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BABEL (4)

(Continuação)

MASMORRER

O GRANDALHÃO
percebeu o Rapazinho a olhar para suas pernonas cabeludas e virou a cabeça, afobado, para o outro lado. Certamente pensa no mundo lá fora, na longa viagem ou em qualquer acontecimento de seu passado. Ou pensava. Abaixou a cabeça, coçou as suíças esquerdas, rum rum rum. O Ruivo ergueu as sobrancelhas a se apagarem ao sol e passeou os olhos esbugalhados pelas faces dos companheiros de pernas estiradas ao logo do chão. E fixou-os, assustados, no negro dos olhos do Baixote sentado ao ângulo oposto ao seu. O Baixote abriu um sorriso preguiçoso nos cantos da boca, que murchou abrupto num olhar para o céu. Nuns olhares para os céus. Nada de especial lá em cima: só o sol a pino e brancas nuvens a deslizarem, desgovernadas, feito barcos sem remo. Aproveitou-se da distração geral para sacudir a dormência das pernas e fazer um careta assombrosa. Mexeram-se odiosos os lábios grossos e o queixo barbudo do Grandão e os quatro muros de pedra entoaram um grito de guerra: vamos ficar aqui parados esperando pela morte? O Rapazinho levou a mão da testa ao queixo e deixou-a por mais segundos no nariz. O Cabeça Chata tremelicou de assombro.

ESMURRARAM OS MUROS
como se um deus medonho os impelisse a rir com o rigor dos furiosos, aviando as raivas grudadas nas profundas de seus desejos sufocados. Fizeram-se bumbuns estrondeantes. Qual das quatro paredes seria a mais frágil, a mais demolível, a mais rachável ao som daquele bater insistente? Pedras! Partiram da coragem recém-parida a decisão de agir do Ruivo, que girou sobre os pés, dançarino saltitante. Mas nada de pedras havia, nada que pudesse de picareta demolidora servir, nada além de mãos, corpos exauridos de esforços e fadiga.

ESCAVACARAM AS RÍGIDAS E PÉTREAS PAREDES ESCURAS
com as mãos cansadas, embora calosas, másculas, musculosas, insetos sem eira nem beira nem ramo de figueira, naquele mundão de pedra, ferro e concreto, grandes insetos amordaçados pela prisão e pela morte no oco do mundo. E feriram-se as pontas dos dedos, caídas as unhas de tanta labuta, rac rac rac, e encheu-se o pátio de imprecações desesperadoras: Que crueldade! E os muros insensíveis se lambuzaram de crueldades sangrentas.

NAQUELE ABANDONO
mais intolerável que as barbáries dantanho, naquela imensa solidão, naquele estar livre de donos ou chefes, o continuar a ser seria uma quimera inalcançável, cansável. E famintos da fome fugida dos vales de lágrimas, governados, reinados, imperados, e asilada naquele minúsculo campo de morte, entoaram gritos, gemidos roucos e loucos e mirraram os mirtos, as murtas semimortas que não mais puderam escavacar, cavacar as rijas paredes pétreas, concretas erectas e caíram, desfalecidos, sangrados, as mãos calosas, embora rubras tinturas tingidas e os muros tão duros de misteriosas imprecações de crueldades pintados, tão iníquas e ferozes para humanos corpos mui frágeis diante de quão estúpidos e cúpidos minerais. A inércia do cansaço e da fome e do desespero nascida e da inépcia humana diante das pedras inúteis, vorazes, ferozes.

O EXCITADO RAPAZINHO
viu estrelas no céu e um sol que se apagou, ai, e cambaleou como se o peso do globo sobre seu corpo rolasse e lento caiu. Os olhares capiongos, molengas, capengas, famintos de seus ex-companheiros se foram encontrando na altura distante de seu corpo inerte. E olharam tão longos com seus olhos tão grandes e suas vistas tão miúdas o corpo mais magro alvacento de fome caído, molambo quem sabe já findo. Se sentiram penas da leveza do corpo franzino, o sentir não disseram.
O muro... o muro furar já não pode, espirrou vagarosa de dentro do Gigante uma voz de quem perde inseparável amigo do peito.
O Ruivo, a lembrar a negrura dos olhos do caçula então estirado qual lençol mal lavado, piscou: vai morrer, se não já morreu.

ENTREOLHARAM-SE FEITO URUBUS SONOLENTOS
capengaram ao redor do magrorrível cadáver. Seus olhos brilharam, luzes de azeite, e num leve roçar dos ventos da tarde balançaram pendentes, feito chamas na noite.
Estamos com fome, fome demais, curvou-se o costado já menos largo do antigo Sansão.
Um minuto dançou no espaço por entre a estática dos três masmorrentos que lentos se acocoravam num rito profano, círculo macabro ao redor do caído.
Mexeu-se o Ruivo pralápracá, lenguelengue, e de todo este esforço brotou mansa mensagem de vida longuinha: a carne dele... e um suspiro tremeu em seu todo até derramar suores da face incolor no chão ressequido ou nas pontas inchadas dos pés alargados. Pulo ágil qual fera faminta: então vamos, vamos logo! O novo Grandão sobre a massa deitada que pareceu (ou fantasma, meu deus?) defender-se do assalto do alto repentinamente inesperado e por fim mais dois se fizeram, embora mais lentos ou tardos, rasgando-lhe as carnes já mansas, cordeiros de deus, à custa de mordidelas sangrentas com suas sujas e horríveis bocarras, sarracob sarracob.

