me comprimir, esmagar. Lutei, lutei, lutei, até divisar espaço menos estreito. Parecia corredor. Andei, corri. No entanto, cheguei ao mesmo lugar.
Desesperado, chorava. E de meus olhos saltavam faíscas coloridas. Luzes de infinitas cores. Como num calidoscópio. Eu me entontecia. Tudo girava à minha volta. Ou eu girava feito pião. Embalado por música frenética. Sons se sucediam como em cascata. Frenesi.
Súbito eu parava. E tudo parava. À minha frente, em vez de uma pétala, eu via um espelho e minha imagem. Ao lado, outro espelho e outra imagem de mim. Para onde me voltava eu me via. Como se nunca me voltasse e o espelho fosse sempre o mesmo. Ou como se cada movimento de me voltar correspondesse a um segmento do tempo e eu estivesse diante de mim mesmo por toda a vida. No entanto eu me sabia multiplicado, sem saber qual das imagens era ou havia sido a primeira. Onde se achava o autêntico Victor Hugo? De onde se originavam as imagens? Pois cada uma delas fazia a mesma pergunta: quem é Victor Hugo real, o de carne e osso? E cada uma das imagens dava a mesma resposta: sou eu. A voz soava em uníssono, sem ecos, como se se tratasse de uma só voz. Logo, porém, as figuras perdiam a compostura e se individualizavam. Insultavam-me. Uma gritava: “Vocês são bonecos.” Outra revidava: “Todas cópias de mim.” “O verdadeiro Victor tem um sinal no queixo”, adiantava-se uma das reproduções. E levava um dedo ao próprio queixo. “Você é um impostor. Isto em você é pintura. Em mim é natural.”
Enquanto isso, os espelhos se multiplicavam progressivamente e, com eles, as imagens de mim mesmo. Eu percebia, no entanto, serem os espelhos apenas o brilho das pétalas em infinita proliferação.
Assim pensando, dei por mim sentado na cadeira de balanço, boca seca, olhos irritados. Não fui logo matar a sede. Havia uma rosa minúscula à minha frente. Parecia uma estrela ou um pirilampo, se fosse noite. E se apagou vagarosamente, feito um anjo, um ser de outras paragens.

Personagens de Romances
Não sei onde Carlos Coqueiro foi buscar sua origem
francesa, como aprendeu francês e, sobretudo, não sei por que contraiu a mania de ver na França e nos franceses o melhor e o mais belo. Essa doença ele a transmitiu aos filhos e netos. O mais infectado de todos terá sido o pobre Lamartine. Porém Ernesto, o pai deste, não deixou de sofrer a doença de forma mais dolorosa. Assim, deu aos filhos nomes franceses. E até eu, seu sobrinho, tive o meu quinhão da língua de Victor-Marie Hugo.
Nas memórias Lamartine traça o perfil psicológico de cada um de seus irmãos. Faz-lhes as biografias e os identifica com personagens de romances franceses.
Michel é pacífico e bondoso. Casado com Célia, de quem teve um filho. Diziam más línguas ser o menino fruto de uma aventura dela, por ser Michel estéril. Ao passar do tempo, dedicou-se ela ao vício da bebida e Michel ao vício da solidão.
O filho morreu antes dos vinte anos, numa rixa. Pouco depois Célia sucumbiu. Quatro ou cinco anos ainda se passaram, e Michel sofreu parada cardíaca.
Este enredo é a sinopse do romance Colheita de uvas maduras, de Jules Boffrand. Não o li, pelos motivos já expostos nestes apontamentos, porém há um exemplar dele na biblioteca de Lamartne.
Lembro-me pouco de Michel. E não conheci sua mulher. Quando fui embora de Palma, já rapaz, esse meu primo devia contar pouco mais de dez anos de idade. Algumas vezes o via a chutar bolas na rua. E talvez nem fosse ele esse menino que me ressurge na memória, envolto em névoa. Talvez eu mesmo, a correr, pular, gritar. Talvez seja qualquer menino, sem nome, sem biografia, sem história.
Valentine, a mais velha das irmãs de Lamartine, fez-se professora. Altiva e às vezes arrogante. No entanto, não há nenhum grande momento em sua vida. “Seguiu sempre um caminho reto. Nada de curvas perigosas, aclives, declives, montanhas, paredões”, descreve Lamartine.
“Seria um romance de monótona leitura”, diz mais. Apesar disso, ele a compara a Virginie, personagem secundária da História do cão de Chabanel, novela de Alfred Monbeig.
Embora da mesma idade, eu e Valentine nunca fomos amigos. Não a conheci bem. Quando mocinhos, alimentei a idéia de namorá-la. Lamartine porém se opôs a essa idéia. E logo minha prima se mudou de Palma. Não a revi mais.
