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BABEL (3)

(Continuação)

DA NOITE PARA O DIA

Como a vida da gente muda da noite para o dia! Ainda ontem tudo ao meu redor parecia sem vida, tudo monotonamente normal, quando me assaltou novamente a idéia de remexer papéis velhos, um dos meus passatempos prediletos. Assim consigo também trazer de volta o passado. Às vezes é uma foto, outras uma carta, outras ainda uma poesia que rabisquei na adolescência. Mas desta vez não foi nada disso. Encontrei uma novela. Datilografada, ilustrada, com capa e tudo. Como um livro impresso. No fundo de uma gaveta, enrolada noutras folhas de papel. Retirei o invólucro e fui me lembrando da história daquela história. Era uma novela amorosa escrita por César e ilustrada por mim. Datilografamos, fizemos uma bonita capa, grampeamos as folhas. Nesse tempo vivíamos de sonhar. Éramos estudantes do mesmo colégio, colegas de grêmio literário, de leituras, discussões acaloradas. Líamos Dumas, Camilo, Herculano, Alencar.
César sonhava com a glória literária. Ser membro da Academia, escritor de fama, ganhador do Nobel. Já meu sonho se contentava com as migalhas da simples publicação. Eu não tinha vocação literária, embora rabiscasse versos vez por outra. Aprazia-me mesmo era desenhar. Daí a capa do futuro livro de César e algumas ilustrações ao texto.
Iríamos trabalhar juntos sempre: ele como escritor de novelas, eu como ilustrador de seus livros. E nunca ele aceitaria outro ilustrador, nem eu ilustraria livro de outro escritor. Pacto de sangue, de morte, de amizade eterna.
Planejamos publicar a primeira novela. Cinqüenta mil exemplares na primeira edição. Ele havia sonhado com cem mil, até que o convenci a ser mais modesto. Iríamos ficar famosos da noite para o dia: ele como escritor, eu como ilustrador. Lidos e vistos em todo o Brasil. E depois em todo o mundo. Inclusive na China. Falaríamos com Mao Tse-tung. A juventude chinesa precisava de ler textos mais do coração e não só o livrinho vermelho.
Enviamos cópias para algumas editoras. As respostas vieram desalentadoras: “livro pouco comercial”, dizia uma; “muitas obras no prelo nos impedem de dar publicação à sua novela”, esclarecia outra; “não estamos no momento publicando novelas”, explicava uma terceira; “livro não aprovado pelo nosso Conselho de Leitores”, resumia uma quarta. E outras do mesmo teor.
Algumas editoras nem sequer deram resposta. Fizemos então novos planos maravilhosos. Não iríamos precisar das editoras. Pouparíamos. Deixaríamos de fumar, beber, merendar, ir ao cinema, etc. César iria trabalhar e depositaria a maior parte do ordenado na caderneta. Meu pai não me deixava trabalhar, mas, em compensação, eu exigiria mesada mais gorda. Dela tiraria apenas o suficiente para os gastos mais necessários e depositaria o restante na poupança. Quando já tivéssemos alguns milhões, mandaríamos publicar a novela numa gráfica qualquer. Venderíamos os livros nas escolas, nos cinemas, nas ruas, lojas, repartições públicas, nos bares. Viajaríamos pelo interior. Com o dinheiro da venda mandaríamos publicar o segundo livro. Mas quando teríamos os milhões suficientes para pagar a primeira impressão? A esta pergunta perdemos o entusiasmo.
Concluídos os estudos secundários, César deixou de estudar e arranjou emprego. Não para juntar dinheiro, mas para sobreviver. Seu pai mergulhava cada vez mais na pobreza. E não falamos mais na novela. Nossas relações pouco a pouco iam perdendo o calor, nossos encontros se distanciando no tempo. E, quando nos víamos por acaso, apenas nos cumprimentávamos.
Esqueci logo os desenhos, as ilustrações, os sonhos. E fui estudar Direito.
Um ano depois meu pai morreu. Estranhamente assassinado. Crime horrível – latrocínio. Morto e roubado. Encontraram seu corpo numa valeta a poucos quilômetros do centro da cidade. Um tiro no crânio. E o carro estacionado à margem da estrada. Nenhum vestígio do assassino.
