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BABEL (1)

BABEL (Brasília, Ed. Códice, 1997)
Contos

Nilto Maciel

ÍNDICE
Quem tiver ouvidos, ouça
O egoísmo de Newton Appletree
O mundo estaliano
Os monstrinhos de doze anos
Calvário
O livro de Pedro Amaro
Inventário de Quinca Manco
O fim do mundo de Sinhá
A beata de Palma
As pontas da estrela
A ponte sobre o rio dos amantes
Babel
Uns seios
O primeiro homem
Prelúdio para a morte de César
Os três botões
Tony River
Da noite para o dia
Avisserger Megatnoc
A brincadeira
A noite das garrafadas
Jingle Bells
A perseguição
O julgamento
Rotação
O suplício de Geruza
Masmorrer
A vida eterna de Luis Lamento
O verdadeiro Mangarobeira
Um novo homem
O pio da cauã

Observação do autor

Este é o quinto volume de contos que publico.
Não os escrevi, no entanto, após os outros livros. Há aqui contos escritos em 1975 e 1976, embora quase todos eles tenham sido reescritos dez anos depois. Assim, a maioria das narrativas aqui reunidas foi escrita logo após Itinerário. Este é, pois, meu segundo livro de ficção menor, em ordem cronológica.
E por que tanto tempo para publicá-lo?
Em 1985 fiz uma releitura de todos os meus contos. Mais da metade deles desceu ao cesto do lixo. A sobra constitui parte de dois volumes que publiquei nos anos seguintes e mais este. Àqueles concedi, de pronto, autorização para virem a público. A este (como se fosse filho defeituoso, enjeitado), pedi desculpas por ter vergonha de apresentá-lo ao povo da rua. Ficasse em casa por mais um tempinho. Confiasse em seu pai. Com carinho e dedicação, seus defeitos poderiam desaparecer o mais cedo possível.
Agora perdi a vergonha. Não rejeito mais o filho. Que os leitores me perdoem, se não tiver conseguido extirpar todos os defeitos dele. Ou os mais graves e aparentes.
Brasília, fevereiro de 1997.

QUEM TIVER OUVIDOS, OUÇA


No julgamento histórico dos Lobos, os juízes e acusadores, condignamente trajados, ora fumavam, ora cochilavam, ora bebiam água.
Horas e dias assim, fatigantes, calorentos, palavrosos. Os réus amparavam-se uns nos outros, comunicavam-se entre si por gestos, códigos, ruídos imperceptíveis aos homens da corte. Os mais sagazes sempre arranjavam jeito de transmitir a melhor resposta aos mais ingênuos. E conseguia o grupo enfurecer cada vez mais os gordos e imprevisíveis julgadores.
– Responda você – o juiz-presidente apontou para um dos acusados – sem errar, sem tomar fôlego: quem foram Remo e Rômulo?
O Lobo apontado olhou para cada um de seus companheiros, piscou os olhos, gaguejou. O inquisidor martelou a mesa, queria resposta pronta.
– Foram dois homens...
Na sala de audiências, a respiração de todos parou, juízes e acusadores de olhos vidrados, grudados na boca entreaberta do Lobo.
– Então?
E de novo o arfar dos peitos, o cair das mãos, o bater das pálpebras, o chiar dos lábios fizeram a sala viver.
– Vocês são uns néscios. Quis habet aures, audiat. Pois saibam que Remo e Rômulo foram amamentados e criados por uma loba. Apesar disso, a espécie lupina não deixa de ser cruel, desnaturada, selvagem.
– Como assim, se até salvamos homens, conforme vocês mesmo dizem?
– Não confunda alhos com bugalhos, idiota. Uma única boa ação não pode servir de atenuante, quando o acusado praticou mil crimes inomináveis.
– No entanto essa única boa ação é a base de toda a história do homem ocidental.
Os julgadores e acusadores reagiram em cadeia. O Lobo acabava de dizer a maior tolice do mundo. Só podia ser um louco. Achincalhava a Justiça Humana.
– Deixem-me concluir: sem Rômulo e Remo, não teria sido fundada Roma. E, se Roma não tivesse sido fundada, não teriam existido os Césares, o Império, a República, a civilização romana. Nero não teria existido, nem o incêndio nem o latim. Qui habet aures, audiat. Sem o amor e o leite da loba, os gêmeos não teriam sobrevivido. Logo, a Loba é a matriz de Roma e, em conseqüência, da civilização ocidental.
– Isso é loucura. Vocês são uns loucos. Falam como loucos.
– Não, excelências, somos apenas lobos e como lobos falamos.
O juiz-presidente bateu o martelo na tábua da mesa, ordenou silêncio e gritou:
– A partir de agora fica incorporado ao Código Penal o seguinte artigo:
“Quem for lobo e como ele falar, será condenado à morte pela caça, pelo desmatamento, pela poluição.”