UM MONTINHO DE OSSOS BRANQUÍSSIMOS
ao pé do muro jazia de jazigos esquecido. E distantes solitários em si dormiam nojentos chacais, bestas suspirantes, porcos roncadores, demônios em sonhos. E de suas crateras imundas esgotos vermelhos evolava um odor de monturo e carniças, tingindo o ar dum cinza opaco nevoento, prenúncio de grandes tempestades, abismos insondáveis, noites trevosas.

MEIA-NOITE O DIA ABORTOU
nos olhas medonhos medolhos do Grandão que acordou assustado, suado, sujado e debateu-se no chão qual pássaro de asas quebradas, olhou pra noite grandona de seu espelho partido e escancarou a bocarra nauseabunda. Dobrou meio corpo alquebrado, sacolejou os ombros cansados e fez-se ereto, feito macaco primevo. Através da luz dos céus tão distantes descobriu as figuras adormecidas de seus comparsas, cismou, tremeu, recordou o recente passado, os ossos como a se triturarem nos cantos do muro, como se deles se alevantassem almas penadas e abraçá-lo viessem quais brancas jibóias. Gritou, esmurrou a parede, chutou o montículo de ossos que saltaram pelos quatro cantos daquele estreitíssimo mundo de mortos, acordando os dormidos de contentamento do banquete de ontem: malditos! Nas trevas o esbravejo destruía os sonhos.

MONÓTONO BATICUM
pumpumpum se paria do encontro daquelas sofridas, sangradas, disformes, calosas, pétreas, férreas mãos com os muros odiados, horizontes de pedra. E no doudo bater as mãos mã mã mãs sam sã sãs soam so-ã ãã ai aiai ais gemiam.
Durante horas e horas batucaram possessos nos juros-feitiço num ritmo desvairado de ritos desesperados, em suores e ódios, escavadores de minas profundas em busca de riquezas brilhosas, ávidos, imávidos, cansados, cambaleantes, sambaleantes de fome e dor.

UM PÁSSARO VOAVA NO CÉU
e se aproximava feito nuvem grávida. Sim, o grande pássaro ancestral piava nas entranhas agouros de desesperos e medo da morte e nos cérebros entorpecidos desejos indomáveis. E se retorciam, mágicos obscenos, crispavam as mãos desfeitas em cores e líqüidos indefiníveis em movimentos ritmados, como querendo saltar sobre as garupas mais próximas. E esmurravam odientos e horríveis as rochas firmes e impenetráveis, inconscientes da mentira de todas as sabedorias: as pedras duras não se abalavam sequer ao bater das águas moles.

O RUIVO TREMEU E CHOROU
e de seus antigos lábios escapuliu a anunciação temível: ela voltou. Logo, muito logo, um quem cretino se evaporou das restantes bocas, a ensurdecer o muro e escancarar os olhos e encher o poço de espantos medrosos.
Acocoraram-se lentos e abraçaram-se febris. O Ruivo principiou a nomeação da teimosa assassina: fo...

O GRANDALHÃO OS DENTES RANGEU
e babou e a pesada ainda mão direita desviou da inquebrantável parede para a nuca suada do Cabeça Chata ao seu lado. Como um boneco de palha, o raquítico espantalho abraçou-se ao muro e lenta, lenta men te es cor re gou pro chão num gemido plangente.
O Baixote afastou-se num passo em falso, fugindo à fúria, e benzeu-se medroso e heróico: Que foi?
Os dois companheiros dobraram os joelhos fervorosos sobre o coitado caído e rezaram-lhe as carnes, repletos de esperança.

AGIGANTOU-SE A BRANCURA
num dos cantos do muro. Nos demais os faustosos gargântuas cochilam, acordam, gemem e se assustam e se olham e descobrem fantasmas por todos os lados. E se grudam às paredes perdidos no fundo do poço com medo dos olhos, dos ossos, dos pés que caminham, das mãos que agarram, das mentes que pensam. E se abraçam ao silêncio e recordam os bumbuns e não podem jamais esmurrar as paredes, de costas para elas. E a luz não veio e a treva se fez. E a morte era louca a voar e gritar debaixo das terras, detrás das paredes, nos ares distantes.