Meu pai nunca teve inimigos, dava-se bem com todo mundo e quase toda a cidade o conhecia. Nós, os filhos, estudávamos nos melhores colégios. Minha mãe o adorava. A polícia ficou tonta. Não sabia a quem atribuir o crime. Nenhum indício, nenhum suspeito.
No dia de sua morte havia sacado uma grande soma em dinheiro ao banco, como sempre fazia. E seus negócios ele mesmo os resolvia. Deixava o carro estacionado nas proximidades do banco, levava uma pasta, um revólver e só. Não queria guarda-costas.
A polícia concluiu finalmente que o assassino só podia ser um assaltante comum. Foram então presos todos os ladrões e suspeitos de terem cometido crimes contra o patrimônio. A nenhum deles, porém, foi possível imputar o latrocínio.
Folheei a novela e por um bom tempo me deixei a cismar. Pensei no meu passado, em César, e quase não consegui dormir. E decidi que hoje procuraria saber onde vivia César. Queria recordar com ele todos os nossos sonhos, todos os nossos sofrimentos, ele por ter tido suas ilusões tão duramente mortas, eu por ter perdido meu pai de maneira tão bárbara e misteriosa. Como pudemos nos esquecer tão depressa, apesar daquela amizade quase apaixonada que nutríamos um pelo outro? Como somos fracos, débeis, inconstantes!
Onde, porém, eu poderia encontrá-lo? Detrás de um balcão de loja? Na cozinha de um restaurante? Ou teria conseguido realizar seus sonhos literários, pelo menos os mais modestos? Ou teria ido embora para bem longe? Talvez até estivesse morto.
Não, não adiantava fazer suposições. Mais fácil procurar seu nome na lista telefônica. Se não estivesse tão mal, certamente teria um telefone. Tentei lembrar-me de seu nome completo. Lamentei mais uma vez a fragilidade do coração humano. Como pude esquecer tão facilmente o nome de meu melhor amigo? Ainda bem que a novela se encontrava comigo, e, com toda certeza, nela estaria o nome inteiro, um sobrenome pelo menos. Corri os olhos e li: César Augusto dos Reis, no alto da capa.
Hoje disquei o número e atendeu uma voz grossa e autoritária. “Quero falar com o novelista César Augusto dos Reis”. A voz do outro lado se mostrou aborrecida: “Não existe nenhum novelista aqui. Quer deixar de brincadeiras, meu senhor.” Apresentei-me. Ele se fez de esquecido ou de fato não se lembrava mais de mim. Depois se disse surpreso: “Não sabia que você ainda era gente”. Conversamos mais. Quis saber de minha vida. “Sou advogado. E você?” Falou em barzinho, dificuldades, “aturando esses bêbados dia e noite”. Pedi o endereço.
O barzinho chama-se “Restaurant Carnivorous”, serve pratos da cozinha internacional, recebe a fina-flor da sociedade e é irmão de outros dois e de um prédio de doze andares.
César mandou dizer por um moleque de recados que não podia receber ninguém. Em um minuto deveria sair para compromisso inadiável. Não dei ouvidos ao recado e entrei no escritório. E só saí de lá uma hora depois.
Falamos da morte de meu pai, de comércio, de literatura e artes plásticas, do passado, de nossos sonhos, mil coisas, tudo de forma desordenada, como se quiséssemos falar todas as palavras ao mesmo tempo. Contou-me sua história: antes de adquirir o primeiro barzinho, trabalhou como garçom, copeiro e cozinheiro. O barzinho rendia alguma coisa, até se transformar num bar de verdade. O bar virou restaurante. “Tudo porque sou muito controlado e trabalhador. Não ando esbanjando dinheiro”.
Surpreendi-me diante de tanta riqueza e fui para casa desconfiado não sei de quê. E todo o passado voltou à tona, aos borbotões, feito vômito. Relembrei todas as nossas conversas, todos os sonhos, todos os projetos, a novela, tudo. E me interroguei com mil perguntas: por que César não publicou o livro, não virou o escritor que desejava ser, se tem tanto dinheiro? E se havia dito numa de nossas últimas conversas que nada o impediria de se transformar num grande homem, famoso, reconhecido por todos! Como um barzinho podia ter se transformado num restaurante daqueles em tão pouco tempo?
Não durou muito aquele vômito e voltei ao restaurante. Da porta gritei: “César, você matou o meu pai”. Ele quis explodir, gritar, correr, agredir. Apontei-lhe o revólver e ele se rendeu.