O EGOÍSMO DE NEWTON APPLETREE

Não sei se nasci de outro ser, se surgi do nada, se me autocriei. Porque não tenho nenhuma história, porque sou único. Já vivi entre homens, macacos, pássaros, peixes, insetos e a nenhuma dessas espécies pertenço, apesar da aparência física com os primeiros. Repenso sempre a hipótese de ter sido o homem o meu criador. Mas com ele não me entendi.
Minha primeira amarga lembrança é a de uma prisão e, preso, eu só pensava em quem me poderia ter colocado ali. Revoltava-me viver cercado por quatro paredes, sozinho e sem qualquer comunicação com outros seres. Quem seriam meus carcereiros, os construtores da prisão? Onde estariam? Por que não me apareciam, até para zombarem de mim?
De tanto questionar minha situação, acabei discutindo minha origem. Eu deveria ter um criador. Não poderia subitamente ter surgido dentro de uma sala. Quem edificara aquelas paredes? Antes de minha existência já elas haviam sido inventadas. E seus inventores me seriam também anteriores. Possivelmente semelhantes a mim. E eu imaginei o homem. Para mais uma vez rebelar-me. Por que manterem-me preso? Arrombei uma porta e fugi. Nada ao redor me indicava a existência do tal homem. Nem de outro qualquer ser. E caminhei feito um desesperado. Queria encontrar vida, seres como eu ou mesmo diferentes de mim. De repente meu primeiro grande susto. Uma cidade se estendia diante de meus olhos e nas ruas seres semelhantes a mim iam e vinham. Seriam aqueles os meus criadores e inimigos? Aproximei-me devagar, com medo de ser posto novamente na prisão. Recostei-me a uma parede, todo olhos e ouvidos. Pronto a correr à primeira ameaça, reagir, enfrentar meus tiranos, matá-los, se preciso. No entanto o primeiro que por mim passou sorriu-me, e era bela. Só podia ser a mulher de minha idealização primitiva. E eu me senti homem, por instantes. Porque um minuto depois passou por mim um homem e eu senti não ser ele meu semelhante. Alguma coisa me dizia ser ele diferente de mim, porque tudo nele semelhava o ser imaginado na prisão. E aquele ser era apenas meu criador e nunca meu semelhante.
Apesar disso, tranqüilizei-me. Se eles me quisessem mal, já teriam me agarrado e conduzido de volta à prisão. E todos me tratavam com cordialidade ou indiferença.
Decidi aventurar-me a andar entre eles, olhá-los de frente, ouvi-los, aprender-lhes os hábitos, conhecê-los de perto, enfim. Fiz curtas amizades e nenhum deles suspeitou de nada. Trataram-me como se homem eu fosse. Alguns me contaram pedaços de suas vidas, falaram-me de seus parentes e amigos, de suas atividades e eu concluí quase definitivamente que entre nós havia um grande fosso.
Todos tinham um passado, um nascimento, um pai e uma mãe, parentes, amigos, colegas, todo um complemento de si mesmos. Eu não tinha nada disso. Era só, único. A menos que sofresse de amnésia. Procurei um médico. Ele se estarreceu e eu tirei a conclusão definitiva de não ser homem.
Vivi dias de profunda tensão. Não entendia nada ou entendia tudo. Imaginava coisas que via logo a seguir. Nasci poliglota, o que me permitiu poder me comunicar facilmente com quaisquer homens. Quando perguntaram qual o meu estado civil, respondi: solteiro de nascença e para sempre. Meu interlocutor gargalhou, achou espirituosa a resposta. Eu senti tédio.
Sofri vexames quando me perguntaram nome, data de nascimento, nacionalidade, grau de instrução, profissão, simpatias políticas, etc. “Chamo-me Newton Appletree, nasci em 30 de janeiro de 1945, em New York, formei-me em engenharia e adoro democracia.”
Eu tinha medo de ser julgado um bandido foragido da prisão. Ou um espião russo.
Quando li os livros de Deniken, temi ser um deus, um extraterreno enviado à Terra em missão especial e que dela me houvesse esquecido. Temi sobretudo ser visto e tratado como tal.
Assustou-me depois ser uma espécie de deus, um ser eterno.
Deve ser horrível a eternidade. A intemporalidade. Uma das primeiras coisas que me preocuparam foi o tempo. Contar meu tempo de existência. Com isso passei a temer o fim, a desintegração, a morte, o não-ser mais.
Pelo aspecto físico, terei uns trinta anos de idade, mas, como não nasci, talvez tenha apenas um ano, se contar minha existência a partir do momento em que me conscientizei de mim. Certamente já me gastei alguma coisa, algumas partículas já se foram de mim. Meu funcionamento, meu mecanismo (a alma, o espírito, a psique dos homens ou dos outros seres animados da natureza terrena) já devem andar defeituosos.
Os homens, meus criadores, são meu deus, segundo sua linguagem, que foi a que me deram. Mas de mim não nascerá nada físico, material, orgânico. Não deixarei descendentes, nem trago ascendentes. Sou simplesmente uma criatura humana. Não disponho de meios para descobrir por quem e como fui criado. Para quê? Certamente para servir aos meus criadores, como escravo. Mas eles estão enganados – não serei escravo. Não aceito a finalidade para que fui criado. Viverei só e para mim mesmo somente...


