A Rosa Gótica (2)
(Continuação)
Tempos de Criança
Nas memórias Lamartine relembra nossos tempos de
infância. Digo “nossos” porque vivemos o mesmo tempo no mesmo lugar. Se disser “seus tempos” serei mais preciso. Porque eu e outros meninos somos figuras menores em seu relato. Ele é sempre o protagonista de todos os atos, das brincadeiras, das brigas, dos jogos. E não só protagonista, mas o vencedor, o melhor, o herói.
Sou talvez o mais desprezível dos meninos de Palma. Meu nome é citado meia dúzia de vezes, enquanto outros de menor importância aparecem muito mais. Sou sempre o covarde nas brigas, o traquinas na sala de aula, o perdedor nos jogos e nas brincadeiras.
Outro nome sempre desprezado por Lamartine é o de seu irmão gêmeo Victor Hugo. Remendo a frase, porque meu nome é também Victor Hugo. Logo, não poderia ter escrito “outro nome” e sim “outro menino”. Para não emporcalhar o comentário.
O gêmeo é pintado com as cores mais aberrantes. É um retrato quase monstruoso. Victor é malvado, traiçoeiro, perigoso, sem deixar de ser idiota. No entanto, nada disso é verdadeiro. Pois meu homônimo demonstrava sempre muita inteligência e bondade. Nunca o vi ferir ou matar animais. E todos nós costumávamos abater passarinhos a tiros de baladeira. E também sapos, lagartixas, pintos, sem falar em bichinhos menores, como formigas e grilos. Divertíamo-nos torturando até a morte estes e outros animais.
Lamartine não conta estas traquinagens. Não se alonga em narrações naturalistas. Simplesmente acusa: fulano esfolou o sapo. E ele é sempre o observador omisso ou impotente. “Não pude fazer nada. Todos queriam aquilo. Menos eu.”
Não quero ser o acusador de Lamartine. Até porque não faz sentido acusá-lo disso e daquilo. Está morto, afinal. Além do mais, a memória pode deturpar os fatos. No entanto, Palma ressurge inteira, perfeita nas descrições. É como se ele a tivesse descrito ao tempo de nossa infância. Ou como se olhasse fotografias antigas e se pusesse a descrever casas, ruas, praças, igrejas, o coreto, o cruzeiro, as estátuas, tudo. Não há uma telha a mais. Não falta uma só pedra do calçamento.
Tanto me impressionou essa descrição meticulosa que não a esqueci e mais de uma vez voltei à sua leitura. Revia a Palma de nossa infância, e nela me revia. Entretanto, ao ler o romance de Charles dAvignon, não pude deixar de ver em Narbo Martius uma reprodução cabal de Palma. Tudo nele relembra a cidade onde nasci. E isto só vem me fazer pensar na hipótese de ser o Romance da Rosa Gótica uma obra adulterada. Contudo deixo para depois tal acusação. Preciso antes mandar traduzir as cartas recebidas por meu primo.
Volto à Palma dos cadernos.
A escola onde estudamos está pintada com perfeição. Exatamente como era naqueles tempos. E não só a arquitetura do prédio. As professoras, a diretora, os alunos, os livros de estudos, os cadernos, tudo é descrito minuciosamente.
Quando fui matriculado na escola, em 1933, já Lamartine cursava a 3ª série. Os primeiros dias foram terríveis para mim. Durante o recreio, sem amigos, quase não brincava. Ele e seus amigos olhavam para mim e riam. Sentia-me segregado, rejeitado. A professora tentava me ajudar. Fosse brincar, jogar bola. Dava-me vontade de chorar. Por que meu primo zombava de mim? Queixei-me disso para mamãe. Ela disse duas ou três palavras e voltou à sua lida. Nunca dispunha de tempo para mim. Restava-me, pois, decidir meu destino. E ele me surgiu em figura de bola. Recostado à parede, olhava os outros jogarem. Súbito a bola me acertou o peito e caiu aos meus pés. Agarrei-a e dei-lhe um chute espetacular. O resultado não podia ser mais inesperado. A bola atingiu em cheio o rosto de Lamartine. Tonto, ele partiu no meu rumo. Ameaçador, anunciou vingança. A professora, porém, chegou a tempo de evitar minha desgraça.