AVISSERGER MEGATNOC

9 - Fantasia

Colocou na face no rosto na cara mesmo a máscara para iludir a vida e fantasiar a noite. Escondeu como era possível esconder os traços de frente e de perfil. De todos os ângulos cabíveis. Não a boca tão necessária ao despejo uísque-uísque e enfio ou meto hiltons charutos os mais grossos e mais nauseantes. Não as narinas as ventas as crateras subterrâneas para farejar perfumes e suores. Não os olhos brilhosos ? opacos ? tristes ? alegres ? para ver olhar enxergar e espiar colombinas meninas tão lindas. Depois se vestiu do blusão multicolorido the falcon e da calçona listrada e calçou agachado as sapatilhas olympikus. Saltou diante do espelho nítido horrível palhaço ou feitiço danado que o fez recuar dançar saltitar passos atônitos e dizer de si para si ou para paredes estufados móveis coloniais que o baile seria inesquecível mas talvez o último o baile de máscaras a noite dos foliões a grande alegria que a vida merece ser vivida pulada fantasiada mascarada bebida fumada comida deitada caída saída vamos já vamos logo josé.

8 - Passport

Antes porém da partida do adeus da viagem da alegria sem-par necessária era o passaporte e ali sobre o barzinho o convite para outra viagem a passage aérea fantástica para o País do Sonho. Ajeitou como o fazem os viajantes que não sabem o fazer antes da viagem a gravata os punhos o colarinho os documentos nos bolsos os óculos na cara mas a fantasia toda máscara blusão the falcon listada menos as sapatilhas tão longe das mãos para ver melhor taça e garrafa que tremeluziam ou apenas luziam ou apenas tremiam ou era o bebedor ? e beber sossegado o último uísque só no lar na casa na bela e magnífica mansão como disse o colunista. Dois dedos apenas ou três não importa e o líquido encachoeirou-se ardente mas preciso e até precioso gostoso como o néctar ou elixir da eterna juventude que já se foi e não volta jamais ai de mim. De novo sapateou saltitou sorriu só riu e quase caiu também na poltrona macia e funda no fundo da sala clara e escura de portinaris e bandeiras estandartes não é o desfile de rua é baile no clube vamos josé agora vamos embora é hora josé.