O MUNDO ESTALIANO

Ao assumir o poder, ordenei fossem separados os homens das mulheres e assim mantidos sob estrita vigilância policial. Tudo sem outra intenção, senão a de controlar a natalidade, razão primeira da revolução, de vez que as pílulas anticoncepcionais haviam falhado, o aborto constituía-se crime e o povo vivia em perpétuo cio. Por outro lado, nem guerras, catástrofes, acidentes, doenças, fome haviam exterminado suficientemente a espécie humana até a desabitação total da Terra. Fracassou também a exportação de terráqueos para outros planetas, ou por falta de condições materiais e científicas, ou por recusa dos próprios futuros viajantes e dos governos dos planetas instados a acolher os infelizes terrestres. A superpopulação fazia a Terra pesar demasiadamente, a ponto de seus movimentos de rotação e translação não serem mais percebidos sequer pelos mais complexos aparelhos. Previa-se, para terror de todos, o desabamento do planeta e sua conseqüente descida às profundezas do Inferno.
A partir de meu primeiro decreto, o mundo se tornou uma só prisão. Digo melhor: duas continentais prisões. Não, não é isso, pois também antes os mares separavam os seres humanos. Entre o regime velho e o novo, no entanto, havia uma diferença fundamental: os homens na América Continental e as mulheres na Eurásia e África continentais. As ilhas e os mares passaram ao controle absoluto do Estado, elevados à categoria de territórios administrativos. Proibiu-se serem ilhas e mares visitados por qualquer continental, denominação dada aos escravos condenados ao homossexualismo. Aboliu-se o secular banho de mar, um dos deleites da humanidade até fins do século XX. Ilhas e mares passaram a ser habitados e vigiados pelos estatais, policiais e marinheiros, cargos destinados aos homossexuais convictos e voluntários a serviço do Estado.
Nos submarinos, navios e outras sofisticadas e poderosas armas aquáticas, os sexos ficaram perfeitamente separados. Ocorreram alguns incidentes graves, resultado de tentativas de fraude e violação da lei. Ora rapazes escondiam seus órgãos genitais de maneira absolutamente perfeita, no intuito de passarem por moças e se alistarem na tripulação feminina, ora moças se implantavam pênis e testículos de plástico ou extraídos de homens, no afã de se imiscuírem entre seus opostos. Dois ou três desses falsificadores da natureza conseguiram burlar a severa vigilância dos recrutadores e ferir a lei e os novos costumes. Esperava-os, porém, a pior punição. Não a do Estado, mas a da própria ousadia. Uma das moças morreu seviciada nas primeiras horas. A um dos rapazes ocorreu a mais desgraçada das mortes – devorado vivo num porão de navio repleto de mulheres.
O crime de fabricar ou desenhar uma simples jangada, mesmo de papel, inclusive a título de brincadeira, punia-se com a morte por afogamento. Aliás, quase todos os suicidas morriam no mar, na tentativa vã de atravessá-lo, em busca de seus semelhantes.
Mandei destruir toda a frota de mísseis, foguetes, satélites, sondas espaciais, observatórios orbitais, laboratórios espaciais, helicópteros e aviões. Determinei a demolição dos aeródromos, aeroportos, pistas de pouso e estações de rastreamento. Decretei a morte dos homens da força aérea. Intensa lavagem cerebral tratou de abolir dos cérebros a idéia de voar. Nada de lendas de Ícaro. As aves e os insetos voadores tiveram o seu fim, para evitar o recomeço das primeiras experiências de vôo pelo batimento ornitológico das asas e o surgimento de outros Leonardo da Vinci, Bartolomeu de Gusmão, Santos Dumont, Ferdinand von Zeppelin, Gago Coutinho, Sacadura Cabral, Auguste Lindbergh. Nenhum processo de vôo devia ser reinventado. Nada de balão, dirigível, zepelim, aeróstato, monoplano, biplano, sextiplano, aeroplano, hidravião. A História, a Arqueologia e outras ciências sofreram total reformulação. Solenhofen transformou-se em cemitério. Aboli do dicionário todas as palavras que dessem sequer uma vaga idéia de vôo. Tudo isto para evitar as fugas intercontinentais ou a busca de outros planetas onde porventura existissem seres idênticos aos humanos.
Apesar de tudo, o amor e o sexo existiam tão intensamente como nunca dantes. Praticava-se o amor homossexual não só com todas as garantias mas com os maiores incentivos. O Artigo Primeiro da Constituição dizia: O Estado Uno é um Estado Homossexual.
Jamais nasceu uma criança sequer. E se tal ocorresse, por uma suprema desídia ou traição dos guardas, a pena seria simplesmente a tripla morte do pai, da mãe e do filho. E ainda a de quem os houvesse ajudado, de uma forma ou de outra, na preparação e consumação do ato criminoso.
Nossas forças armadas sobrepujavam as maiores e mais poderosas até então constituídas na face da Terra, não só por necessidade do Estado mas, sobretudo, pelo elevado número de voluntários desejosos de servir à Humanidade. Todos os homossexuais – inclusive os assim declarados antes da revolução – e adeptos do controle da natalidade passaram a formar a máquina do Estado, a invencível máquina repressora. Nem por isso as forças armadas suplantavam em número a população civil.
Nos primeiros dez anos, chegaram a ser assassinados cerca de um bilhão de estatais. As revoltas, os motins, os complôs, os putsches levados a efeito pelos continentais e falsos policiais decuplicaram esse número. Porém, como sempre havia um bode expiatório, conseguimos o nosso objetivo à custa de desforras, da reação com mão de ferro, da lei de talião.
Numa dessas ocasiões, quando eu pessoalmente tomava a dianteira da repressão, me veio a maravilhosa idéia de mandar exterminar de vez todos os adultos – culpados e inocentes. Fiz guerrear homens contra mulheres com armas poderosíssimas – o simples contato físico de dois seres humanos de sexos opostos resultava na morte instantânea de ambos. Para conseguir isso, fiz transportar metade da população masculina para a Eurásia e a África, metade da população feminina para a América. O mesmo com relação às ilhas e aos transportes marítimos. O massacre se consumou numa só noite. Escaparam tão-somente as crianças ainda não capacitadas para a procriação, aliás as últimas ainda nascidas sob o ancien régime.
Em seguida ao sepultamento das vítimas da guerra do sexo, distribuí entre as crianças o soro da eterna infância, medida profilática capaz de extirpar para sempre a peste da procriação.
Desde então a face do mundo é outra. Aboli armas, prisões, penas, leis repressivas. De nada disso eu carecia mais. Aboli as classes. Passamos a ser apenas crianças ou seres humanos. Quase um milhão de pessoas. O tempo passava e as crianças envelheciam. Todas velhas, apesar de crianças. Tudo ia bem no mundo. Esperavam meus súditos pela eternidade, esquecidos dos milhões de adultos soterrados, e a única crença se assentava sobre a inabalável realidade da paz perpétua.
De repente fenomenais abalos sísmicos engoliram cidades inteiras, enormes fendas se abriram feito bocarras pantagruélicas e famintas. As crianças, desesperadas, relembraram as pragas jogadas por seus antepassados e pelos destruídos livros proféticos das religiões abolidas. Desenterraram-se os mitos de suas memórias refertilizadas. Os corações dos mortos voltavam a pulsar? Seus insaciados corpos intentavam orgasmos subterrâneos? Seus cérebros engendravam vinganças?
O mundo ruiu e se fragmentou em milhões de pedaços, donde nasceu uma galáxia. Eu virei o sol do principal sistema solar e me abrasei e me consumi. As pequeninas estrelas aos poucos se espatifaram no espaço, até formarem uma só poeira. E voltamos ao pó.