IMENSO TOURO MANSO
ergueu-se e vislumbrou num canto o Sarará que esticou as pernas mole, olhos fixos na frente e noutro o Baixote que chutou o cochilo com violência antes de Golias o engolir.
Do fundo do poço almas penadas lembraram os ossos insepultos, antes repasto que imagem. E o convite “vamos” veio a seguir da alva podridão do Gigante. As outras bocas ressequidas se abriram numa reprise estropiada. Imóveis, apenas piscaram os olhos semicerrados na direção dos restos acumulados.
A temeridade do hércules-quasímodo comandou a investida do minúsculo batalhão: Vamos! E caminhou passos trôpegos de brucutu rumo ao alvo cúmulo de ossos reluzentes das luzes dos corpos celestes distantes. Dobrado qual fiel, o Ruivo implorou: Jogue um, em incrível semientrega do ângulo frígido às suas costas, enquanto noutro extremo o Baixo ar ar arfava e migalhava um naco naquinho de tíbia ou costela.
O Grandalhão já mordia, lambia, chupava os ossos ressequidos mas orvalhados pela frieza da noite que descambava pé ante pé pros abismos da infinita nostalgia. E, no meio de toda esta negrura espantosa, brancura dos ossos e dentes do guloso nocauteador engelharam as faces, suores correram e rangeres rasgaram os tímpanos sujos dos dois: Palermões! E, em gozo ou gemido, o fantástico comilão imaginou gordurosas e tenras coxonas de porco como não conhecera jamais. Assuntou e assustou-se com os próprios ruídos que faziam seus dentes na dureza dos ossos e num choque imprevisto arremessou os dois fêmures contra os sonolentos espiadores. Que se defenderam e agradeceram a dádiva voante qual pássaro crescente em alvura e rapidez. E partiram o crânio rolante, bola de neve a agigantar-se, e raquíticas costelas pra saciedade das fomes enormes dos jecatatus acocorados. E a madrugada escorregou pelos muros feito gatunos fantasiados de amarelo clarinho.


GIGANTESCA ESTRELA
acordou o delírio nos três mosqueados que espiavam os suores e esgares espraiados por toda a extensão de suas pálidas máscaras.
O derrotado hércules sussurrou um grito no vastíssimo cubículo, ei solidário que aos outros um susto medonho causou e se verbalizou num huumm bivocal qual trovão. E uma tempestade de babas e fantásticos motores voou sobre as pistas de pouso molhadas: cuidado, pilotos, voar é preciso, buscar as alturas. E as mãos se estraçalharam de encontro às testas frias, suadas. Desastre!

MEUS DESGRAÇADOS IRMÃOS
bradou maquiavélico o líder por obra e força: é preciso a morte de mais um pra saciar nossa fome demais. Quem quer a mim se aliar pra se empanturrar de couros e ossos?
Como trôpegos insetos em busca do abrigo do abraço definitivo, a vomitar eus que se misturaram e rangeram por pouquíssimos segundos, os dois inimigos correram malditos em busca dos braços mordaços do valente chefão. O Baixote se esfregou nos metros de muro e desequilibrado esparramou-se aos pés mui crescidos do provocador. Ligeiro, o Ruivo frenou a um passo do corpo recém-derramado.

ABRAÇADOS FEITO FERAS
pareciam um só disforme corpo a contorcer-se em agonia dolorosa e entrelaçados como titãs apaixonados, fungavam, mordiam, urravam, choravam, morriam pela vitória sem sentido. Súbito estupenda marrretada prostrou-os para a carnificina final.

TODA A CARA FEROZ DO TITÃ
penetrou crac no pescoço quebrado do Ruivo que emitiu um ai doloroso e profundo. Jorrou por toda a redondeza um líqüido quase vermelho annnn e o espanto do rosto místico do incrível vampiro cresceu. Outro crac noutro pescoço, outro ai pungentíssimo e a mesma danação de tinta rubra salpicou e cegou o monstro que alevantou a cabeçorra lambuzada pra sorvê-la como a límpida água da fonte da vida que bom, qui bum quibum, chuuuu, lept lept, não mais ais, só lepts-chus-cracs, violentas mordidelas, vampirescas, medonhas, vorazes, ferozes, vermelhos olhos enterrados nas carnes ossudas: olhos, nariz, boca, a cara toda enfiada nas magrezas, a roer já rija ossatura aiaiai.

TANTA FOI A FARTANÇA
e quanta a festança que o solitário golias, já divinizado, gemeu e gemeu por dias e dias, gritos de dores, contorções de berros, enormes diarréias derramadas, sujeiras demais recriadas, envolto em sonhos pesadelos à beira da morte e da loucura, ai que desta vez eu morro sozinho no meio do horror, entre quatro paredes perdido num mundo de podridões e ossadas.

BATALHAS? QUE BATALHAS?
Rapinas aqui não houve jamais, este mundo sempre foi pequeno assim, cercado por quatro muralhas de bronze e minhas asas eu as quebrei em luta titânica contra pássaros de fogo, porque se asas ainda tivesse, juro: voaria para a estrela menor deste céu e estes muros, estes estreitos e baixos murinhos deixaria pra trás, para sempre fugiria pumpumpum, e os ecos tão frágeis dos bumbuns quase mudos soavam nos muros pumpumpum. Bateu e bateu té as mãos se racharem e os dedos doerem até perto dos ombros mui largos, das costas e dos pés inchados e grandes. E pontapés desferiu a torto e a direito, insultos bradou à secular muralha de pedra erguida gigante qual forte antigo, para cair em sangues, como se chibata de ferro açoitasse constante, e dormir de sofrer de viver entre quatro paredes de ferro, de pedra, de bronze, de diabo, satanás, maldição.

