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A Rosa Gótica (4)

(Continuação)

Novas Cartas Francesas
Por indicação de Augusto, conheci um professor de
francês. Chama-se José Anderson. Falei-lhe das cartas recebidas por meu primo, contei-lhe umas mentiras e pedi-lhe a tradução daquelas. Não sei por que me atendeu tão prontamente. Talvez em razão das falsas histórias que lhe contei. Primeiro enalteci a figura de Lamartine. Disse-lhe da fama internacional de meu primo. Depois me fiz presidente interino da Fundação Lamartine Coqueiro, “em processo de criação”.
Enquanto o professor traduzia as primeiras cartas, metia-me a remexer os armários de meu primo. E eis-me a encontrar outro grupo de cartas. Seus subscritores não estão entre aqueles das cartas até aqui lidas por mim. São todos franceses, e as missivas procedem de Paris, Nantes, Bordéus, Grenoble, Lião e outras cidades da França. Estão datadas de 1991 a 1993. Todas elas tratam de negar a “descoberta” de Lamartine.
Dominique Lépicié não diz ser meu primo um mentiroso. Aliás, não o censura nunca. Pelo contrário, chama-o de criador. O Romance da rosa gótica seria criação de Lamartine.
Lépicié lembra exemplos de obras literárias nascidas da imitação. Ou, o contrário, de obras que servem de modelo. O romance de Lamartine teria tido como modelo obras dos séculos XIII e seguintes, como o Roman de la Rose e o Roman de Jelan de Paris. Lembra, ainda, o Ecbasis captivi e o Ysengrimus.
E diz mais: “Quem é capaz de criar uma obra como esta só pode ser íntimo das literaturas grega e romana. Você com certeza conhece Homero e Virgílio, Luciano e César, Xenofonte e Cícero, Platão e Fedro, Demóstenes e Horácio, Heródoto e Ovídio, bem como Calino, Tirteu, Mimnermo, Arquíloco, Alceu, Safo, Anacreonte, Píndaro, Teócrito, Ésquilo, Sófocles, Eurípides, Aristófanes e todos os latinos. Infelizmente vivemos no século XX, e já não se escreve como aqueles nossos mestres. De qualquer forma, sempre é tempo de ser grego ou romano, provençal ou românico, medieval ou trovadoresco.”
Louise Tassel vê no romance traduzido por meu primo uma “colcha de retalhos”. E nenhuma originalidade ou criatividade. O autor teria feito uma compilação, tendo como arcabouço os romances corteses. A seguir, teria enxertado nesse arcabouço trechos de canções de gesta, contos populares, novelas de cavalaria e romances de cordel. E cita alguns títulos: Palmeirin de Oliva, Libro de los Ejemplos del Conde Lucanor y de Patronio, História da Donzela Teodora, Calila e Dimna, Comédia Eufrosina, História o Vida del Gran Tocaño Llamado Buscon, Pierre de Provence et de la Belle Maguelonne, La Vie du Terrible Robert le Diable, etc.
Para a pesquisadora francesa, o manuscrito de Lamartine teria tido a primeira redação já no nosso século e não no século XIII.
Seguindo estas pegadas, Ernest Géricault acredita ser o romance obra de Carlos Coqueiro. Leitor de novelas e romances da Idade Média, teria feito uma brincadeira, escrevendo um pasticho. Para dar credibilidade ao seu manuscrito, teria inventado Charles dAvignon.
Não sei qual deles está mais próximo da verdade. Se Lépicié, se Tassel, se Géricault. Será Lamartine o autor do romance? Se o foi, por que preferiu inventar toda a história do manuscrito, para ficar como simples descobridor e tradutor dele? Talvez porque não gostaria de ser chamado de imitador.
Admitindo a autoria do romance, Lamartine ficaria também como autor de uma obra sem importância – uma compilação, no dizer de Louise Tassel.
E se tiver sido Carlos Coqueiro o autor do romance? Não, Lamartine jamais aceitaria esta opinião. Ter sido logrado pelo próprio avô? De nada teria valido dedicar-se por toda a vida a descobrir a origem daquele manuscrito. Glória vã.
E se tudo tiver sido impostura? Se os próprios críticos franceses forem invenção de Lamartine?



Vous mentendez?
Não sei onde estávamos o professor José Anderson e
eu. Talvez no meu apartamento. Ele falava e eu ouvia. Entanto, nada entendia. A não ser quando falava português. E somente o fazia para dizer: “Estou falando francês.”