Meu primo não conta esse episódio, apesar de falar desses meus primeiros tempos de escola. Chama-me de “priminho atoleimado”.
No dia seguinte não me faltaram convites para jogar bola. E durante cinco anos fui um dos principais jogadores da escola.
Genealogias
Meu avô paterno chamava-se Luís, que era irmão de
Carlos, avô de Lamartine. Logo, Pedro, meu pai, e Ernesto, o pai de Lamartine, eram primos. Primos e amigos desde crianças. Entretanto, papai se fez comerciante, enquanto o outro se preparou para vestir batina.
Papai se casou com sua prima Margarida. Antes disso, porém, Ernesto havia abandonado o seminário e logo se unira a Laura. Do primeiro casamento resultaram treze filhos, sendo eu o primogênito. Do segundo resultou igual número. Laura, no entanto, partiu na frente. Do primeiro parto saíram dois – Lamartine e Victor Hugo.
Esta é a genealogia oficial. A dos batismos e crismas católicos.
Quando nasci, Margarida quis me chamar de Pedro. Achava lindo dizer Pedrinho. Seu marido, porém, não gostava dos nomes da Igreja. Na cidade todos se confundiam. Cem Josés, cem Luíses, cem Marias. Bastava! Seu culto primo lhe indicaria um nome diferente para o recém-nascido. Versado em francês e latim, quase padre, deveria conhecer mil nomes diferentes daqueles de todo dia. Em sua casa não faltavam livros. Alguns até em francês. Todos deixados pelo velho Carlos. E Ernesto forneceu uma lista de nomes de pronúncia esquisita: Alfred-Victor, Anatole, Charles, Diderot, Émile, François, Gustave, etc. Nenhum deles soou bem aos ouvidos mercadores de meu pai. E, às escondidas do primo afrancesado, batizou-me com o nome de um dos gêmeos.
Contavam ser dessa época o rompimento da amizade dos dois primos. Ernesto não teria gostado da dupla ofensa a ele feita por Pedro. Uma, ao recusar os nomes da lista; outra, ao dar a mim o mesmo nome de um de seus filhos.
Não teria sido, porém, este o motivo da inimizade. Um simples nome não destruiria uma amizade. Antes do nome vem, ou é, a coisa, o animal ou a pessoa. Antes de me darem um nome, já eu existia, quer recém-nascido, quer feto, quer desejo.
Há outra história anterior a esta dos nomes. A verdadeira causa do desfazimento da amizade dos primos. A história não-oficial da geração de Lamartine.
Segundo os autores dessa outra história, meu “primo” seria filho de Pedro, e não de Ernesto. Logo, seríamos irmãos. E há uma explicação para este romance. Pedro namorava Laura, antes de Ernesto deixar o seminário. Depois a trocou por Margarida. Desesperada, porque grávida, Laura entregou-se a Ernesto, recém-saído do seminário. E logo se casaram. Um ano depois deram-se as núpcias de Pedro e Margarida.
No entanto, Lamartine desconhece esta história. Não a registra nas memórias. E, para espanto meu, inventou terceira história. Uma lorota. Pois me nega minha mãe. Papai teria engravidado uma ex-criada de vovó. Mulher sem nome, uma qualquer. Como já fosse casado, teria arranjado jeito de simular uma gravidez da esposa, de convencê-la a criar o menino e de batizá-lo como filho legítimo.
Disso, porém, não tratamos nunca. Preferi ter Lamartine como irmão, embora o chamasse de primo.
Agora, lendo e relendo suas memórias, lembro de seu riso malvado, quando comigo conversava. Como se quisesse me chamar de filho adulterino. E, lendo o romance, encontro nele aquelas pessoas da Palma de antigamente. Nossos avós e pais são retratos perfeitos daqueles colonos romanos. Ou o contrário, pois estes podem ser posteriores àqueles, se o livro tiver sido escrito por Lamartine.