7 - Mercedes voadora

Corra só corra josé socorra josé direto sem curvas para o baile de máscaras corra corra não pare não veja sinais vermelhos amarelos ou verdes nem pedestres pode ser sua mãe nem cachorros buldogues vira-latas nem latas não vire cuidado leve-me leve voe rápido como se fosse jato vassoura voadora bruxa dourada feiticeira doirada e volte e durma e revolte e me busque me ache me leve me traga para a cama o sono o sonho a fantasia não esqueça de tirar de meu rosto depois essa máscara má cara que eu sou bom bonzinho bom patrão não é josé? mas cuidado com meu carro meu caro cuidado cuide bem de meu carro mercedes cem mil ouviu? viu? cê viu? seu vil servil ser vil.

6 - O Baile de Máscaras

Já pulavam dançavam gritavam cantavam e a banda estridava acordes e sons de marchinhas sambinhas ranchinhos frevinhos gostosos. Meteu-se no meio das turbas das turmas juvenis mascarados quem sabe? já velhos ou velhas bebendo e já bêbados caindo sorrindo chorando loucura no baile de máscaras vestidos ou nus belos e belas quem sabe? Logo o cansaço que os anos não deixam pular tantas horas e correu ofegante para a próxima cadeira da próxima mesinha e pediu e bebeu mais um trago de uísque para ver e sonhar acordado consigo mesmo para não reconhecer novamente a incapacidade física de ser folião como um jovem qualquer seu filho ou amigo os roqueiros do bairro elegante.

5 - Meditações

Sozinho em meio à folia aos gritos cantares risadas passadas o passado voltou em sonho ou simples recordação que o uísque este uísque nesta noite de fantasia trazia. Os bailes antigos não calmos mas melhores não melhor era ele porque não tinha ainda cansadas as pernas o corpo os olhos a mente. Amigos vizinhos solteiros casados bebendo e cantando uns mortos outros vivos deitados sentados tranqüilos só lendo jornais e revistas ou vendo televisão. Mais um uísque senhor ? estamos às ordens ó ele dorme ou sonha acordado nem parece num baile de máscaras.

4 - A Bela do Busto Suado

De um salto assustado já não mais cansado já quase dormido de tanto pensar ou sonhar de novo voltou ao vasto salão.
Pulou abraçado ao busto suado de uma jovem mui bela que ria sorria gostava demais dos sons e dos passos dos gordos e magros esquecidos da vida passada e futura lá fora ou lá dentro de si. Foliou cantou que cantou cantigas da moda roques sambados. E gostou tão demais da morena de busto suado que jogou o cansaço debaixo dos pés e sorriu e falou que flor mais cheirosa vamos parar um pouquinho bater um papinho tomar uma soda de certo os suores passarão passageiros e noite de baile será mais longínqua querida ridinha quedinha aceitas ?

3 - Mercedes Dançarina

O papo foi longo longuinho que queres querida guelzinha assim vou chamar. Um uísque para mim outro para mim assim molharemos os lábios cansados de tanta secura. O baile prossegue segue seguindo que baile tão bom mas você é que é o bom deste baile que máscara horrível tem você neste palmo de rosto tão lindo eu vejo pela voz que você é mui bela belinha. Como te chamas querida guelzinha? Mercedes que nome tão lindo de meu carro tão caro. E você que cansou uma vez outra vez meu menzão ou bebe tão muito que tem por detrás deste queixo desta barba? E o papo se estirou apesar da folia gritaria guitarria cantoria por debaixo das mesas por entre as garrafas por sobre os mominos por todo o salão.

2 - Amores, Amores

E saíram abraçados enlaçados como dois namorados de paixão repentina serpentina. Mas no meio de todos dos tontos foliões ou por obra e graça do último uísque o namoro desfez-se.
Um samba mui quente levou a morena de busto suado nos braços de outro feliz folião e ele também saiu-se tão bem que faceira mocinha tomou-lhe a mão e levou-o pulando para um canto obscuro do grande salão.

1 - O Tempora, O Mores

E o amor foi tão grande que a fome e sede de amar era tanta em um e em outro que os pêemes postados não para molestar os ricos pançudos mas para evitar confusões passageiras tiveram que agir de maneira tão brusca. Arrancadas as máscaras foi tão grande o espanto de um e de outro que os pobres pêemes irritados ainda mais nada fizeram senão escutar o pai e o filho saírem chorando para os cantos escuros do grande salão.

0 - Tragédia clássica na corte de Momo

E foi tão grande a tristeza do rico falcão ou foi por demais inclemente o passport bebido pedido pra sorte ou a morte de porte tão forte ou a viagem havida na mercedes veloz fugidia no meio da folia lhe dera por sina porções incolores de etéreo viver que do lado de fora do clube elegante foram encontrar seu corpo esmagado por rodas ferozes de um bicho qualquer.


