BABEL (2)
(Continuação)
AS PONTAS DA ESTRELA
Os bêbados de Palma ainda diziam besteiras em torno do parto feliz e inesperado da Beata, quando no bar de Pedro Mateiro entrou, correndo, a figura agitada e esvoaçante de Bemtevi, suado e assustado.
– Que aconteceu, homem de Deus? Alguma desgraça?
– Diga logo: caiu alguma igreja?
O novidadeiro encostou-se na parede, acocorou-se e sentou-se no chão sujo de cusparadas e cinzas de cigarro. Deu três suspiros e se disse curado da carreira. Abriu a boca para contar as esperanças dos outros. Nenhuma palavra disse, como a deixar que as badaladas da meia-noite penetrassem no seu assombro. Os grandes relógios das igrejas e os cucos dos sobrados mais uma vez se confundiam na babel do tempo.
Nem bem o alto-falante irradiou o cântico da ave-maria, o sol aquela poça de sangue medonha em cima da serra, a notícia do parto da Beata encheu de luto as ladeiras de Palma. Depois, um ventinho frio inundou o ar de pedaços de bilhetes comprometedores, cartas amorosas e outras fúteis anotações, a anunciar a Pedro Mateiro mais uma rodada.
– O menino nasceu...
– De novo?
As garrafas gargalharam nas prateleiras e o polvo de Palma despertou, com seus mil braços a agitarem-se nas janelas.
– Nasceu com uma ...
– Cabeça?
– Não, uma estrela.
Pedro saltou o balcão e se uniu aos bêbados. E todos beberam e pediram cigarros a Pedro. Bem perto e bem longe do bar, janelas e portas se abriram, de repente. Alvoroçavam-se as ruelas de Palma, escura e misteriosa.
– Deixe de doidice, rapaz.
– É verdade, uma estrela bem na testa.
Nenhuma mentira durava mais de um dia na cidade e o padre toda madrugada gritava endemoninhado contra os luxuriosos e levantadores de falso. As velhinhas tremiam sobre os sofridos joelhos e desmaiavam.
Não podia ser. Explicasse a coisa direito. Quem já tinha visto nascer uma pessoa com uma estrela na testa?
– Dizem que é uma estrela de cinco pontas.
– E é ruim?
Como podia saber uma coisa daquelas? Por acaso se chamava Camões ou Cego Aderaldo? Além do mais, não tinha certeza do número exato de pontas. Uns falavam em cinco, outros em seis.
A cada palavra, mais se complicava o narrador. Quiseram saber então qual a pior das estrelas, se a de cinco ou a de seis pontas.
Também isso não sabia explicar Bemtevi. Além do mais, a cada hora nascia mais uma ponta. Sim, pela última informação, já eram dez.
– O que será isso, meu Deus?
– Não sei. Só sei que, quanto mais se contam as pontas, mais elas são.
Abandonaram os copos os bebedores, persignaram-se todos e, ajoelhados, rezaram aos pés do balcão.
– Maldição!
– Obra do Capiroto.
Na calçada, Bicudo dormia desde a boca da noite. A primeira notícia abateu-se sobre sua embriaguez como uma marretada: mais duas talagadas e a baba escorreu e os olhos se cerraram. De novo tombou sobre si mesmo, a maldizer-se. A meia-noite despertou-o do sonho de amor. E ouviu estrelas e retomou o fio perdido da meada.
– É o filho de Efigênia?
– E do gringo.
Podia ser do padre, do padre podia ser. Ou do sacristão, de algum cristão. Ou era filho do cão?
– Homem, não diga isso.
Lembraram-se do fenômeno da estrela na testa. Como podia ser essa tal estrela? Cheia de pontas, brilhante, rosário de contas, cintilante?
Um dedo apontou para o Cruzeiro do Sul e todos os olhos bêbados dançaram no céu estrelado.
– Amarela?
Não se sabia bem a cor. Falou-se primeiro na cor do ouro. Outras cores do arco-íris, porém, já andavam de boca em boca.
– Então não é uma estrela.
Quem ali sabia os mistérios do céu?
– É muito pequena?
– Do tamanho de uma testinha?
Se nada sabia Bemtevi, por que jurava ser uma estrela aquilo que podia ser uma lágrima, talvez um pingo d’água, insignificante grão de areia? Deixasse então de mistérios, ou não dissesse mais nada.
E Bicudo propôs fossem ver o menino.
Não podiam. A casa permanecia fechada a quatro chaves. Do lado de dentro, só a Beata e a parteira, e o menino com sua estrela.
Pedro coçou a cabeça, contou seus bêbados e olhou para a rua por cada uma das portas.
– Você viu o menino?
A PONTE SOBRE O RIO DOS AMANTES
Só podiam estar em lua-de-mel. Tantos beijos, afagos, enlevados um do outro. Ela, vista de onde eu me achava, parecia ter seus vinte anos e ser muito bonita. Ou talvez se tratasse de beleza artística, cosmética, aparente. Ele também se vestia da mais fina elegância e dava ares de galã de cinema.
Não, não devia ser verdade. Eu sonhava ou talvez filmavam por ali. De onde haviam surgido? Por que tão bem aparentados naquele ermo? Ora, só havia o rio, a ponte onde eles namoravam e a estrada de que a ponte fazia parte. E mais nada. Só eles e eu. Eles esquecidos do mundo, eu todo ouvidos e olhos. E, apesar disso, eles não notaram minha presença, enquanto eu não perdia um só gesto deles, um só movimento das mãos, dos olhos, dos lábios.
Nunca gostei desse tipo de indiscrição, nem mesmo quando fui criança. Se algum dia me pus a espiar casais, o fiz da maneira mais discreta possível. Aquele, porém, assim tão esquisito, ali naquela ponte, eu não podia deixar de ver, olhar, espreitar. Sobretudo quando se atracavam, se grudavam num interminável abraço/beijo. Nem pareciam dois, antes um só ser – figura arrancada às mitologias, novo hermafrodita.
Imaginei despregá-los. Talvez até me agradecessem o ato humanitário. Dei o primeiro passo e eles, como se percebessem meus movimentos e minhas intenções, se separaram tristemente, feito irmãos siameses contra cuja ligação a medicina se interpusesse. E se olharam com toda a profundeza que existe no olhar de quem se olha ao espelho. Em seguida, com a lentidão dos eternos, ele afagou o cabelo dela, e sorriram, como crianças. E balbuciou não sei que palavras mágicas, cabalísticas.