Também não sabia se tratava de um ou de vários assuntos. Falasse de audição, de línguas, de livros, estaria falando para si mesmo.
“Que língua está falando agora?” Ele ria: “Só sei falar francês.” Eu repetia a queixa: “Não estou entendendo nada.” Ele redargüía: “Você quis assim. Contratou-me para traduzir as cartas de seu primo e para lhe ensinar a língua de Lamartine. Além do mais, não gosto de português nem de nenhuma outra língua, exceto a francesa. “Vous mentendez?”
De vez em quando ia à estante e retirava um livro. Abria-o e se punha a ler. Eram poemas e capítulos de romances franceses. “Sinta a sonoridade da língua.” E passeava pelo ambiente, cheio de imponência. “Leia Victor Hugo”, eu pedia. Não me dava atenção e permanecia absorto na leitura. Então já não se tratava do professor Anderson. Diante de mim eu via o avô de Lamartine. E não ousava mais falar. “Vamos passear, rapaz. Vamos às ruas. Precisamos levar ao povo o conhecimento, o saber. Os livros são inúteis nas estantes.”
Diante da casa passava uma multidão de pessoas, como numa procissão, num desfile. Nenhuma delas olhava para nós, embora me sentisse muito importante. Carlos Coqueiro lia e falava francês. Conhecia obras raras. Descendia do aventureiro Léonce Renard. E era avô de meu primo Lamartine.
Metido nessa soberbia, sentia ímpetos de insultar os transeuntes. Por que não nos cumprimentavam? Bando de parvos! E buscava a aprovação do velho Carlos para investir contra todos. Porém não mais o via. Onde se metera? Procurava-o no meio do povaréu. Gritava-lhe o nome. E mesmo assim ninguém me dava ouvidos e, muito menos, olhos.
Desesperado, entrava numa casa. Mamãe me recebia aos berros. Por onde andara? Com quem estivera? Eu arranjava desculpas, mentiras. Ameaçava me bater. Contasse toda a verdade. Eu chorava e ela me consolava. Fosse almoçar. Logo estávamos à mesa. Pratos e talheres postos. Cheiro bom no ar. Outras pessoas sentadas. No entanto, no lugar de mamãe eu via Alzira. E isso não me espantava. Nem me assustava a pergunta: quando você pretende morrer, homem?
Esses sonhos sem sentido me deixam sempre pensativo. Não tive vontade de sair da cama. Lembrava-me de Alzira. Não gostava de ser acordada. Eu calçava os chinelos e saía do quarto, feito gato. Cuidava do asseio pessoal, fazia café, arrumava as coisas na sala ou na cozinha. Aos domingos ia comprar jornal. Voltava para casa, ávido de novidades. Às vezes até desejava a morte do Presidente.
Vous mentendez?


Livros e Livros
É admissível a hipótese de ser o Romance da rosa gótica
obra de Lamartine. Ora, desde menino ele se mostrou muito criativo. Inventava brincadeiras, das mais ingênuas às mais extravagantes. E todos o tinham como líder. Mais tarde criou murais, onde expunha poemas de escritores desconhecidos de nós e até dos professores. Criou também os primeiros jornais do colégio. Os padres autorizavam a circulação das folhas, desde que previamente lidas por eles. Muitas vezes Lamartine teve de recopiá-las, para excluir poemas ou trechos de seus artigos.
As cartas e os cadernos de memórias são autênticas peças literárias. Quem já os leu não me desmente. O professor José Anderson me disse: “Lamartime sabia escrever. Às vezes até lembra Eça de Queirós.”
Meu primo leu muito. Sobretudo os clássicos, sem contar a literatura medieval. Iniciou-se nos livros deixados por seu avô. Ao longo da vida adquiriu uma vasta biblioteca. Se não leu tudo, se não teve tempo de ler os milhares de livros que agora estão comigo, com certeza leu muito. E a prova disso está nos comentários anotados nos cadernos e à margem dos livros. Nem sempre se delonga nas anotações, porém nunca deixa de fazê-las.
Por curiosidade, folheei todos os volumes da biblioteca. Entre as folhas de muitos deles encontrei papéis escritos a mão. Quase sempre anotações de leitura. Possivelmente esquecidas dentro dos livros.
