A Rosa Gótica (3)
(Continuação)
Transformações
Acordei ainda de madrugada. Sonhava com Rosa. Não
sei minha idade no sonho. Ela devia ter 15 anos. Conversávamos, sentados no chão, recostados à parede. Parecia noite, ou a luz no ambiente não me deixava enxergar nitidamente os objetos e a própria Rosinha. Isso, no entanto, não me impede supor fosse ela ainda mocinha. Falávamos inicialmente de Lamartine. “Você gosta dele?” Esperei uma eternidade pela resposta. Impaciente, fui à janela. Não havia sol nem lua. Não havia ninguém do lado de fora. Só um descampado sem fim, a se perder no horizonte. E Rosa cantava. Não lembro a letra nem a melodia. “E do irmão dele você gosta?” “De quem está falando?” “De Victor Hugo.” “Você é Victor Hugo.” E rimos.
Não lembro o instante seguinte ou como já estávamos do outro lado do cômodo, debruçados noutra janela, olhando para um rio. “Vamos tomar banho?” “Não; tenho medo de encontrar o corpo de Victor.” E lamentávamos a morte de meu homônimo. Ela se pôs a chorar. Consolei-a. Abraçamo-nos. Entanto eu abraçava Alzira e não Rosa. E Alzira já parecia adulta, como quando a conheci. Muito mais velha, um tanto gorda, algumas rugas, cabelos grisalhos aqui e ali.
A porta se abria de chofre. Assustávamo-nos. À nossa frente Lamartine e Victor. Nada falavam e imediatamente passavam a abrir gavetas e portas, arrastar cadeiras, como à procura de algum objeto. Eu e Alzira também nada dizíamos. A busca durou alguns minutos. Nada encontrando, os dois se retiravam, deixando escancarada a porta. “Procuravam dinheiro”, eu dizia, voltando-me para Catarina. Sim, no mesmo lugar onde estivera Alzira já eu via minha filha. E isso não me assustava. Como se já estivesse acostumado a transformações. Como se esperasse por elas. “Aqui tem muito dinheiro, papai?” Ri, porque Catarina falava como criança. Trajava vestido comprido, tecido muito colorido, bolinhas azuis e vermelhas. “Sim, eu tenho muito dinheiro.”
Ia continuar mentindo e brincando quando entraram os outros irmãos dela. Gritavam, corriam, empurravam-se. Ela se encolhia e se abraçava às minhas pernas. “Parem com isso. Vou chamar Alzira.” Eles, porém, não me davam ouvidos e mais gritavam. E então acordei.
Na rua um carro ia e vinha. Levantei-me e fui à janela. Rapazes gritavam. Tive ímpetos de dizer-lhes uns desaforos ou lançar água fria sobre aqueles doidos. Preferi ficar sossegado. Bebi água e voltei à cama. Rosinha, por que sonhar com ela e tê-la tão fugidia? Esses fantasmas não deviam me atormentar mais. Estou esquecido de tudo e de todos. Torturo-me para esquecer o passado. Não me interessam mais as meninas e as mocinhas envelhecidas ou mortas. O tempo ido dissipou-se. Agora só me resta uma nesga de futuro. E mais nada.
Partida
É tão presente em mim aquele tempo da primeira
juventude. Lembro acontecimentos insignificantes. Um sorriso, uma palavra, um gesto. Lembro um sorriso de Rosinha numa noite de quermesse. Lembro uma palavra que me feriu, um simples “biltre” nos lábios de Lamartine. Lembro o dedo da mão de um Adauto, erguido na minha direção. E tudo é bem distante, morto até.
Se não consigo esquecer essas insignificâncias, como não lembrar o dia da primeira morte de Victor? Como esquecer também a partida de Lamartine, no final daquele ano de 1944?
Quase não nos despedimos. Trocamos algumas palavras na véspera. Você vai mesmo embora? Vou, não aguento mais essa cidadezinha, essa porcaria.
Talvez não tivesse me dito nada, nem sequer aquelas palavras, se não tivéssemos nos encontrado por acaso. Pois quase ninguém na cidade sabia da viagem. Nem meus pais. Como se aquilo fosse segredo.
E para onde ia o filho mais velho do Seu Ernesto Coqueiro? Todos se perguntavam. E ninguém falava mais do outro, do gêmeo.