Eu só via seus lábios a se despregarem e a se juntarem. Ela apenas sorria, um ingênuo e magnífico sorriso.
Súbito ele enfiou as mãos nos bolsos, com sofreguidão, e deles retirou cigarros e fósforos. A luz se fez e a fumaça do fósforo e depois a do cigarro aceso fizeram com que ela levasse as mãos aos olhos e abaixasse a cabeça. Já não adiantava, porém, nenhum gesto, porque a primeira baforada inundava-lhe a cabeleira, provocando-lhe afobação. Inquieto e nervoso, ele abanou o ar com tamanha precipitação que conseguiu esbofeteá-la. Atingida pela pesada mão dele, sentiu-se tonta e cambaleou.
Mais nervoso, ele jogou ao rio o cigarro e amparou-a, enquanto parecia pedir perdões. Ela, no entanto, desprendeu-se dele e, chorando, correu ao longo da ponte, para encostar-se ao extremo da murada, os olhos mergulhados nas águas.
A princípio, ele se pôs a gesticular e falar, sem sair do lugar onde estava desde quando os avistei. A seguir, caminhou no rumo dela. Ao alcançá-la, agarrou-a pelos braços e virou-a para si. Ela ainda chorava e se puseram a falar com muitos gestos, como se se ofendessem. Ele apontava para o rio, e ela, cheia de pavor, arregalou os olhos para o precipício. E exaltou-se, a chorar, a bradar, enquanto ele se calava e debruçava sobre a murada. Depois ele retirou do bolso um lenço vermelho e o entregou a ela.
Nenhum de nós percebeu, por isso, a aproximação de um carro. Eu mesmo só alertei quando ouvi uma buzinada. Voltei-me para o intruso. Ao volante do automóvel uma mulher pedia desculpas (de se ter aproximado, de haver buzinado?) e dava marcha à ré.
Quando me virei de novo para o casal, isto é, para a ponte, já a mulher e o homem haviam desaparecido. Nem sobre a ponte nem ao longo da estrada havia nenhum sinal deles. Corri até a murada e ainda pude avistá-los a nadar contra a correnteza.
BABEL
ela estará sentindo as piores dores
era um peru de grandes cristas vermelhas que eu criava desde pequeno
fingirei estar por demais nervoso e preocupado e fumarei alguns cigarros
e eu gostava tanto dele que lhe dei o nome de minha mãe
ela dirá que não agüenta mais, que é preciso ir
eu já vivia só
tomarei então as providências necessárias
dava-lhe alimentos, quando o sol despontava
e leva-la-ei à maternidade
e ele comia sempre tudo
no percurso, ela deixará escapar gemidos
tomate, milho, feijão cozido, carne picada
dirá que está sofrendo muito
mas acordava satisfeito
e tomara que chegue logo
até ver suas sombras no chão verde
chegaremos logo a seguir
ele olhava para mim, com seu pescoço cheio de penas
as enfermeiras conduzi-la-ão à sala de partos
como corda de borracha
e voltarei para casa, agora deveras preocupado
e pulava de contente
antes passarei num bar
Babel também mostrava-se faminto
e beberei duas cervejas
ele com o bico, eu com as mãos
enquanto isso, ela estará sofrendo mais ainda
festa que horrorizava os outros
as contrações se intensificarão
durante quantos anos?
isso durou uns três
e as enfermeiras e o médico se apressarão
meus pais iam festejar sua bodas
e correrão como baratas doidas
quem me lembrou foi um amigo
logo mais a criança nascerá, para alívio dela
me dá uma esmola pelo amor de deus
há tempos que não nos víamos
mais tarde telefonarei para a maternidade
eu poderia fazer para ajudá-los
e pedirei informações a respeito da parturiente
e descontentes com meu modo de viver
Maria das Dores Penedo
decidi que o melhor que eu poderia fazer
a informante não será clara
uma espécie de rendição
fosse para transformá-lo num banquete
e dirá entredentes que ainda não pode dar detalhes
criá-lo apenas
se foi normal ou cesariana
no outro dia acordei cedinho
zuuuuuuummmmmmmm
se nasceu menino ou menina
conversei longamente com Babel
mas que não me preocupe
grãos de milho, totalmente triste
começarei a me preocupar realmente
e coloquei-o dentro de um caixote
ela terá morrido?
mas terminou se calando. Tomei o trem
e a criança também?
horas de viagem
serei viúvo tão cedo?
coloquei o caixote no ombro
que farei?
os velhos estavam quase abraçados na sala, mudos
zuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu
chorarei ou direi insultos ao médico?
acordei-os com um alô
e às enfermeiras?
e abracei-os ternamente
ou beberei e chorarei e direi tolices?
trouxe-lhes meu peru
onde fica a Rua Marechal Dutra?
é a próxima
não
ou fazemos dele o almoço
eu irei saber da verdade
a negra velha que com eles vivia
entrarei abruptamente na maternidade silenciosa
desencaixotasse o peru
e ouvirei uma jovem enfermeira dizer:
e beijou-me. Depois retirou as primeiras tábuas do caixote e em seguida Babel morto
a criança nasceu morta.
UNS SEIOS
“E através dos anos, por meio de outros amores, mais efetivos e longos, nenhuma sensação achou nunca igual à daquele domingo, na rua da Lapa, quando ele tinha quinze anos.”
Machado de Assis
Pedrinho olhava distraído para os seios de Izaura, que se debruçara sobre a mesa para melhor distribuir o almoço.
– Provou do cozido, Severino?
Em vez de responder à mulher, o advogado deu um berro e pôs-se a descompor o hóspede.
– Esse menino não tem jeito. Vive dormindo em pé. Acorda, palerma, presta atenção às coisas!
Filho mais velho de um irmão de Severino, andava Pedrinho por volta dos quinze anos e só há um mês chegara de Baturité.
Severino combinara, com o irmão do interior, dar comida e dormida ao sobrinho, além de providenciar-lhe estudos regulares, desde que o garoto o ajudasse no escritório.
Casara-se com Izaura, moça bonita, de vinte e cinco anos, toda dedicada ao lar. Mas, apesar de conviverem há três anos, não tinham filho.
Terminada a refeição, serviram-se de café. Ela quis saber das novidades da cidade e o marido falou de loteamentos, carros, juros.
