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NAVEGADOR (2)

(Continuação)


ODISSÉIA INTERIOR


Sou como aquele antigo Ulisses grego
que se perdeu nos mares tormentosos.
Porém nos mares de mim mesmo fui
Perder-me para sempre, eternamente.

E sucumbi nas minhas tempestades,
nas minhas noites negras me perdi,
nos meus abismos todos me afundei
– navegador da solidão de ser.

E mais herói que Ulisses já me sinto:
ao solo pátrio não voltei jamais,
não regressei ao doce lar paterno
e aos pés de minha amada companheira.

Perdido estou, permaneci, fiquei
no vasto mar deste inquieto ser.
E enfrento monstros nunca imaginados
e ouço cantares de mortais sereias.

Mas já sem forças, exaurido e morto,
e já sem fé, sem esperança, nada,
sinto chegar ao vão rochedo bruto
de onde parti valente como Ulisses.


LANGOR

Oh! eu preciso ser como os poetas,
não como aqueles que florejam tudo,
até jardins e paraísos vãos,
mas como os langorosos, doentios,
de almas escuras e a calvários presos.

Ah! sobretudo quando chove, e o vento
sibila e geme e chora e vai e vem,
e mais ninguém me vê, me fala e sente.

Oh! Eu preciso ver além de mim
– estrelas, noites, infinitos, deuses –
e fazer versos como quem se vai.


PINTURA ABSTRATA


Agora estou mais lúcido que nunca,
não penso mais no pobre Canaletto,
em sua fome de pintor sem posses,
pintando barcos e Veneza antiga
por dez moedas de sobrevivência,

Agora estou tão lúcido que vejo:
com nitidez o copo com cerveja
e as bolhas brancas a contrariar
a lei da gravidade elementar.
Vejo também perfeitamente a sala:
sofás modernos, quadros modernistas
e a muriçoca que voeja doida
pelo meu sangue nada azul-celeste.

Estou mais lúcido que a lucidez
e um choro de Jacó escuto longe,
como se a música soasse dentro
de meus ouvidos, de minh’alma triste.

Não penso mais naquelas ninfas gregas,
nos mil amores dos antigos tempos.
Agora sou do novo tempo filho,
que ri do amor, do pobre Canaletto
e do passado seu recente e vão,
como o pintor que pinta a própria dor.



MINH’ALMA É RIO...

Minh’alma é rio, correnteza, fúria,
águas e pedras e um destino – mar.
Serenamente desce ou brame e ulula
e, se perdendo, aIém se vai achar.

Escorre feito sonho adolescente,
saltita e corre – pândego menino –
faz rodopios como uma serpente,
rega o destino – Nilo e peregrino.

Minh’alma é rio em selva originado,
um refúgio de mitos isolado,
que em mares turvos se deságua e inunda.

No entanto, é espelho onde se mira e afunda
como um Narciso que se apavora
e por si mesmo e pelos outros chora.


MEUS MORTAIS DESEJOS

As minhas armas não têm gumes, pontas,
não são de fogo, não são brancas, negras,
nem babilônicas, romanas, persas.

Se ferem, se perfuram, se dão morte,
é tão-somente porque existe quem
se fira, se perfure e mesmo morra
com as armas mais sutis, as mais diversas.

Se queimam, se baleiam, se dão fim,
é tão-somente porque existe quem
se queime, se baleie e mesmo finde
com as armas mais viris, as mais perversas.

Eu não desejo morte, ou dor ou fim,
que apenas sou manejador de versos,
de sons, palavras e mortais desejos.


NAVEGADOR

Meus olhos cegos, que não vêem naves,
navegam pelos mares das tormentas
– perdidos barcos, rotos, sem timão.

Meus olhos mudos só vislumbram vagas,
doida babel de tempestades feita,
monstros marinhos, oceano largo.

Meus olhos surdos só conseguem ver
cantos de dor, de morte e solidão,
a minha própria imensidão de ser.



DOR

Não tenho mal nenhum, senhora minha,
como se fosse puro, imaculado,
como se fosse um anjo, um serafim,
como se fosse deus, imune à dor.

Eu nada sinto, dor nenhuma tenho,
quer na cabeça, quer no amargo peito.
Não tenho mal nenhum, senhora minha,
perfeitamente são me sinto, e puro.

Se existe mal em mim, se existe dor,
é a de morrer tão cedo, a pleno sol,
envelhecer como qualquer mortal.