Você não vai também, Victor Hugo? –¬ perguntaram-me alguns amigos e algumas mulheres da vida. Vai envelhecer aqui nessa merda?
Tínhamos vinte anos, e tudo já parecia velho, passado, perdido. Nosso poeta morrera, Rosinha já não existia. Nossos pais pareciam nossos avós. Palma não mudava nada: as mesmas casas grudadas umas às outras, portas e paredes desbotadas. As ruas e seus mesmos habitantes, as mesmas pedras do calçamento. E as igrejas brancas, silenciosas, cheias de beatas de língua ferina e beatos hipócritas.
Muito bem, Lamartine. Em Palma não havia mais lugar para você. Na capital, sim, você iria crescer, tornar-se importante, um doutor.
Eu me remoía de inveja. Sentia-me pequeno, impotente, covarde. Ora, eu não sabia francês e muito menos latim, e em casa não havia livro nenhum. Lamartine, sim, lia francês e latim, e falava duns livros deixados por seu avô.
Nas memórias meu primo narra também essa fase de sua vida. A “morte” de seu irmão é contada em poucas palavras. Do enterro salta para sua viagem. Decisão tomada por seu pai. Em Palma não havia futuro. Apenas quatro escolas: o grupo escolar, municipal, para o curso primário; o ginásio salesiano, para meninos e rapazes; o colégio das freiras, para meninas e moças; e a Escola Normal, também de freiras.
Lamartine fala de seus sonhos de então: estudar, viajar, conhecer o mundo. Especialmente a França. Como desejava morar em Paris! Nas cartas também recorda esses sonhos. E lamenta não os haver realizado na juventude. “Espere-me em julho” – avisa numa carta a Gérard Jaulin – “ Vou precisar de cicerone.”
Dos livros também fala nos cadernos. Tudo herança deixada pelo avô Carlos. Obras dos principais escritores franceses, de Rabelais a Pierre Loti. Algumas em francês, outras em português. Sem contar as obras raras da literatura da Idade Média, como Roman de la Rose, Roman de Jelan de Paris e Vie de Saint Louis.
Lamartine não diz quantos volumes constituíam a biblioteca deixada por seu avô. Cita alguns e, às vezes, refere-se apenas ao autor. Como neste trecho das memórias: “Vovô lia e relia tudo. E até sabia de cor alguns versos. Dos poetas de sua preferência, como Lamartine, Victor Hugo e Musset. Porém não gostava dos enciclopedistas, sobretudo de Voltaire e Diderot.”
Afirma o memorialista ter lido toda a biblioteca do avô antes dos vinte anos. Não duvido disso. Pois vez por outra contava resumos de romances para um grupo de amigos. Como o Notre-Dame de Paris. Desse nunca esqueci, embora não o tenha lido.
Quando partiu para a capital, Lamartine não levou os livros. Porque não lhe pertenciam ainda. Só mais tarde, quando o pai morreu, tomou ele conta da biblioteca. Agora, enriquecida de milhares de outros livros, ela me pertence, até que a Justiça decida quem será o herdeiro de meu primo.
Contos de Carochinha
Quando Lamartine saiu de Palma tudo me impelia a
partir também. Contudo, ainda vivi dois longos anos a ouvir conselhos. Papai me falava do futuro. Não havia científico ou clássico na cidade. Os melhores empregos cabiam aos afilhados do doutor Saraiva, o deputado eleito pela cidade. Como o de delegado de polícia. Restava seguir o caminho de papai. E ele até me apresentou essa alternativa. Porém o comércio não me seduzia.
Meus amigos também falavam em ganhar a vida em São Paulo ou mesmo em Fortaleza. E muitos o fizeram.
Eu queria estudar, ser um doutor, viajar o mundo. Não queria morrer cedo ou terminar a vida naquela cidadezinha, onde todos sabiam da vida de todos.
No entanto, os dias passavam e eu não conseguia ir embora. E Lamartine por onde andava? Chegavam-me raras e breves notícias dele. “Estuda medicina.” Mentira. “Viajou para a Europa.” Conversa fiada. “Está noivo da filha de um ricaço da capital.” Conto de carochinha.
A cada semana, a cada mês novidades como essas nasciam na casa número 135 da Avenida Dom Bosco e rapidamente chegavam aos ouvidos dos dez mil palmenses. Uns diziam, apalermados: “Eu bem falava do futuro daquele menino.”