Alheio às preocupações do patrão, o garoto olhava de soslaio para os seios da senhora, enquanto levava à boca a xícara.
Seu trabalho, se não era penoso, chegava a ser cansativo. Levava correspondências, depositava cheques, limpava o escritório, ia ao Foro, comprava cigarros, jornais, café, servia aos clientes do tio. Não descansava um minuto sequer. E, à noite, corria à escola, para voltar, cansado e sonolento, em ônibus superlotados, para um sono de poucas horas.
– Não vai beber esse café hoje, não?
Era Severino de volta às repreensões, aos abusos, esgotado o assunto das novidades solicitado pela esposa.
Logo na primeira semana de nova vida, Pedrinho percebeu o jeitão esquisito do tio-patrão e pensou em voltar para sua cidadezinha. Mas aqueles seios durinhos, sempre meio escondidos, meio à vista, o fizeram desistir da apressada decisão. O lado bom da vida.
Após o jantar, sentaram-se à sala marido e mulher. Ela pensativa, a recapitular o incidente do almoço. Sim, o rapazinho não perdia oportunidade de meter os olhos por entre seus seios.
Curioso, o safado.
– Deu para andar cochilando também?
E Severino voltou a falar mal do sobrinho. Chamou-o de preguiçoso, moleirão, dorminhoco.
Viram novelas por umas boas horas, até que ele se pôs a cabecear no sofá. Ela não, apenas lutava com os pensamentos. Devia dizer tudo ao marido, falar da malícia de Pedrinho, de seus olhares lascivos? Mas tudo o quê? Ora, o pobre garoto não cometera nenhum ato de desrespeito. Que mal podia haver num olhar?
Além do mais, não tinha culpa de se ver tentado. Se culpa havia, essa começava e terminava nela. Culpa não, que nenhuma mulher é culpada de ser bonita. Ora, culpa! Pois sentir-se admirada, galanteada, desejada é um atributo feminino.
E se debatia num mar de idéias, conjecturas, dúvidas.
Nos dias que se seguiram, Izaura passou a observar mais o adolescente. E percebeu estar ele apaixonado dela. Claro, aqueles olhos de fogo, aquele nervosismo diante dela, aqueles suspiros só podiam significar muita paixão. Mas pura paixão adolescente, coisa passageira. Bastava combatê-la, sufocá-la, matá-la no seu nascedouro.
Percebeu Pedrinho a repentina mudança nas atitudes de Izaura. Já nem sequer lhe dirigia a palavra e, quando o fazia, era com aspereza, tal qual o marido.
Se antes havia motivo para despedir-se daquela casa, então sobravam razões para uma fuga. Sim, precisava ir embora, nunca mais ver aquela mulher, aqueles seios.
Durante dias esteve o garoto às voltas com a dor de, para sempre, deixar de ter pertinho de si Izaura. Longe dela, no entanto, ardia de desejo de vê-la. Perto, esquecia a só lembrança da idéia estúpida de voltar a Baturité.
Cuidou, não só ela se mostrava a mesma criatura afável de antes, como até o tratava com carinho.
– Você está bem, tem se alimentado durante o trabalho?
Dava-lhe conselhos, como andar pelas ruas, escolher companheiros, conversar, queria saber de suas necessidades de vestuário, calçados, higiene, diversões.
No decorrer de certo almoço, Severino contou uma piada e andava Pedrinho tão à vontade na casa que riu pela primeira vez diante do patrão. Izaura não notou a mudança no hóspede, mas antes beleza no seu sorriso.
Apesar de tudo, o garoto não ia bem. Atrapalhava-se no serviço, trocava o correio pelo Foro, os bancos pelas bancas de jornais, não dormia direito, perdia o apetite, definhava.
Numa tarde de domingo, viu-se obrigado a desviar os olhos da televisão que tinha diante de si para acompanhar a imagem maravilhosa de Izaura, saída de não sabia onde. Não podia ser verdade, no entanto, a repentina aparição dela, se se enclausurara no quarto do casal desde a partida de Severino. Após o almoço, fora ele em visita a um amigo.
– Vamos, minha filha.
– Não, pode ir só. Estou indisposta, cansada, com sono. Vou dormir.
Realmente, no momento em que Pedrinho a viu, Izaura remexia-se na cama. A seguir, levantou-se, andou pelo quarto, arrumou o leito, mexeu nas gavetas da penteadeira, olhou-se, penteou os cabelos, perfumou-se. Pervagou ainda o quarto antes de abrir a porta e dirigir-se à sala.
Deitado no sofá, Pedrinho já dormia. Parecia um anjo. Izaura amiudou os passos, pisou de leve no chão, para não acordá-lo.
– Como é lindo!
Diante dele, vieram-lhe à tona pedaços do sonho da noite passada.
O garoto dormia e ela, como se atraída por ele, aproximava-se da cama.
Não conseguia reunir os vários quadros da cena. De onde viera? Do quarto do casal, do banheiro, da rua? Inclinava-se sobre o hóspede, medrosa, coração aos pulos, olhos faiscantes. E daí?
Sim, apalpava-o. A que altura do corpo?
Ouvia a respiração dele, achegou-se mais de seu corpo moreno, ajoelhou-se, como se aos pés de um Cristo.
Um ruído fê-la estremecer e recuar. Quem será? Era o gato, à cata de sobras de comida, na cozinha.
Sonhava também Pedrinho. Assistia à televisão, numa tarde morna, enquanto Izaura dormia no quarto ao lado. Não o prendia o que via. Enfastiava-o. E cochilou. E teve um sonho passageiro, mas delirante. Pois lhe aparecia ela, tão bela como na realidade, os seios quase à mostra, balouçantes, livres dentro do vestido, e, como acreditou pudesse ser verdade, caminhava em sua direção.
Recomposta do susto, reaproximou-se do sofá, tateou o corpo dormido do garoto.
Severino não voltaria tão cedo, o gato não teria olhos para o amor, os homens e as mulheres da televisão falavam, riam, choravam, mas nada viam nem ouviam. Podia sossegar, passar horas seguidas junto de Pedrinho, os lábios a um beijo dos lábios dele.
– Está dormindo.
