NAVEGADOR (3)
(Continuação)
PROMETEU
Os galos cantam incelências
pelos homens em sono
e se danam a me atormentar,
feito aqueles demônios
que durante cem anos
minha mãe não pôde espantar.
Primeiro Galo
Nenhum deus te fará dormir
nem ter o sossego de nada ouvir,
por mais fibras que tenha tua rede.
Segundo Galo
Mulher nenhuma te fará sonhar
nem ter o sossego de nada querer,
por mais telhas que cubram teus olhos.
Terceiro Galo
Não adianta voar
sobre os muros de ti,
por mais que eles estejam
a te cercar o quintal.
Quarto Galo
Nenhum passo te fará andar
nem ter o sossego de não caminhar,
por mais longas que sejam as ruas.
Quinto Galo
Nada nenhum te fará existir
nem ter o sossego de não prosseguir,
por mais infinito que seja o mundo.
Sexto Galo
Sossego nenhum te fará escutar
o canto do canto do galo dormido,
por mais acordada que esteja tu’alma.
Sétimo Galo
Não adianta dormir
na rede de deus,
não adianta sonhar
com os olhos da outra.
Não adianta andar
pelas ruas passadas,
não adianta existir
no mundo do nada.
Não adianta voar
sobre os muros de ti,
não adianta escutar
tu’alma cantando,
que eu sou o demônio
a te atormentar,
o mesmo danado
de cem anos atrás.
Sou tua mãe torturada
que não pôde espantar
o galo impertinente
no quintal da sua vida.
SOMBRAS
Não foi de brincadeira
que subi às telhas
pelos punhos da rede
para avistar o mundo.
Foi só para fugir ao frio
que me atormentava.
Ou por obra da chuva
que em minh’alma caía?
Lá está o velhinho
que cedo pediu esmola
pelo-amor-de-Deus.
Dorme na coxia,
onde cuspi.
Tanta coisa
que eu não sabia existir!
Mãe, me tira deste precipício,
que estou vendo o mundo de cima,
e uma sombra triste
me invade a alma.
INDEFINIÇÃO
O homem não é sua sombra
por mais que assim queira a luz.
Nem o cachorro sarnento
é sua pálida sombra.
Nem a mais cálida árvore
é sua sombra soberba.
Não são os contornos do homem
a sua essência, sua alma,
e muito menos seu todo.
Há, entre a luz penetrante
e a rarefeita e delgada
sombra estendida, o cachorro,
a imóvel árvore presa,
há o homem livre e liberto.
Há no princípio luz-alfa,
como há no fim sombra-ômega.
A própria morte talvez,
ou sua véspera vil.
E aquele homem mortal
antes da sombra dá luz.
RESTOS
Onde está Catherine Deneuve?
Quem sabe de Richard Dehmel?
Como era o rosto dela?
Quem leu os poemas dele?
E os olhos dela na Bela da Tarde?
E os versos dele nos Dois Seres?
Não, não me lembro de nada,
de beleza nenhuma deles,
nem de olhos nem de versos.
Também não me lembro mais
de Tristana nem de Nietzsche.
Aliás, nada restou daquele tempo,
nem da vida que passou,
a não ser a dor de ter sonhado.
VINGANÇA
Restou-me essa candura de mulher perdida,
a mim que nunca prostíbulos visitei.
Imaculado, ao largo deles transitei,
pra ser sempre donzel ao longo desta vida.
Porém meus sonhos já morreram, e destruída
a fantasia vejo: o que não alcancei,
aquilo que perdi, aquilo que não sei,
a porta da entrada, a porta da saída.
Nada me resta mais, nem mesmo a esperança,
atado que fiquei a tudo o que é passado
– meu altar, onde estou posto, onde me adoro.
No entanto, ainda resta a mim uma vingança
– a de sorrir do mundo e me sentir vingado.
... Mas quando chega a noite eu me entristeço e choro.
CHORO
Antigamente eu ouvia
Jacó do Bandolim
e nem me lembrava do
passado.
Hoje ouço de novo
os choros dele.
E nem sei se os ouço,
tão sem ouvidos estou,
como se apenas ouvisse
uma valsa de antigamente.
VOZES
Alguém cantava.
Onde está o rádio?
E a voz do cantor?
Não, agora fala o locutor.
Tagarela sem parar.
Olho para o nada.
Faz silêncio.
O locutor talvez tenha dormido,
repentinamente,
embriagado com a própria voz.
E eu, onde vou ficar?
Esperando pelo fim
do sono dele?
ASTRONOMIA
E a minha mágoa de hoje é tão intensa
Que eu penso que a Alegria é uma doença.