O alvissareiro de sempre chamava-se Ernesto. “Vocês sabiam? Meu filho Lamartine comprou um automóvel.”
Não sei dizer se tantas novidades chegavam em cartas de meu primo ou se emergiam do cérebro fantasioso de seu pai. O mais razoável é crer-se na mentira de um, agravada pela fantasia de outro. Se um escrevia:“Comprei um mapa da França”, o outro alardeava: “Lamartine está de viagem marcada a Paris.”
Tendo Ernesto enlouquecido algum tempo depois do “afogamento” de Victor Hugo, suponho ter sido o outro gêmeo o causador de sua demência. As cartas mentirosas devem ter estimulado as fantasias de seu pai.
Nas memórias de Lamartine não há nenhuma referência às cartas enviadas a seus familiares. E muito menos àquelas admiráveis notícias divulgadas em Palma nos dias seguintes à sua partida. As páginas onde narra aquele período contêm outras fantasias. Aqui aparece o ferrenho inimigo do Estado Novo. Ali surge o incansável amigo das mulheres. Acolá desponta o formidável intelectual.
Os episódios se acumulam nos cadernos. Estudantes armados de pedras combatiam carabinas de soldados getulistas. Gritos por liberdade, correrias, sangue nas ruas. Muitos estirados no chão. A ordem para recuarem os estudantes. Nada de suicídio. Lamartine, porém, sobe a um banco da praça e grita: “Morte à ditadura.” Ressoam tiros. Grita mais, incita os companheiros à luta. E a multidão, já em debandada, volta, avança para a soldadesca. À frente o jovem Lamartine.
A narrativa, de tons épicos, parece não ter fim. Chega a ser fastidiosa. E soa falsa.
A juventude de Lamartine é toda feita de grandezas. As mulheres mais belas se espojam a seus pés. São reles fêmeas magnetizadas pelos encantos de D. Juan.
O herói dos campos de batalha é também o conquistador número um nas camas.
E ainda lhe sobrava tempo para ler gregos, latinos, novelas de cavalaria, trovadores, renascentistas, filósofos, epopéias indianas e não sei que mais.
Transcrevo trecho bem característico dessa megalomania intelectual de Lamartine: “O ano de 1945 é dos mais significativos em minha vida. Fiz leituras magníficas, como do Bagavad-Gita, do Rigveda e do Gilgamesh. Li também uma coleção de biografias de filósofos antigos, num total de trinta volumes. Encantou-me a filosofia de Lao Tsé. E nunca pude esquecer Zenão de Eléia, Epicuro, Tales de Mileto e tantos outros. Para não me perder no passado, adquiri as obras completas de alguns russos, como Dostoievski, Tolstoi, Turgueniev, Gogol, Lermontov, Pushkin e Tchekhov. Não tive tempo de os ler todos naquele ano. Porém tive o prazer de saborear obras-primas como Guerra e Paz, Os irmãos Karamazov e Crime e Castigo. Ao chegar o Natal já havia lido mais de cem romances da literatura russa.”
Tudo isso me deixa morto de inveja. Ora, aos vinte anos não enfrentei sequer o mais sonolento meganha. Se seduzi alguma mulher, a virtude não me pertencia, mas ao dinheiro. E, se muito li, passei a vista por uns versos de Olegário Mariano.
Se sou invejoso, não sou mentiroso. E, como creio ser obra da fantasia de Lamartine todo o seu passado escrito, já o não invejo.
A mim me resta restaurar a verdade. A Lamartine lhe falta mentir aos vermes, a sete palmos do chão.
Professor de Francês
Eu devia ter presumido o destino intelectual e profissional de Lamartine. Ele só poderia se fazer professor de francês. Nunca engenheiro ou médico. Em última hipótese, marinheiro, piloto de avião ou diplomata. Viajaria muito, conheceria o mundo.
Nas cartas e nas memórias não há nenhuma afirmativa de ter ele conhecido outros países. Contudo há frases que levam a diversos entendimentos. Como quando escreveu a Simone Jabés: “Numa livraria de Rouen disseram-me poder encontrar as obras de Maxime Langlois.”
Também ainda não encontrei nenhuma frase do tipo: “Nunca saí do Brasil.” Há, no entanto, nos seus escritos, declarações de amor à França: “minha pátria”, “terra dos meus sonhos”, “língua quase materna”.