OS MONSTRINHOS DE DOZE ANOS

O lixo inundava as ruas. Um e outro transeunte ia e vinha, passo lento, olhos enfiados nas vitrines. Nos estádios, porém, não cabia sequer mais um espectador. Repletos também os bares. Falava-se de tudo, menos da fumaça que empestou o ar na parte da manhã. Mais cedo ainda, uma pequena explosão, lamentada pelas autoridades, matou alguns operários desclassificados que transitavam pelas proximidades da fábrica. Durante todo o dia a polícia esteve de prontidão nas ruas. À noite, ao ranger das camas e ao gemer dos casais, a catástrofe do começo do dia virou pura invenção de bolchevistas.
Duzentos e poucos dias depois nasceu Amando, filho de um dos muitos ordeiros patriotas que no dia da explosão não viu a pretensa tragédia, nem dela ouviu falar e muito menos se ocupou da tão deslavada peta dos derrotistas. Apenas fez questão de pagar uma garrafa de cachaça para uns desconhecidos que chegaram com violão ao Bar Nabé naquele primeiro de maio de muita bebedeira, futebol e cama.
Nos dias de folga, o pai de Amando se metia nos bares e bastava ouvir samba e violão para cair num choro de corno manso. Dava até o último centavo ao cantor ou tocador. Terminavam abraçados, feito velhos amigos.
Por essa mesma época nasceram outras criaturinhas defeituosas, semelhantes a pequenos monstros. Uma verdadeira peste o aparecimento daqueles minúsculos bichinhos. Médicos não relutaram em dar cabo de alguns. As próprias enfermeiras se recusaram a pegar nos “porquinhos”. Alguns pais concordaram desde logo com as explicações científicas dadas pelos obstetras. Assim mesmo, escapou da fúria mais de uma centena desses bebês.
Como se desenvolveram, ninguém sabe. Para os especialistas, eles não resistiriam um dia. No entanto muitos passaram de uma semana, outros viveram meses, e poucos, alguns anos.
Os que chegaram à idade trágica dos doze anos, tinha-se certeza, não morreriam mais de incapacidade de viver. Viveriam como qualquer ser humano. Talvez cinqüenta anos. Em compensação, seriam um tormento social por ocasião do décimo-segundo aniversário da primeira explosão. Estádios e bares repletos de homens magros e pálidos, ruas sujas e quietas.
Primeiro os monstrinhos de doze anos, comandados por Amando, se armaram de archotes e bombas caseiras e incendiaram a mansão do Dr. Negawsklov, Presidente da Usina Nuclear de Schoonenborch. À chegada dos soldados, nada mais restava do imenso casarão. E os curiosos que admiravam a fogueira nem tiveram tempo de fugir.
Os monstrinhos de lá partiram para a própria Usina, onde morreram carbonizados, vítimas de sua monstruosidade sanguinária. O incêndio se alastrou por toda a área circunvizinha num diâmetro aproximado de mil quilômetros, causando a morte de milhares de pessoas.


CALVÁRIO

Faca no cós, blusa aberta, calça arregaçada, João chegou à estrada, olhou para cima e para baixo e tomou o rumo da direita. Muito adiante, antigamente, havia uma cruz fincada no chão, junto à cerca, a indicar o lugar onde seu pai sofreu morte sangrenta. Não sabia quem, mas um espírito de porco, um cabra sem-vergonha, um filho de uma égua teve a petulância de arrancá-la e quebrá-la em dez pedaços.
Coitado do velho Luiz, não sossegava nem depois de morto. Primeiro mataram seu irmão José, de emboscada. Vingou-se, matando um dos criminosos. Nem bem se satisfez, o povo do morto o matou.
– Sina mais desgraçada!
João olhava para os destroços da cruz de seu pai. Pedaço aqui, pedaço ali. Então para que morrer, ser enterrado e ter uma cruz? Para quê?
O sol do meio-dia crestava o mundo, a cabeça de João, e seus olhos ardiam e se empapavam de água salgada, suor. Correu, correu, correu. Outra cruz remexia-se à sua frente. Deu-lhe um chute, quebrou-a. Abaixou-se para arrancá-la de vez. E lançou os pedaços no meio da estrada. Ferido nas mãos, seguiu a gritar blasfêmias e porcarias. Um caminhão cobriu tudo de poeira e buzinadas. Tropicou na segunda cruz. Arrancou-a, quebrou-a.
E durou léguas sua insânia.
À entrada da cidade, quando se voltava contra mais um entrançado de varas, o jipe dos soldados o cercou. E o agarraram, aos socos e pontapés.
Amarrado ao carro, o cortejo seguia. Nenhuma cruz carregava João, escoltado pelos inimigos, que o açoitavam e riam.
Tanto tempo durou o trajeto que ainda no meio do caminho se acercaram do jipe a molecada e o povo de João. Sua mãe gritava, chorava, agarrava-se a ele, mordia os soldados, e caía, desgrenhava-se, feria-se. Seus irmãos lutavam para livrá-lo das cordas e nunca João devia chegar à delegacia.
Despertada pelo fuzuê, com pouco toda a cidade se juntou para ver de perto a perversidade dos soldados. Os tantos olhos fitos naquele horror buscaram então as pedras da rua e os galhos das árvores. E se deram pedradas e pauladas a torto e a direito. Os mais zangados buscaram foices e facões, espingardas e bacamartes. Golpes mais fundos e tiros mais doidos se cruzaram no meio da rua.
Na confusão, ninguém sabia contra quem brigava, a quem feria, matava, porque já os soldados haviam tombado, João e seus parentes não viviam. E uns corriam, gritavam, outros gemiam moribundos, pisoteados, a arrastarem-se inutilmente pelo chão coberto de trapos e sangue.