Augusto dos Anjos
Morreu meu derradeiro sonho vão
naqueles olhos cor de tempestade,
naquele adeus que naufragou meu ser.
Minha ilusão partiu pela janela
e se perdeu nos céus da escuridão,
fugido pássaro de si criado,
anjo talvez, noturna sombra informe.
Agora sou apenas cidadão,
mero sujeito do objeto mundo,
olhos abertos para me viver.
Porém persiste ao meu redor a noite
– escuro céu, estrelas apagadas –
e um som de dor ou de loucura vibra
nos meus ouvidos, sem nenhum sentido.
CANÇÃO SEM RIMA
Amigo, a vida é isso mesmo,
essa cerveja que nunca
acaba, sempre sonhar;
essa música suave
de Chopin, noturna e vã;
esses versos de Drummond:
"Eu preparo uma canção”.
Não há rima pra teu nome
em nenhum dicionário
português, russo ou francês.
O que há é a vida, amigo,
algum poeta esquecido
que se chama Carlos, Jorge,
Vladimir, Mário Carneiro.
E, se houver, se rima houver,
que importância ela terá,
se disso a vida não passa?
– a cerveja da amargura,
música que nunca acaba,
dúvida de poesia.
OS DIAS LONGOS...
Os dias longos nunca pressentidos,
as horas leves sem nenhum porquê,
e tudo passa por nossos ouvidos
na vã rotina desse andar sem ver.
E assim se passam e vão as primaveras,
e as ilusões e as fantasias mais,
os devaneios pueris, quimeras,
e os sonhos de outros sonhos – carnavais.
A dor existe densa, adunca, oblonga,
e nenhum deus será capaz de dar
esse prazer que é tão-somente sonho,
como o de Sísifo na eternidade.
DEUS
Mil vidas trago em mim,
talvez milhões, bilhões.
Sou deus povoador.
E penso e invento e, assim,
posso habitar o mundo,
outros mistérios dar-lhe,
cheios de fantasia,
barbaridades, crimes.
Sou responsável pela
sobrevivência humana,
perpetuação da vida,
por todos os mistérios,
por sua fantasia,
pela barbaridade,
pela beleza dela,
por deuses e por vidas,
por dores e por mortes.
Mil vidas trago em mim,
talvez milhões, bilhões.
Sou deus e sou eterno.
O REI
O besouro disse ao céu:
minha vida dou, darei,
se me deres já teu véu,
me fizeres rei, teu rei.
O Infinito respondeu:
ó pequeno ser, eu sei,
todos querem ser como eu,
e fazer a norma, a lei.
Contudo no mundo meu
pequenez é regra, é lei,
e o limite sou... sou eu,
infinito sou, sou rei.
ALMA
Ó meus amigos
que rimos e choramos solidários:
nossalma triste não vale a tristeza,
nem a alegria que trazemos nela.
Noss’alma não vai além da vida,
por mais que dure a inocência
ou a dor de ser mortal, de carne feito.
Nossa pequenina alma
não cabe sequer dentro da lágrima
ou do brilho dos olhos de quem ri.
Nossa alma, meus amigos,
é o desespero vão
de não podermos rir do próprio fim.
AMARGOR
Pois hoje estou piegas como nunca,
talvez por culpa da cerveja amarga,
talvez por culpa desse eterno tempo
que me deixando vai mais velho e só.
Acabo de chorar algumas lágrimas,
pensando em minha mãe e em meu passado.
As suas mãos calosas de labuta
e tão macias quando me tocavam.
Meu choro parecia riso, e era,
tão sem razão eu fui e ainda sou,
embora seja o mesmo o mundo, e fosse.
Mas basta de saudade, amigo velho,
não tenho culpa dessa pieguice.
A culpa é desse amargo e eterno tempo.
PASSAGEM
Que importa
se é de ouro
ou madeira
a porta
por onde passam
o garimpeiro e o lenhador,
se o que sentem ambos
é não saberem
aonde vão?
A FALA DOS INCENDIADOS
Não incendiei a boca
para queimar a palavra
que me pregaste aos lábios;
antes, esfreguei nos dentes
o dentifrício das manhãs
– atalhei o grito
e o transformei em verso.
Não incendiei a boca
para rasgar a roupa
que me coseste ao corpo;
antes, pendurei ao pescoço
a gravata burguesa
– escondi o peito
e o colori de samba.
Não incendiei a boca
para vomitar o pão
que me lançaste ao estômago;
antes, embranqueci a língua
com o leite magro
– embrulhei a úlcera
e a desmanchei em tédio.