Antes do anoitecer, ele despertou, feliz, pronto para retomar o fio esquecido de sua rotina, trabalhar feito burro de carga, agüentar a cara feia do tio, dormir pouco e sonhar muito. E ver, duas ou três vezes por dia, Izaura, seus seios cor de rosa, admirá-la, amá-la.
Nos dias que se seguiram, não notou nenhuma atitude dela e de Severino que pudesse significar ressentimento ou coisa parecida. Antes, via menos ríspido o tio, mais amorável Izaura. Podia então continuar a relembrar aquele sonho maravilhoso, recapitular as cenas daquela tarde de domingo.
Porém só durou uma semana sua ilusão. No outro domingo, Severino o chamou:
– Você não está se dando bem aqui, é melhor voltar para casa.
Não deu maiores explicações e nem falou com rispidez. Izaura também não parecia zangada.
– Vá com Deus.
O PRIMEIRO HOMEM
Quando Leão morreu, até papai, que tinha um coração de pedra, chorou. Inconformada, amaldiçoei todos os carros do mundo. Logo, porém, me conformei, porque a morte do bichinho me foi favorável: voltei a ser a menininha da casa. Todo o recente passado ressurgiu mais caloroso ainda, na forma de mimos, chocolates, passeios ao zoológico.
Apesar disso, eu vivia suplicando a papai que arranjasse outro cãozinho. Ele se afobava, dizia um não áspero, dava desgosto ver um animal de estimação, criado quase como filho, ser atropelado por esses malucos. Eu cuido bem dele, tranco o portão, não o deixo sair para o meio da rua, eu insistia.
No meu aniversário seguinte, minha grande alegria: um cachorrinho de presente, com fitinha e tudo, comprado por não sei quanto. Taí o moleque, disse papai, cheio de sorrisos e abraços. Vinha com bafo de bebida, olhos brilhantes, mãos pesadas, outro, a boca entupida de sins.
Em verdade, o velho era louco por cães e já não resistia ver a casa vazia, sem um latido. Durante toda a festa me abraçou e beijou mais duas ou três vezes e o novo hóspede só faltou não largar mais. Como se fosse pai pela primeira vez.
É esse o nome dele? perguntei, irritada, a certa altura dos carinhos. Moloque é mais bonito, apressou-se mamãe a propor, ignorante do que dizia, eu soube depois. Batizei-o ali mesmo, com guaraná. E não o larguei mais, toda dedicada a banhá-lo, mimá-lo, beijá-lo, como o fazia com as bonecas já esquecidas a um canto. Ele me olhava bem no fundo dos olhos e parecia querer dizer alguma carícia, botava a linguazinha para fora, cheirava-me toda, mordia-me, carinhoso.
Passava da hora habitual de dormir, quando fui para meu quarto, sonolenta e cansada, e lá foi ele a me seguir. Mamãe, porém, não permitiu que dormisse sequer ao lado da cama, quanto mais junto a mim. Onde já se viu isso, menina? Ou você não estudou higiene? E fez um sermão daqueles, como se não estivesse sido dele a iniciativa.
Perdi o sono por instantes, zangada com a injustiça de mamãe, e fiquei a ouvir o coitadinho ganir. Parecia um choro de dor. Penalizada, imaginei que o deixariam dormir no sofá da sala, pelo menos. Papai não iria obrigá-lo a passar a noite ao relento. E quando todos estivessem sonhando, ele voltaria para junto de mim e teria minha cama onde pudesse repousar da viagem, do batismo e da festa. Para tanto, deixei a porta do quarto entreaberta.
Ainda não dormia, as imagens conscientes misturando-se às do sonho em formação, quando ouvi uma leve pancada na porta. Não me mexi nem abri os olhos. Preferi acreditar que aquilo fizesse parte do que eu engendrava no cérebro: Moleque saltava para a cama, cheirava-me o rosto, puxava os lençóis, metia-se entre meus braços, à cata de calor...
Com pouco, senti um corpinho macio roçar-me os pés, cheirá-los, lambê-los. Arrepiei-me toda, sensível com sou ao mais delicado toque. Tentava abrir os olhos, mover-me, mas não conseguia, entorpecida. Não que passasse por minha cabeça tratar-se de uma pessoa humana. Não, eu tinha certeza de que ali estava o Moleque. Sobretudo porque entre eu e ele não havia nada. O danado conseguira meter-se não só debaixo do lençol, mas ia varando, pouco a pouco, a roupinha frouxa que eu vestia. Alcançou-me as pernas, a seguir, e eu mais me arrepiei. E foi escalando meu corpo, à procura de carnes mais macias, de um travesseiro onde pudesse dormir sem se torturar. E chegou às coxas e lá se concentrou por não sei quanto tempo.
Garanto que ainda não dormia, mas forças não tinha para reagir, retirá-lo dali, colocá-lo ao meu lado ou até deitá-lo fora da cama. Mesmo quando seus dentinhos me desceram as calcinhas.
Foi uma operação tão perfeita, carinhosa, doce que não pensei em outra coisa senão em sua inocência. Ora, ele, de certo, achava que eu me sentiria melhor nua. Ou o tecido lhe era áspero, desagradável, quem sabe?
Eu ainda não tinha pêlos na vulva e aquela língua morna lambendo-me a pele fez-me estremecer.
Em verdade, eu gostava de passar a mão sobre essa parte do corpo quando me deitava para dormir. Uma sensação tão boa que eu logo pegava no sono. Também durante o asseio eu costumava fazer isso, mas pensava em pecado, ficava triste e terminava arrependida.
Mas o pior aconteceu na casa do vizinho. Eu ia sempre lá brincar com uma coleguinha que tinha um irmão. Brincávamos os três, de tudo, boneca, esconde-esconde, manja, carrinho. E ele andava sempre me chamando para os quartos escuros, tirava minha calcinha, alisava minha pequena boceta, encostava a piroca e dizia que era meu marido. Mas nunca enfiou nada, só fazia pegar, cheirar, coisa sem importância.
Voltando àquela noite, depois das primeiras lambidas, abri, instintivamente, as pernas, doida para que aquela língua penetrasse em mim. Digo doida, mas não agia conscientemente. Para mim estava sonhando. Seria uma espécie de limpeza, já que durante toda a festa eu havia bebido muito guaraná, urinado várias vezes e não me lavara, apesar das constantes advertências de mamãe.
