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A Rosa Gótica (1)

Nilto Maciel

A Rosa Gótica
Romance
2ª edição
Prêmio “Cruz e Sousa”1996
Categoria Nacional
Governo do Estado de Santa Catarina

Copyright 2002 – Nilto Maciel

Ficha Ténica

DESIGNER DA CAPA
Kátia Faggiani

REVISÃO
João Carlos Taveira

EDITORAÇÃO ELETRÔNICA
Cláudia Gomes
*************************************

Um Valioso Achado
A primeira notícia do livro de Lamartine me deixou em
dúvidas. Aquele seria mesmo meu primo? O jornal dava poucas informações do autor. Chamava-o de “pesquisador abnegado”, “bibliófilo de fama internacional”, “tradutor idôneo”.
Nunca fui de ler muitos livros. Quando estudante li um pouco de cada escritor, nos próprios livros de português. Quase todos lusitanos. Sabia de cor sonetos de Antero de Quental e Camões. Mais tarde, já casado, os filhos na escola, apareceu-me um vendedor de coleções. Alzira aceitou a lábia do rapaz e me convenceu a comprar as obras completas de Monteiro Lobato e uma coleção de contos de fadas. No meio da conversa apareceu um dicionário da língua portuguesa e uma enciclopédia em vinte volumes. Uma fortuna! Não lembro de alguma vez ter lido Lobato e as fadas. As crianças devem ter lido. Ou rasgado. Não lembro também quando vi esses livros pela última vez. No entanto, o dicionário e a enciclopédia permaneceram, por muitos anos, na caixa em que vieram. Um dia, estando já rapazes e moças meus filhos, lembrei-me da caixa. E daí em diante nunca mais deixei de consultar os vinte e um volumes. Falavam-me uma palavra desconhecida ou um nome famoso, e lá corria eu aos livros. Aos poucos isso se tornou rotineiro. Até se fazer mania. De uns anos para cá inventei um passatempo. Pegava o jornal de domingo, lia as notícias e me apressava a ver a seção “Aconteceu há 50 anos”. Aos poucos me fiz quase sábio de tudo. Meu método consistia no seguinte: procurava na enciclopédia o nome do personagem relacionado ao fato histórico. O verbete sempre traz referências a outros personagens, a cidades, a fatos, etc. E vou eu de verbete em verbete, até esgotar o assunto. Cheguei a anotar num caderno alguns desses assuntos. Lembro-me bem de um deles, porque ainda guardo o caderno e vez por outra o releio.
Era julho de 1988. O jornal relembrava os cinqüenta anos da morte de Lampião, o rei do cangaço. Fui ao verbete Lampião, daí a Virgulino, Maria Bonita, cangaceiro, punhal, fuzil, volante, coiteiro, etc. Ia de um a outro e tudo anotava. E assim me fiz quase mestre no assunto.
Cada pesquisa levava uma semana. O suficiente para ler o jornal do domingo seguinte e partir para nova maratona de estudos.
Como disse, só leio o jornal de domingo. E não o leio todo. Interessam-me somente as notícias. Não gosto de opiniões, comentários, crônicas, artigos. Nem de cadernos especiais, como o de televisão e cultura. Por isso nem sei como cheguei à notícia do livro de Lamartine. Talvez por acaso. Eram dez linhas espremidas entre uma peça de teatro e um filme qualquer.
Ainda hoje acho esquisito como e por quê nos reencontramos meio século depois da partida de Lamartine. Durante os primeiros meses pensava nele sempre. Depois não pensava mais nele. A não ser quando algum parente o relembrava. Logo o esquecia e às vezes não recordava nem suas feições. Os anos se passavam e era como se ele nunca tivesse existido.