A FOME ACORDOU-O FERIDO
vermelho, distante da podridão das carnes não devoradas, dos restos dos outros derretidos no chão calcinado de sóis amarelos tão próximos e gastos de tanto arder na fogueira dos tempos incontados, perdidos entre espaços no espaço tão curto de quatro paredes, muralhas de ferro, de bronze, de pedra. Ergueu-se bambo molambo e tombou e dançou de sono ou fraqueza, a vomitar arco-íris, sangues e fezes. Prostrou-se por sobre as recordações dos montes de ossos: franzino rapaz fugiste primeiro, cabeça chata que apenas gemeu ao murro feroz e dois imbecis a brigar por mim neste chão asqueroso de pedras e horrores, que coisa, meu deus, livrai-me da fome, da dor, da prisão, desta vida maldita, levai-me, meu deus, devorai-me, matai-me, senhor.

O SOL VERMELHO-AMARELO
dançava entre cordeiros brancos no palco azul e lindo lindo. No horizonte a guilhotina se espremia feito caixa mágica e estranhas figuras de lobos se contorciam no poço e penetravam em sua boca e se metiam em seus olhos lúgubres, cisternas onde boiavam gêneses e apocalipses e passeavam pelos labirintos de seus ouvidos e faziam bacanais nas profundezas de seu cérebro com as formigas-mastodontes que corriam nos prados e se atolavam nos pântanos e se revolviam em convulsões e se expeliam em cachoeiras de detritos que queimavam a terra revolta, abalada, sofrida.

O LOBO DECRÉPITO
correu, saltitou, farejou, lambeu-se, sonhou, saltou os baixos muros do forte e caiu de bruços, de costas, estatelado, a beber sol, lua, estrelas, nuvens fugitivas no alto ou no baixo do terror instalado no universo em gritos, loas satânicas para expulsar os animais descomunais passantes preguiçosos dos labirintos das montanhas amarelas.

SILENCIOSO CRAC
ouviu-se, quando bruto safanão fez sangrar até às raízes a árvore murcha entre as duas colunas. Depois abocanhou guloso, como se mastigasse os frutos primitivos da árvore da vida, a morder voraz o cacho que balouçava ao sopro do vento. E, neste ritmo, correu atlético, fauno castrado, a esmurrar a parede, maldita bastilha, sou bravo, sou forte, sou filho das selvas, meu canto de morte, guerreiros, ouvi.

HORRÍVEL FIGURA
que espelho não via, sorria contente de ter esmurrado a pedra erguida dez metros de altura e chorou a seguir de mais fome sentida e sentado lambeu e mordeu e comeu os dedos inchados dos pés muito gordos de tanto correr. E comeu satisfeito e bebeu o licor que dos troncos corria.

NO SONHO CORRIA
e cantava estranhas canções de guerra e de paz, de amor e de ódio. E com Jesus conversava, com o Ruivo, com todos os fantasmas que dormiam nos vermes e contentes da vida e da morte passeavam no pátio. E jantou dedo mindinho, seu vizinho, maior de todos, fura-bolos, cata piolhos, chupeta na boca, a cantar cantiga de ninar, dorme menino, eu tenho o que fazer.

AS AGUDAS LÂMINAS DO FRIO
picotaram seu corpo e um pássaro agourento piou lá nas alturas e bateu as asas com estardalhaço. Assustado, correu e pulou para ver nas dobras das asas do pássaro gigante uma negra aranha grudada. A bandeira hasteada tremia, mostrava e escondia a cruz gamada da imensa masmorra.


A VIDA ETERNA DE LUÍS LAMENTO

A notícia da morte de Luís Lamento arrastou para as ruas milhares de pessoas. O choro coletivo inundou as cidades num abrir e fechar de olhos, feito rios transbordantes. Alguns grupos iniciaram saques e depredações. Porta-vozes do governo trataram de desmentir a tragédia, antes que os pequenos tumultos se transformassem em grandes distúrbios. Apesar disso, os mais radicais não desistiram de quebrar vidraças, incendiar carros e praticar toda a sorte de vandalismos. A maioria, porém, conteve as lágrimas e voltou para casa. E a polícia baixou o pau em cima dos descrentes. Presos alguns, feridos outros, no início da noite acabaram-se as escaramuças.
Na manhã seguinte, a imprensa noticiou amplamente os atos de anarquia praticados por grupos extremistas, sem se referir à morte de Lamento. Nos outros dias, voltaram à baila as guerras, os atentados, os furacões, tudo no estrangeiro, e os crimes passionais, os estupros, os furtos, cá entre nós.
– Sem pena de morte, isso nunca vai acabar.
– O negócio é mão de ferro.
– Uma ditadura.

x-x-x

Ninguém sabe de onde partiu o boato. Falava-se no desaparecimento de Luís Lamento. Cochichava-se nas esquinas, nos cafés, nos bares.
– Mataram mesmo?
– Não sei.
Corriam-se os olhos pelos jornais e nada de concreto. Procuravam-se jornalistas e todos se horrorizavam. Devia ser boato mesmo.
– O homem fugiu?
O governo nada esclarecia. Não pretendia exilar ninguém.
– Não terá fugido?
E o grande espanto da nação – Luís Lamento apareceu na televisão para negar sua morte.

x-x-x

Maior espanto, porém, seguiu-se a este: um panfleto lançado do alto dos edifícios falava em farsa e se referia ao homem que se apresentou ao público como sendo um imitador de Luís Lamento, palhaço vendido ao governo. O verdadeiro jazia numa cova rasa do presídio político.
E dessa vez a imprensa noticiou o desaparecimento de Lamento em variadas versões: enforcou-se com um cinto, bebeu veneno, cortou os pulsos, fugiu para o exterior, pediu asilo.

x-x-x

O verdadeiro assassinato de Luís Lamento ocorreu muito tempo depois. A notícia do fato, porém, não mereceu mais a crença de ninguém.
– É mentira.
Mesmo diante da fotografia do cadáver, o povo preferia acreditar noutras burlas.
– Ele não tinha esses olhos enormes.
Cada um criava a sua lenda: embarcou para a lua numa nave russa, fundou um império na pirosfera, virou macaco, adquiriu os poderes da transparência, dividiu-se em dois, agigantou-se e, de tanto crescer, passou a girar em torno do sol.