O LIVRO DE PEDRO AMARO

Sentia-se tonto, o mundo todo de pernas para o ar, feito barata emborcada, a remexer-se em agonia de moribundo sem vela. As palavras perdiam a conotação lógica dos textos regulares de uma lei, tratado sobre a natureza humana, curso dos rios. Via-se lendo a macabra língua dos mitos. O chão virava teto, a cadeira pregava-se como aranha às vigas de uma teia de circo, as linhas proféticas das mãos metamorfoseavam-se em desenhos misteriosos de capas clássicas.
Não sabia explicar se não aceitava aquela mistura de arcaísmos, tupi e expressões populares, ou se apenas tinha medo de sonhar com livros cabalísticos.
Chegava ao fim da leitura com nojo de Pedro Amaro, estupefato diante daquele monstro que confessava sua torpeza: “Perguntado por que razão passara a lambedeira no cangote de um curumim, disse que a causa disso fora porque carecia de se espichar debaixo da jaqueira onde o mesmo estava deitado.”
Nunca mais leria tamanho cinismo. Aquilo deveria ser ficção de algum doido. Nada daquilo ficaria em sua memória, aquelas páginas de extrema virulência, por mais que lhe tivesse ferido os olhos. Se não, apagaria letra por letra, até não se lembrar mais sequer dos vocábulos arcaicos. Sobretudo aquele parágrafo nauseante: “Perguntado se no tempo que lá andou praticava malvadezas, disse que não; somente por rir metia a faca no bucho dos curumins quando dava na veneta desenferrujar o aço mas que não era de fazer marteiros nem de viver de ribaldarias nem de culpas”.
Jogou o livro para cima, irritado, acertou a lâmpada, que se espatifou. Houve um papoco e cacos finos caíram-lhe como neve sobre os cabelos. E ao relâmpago sucedeu a treva, e gritaram: – Seu Amaro, o que foi isso? Enxotou a empregada da sala, quando a infeliz tentava apanhar o livro estatelado aos seus pés. – Não pegue nisso, é porcaria. E continuou a falar do matador de índios, assassino, desalmado, monstro. E berrava: Queime isso, esse Pedro Amaro é um demônio.
Despachou a moça, que apanhou o livro e o levou para os fundos do quintal. Chamou-a de ladra e imediatamente telefonou para a polícia: “Roubou um livro meu, peça rara, documento histórico adquirido por uma fortuna.”
“Ao chegarem os policiais, há muito se havia arrependido da acusação. Lia para a empregada o livro. E recebeu as visitas com extrema inquietação. – Escutem só esta maluquice.”
Figura curiosa a daquele velho português. Verdadeiramente um bicho, mas todo bicho é curioso ao homem. Para que ter medo da realidade? Ali estava um estranho personagem. Necessário reler aquelas confissões. Teria sido um louco? Vissem: “Perguntado se era lembrado dizer alguma hora que seu preço era mais alto do que o de el-rei, disse que si, porque nunca tivera receança, posto não dormisse, nem sofresse, nem falasse, mas que antes não era de capitania, era só e elle”.
Relia o livro tintim por tintim, devagar, olhos grudados nas letrinhas miúdas, esquecido de cheques e notas fiscais, fumando feito uma caipora, consultando dicionários e enciclopédias, detendo-se nesta e naquela palavra, neste e naquele parágrafo, coçando o queixo, pensando, sonhando. Intrigava-o a insolência do colonizador: “Perguntado se dizia elle que se siso fosse bom era era regedor de poder, capitaão de regimento, disse que si, e que sua sanha era só de esfolar, porque nunca teve coita, durão e brabo de peito e coração.”
Entendia já termo por termo e sentia-se convencido da existência real de Pedro Amaro. – Passou à história, embora em rodapé, como o típico colonizador. Porém alguma coisa ainda escapava ao seu entendimento, inclusive certos vocábulos em desuso e que nem os dicionários mais completos mencionavam. Mister então ler, reler, tresler o texto, como o joalheiro que olha, reolha, tresolha a pedraria que engasta na jóia.
Não perdia ocasião de abrir o livro, sempre à mão, como antes conduzia a pasta repleta de documentos mercantis. Ao acordar, em vez de ler os jornais, lia o interrogatório.
Certa feita pôs-se a ler para um amigo, em plena rua, trechos do livro, assim de repente, como se o outro soubesse do seu interesse: “Perguntado si disse alguma hora que não havia de nunca vestir costume de rei, disse que si e disse mais que andar carecia de sujidade e feitio de onça, para assustar os medrosos, e que seu aspeito era esse de bicho do mato, sem respeito à vida”. O amigo ouvia calado, mas, como se aborrecesse com o prolongado da leitura, riu e o interrompeu para saber o que significava aquilo. Pedro mostrou-se surpreso: – Então o amigo não conhecia o interrogatório de Pedro Amaro? À negativa, expôs sua opinião a respeito do colonizador, no que foi contestado pelo outro: – Pelo que acabei de ouvir, trata-se de um criminoso dos mais bárbaros. Pedro irritou-se, defendeu com unhas e dentes seu homônimo, concluindo ter sido apenas um homem forte no meio de um magote de selvagens, e que seus atos, chamados de crimes, podiam ser muito bem explicados, embora tivessem sido praticados com alguma crueldade. – Vamos levar em conta o meio em que os praticou.
De sua mesa de trabalho ordenou que a moça retirasse os papelórios e as pastas. Não queria desviar os olhos do livro. Necessitava de ler mais o texto antigo. Também não o interrompesse à toa.
Há tempos andava daquele jeito. Se a empregada vinha dar recados, irritava-se. Não lhe tomasse o tempo com recadinhos idiotas. Se lhe vinha pedir ordens, só faltava espaldeirar a coitada. Resolvesse tudo sozinha, não torrasse sua paciência.
Deixava cheques por assinar, documentos bancários esquecidos, relatórios por ler e abraçava o livro com sofreguidão de colegial aplicado. Balançava a cabeça como que aprovando as respostas do interrogado: “Perguntado si era lembrado dizer alguma hora que lugar de argel era debaixo dos sete palmos do chão, fosse galalau ou tamborete-de-forró, que o bicho era ele, disse que si e que isso devia merecer aplausos até dos bugiarões.”
A cada dia mais se tornava irresponsável com os próprios negócios. Em vez de discutir preços com os fregueses, discutia a personalidade do outro Pedro Amaro, sempre a defendê-lo. Súbito encheu-se de fúria, pegou o revólver e disparou seis vezes contra a moça.
E voltou ao livro.