Mais de cinco páginas das memórias Lamartine dedica à sua atividade docente. Relembra: “Para não me prejudicar nos estudos, não arranjei logo emprego. Preferi lecionar francês a rapazes e moças. Cobrava pouco por cada aula. E bastava para completar minhas despesas. Papai nunca deixava de me mandar dinheiro.”
Narra episódios da vida de estudante, enumera algumas mulheres e volta aos estudos e aos primeiros exercícios professorais: “Apareceram-me empregos em lojas e bancos. Recusei-os todos. Não me interessavam apólices ou fazendas. Eu só queria livros e mais livros, versos e prosas, verbos, advérbios e substantivos. Sobretudo franceses. Ora, eu carregava comigo um tesouro. Aquele manuscrito de meu avô desde cedo eu acreditava tratar-se de raridade. Nenhum livro, nenhum manual o mencionava. E o título, aquele título me fascinava: Le roman de la rose gothique. O autor, nenhum compêndio de literatura francesa o citava. Quem seria, então, Charles dAvignon?”
As memórias parecem-me interessantes enquanto narrativa. Mesmo os trechos onde vislumbro mentiras ou fantasias. No entanto, quando Lamartine se põe a filosofar, eu me aborreço. Como neste fragmento: “Não sei o que me levou a ensinar francês. Pois, menino e adolescente, não me via jamais professor. Até não gostava de professores. Todos figuravam para mim complementos da mesa, do giz, do quadro-negro.
Terá sido meu nome o causador deste mal? Terá sido meu pai? Terá sido meu avô? Terão sido os livros de meu avô? Terá sido o manuscrito? Ou Charles dAvignon?”
Lamartine não deu respostas às perguntas. Eu, no entanto, tenho cá uma resposa. Levou-o ao francês e, conseqüentemente, ao ensino da língua primeiro o seu pai e depois o seu avô. Ambos maníacos. Ernesto chegou a dar aos treze filhos nomes franceses. O velho morreu dizendo-se descendente direto de franceses. Não cansava de lembrar seus antepassados. E, vez por outra, saía de casa carregado de livros, que lia em praça pública.
Nas memórias meu primo lembra as excentricidades de seu avô. Como sujeitá-lo, desde muito criança, a decorar versos em francês. Para recitá-los durante as festas de aniversário, os casamentos, os batizados, as festas cívicas.
“Até hoje não esqueci muitos daqueles versos, embora mal soubesse pronunciar palavras em português. Alguns deles reencontrei mais tarde nos livros. Como estes de Musset:
Lorsque le pélican, lassé dun long voyage,
Dans les brouillards du soir, retourne à ses roseaux,
Ses petits affamés courent sur le rivage,
En le voyant au loin sabattre sur les eaux.
De outros, que depois consegui copiar, nunca lhes soube a origem. Não sei quem os escreveu. Talvez meu próprio avô. Como estes:
Vaste jardin où je me réfugie
dans une nuit obscure où le silence ordonne.
Jardin où, fugitif, je mabrite
de la tempête qui me surprend de bonne heure,
mal né le jour, bien accablé le soir.
Vovô me parecia muito inteligente. E diferente das outras pessoas. Como se fosse estranho àquele lugar, vindo de muito longe, talvez de outro planeta, da esfera celeste. Pois falava uma língua que – eu supunha – só ele falava. E conhecia pessoas nunca vistas, de nomes esquisitos. Guillaume de Lorris, Étienne Zeller, Joachim Du Bellay, Edmond Boucerf e muitos outros.”
Se não se tivesse tornado professor de francês, meu primo teria sido mais um louco na família Coqueiro.
E se também estiver mentindo ao se dizer mestre da língua francesa?
O Baú
Por que Lamartine deixou passar tanto tempo para dar
notícia do manuscrito? Por que o ocultou dos outros até à velhice? Pois sabia desde cedo da importância dele.
Estas questões não estão respondidas com clareza nos cadernos e nas cartas. A Clément Toulet escreveu: “Li pela primeira vez o romance de Charles dAvignon quando vovô já havia falecido. Ele o guardava num baú, trancado a sete chaves. Falava-nos de sua relíquia, porém nunca a retirava da velha mala.”