O VERDADEIRO MANGAROBEIRA

Dando prosseguimento ao nosso estudo sobre os heróis nacionais, dedicaremos a aula de hoje à figura do Marechal Mangarobeira.
Segundo os historiadores, sobretudo Francisco Rodolfo de Varrasco e João Capitolino de Trigona, homens criativos por excelência, mormente no apelidar personagens históricas, o Marechal Mangarobeira recebeu em vida alguns cognomes, entre eles o de Marechal de Pau.
Voltando às alcunhas, quero relembrar uns nomes famosos e seus respectivos apelidos. Direi os primeiros e vocês completarão. Vamos lá. Pepino. O Breve. Muito bem. Ivã. O Terrível. Ótimo. Guilherme. O Conquistador. Basta.
No que se refere aos marechais propriamente ditos, tivemos ocasião de esmiuçar as vidas de alguns deles, como a do Marechal de Ferro, conhecido por sua rigidez; do Marechal de Paládio, notável por comer e dormir no Palácio; do Marechal de Titânio, célebre por sua leveza, chegando a cair nada menos do que vinte e duas vezes, apesar dos quase dois metros de estatura, e famigerado pela tentativa fracassada de golpe contra o Presidente Suez; do Marechal de Escândio, famoso pelos escândalos em que se envolveu.
Ao Marechal de Pau, perdão, Mangarobeira chamavam também de Marechal das Pernas de Pau, apelido dado por seus inimigos estrangeiros, pelos civis nacionais e ainda pelos militares de nossas armas adeptos dos “criados que tratam dos cavalos” metálicos.
Como eu pretendia enunciar no início, nosso marechal não foi propriamente um herói, apesar de ter sido incluído no rol dos semideuses por Varrasco e seus discípulos. Chamo-o de mártir, e, por isso mesmo, segundo minha modesta opinião, deveria figurar na galeria onde vivem Cristo, Tiradentes, Lorca e outros torturados. Prestem bem atenção aos nomes, para não virem depois dizer que falei em mártir nacional. Não, Mangarobeira foi mártir u ni ver sal. Atentem para a dimensão do termo. E fundamento meu juízo: ele não é herói porque não morreu nos campos de batalha, ao contrário do que atestam meus colegas, desculpem, os historiógrafos, essas bestas que escrevem sobre o passado. Como já afirmei num dos capítulos de meu Tratado Histórico da Baderna, esse Marahskalk faleceu vítima de necrose, ou seja, de gangrena, ou seja, da praga que assolou suas pernas, abandonado por todos, inclusive por seus filhos e por sua legítima esposa.
Os últimos dias de Mangarobeira foram de um padecimento jamais imaginado. Seus ais foram tão pungentes que chegaram a sensibilizar os animais domésticos do velho casarão. Os cães ladravam, as galinhas cacarejavam, os papagaios taramelavam, as andorinhas trissavam, os morcegos farfalhavam, os bezerros mugiam, os bodes bodejavam, os gatos miavam, os ratos chiavam, os urubus crocitavam, as moscas ziniam, a hiena manchada, aquele bicho de andar elegante, andar que conduzia o benemérito homem à abstração absoluta, esse mamífero solitário, noturno e asiático uivava e ria ao compasso dos gritos de seu criador, lembrando-se, talvez, do dia em que conheceu seu caçador e devorou as pernas apodrecidas de um soldado rebelde.
Aos primeiros berros, o antigo quartel-general se despovoou, os filhos indo buscar refúgio nos bares e cabarés, as filhas nos leitos dos generais. E aos generais foram substituindo os coronéis, a estes os majores, até que os mais animalescos recrutas preferiam a solidão. A marechala, ao contrário, iniciou a retirada não pelas estrelas mas pelos coturnos, prometendo patentes às sentinelas.
Segundo os compêndios de História, o Marechal de Pau morreu numa das mais sangrentas batalhas da última guerra, comandando heroicamente as leais e valentes tropas nacionais. Em verdade, travaram-se sangrentas batalhas durante a última guerra. Em verdade, havia um comandante das tropas nacionais, que nunca se chamou Mangarobeira. Em verdade, o suposto herói expirou vinte anos depois do conflito sem nunca ter visto sequer um campo de batalha. Mas tudo não é mentira na pena dos historiadores de façanhas, exceto a lealdade, a valentia e o heroísmo de nossas armas. Tudo um só fracasso que não ficou na História. Porque não sobrou ninguém para contar nada. Tanto é que tivemos a pátria ocupada por forças estrangeiras.
Como eu disse, todos os familiares do imortal ancião o abandonaram, como se fugissem da mais terrível peste, o que o fez praguejar até não mais poder falar. Isso é a família de que tanto falam os moralistas. Fora dela, porém, ninguém esperou pelo canto do galo. Ao correr a notícia de sua morte, o pranto nacional se derramou em quedas. Eu mesmo fui um dos carpidores e, por isso, exorto vocês a também chorar. Mas sejam fortes, não solucem tanto e, se a emoção for um dique roto, desfraldem os lenços, essa simbólica brancura da paz. No entanto, se for de comiseração esse gesto, suplico que sufoquem o coração, porque aquele “glorioso soldado” não merece sequer o crocitar dos corvos. A menos que seja santo quem amputa pernas de prisioneiros de guerra e de desertores. E vocês podem imaginar o que levou à barbaria. A inveja, meus amados discípulos. Pois quem é que, tendo as pernas carunchadas, vai alisar os joelhos dos sãos? Bem, depois voltarei ao assunto. Lembrem-mo.
O Marechal era um aleijão. Sim, um aleijão. Vocês entenderam? Ou não copiaram o esquema que fiz no quadro verde? Quem nasce sem pernas é... Não, não riam. Chorem de novo. Sim, ele nasceu sem os membros inferiores. Como os répteis. Vocês hão de perguntar: e a gangrena? Idiotas! Desde cedo ele usou pernas de pau, daí o apelido. Pernas que foram crescendo à medida que o restante do corpo crescia. Como pode ocorrer esse fenômeno? Jumentos da lógica, minha linguagem é figurada. As pernas cresciam porque ele as trocava. Quase todo ano, seu pai, ortopedista de méritos, fabricava novas e maiores pernas e lhas colocava como prêmio por aprovação na escola. É por isso que, ao ser reprovado dez vezes, nunca alcançou a estatura de um homem normal. Aos oitenta anos mais parecia ter setenta. Mas assim não seria fosse ele mais que um cretino. Agora vocês hão de perguntar: como, se chegou ao marechalato? Rirei, gargalharei, rolarei no chão, morrerei diante de tanta ingenuidade. Pacóvios!
O pobre do militar logo se acostumou àquela vida meio artificial e mais cedo ainda passou a considerar as muletas partes integrantes de seu corpo, membros tão originais como os braços e a cabeça.
Sentia dores nas pernas, se caminhava muito, cãibras, se caía n’água. É que as pernas de pau foram se incorporando à sua sustância física de animal, até tornar-se ele um ser vegetoanimal, espécie de bicho-pau. Dizem alguns biólogos que se ele ainda vivesse seria hoje uma árvore rara, cujo nome poderia ser marechalia, tendo por frutos marechais. Cuidassem então os botânicos dela, antes do final do século encheríamos a terra de marechais, para alimentação das populações famintas.
À gangrena ou necrose que atacou as pernas do soldado, os especialistas chamavam de caruncho. Assim, resumindo, o mal do mal. de Pau (copiem isso aí) era cupim. Em vez de mal, falemos de moléstia, para evitar mal-entendidos.
Concluindo, diremos que a cupinzama, à medida que devorava o pau, martirizava Mangarobeira, fazendo-o chorar resina. Não, não riam, que História não é para ser caçoada, é cousa muito séria. Controlem, pois, os músculos faciais, para não sujar os compêndios tão bem impressos e os cadernos tão caros.