Mas, estranhamente, ele parou de me lamber e deitou-se sobre minha barriga. Encostou a cabecinha perto de meus peitos, estirou as mãos, como se me abraçasse, e a piroca, dura, forçava a entrada de minha já inflamada bocetinha. Vai e vem, senti dor e prazer misturados, não sei se gritei, se gemi, se chorei. A coisa entrava com força, dilacerando, rasgando, queimando minhas entranhas. E eu morria de gozo, de um prazer nunca sentido.
De manhã, sangue nas pernas, na cama, nos lençóis, uma dor enorme no pé da barriga e nada de Moleque.
Se você não quiser acreditar em minha história, pior para mim, mas juro que você é o primeiro homem.
PRELÚDIO PARA A MORTE DE CÉSAR
Fazia muito calor, as muriçocas cantavam ao pé do meu ouvido, os cachorros latiam longe, em cadeia, insones e monótonos, e eu não conseguia dormir, por mais que remexesse os baús da infância. Banhos de rio, o tempo das chuvas, cantigas de roda. Onde está a Margarida, ô lê, ô lê, ô lá; onde está a Margarida, ô lê, seus cavaleiros.
Em dada hora, ouvi a voz de César. Falava com a mãe e perguntava pelas irmãs. Depois tudo se calou e só eu falava comigo mesma e cantava para me ninar.
Talvez o banho frio tenha me tirado o sono. Talvez. Por muito tempo fiquei a olhar para as telhas, sem vê-las. Em lugar delas eu via vultos obscurecidos, a vagarem de um lado para outro. Senti medo, fechei os olhos e outras criaturas me apareceram, ora em figura de gente, ora em forma de bichos. Tudo ilusão, eu sabia.
Quando os primeiros galos já cantavam, senti na pele o deslizar de um corpo pequeno, feito um rato liso, um sapo frio. Passeava nervoso pelas minhas pernas, subia até as coxas, parava aqui, bem em cima das partes, assustava-se, sumia, para reaparecer mais adiante, nos seios, e beliscá-los levemente. Para mim aquilo era minha própria mão a correr sobre meu corpo. Eu queria acordar, fazer sossegar a mão, para dormir de vez. Remexi-me na cama e nada mais me transtornou. Dormi, com certeza.
Aquele afago, porém, não demorou a inquietar-me de novo. O mesmo carinho sôfrego, toques leves, sorrateiros, de silfos. Um corpinho frio, que parecia saltitar, ora indo, ora vindo, num passeio trêmulo, às vezes voluptuoso.
Não sei explicar: para mim aquilo era mão humana e, ao mesmo tempo, um gatinho safado, um bichinho qualquer que quisesse se aninhar em meu colo. Retirou minha calcinha, devagar, suspendeu minha camisola, também sem malícia, e me fez abrir as pernas, vagarosamente. Também não sei como, e eu sonhava, alguém metia os dedos aqui, entre minhas coxas, e depois, quando me penetrou, eu acordei, a gritar, mas a gritar de prazer, a abraçá-lo, beijá-lo. E quando tudo passou, já na meia claridade da manhã nascente, aquele homem horrível, nu diante de mim, eu chorei, enchi-me de ódio, como se tivesse sido enganada. Ele, César, me olhava, satisfeito e atormentado. Chamei-o de bruto. Ele me chamou de puta.
OS TRÊS BOTÕES
Questão de coragem, participar da brincadeira, porque tanto vocês poderão encontrar o jardim dos prazeres como a cela das dores. Ou ambos, na mesma jornada. E não há como prever nada. O resultado não depende apenas das três teclas.
Ainda ontem uma senhora saiu daí contentíssima, como se tivesse conhecido o prazer pela primeira vez. E sabem quais os botões que ela acionou? Struthio camelus, I Ching e Lesbos. Tudo por acaso, porque mal sabia ler. Viu-se acariciada das mais variadas maneiras por encantadora criatura. Não sei se jovem ou idosa, se macho ou fêmea. Falou-me da maciez do corpo do desconhecido. Tudo fica registrado aqui em videocassete. O resto o cliente me conta, se quiser. Depois reduzo a experiência a escrito nessas fichas: nome, idade, naturalidade, dia e hora da experiência, teclas acionadas, perguntas e respostas da entrevista com o recepcionista, etc.
Assim, uma amiga desta senhora comprimiu as mesmas teclas e saiu chorando, toda ensangüentada. Durante quase meia hora uma grande ave fêmea, semelhante a uma avestruz, lhe bicou os seios, o ventre, as nádegas. Para mim a causa dessa reação se deveu ao fato de a segunda madame não ter sabido responder à pergunta sobre a nacionalidade de I Ching, pergunta essa erigida à categoria de condição essencial ao comportamento da criatura invocada.
Ao pressionar as teclas, a porta se abre e a pessoa passa à Sala das Mágicas. Até então não está decido quem a recepcionará. Um olho examina as características do visitante e pode logo escolher o seu anfitrião. Às vezes o recepcionista-inquisidor lhe faz perguntas e, dependendo das respostas, lhe elege a companhia.
Uma historiadora muito conhecida acionou o botão Salamina e mais outros dois. Não deu outra – o recepcionista leu-lhe um texto, um diálogo, e solicitou-lhe que reconhecesse a personagem não nominada no colóquio. Escutem o texto:
“Temístocles – Tu eras amante de Aristides?
– Não o nego. Isso não impediu, porém, que eu o repudiasse quando percebi a sua omissão quanto ao destino de Atenas. Ele simplesmente fazia oposição a ti.
Temístocles – E que achas do ostracismo a que o submeti?
– Concordo com a punição. Ele não evitaria a batalha de Salamina.
Temístocles – Então queres evitar a batalha de Salamina?
– Quero, daí não concordar também com tua muralha de madeira.
Temístocles – Desejas a derrota de Atenas?
– Nem a derrota nem a vitória. Desejo a paz.
Temístocles – Mas a paz é impossível. Xerxes conta com uma poderosíssima frota. Não devemos nos defender?
És por acaso espiã persa?
– Tu não me entendes. Não quero nada disso. Quero o fim da guerra. Quero evitar a batalha de Salamina. Não vês que essas guerras estão destruindo a Grécia e a Pérsia? Que ganhamos com a primeira guerra médica? Mileto e Erétria foram arrasadas. Que ganhamos com essa segunda?
O Helesponto foi atravessado, a Grécia invadida e o Templo de Minerva incendiado. De que adiantou o heroísmo de Leônidas e seus trezentos espartanos nas Termópilas?