E a dor maior, minha senhora bela,
é dentro dalma, bem profunda e aguda,
a dor chamada angústia, a dor de ser.


QUEIXA

Efêmera existência,
cadeia de ilusões.
A mais fundamental:
a de ser, como se é
– bolha no espaço solta
e que vãmente espouca.

As outras, mais concretas,
fazem de cada um
apenas exemplares
de bichos maquilados.

Porém, quando cuidamos,
tudo termina em nada,
tão ilusoriamente
como uma queixa efêmera.


BANQUETE


Sempre que nos sentamos
para a ceia da morte,
enquanto os outros rezam
ou se babam de medo,
eu transformo pedaços
de bois, leitões, cabritos,
aves em seios, coxas,
nádegas femininas.
Veneram o esqueleto
de Cristo feito em gesso
e eu vejo nuas virgens
e, incontrolado, gozo.

Sempre que nos sentamos
a imensa mesa de ébano,
desvairado, só vejo
as pernas das convivas,
e sonho outro banquete:
sensíveis carnes brancas.

E me chamam de verme.


AULA DE BIOLOGIA

Ó vis insetos da desordem – bichos
que matam, que devoram seus irmãos,
outros insetos pequeninos, vãos –,
ó seres desumanos, vermes, lixos.

Caros amigos meus cheios de pose,
tão perfumados, tão galãs de festas,
nós não passamos de insetos bestas,
como a barata da Metamorfose.

Nós somos como os animais pequenos,
como os pulgões, como os besouros mais,
matéria viva, pedra mais ou menos.

Ou vós pensais que sois arcanjos, deuses,
como os eternos gregos imortais,
daqueles tempos míticos de Elêusis?



AULA DE BIOLOGIA (II)

Ó insetos da desordem,
depredadores vis
que matam e devoram
outros insetos pequeninos
– seres desumanos e cruéis.

Sim, meus irmãos galantes,
tão perfumados, belos,
nós não passamos de insetos,
como aquela criatura
criada por Franz Kafka.

Amados irmãos, nós somos
animais inferiores,
pulgões, baratas, homens.

Ou vós pensais que sois
arcanjos, deuses, infinitos,
como os gregos imortais
de antigamente?

Alguns de nós, casualmente,
fazemos música
e escrevemos poesia
– insetos superiores.

Mesmo assim,
vivemos e morremos
como os demais seres pequenos,
pois disso não passamos.



CENA DOMÉSTICA

Havia um porco no quintal da casa
e estava morto sobre o chão e só.
Voavam pelos ares muitas moscas,
como a querer comê-lo, devorá-lo.
Havia ainda abelhas a voar,
e aranhas lentas nas paredes sujas.
Havia nas pessoas velhas, toscas,
canina fome, como a dos insetos.
Havia dor em toda parte, e banha,
assim como torresmo e alguma sanha.
Havia em mim uma vontade enorme
de não ser gente como aqueles vermes,
de não ser mosca e muito menos porco.


ELEGIA DA MEIA-IDADE


Ter quarenta e poucos anos
é sofrer que nunca finda.
Eu queria ter quatorze,
talvez vinte ou mesmo cem,
nunca, nunca quarent’anos.

Ter quarenta e poucos anos
é todo dia morrer.
Eu queria ser menino,
ou rapaz ou mesmo um velho,
mas nunca ter quarent’anos.

Ter quarenta e poucos anos
é sofrer perpétua dor
toda feita de saudade.
Eu queria ser menino,
ou rapaz ou mesmo um velho.

Quem me dera não ter nunca
meus quarenta e poucos anos.


REFLEXÕES

Toda a cidade dorme, sonha, e eu
a meditar não sei em quê, não sei.
Isso parece até um desatino,
eu que a razão venero, amanho e sorvo.
Ora, não pode um homem ser assim:
passar dias e noites desse jeito,
a ver a própria vida consumir-se.
A menos que não passe tudo, ou nada,
de simples brincadeira de criança
– o sonho, o tempo, o ser, a vida enfim.



PERSONA

Faço de conta que estou triste.
Chego a chorar, a me cobrir
de prantos, como um sofredor.
E, para mais fingir, ao fogo
me atiraria, em desespero,
não fosse o medo de morrer.
No entanto, apenas me entristeço,
se me imagino lacrimoso.
E apenas choro, quando a dor
eu busco, e apenas me atormento,
quando meu fim me prenuncio.
Então simulo que sonhava
ou estou sorrindo, como quando
de ser senhor de mim brincava,
e dos meus próprios devaneios
– outro iludido fingidor.