Não incendiei a boca
para descalçar o sapato
que me ataste aos pés;
antes, guarneci-os de botas
para o passo certo
– livrei-me do abismo
e me tranquei em mim.
Não incendiei a boca
para dar fim à dor
que me plantaste à vida;
antes, sufoquei-a nas mãos
para me fazer poeta.
RAZÕES PARA SE LIBERTAR
Um homem se elimina
não por ter um revólver
e sua mão.
Um homem se extermina
não por ter uma corda
e seu pescoço.
Um homem se aniquila
não por ter um veneno
e sua boca.
Um homem se desfaz
não por ver as alturas
e ter seus pés.
Um homem se liberta
por todas as razões,
quando não mais suporta
as mãos e seu pescoço,
seus pés e sua boca
– a vida vã.
DESTINO
Irônico destino o de um descrente
– morrer e ser velado na capela,
sisudo padre velho à sua frente,
e as orações, o incenso, o choro, a vela.
Como quem morre solitariamente
e se sepulta feito uma cadela,
depois de ser por toda a vida crente,
enclausurado santo em fria cela.
E na verdade somos pura ossada
– fulgor nenhuma vela nos dará,
na vastidão do nunca mais da morte.
E na verdade somos todos nada
– nenhum incenso nos perfumará,
por mais que chorem nossa amarga sorte.
SOU A LETAL SERPENTE
Sou a letal serpente que te pica
de forma traiçoeira, quando pisas
o chão de teu caminho, distraído.
Sou tua víbora pequena e vil,
sou teu veneno, o que te mata cedo,
que pouco a pouco te eliminará.
Sou tua perdição, tua ruína,
teu fim mais trágico, mais melancólico,
embora não percebas nada, nada.
Tua bebida predileta sou,
meu iludido ser de dores feito,
do rude barro da humanidade.
A MORTE NÃO TARDA
Eu todo dia me consumo e morro
frente ao espelho, à lâmina afiada;
o olho assassino fito no outro olho,
os lábios mudos, trêmulos, sedentos.
Eu me aniquilo, friamente, sempre
com a faca fina que recorta o bife
e me sufoco em taça de cristal,
o gim nostálgico e o gole frígido.
As roupas penduradas no varal
me lembram corpos que se enforcaram.
Sombras que passam pelos carros são
restos de transeuntes que tombaram.
Do arranha-céu me lanço em vôo de circo,
como num sonho repetido e vago,
onde os abismos não tem fim nem meio
e eu fosse frágil pena em queda lenta.
Eu todo dia me castigo e puno,
olhos abertos para meus suplícios,
o tempo lesto a repassar por mim
e a me avisar que a Morte já não tarda.
CAVALO NEGRO
O cavalo da morte toda noite
passeia pelos campos, pelas ruas,
em trote de cadência musical.
Ele relincha, endoidecido ser,
como a chamar de todos a atenção
pra sua própria falta de razão.
Tento dormir, busco sonhar, porém
pressinto a ronda do cavalo negro,
a vigiar meu sono, minha casa.
Pulo da cama desassossegado,
fujo do quarto, corro para a noite
e monto, lépido, o corcel fogoso.
Corremos, feito loucos, mas o domo
e pra casa o conduzo mansamente.
Ele adormece ao pé da minha cama
e sonha toda a noite com a vida.
ENCANTAÇÃO
Não me desenterra a crença
pregada no pó dos pés
o Cristo atado à parede
– gólgota de meus temores.
Não me desencanta o fastio
instalado em meu derredor
o rádio ligado ao ouvido
– cadeira de meu cochilar.
Não me suporta o tédio
que exala da boca vazia
a mesa de tantos metros
– pasto de meus pai-nossos.
Não me apaga a brasa
acesa na ponta da língua
o pote que oculta o sapo
– esconderijo de minha sede.
Não me abala a metafísica
encurralada na fronte
o sabugo de milho que muge
– curral de meu quefazer.
Não me sacode a memória
a um passo além da sombra
a lagartixa no muro
– prisão de minha aventura.
Não me sufoca o grito
com que hei de me acordar
o porco estendido na lama
– quintal de minha atenção.
Não me afasta o morto
que teima em me visitar
a rede armada no quarto
– furna de minha febre.
Não me afaga o medo
escondido debaixo da cama
o galo da madrugada
– poleiro de meu sono quieto.
Não me enxota o demônio
que teima em me espetar
o chão de tijolo frio
– cela de meu caminhar.
Não me contém o plano
de arquitetar a mudança
a casa comprida e larga
– porão de minhas imagens.