A BRINCADEIRA

A última brincadeira de Alberto terminou mal. Funeral nem houve. Os parentes mais próximos choraram, mas sequer viram seu cadáver. Como estaria? Mutilado, disforme, horrível?
Alberto, um meninão. Ninguém o levava a sério. Para quê, se ele brincava até de chorar e rir?
O mundo é uma peteca, dizia. E largava a palma da mão no tempo.
– Esse é doido.
A sentença não lhe saía da boca e ninguém lhe pedia explicações. E Alberto chutava latas de lixo, cuspia em carpetes, pisava vestidos de noivas, beijava namoradas de colegas.
– Moleque!
Nada o insultava.
– Cretino!
Ele ria e, para não repetir a velha frase, levantava a mão e acompanhava com os olhos o vôo da peteca.
A brincadeira mortal podia ter sido um salto do último andar. Ninguém acreditaria em sua queda. Enfrentar leões do zoológico. Mesmo assim pensariam em hipnose, mágica, qualquer coisa.
Não, Alberto foi longe demais. Primeiro ludibriou a segurança do Hotel Internacional e depositou debaixo da mesa do auditório um pacote.
Realizava-se um congresso para o progresso do mundo, e delegados de quase todos os países falavam de guerras, empresas, capitais, mil coisas.
Enquanto os eminentes congressistas blablablavam, Alberto cumprimentou os guardas, voltou à rua e, de um telefone público, comunicou à polícia o próximo fim da reunião.
– Dentro de uma hora, ouviu?
– Quem está falando? Alô!
– Não importa. Vai tudo explodir: hotel, congresso, delegados, planos.
Num minuto, a cidade se encheu de sirenes, carros de bombeiros, soldados, ordens. Evacuaram a alta casa de pasto e na rua uma babel dos diabos se fez. Americano corria, francês suava, inglês tremia, alemão se borrava, italiano sumia.
Escolhido o herói, os comandantes da operação pediram coca-cola e se olharam pelos binóculos.
Faltava um segundinho para a bomba explodir.
– Desata o nó, patife.
O herói desatou o nó e a merda salpicou na sua cara de patife.
E desmaiou.


A NOITE DAS GARRAFADAS

A hora talvez fosse tarde. A janta, nem lembrávamos mais dela. Baião-de-dois, ovos, com tempero de coentro e cebola. Ou cuscuz com leite. Depois rezamos o terço, ave-maria cheia de graça, padre-nosso que estais nos céus, kyrie, eleison, atos de fé, esperança, caridade e contrição. Ajoelhados, cansados, eu pensei o tempo todo nas meninas da nossa rua. Só queríamos que aquilo terminasse logo e pudéssemos jogar damas, dominó, baralho.
O rádio velho chiava ao canto da parede, falava do mundo, cantava amores. Nosso pai ainda não havia voltado do trabalho, nossa mãe enchia os potes, lavava os pratos, espantava os ratos. E nós três pintávamos o sete na sala.
Súbito uma garrafa se espatifou no meio da rua, e gritavam, discutiam, sapateavam dez ou mais rapazes na calçada defronte. Da janela assistíamos a tudo, e ríamos dos que cambaleavam e levantavam-se sujos e amarrotados.
Uma voz fanhosa chorava dentro da caixa do rádio, bem mais triste do que aquelas noites. As mariposas voluteavam ao redor da lâmpada pendurada no meio da sala.
Os cacos de vidro brilhavam entre as pedras do calçamento, verdes, pontiagudos, inúmeros. E os rapazes pulavam, corriam, esmurravam-se, chutavam-se, feridos, alguns cobertos de sangue, outros a chorar. Das janelas, mulheres e homens gritavam. E já outras mulheres gordas e velhas misturavam-se aos brigões, aos gritos e lamentos.
Os soldados chegaram muito tempo depois, armados de cacetes, e mais garrafas se quebraram, mais socos e pontapés se deram, mais gritos desesperados, uns caídos, outros fugidos. Meus dois olhos já não viam tudo, ora no braço erguido de um, ora no grito infindável de outro, aqui, ali, acolá.
Alguns pequeninos pedaços de vidro às vezes salpicavam nossos rostos, saltavam para o interior da sala, retiniam no parapeito da janela, confundiam-se com as mariposas.
Muito tempo durou a noite. Nosso pai, quando chegou, passou-nos um carão medonho. Aquilo não eram horas de menino estar acordado.
Ainda mais olhando briga de vagabundo.
Caímos nas redes e passei a noite sonhando com brigas e garrafadas.