Como já disse, não tive tempo de ler a biblioteca. E não estou mais na idade de ler. Talvez esteja na idade de reler. Não me resta mais muito tempo de vida. E quero dedicar este pouco tempo a lembrar o passado e descobrir o verdadeiro Lamartine.
Requer muita paciência esse trabalho diário e quase contínuo de decifrar meu primo. Como a paciência é irmã do tempo, preciso também de método. Em vista disso, separei para análise apenas os livros com maior número de anotações. E também aqueles mais demoradamente comentados nas memórias. Creio estar neles, na leitura deles a origem do Romance.
Como são mais de cem estes livros, vou me referir a apenas meia dúzia deles:
História de Narbo Martius, de autoria do italiano Fillipo dArezzo, é um relato de mais de trezentas páginas. Narra a história da primeira colônia de cidadãos romanos fundada na Gália, no ano 118 a.C. Há inúmeras citações latinas, sobretudo de Júlio César. Cada capítulo traz uma epígrafe. A do primeiro é o famoso trecho que aqui reproduzo: “Gallia est omnis divisa in partes tres, quarum unam incolunt Belgae, aliam Aquitani, tertium, qui ipsorum lingua Celtae, nostra Galli appellantur.”
Os Visigodos, de Germaine Poulenc. São cinco volumes, num total de 1.400 páginas. Lamartine fez diversos comentários a esta obra, quer nos cadernos, quer nos próprios livros, enquanto os lia. São sugestivas anotações, como esta: “Buscar outras informações sobre o bispo Úlfilas. Um grande personagem.”
A arte gótica, de Robert Borchert, está completamente rabiscada a lápis. É uma das obras mais estudadas por Lamartine.
As Leyendas del último rey godo, de Juán Menéndez Pidal, são comentadas em seis folhas dos cadernos de meu primo.
A Crônica Geral de Espanha de 1344 mereceu de Lamartine muito mais do que anotações e comentários. Há inúmeros trechos grifados e copiados. Outros sofreram modificações e integram o texto do Romance da rosa gótica. Daí a hipótese de ser meu primo o verdadeiro autor do livro atribuído a Charles dAvignon.
Um dos trechos grifados na Crônica é este:
“E, veendo os grandes fidalgos que nom eram desses bandos, e outrossi os poboos, o grande mal e destruiçom que por esto viinha aa terra, veerom-se a acordar de fazerem cortes e fazerem em elas tal regimento per que se a terra nom perdesse. E foi assi que forom feitas.”
No romance há um trecho (demorei a encontrá-lo), em bom português, que pouco difere daquele.
A Paródia, de Emílio de Sousa, também aparece cheia de grifos. E nos cadernos Lamartine escreveu: “Nunca pude ler a Batalha de Gigantes, do poeta Hegemon de Taso, nem a Batalha das Rãs e dos Ratos. Seriam essas as primeiras paródias, cinco séculos antes de Cristo. Se são obras secundárias, isto não significa não possa ser escrita uma paródia de grande valor literário.”
A esta opinião de meu primo contrapõem-se diversos correspondentes dele. Simone Jabés afirma não acreditar na possibilidade de uma grande obra surgida como paródia. Eustache Bouin cita apenas um exemplo de paródia merecedora de um lugar ao sol: o romance O sonho segundo Jung, do português Soares da Costa. A obra parodiada é Lamentações de Jó, do irlandês Gutbergur Eldjárn.
Sempre teimoso, Lamartine refutava uma a uma as opiniões de seus correspondentes. E dizia: “Muitas vezes a imitação supera o original. Conheço dezenas de boas obras literárias que poucos sabem terem sido paródias de obras menores. Assim, A condessa rebelde é paródia de O conde enamorado. Os funerais do capitão Gancho é paródia de As armas secretas. Sonata para Madalena é paródia de As noites frias. Como sabemos, o autor do primeiro é o húngaro Miklós Kazinczy, ganhador do Prêmio Sartre e um dos mais criativos romancistas do século XX. Já o autor da pequena obra parodiada, o brasileiro Jair de Freitas Machado, só pode ser posto ao lado desses escritores que produzem livros aos quilos.”
Como não conheço nenhum dos livros mencionados por meu primo, abstenho-me de dar opinião.

Num Labirinto
Nunca havia sonhado com livros, bibliotecas. Aliás, nem
sei como seja uma biblioteca pública. Nunca tive vontade de conhecer bibliotecas. Talvez por ser alérgico a poeira. E assim imagino serem as bibliotecas – pratelerias e mais prateleiras cobertas de poeira.