Lupus et Agnus
Depois de ler nos cadernos de Lamartine a falsa história
de como fui gerado, relembrei a angústia sentida durante muito tempo. Tinha oito ou nove anos quando ele me chamou de “filho de quenga”. Sendo mais novo e mais franzino do que ele, não reagi. Na ocasião, entendi ter Lamartine chamado de quenga minha mãe, a esposa de papai. Amiguinhos nossos, no entanto, me esclareceram tudo: a quenga não era D. Margarida, mas outra mulher, uma negra, a rapariga de Seu Pedro Coqueiro.
E outros capítulos da escabrosa história me foram sendo narrados aos poucos. A tal mulher vivia na casa de minha avó.
Durante muito tempo o veneno derramado por Lamartine me torturou. Quantas vezes me aproximei de D. Margarida, disposto a perguntar-lhe a verdade. Passava horas e horas das noites a imaginar diálogos com ela. “Mamãe, quem é minha mãe verdadeira?” “Ora, meu filho, se sou sua mamãe, sou eu a sua mãe verdadeira.”
Às vezes me preparava para ser grosseiro com ela: “Dona Margarida, me diga o nome da puta que me pariu, a amante de Seu Pedro.” Imaginava o seu olhar triste, o seu rosto sereno a se contorcer, e desistia de ser estúpido. Afinal, que culpa lhe cabia nessa história?
Esses diálogos imaginários eu os tramei durante a adolescência. Antes eu sofria de outra forma. Não ideava conversas com mamãe; discutia comigo mesmo. Culpava-me, insultava-me.
Noutra fase, anotava num caderno perguntas a serem feitas a mamãe. Decorei-as, pronto a enfrentá-la a qualquer momento. Quando papai estivesse trabalhando e meus irmãos dormindo. Isso porém nunca sucedia. Se eles dormiam, papai jantava, ouvia rádio, lia jornal.
E as perguntas anotadas, rabiscadas, refeitas envelheciam no caderno.
Torturava-me não apenas a hipótese malvada de não ser filho de mamãe. Doía-me muito mais não saber ao menos o nome de minha mãe. Não saber sua identidade completa. Ora, “uma ex-criada de vovó” não significava nada. Aliás, significava muito, para mim. Filho de uma mulherzinha qualquer que se deixou seduzir por um homem casado. E se não tivesse casado ainda? Pouco importava isso.
No entanto, eu me parecia tanto com mamãe! Todo mundo dizia: é a cara de Dona Margarida. E ela falava da gravidez, do parto, dos primeiros dias e meses do filho. Até me convencer de ser ela a minha mãe.
Quando nos fizemos amigos, tive vontade de pedir a Lamartine explicações para aquele insulto dos tempos de criança. E de novo imaginei mil formas de fazer a pergunta. Voltei ao caderno de anotações. Rabisquei páginas e mais páginas. Imaginava-me a sós com ele, a caminho do ginásio, nos bancos das praças, nas noites de boemia. “E a lição de latim?” Ele nunca deixava de fazer os deveres de casa. E ia mais além: se o professor pedia uma tradução, ele a realizava e ainda decorava os dois textos. “Ad rivum eundem lupus et agnus venerant, /siti compulsi; superior stabat lupus, /longeque inferior agnus. Um lobo e um cordeiro, compelidos pela sede, tinham vindo a um mesmo regato...”
Sabia de cor quase tudo dos livros, fossem de História ou Geografia, Português ou Latim, disso e daquilo. E gostava de exibir esse dom. “Quem sabe quantos reis teve Roma?” E ele erguia o braço: “Sete foram os reis de Roma. O primeiro foi Rômulo, o segundo Numa Pompílio, o terceiro Tulo Hostílio, o quarto Anco Márcio, o quinto Tarqüínio Prisco, o sexto Sérvio Túlio, o sétimo Tarqüínio Soberbo.”De tanto repetir essa e outras respostas, acabei também decorando algumas delas.