Caroline teve vida menos quieta. Apaixonou-se por um vendedor ambulante, rapaz alto e loiro, possivelmente sulista. Dessa paixão nasceu-lhe uma filha. Escorraçada de casa pelo pai, passou a viver com a filha. O namorado desapareceu da praça. Alguns anos depois Caroline se casou com um rapaz baixo e moreno, vendedor como o outro, porém dono de loja. E de novo o amor lhe foi amargo: o marido se apaixonou por uma loira e a abandonou.
Para Lamartine, a história de Caroline é repetição da história de Louise Paray, protagonista do romance Gritos do mundo, de Michel de Montreuil.
Entanto meu primo desconhece um capítulo da história de Caroline. Contava eu 20 anos quando me apaixonei por ela, então com 15. Paixão medonha, porém reprimida. Nunca ousei confessar a ninguém minha inquietação. Muito menos a ela. E, quando o moço loiro apareceu em Palma, eu já andava longe de Caroline.
Não vou me referir a todos os meus primos. Seria narração fútil e enfadonha. Além disso, parece-me inexistirem os romances analisados por Lamartine nesta parte das memórias, exceção feita ao de Jules Boffrand. Não li em nenhuma página de minha enciclopédia nenhuma referência aos escritores mencionados por ele. Também ainda não vi na biblioteca os tais romances, exceção feita ao de Jules Boffrand.


Palma Gótica
As memórias de Lamartine são também um pouco de
minhas memórias, embora quase nada falem de mim. Palma está descrita de ponta a ponta, e é como se eu ainda visse suas ruas, praças, casas, igrejas. Talvez tenha mudado muito. Deve ter novas ruas. As pedras do chão certamente cederam lugar ao asfalto. Os casarões e as igrejas decerto foram demolidos. Ou reformados. Imagino até prédios muito altos.
Lamartine recorda uma infinidade de pessoas. Nem sempre consigo identificá-las. Minha memória é falha. Está falha. Talvez conseguisse reavivá-la, se tivesse fotografias diante dos olhos.
Fosse eu escrever minhas memórias, pintaria as pessoas com traços bem diferentes dos esboçados por meu primo. E as histórias seriam outras. Ernesto, o pai dele, mereceria minha piedade. Victor Hugo, meu homônimo, seria apenas o poeta, o rapaz angustiado, e nunca um louco. Papai teria muitas páginas, em vez de três linhas, e ressurgiria tranqüilo e bondoso, sorriso largo, em vez de invejoso e traiçoeiro.
Os palmenses de nossa infância e juventude estão também no Romance da rosa gótica. Não sob os mesmos nomes, é claro, mas sob as mesmas peles. Algumas histórias narradas nos cadernos estão no livro. E esta é mais uma razão para eu acreditar ser o romance obra de Lamartine.
De Rosa, a menina morta por afogamento, pouco fala meu primo. Muito me lembro dela, no entanto. Os rapazinhos todos achavam-na linda. Lamartine escrevia sonetos para ela e se dizia apaixonado. Em resposta, Rosinha silenciava e fugia dos olhos dele. Talvez amasse outro, ou não amasse ninguém.
E agora me vem uma idéia singular: seria aquela menina a inspiradora do romancista da Rosa gótica? Evidentemente estou levando em conta a hipótese de ser o romance obra de Lamartine. Se não o for, não faz nenhum sentido esta idéia.
Anoto aqui os fundamentos dela:
1) há no romance uma jovem belíssima, cuja descrição me lembra aquela pobre menina de Palma;
2) a história publicada por Lamartine tem as características do romance gótico, segundo alguns correspondentes franceses de meu primo (um deles chegou a sugerir outro título para a obra: Romance gótico da rosa);
3) o espaço descrito no romance é duplamente gótico: a região onde vivem os personagens é a colônia romana de Narbo Martius e, no decorrer da narrativa, a região depois denominada Gótia. Além disso, as principais ações ocorrem em castelos (romance gótico).
Eustache Bouin comenta em uma de suas cartas: “Sim, os escritores medievais também conheciam o sobrenatural. Não exatamente aquele sobrenatural dos melhores autores do romance gótico. No entanto, o que se vê no Romance da rosa gótica é um excesso de crimes misteriosos, próximos do terror. E isto os escritores do século XIII não escreveram.”
Uma das cartas de Clément Toulet é um comentário à Introduction à la littérature fantastique, de Tzvetan Todorov. Há até transcrições de trechos, como este: “Ele (o fantástico) antes parece se localizar no limite de dois gêneros, o maravilhoso e o estranho, do que ser um gênero autônomo. Um dos grandes períodos da literatura fantástica, o do romance negro (the Gothic novel) parece confirmá-lo. Com efeito, distinguem-se geralmente, no interior do romance negro, duas tendências: a do sobrenatural explicado (do “estranho”, poderíamos dizer), tal qual aparece nos romances de Clara Reeves e de Ann Radcliffe; e o do sobrenatural aceito (ou do “maravilhoso”), que agrupa as obras de Horace Walpole, de M. G. Lewis e de Mathurin.”