UM NOVO HOMEM

No dia de seu último natalício, Erialdo se viu agraciado com um pequeno cão. O presente saiu do coração solteirão de uma colega de sala. Por que diabos fulana presenteou-lhe aquela coisa viva? Bem podia ter pensado num acessório para o carro ou numa camisa.
Com o tempo, Erialdo se afeiçoou ao animal, a quem deu o nome de Ecce Homo, em homenagem ao seu antigo professor de latim.
Ecce Homo fez de Erialdo um novo homem, modificando-lhe os hábitos. Assim, em vez de assistir a todas as novelas da televisão, Erialdo brincava de esconde-esconde com o cãozinho; em lugar de banhar-se durante uma hora, mal se asseava; em vez de dar pedacinhos de bife aos filhos gulosos, agraciava o animalzinho com gostosos petiscos. Um novo Erialdo, enfim. Não perdia mais tempo com rememorar os difíceis tempos de São Paulo, quando sacrificava a saúde para ganhar o pão e se embriagava nos fins de semana. Apagou da memória a felicidade vivida ao ser aprovado no concurso para ingresso no funcionalismo público. Já não se lembrava da garota bonita que conheceu nas praias cariocas, num domingo de muito sol e batida de limão. Nada mais da lua-de-mel, nem do nascimento do primeiro filho, do batizado e daquelas migalhas de alegria.
Antes de Ecce Homo, acordava sonolento às oito horas, para tomar banho e café e correr para o trabalho. Depois, pulava da cama antes mesmo de o cachorro latir. Sacolejava-o com carinho e saíam para o primeiro passeio. Pela corrente ligada à coleira, puxava o cão para cá e para lá, às vezes a correr, outras a passo lento, sempre de acordo com os quatro passos de Ecce Homo, Enfrentava o vento gelado e a curiosidade dos outros madrugadores. Às oito horas em ponto regressava ao apartamento. Antes de ir trabalhar, porém, fazia mil recomendações à babá: não esquecesse o leitinho das nove horas, não gritasse com o bichinho, não batesse, desse o banho morno, para evitar resfriado.
Não durou muito esse namoro. Ecce Homo um dia soltou-se das mãos do amo, para morrer debaixo de um carro. Para quê!
Dias depois chegou a vez do próprio Erialdo.