Nunca, porém, consegui de Lamartine resposta àquela pergunta tantas vezes pensada: quem é a minha mãe?
Menino Borralheiro
Quase nada recordo de meus primeiros anos.
Freqüentemente confundo minha memória pessoal com a memória dos outros. O que me contaram de mim pode ter sido mentira, invencionice brincalhona. E supostos acontecimentos passo a relembrar, como se verdadeiramente guardados na memória. Assim, desde cedo diziam em casa ter eu aprendido a ler aos cinco anos. Na verdade, não lembro desse tempo. Apesar disso, eu o incorporei à memória, e me revejo aos cinco anos, lendo. Uma cartilha, uma folha de jornal, um livro.
Não recordo de mim nem dos outros. Papai vivia atrás de um balcão, cercado de mercadorias. Quando saía à rua, cobria-se de seu chapéu de feltro. Em casa havia um porta-chapéus, com espelho. Ele se mirava, alisava o bigode e dava ordens. Almoçava à cabeceira da mesa, reclamava do governo e ralhava comigo e meus irmãozinhos. No entanto, não guardo lembrança disso. Mamãe foi quem me falou de balcões, chapéus e ralhações.
Papai também não me dava atenção. Preferia os outros filhos, talvez por serem mais novos. E disso também não tenho memória.
De meus irmãos não lembro nada. Se choravam, se se machucavam, se brincavam – disso nada sei.
Mamãe às vezes me batia, e eu chorava muito. Às vezes me beijava, e eu sorria por longo tempo.
O mundo rodava doido do outro lado do mar. Hitler assombrava tudo. Apesar disso, eu não sabia de nada.
Palma me parecia uma cidade enorme. As ruas não tinham fim. Os cavalos me assustavam. As carroças passavam a toda hora. Caminhões levantavam poeira, matavam cachorros, gatos e galinhas. As igrejas alcançavam o céu. Os passarinhos piavam ao amanhecer e ao entardecer. Os galos me espantavam os sonhos. E tudo nos meus sonhos não acabava nunca. Do chapéu de papai voava uma rolinha. Carregava no bico um fio de cabelo do bigode dele. Atravessava a praça e pousava na torre da igreja. Piava e pipiava para um gato sonolento. O vira-lata se aproveitava da sonolência do bichano e o atacava. Corriam pela rua, entravam nas casas. E a história terminava em urinação. Como castigo, mamãe me fazia ajoelhar à porta da rua, o lençol ensopado de urina sobre a cabeça.
Contavam-me histórias terríveis. Bruxas, madrastas, dragões. Eu queria ver Branca de Neve, Chapeuzinho Vermelho, o Pequeno Polegar, a Gata Borralheira. “A menina lavou as mãos e o rosto, apresentou-se ao príncipe, saudando-o com uma reverência. O filho do rei entregou-lhe o sapatinho. A Gata Borralheira tirou do tamanco o pé e o meteu no sapato.”
Não sei quem me contava tantas histórias. Diziam, mais tarde, ter eu lido, desde os cinco anos, uma coleção completa de contos populares. Nunca vi esses livros.
E as cantigas de ninar? Guardei-as todas na lembrança. Porém como lembrar o tempo em que as ouvia? Provavelmente eu as gravei de tanto ouvi-las mais tarde, quando mamãe embalava seus outros filhinhos.
Na mais remota lembrança de mamãe eu a vejo de ventre arrendondado, andar lento, cercada de três ou quatro crianças choronas. E eu obrigado a também cuidar delas, por ser o mais velho.
Pedras e Raios
Papai e mamãe conversavam. Sentado no chão, eu
brincava próximo deles. Não lembro com quê me divertia. Talvez com batalhas, futebol ou palhaçada. Nunca tive soldadinhos de chumbo ou plástico. Meu time de botões só perdia. Palhaços de pano pareciam bonecas, e todo menino fugia delas.
“Pedro, você viu como o filho da Laura não larga os livros?” “É verdade, Margarida. Esse menino tem futuro.”