Noutra carta, como se atendendo a uma curiosidade do correspondente, complementa a primeira informação: “O caderno, em formato de livro, jazia no fundo do baú, enrolado em folhas de papel. Parecia não ter sido tocado há muitos anos. A caligrafia bonita, letras redondas e simples, pertencia a mão de mulher letrada. Talvez de minha avó.”
Não há nas memórias e cartas referência às circunstâncias em que achou o caderno do avô. E aqui faço uma suposição. Num dia de loucura, Ernesto ameaçou incendiar a própria casa. Chegou a queimar roupas e alguns móveis. Lembro daquele dia. Toda Palma se agitou. Centenas de pessoas se postaram diante da casa de meu primo. Ernesto gritava, corria, chegava à janela. Alguns moleques davam-lhe vaias. Outros bradavam: doido, maluco. Laura chorava, pedia socorro, mandava os filhos para a rua. E o homem, furibundo, sem calça e sem camisa, tocha erguida, ameaçador. “Vou botar fogo em Palma. Vou queimar tudo.”
Regressávamos do ginásio, mortos de fome, alheios às novidades. De longe avistamos a multidão. Lamartine seguia à minha frente. Conversava com um colega. E subitamente o vi correr. Todos corremos também. E nos juntamos ao povo. Minutos depois, meu primo, chorando, saía de casa. Trazia nos braços alguns livros. E nos pedia ajuda. Salvássemos os livros de seu avô.
Creio ter sido aquele dia de labaredas e sustos o dia do achamento do romance de Charles dAvignon. Pois numa carta a Eustache Bouin afirma Lamartine: “Salvei do fogo a rosa gótica.”
Sucederam-se os escândalos na casa de Ernesto, sobretudo após o suposto afogamento de Victor Hugo e a partida de Lamartine. Todavia, nesse tempo, talvez antes, os livros do velho Carlos já deviam ter sido retirados de casa por meu primo.
Nos cadernos há um trecho onde pode estar definido o momento certo da retirada dos livros: “Vovô me dizia sempre – todos estes livros serão seus um dia. Pois cedo me fez íntimo deles. Ensinou-me a língua francesa, lia para mim os poemas de sua predileção, e depois, já quase cego, fez de mim seu leitor. Papai não seria nunca um bom herdeiro. E os livros terminariam devorados pelas traças. Eis a razão de ter me confiado a guarda de sua biblioteca, assim como do baú onde conservava o manuscrito e objetos de estimação.”
As primeiras cartas são datadas de 1984. Há, porém, rascunhos delas com datas bem anteriores a esta. Um deles, de 2 de abril de 1979, comenta os acontecimentos político-sociais no Irã. Faz uma caricatura de Khomeini e muda repentinamente de assunto: “Quero lhe falar de um livro raríssimio. Não se lhe conhecem edições recentes. Talvez nunca tenha sido editado.”
Numa carta de 27 de janeiro de 1985, dirigida a Jean Auguste Vitrac, há uma reprodução quase integral do rascunho de 1979. Não fala do Irã nem do aiatolá, porém da nave Discovery e dos perigos de uma guerra atômica. Também muda repentinamente de assunto: “Vou lhe falar de um livro raríssimo. Não sei de edições recentes dele. Já escrevi às mais importantes bibliotecas, a universidades, a pesquisadores. Ninguém sabe desse livro. E creio ter sido escrito no século XIII.”
Noutra carta ao mesmo Vitrac anuncia poder enviar pequenos trechos do livro. “Não posso mandar todo o manuscrito. Corre-se o risco de minha carta se extraviar ou cair em mãos de criminosos. Imagine um jornalista inescrupuloso de posse do meu achado.”
Um mês depois escreveu outra carta a Vitrac. Nela há um trecho do manuscrito.
Suponho ter Lamartine dedicado toda a sua vida ao tema do manuscrito francês. Pois sempre viveu só, desde sua partida de Palma. As cartas falam sempre e quase tão-somente do caderno deixado por seu avô. Nelas e nas memórias revela ter estudado, desde a juventude, a origem do romance de Charles dAvignon. As transformações sofridas ao longo do tempo e as várias transcrições. A obra teria sido escrita originalmente em língua doc. Depois teria surgido uma versão em francês. A tradução para o português seria do próprio Lamartine, baseada na cópia francesa encontrada no baú de Carlos Coqueiro.
Castelos e Dragões
Nunca fui dedicado aos estudos. Detestava matemática.