O PIO DA CAUÃ

Como se não sentisse o frio que lhe estremece o corpo, voltado para o Camucim distante, Taguaibunuçu solta baforadas de fumo. Olha para o fundo dos vales ainda adormecidos debaixo do lençol da noite. Mira a lua que foge triste por detrás dos montes. Pelas asas geladas do vento volta-lhe aos olhos perdidos a fumaça azulada, misturada à névoa. Acocorado, espera sozinho o regresso do Sol, imerso nas águas, tinto de sangue do mergulho prolongado. Sim, ele despertará a Ibiapaba com o lamber de sua língua ardente.
Taguaibunuçu não dorme desde que o pio da cauã assustara as cunhãs e anunciara novas dores para os Tabajaras. Sentinela sem medo, fora encostar-se a uma munguba, a pastorear a Lua e pitar o Tempo. E, de tanto pitar, esquecera a Lua. A cabecear, perdera o prumo e mais se vergara. Umas patas macias lhe pousam no ombro. Dá um salto desastroso para um lado, quase fazendo tombar outra munguba. Padre Pinto esfrega as brancas mãos e balbucia desculpas, os olhos sonolentos a se arregalar, os lábios trêmulos a luzir. Passo a passo, o selvagem refreia a cólera e o susto, a resmungar como um jaguar domesticado. Volta a acocorar-se ao pé da munguba e reacende o cachimbo no derradeiro tição da fogueira que a névoa apaga. O jesuíta imita-lhe o gesto de agachar-se, voltando-se também para o nascente, onde terra, mar e céu se confundem.
De novo o silêncio e o sossego, ainda o estremecer dos corpos, como se lhes amedrontasse o mesmo abismo adormecido adiante. Mais uma vez acordei cedo demais, e, se não tivesse acordado, o frio me teria feito defunto. Aqui é realmente o fim do mundo. E o selvagem a rugir e fumar, rugir de frio e fumar de insônia. Parecem ondas gigantes de um mar medonho a avançar aos saltos para o sertão. Estamos na crista da onda maior. Treme-lhe a batina sobre o corpo, treme-lhe a língua entre os dentes, num carnaval de cores adorável. E o selvagem a espiar a Lua dançarina. Maravilha de Deus! As campinas verdes, verdes da cor do breu, os picos apontados para o infinito, e nós aqui pisando as nuvens! Uma coisa divina, Seu Taguaibunuçu!
Não fossem os dois, a taba pareceria tapera. Dentro das ocas dezenas de selvagens hibernam em redes de tucum, a sonhar magníficas caçadas, samburás repletos de peixes, mergulhos atléticos nas águas frias dos riachos.
Padre Pinto sorri. Longe, o rubor da manhã se anuncia. Aproxima-se a hora do santo sacrifício da missa. O cacique nem lhe dá ouvidos – bate na mão o cachimbo cansado. Nada bom o dia nascer. Não diga blasfêmias! Cada manhã traz uma nova esperança. Ergue-se, as pernas a tropeçar na saia negra salpicada de branco. Os tapuias preparam vingança no fundo dos vales. O jesuíta pára e volve os olhos esbugalhados para os abismos da madrugada. Então eles têm coragem de subir as terras dos tabajaras?
Às portas das ocas, cunhãs despertam os longos cabelos, curumins abraçam-lhes a nudez, necessitados de aquecimento para os corpos mal acordados. O terreiro se enche de pardas figuras nuas. Amassam o chão com os pés e erguem os braços. Põem-se a bradar, como se lhes ordenasse terrível instrutor. O céu é a morada de Deus, que não irá querer descer mais uma vez ao convívio destes eternos macacos. Parem, com isso, bando de medrosos!
De uma cabana afastada, a persignar-se, surge outro padre. Boceja e esfrega os olhos. Bom dia! Ouça, padre Figueira, o que diz Taguaibunuçu. O cacique remexe os restos da fogueira com os dedos das mãos. Impacienta-se por só encontrar cinza. Algum mistério do fogo? Padre Pinto parece não gostar da brincadeira e faz sinal ao companheiro para se aproximarem do selvagem. Os tapuias vão atacar. Quem lhe disse isso? E por que ainda não preparou a defesa? Calma, Padre Figueira! Não haverá guerra. Iremos procurar os tapuias e dissuadi-los do ataque.
Taguaibunuçu cala-se, como se assim pudesse entender os missionários. Quem lhe disse que os tapuias vão atacar? Padre Pinto fala quase ao mesmo tempo as duas línguas. Precisa se fazer entender pelo cacique e o outro padre. Os tapuias não querem peros aqui. Mas nós somos vigários de Cristo, estamos cumprindo uma santa missão, não somos soldados nem temos armas.
Como o céu não desabasse, a tribo inteira se encaminha para o riacho. Alegres, saltitantes, abraçados, alheio aos padres e ao cacique. Padre Figueira passeia os olhos pelo moreno dos sexos expostos, alheio às palavras do selvagem. Padre Pinto fala sem parar. Chefe da missão de pacificação da Ibiapaba, anos e anos no meio dos tupinambás, dos pitiguaras e outros tabajaras, não permitirá que os tapuias estraguem seu trabalho.