JINGLE BELLS

Doca engoliu a cachaça, sem uma careta sequer, repôs o copo sobre o balcão e afastou-se, a cambalear.
– Morre, desgraçado – brincou Hélvio.
Os fregueses riram e se puseram a tagarelar. Aquilo só podia ser doença.
– Doença que nada. Isso é vício mesmo.
– Ou então vontade de morrer.
O bêbado falava só, do lado de fora do boteco.
– Quantas ele tomou?
Enquanto trocava o disco da vitrola, Hélvio prognosticou:
– Se durar mais um mês, dura muito.
E pôs-se a falar de sua experiência como dono de bar. Conhecia o grau do vício de cada cachaceiro. Sabia quanto podiam durar.
– Vocês se lembram do Tiquinho?
Na vitrola, Nelson Gonçalves enchia a rua com o nome de Carlos Gardel.
– Pois bem, eu disse que aquele não passava do carnaval. Passou?
O assunto prometia render uns bons minutos. Relembrar os mortos, os antigos freqüentadores do bar, os maiores consumidores de cachaça do bairro, era outra das especialidades de Hélvio.
– Essa turma pensa que cachaça é água.
Entretidos, ninguém se lembrava mais de Doca, que já ia longe, aos trambecões. Feiúra ambulante. Trapos, só trapos. Piolhento, sujo, banguela.
Relembrado numa pausa da fala de Hélvio, falaram de suas rugas precoces, de sua família, de seu passado.
Na outra esquina, tropicou e caiu. Tentou levantar-se, pôs-se de quatro, tombou para um lado, virou-se e ficou a olhar para cima. Bolinhas e fiapos brancos corriam pelo azul do céu.
Um cachorro passou desconfiado a pouca distância, enorme no seu meio metro.
– Olha onde ele foi cair, pessoal!
Hélvio só se moveu para ir virar o disco. Os fregueses, porém, correram até a porta.
Doca fechou os olhos, resmungou, remexeu-se. Não dava para se levantar. O jeito era dormir. Não deu nem pra cochilar – abriu os olhos e só viu pernas, muito longas; depois braços, pendurados, feito cachos de banana; e queixos, buracos de venta, muitos olhos.
– Morre, filho de uma égua.
– Agüenta, filho da puta.
Tentaram erguê-lo pelos sovacos. Puseram-no sentado. E depois de pé.
– Vai embora.
Cambaleou, rodopiou como um pião, equilibrou-se na parede, sorriu, agradeceu. E seguiu, tropegamente.
Os bons amigos riam, olhos dançarinos grudados no balé do bêbado.
– Agora ele vai.
E voltaram ao bar, a convite de Nelson: Faça como eu, acostume-se à derrota...
– Não adianta, amanhã ele volta, enche a cara de novo – concluiu Hélvio.
Mais longe do bar, Doca continuava seu caminho, arrastado pelo declive da rua, amparado pela parede das casas.
Nos dias seguintes, Hélvio não deixou de falar de sua experiência como dono de bar, enquanto Nelson Gonçalves enchia a rua com o nome de Carlos Gardel.
Numa noite em que na vitrola só rodava Jingle Bells, anunciaram a nova:
– Eu não disse que Doca não passava do Natal!


A PERSEGUIÇÃO

Após perambular por ruas escuras e desertas, eu só queria dormir ou descobrir um modo de afugentar os urubus que me bicavam a solidão. Devia ser mais de meia-noite. Não se via uma só pessoa na rua e eu caminhava sem pressa. De repente pressenti que alguém me seguia. Ouvi-lhe a zoada das pisadas. Tranqüilizei-me: certamente outro solitário vagabundo com quem poderia conversar por alguns minutos de caminhada. Pouco me importava fosse uma puta desleixada e doente, um bêbado sem rumo e delirante, um mendigo à cata de pouso e mudo. Olhei de esguelha e achei tratar-se de homem de passo firme e boa aparência. Andava na mesma vagareza com que eu passava pelas casas dormidas. Estranhei não se aproximasse um metro sequer de mim E se se tratasse de um assaltante? Deveria enfrentá-lo ou correr? Meti as mãos nos bolsos. Nada me faltava ainda: chaves, cigarros, lenço, documentos, dinheiro. Apressei o passo, por cautela. Logo, porém, mudei de idéia. Seria mesmo um mendigo e não me custava nada dar-lhe uma esmola e um boa-noite. Também logo desisti da piedade. Devia ser um estrangulador, um maníaco qualquer.
Tenho pensado, e pensei na ocasião, mil besteiras, absurdos. Um ente sobrenatural, um ser qualquer, um robô, minha sombra.
De qualquer forma, continuei de mãos enfiadas nos bolsos. Talvez até pelo simples desejo de aquecê-las, resguardá-las do frio.
Andava sem jeito, como se tivesse presos os braços, amarrados por cordas, empurrado para o abismo. Mas quem me prendia e conduzia para a morte? Lembro-me de ter retirado dos bolsos as mãos, que, crescidas, inchadas, volumosas, custaram a saltar fora. E balançando os braços, pesados, quase paralisados, numa vontade imensa de voar, fugir, correr. Tentei apressar o passo. O chão parecia grudar-se aos meus pés. O som de nossas pisadas ressoava na calçada, como se a calçássemos com força, em marcha de tropas vitoriosas. Quantos já me seguiam? Olhei para trás. O homem continuava à mesma distância de mim, lento, preguiçoso, rastejante. Acalmei-me e julguei-o apenas um coitado, um idiota acostumado a caminhar sozinho dentro da noite. E se fosse um vampiro? Saltaria, devorador, ao meu pescoço. Passei a mão trêmula pela nuca. Senti calafrios. Apressei o passo mais ainda. Ia quase correndo. Atrás de mim, passos cadenciados de quem corre. Meu coração batia sem sossego. Cansado, parei. E deixei de ouvir também as pisadas do estranho. Voltei-me e ele me deu as costas. Enchi-me de coragem e fui em sua direção. Agora eu o perseguia. E ele fez-se perseguido. De novo parei. Se continuasse, nunca chegaria a minha casa. E ele deixou também de andar. Vi, por suas costas, que se parecia comigo: os mesmos ombros caídos, a mesma cabeleira despenteada. Por que não dirigir-lhe a palavra, perguntar-lhe o que queria, quem era, por que me seguia, por que me imitava em tudo? Não o fiz, voltei-me e tomei meu caminho, devagar, desiludido.
Mais adiante, já resolvido a esclarecer o mistério, reduzi a marcha e, sem me voltar, gritei: “Que quer você?” Minha voz ecoou: “Que quer você?” Não sei, talvez ele, o estranho, me arremedasse, zombasse de mim, para me amedrontar. Com febre, eu tremia e não sabia mais em que pensava. Cuidei, me vi diante de casa. Olhei para trás. O homem havia parado a uns vinte passos de mim. Abri o portão, percorri, sonâmbulo, o jardim, abri a porta e pulei para a sala. Tirei a camisa ensopada em suor e corri ao quarto. Caí na cama como um bêbado. Não vi, não senti, não pensei mais nada. Devo ter dormido profundamente.
De manhã, mal o sol despontava, abri a porta, percorri o jardim e cheguei ao portão. Na calçada, encharcado numa poça d’água, jazia um homem. E nem sei se se tratava do mesmo que me havia seguido.