Encontrava-me num casarão antigo, piso de madeira, teto muito alto e pouca luz. Não lembro da porta de entrada. Nem sei se havia porta de entrada. Eu já me achava entre estantes. Para onde me voltava me defrontava com montanhas de livros. E ninguém a quem pudesse dirigir a palavra. Corredores estreitos, por onde só podia passar uma pessoa. E eu passeava, mirando as lombadas dos livros, vagaroso, curioso. Súbito me sentia perdido, consciente de estar enclausurado e só. Seria aquilo um labirinto? Apavorei-me e parei. Não valia a pena andar sem rumo. E eu só queria sair dali. Mas por onde sair? Que roteiro seguir? Talvez houvesse um mapa, um gráfico, um desenho qualquer daquele lugar. Onde? Setas no piso seriam suficientes para indicar a saída.
Uma voz sussurrou: “Siga; não fique parado.” Olhei para os lados, para cima, as estantes, na tentativa de descobrir de onde vinha aquela voz. “Que está querendo ver? Aqui você só terá livros para ver.” Queria ver o Romance de rosa gótica. A voz riu. Desconhecia tal livro. Por via das dúvidas, consultasse o fichário. As fichas continham todas as indicações necessárias à localização de cada livro. Tranqüilizado, indaguei onde encontrar o fichário. “Siga em frente e vire à direita.”
Cumpria atentamente as ordens recebidas. “Vire à esquerda.” Não parava nem sequer para respirar, e nada de alcançar o fichário. Aborreci-me – afinal, havia ou não havia fichário? E o Romance? Quero vê-lo imediatamente. Se você sabe tudo, deve saber onde se acha o livro de Charles dAvignon. “Como já disse, desconheço esse livro. Deve ser livro fictício.” E riu. “É um livro de ficção”, esclareci. “Suponho seja apenas um título. E aqui só temos livros escritos e imprimidos. Livros de todos os tempos. Alguns anteriores às civilizações grega e romana.”
A voz não parava de falar. (Não sei como dizer. Talvez devesse dar um nome ao dono da voz. É mais racional dizer: fulano não parava de falar. Porque uma voz só existe enquanto emite sons.)
Imobilizado, eu ouvia a voz: “Veja este livro do século XVII. Bem diante de seu nariz.” Eu o retirava da prateleira. “Obra de um francês. Contemporâneo do pai ou do avô daquele colonizador que deu origem à sua família.” Lembrei-me de Lamartine, suas histórias, o avô Carlos, o antepassado Leonce Reinach. “Tenha muito cuidado. As folhas estão envelhecidas. Não vá danificar essa obra maravilhosa. Há dela edições recentes, porém esta tem valor histórico. Traz autógrafo do autor.” Abri o livro e me pus a folheá-lo. Muitas gravuras. Numa delas um homem de chapéu, tendo à mão direita uma espada. Às costas, espécie de bolsa ou mala oblonga. A figura se movia, agitava, como se não fosse desenhada. E articulava palavras, que eu não conseguia ouvir. Depois saltava do livro para o chão e se punha a andar. “As gravuras diante de seus olhos se referem ao capítulo ‘Como um frade de Seuillé salvou o sino da abadia do saque dos inimigos’.” Essas figuras seguiam os passos da primeira, sem se darem conta de minha presença. E desapareciam também.
Fechei o livro, recoloquei-o na prateleira e me pus a andar. A voz nada ordenava. Parei novamente e apanhei outro volume. Mal o abri, figuras se desprenderam de suas páginas, das gravuras. Animais pequenos, exatamente do tamanho em que apareciam nas folhas do livro. Miniaturas de leões, ursos, elefantes, serpentes. E eu me tornava criança. Brincava com os pequeninos bichos, como se fossem brinquedos vivos. Iam e vinham, corriam, faziam estripulias, inofensivos.
Entretido, não percebia a aproximação de Lamartine. “Os bichinhos são meus. Não toque neles.” Eu me sentia roubado. E discutíamos. A seguir trocávamos socos e pontapés. Preocupava-me a vida dos animaizinhos. Poderíamos esmagá-los. No entanto, eles cresciam, aos poucos. Eu pedia trégua a meu primo. “Veja, eles estão crescendo.” Logo alcançavam seus tamanhos naturais e demonstravam ferocidade. Fugíamos, apavorados. “A culpa é sua”, acusava Lamartine. Eu me defendia e revidava a acusação: “Se você não tivesse chegado nem tivesse feito tanto barulho, eles não teriam crescido.”
