POEMAS DE DIMAS MACEDO
DISCURSO
O poema é um rio que corre
e represa na nuvem
e despenca e se estraçalha
quando afunda no solo.
Inútil remover a tragédia da vida
quando ela se incrusta
do lado esquerdo do peito.
Do lado direito estão
os resíduos do ócio e do tédio.
No coração as espadas da angústia.
Nas mãos a intranqüilidade
que se nutre de ânsias prematuras.
Ah, o poema, a pátria,
a pérfida imperfeição que alucina.
A náusea. O tórax. A aurora.
O livro que repousa torto no teto,
aberto entre estacas de sol.
O poster que sangra
e perfura os meus olhos.
O álcool. O fósforo. O fogo.
A pátria corrompida. O irmão que pede
as migalhas de pão e clama por justiça.
O salário. A miséria. As asas do anjo.
A fome que sufoca e a pátria
apetecida às garras da fúria.
E já não é possível a morte
nem a vida nem a náusea nem o vômito
nem a enésima parte do todo
nem a nuvem que chora nem a América
nem as provas quilométricas
da presença de Deus.
Deus está na rocha. No rosto.
Nas pernas que palmilham
chãos inelegíveis.
Deus está no porto flamejando espadas
e anunciando a véspera do dilúvio.
Apocalipse: este é o teu nome.
E nós que nos rendemos
e morremos um pouco
e resistimos e nos despimos
e continuamos podres e irrespiráveis.
Estamos atônitos. Aflitos.
Pérfidos. Logaritmos. Longevos.
Lívidos. Lépidos. Lógicos.
Láusticos. Loucos. Lânguidos.
E pobres. E podres.
E exânguidos lavramos loas à dor
que esfacela a face.
Tragam-me a trégua. A véspera.
A véspera. O após. O ontem.
O hoje que não seja o momento.
Devolvam-me o baile e bebam-me o néctar
que é puro e que trescala as pétalas da aurora.
Preciso clamar para o vento
e viverá em mim a parte de mim que exala.
31.10.1991
AUSÊNCIA
Rosa de pedra lilás
brejo de areia
sangradouro de espumas
que me devassa em pântano de ânsias
não me posso morrer
Morro sem me consentir
porque te amo
Possuo-me de estranha sensação
quando te beijo
Mastigo presságios de sonhos
em ânsias esotéricas
Mirabolante mar
de esquisitas ondas
és a saliência dos ventos
que as minhas mãos intranqüilas
reverdecem
para massagear o chumbo do teu corpo
Quero lamber-te a pétala úmida
e sugar os sais que escorrem
dos teus lábios viscosos de espanto
e túrgidos de afagos que não se cumpliciam
Quero encarcerar-me na paz que não pressinto
para te amar como jamais devia
Devo-te punhais de afetos
nos quais ressangro
as minhas angústias e as minhas mortes
Devo-te cristais de sonhos
que reparto entre lábios sequiosos
que me sugam as essências outonais
em posses de usufruto
Não. Eu não queria confessar o amor
que me prende a uns olhos vegetais
que me cravejam de sussurros doces
e inquietantes promessas de mundos
impossíveis e abstratos
Não. Eu não quero apertar a acidez do fogo
que me intranqüiliza e me devora
Eu não me quero ofertar em súplicas
e depois morrer por uns olhos
que me sugerem messalinas e lambris
e depois me enforcam
Não. Eu não me quero o suicida
que despenca do alto da torre
Eu me quero vida para te ofertar rosas
e te colher a plenitude de espigas maduras
Eu me quero vida para semear o trigo do teu corpo
e me ceifar em messes de espumas
e sóis de hipocampos sazonados.
ARGILA
Em duas partes
a vida se divide
e em duas artes
o imponderável
do corpo se revela.
Pela primeira arte
o rito do amor é chamas
Pela segunda
o mito da paixão é dádiva.
E a dor de não amar
o amor é devaneio torpe
porque o prazer inflama
a dor de não doar
o corpo ao precipício.
E tudo que tu dizes
o barro dos teus olhos
o brilho do teu rosto
o sal dos teus dedos
de marfim e tédio
tudo é impasse
pois tudo está exposto
à liturgia da divisão das partes.
ESPUMAS
Ânsia visceral de mim
que a face me estrangula
e tanto
que arquejo quedo
em Évoras mãos tecidas.
Lâminas minerais
entanto almejo e sangro rios alados
no vértice de rastros imperfeitos
Aura de fogo adejo
o Salgado é a espuma
e as asas do desejo
e o rito e a miçanga.
Lágrimas é o rio assim,
no porto as estacas da nuvem.
Ávidas madrugadas. Ávidos braços.
Ávidas manhãs de Lavras.
Ávidas angústias pressentidas.
E o mito da infância
e o triângulo das águas
e o líquido plural dos meus olhos e o sêmen.
Do outro lado a ponte sobre o rio.
Deste a hipotenusa e o solo e o terceto
e as tardes de dor
e a ausência das águas desse Rio.