Durante todo aquele domingo não tirei os olhos do jornal. Ia e vinha, relia a notícia. Cheguei a decorá-la. Depois me aborrecia. Aquele sujeito não podia ser meu primo. O livro não significava nada. Ninguém o leria. Uma história desinteressante. Nos dias seguintes quase ia esquecendo de vez o jornal, o livro e o primo. Joguei fora quase todo o jornal. Guardei numa gaveta a página onde escreveram sobre livros.
Na terceira noite acordei para ir ao sanitário. E lembrei do jornal. Melhor retirá-lo da gaveta e levá-lo ao lixo. Só servia para sujar o móvel e atrair insetos. Abri a gaveta, apanhei a folha, fui ao sofá. Em um minuto reli a notícia. Uma hora depois continuava sentado, a relembrar nossas vidas de meninos e adolescentes. Voltei à cama, pensei mais em mim e em Lamartine, em nossas brincadeiras e brigas de sessenta anos atrás. Não sei se dormi logo, se pensei mais, se sonhei. Talvez tenha sido sonho um banho no rio, umas risadas, um frio repentino, um choro ligeiro.
Anotei num pedaço de papel o título do livro e fui a uma livraria. O balconista leu e releu as letrinhas no papel. Andou por toda a loja, demorou uma vida. Não, não existia aquele livro. Confundira-se. Havia visto um romance de Guimarães Rosa. Desculpasse.
Noutra livraria tratei de dizer o nome de meu primo. Trouxeram-me A queda de um anjo. Zanguei-me. Mostrei a total diferença entre um título e outro. Nervoso, o rapaz apontava para o nome Lamartine na capa.
Cansei de procurar o livro. Não cansei mais porque ia anotando os nomes das livrarias e logo me disseram não haver outras na cidade. Não acreditei na informação. Uma cidade com mais de dois milhões de habitantes ter apenas uma dúzia de livrarias? Contudo um simpático livreiro prometeu encontrar o livro. Levei-lhe a página do jornal, e um mês depois recebi o livro. À primeira vista me aborreci. Não, não se tratava do livro de meu primo. Outro escritor havia publicado obra do mesmo título. O livreiro jurou ser aquele o livro noticiado no jornal. Pedi-lhe de volta a página do diário. Infelizmente não podia devolvê-la. A editora a que enviara o jornal ficava em São Paulo. E, nervoso, folheava o livro. O editor havia sido muito amável. Dizia-se feliz, orgulhoso. Nenhum outro editor teve coragem de editar aquela raridade. Súbito o livreiro fechou o volume, sorriu e perguntou novamente qual o nome de meu primo. Sorriu mais e pôs-se a ler: “Pouco se sabe sobre Charles dAvignon. Teria vivido no século XIII, nascido em Avignon, França, daí o nome com que ficou conhecido, na época.” Fez uma pausa, como se quisesse ler apenas o essencial para o momento, e continuou: “O romance da rosa gótica foi escrito entre 1245 e 1249. Escrito em língua doc, é composto de 4.519 versos alexandrinos.” Fez outra pausa e, sorrindo, me advertiu: “Agora ouça a informação que o senhor tanto esperava ouvir: Trata-se do mais valioso achado literário ocorrido neste século. O pesquisador cearense Lamartine Coqueiro...” Olhou com seriedade para meus olhos, fungou, como se tomado de grande emoção, e voltou a ler: “Este monumento literário medieval é-nos revelado agora, em magnífica e fiel tradução portuguesa, por este respeitado estudioso das línguas românicas. Ao leitor comum, ao estudante, ao cultor da boa literatura antiga são essenciais as notas ao pé das páginas, bem como o alentado estudo introdutório, também da lavra de Lamartine Coqueiro.”
Finda a leitura, gargalhou, e pareceu-me querer me abraçar.