INVENTÁRIO DE QUINCA MANCO

Como se não lhe fosse possível entender que um dia o silêncio se apossa para sempre de mudos e tudos, Chico Maneta deu bom-dia, arrastou um tamborete para mais perto de Quinca Manco, sentou-se e pôs-se a recontar casos tão antigos e esquecidos que quem os ouvisse certamente pensaria tratarem-se de sonhos ou lendas.
Coberto de moscas, o corpo magro e quase nu do velho amigo parecia dormir, estirado na rede suja, sem varandas, tranças ou trancelins, e de punhos e mamucabas rotas.
De repente, porém, o vento escancarou as portas e fez o visitante levar as mão trêmulas de dedos endurecidos ao nariz. Uma catinga dos diabos circunvolou e atirou Chico Maneta – velho galo de asas caídas – em direção à porta da rua, para cantar rouco:
– O Quinca Manco está podre!
Daí a pouco, a derradeira agonia de Joaquim Mendes Umbuzeiro principiava. Encheu-se a casa de vizinhos, curiosos e autoridades, lenços nas ventas, mãos estendidas para os pêsames impossíveis, olhos revirados para a poeira – pó de ouro – e o mofo-mármore.
Só no mundo, sem parentes nem aderentes, por via da morte ou do progresso que os chamara para bem longe, às autoridades competiu tratar-lhe do pronto enterro e, sobretudo, inventariar-lhe os bens.
Enquanto o corpo seguia para os confins da terra, na casa permaneciam o padre, o prefeito, o delegado, o juiz, o farmacêutico e o orador perpétuo da cidade.
O esqueleto do defunto partiu na própria rede onde o encontrou Chico Maneta, rede que lhe servia de cama desde a viuvez e de mundo desde algum tempo. Conduziram-no pelas ruas até o cemitério dois eméritos cachaceiros, aos tropicões, embalados pelo blim-blão do sino católico.
Ao cabo de algumas horas, constataram os inventariantes haver Quinca Manco deixado para ninguém, além da casa onde viveu desde o único e indissolúvel matrimônio com Dona Maria Galdina Umbuzeiro, os seguintes bens: três trôpegos tamboretes, que serviam de assento aos habituais e incômodos fantasmas, inclusive Chico Maneta, falecido há doze anos e que apenas quatro vezes o visitou durante o decênio, com os quais costumava conversar sobre fatos nunca ocorridos; um cabide sem roupas pregado numa das paredes do quarto de dormir e onde certa noite pensou pendurar o prefeito; uma ceroula encardida e em frangalhos, usada no dia do casamento; um terno de linho branco que só a marretadas se dobrava e vestido apenas nos dias mais festivos, como o da padroeira, quando da queda do Estado Novo e por ocasião de um eclipse; uma camisa de mangas esfiapadas e colarinho esburacado, companheira eterna do citado terno; uma provável antiga gravata, no interior da qual foram encontrados três baratas e um rato; um par de sapatos seis vezes furados cada um, sem enfias, dentro dos quais duas meias impregnadas do mais fétido chulé e também furadas, cada uma, cinco vezes na ponta destinada a suportar os dedos, todos jogados aos pés de um dos tamboretes e que constituíam a indumentária do velho desde 1945; um cachimbo de madrepérola há muito não pitado, embora o trouxesse constantemente à boca, exceto quando dormia ou se enfurecia (nessas ocasiões, pendurava-o sobre a orelha esquerda e, passada a raiva, punha-se a acusar aquele a quem o enfurecera de o ter feito engolir o cachimbo); uma espreguiçadeira cujo encosto de pano imitava uma máscara humana e na qual, antes de se dedicar à rede definitivamente, passava os dias, tomando café, fumando cachimbo e resmungando; duas cadeiras de balanço então servindo de picadeiro às aranhas, móveis em que sentaram-se entre outras personalidades e pessoas de seu agrado o deputado Crisântemo Cansanção, o bispo D. José Tupiniquim e a formosíssima Rosana Macieira, todos falecidos; uma mesinha de madeira sobre a qual jazia um rádio descomunal e mudo desde a novela O Direito de Nascer, mudez que apressou a morte de Dona Maria Galdina e rádio que assustou a cidade quando de sua triunfal chegada e onde, depois de imprestável, se abrigavam o gato Mimi e a cadela Laica, em conúbio pecaminoso aos olhos da mulher de Quinca; uma moldura em que se viam em fotografias separadas a figura dele e da esposa, à época do consórcio (1902); um quadro ovóide representando meio corpo de Jesus Cristo com o coração exposto e sangrando; trinta e quatro pregos, sendo dois caibrais, enfiados nas paredes ao longo de toda a casa e em que se dependuravam cascas de laranja, cordões e objetos não identificados; um relógio de repetição que parou exatamente às três horas do dia 1º de abril de 1958, quando o morto enviuvou; outra mesa que antigamente serviu de mesa de jantar, medindo cinco por dois metros e sobre a qual um chapéu-de-chile emborcado abrigava uma catita mumificada, aparentando ter morrido às gargalhadas; uma máquina de costura marca Progresso, onde D. Maria costumava engendrar calções para os filhos; uma bengala lisa e rija que o velho usou durante mais de setenta anos e com a qual chegou a aleijar quatro cachorros, matar cinco gatos e esbordoar sete desafetos políticos, entre eles o farmacêutico, fato ocorrido nas eleições de 1950; uma peneira por cujos furos já passavam até jerimuns; uma quartinha cheia de água desde a chuva que caiu na noite de 21 de abril de 1969; um pote onde foram encontrados restos de um cururu, uma moeda de tostão, cabelos brancos, duas presilhas e uma dentadura superior, objeto que o velho disse ter perdido numa caçada, após morder violentamente o focinho de uma onça que saíra aos gritos, levando-lhe os dentes nela cravados; um relho com cabo de madeira, célebre nas redondezas por ter sido com ele que o velho dera uma surra em Lampião; uma lamparina sem pavio, utensílio certa vez confundido com um gato maracajá e por isso furado de bala; uma gamela usada como prato e na qual se viam ainda restos de arroz; um caçuá onde, no momento em que foi encontrado pelo padre, no meio do matagal que tomava conta do quintal, ressonava um gato cego, desdentado e mudo, de cerca de 20 anos de idade; um surrão esfiapado, uma cangalha, um balaio, uma gaiola e um pilão.
Afora esses inestimáveis bens, as autoridades encontraram ainda, não sem muitas surpresas e emoções, um velho e gigantesco baú preto, mais parecido com um caixão mortuário de rei. No seu interior foram achados um pião de brejaúna, sem bico, feito pelo pai de Quinca no ano de 1885; três colheres de pau; treze bilros; um alfinete enferrujado enfiado na ponta de um pauzinho, possivelmente restos do cata-vento que Pedro, o primogênito da família, fabricou em 1915; quatro vestidos; uma calça íntima; dois porta-seios; três saias; cinco blusas e cinco combinações que pertenceram à finada; um exemplar corroído pelas traças da História de Carlos Magno e os 12 Pares de França, entre cujas páginas pregara-se um pedaço de papel em que estava escrito em boa letra de mão o seguinte, para o qual as autoridades não souberam dar explicação: “Precisa-se de uma escrava moça, bonita figura, robusta, sadia e carinhosa, que não faça questão de ser examinada, para ama-seca, arrumadeira, jardineira, engomadeira, costureira e cozinheira, que durma no aluguel, em casa de poica família séria”; um calendário de doze folhas, ilustradas com mulheres seminuas, referente ao ano de 1946; uma fotografia do pai de Quinca datada de 1898; exemplares diversos do Jornal do Commercio, de O País e da Revista da Semana; um pequeníssimo recorte de jornal que trazia o texto seguinte:
“Aos Monarchistas
Ricos pratos de porcellana, para
adorno de sala, com os retratos,
do ex-Imperador e Imperatriz,
recebeu o
ELDORADO
Largo do C. Santo n. 9";
e, finalmente, uma cédula de cem cruzeiros, três de cinqüenta, sete de dez, vinte e uma de cinco, cento e trinta e quatro de um, sete moedas de cinqüenta centavos, treze de vinte, quarenta e duas de dez, de hoje; e mais quatro moedas de dez centavos antigos, oito cédulas de mil réis, quatorze moedas de tostão, duas patacas, um patacão, três cruzados e seis xenxéns.
Só não foi encontrado, porque jazia dentro de um cofre enterrado no quintal, um romance inédito escrito por Antonio Mendes Umbuzeiro, pai de Quinca Manco, intitulado Inventário e tido como o marco da literatura fantástica brasileira, concluído em 1829, ano do nascimento de José de Alencar.