Temístocles – Mas aquilo foi traição. Ou não sabes disso?
– Como não vou saber? De qualquer forma, fomos massacrados como ovelhas.
Temístocles – O que queres que eu faça? Diga, pois serei capaz de todos os sacrifícios para te atender.
– Conheço todos os segredos e mistérios...
Temístocles – Disseste-me que nossa salvação está no mar. A muralha de madeira são os trezentos navios. Com eles vamos derrotar Xerxes, assim como derrotamos Dario.
– Não estou diminuindo teu valor. Poderás fazer tanto ou mais que Milcíades. Mas não nos interessa a vitória. Não nos interessa a guerra. Devemos e podemos evitar mais uma batalha.
Temístocles – Como, louca?
– Vou dizer. Mande Xerxes de volta a sua Pérsia. Com sua esquadra e seus soldados, logicamente. Em seguida, transforme a muralha de madeira em peças de museu. Chama-se a isso desarmamento.
Temístocles – E que seria de nós, soldados, guerreiros? Estás louca de verdade?
– Nesse caso, destrua Salamina.
Temístocles – Não entendo. Salamina é nossa. Como vamos destruir o que é nosso?
– Estou falando de escoamento das águas da baía. Drenagem. Conheces o termo e o processo? Como poderão navios navegar e batalhar no seco?
Temístocles – E essas águas vão para onde?
– Pode-se fazer coisa melhor. Fechar as entradas e transformar Salamina num imenso lago azul.
Temístocles – Maravilhosa idéia!
– Ou então mandar terraplená-la com terras do Peloponeso. Não, o Peloponeso é muito distante. Pode-se utilizar os montes Olimpo e Parnaso. Ou não são suficientes para terraplenar Salamina?
Temístocles – Estás dizendo asneirices. Primeiro as águas do mar invadiriam nossas terras. Depois, seria cometer a mais criminosa das ofensas aos deuses.
– Podemos então transportar uma ilhota qualquer dessas e despejá-la em Salamina. Nesse caso não haveria perigo de as águas invadirem nossas terras.
Temístocles – São absurdas as tuas propostas. Estás louca.
– Pois se insistires nessa batalha suicida, eu te deixarei com tua glória feita de sangue e dormirei mil noites com o poderoso Xerxes."
Quem souber a resposta poderá viver longas horas de delícias, tal como sucedeu à nossa historiadora. Tem algum historiador aí? Esperem, deixem eu explicar mais. Muitas vezes não basta dar resposta acertada.
Temos o exemplo de um jovem leitor de boa literatura que, mesmo respondendo, com acerto e desembaraço, a um verdadeiro questionário sobre os livros e autores mais importantes, teve de se submeter às mais aberrantes práticas sexuais, por desconhecer o romance A Guerra da Donzela.
Notem, no entanto, que havia escolhido as mesmas teclas de seu antecessor (Renoir, Sapho e Teodora), e este viveu mais de uma hora de intensos prazeres com três banhistas.
Tenho uma explicação para as duas experiências. O sadismo vivido pelo rapaz está em “Sapho”. Alphonse Daudet se transmudou em Alphonse-François, o Marquês de Sade, como pena pelo erro de conhecimento do arrogante leitor de clássicos.
A razão de o segundo não ter encontrado Daudet? Escutem: pesou mais o quadro “A banhista”, de Renoir.
Outra explicação para os curiosos: por associação de idéias, o inquisidor quis saber sobre A guerra da donzela porque Teodora lembra a novela popular História da Donzela Teodora.
Outra hipótese: os nomes dos dois aventurosos jovens podem ter influenciado o rumo dos acontecimentos. Às vezes os nomes das pessoas nada significam. Assim, eu tinha aqui o registro de três moças de nome Rosana. A quarta a fazer a experiência me pediu para ver as fichas de suas homônimas. Ao verificar os belos resultados obtidos por todas as outras, sorriu. Os três se igualavam. Na dúvida, repetiu os botões da segunda, como poderia ter optado pelos da primeira ou da terceira. Acionou, pois, Chimpanzé, Molosso e Cruviana. Nem sequer perguntou pelo significado destas palavras. Mal entrou, ouvi-lhe os gritos. Três sátiros a seviciaram por longos minutos, deixando-a estragada para o resto da vida.
Não adianta, pois, guiar-se pelos outros: o destino da gente não depende de sabedoria nem de palavras bonitas. Ele está na gente e fora da gente. Também as coisas não acontecem por acaso. Pelo contrário, dependem de condições. Aliás, vários estudiosos têm vindo aqui na tentativa de descobrir as fórmulas mágicas do prazer total. É o caso de Scherbatov e Sobakewich, os quais têm desenvolvido algumas teorias.
Segundo esses cientistas do prazer, as teclas Aminoácido, KM e Sexu são as mais propícias a um bom resultado, dependendo do acionador. Assim, as pessoas mais idosas dificilmente encontrarão prazer ideal, dado estarem corrompidas.
Um dos casos relatados pelos dois especialistas é o da moça que bebia muito coca-cola e encontrou pela frente um velho barbado e fedorento. Não aconteceu nada de excepcional. Apenas se viu obrigada a ouvir durante horas as aventuras sexuais vividas pelo ancião.
Tenho a ficha de caso semelhante: neste, porém, a pessoa, embora bebesse coca-cola, não chegava ao vício e acabara de freqüentar uma igreja. Tocou as teclas dos cientistas e se viu possuir por um ente (o diabo, segundo ela), sob a ameaça de introdução em sua vagina de um garfo em brasa. E, apesar de ter cedido às chantagens, no fim do ato teve as nádegas ferradas com as iniciais INRI.
Clientes mal avisados decoram os nomes ou símbolos gravados nos botões e cometem pequenos erros fatais. Primeiro exemplo: um senhor comprimiu a tecla Sexo em vez de Sexu e durante alguns minutos enfrentou o furioso Dom Sebastião. Outro trocou KM por Kilômetro e apenas correu atrás de uma louríssima alemã, até quase morrer de cansado, sem conseguir sequer tocar-lhe os cabelos.
Morro de rir quando me lembro daquele homem que não soube contar a História de João de Calais e terminou nos braços da insaciável velha Constança, tão repugnante que sinto um cheiro de carniça só em pensar nela.