Reencontro
Tarefa difícil descobrir onde morava Lamartine. Seu
nome não constava na lista telefônica. No jornal onde noticiaram o livro ninguém sabia do tal “pesquisador abnegado”. Vi até uns risos de deboche em algumas bocas. Talvez dissessem: quem aqui vai se lembrar de um velho catador de velharias? No entanto, mais uma vez o bom livreiro Ivan me socorreu. Sim, o editor paulista forneceria o endereço de seu protegido escritor. Ainda mais para reaproximá-lo de um primo.
De posse do endereço, corri à procura de Lamartine. E fui prevenido. Enchi a bolsa de bombons, certo de encontrá-lo rodeado de netos. Não esqueci também de levar o exemplar do livro vindo de São Paulo. Sem ele não haveria como iniciar conversa. Imaginei diversos modos de me apresentar: sou seu leitor e vim lhe pedir um autógrafo. Não, ele não gostaria da brincadeira, ou da mentira.
E não sei mais como foram os primeiros momentos de nosso reencontro. Lamartine vestia pijama, alisava constantemente a barba branca e falava sem parar. Fui de paletó e gravata, perfumado, escanhoado.
Nessa primeira visita falou-me quase sempre do livro, das pesquisas, da espinhosa tradução. Pouco disse de si mesmo, quer do presente, quer do passado. E não saímos da sala, onde uma estante repleta de livros tomava toda a parede. Curioso, fui até ela. Que livros seriam aqueles? Confiou-me o óbvio: dicionários e gramáticas. De diversas línguas: francês, galego, grego, latim, provençal, etc. Senti-me diminuído. Ora, diante de mim poderia estar um poliglota da maior importância. E eu mal sabia português.
Quase emudecido, lembrei-me de Lampião. Por que não falar de cangaço? Na noite anterior havia relido meu caderno. E ele, certamente, não sabia nada daquele assunto.
Andava eu metido em mim mesmo, a preparar o bote, pronto a dar aula de cangaceirismo, quando Lamartine me acordou: toda a casa eram livros. Uma estante só de literatura de cordel: de Carlos Magno, passando por Lampião, até nossos dias.
Alguns de seus livros – e pela primeira vez falou de seu passado – haviam pertencido ao avô Carlos. Obras raras, quase todas em francês. Raras enquanto objeto – edições dos séculos XVII, XVIII e XIX – e enquanto arte. Bastava citar o Roman de Jelan de Paris, edição de 1789.
Sucederam-se minhas visitas a Lamartine. Convidei-o a me visitar também. Alegava mil desculpas: reumatismo, visão debilitada, falta de tempo. Talvez mentisse. Ou se julgasse muito importante. Que ganharia indo à casa de um velho primo semi-analfabeto? Magoado, jurei nunca mais procurá-lo. Ficasse com suas antiguidades, seus livros, suas histórias sem futuro. Afinal, era ele algum gênio? Ora, ninguém é gênio só por escrever um livro. E o tal romance gótico não fora escrito por ele. Traduzira-o tão-somente.
Contudo o passado, ou o sangue, me arrastava sempre até Lamartine. Lembrava-me dele e, no desfiar dos pensamentos, alcançava o tempo da meninice. Entrelaçados, reapareciam todos os meus mortos: papai, mamãe, meus irmãos e primos, o próprio Lamartine, Alzira. Súbito desapareciam todos, e eu me via, olhos arregalados, sentado diante de mim mesmo, só, absolutamente só. Como ainda agora. Este sofá, os móveis, as paredes, o silêncio. Vem-me à boca o nome de Alzira. Como antigamente. Por qualquer motivo eu a chamava. Alzira, o arroz vai queimar. Alzira, olha o sol na estante. Alzira, vou tomar banho. Não posso, no entanto, chamá-la mais. Meus filhos, quando me visitam, puxam-me as orelhas. Não posso e não devo estar só. Por que não ir morar com um deles? Velho precisa de companhia. Velho é a vovozinha, aquela do Chapeuzinho Vermelho. Então quer morrer só? Ora, todos morremos sós. A morte é individual, pessoal. Ninguém morre por ninguém.
Tenho tido insônia. Quase sempre em razão dos pensamentos. Ou da memória. Permaneço horas seguidas a rebuscar o passado. Quero me municiar dele para enfrentar Lamartine. Todavia nem sei se ele terá interesse em falar de nossas infâncias, de nossos pais e avós, da Palma de antigamente.
Da última vez em que estivemos juntos perguntei-lhe se havia alguma História de Palma. Há, e é um livro volumoso e de muitos méritos. Folheou-o, comentou-o. Falou-me também de um romancista palmense. Não lembro o nome dele agora. “É um retratista. Quem quiser conhecer Palma deverá ler os seus livros.” E me trouxe cinco ou seis volumes. Como não leio quase nada, mal abri os tais romances. Ao acaso li dois ou três parágrafos de cada um.