Corríamos pelos corredores e não encontrávamos abrigo ou a saída. Os bichos urravam. Ouvíamos o tropel de suas patas no chão. Súbito eu me achava num beco sem saída. E só. Lamartine desaparecera. Não porém sua voz. “Onde você está?” “Estou aqui; vem me ajudar.” Chorávamos, embora os animais já não andassem atrás de nós. Nem sequer ouvíamos seus urros.
Não lembro o final do sonho. E não vou fazer interpretações dele. Porque seriam sem fim. A primeira poderia ser esta: a literatura é um labirinto.
Fui à enciclopédia e revi Dédalo, o Minotauro, Teseu, Ariadne, etc. Não preciso transcrever essas anotações. Não sou transcritor.

Línguas, Visigodos, Noras
Outro tema caro a Lamartine e seus correspondentes é
o das línguas românicas. Não meras informações, como as que obtive e obtenho na enciclopédia. Não há nas cartas nada como “a língua latim era falada, primitivamente, no Lácio.”
Para entender melhor o assunto das missivas, voltei à enciclopédia. Num caderno fiz algumas anotações, de que transcrevo partes aqui:
“Desde o século VII a.C. a existência da língua latim está documentada. Porém a língua falada pelo povo romano era a chamada latim vulgar. Dela se originaram as línguas românicas.”
Mais adiante tomei notas sobre cada uma dessas línguas:
“Provençal: língua falada no sul da França desde fins do século XI. Conhecida também como língua-doc. Pode-se chamá-la de língua do sim. Oc vem do latim hoc, partícula afirmativa. Em antigo provençal oc significa sim.”
Lamartine e seus amigos vão a fundo em suas discussões. Escrevem sobre os diversos tipos de composições provençais, os estilos, os trovadores, sobretudo Bertrand de Born, Arnaud Daniel, Marcabran e Bernard de Ventadour, “le prince des troubadours”.
Em carta a Eustache Bouin, meu primo solicitou exemplares de livros onde pudesse encontrar “chanson, sirventès, partimen, tenson, descort, estampida, dansa, bal e plang”. E acrescentava: “Não em francês, mas em provençal.”
Há na biblioteca livros muito antigos, como já disse. Um deles é Chanson de Sainte Foy dAgen. Não sei dizer se enviado por Eustache ou outro francês.
Uma das cartas de Eustache traz um conselho a Lamartine: “Procure conhecer a moderna poesia de língua-doc, bem como o romance occitânico. Indico-lhe alguns nomes, como Léon Teissier e Joseph Arbaud.”
Tenho conversado muito com o professor José Anderson. Estamos nos tornando amigos. Pelo menos uma vez por semana ele me visita. Vem trazer-me cartas traduzidas. Diz-me estar cada vez mais impressionado com a erudição de meu primo. “Esse homem conhecia tudo, Seu Victor.” Mostrei-lhe a biblioteca de Lamartine. Leu as lombadas, folheou um e outro volume, e se disse mais impressionado ainda com a sabedoria de meu primo. “Nunca ouvi falar da maioria desses livros. E olhe: já li muito, sobretudo os franceses.” E foi lendo os nomes e sempre dizendo: “Não conheço, desconheço, não conheço, desconheço.”
Aproveitei a oportunidade para lhe perguntar o significado de “Rosa gótica”. Ele pensou, passeou pela sala e se pôs a falar de arte gótica, alfabeto gótico, estilo gótico, letra gótica, romance gótico. Lembrou, ainda, a Gótia, os godos, os visigodos. Mais tarde fui à enciclopédia. O professor tinha noção de tudo, porém não me dera a resposta solicitada.
Preciso estudar mais os godos ou a Gótia. Creio vir daí o vocábulo utilizado no título do romance de Charles dAvignon.
Meus filhos já leram o romance. Acharam-no interessante, bom, genial. Cada um deles arranjou um adjetivo para qualificar o livro. Talvez quisessem me agradar. Ora, não sou o autor. Talvez imaginem uma grande amizade de mim por meu primo. Ou desejem reverenciar a memória do “tio”.