Não passei do bê-a-bá do inglês, do francês e do latim. Tive algum interesse por geografia e história. Gramática da língua portuguesa sempre me pareceu um bicho-de-sete-cabeças.
Ao contrário de mim, Lamartine estudava muito e sempre se distinguía dos outros nos exames. E isso o afastava de minha turma, da qual fazia parte o gêmeo dele.
Meus amigos foram sempre os mesmos, desde os tempos das brincadeiras infantis. Jogávamos futebol todos os dias e, vez por outra, brigávamos com meninos de outras turmas. A seguir veio a fase do cigarro. Fumávamos às escondidas de todos. Até de desconhecidos. Mais tarde conhecemos bebidas alcoólicas e passamos a freqüentar cabarés e bilhares. Chamavam-nos de vagabundos e boêmios.
Vivíamos cantando. Sabíamos as músicas dos principais cantores. “Lealdade”, na voz de Orlando Silva, tornou-se quase um hino para nós. Depois foi a vez de “Fascinação”, com Carlos Galhardo.
Havia poucos rádios em Palma. Nas casas mais ricas, de comerciantes e proprietários de terras e prédios. Papai demorou a comprar um daqueles aparelhos. Parecia um baú.
Na Matriz havia um serviço de alto-falante. No entanto só transmitia a “Ave-Maria”, todas as tardes. E como desejávamos ouvir Francisco Alves e todos os outros cantores! Até que surgiu um empreendedor e instalou outro alto-falante na cidade. Cobrava uma ninharia para transmitir recados e músicas, a pedido. Devia ter inúmeros discos.
Nesse tempo já Lamartine havia se incorporado ao nosso grupo, embora não fumasse e pouco bebesse. Talvez por demasiado temor a seu pai. Pois Ernesto se tornava mais louco, à medida que o tempo passava. E, quando enlouquecia, tornava-se violentíssimo. Batia em Laura e nos filhos, inclusive nos mais novos. E todos na cidade tomavam conhecimento dessas estripulias.
Victor Hugo parecia não dar importância ao comportamento de seu pai, nem ao falatório geral. Continuava se embriagando, recitando Augusto dos Anjos e visitando as raparigas. Seu gêmeo, no entanto, muito se enfadava com os escândalos protagonizados por Seu Ernesto. Sentia-se envergonhado, talvez. Ou temia ser ridicularizado. E então sumia ou se refugiava nos estudos. Passava dias e dias encafuado em casa. Perguntávamos por ele a seu irmão. “Meteu-se nos livros de vovô.” Ríamos, queríamos mais detalhes dos esconderijos de Lamartine. “Que livros tão grandes são esses?” Victor participava também da brincadeira: “São histórias cheias de castelos e dragões.”
Quando voltava ao convívio dos amigos, Lamartine parecia cada vez mais distante de nós. Falava da França e dos franceses, sobretudo. Aqui e ali pronunciava palavras e expressões francesas. E as traduzia, em seguida, a demonstrar saber muito bem o que dizia. “Ainda hei de conhecer Paris. Aliás, tenciono morar lá.” E se punha a sonhar no Arco do Triunfo, na Torre Eiffel, nos Champs-Élysées. Depois, como o velho Carlos Coqueiro, recitava os poetas:
Salut, bois couronnés dun reste de verdure!
Até se anojar completamente de nós, os amigos de infância e adolescência, os parentes, os conterrâneos, e partir para sempre em busca de seu castelo. Ou de seu dragão.
O Provençal Léonce
Nenhuma carta de Lamartine é um relato completo,
ainda que sucinto. A reunião de suas cartas tampouco configura um relato completo. Há lacunas aqui e ali. E tudo isto pode significar que meu primo não dispunha de um esboço preestabelecido da história do manuscrito encontrado no baú de seu avô. Essa história teria sido criada por ele ao longo do tempo. Como uma telenovela.
Em linhas gerais, a história contida nas cartas é a seguinte: Entre os franceses chegados ao Maranhão no século XVII havia um Léonce Renard ou Reinach. Não há outras informações sobre esse personagem, a não ser a de ter trazido um caixote repleto de livros e manuscritos.
Sem qualquer explicação, meu primo afirma ser este aventureiro seu primeiro ancestral francês em terras brasileiras. Não menciona árvores genealógicas.