“Desciam a Avenida Dom Bosco ao toque de hinos cívicos. Ao passarem diante dos Salesianos, os sinos repicaram solenes e outras senhoras e senhoritas deixaram as janelas e se foram juntar aos que marchavam, véus à cabeça, terços e missais à mão, louvando Jesus, Maria e José.”
Lembro-me das procissões intermináveis e cansativas. Eu e outros meninos carregávamos pesados turíbulos, matracas e outros instrumentos hoje em desuso. Todos cantavam ou rezavam. O padre comandava a cidade inteira. E nossos pés infantis terminavam cheios de calos e ferimentos.
“Além do bode e dos morcegos engaiolados, causava espanto o aspecto dos revolucionários.”
Nunca soube de qualquer revolução em Palma. Preciso falar disso com Lamartine. Talvez tenha ocorrido antes de nascermos, ao tempo de nossos avós. Ou de nossos bisavôs. Quem teria sido o pai de Carlos e Luis Coqueiro? Eis aí um assunto fascinante. Passaremos horas e horas a conversar.
Abri outro romance: “E tudo o espião investigou. Por um dia inteiro andou pela cidade. Da Praça da Matriz ao Potiú, do Alto da Cadeia às Lajes. Visitou as igrejas, ajoelhou-se, rezou. Esteve diante do cemitério, da cadeia e da intendência. Na Rua do Comércio observou lojas e mercearias. Meteu-se pela Rua dos Sete Pecados, sujeito a convites e tentações.”
Lembro muito bem desses nomes. Como disse meu primo, esse romancista é um retratista. Sim, eu devia ler os seus livros. Para recordar Palma, redesenhá-la mentalmente. Suas poucas ruas, travessas, praças, igrejas, os rios. E os sítios, a serra. Tínhamos parentes por todas as redondezas. Uns mais pobres, outros remediados.
Talvez este assunto dos parentes, dos sítios, da serra seja mais proveitoso. Poderemos falar de tios e primos, de animais, de árvores, dos caminhos que ligavam Palma aos sítios. Pois ainda hoje me parecem de ontem, e não de mais de meio século, as pequenas viagens aos sítios de nossos parentes. Ainda sinto o cheiro do chão, do mato, das frutas, das flores. E ouço o canto dos pássaros, dos galos. E o berro dos bodes, o grunhido dos porcos, o cacarejo das galinhas.
Lamartine deverá se recordar do sítio Olho-dÁgua, dos jesuítas. Orgulho de Palma.
De longe se avistava a construção, no alto da serra. A igreja e a Escola Apostólica. As propriedades dos padres. E o lendário Poço da Moça.
Nunca sequer vi esse poço. No entanto, todo rapaz se jactava de o conhecer, de ter nele tomado banho, mergulhado. Prova de coragem. Seria muito profundo e escuro. Coberto de vegetação, cercado de pedras. Perfeito risco de morte.
E por que “da moça”? Corriam histórias assombrosas. Jazia no fundo do poço uma moça encantada. Talvez sereia. Aparecia à superfície da água para encantar os homens. Atraía-os para suas águas geladas, a pedir socorro. E quase nenhum deles conseguia voltar à terra.
Provido dessas e de outras lembranças, preparo-me diariamente para visitar Lamartine. No entanto, diante dele esqueço tudo. Ou tenho receio de o melindrar. E não é mais tempo disso. Quero estar em paz com ele.
Sempre convido meus filhos a irem comigo à casa de meu primo. Nenhum deles conhece ainda o “tio” gênio. Prometeram levar-me. Discutimos. Ainda sabia andar. Prometeram, então, irmos juntos. Nunca foram. Lamartine morreu antes dessa visita coletiva.
Minha última visita a Lamartine se deu uma semana antes de sua morte. Lamentou-se mais uma vez de achaques. Aconselhei-o a procurar um médico. Riu. Pretendia viver ainda alguns anos.
No dia de sua morte acordei cedo. Um pressentimento me dizia estar ele precisando de companhia, de ajuda. Por dez minutos bati à sua porta, gritei-lhe o nome, acionei a sirena. Assustado, um vizinho abriu a porta e me censurou. Sem jeito, disse-lhe ser primo de Lamartine. Pediu-me desculpas pela reprimenda. Procurei o porteiro. O professor devia estar dormindo. Nunca acordava cedo e pouco saía de casa. Preocupado, sugeri chamarmos um chaveiro. Concordou. Se éramos primos, se Lamartine vivia só e doente, nada mais natural que abrirmos a porta do apartamento. Para salvaguarda de minhas boas intenções, chamei Seu Prudêncio, o vizinho rabugento. E entramos os quatro: eu, ele, o chaveiro e o porteiro.
O corpo, já enrijecido, ocupava o centro da cama.