E a conversa não acabava mais. Lamartine isso, Lamartine aquilo. Eu sentia ciúmes. Por que falavam tanto de um filho de outros? Eu não merecia elogios? Ou gostavam mais de meu primo do que de mim? Ela riu. Sim, gostava do jeito do filho de Laura. Menino estudioso merecia elogios. Papai aproveitava a insinuação para me mandar estudar. Primeiro a obrigação, depois a devoção. Vivia dizendo isso. “Já fez os deveres de casa?”
Não sei se o sonho terminava aí ou se eu conseguia ludibriar meus pais e sair à rua. Pois logo me encontrava com Lamartine e não me lembrava dos elogios feitos a ele. Combinávamos matar passarinhos. Testávamos as baladeiras e enchíamos os bolsos de pedras. “Vale atirar em urubu?” Meu primo se enfezava. Urubu não era passarinho. E atirava a primeira pedra. Eu também atirei. As pedras subiam e nunca atingiam o alvo. E também não voltavam. Sumiam no céu. “Por que as pedras não caem, Lamartine?” “Ora, porque temos muita força.”
Súbito pingos dágua caíam. “A chuva vai trazer as pedras”, eu previa. No entanto, somente água vinha de cima. Chovia forte. E corríamos para debaixo de uma árvore.
“As pedras furaram as nuvens, Victor.” Relâmpagos clareavam o céu, o mato, o chão. Trovões nos assustavam. E se caíssem raios? Melhor fugirmos. Talvez encontrássemos uma casa. Não, não havia casa nem choupana por perto.
E uma labareda, língua de fogo queimava a árvore e nossos corpos. Lamartine caía, queimado, morto.
O sonho não poderia continuar. Fazia muito calor, e eu suava. Arregalei os olhos, como se quisesse ver o cadáver de meu primo. À minha frente apenas o guarda-roupa.
Acendi a luz. Pouco mais de quatro horas. Precisava dormir mais. No entanto, um sonho daqueles merecia ser lembrado. Busquei o caderno e a caneta. Anotei o essencial do pesadelo. Inconformado, fui à enciclopédia. Li quase tudo sobre relâmpagos, trovões, raios, pára-raios. E nisso o sol raiou.
Já sem sono, arrumei a cama e cuidei de fazer café.
As Duas Mortes de
Victor Hugo
Meu primo é um mentiroso. Oh, perdoem-me a
exaltação. Afinal, ele está morto. Assim, reformulo a primeira frase: Lamartine era um mentiroso. Ou: as memórias de Lamartine estão plenas de inverdades. E isto não digo apenas por mim. Digo pelos mortos. Por Victor Hugo, o gêmeo do memorialista.
Pelo menos duas dessas mentiras devo contrariar: Victor não faleceu em 1944 e sua morte não se deu por afogamento no rio Potiú.
É-me quase impossível comprovar minha verdade. Porque no cartório de Palma está registrado o óbito de Victor como o informa seu irmão. E contra documentos não há argumentos. Apesar disso, atrevo-me a contar a verdadeira história de meu homônimo. Parte dela nem é negada por Lamartine. Antes, é realçada. Porque é esse capítulo que dá credibilidade ao seguinte.
Vivia Victor Hugo de bebedeiras. Dizia-se poeta, romântico, e fazia versos à maneira de Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Castro Alves e outros. Imitava-os, além de repetir-lhes poemas inteiros. No entanto, seu poeta preferido era Augusto dos Anjos. Sobretudo à noite, nos bares e cabarés. Depois de alguns goles, sem pedir licença para falar, punha-se de pé e declamava:
“Este lugar, moços do mundo, vede:
É o grande bebedouro coletivo,
Onde os bandalhos, como um gado vivo,
Todas as noites, vêm matar a sede.”
Quando de lá regressávamos, e antes de irmos para casa, sentados nos bancos das praças, se lembrávamos as mulheres com quem havíamos estado, declamava:
“Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.”
Gostávamos de ouvi-lo, por mais que nos enchêssemos de horror. E assim perdíamos as noites. Depois perdíamos os dias nos sermões e pancadarias paternas.