Numa carta a Clément Toulet resume: “Os filhos desse Léonce receberam nomes portugueses, originando-se então a família Coqueiro.”
Não há nenhuma referência à mulher de Léonce, se indígena, portuguesa ou de outra nacionalidade. Lamartine também não se atém aos netos, bisnetos e trinetos do ilustre soldado francês. Vai direto a Carlos: “Vovô herdou algumas terras e um baú de livros. Seus irmãos herdaram apenas terras. Isso explica porque ele se tornou um homem admirado por todos.”
Também não há nenhum capítulo onde esteja narrada a diáspora dos Coqueiros. Em carta a Simone Jabés diz simplesmente: “Uma parte da família decidiu buscar novas terras. E para a região de Palma foram Carlos e seu irmão Luís.”
Nas primeiras cartas a cada um dos seus 49 correspondentes, meu primo dá sempre a mesma informação: Tem em seu poder um manuscrito em francês arcaico. Trata-se de um romance de Charles dAvignon. A obra é do século XIII e se intitula Le roman de la rose gothique.
Curiosos, os estrangeiros lhe solicitam mais informações. E Lamartine vai tecendo a teia: o manuscrito é cópia de cópia de cópia. Como os copiadores não sabiam francês, há erros grosseiros. Em vista disso, ele decidiu passar a limpo toda a obra, já em bom francês.
Eugène Laloux perguntou quem seria o copista do manuscrito encontrado por Lamartine. A resposta não brotou límpida: “Nunca vovô me falou disso. Porém me repetia sempre: meus livros e manuscritos vêm de pai para filho, desde a chegada dos franceses ao Maranhão. Quando os papéis ficam velhos, as letras vão desaparecendo, alguém trata de copiá-las em folhas novas.”
Na segunda carta a Jules Signac meu primo anuncia outra descoberta extraordinária. O manuscrito trazido por Léonce continha a seguinte observação: “Traduzido do provençal para o francês por Claude Seurat.” Esta nota se reproduziu até a cópia encontrada no baú de Carlos Coqueiro.
E Lamartine se culpa: “Não a copiei por descuido ou por não ver nenhuma importância nela.”
Ora, como pode um pesquisador, um estudioso, um professor de francês dizer semelhante idiotice? Só posso crer naquela hipótese de ser Lamartine um impostor e ter inventado toda esta história. A cada dia, a cada carta lhe surgiam novas idéias. Se não contradiziam as anteriores, ele as acatava e divulgava. Porém, estando já idoso, muitas vezes não percebia as contradições. Ou não conseguia preencher as lacunas do enredo.
Gérard Jaulin perguntou-lhe como se explicava um soldado, um colonizador partir da França para o Brasil e levar consigo livros e manuscritos raros. Lamartine, aborrecido, respondeu: “Um homem não deixará de conhecer terras exóticas por gostar de ler.”
Augustin Cantagrel disse não acreditar ser autêntica a informação de ter sido o manuscrito traduzido do provençal para o francês. Qualquer pessoa poderia ter escrito a nota. Inclusive Carlos Coqueiro. Além disso, o texto em provençal não existia.
Um ano depois Lamartine anunciou ter encontrado fragmentos desse texto. “Estão comigo desde a morte de vovô. São 31 pedaços de papel envelhecidos, quase decompostos. A tinta, já desbotada, torna ilegíveis algumas palavras. Não os tinha analisado ainda por medo de os destruir, ao tocá-los. Acreditava, também, serem restos da cópia antecessora daquela deixada por vovô. Por curiosidade, resolvi passar a limpo os fragmentos. Queria comparar o francês de uma cópia ao da outra. Queria saber se houvera progresso ou retrocesso. Se meu avô, ou seu copista, havia deturpado ou melhorado o francês de seu pai. Perplexo, porém, quedei-me ao anotar as primeiras palavras. Não, aquilo não era francês. Excitado, copiei os 31 fragmentos. E os levei a um amigo, agora falecido, o professor Capistrano Monte. Conhecedor de latim, grego, sânscrito, hebraico e outras línguas antigas, certamente decifraria aqueles hieróglifos. E ele, passando os olhos pelas folhas, sorriu e, sem titubear, disse: Isto é provençal. Pedi-lhe uma tradução para o português. E constatamos serem as primeiras páginas do romance de Charles dAvignon.”