Outros Manuscritos
Lamartine não deixou herdeiros. Nunca se casou, nunca
foi pai. Quando jovem, namorou muito e conheceu diversas mulheres. Paixões teve sem conta. Cedo, porém, descobriu seu “grande mal”. Jamais poderia fertilizar uma fêmea. E abraçou o celibato.
Estas e outras informações estão nuns cadernos manuscritos deixados por meu primo. São suas memórias. Li-as e tenho-as comigo, embora Alexandre viva me repreendendo: “Pai, vamos à Justiça. Você não tem o direito de se apossar das coisas do falecido.” Sim, é preciso fazer o inventário. E descobrirmos quem são seus herdeiros e sucessores, embora ele tenha escrito não ter deixado herdeiros. Enquanto isto não acontece, tomo conta de tudo. Especialmete dos livros e dos manuscritos. Pois, além dos cadernos, deixou Lamartine centenas de cartas.
Nas memórias conta sua vida desde o nascimento até a publicação do romance de Charles dAvignon. Não sei quando escreveu as primeiras folhas. Talvez recentemente. Os cadernos são novos e os traços da escrita idênticos da primeira à última folha. Ressalvo a hipótese de ter reescrito tudo nos últimos tempos. Vivendo só, aposentado, sem grandes preocupações com dinheiro, talvez tenha dedicado seus dias de velhice a ler e escrever.
Chamo de memórias os seis cadernos, embora Lamartine narre também fatos supostamente ocorridos há três ou quatro anos. Refere-se a seus ancestrais franceses.
As cartas, quase mil, são sempre muito longas. Umas, em português, são assinadas por Lamartine. Todas cópias. Os originais devem estar em mãos dos destinatários. Outras, em diversas línguas, mas sobretudo em francês, vieram do exterior. Desconheço os signatários destas, por motivos óbvios. Sobretudo por não ser estudioso de coisa alguma. Pela leitura das cartas escritas por meu primo e dirigidas às mesmas pessoas que do estrangeiro lhe escreveram, é fácil concluir serem estas professores, estudiosos e pesquisadores. Quase todos europeus.
Os correspondentes de Lamartine chegam a 49. De alguns deles encontrei apenas uma carta. De outros, no entanto, há dezenas. Como Clément Toulet.
Sinto uma enorme frustração por não poder ler as cartas escritas em francês e outras línguas. No entanto, as cartas escritas por Lamartine dão uma idéia dos assuntos tratados naquelas. Numas ele agradece livros recebidos, noutras promete viajar a Paris. Aqui refuta uma opinião, ali faz um convite. Contudo, o assunto principal de toda a correspondência é o manuscrito do romance de Charles dAvignon.
Concluídas estas anotações, pretendo me dedicar exclusivamente às cartas. Quero saber como Lamartine conheceu seus correspondentes. E se existem de fato. Pois chego a pensar serem todos eles fictícios. Vejam se não há motivos para estas desconfianças: Não encontrei os envelopes nos quais as cartas deveriam ter chegado às mãos de Lamartine. As assinaturas do mesmo signatário são sempre muito diferentes umas de outras. As de Simone Jabés parecem nascidas de diversos punhos. E que dizer das caligrafias em si? Eustache Bouin ora escreve letras redondas, ora letras angulosas.
Júlio César me prometeu um tradutor. Rapaz inteligente, percebeu logo aonde quero chegar. Os estilos das cartas dirão a verdade. Lamartine é um descobridor ou um impostor. E se tiver criado um estilo epistolar para cada um de seus “personagens”? Nesse caso –¬ diz meu filho – estamos diante de um gênio.
Seja como for, preciso ler as cartas escritas pelos amigos de meu primo. Até mesmo para saber se ele sabia outras línguas.
Nem tudo há de ser mentira, impostura.