Estudávamos no colégio dos salesianos. Lamartine brincava, participava das farras, porém sempre se dedicava aos estudos. O mesmo digo de mim. Victor, no entanto, só lia os livros dos poetas. Não queria saber dos estudos. E o pai ameaçava arranjar-lhe trabalho. Ou fazê-lo marinheiro. Dizia-se envergonhado. Um filho boêmio e poeta!
E toda Palma ria muito disso.
Foram dois anos de muitas desavenças na casa de Ernesto e Laura. Surras já de nada serviam. Nenhum castigo emendava o doido Victor Hugo. Enquanto seu gêmeo se preparava para ser doutor na capital.
Desesperado, Ernesto vaticinou um fim terrível para o filho ingrato ¬– morreria de tanto beber. Talvez antes dos vinte anos.
Pouco depois desses vaticínios, já com vinte anos, Victor desapareceu. Fizeram-se buscas nos cabarés, nos sítios, nos matos. E finalmente nos rios. Mandaram esculpir um belo caixão, fecharam-no para toda a eternidade, e, chorosos, rezaram pela alma do afogado.
Laura implorou para ver o filho pela última vez. Impossível, a tampa não podia ser retirada. A decomposição, o rosto carcomido pelos peixes, não, ninguém veria o defunto. E ninguém, nem mesmo a mãe, nem os irmãos, nem o médico, nem o padre, ninguém pôde ver o corpo. Nem antes nem depois de fechado o ataúde.
Estivesse morto ou vivo o poeta, pouco importa, porque depois daquele dia Palma não mais o viu. E vivo continuou por muitos anos mais. Porém longe dos seus, e das bebidas, das mulheres e da poesia.
Quatro anos depois dessa mentirosa morte fui encontrar meu desditoso primo num asilo de loucos. E ele, talvez já louco de verdade, me contou uma história quase inverossímil.
Perguntarão os leitores –¬ como foste achar Victor Hugo? Que te levou a ele? Oh! não me perguntem isto. Perguntem por que torturamos e matamos os loucos e os que chamamos loucos. Perguntem por que tememos os loucos e os que chamamos loucos. E perguntem pelos que bebem, pelos que não dormem, pelos que se afogam, pelos que desaparecem. Pois a Victor voltei várias vezes e nunca tive coragem de ir à polícia, ao juiz, ao padre. Ora, quem acreditaria num louco? Diriam – sim, ele se diz Victor Hugo. Passa os dias recitando versos do poeta francês. Todo o hospício já sabe de cor seus poemas.
E de fato meu primo me recebia cheio de poesia:
“Lorsque lenfant paraît, le cercle de famille
Applaudit à grands cris. Son doux regard qui brille
Fait briller tous les yeux.
Et les plus tristes fronts, les plus souillés peut-être,
Se dérident soudain à voir lenfant paraître,
Innocent et joyeux.”
Coitado, nada sabia de sua morte, do afogamento no rio, do caixão muito bonito. Sabia, sim, de como o surpreenderam às margens do Potiú e o conduziram amarrado ao hospício.
Lembrei-me de Rosinha. Ela, sim, a vida a deixou muito cedo, exatamente nas águas do Potiú. E nada bebia e não sabia versos e era só beleza.
Victor também lembrou-se dela. E chorou, porque talvez a amasse. Perguntou por Lamartine, que dizia amá-la. Ah! seu irmão também deixou Palma. Não queria mais sofrer. De que ele sofria? Talvez de remorso. Mas remorso é dor sem cura, vem de dentro e não lhe servem emplastros.
E desandava a dizer tolices. Eu me retirava. Talvez me agredisse.
Na vez seguinte retomava o fio da conversa: então você não conhece meu irmão. Ele não admitia termos nascido gêmeos. Como se eu fosse o melhor pedaço dele e que a ele não pertencia.