ILUSÕES

Qualquer cantor cantava, e a bebida
posta na mesa está, tal como peta,
para enganar o bebedor e a vida,
que suga o leite em sua própria teta.

Nesse comenos, e de lida em lida,
o tempo escorre-se pela caneta,
vira qualquer assunto, qual comida,
e o bebedor se vai feito cometa.

E a diferença entre lombinho e espeto,
se entre ambos se intromete o sono,
que comumente torna-se soneto?

E mentirosamente sobre a mesa
Debruça-se um sujeito, vero dono
de sua vida – essa coisa tesa.




SOU TUA PRAGA...

Sou tua praga, sou o veneno teu,
sou a lagarta na lavoura tua,
sou tua companheira mais noturna,
sou tua concubina preferida.

E sou teu líquido, eu sou teu fel,
sou teu perfume da devassidão,
teu combustível sou, teu alimento,
tua morfina, teu delírio vão.

Em tua vida e em teu sonho sou
Quixote, santo, protetor e Deus.
Sou causadora de teus ais, gemidos,
e de teus gritos e de teu silêncio.


DOMADOR

E essa cabeça dura,
teimosa, olhando além do lombo,
esses pés inquietos,
sofridos, pisando em brasa,
esse corpo pesado,
dormente, estorcendo-se na cama.

De que adianta
escancarar a boca,
como porta de igreja,
se dentro a descrença
bate contra o teto,
desassossegado morcego?

Se não é possível
bordejar de novo
o primeiro gemido,
quando essa palavra torpe
não passava de invenção
de menino-prodígio?

Calo-me, feito um bode mudo
que não esqueceu de remoer
as próprias vísceras,
teimosas, presas aos dentes.

E mordo o travesseiro
– animal travesso –,
chuto a sombra
– doido varrido –,
aperto a cabeça
para domar essa coisa
que me atravessa a vida
como a ferrugem da faca.


DUPLO

À meia-noite
sonho em pular
do décimo segundo andar
e me espatifar
no chão da rua.
De manhã,
pulo da cama,
íntegro, como nunca,
e cada vez mais realista.


Ó SOMBRA DE MEU FIM

Meu mal é andar sempre perdido,
no meio da avenida cão,
pobre menino a pedir pão,
aventureiro em selvas ido.

Meu mal é ser no mar arcanjo,
nos ares peixe, tubarão,
na terra o bicho mais papão,
em mim fantasma de outro anjo.

Meu mal é nunca estar em mim,
como se dois eu fosse, ou mais,
da luz reflexo, e de mim mesmo.

Meu mal – ó sombra de meu fim –
é querer luz em vez de paz,
e o Todo que é o Nada e o Esmo.


INSÔNIA

Foge, demônio secular, maldito,
deixa dormir serenamente e só
este menino de ilusões refeito,
deixa-o sonhar seus anjos coloridos.

Pela janela deste quarto foge,
invade a noite e seu silêncio breve,
e esquece este menino sonhador,
que se deitou para sonhar comigo.

Arreda, pois este inocente ser
feito de fantasia é bem capaz
de te domar, de te fazer dormir.

É bem capaz de transformar-te, e já,
num anjo bom, numa mulher, talvez,
e se perder contigo em sonhos maus.


VIGÍLIA

A eterna mulher habita-me a cama
e se enrosca em minha solidão,
quando as quatro patas
chafurdam na lama
da escuridão.

Outra mulher, estranha, alheia,
navega-me a cama
e me encanta a rota,
quando os ventos sopram
na madrugada.

Mulheres sempre perdidas
enchem-me de gemidos a cama
e me saciam os ouvidos
quando volto da guerra
coberto de feridas.

O telhado da noite desaba
sobre essa eterna cama,
quando quero dormir
e a tempestade me colhe.


IMAGENS

Eu olhava para a Lua
e via São Jorge
e um dragão em luta.
Faz tanto tempo aquilo
que ate penso
ser nova a lua de agora.

Olho de novo para o céu.
Ha nuvens, muitas nuvens,
como se fosse desabar
uma tempestade.
E faz frio, muito frio,
ao meu redor.

É como se a lua fosse
uma imagem
dentro de outra imagem.
E eu a imagem
da grande imagem
de mim mesmo.