Mathilde Brasseur vai mais longe em sua análise. Fala um pouco do Asno de Ouro, um tanto das Metamorfoses, passa pelo Gargantua e pelo Pantagruel, chega às Viagens de Gulliver, para classificar o Romance da rosa gótica de maravilhoso.
São inúmeras as opiniões dos franceses a respeito do romance de meu primo. Cada uma delas vai em direções diferentes. Em vista disso, Lamartine afirma ser o Romance uma “obra aberta” e, por isso, revolucionária, uma vez escrito no séc. XIII.
Não sei como participar dessa discussão. Não sei sequer o significado de “obra aberta”, por mais que me tenha valido de dicionários e de minha enciclopédia. Ouso, porém, dar um palpite: o livro poderia se intitular Rosa de Palma. Ou, se preferisse título mais comprido: História da menina Rosa, na qual se trata de sua grande formosura, etc.

Projetos Literários
Andei fazendo projetos, agora mais voltados para mim
mesmo. Um deles: escrever ao editor do Romance. Talvez não saiba ainda do falecimento de Lamartine. Os jornais não noticiaram o fato. Não pretendo falar disso, porém. Tenho comigo um tesouro: as cartas e as memórias de meu primo. Poderei fazer os prefácios. Não, não sou famoso, nunca escrevi nada e nem saberei escrever. Melhor falar com o professor José Anderson.
Conversei com meus filhos. Primeiro com Augusto. Permaneceu calado durante todo o tempo de minha fala. “Você não acha isto uma idéia maravilhosa!” Fez um gesto com os olhos, a boca, um gesto de aprovação ou de desdém. “Fale, meu filho.” Pediu-me para conversar com seus irmãos. “Não entendo disso, não sou de ler”.
Tudo fiz para conversar por último com Alexandre, Júlio César e Catarina. Eles não concordariam comigo. No entanto, Júlio e Isabel me procuraram antes. Já sabiam de meu projeto. E achavam uma tolice a idéia da carta ao editor. Não iria jogar dinheiro fora. Quem se interessaria pelas cartas de um velho maluco?
No dia seguinte fui procurado por Frederico, Diana, Vitória, Elizabete e Sócrates. Vieram furiosos. Eu precisava ser internado imediatamente num manicômio. Tentei reagir, ser pai, autoridade. Ameacei surrá-los. Riram de mim. Quando se retiraram, chorei. Não me respeitavam, tratavam-me como demente. E então chegaram Alexandre e Catarina. Tive ímpetos de expulsá-los. Não me ofenderam, no entanto. Ele falou do perigo de publicar cartas de outros. Inventou mil possibilidades de processos judiciais. Catarina concordava com o irmão a me amedrontar.
Arrependido de ter confiado o plano a meus filhos, passei um dia inteiro deitado, só pensando. De vez em quando cochilava. E sonhava pequenos sonhos. Tudo fazia para não pensá-los, e me apegava de novo à idéia de publicar as cartas. Súbito nasceu-me outro projeto: o de publicar estes apontamentos. Não tudo. Devo retirar os trechos onde me refiro a Alzira e nossos filhos, bem como os relatos de sonhos. E acrescentar mais trechos das cartas e das memórias de Lamartine. Assim, publico estas, porém inseridas num texto de minha autoria. E dará um livro volumoso e interessante. Resta inventar um bom título. Talvez o professor Anderson possa me ajudar nisso.
De ruminação em ruminação cheguei a outros pensamentos mais absurdos. Como o de duvidar da existência de Lamartine. Sim, se Lamartine não tiver existido, nada de minha vida agora faz sentido. Pois, nesse caso, as cartas e os cadernos mencionados ao longo destes meus apontamentos também não foram escritos. Ou o foram, porém por outra pessoa. E se todas as informações constantes deste caderno forem invenção minha? Se não existir o Romance da rosa gótica? Se não existirem Clément Toulet, Simone Jabés, Eustache Bouin e todos os outros personagens citados aqui? Se a biblioteca de obras raras e valiosas não passar de miragem? Então estarei louco? Não, talvez eu seja apenas um homem passado, fora do tempo, gótico. Ou serei uma criatura perigosa? Oh, meus filhos, não me incriminem, não me queiram mal. Se é que vocês existem mesmo.
E vocês, meus leitores, também não me desprezem por isso. Se é que vocês também existirão.

(FIM)