Nesse dia quase não brigamos. Estávamos na casa de Alexandre. Todos reunidos. Almoço com a família. “O senhor vem ou não vem morar comigo? Deixe esses livros de lado.” Só então me aborreci. Não, não vou deixar nada de lado. Nem os livros, nem as cartas, nem Lamartine, nem nosso passado. Como deixar tudo isso de lado, se com ele preencho o vazio de minha vida? Filhos, noras, genros, netos, eles têm suas vidas, suas vidas sem vazios, e não irão ter espaços para mim. Sou doutra estirpe, doutro tempo.

Vôo Para Gótia
Ontem não consegui dormir cedo. Passava da meia-noite
quando caí no sono. Desde depois do jantar me pus a fazer pesquisas na enciclopédia. Parti da Gótia e fui parar na Catalunha. E não esgotei o assunto. Antes disso, me exauri.
Devo ter sonhado durante toda a noite com os visigodos. No entanto, só me lembro do último sonho. Ou do penúltimo, do antepenútlimo, do mais impressionante. Quem sou eu para saber isto?
Sonhei novamente com Lamartine. Caminhávamos lado a lado. Havia árvores e sombras. E muito silêncio. Nossos passos pareciam lentos, medidos. Ele falava da Gótia, e eu nada entendia. Como se só dissesse a mesma palavra ou frase. “Eu vou para a Gótia.” Andávamos sempre, vagarosos, lerdos, preguiçosos. “Assim nunca chegaremos lá.” Ele riu e se deteve. Não, eu não iria com ele. Zanguei-me. Por que somente ele deveria ou poderia ir até a Gótia? “Olhe bem para mim.” E eu vi nele duas asas no lugar dos braços. “Vou voando, seu bobo. Você não sabe voar.” E dava pequenos vôos ao meu redor.
Com inveja, eu prometia engendrar minhas próprias asas. De papelão, de metal, de penas de aves. Lamartine zombava de mim. Eu até poderia fabricar asas. Jamais voaria, no entanto. Teimávamos. E, para provar minha incapacidade de voar, ele me ofereceu suas asas. “Use, pode voar. Tente voar. Mas suba pouco, porque o chão é duro. Você morrerá como Ícaro.”
Eu tinha consciência do perigo. Antevia a queda fatal. Se tentasse voar, não conseguiria pousar como as aves. Cairia feito uma pedra ou um boneco de barro.
Em meus sonhos há sempre o pavor de cair, mesmo quando subo ou desço escadas ou ladeiras mais íngremes. São pesadelos terríveis. E acordo sempre sufocado, aos gritos.
Não aceitei o desafio e me resignei à pergunta: que ia Lamartine fazer lá? Ora, ora, ora. Saber de Rosa. Pois circulavam rumores de ter ela ido para a Gótia.
Não me causou curiosidade saber os motivos da fuga da menina. Muito menos os do interesse de Lamartine por ela. Interessava-me saber onde ficava a Gótia. Meu primo riu: “Você nunca deixou de ser bobo. A Gótia é aqui mesmo, no território de Palma. Você não sabia disso ainda? É o sítio do vovô.” E se pôs a falar das delícias do lugar. Os riachos, as mangueiras descomunais e sempre carregadas de frutos, os animais soltos e mansos. Cabras, porcos, galinhas. Não se cansava de montar cabras e correr pelo mato. Os porcos serviam para comer as frutas apodrecidas e o cocô das pessoas. Sim, todo mundo fazia cocô no mato. Havia uma casinha de palha, mas quase sempre cheia de excrementos. O fedor se alastrava ao mais brando vento. E os perigos? Cobras deslizavam pela folhagem do chão. À noite, porém, sapos e grilos faziam a festa.
Decepcionado, eu ouvia, sem interesse, a descrição de Lamartine. Ora, para mim a Gótia ficava do outro lado do mar, na Europa, num mundo bem diferente do nosso. Castelos cercados de muralhas intransponíveis e habitados por príncipes e princesas, cavaleiros e donzelas. Nas redondezas do castelo, nas florestas, bruxas, fadas, mágicos, anões e gigantes. Seres esquisitos, como gnomos e duendes. E ainda licornes, grifos etc.
Lamartine não parava mais de falar do sítio e já contava histórias extraordinárias. “Quer ir comigo?” Não, não me interessava conhecer aquela Gótia. “Pois já vou.” E saía voando. Primeiro ao rés do chão, dando voltas sobre minha cabeça, depois alçava vôo e sumia além das copas das árvores.