Nossa brincadeira é muito cheia de esfinges. Até hoje ninguém conseguiu decifrar o enigma proposto no texto que vou ler. O inquisidor quer saber apenas o título do livro mencionado. Pergunta também o nome do autor. Escutem:
“A primeira carta elogiosa por ele recebida trazia a assinatura de Vladimir Illich Ulianov, ainda em 1905. Para Lenin, tratava-se de obra tão importante quanto O Capital, de leitura indispensável a todo comunista. Uma longa carta, cheia de ensinamentos.
No mesmo ano chegou-lhe uma carta de Albert Einstein. Nela o gênio alemão expunha toda a teoria da relatividade e, ao mesmo tempo, pregava a necessidade da destruição do inimigo número um da humanidade – o leviatan de que ele próprio fazia parte. Afora isso, a carta vinha prenhe de elogios ao livro.
Só alguns anos mais tarde, por volta de 1930, chegou-lhe a terceira carta elogiosa – verdadeiro panegírico, com frases retumbantes, como: “Seu livro é a Bíblia do século XX”. Escreveu-a Getúlio Vargas.
A quarta carta elogiosa é de Irwin Shaw. O famoso cenarista e romancista se propunha transformar o livro num longa-metragem.
A seguir, outro brasileiro voltou a fazer elogios ao livro. Dizia Santos Dumont: “Você revelou até que ponto uma arma pode ser tão mortífera. Isso é um vôo de gênio". Thomas Mann o honraria com a sexta carta elogiosa. Trata-se do primeiro texto do romancista após o último retoque ao Sofrimento e grandeza de Richard Wagner. Considerava o livro como a síntese da decadência da humanidade. Superior a Os Buddenbrook.
A penúltima carta elogiosa viria também de um alemão – Adolf Hitler. Data de 1934 e, entre outras, trazia esta frase terrível: “Quando li seu livro, tive a maravilhosa idéia de incendiar o Reichstag”.
Finalmente, uma carta de Noel Rosa, escrita em versos, fechava o ciclo dos elogios.
Afora essas oito cartas, recebeu ele milhares de outras. Nestas, no entanto, qualificavam-no de escritor mesquinho, panfletário nojento, língua de fogo, bandido da literatura e outros apelidos menos brandos.
Quando sentiu a morte se aproximar, não por muita velhice, que talvez não existisse nem pouca, releu as oito cartas famosas. Idealizou publicá-las. Necessitava reacender a chama da glória em declínio depois da morte de seus oito amigos. Onde encontrá-las, porém? Misturara-as às milhares de cartas impiedosas. Carecia de forças para mergulhar naquele mar de cartas, penetrar naquela montanha de papéis e, assim, encontrar os oito atestados de sua genialidade.
Sentou-se para pensar e rememorar. Lembrou-se do Brasil. Que país! Lá morou durante o Estado Novo. País de gênios: Getúlio Vargas, o estadista; Santos Dumont, o inventor; Noel Rosa, o artista. Jamais esquecera esse gigante. Para lá voltaria um dia. Sua última morada. Depois da publicação das cartas. O povo iria chorar ao reler Vargas. Faria samba da carta de Noel. E Santos Dumont teria uma biografia esmerada.
Recordou Thomas Mann e passou à Alemanha, onde também vivera uns anos. Hitler, o César do século XX. Einstein, o maior gênio da física. Voltou a Thomas Mann, esse alemão-brasileiro, o maior escritor dos últimos tempos. E dela fugira, no entanto. Goebbels conseguiu ver em seu livro idéias anti-nazistas.
Relembrou os outros dois amigos. Lenin, que pena ter morrido tão cedo! O primeiro a elogiar sua obra. Um gênio político! Irwin Shaw, que grande romancista!
Satisfeito com sua memória, mergulhou na papelada, com um único pensamento: achar, a todo custo, a própria vida, a própria vida da humanidade – as oito cartas”.
Alguns de vocês faz idéia do título do livro? E do nome do autor?
Não imaginem, porém, casos muito graves. No máximo, ocorrem práticas homossexuais, coito com animais e monstros e sevícias inenarráveis, como o da jovem abandonada pelo amante. Escolheu os botões Fernando, o nome dele, Falo e Baturité, a cidade para onde fora o namorado. Mal entrou na sala, se viu cercada de incontáveis índios e serviu a todos das mais esquisitas maneiras.
Às vezes o cliente sai feliz e quer repetir a façanha. Preme as mesmas teclas e se mete em apuros. Não por acaso. Ora, o tempo é outro, o mundo não é mais o mesmo. Vejam o caso da folclorista que apertou Japu, Acutipuru e Priprioca. Da primeira vez saiu sorrindo e até me convidou a ter com ela estranhas relações sexuais. Da segunda vez, no entanto, se viu acossada por amazonas, que a forçaram a lamber-lhes as vaginas.
Ninguém pode prever nada, embora os fatos não ocorram por acaso, eu já disse. Assim, nas mesmas condições, duas pessoas podem encontrar os mesmos personagens. É o caso de Osvaldo e Januário. Os nomes são diferentes, mas ambos contavam à época das experiências 31 anos de idade, ambos já haviam lido o conto de Trancoso “As irmãs invejosas” e pressionaram os botões Poditã, Fubá e Marduk. Ambos gozaram por longas horas as delícias de uma formosa cabocla. A partir desse dia muita gente procurou ler os contos de Trancoso e os dois rapazes se associaram para a criação de uma editora para publicação de literatura popular. Mas ninguém mais conseguiu repetir o feito deles. Uns tinham realmente 31 anos, haviam lido o conto e apertaram as famosas teclas. Porém não se chamavam Osvaldo nem Januário, não conheciam Brasília, nem se preocuparam com vir aqui no dia 30 de janeiro. Quem sabe, os dados necessários a um bom resultado eram esses.
No último 30 de janeiro esteve aqui um rapaz de 31 anos, vinha de Brasília, carregava debaixo do braço uma cópia de “As irmãs invejosas” e se chamava Osvaldo. Tocou aquelas teclas e meia hora depois, furioso e abatido, contava: fui atacado por um lobisomem.
E ninguém pode negar nada, porque estão aqui as fitas.
Agora, o primeiro da fila queira fazer funcionar seus botões. E boa sorte.