O FIM DO MUNDO DE SINHÁ

A peste havia levado para a terra dos pés juntos quase todo o povo do lugar. Menos os filhos ingratos, sem amor ao chão, e os mais duros, de corpo fechado. Muita carniça para os urubus. Uma praga de bicho morto. Plantação nenhuma resistiu. A terra se esturricou. Quem escapou e não esperou pela morte, fugiu para bem longe, tomou o oco do mundo. Menos Sinhá. Essa ficou para enfrentar o cão. Comia raiz, qualquer coisa da terra nascida. Gafanhoto, formiga, besouro. Depois apareceram, não soube ela como, pés de pau, porco, galinha, toda sorte de bicho. Porém de quase nada disso ela se servia. Continuava a enfiar as mãos trêmulas na terra, à cata de comida do chão. Se enxergava ainda? Divertia-se a espiar as galinhas comerem minhocas, os porcos fuçarem a lama e os frutos apodrecerem em cima da terra. Sozinha no sitiozinho, na choupana velha, dos bons tempos, conversava com os bichos, a chuva, os ventos, a noite, os meninos que malinavam no terreiro e metidos no mato. Não havera de abandonar a terrinha, porque, o que de que carecia, ela dava em abundância. Dava e levava. Nas suas falas, porém, Sinhá muito se queixava de abandono e rogava pragas aos que a deixaram só, como se estivesse leprosa. Maldizia-se dia e noite, a gritar e blasfemar em miúda voz. Talvez não a ouvissem. Certamente viviam por ali, enfiados nas cabanas escondidas ou nas roças distantes. Tangiam porcos e galinhas, que não cessavam de fuçar o chão, em tempo de derrubar as casas. Ouvia de madrugada o canto dos galos. Sim, eles viviam por ali. E nunca se mostravam. Tinham medo da lepra que ela não carregava. Orgulhosos! A terra havia de papar um a um amanhã, antes da safra, depois de São João.
Passo manso e torto, olhos nas pontas dos pés, amaldiçoava os bichos que a perseguiam, encostada na bengala lisa e ensebada. Pela primeira vez, depois de tanta solidão, pisava novos rastros. Vontade doida de dar um passeio, conversar de frente, recordar o antigamente, até aquela peste danada e tão passada, falar da chuva que sempre vinha e sempre ia. Buscou as veredas cobertas de mato, para cá e para lá, avistou a cabana de Meranda. Por que aquela criatura nunca mais havia aparecido? Ôi de casa. Nem um só pio. Apurou os ouvidos. Pio, pio, pio. Escancarou a porta, passou, passou, trambecou, perguntou pelo café, nada de fogo nem de lenha. Decerto o povo andava na roça ou na cidade a comprar fazenda por mor de fazer roupa para os meninos. O mofo no canto da cozinha cobria o pote. Fogão apagado, panela nenhuma. De tamborete só a sombra. Esburacadas as paredes, furado o céu no telhado.
Sem jeito, saiu pela porta dos fundos, a tropeçar no passado. Essa Meranda! Cansada de carregar o tino, grudou-se à bengala lisa e vergou o corpo, murcho e leve, e só não conseguia voar, feito os passarinhos que beliscavam a mata branca de sua cabeça, porque nada a despegava da terra. Nem mesmo o abandono de parentes e aderentes. Fugir também? Não, não sentia medo de nada. Ora, se já ninguém existia no mundo, nada de fazer medo havia. Tudo morto, até o tempo. Fim de mundo, sim senhor. Pois donde nascer culumim, se não se via mais homem nem mulher? Ela? Não, nada daquilo era, nem mulher nem homem. Nem nunca tinha sido. Então só queria a fianga para se estender, descansar e dormir. Bem muito.