Acordei nesse momento. Abri os olhos. A lâmpada no teto parecia balançar ou voar. Pus-me a relembrar o sonho desde o início: eu e Lamartine seguindo um caminho ladeado de árvores. E muita serenidade, muito silêncio. Sentei-me à beira da cama. Alguma vez teríamos caminhado juntos, os dois? Não, Lamartine sempre fugiu à minha companhia. Nunca quis ser meu amigo. Quando conversava comigo, havia um ou mais amigos por perto. E logo um deles se tornava o seu interlocutor, e eu me resignava à condição de mero ouvinte. Mais tarde, quando nos tornamos rapazes, ele mudou bastante. Nunca porém nos fizemos íntimos um do outro. Nunca havia silêncio e tranqüilidade ao redor de nós. Agora, sim, há tranqüilidade demasiada. E um silêncio como nunca houve.


Inventor de Simpósios
As cartas de Lamartine são também ricas de notícias.
Não de quaisquer notícias. Nada dos jornais e das televisões. Nada de política, de catástrofes, de crimes sensacionais. Apenas eventos no mundo acadêmico, universitário, literário: seminários, congressos, ciclos de estudos, simpósios, apresentação de teses. Sempre relacionados à literatura medieval, às línguas românicas, etc.
Quando noticiava um evento passado lamentava não ter podido convidar seu correspondente a dele participar. Se anunciava a realização de um seminário, não esquecia de fazer convite aos amigos estrangeiros a dele participarem. “Venha. Estarei a seu inteiro dispor. Cederei um dos quartos de minha casa. Se quiser, traga a esposa.” E assim ia se fazendo íntimo dos estrangeiros.
Eustache Bouin confessou não ser casado, não poder viajar e dedicar-se a cães. Clément Toulet disse ter pavor de avião e do mar. Simone Jabés não gostava de congressos, seminários, simpósios. Preferia os livros, as pesquisas, os estudos a sós.
Uma carta de Gérard Jaulin fez Lamartine “adiar” um congresso a ser realizado em Natal. O pesquisador francês agradeceu o convite feito por meu primo e comunicou sua chegada ao Brasil para dali a 15 dias. E aqui sou forçado a acreditar na existência real de Gérard Jaulin e também dos outros estudiosos com quem se correspondia. Ou então não existiam de fato, e Lamartine não passava de um brincalhão ou maluco.
As cartas recebidas por meu primo estão também repletas de convites. Não para participar de congressos, seminários, simpósios, mas para simplesmente conhecer a França, a Europa. E ele prometia viagens para um mês, seis meses, um ano depois. “Espere-me. Estarei em Paris no dia 30 de julho. Não deixe de ir ao aeroporto. Estarei perdido, se você não estiver lá.”
Há muito desconfio de Lamartine. Entanto não disponho de provas a favor de minhas desconfianças. Não sei se são reais ou fictícios os seus correspondentes. Como não sei se o Romance da rosa gótica é medieval ou de autoria dele mesmo. Agora estou para acreditar nunca terem se realizado os congressos, seminários e simpósios noticiados em suas cartas. Pretendo escrever às Universidades e outras entidades referidas por ele. Preciso da ajuda de meus filhos e do professor José Anderson. Se ainda fosse vivo, Capistrano Monte poderia me dar um grande apoio. Certamente conhecia todo esse pessoal universitário.
Não, não devo esperar nada de meus filhos. Alexandre não concorda nem sequer com o haver eu trazido para minha casa as cartas e os cadernos de meu primo. Jamais concordará com outras atitudes minhas, como esta de escrever às Universidades. Júlio César talvez seja o único a me apoiar nesta nova tarefa.
O professor Anderson parece amigo. No entanto, não posso lhe falar de minhas desconfianças. Ora, Lamartine é para ele um homem importantíssimo, um gênio. Jamais inventaria simpósios.
E se lhe dissesse ser Charles dAvignon pseudônimo de meu primo? Ele me acharia doido. Pior: um impostor. Pois então não existia a Fundação Lamartine Coqueiro? Enganado, ludibriado por um velho maluco. E nunca mais me traduziria as cartas francesas.
Decididamente, nada pode mudar. Lamartine se correspondia com os mais conceituados estudiosos europeus da Literatura Medieval. Meu primo descobriu e traduziu um manuscrito do século XIII. Participou de inúmeros congressos, seminários e simpósios. E eu sou o seu herdeiro, o guardião de seus escritos e livros e, sobretudo, de sua memória.

(Continua)