No asilo havia doentes de todos os tipos. Alguns por alcoolismo. Como Victor Hugo. E ele acreditava ser esta a sua doença ou o motivo de seu internamento. Porém se dizia muito mais doente. De melancolia, de solidão, de descrença. E me pedia ajuda, socorro. Não para voltar à casa paterna, a Palma, mas para sair daquele outro inferno. Tão deprimido quanto ele, de lá saía sempre mais perturbado. E se o raptasse? Cheguei a maquinar fugas espetaculares. E depois? Onde escondê-lo, aonde levá-lo?
Num domingo de maio de 1951 visitei-o pela última vez. Parecia mais abatido, mais melancólico. Falou-me de morte.
Na mesma noite se matou.
Trama Neuronial
Sempre tive vontade de falar do outro Victor Hugo com
os seus pais e irmãos. Entanto o tempo passou, fui embora de Palma e nunca mais pude vê-los. Ao reencontrar Lamartine reavivei aquele interesse. Restava saber como chegar ao finado. Nada de perguntas inopinadas, como: seu irmão morreu mesmo afogado no rio?
Fantasiei inúmeros preâmbulos. Falaria de Rosinha, e dela chegaria a Victor. Ou relembraria banhos no rio. Finalmente decidi partir dos livros, da biblioteca de Lamartine. Partiria do presente para o passado, do concreto para o abstrato, do visível e palpável para a sombra, a evocação, a recriação.
Diante dos muitos livros, suas lombadas, seus títulos, com facilidade chegaria a um deles. “Onde estão os poetas?” Ele poderia rir: “Que poetas? Orientais ou ocidentais? Antigos, renascentistas, românticos?” Para evitar esses subterfúgios, a pergunta deveria conduzir diretamente a Augusto do Anjos. Sim, eu queria partir do poeta paraibano para chegar a Victor Hugo.
No entanto, Lamartine pareceu pressentir as minhas intenções. O patife (oh, eu não devia insultá-lo mais!) desconfiava de tudo e de todos. Mesmo já velho, ainda guardava aquela capacidade de ver e ouvir como poucos.
Nos dias anteriores à conversa planejada busquei o máximo de informações sobre Augusto dos Anjos. Revirei a enciclopédia, fiz anotações, decorei-as. Ainda assim, precisava ler, decorar e recordar alguns de seus versos. Andei por toda a cidade e a muito custo consegui um exemplar do Eu.
Cada poema me trazia Victor de volta. Aquele tempo de bebidas, mulheres e sonhos. Ele sempre bêbado, a recitar versos do poeta: “Sou uma Sombra! Venho de outras eras, do cosmopolitismo das moneras...”
É como se fosse hoje. Muito magro, quase esquálido, olhos fundos. E eu às vezes o confundia com o próprio Augusto. “Eu, filho do carbono e do amoníaco...”
Victor sabia de cor toda a obra do poeta.
E cheguei a Lamartine com alguns versos na ponta da língua. Nem sei como dei início à conversa. Talvez assim, após o bom-dia e as palavras de praxe: “Andei relendo uns livros de poesia. Coisa antiga. E acordei hoje com uns versos saindo pelos cabelos: Agregado infeliz de sangue e cal, fruto rubro de carne agonizante, filho da grande força fecundante de minha brônzea trama neuronial... Sabe de quem são?” Ele fez de conta não ter ouvido nada. Ofereceu-me café, tossiu, chegou à janela.
Já me falhava a memória. Onde andavam os versos decorados na noite passada? Lembrei-me e apressei-me a dizê-los: “Forma vermicular desconhecida... Sabe de quem é este verso? Não? De Augusto do Anjos. Ah! estava pensando em Olavo Bilac.” E tentou mais uma vez escorregar, mudar de assunto. Ultimamente não lia quase nada. A vista, as dores nas juntas.
Não havia jeito de falar do irmão falecido. E fui me irritando por dentro, comigo mesmo, a ponto de logo esquecer todos os versos. Ao cabo da visita, já nem me lembrava de Augusto dos Anjos. E voltei para casa azedíssimo, cheio de fel, pronto a quebrar copos e rasgar livros.
(Continua)