Não me acalma o furor
de querer saltar os degraus
a rua, ladeira e pedras
– vereda de minha fuga.
Não me colore o nada
que meus olhos enxergam
a cidade estirada no chão
– país de minha utopia.
Não me descobre a terra
que navegante procuro
esse menino sem jeito.
É UMA VEZ
O papão que derrubava tuas cercas
apodreceu no canto do muro
e agora rompe tua razão.
O caburé que varava teus sítios
despencou em algum precipício
e agora sobrevoa teu tempo.
O cavalo que galopava em teu feudo
acabou bicado pelos urubus
e agora cavalga tuas visões.
O boi que fugia de teu gibão
há muito é apenas ossada
e agora rumina teu passado.
O arado que revolvia tua terra
virou entulho na ribanceira
e agora cava tua memória.
O trem que apitava em tua estação
já não se locomove
e agora assusta tuas noites.
O caminhão que corria tuas estradas
fez-se coisa sem serventia
e agora vaga por tua cabeça.
O brinquedo de sete fôlegos
ainda brinca de faz-de-conta
para te endoidar de verdade.
BALANÇO
Enquanto cresce teu património
e teu futuro é mais promissor,
de carimbos me cerco, e papéis,
olhos fitos no chão prometido.
Enquanto bens e bens avolumas,
em debêntures, bônus, apólices,
eu rabisco faturas pra ti,
e duplicatas e promissórias.
Enquanto atulhas tua fazenda
de valores, ações e riquezas,
eu penhoro a minh’alma nos bancos
da eternidade com devoção.
Enquanto mais garantes fortunas
e hipotecas ao redor de ti,
escrituro promessas de fausto
e endosso a morte para depois.
Enquanto alargas a Canaã
e a ganância duplicas, triplicas,
serenamente conto e reconto
os grãos maninhos do meu fazer.
Enquanto, farto e são, te deleitas
no vasto leito da mais-valia,
eu me prolongo nesse tormento
– operário de coisas inúteis.
PRETENSÃO
Quero deixar meu rastro,
meu pé no chão gravado,
uma qualquer pegada,
minha sombra talvez.
Não quero partir em vão,
como a fera que se vai
sem presa alguma pegar
– ave de rapina débil
que ninho nenhum destrói.
Quero deixar meu longo grito,
feito um trovão de ensurdecer,
gravado inteiro nos ouvidos
desta floresta de meus dias.
Não quero a vida deixar assim
tão docemente, como se fosse
ao bosque andar e nele morar.
Quero voar pro Nada, sim senhor,
porém de tudo quero um pouco, mesmo
da dor, porém da dor de ser, da dor
de não ficar e eternamente ser.
APOCALIPSE
Estrelas se apagaram dos cinemas
na grande noite de terror nos céus.
Revoluções e heróis morreram todos,
viraram suvenires, camisetas.
Deus está morto, desaparecido,
veneram todos automóveis caros.
Além, no horizonte, nada resta,
nem o infinito, nem a esperança.
O amor é sem sentido, só palavra
– nem vale a pena se matar por ele –
e amar é verbo sem declinação.
A eternidade apodreceu no charco
e nenhuma ilusão sobreviveu
ao nosso apocalipse final.
TESTAMENTO
Deixo meus teres, meus haveres todos,
minhas migalhas, trastes, bugigangas
para os museus de minha terra pobre.
Deixo meus livros, meus cadernos velhos
para as crianças, quem quiser viver
as emoções que a vida me ofertou.
Deixo meus versos, minhas rimas pobres
pros namorados mais apaixonados
e pros desesperados mais sinistros.
Deixo meu próprio desespero inútil
para abalar o dia-a-dia fútil
dos sossegados mais amordaçados.
Deixo o amor mais amoroso e puro
para a mulher mais bela e mais difícil
– a ninfa branca de meu bosque escuro.
Minha amargura deixo repartida
em cada taça reluzente ou baça
dos tristes seres que jamais gargalham.
A solidão mais minha deixo dada
para os que nunca sós viveram, foram;
para a ciranda, a festa, o carnaval.
Minha descrença lego piamente
aos pobres e iludidos pela santa
igreja madre do menino-deus.
E finalmente deixo minha vida
para os mortais iguais a mim, e aos vermes
– a doce vida amarga que adorei.
EPITÁFIO
Aqui jaz quem sempre se sentiu
apenas um punhado de ossos
e carnes organizados,
que um dia seriam repasto
de seres menores.
E nada mais é,
a não ser lembrança.
Logo nada será,
nem mesmo um ex-ser,
a não ser parte do Nada.
(FIM)