TRENO PARA HELENA

É teu destino, menina,
ter o nome de Helena.

e nunca de esmeraldina
ou de figura menor.

É dizer que um nome assinas
e por outro ser chamada.


É não viver na Argentina
e muito menos na China.

É ouvir Maria Alcina
em vez de Carmem Miranda.

É não ir de balduína,
nem de bonde, nem de trem.

É nunca ter na piscina
do clube molhado os pés.

É perceber a buzina
e não poder sossegar.

É vestir a musselina
da saia ultrapassada.

É contemplar na vitrina
o vestido de organdi.

É não ter escarlatina
e nenhuma outra doença.

É ter em cada esquina
vigias de teu viver.

É escutar a mais ferina
das línguas bisbilhoteiras.

É consumir aspirina
a qualquer dor de cabeça.

É sofrer de mão felina
o golpe mais traiçoeiro.

É suportar da grã-fina
a fala manhosa e falsa.

É aprender na jogatina
as manhas do pano verde.

É escutar na surdina
o murmúrio da vileza,

É suportar a vacina
do medo cotidiano,

É saber quem contamina
o alimento natural.

É notar quem descortina
o pano da podridão.

É ter noção da doutrina
dos inimigos do povo.

É conhecer a divina
comédia dos nossos tempos.

É disfarçar na cortina
a vergonha e o pudor,

É conhecer a chacina
dos meninos nordestinos.

É ouvir da cafetina
convites para servi-la.

É suportar a batina
do padre concupiscente.

É despejar na latrina
o feto que não geraste.

É engolir a vitamina
da antinatalidade.

É não usar brilhantina
só por seres feminina.

É ser sempre genuína
e totalmente mulher.

É na festa natalina
beber o fel dos aflitos.

É só fugir da rotina
nos dias de alegria.

É fazer de oficina
teu coração de menina.

É saber quem te fascina
de muito tempo defunto.

É saber na guilhotina
teu herói da adolescência.

É ensopar de margarina
o pão de teu assassino.

É acender a lamparina
e a vela de teu velório.

É ter morte vespertina
e virar uma heroína.

É conservar na retina
a mão que te assassinou.

É ter a trágica sina
de morrer numa igreja.



DESVARIO

Não identificados objetos
passeiam voadores pelo vão
da larga sala de meus velhos tetos.
Talvez mosquitos pré-maquiavélicos,
talvez besouros pós-psicodélicos
– almas de bêbados medievais
fugidos das masmorras clericais,
das toscas mãos da Santa Inquisição.

Olho para a pequena acesa lâmpada
e é como se revisse a Lua límpida,
e feito lobo nas estepes gano,
meus olhos fitos no sidarta Hesse.

Mas há no céu qualquer estranha messe,
há no horizonte em tempestade, insano,
as negras nuvens pandas de terror,
um corpo doido em belo rodopio,
minha alma tonta em claro desvario.


CONTEMPLAÇÃO

Para além daquelas escuridões,
cobras destilam veneno
e se entredevoram.
Horror!!!

A beira do precipício,
sondo-me.
Eu, o mais próximo de mim,
pouco me vejo,
tão insondável me sinto..

O meu abismo sou.


O TEMPO

Não passa o tempo lento
que a gente nunca vê.
É como o vasto vento
que passa na tevê.

Frio cedo fazia,
faz agora calor.
Antes tudo doía,
já nem me dói a dor.

Tempos idos sonhei,
ninguém me viu sonhar.
Hoje, que me acordei,
não sei como acordar.

Faz anos fui nascer.
Ninguém me percebeu.
O destino a não ser,
e eu mesmo, apenas eu.

O tempo corre, corre,
e desce, sobe, desce,
e, enquanto a gente morre,
ele desaparece.


DESABAFO

Ao primeiro canto do galo
eu bebia o fel da manhã
que minha mãe me impingia.

À comprida mesa da ceia
eu mordia o pão do silêncio
que minha mãe me doava.

Ao toque das ave-marias
eu rezava o terço da noite
que minha mãe debulhava.

Eu virava bicho-papão
na treva da casa sem-fim
que minha mãe dirigia.

Agora, no meio da vida,
eu canto pra me despertar
feito galo de quintal.

Agora, no meio da ceia,
eu teço rabiscos na mesa
feito menino travesso.

Agora, no meio da dor,
eu rezo orações esquecidas
feito devoto qualquer.

Agora, no meio da noite,
eu grito a palavra perdida
feito visagem no escuro.

(Continua)