Demandas
Por insistência de seus correspondentes, Lamartine
passou a lhes enviar resumos de partes do romance. E então se deram os primeiros embaraços de meu primo. Os estrangeiros lhe faziam objeções a cada nova carta.
Georges Jacottet escreveu diversas vezes a Lamartine. Demonstrando vasta erudição, observou semelhanças de um trecho enviado com o capítulo II do livro primeiro do Amadis de Gaula. Sobretudo quando a rainha se maravilha ao ver o Donzel do Mar atirando setas.
Lamartine se irritou na carta seguinte. Se as duas obras se assemelhavam, os estudiosos deveriam rever toda a exegese do Amadis. Primeiro: sua origem, se portuguesa, castelhana, francesa, etc. Segundo: seu autor, se João Lobeira, se Vasco Lobeira, se outro. Terceiro: se originalmente escrito antes ou depois de 1245.
Jacottet se referiu ao professor Alonso Morales, estudioso da literatura medieval. Lamartine se interessou pelo espanhol, com quem passou a se corresponder. Nas primeiras cartas trataram quase sempre de questões relativas às origens de obras como o Amadis, a Demanda do Santo Graal e o Ysengrimus. E mencionava historiadores, pesquisadores, ensaístas de diversos países. Alguns deles meu primo os conhecia. Como Menéndez y Pelaio, Narciso Alonso Cortês e Maria Rosa Lida de Malkiel. Para demonstrar conhecimento das obras desses escritores, Lamartine comentava suas opiniões e informações. Às vezes transcrevia trechos de obras como Orígenes de la novela, História das novelas portuguesas de cavalaria e La matière de Bretagne et lAmadis de Gaule.
Apesar de toda a astúcia de Lamartine, não deixou Alonso Morales de o chamar de lunático. E pôs em dúvida a existência do Romance da rosa gótica. O título lhe parecia excessivamente moderno. Charles dAvignon poderia ter traduzido e ampliado o original. Esse original poderia ser castelhano ou português, e nunca provençal.
Meus rudimentares conhecimentos de História da Literatura não me deixam dar opiniões. Minha enciclopédia não me dá todas as informações de que necessitaria para discutir assuntos como os tratados nas cartas de Lamartine. E não disponho de tempo para ler ao menos meia dúzia de livros. E, se os lesse, mesmo assim não estaria capacitado a dar opiniões como as de Alonso Morales.
Prefiro, pois, ler as cartas e me encher de dúvidas cada vez mais. Se o romance foi escrito em língua doc, francês ou português. Se o original é de 1245, de 1800 ou de 1945. Se Charles dAvignon é autor, tradutor ou pseudônimo. Se Lamartine é um descobridor ou um impostor.
Meus filhos não param de me importunar. Não vêem nenhum sentido nessas minhas leituras e releituras das cartas e dos cadernos deixados por meu primo. Chamam-me a passear, viajar e até deixar de vez esta casa. E tudo o que há nela. E ainda me acusam de ter me apossado de coisas do falecido. “Se mamãe ainda fosse viva...” Não, Alzira não se incomodaria com minha nova maneira de levar a vida. Resmungaria pelos cantos e ficaria nisso.
Alexandre me anunciou novidades. A Justiça deverá decidir sobre os bens deixados por Lamartine. Falou de inventário, partilha, herança. A mim só me interessam as cartas e os cadernos. Até os livros podem ficar com outro. Não pretendo lê-los. Júlio César ri quando lhes digo isso. Catarina está sempre ao lado de Alexandre. Desde menina vê no irmão a autoridade máxima. Augusto permanece calado. Os outros pouco me vêem.
Logicamente amo meus filhos. Apesar disso, quero viver sozinho. Passei anos e anos ao lado de Alzira. Nossos filhos cresceram, saíram de casa, constituíram suas famílias. De vez em quando nos visitavam, levando seus filhos. Alzira adorava os netinhos. Por ela, um ou outro deveria passar dias conosco. Eu não concordava com isso. Gostava de minha solidão, meus jornais, minha enciclopédia. Criei outras manias. Quando Alzira morreu, dediquei-me ainda mais a mim mesmo, aos meus passatempos. Depois redescobri Lamartine, aquela notícia do livro. Agora me dedico exclusivamente às cartas e às memórias de meu primo. E não suporto multidões, algazarra, gente perto de mim. Rezo para não receber visitas. Nem as de meus filhos.
(Continua)