Taguaibunuçu impacienta-se. Seus olhos chamejam angústia. Vocês são peros pacíficos. Os tapuias, porém, não sabem disso. Para eles, vocês vieram espiar a Ibiapaba. E vão voltar à Paraíba e de lá trazer caçadores e matadores de índios. Não acreditam na paz de vocês. Quem disse que eles vão atacar homens? A cauã piou de noite. É o sinal. Vocês não ouviram? Padre Pinto ri. O cacique fecha a cara. Meu filho, não acredite nos pios dos pássaros. Eles não entendem nada de humano. São simples animais. Taguaibunuçu bate os pés e as mãos no chão, irritado. Eles querem vingança. Os peros mataram, cativaram, roubaram. Padre Pinto se zanga. Você já me contou, outros já me contaram a história. Aqui viviam, há muito tempo, os airuruiuba, que faziam comércio com os tabajaras. Davam manufaturas inferiores e levavam araras, periquitos, peles, ibirapitanga, âmbar gris, etc. E ainda tomavam para fêmeas as cunhãs, que pariam indiozinhos franceses.
Um dia chegaram outros estrangeiros, armados dos pés à cabeça. Comandados por Pero Coelho de Souza. Com eles vinham muitos índios, inclusive tabajaras de outras terras. Então o cacique Irapuã conduziu a resistência e houve mortos e feridos de ambos os lados. Dias e dias de luta. Vencedores, os estrangeiros passaram a donos de tudo, da terra para saquear as riquezas, dos homens para amarrar, levar e vender, das mulheres para com elas fornicar. E, idiotas, não fizeram distinção alguma – passaram a amarrar, levar e vender até os que lhes possibilitaram a vitória. Em conseqüência, tabajaras, pitiguaras, tacarijus, curutis, camamus, anacés, acrius, todos se uniram e, comandados por Juripariguaçu, iniciaram outra guerrinha. Ao final, Pero Coelho se viu obrigado a voltar para Camucim e de lá para os infernos. Agora os peros querem voltar mais armados e mais prevenidos. Francisco Pinto e Luís Figueira, sacerdotes da Companhia de Jesus, são seus espiões. O pio da cauã anunciou tudo. Não é isto, Senhor Taguaibunuçu? Aproxima-se do selvagem e, rindo, dá-lhe três palmadinhas nos ombros largos. O cacique, sério, não reage. Os tabajaras não querem vingança. São os tapuias do vale.
Padre Figueira ergue-se e anuncia estar na hora da missa. Pode preparar a capela. Os fiéis já estão de volta do banho. Enquanto isso, fico aqui a tirar a cauã da cabeça desse agourento.
O sol já brilha nos rochedos e desperta as campinas umedecidas. Taguaibunuçu ainda fala do agouro da cauã. Nós estamos aqui justamente para apagar da memória de vocês a dor e o sangue do passado. Tudo mudou. Estamos em 1607 e não acontecerão mais guerras no Ceará. Padre teimoso! Não acredite só em você. Os tacarijus vão atacar. Peguem o caminho de volta enquanto é cedo. O caminho para o mar. Padre Pinto ergue-se, afobado. Deus nos protege e jamais fugiremos do mundo. Você está assim pensando em morte porque é um pagão. Nós, não, somos soldados de Cristo, e não tememos a morte.
Aos magotes, em grande algazarra, a tribo inteira regressa do rio. Alegres, rindo, os corpos nus ainda molhados, as longas e lisas cabeleiras brilhando ao sol. Acercam-se do padre, que se dirige à capela. Deus nos abençoe. Deus vos proteja. Vamos à missa. Vamos rezar.
Taguaibunuçu deixa-se ficar, olhos fitos na luz opaca do sol encabulado, alheio à alegria geral, no rosto umas marcas de amargura não dormida. Volta-se para o lado da capelinha de palhas de carnaúba, desacocora-se lentamente, sai pisando onde os pés do padre pisaram e pára. À sua frente, uma cunhã espicha o pescoço, buscando ver Padre Pinto, que coloca um cálice sobre o pequeno altar de madeira. In nomine Patris et Filli et Spiritus sancti. Padre Figueira faz sinais para que os selvagens o imitem. Grita amém. Introibo ad altare Dei. Todos muito atenciosos. Gaguejam de vez em quando as palavras de Padre Figueira, sua fala alta e compassada. Confiteor Deo omnipotenti, beatae Mariae semper virgini.
Taguaibunuçu olha para os lados, calado e triste. Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa. Um bando de anuns corta o vento e espanta as palhas da capelinha. Misereatur vestri omnipotens Deus et dimissis peccatis vestris, perducat vos ad vitam aeternam.
De repente uma gritaria invade a taba. Os tacarijus! grita Taguaibunuçu. Uma multidão de selvagens furiosos, armados de paus, arcos e flechas, marcha para o grupo atônito. Gritos, correria, tropeços.
Um segundo após, no meio dos escombros da capela, um corpo jazia só e encharcado numa poça de sangue, a cabeça esmigalhada e o peito duas vezes trespassado de flechas. Uns restos de padre.

(FIM)