O JULGAMENTO

A desgraça, descarga megatômica, se abateu sobre nós, de forma impiedosa. Deus nos castiga com seu chicote de ferro, como se tivéssemos cometido infinitamente os pecados das Tábuas da Lei. E eu, que fiz eu, que não me lembro? Terá sido pecado tão terrível todo o sofrimento que sempre tive? Esta série incontável de malogros que não consigo esquecer? Ou, meu Deus, a rebelião que arquitetei e cometi contra o poder de meu pai? Mas nunca o ofendi publicamente, nunca o esbordoei, nunca sonhei a sua morte. Se o ofendi, o fiz em silêncio, nas longas noites de insônia, em sonhos e pesadelos, histórias horrorosas que jamais inventei, e apenas fluíam como águas da terra, incontrolavelmente. Ou terá sido aquela mancebia tão conscientemente esquecida, eu tão jovem e necessitado de amor, de três anos apenas, com a pobre Raquel, coitada, onde estará? Ou a prodigalidade vivida por tanto tempo, a esbanjar como não devia, a deixar de dar a eles, meus pais e irmãos, o tanto precisado? Ou esse casamento malfadado, com essa menina tornada adulta tão de repente? Ou essa fuga precipitada e alucinante, como um bandido caçado insistentemente, para este fim de mundo? Ou o abandono a que lancei meu querido Aécio, para morrer só como um leproso? Não sei, não sei. Ou terá sido tudo isso, todo esse rosário de erros? Estou desgraçado pelo resto da vida. Vou penar ainda mais como um vil pecador. Morrer e parar nas profundezas do Inferno. Não, vou cair eternamente nas labaredas infinitas, inteiro e consciente de minha perdição. Mas, meu Deus, tenha piedade de mim, ajude-me, socorra-me, livre-me dessa dor, desse tormento, desse momento e das dores maiores que me esperam. Dê-me um fim sem dor, perdoe-me todos os pecados e leve-me para sua morada. Seja piedoso! Sou um pobre ser humano ignorante do que faz e fez. Se errei, não foi por querer, mas por não saber. Eu queria ser bom, eu sempre quis ser bom. Eu juro, era assim.
Que desespero é esse, Manuel? Acalma-te. Aquieta-te. Isso não te livrará da solidão e do tormento. Homem, Deus não está contra ti. Ninguém está contra ti. Tu és homem e isso é apenas a vida. Apenas a dor. Não é nada de anormal. É muito normal até. A vida é isso: uma dor trágica e absurda para os incapazes de pensar coerentemente, mas, até certo ponto, cômica e perfeitamente admissível para os dotados de bom senso.
Manuel, pensa, medita, escuta a tua voz antiga. Tu eras um homem sensato, apesar das loucurazinhas que cometeste. Tu nunca desesperaste, mesmo nos momentos mais críticos, mesmo quando a tempestade levantava as patas negras. Tu eras tranqüilo, como um lago. Tu eras, sobretudo, forte, corajoso, sonhador. Tu sonhavas castelos e reinados, embora sem ambição. Tu não usavas da violência para realizar teus pequenos sonhos de aventureiro, bandeirante, soldado. Tu seguias teu caminho, que era estreito e difícil, com tropeços aqui e ali, mas seguias. Destemidamente. Tu chutavas as pedras do meio do caminho e buscavas o lado limpo, reto e mais fácil, embora elas te machucassem as pontas dos dedos. E seguias, pisando o solo macio, a relva molhada e admiravas a beleza do teu mundo, já esquecido dos tropeços anteriores e das pedras passadas. Mesmo à noite, quando a escuridão te guiava pelos caminhos da perdição, tu sabias olhar para o alto e sorrir para a aurora que viria infalivelmente. Vinda, teus olhos faiscavam de esperança, tuas faces se avermelhavam de calor, teu corpo se enchia de vida. O sol vinha ao teu encontro e te mostrava os quatro pontos cardeais. Guiavas-te como os Reis Magos e buscavas o Menino-Deus. E gritavas loas ao Senhor, cheio de amor. E davas e recebias. Era a Fé. Que te sustinha, alimentava, saciava e rejuvenescia.
Manuel, se hoje estás no semi-outono, não é por acaso, é tão só pela necessidade de que assim seja. A primavera passou, mas isto não é razão para choro. Por acaso não crês no infinito e no eterno? Por acaso esqueceste a tua crença? Ou já mudaste? Ou já não és o mesmo Manuel cristão? Terás esquecido tão de repente os valores inegáveis que os Padres da Igreja de Roma te ensinaram? Recordo-te, então, que em tua cidade, aquela pequenina cidade onde viveste um pedaço importante de tua vida, tu foste o único, tu e tua mulher, a aplaudir, entusiasmado e no meio da rua, a Revolução e que, por isso, quase foste massacrado pelas turbas revoltadas. Lembras-te? Pois bem: um homem como tu, cristão, acima de tudo, não pode desesperar. Porque o desespero só existe na alma apodrecida dos renegados, dos blasfemos, dos hereges, dos incréus. Esses, sim, têm uma falsa felicidade. Usam máscaras para encobrir a extrema feiúra que suas almas revelam. Eles riem e até gargalham para sufocar o choro de condenados. De condenados ao patíbulo, à fogueira, ao Inferno. Tu, cristão, não cometeste pecado nenhum que mereça o Castigo. O que fizeste, durante toda a tua vida, foi por culpa dos outros. De teu pai, de tua família, de teus parentes, conterrâneos, falsos amigos, de tua mulher. Tu não mereces esse sofrimento. Essa auto-flagelação. Esquece e perdoa. Esquece e bebe. Bebe mais. Bebe, bebe. Afugenta o desespero. Esquece o passado. Tudo. Bebe. Amanhã, amanhã então, tudo será novo. O sol vai nascer. E tu vais em busca do Sol Nascente. Pode ser na Amazônia, nos pampas, nos gerais, nos sertões. Nada está perdido. Tu estás salvo. Toma a bússola. No mar a tempestade grita, mas Cristo caminhou sobre as águas. Lembras-te? E antes, muito antes, Deus separou as águas do Mar Vermelho para que seu povo o atravessasse. Lembras-te também? Por isso, bebe, bebe, bebe.