Lida Insana
Frente a tantos livros, sinto-me como criança pobre num
mercado de brinquedos. Não sei nem para onde olhar, a qual deles me dedicar primeiro.
Nunca estive próximo a tantos livros. Nunca visitei bibliotecas. Na casa de meus pais não havia livros. Nem sequer a Bíblia. Hoje é comum verem-se esses enormes livros de capa preta abertos sobre estantes. Faz parte da decoração do ambiente.
Meus livros sempre foram os da escola. Nunca li romances ou quaisquer obras literárias. Li, sim, capítulos, trechos, poemas esparsos. Porque inseridos nos chamados livros de língua portuguesa. Estudavam-se os períodos da História da Literatura: Era Medieval, Era Clássica, Cultismo, Arcadismo, Romantismo, etc. Para exemplificar cada um desses períodos, o livro trazia trechos de obras representativas. Começava em D. Dinis. Lembro de uns versos dele:
“Quereu en maneira de proençal
fazer agora un cantar damor,
e querrei muiti loar mia senhor...”
Nada de Literatura Brasileira. Como se o Brasil ainda fosse colônia de Portugal. De D. Dinis passava-se a Gil Vicente, Sá de Miranda, Camões, Bernardim Ribeiro, Padre Bernardes, Padre Vieira, fulano, sicrano, Almeida Garret, Castilho, Herculano, Camilo, etc. Não se mencionavam os nomes de Alencar e Machado, embora houvesse logradouros com seus nomes.
Decorávamos muitos versos: “As armas e os barões assinalados/ que, da Ocidental praia lusitana,/ por mares nunca de antes navegados...”
Bocage aparecia-nos como um sujeito impudico. No entanto, sabíamos de cor muitos de seus sonetos: “Meu ser evaporei na lida insana...” Antero de Quental também memorizávamos: “Sonho que sou um cavaleiro andante...”
Eu não queria permanecer em Palma e muito menos seguir os passos de papai. Sonhava estudar advocacia ou medicina. Papai concordou comigo. Sim, advocacia e política andavam de mãos dadas. “Você tem tino; pode chegar logo a deputado.” E sonhava: “Talvez a governador.”
Para chegar longe precisava dar o primeiro passo: fazer-me acadêmico (assim chamava-se naquele tempo estudante de curso superior). No entanto, surgiu-me a oportunidade de ingressar no serviço público.
Contou-me papai uma história curiosa: em visita a Palma, Raul Barbosa, candidato a governador, quis saber os nomes de seus principais correligionários na cidade. Alguém teria mencionado seu nome, e ele, num gesto audacioso, teria acrescentado: “pai de Lamartine Coqueiro, futuro advogado.” Dr. Raul teria demonstrado interesse de conhecer logo o “poeta francês”. Que o procurasse aos primeiros dias de seu mandato.
E assim enterrei o sonho de me fazer advogado. Ou talvez não tivesse aquele tino vislumbrado por papai. Se tino tive, esse terá sido para vôos mais rasteiros, como o de ler os jornais de domingo e me enfiar nas páginas da enciclopédia, à cata de uma erudição horizontal.
Enfiado em pequenas cidades, nada sabia de Elia Kazan e Hitchcock. Pouco sabia da Coréia, de Ho Chi Minh, de Mao Tsé-tung. Com alguns anos de atraso ouvi falar de Hemingway, Steinbeck, Henry Miller. Ao contrário de mim, Lamartine talvez até escrevesse cartas a Simone de Beauvoir, Françoise Sagan e uma infinidade de nomes famosos.
Os domingos chegavam, Alzira tomava conta de minha vida, nasciam nossos filhos. E eu esquecia cada vez mais os velhos sonhos de estudar, fazer-me advogado, talvez deputado.
Passados mais de vinte anos, o sonho se renovou: Alexandre conseguiu aprovação no vestibular para ingresso na Faculdade de Direito. E eu me senti recompensado.