TONY RIVER
Mocinho ainda, rósea tez de espinhos, frouxas calças e olhar enigmático, Antonio Siqueira partiu para a capital, não por querer ou tal fazer, porém pela simples necessidade do pai de pôr nos eixos as finanças arruinadas nos secos e molhados. Debalde o sonho, debalde o esforço. Não tanto por ser chegada a hora extrema do velho, dez anos depois, mas por aquilo que só os gênios tentam explicar semanalmente nos tablóides da oposição.
Único varão de uma prole molenga e branca, apesar das barbas crescidas e da voz de locutor da mãe, Toninho se fez senhor herdeiro de uma bodega, que aos poucos transformou em bar. Freqüentador de praias e boates, aprendeu noções elementares do viver moderno, em meio às jovens putas da classe-média e aos pueris mocinhos de cabelos compridos e justas calças. Mudou de esquina e aproximou-se da orla marítima, onde pesadas máquinas enegreciam a areia. E, em mudando de esquina, fez do bar uma lanchonete-bar. Um mês depois, “Ocean Boîte”. Oceano que espumou em noite de frio e tenebrosa onda avassalou o red-dancing-saloon de Tony.
Que, em noite de fumaças e vapores, à sua bela amante prometeu fazer renascer das águas, não do mar, mas de um rio, por isso “River Boîte”, I am Tony, girl, sua casa de pastos bastos, gastos castos. Um rio de Palma, que, por certo, existiria ainda, e nele edificaria sua vitória sobre a moral dos ancestrais. Numa folha de papel de carteira de cigarro rabiscou o croquis de uma cidade-mito, tal qual imaginada na infância. Dentro, a arquitetura moderna de uma superboate. Ruas tantas, casas e igrejas, mesquitas, templos pagãos e lojas maçônicas, pois minha cidade é cosmopolita e dada à prática de quantas religiões, seitas e crenças imaginar possa você, minha pequena e doce Pepita.
Porém na geografia palmense rio não havia, nem nunca houve, e disto se espantou a Pepita de seios montanhosos, lábios floridos e olhos marinhos. De que valeram, no entanto, tais espantos pelo não-haver, se maior espanto foi o ver uma cidade mais de igrejas feita que de casebres habitada? E as mesquitas e não sei o quê, onde agora estão? E uma longa história de guerras santas, aprendidas em almanaques de laboratórios e sem “Você sabia que?”, disse da destruição vandálica e da reconstrução arqueológica da antiga cidade, hoje ordeira, modelar e turística.
De tanto inventar e sonhar, depois de tanto precisar, descobriu Tony, quase no longe do conglomerado de igrejas, já nas bordas da antiga floresta, uma igrejola feia, desbotada de cor e abandonada de crença. Embora solitário, escancarou-lhe as podres portas e espantou os morcegos e demônios que lá viviam em festival sem fim, desmatou-lhe os púlpitos, os altares e as colunas de mármore. Derrubou-lhe as torres tão fácies de ruir, a lembrar as ameaças infernais ouvidas em sermões hitlerianos há anos, muitos anos. E deu-lhe aspecto de casal abandonado e placa de posse e propriedade suas, senhor de latifúndios, prédios e indústrias.
Em nome da expansão urbana e do turismo, o secular alcaide autorizou o desmatamento da região, ligando-a à sede da comarca por uma via calçada e iluminada. Assim, a velha igreja foi, pouco a pouco, se fazendo casa de lazer ou prazer, de música e bebida, de danças e beijos. Nascia das ruínas a “River Boîte”, luzes vermelhas, cervejas geladas, músicas estridentes e danças modernas.
Na festa de inauguração ocorreu, porém, coisa esquisita, talvez o marco da brusca mudança por que passou Palma. Quatro casais de jovens chegaram, mãos dadas, a cantar e sorrir. Os filhos felizes do doutor, do juiz, do prefeito, do farmacêutico, do dono do clube e dos vendedores de arroz e feijão pros vendedores de arroz e feijão. Filhos queridos da raça nascida por entre as igrejas, famintos do novo, ansiosos de saber o prazer de beber whisky escocês ou cerveja gelada, de dançar ou pular rock na roça e falar o inglês dos galantes cow-boys. Mas por nada disso saberem, sentaram e cantaram cantigas antigas, valsas medidas. E beberam e fumaram, e cantaram e sorriram. Logo porém a vitrola gritou uma música jamais ouvida em Palma. E ouviram e aprenderam a música difícil importada por Tony da grande cidade.
Tanto beberam cerveja gelada e gostosa, que as bexigas se encheram feito bolas de encher. Com tal desprazer, se olharam perplexos. Onde ir despejar o líquido amarelo?
Onde o banheiro? Onde o banheiro? Perguntavam-se para não desmanchar o prazer de ouvir a música estrangeira. Remexeram as cadeiras, as pernas tremeram, beberam e beberam, que dançar não podiam ou talvez não sabiam.
Lá pelas tantas, o mais jovem de todos afastou a cadeira e aos fundos do bar dirigiu-se. Duas portas, porém, estamparam-lhe nos olhos a dúvida: ladies, gentlemen. Será esta ou aquela a que devo empurrar? Antes de a dúvida tirar, sentiu escorrer entre a perna e a calça um líquido ardente e debaixo da ladies quedou-se um minuto. Assustou-se ao ouvir o próprio nome gritado por um seu companheiro.
Entrementes nas mesas as moças cochichavam, sorriam, cantavam e contavam histórias sem fim. Duas delas, porém, deixaram as outras e os outros e saíram, mãos dadas, em busca do bidé confidente. E ao verem os dois bigodinhos abraçados ante a porta do quartinho das ladies, entraram depressa no logo contíguo.
Nessa noite de festa, os jovens farristas de tudo falaram: de boys e de girls, cervejas e whiskys, rock’n roll. Vocês já sabiam que ladies e gentlemen? que nossa cidade é muito avançada, a capital do sertão? Pois aqui tem boate, cerveja, roque, meu bem, graças ao nosso bom Tony River.
Abraçados, felizes, os aprendizes de pândego divisaram no lusco-fusco uma figura de negro que se aproximava, a sorrir e beijar a doce Pepita. E ouviram cânticos, sermões e sinos. Pasmados, se ajoelharam aos pés do fantasma, beijaram-lhe as botas e choraram e caíram aos pés de Antonio Siqueira, que, aos pulos, subiu as escadas de madeira, de volta às antigas torres da velha igreja.
(Continua)