ROTAÇÃO

Eles liam pausadamente, compassadamente, demoradamente. Liam em voz alta, para que todos ouvissem suas palavras. Às vezes cantochão, deslizar suave de água mansa. Alguns chegavam a cochilar. Adiante, a voz se fazia áspera, gritante. Arregalavam os olhos, empertigavam-se. Nenhuma atenção fugia do leitor. Todos encantados. Para mim, no entanto, o salão se enchia de palavras ininteligíveis. Ou então nunca mais voltei a ouvi-las, apesar de ter sempre os ouvidos atentos. Eu todo me voltava, em todos os sentidos, para o que diziam e faziam. Os livros passavam de mão a mão, assim como meu corpo infante, num ritual monótono. As mãos, aquelas mãos tão diferentes entre si, às vezes brutais, voltadas unicamente para os livros e as palavras. Aquelas mãos que de mim faziam mero objeto, obrigado a estar e ouvir. E a girar.
Eu percorria o salão, de hora em hora, sempre voltado para o seu centro, onde se amontoavam livros, cadernos, canetas, garrafas, cigarros, sapatos e outros objetos. Tal rotação, no entanto, não me deixava tonto, como me deixa hoje o girar em torno de meu próprio eixo.
Eles eram muitos, formavam um círculo perfeito, e o giro se fazia lentamente. Eles me demoravam cerca de dez minutos no colo de cada um. Ocorria-me tontura, porém, quando se aproximava o momento de ser passado às mãos seguintes, depois de ter dado trinta, quarenta ou cinqüenta voltas. Eu pressentia o exato momento de ser erguido, como se faz com todas as crianças, e entregue ao vizinho. Eu me sentia um gato, uma galinha, um boneco, um objeto. Chegava a miar, cacarejar, fazer estranhos ruídos, como um brinquedo sofisticado. Eles permaneciam tão atentos à leitura que apenas se entreolhavam, sutilmente assustados, como se quisessem perguntar uns aos outros se tinham ouvido alguma voz não-humana. Nesses momentos me ocorriam vertigens, como se descesse ao fundo dos sons ou alcançasse o interior das palavras. Não sei como explicar. Eu me envolvia nas vozes, nos ecos, como se viessem de muito longe, de um espaço e um tempo absurdamente desconhecidos. Eu me sentia envolvido e sufocado por gases ou líquidos, voando ou boiando nos seus núcleos. E parecia ouvir e repetir ou apenas dizer: “um rio pode ensinar-nos muito coisa”. Não, não lembro nenhuma outra palavra. A não ser uma ou outra. Como “Tuam Asi”, ou pedaços de frases, como “teus olhos estão abertos para sempre”, “sei de que parte virá a aurora”.
Nunca perguntei nada daquilo a ninguém. Nem mesmo a minha mãe. Talvez hoje eu o fizesse. Tanto por curiosidade como para me livrar deste pesadelo. Não conheço mais nenhuma daquelas pessoas. Talvez tenham morrido. Ou estejam apenas desaparecidas, escondidas, foragidas. Estranho, porém, a atitude de minha mãe: por que não ficava comigo durante toda a leitura? Por que não se recusava a ler? Por que não insistia para ficar comigo? Chegada a sua vez de ler, passava-me adiante, ao seu vizinho, como passava o livro, naturalmente. Ocorria, às vezes, ser meu pai o seu vizinho. Então, eu me sentia menos tonto e chegava a rir de tanta felicidade.
Constantemente interrompiam a leitura. Não sei por quais motivos. Um deles mandava que fizessem silêncio. Mostravam-se assustados, nervosos, a olhar para os cantos das paredes, as portas, o teto, como se alguém ou alguma coisa muito terrível os ameaçasse. Por duas ou três vezes pularam todos para o porão. A tampa ficava no centro do salão, justamente onde amontoavam seus pertences. Era um buraco escuro, sufocante e estreito. Eu chorava, amedrontado. E dezenas de mãos me amordaçavam. Numa dessas confusões quase morri. Quando deram o alarme, todos pularam. A moça que me segurava perdeu o equilíbrio e fomos ao chão. Esbocei um grito. Mãos poderosas caíram sobre minha boca.
Também fui pivô de outros incidentes, embora de menor importância. Como quando urinava ou defecava. A vítima quase sempre era minha mãe. Eu tudo fazia para não sujar os outros. Apenas uma vez ocorreu ter urinado num deles. Ora, eu me achava distante dela cerca de meio círculo. Não podia esperar mais.
Uma só vez defequei. Ninguém viu, e minha mãe não anunciou a ocorrência. Correu ao banheiro e me lavou. De volta, devia ler. Passou-me ao vizinho, que fez cara de herege. Nervosa e encabulada, ela se pôs a ler o cantochão. Parecia o deslizar suave de água mansa.


O SUPLÍCIO DE GERUZA

Cautelosamente mostramos os dentes emprestados para os sorrisos programados, enquanto caminhávamos em perfeita ordem, sob o olhar do público. Cabeças erguidas e olhos enxutos, deveríamos guardar todas as emoções para o final.
Por um instante vi Emanuela nervosa e pálida na platéia. Talvez chorasse ou risse. Não sei se acenava ou dizia adeus. Nosso amor já fazia parte do passado, nossos dias, nossas noites. Desviei os olhos dela e olhei para a água. De que me servia sentir saudades, rememorar nossa vidinha cheia de mistérios e segredos, se com toda a certeza eu não voltaria vivo daquele salto? As águas seriam minhas novas companheiras dali até a morte. Eu terminaria inchado como uma fruta podre lançada ao poço, esquecido tão logo se consumasse meu fim e tão apavorada como nos meus mil sonhos intermináveis.
Nada eu conseguia entender. Por que teríamos de nadar? Que crime eu havia cometido? Por que aquele tipo de punição? Por que o público se deixava enganar, crente de estarmos competindo?
Do alto-falante uma voz não parava de gritar: esporte é cultura, natação é saúde. Os exercícios físicos desenvolvem os músculos, ajudam a circulação sangüínea, dão mais agilidade ao corpo.
A platéia olhava para nós, a mascar chicletes, fumar e beber cerveja em latinhas. Não tive mais ânimo de procurar o choro ou o riso de Emanuela e só ouvi o grito do locutor: atenção, atletas, muita atenção. Vai começar a contagem regressiva: dez, nove, oito...
Saltamos, e o gosto de sal me inundou a boca. Talvez o público batesse palmas, estivesse agitado, de pé nas arquibancadas. As águas frias, viscosas, abundantes pareciam me engolir. E eu me sentia peixe, lépido como serpente.
Pelo regulamento da competição, o último colocado não poderia sair mais da água. Não o deixariam alcançar as margens e, cansado, exausto, morreria afogado. Assim, só nos restava nadar, nadar, nadar.
À minha frente ia um rapaz; ao lado outro, homens e mulheres gementes a revolver as águas em desesperada correria. E não havia mais platéia, só as águas e os muros do canal, infindável, escuro, lodoso. No alto, os fiscais, armados, carrancudos, impassíveis, corriam de lanterna em punho. O primeiro a chegar sorria, o segundo, o terceiro. A uma braçada do ponto final olhei para trás e só avistei Geruza, minha velha amiga. Toquei o muro, e as mãos do fiscal se agarraram às minhas.
Não vi mais nada: o pavor me entregava à salvação.
E acordei sozinho nos braços de Emanuela, a perguntar por Geruza.
No outro dia brigamos sem razão: Geruza não existia. Assim mesmo teimamos.

(Continua)