A BEATA DE PALMA

Quando o trem parou na estação, o sol acabava de se esconder. Uma dezena de meninos sujos me cercou. Disputavam entre si o direito de carregar minha maleta, o jornal e até o cigarro que eu fumava. Desfiz-me deste, distribuí para cada deles uma folha do jornal e entreguei a carga mais pesada a um rapaz musculoso.
Ao chegarmos à porta da pensão, acenderam-se as luzes da rua. Um poste aqui, outro acolá. Entre um e outro, notei mais tarde, parecia não haver luz nenhuma. Nem nossas sombras se projetavam ao chão.
Arrependi-me cedo de ter despedido o carregador. Vistoriei o quarto, tomei um banho e saí. Por pouco não me perdi naquele labirinto de ruelas, becos sem saída, florestas de árvores nas praças, coretos, igrejas, capelas. Sim, além da majestosa igreja matriz, outras dez se espalhavam pela cidade. Apesar disso, diziam os jornais, nem na capital se cometiam mais crimes per capita: estranhos casos de suicídio, roubos, homicídios e até estupros horrorosos. Tantas igrejas e tantos pecados, lamentavam.
Eis a razão de minha viagem.
Não, minto. Levou-me àquela aventura a história da existência de uma beata em Palma. Talvez eu conseguisse fazer a melhor reportagem do mês ou mesmo do ano e melhorar minha situação no jornal.
Chamava-se Maria Efigênia e até do nome dela me agradei. Devia contar uns trinta e poucos anos de idade. Na verdade, devia ter sido de uma beleza exuberante nos seus verdes anos, como diziam, porque ainda parecia bela, apesar da vida que levava.
Fazia uns dez anos que Efigênia se havia feito beata, dia e noite a rezar, a cuidar das igrejas, dedicada a todos os santos.
Nas ruas, a molecada se divertia quando ela passava, coberta de véus, abraçada aos missais, amarrada de terços e rosários, vestida da cabeça aos pés, silenciosa, solitária, perdida em si mesma. Divertiam-se os moleques e depois, coitados!, apanhavam como nunca. Porque os pais sabiam com quem mexiam seus filhos: Maria Efigênia era filha da mais importante família de Palma.
Além da meninada, só havia outra classe de gente que ousava dirigir-se à beata: os bêbados. Para cada igreja havia cinco bares na cidade. E a freqüência destes talvez fosse maior do que a das casas de pasto espiritual.
Se os pequenos moleques causavam irritação, os freqüentadores dos bares chegavam ao exagero de dirigir à beata indecorosas piadas. Ela, porém, seguia seu caminho altaneira, imune às porcarias daqueles perdidos.
Junto aos católicos não consegui nada. Ninguém quis me dar atenção. O padre fez-me um sermão, falou de escândalo. E fui bater nos bares.
No primeiro dia não encontrei um só bêbado capaz de articular meia palavra. E para mim aquilo não bastava. A reportagem da beata eu queria de mil palavras.
– Aquele conhece tudo aqui – disse-me o dono do bar, apontando para um sujeito cabeludo, que cochilava no batente. – É poeta, sabe tudo quanto é verso de cor – informou-me ainda.
– Se me contar tudo em prosa, dou-me por satisfeito – brinquei.
O homem olhou-me assustado e bebeu uma golada de cachaça.
Cheguei cedo no dia seguinte ao bar. E o poeta já havia se servido do quinto copo.
Não sei se ele me contou uma de suas histórias decoradas ou se improvisou a da beata. Não tenho dúvida, porém, de que tudo nele era rimado e metrificado.
Um dia apareceu na cidade um bonito rapaz, um estrangeiro.
E como Maria Efigênia fosse quase uma menina ainda e o tivesse conhecido, por ele apaixonou-se. Meses depois o rapaz foi expulso de Palma. Acusado de dois pecados graves: o de não ser católico e o de seduzir a formosa donzela Efigênia.
Ao saber da expulsão do namorado, a mocinha chorou muito, tornou-se triste, calada, solitária. E como fosse católica e meia, a exemplo de sua família e da maioria dos habitantes da cidade, trocou as brincadeiras por rezas, as amigas pelos santos, sua casa pelas igrejas. Sobretudo pela matriz.
Nesse trecho, o poeta calou-se, bebeu mais e riu.
– Não quer saber mais nada?
Para mim a história tinha chegado ao fim. Mas aquela pergunta me deixou intrigado.
– Conte mais então.
– Pergunte por que a beata freqüentava mais a matriz.
Só havia uma explicação: a matriz é a igreja principal, a maior, a mais bonita.
O poeta chamou-me para um canto e concluiu:
– A coitada da donzela
cria que o amado dela
fosse o Cristo do altar:
quando se punha a rezar,
conversava hora por hora
co’o namorado de fora.

A reportagem não me rendeu nada e até perdi uns trocados a caminho da estação – os mesmos meninos sujos me pediram para levar a maleta. Talvez fossem aqueles que apanhavam dos pais por só terem uma diversão – a beata.

(Continua)