Visitas Inesperadas
Tenho sonhado muito. Sempre sonhei muito. Ou sempre
me lembro dos sonhos. E gosto de recordá-los. Às vezes passo o dia todo envolvido na atmosfera do sonho da noite passada.
Ontem o sonho mais interessante me deixou pensativo o dia todo. Bateram à porta. De pijama, cheguei à sala. Uma voz desconhecida perguntou por Lamartine. “Quem deseja falar com ele?” Abri a porta. Um homem alto, elegante, de paletó e chapéu, apertou-me a mão. “Sou Clément Toulet.” Sentados no sofá, conversamos e rimos. E rimos mais quando eu disse ser Victor Hugo. “Então o senhor não é Lamartine?” Precisava tanto falar com ele. Trazia da França umas novidades. Uns livros raros. “Lamartine está morto.” Clément se assustou. E se fez zangado. Então vinha de tão longe para nada! Por que eu não lhe dera a notícia da morte? Um telegrama. Teria evitado a viagem, despesas, fadiga.
Como a porta estivesse aberta, outro homem se apresentou. “Sou amigo de Lamartine. Vim ver o manuscrito provençal. Meu nome é Eustache Bouin.” Parecia policial em casa de bandido. Não pediu licença, não esperou ser conduzido ao interior do apartamento, e foi caminhando em direção aos demais cômodos. Também não cumprimentou seu compatriota. Atordoado, segui-o. Num dos quartos ergueu o colchão da cama. “Aqui só há pulgas.” Chegados ao outro aposento, encontramos um homem deitado numa cama e coberto da cabeça aos pés por um lençol. O francês riu: “Acorda, Lamartine. Venha me mostrar o manuscrito.” Meu primo levou as mãos ao rosto e sentou-se à beira da cama. Embora eu o soubesse morto, não estranhei seus movimentos. E me retirei do quarto. A caminho da sala, encontrei ua mulher. Beijou-me o rosto. “Sou Simone Jabés.” Alta, loura, olhos azuis, aparentando 40 anos, falava sem parar e em tom quase exasperante. “Sou amiga de Lamartine, porém estou aqui para conhecer Victor Hugo.” Nesse momento meu primo se pôs a gritar: “Ladrão! Ele é um ladrão. Não se aproxime dele. Será capaz de roubar o ouro dos seus cabelos.” Apavorado, corri para a sala. “Ele roubou meus livros. Todos os meus livros. Veja como a casa dele está cheia de livros. Há pouco só dispunha de uma enciclopédia.” E onde se enfiara Clément? Talvez pudesse me socorrer. Lamartine e Simone permaneciam gritando à porta de um dos quartos.
Sentado no sofá, esperava o fim da gritaria. E então apareceu à porta outro homem. “Fique sossegado, Victor Hugo. Todos sabemos da verdade. Seu primo está louco. Precisamos interná-lo num manicômio.” Ergui-me. “Quem é o senhor?” “Você não me conhece. Sou Gérard Jaulin. Tenho provas da sandice de Lamartine. Inventou essa história do manuscrito provençal e está causando enormes danos à História da Literatura.”
Atento ao novo visitante, não percebi a aproximação de Lamartine, Simone, Clément e Eustache. E todos passaram a falar ao mesmo tempo. Eu não conseguia entender nada. Pareciam falar francês. Discutiam, certamente. “– Vous avez tort. – Et avec cela? – Qui êtes-vous? – De quoi parles-tu? – Oh! quil est lâche! – Ah! çà, que veut-elle? – Que dites-vous? – Mon Dieu! – Hélas! – Chut! – Ouf!”
Pensei fugir e cheguei a me dirigir à porta. Quase dei um esbarrão noutro desconhecido. “Olá, meus amigos. Que confusão é essa?” Os outros subitamente se calaram. “Entre, Vitrac. Seja bem-vindo” – disse Lamartine. “Quero paz. Nada de brigas, discussões.”
A seguir chegou Alzira. Beijamo-nos e ela me pegou pelo braço. “Vamos sair logo. Isso vai terminar mal.”
E saímos pé ante pé.
O sonho terminou assim.
Acordei e já era manhã. Permaneci deitado por mais uma hora. Primeiro me pus a pensar em Alzira. E fui reconstituindo o sonho, do final para o começo. A segunda reconstituição eu a fiz do começo para o final. No decorrer do dia ative-me ora a um, ora a outro trecho do sonho. Demorei-me mais naquele da discussão em francês. Tudo fiz para me lembrar das palavras gritadas pelos visitantes e por meu primo. Corri atrás de papel e lápis. Anotei algumas palavras. Mais tarde fui ao dicionário. Com muita dificuldade consegui a grafia correta. À noite lembrei-me de umas anotações feitas há quase um mês. Remexi as gavetas e encontrei um caderno onde havia copiado algumas frases em francês. São as mesmas frases pronunciadas durante a discussão do sonho.

(Continua)