NAVEGADOR
(Brasília, Ed. Códice, 1996) Nilto Maciel
Para
Luiz e Francisca,
pais,
in memoriam.
ÍNDICE
Dentro do sempre navegado mar (Laene Teixeira Mucci)
Ser poeta
Nem sei domar meus próprios cães
Sonho
Cantiga do poema perdido
Anúncio
Tempos
Saudades
Herança
Minha canção do exílio
Acalanto
Cavalos a caminho de hoje
Escuridão
Seixos
Odisséia interior
Langor
Pintura abstrata
Minh’alma é rio
Meus mortais desejos
Navegador
Dor
Queixa
Banquete
Aula de biologia
Aula de biologia (II)
Cena doméstica
Elegia da meia-idade
Reflexões
Persona
Ilusões
Sou tua praga...
Domador
Duplo
Ó sombra de meu fim
Insônia
Vigília
Imagens
Treno para Helena
Desvario
Contemplação
O tempo
Desabafo
Prometeu
Sombras
Indefinição
Restos
Vingança
Choro
Vozes
Astronomia
Canção sem rima
Os dias longos ...
Deus
O rei
Alma
Amargor
Passagem
A fala dos incendiados
Razões para se libertar
Destino
Sou a letal serpente...
A morte não tarda
Cavalo negro
Encantação
É uma vez
Balanço
Pretensão
Apocalipse
Testamento
Epitáfio
Dados Biográficos
Bibliografia do Autor
Bibliografia Sobre o Autor
DENTRO DO SEMPRE NAVEGADO MAR
Laene Teixeira Mucci*
Este é o espaço poético de Nilto Maciel. Local e tempo. Dele nos inteiramos, nele penetramos, nos banhamos em seu amanho de rio – e nos identificamos ou não, com a matéria (corpo/alma) de seu belo sensível. O campo poético não se encontra fechado – possui muitos braços prendedores, pernas distendidas para o longo alcance e um grande peito que se entrega e recebe proximidades e lonjuras, todas elas atuando sedutoramente. Está presente em uma ação polarizadora, que imaniza, completa e parte, e estremece, a unidade mistéria – pélago, ninho, volume e superfície, profundez e comprimento, condensação de nuvens... Para caminhar sobre um espaço poético, é mister usar calçados leves ou pés levitados e descalços, ou nem uma coisa nem outra, senão o movimento rítmico de um perpasso de alma. Nilto Maciel nos perpassa de alma pela visão interna e externa, mágica e transformadora, de um Poeta que permite solver e dissolver em suas retortas de vidro frágil, seivas de girassol e trevo proibido, fundir em seu alguidar de barro sibilante, o líquido suspiro da hematita e da libélula. O Poeta tem “os olhos cegos de não-ver; os olhos mudos vislumbradores da loucura de uma babel tempestuosa em oceano largo; os olhos surdos, que não escutam – vêem cantos doloridos e assustados de morte e solidão...” e como se não bastasse, a “própria imensidão de ser...” Suas palavras tentam traduzir enigmas congênitos em suas redomas e labirintos inarredáveis e conspiradores. O Poeta compõe seus versos de milagre profundo, mergulhados numa humanidade atormentada, por vezes contraditória em figurações características. Não se digladiam – colocam-se esses pontos de procura, quiçá de encontro, em porções e camadas que se amontoam e se revezam, pesadas e leves. São olhos que se lançam e só se apaziguam doloridos na última visão – a da terceira estrofe – dentro da vasta praia erma – região/país/continente – longínqua/próxima, de ser; de ser, de ser...
A força do decassílabo, principalmente heróico, é o suporte, aporte – para o conteúdo emocional que soa e traz até nós forças e fraquezas exacerbadas de um Poeta – aquele que “faz versos como quem se vai...” Se lemos e ouvimos Nilto Maciel, percebemos a insistente batida de sua linha poética que se determina inequívoca em suas unidades de sílaba, vocábulo, palavra, verso, estrofe e, finalmente, poema. É importante que ouçamos o som de sua passada e voz, o toque de seus pífaros e púcaros, o canto dos faunos e sátiros, náiades, ninfas, sílfides e sereias, que o habitam e perseguem. Apenas duas rimas declaradas inteiras: a) sem timão e solidão – (sintagma semântico de algo dizível/indizível...(?) – à considerável distância de um terceiro a um oitavo verso; b) ver e ser. Se por um lado outras rimas não se manifestam consoantes, por outro, nada impede que se faça um equilíbrio sonoro o tempo todo, e se registre uma harmonia duradoura no texto “Navegador”, harmonia essa que se desprende dos blocos fonéticos. Podemos chamá-la de rima harmônica, nascida e ouvida, através da sensibilidade, como respiração e transpiração de cada estrofe.
O poema está armado sobre reservas de profundidade, centrado em três pares de olhos que alcançam, primeiros, segundos e terceiros, áreas que aturdem em sua tormenta, com seus monstros e vaguidão, com sua solidão e morte, através de uma cegueira, de uma mudez e de um ensurdecimento, com certeza, de vaticínio. Nem um vocábulo perdido em sonoridade, nem uma palavra desperdiçada em formação e idéia. São versos corajosamente declamados, arrematados por uma reflexão que se detém constatadora e final. O ânimo está vigilante durante quase todo o texto e cede esse lugar de vigília à permanência que pertence à alma, na frase que a tudo define : “...imensidão de ser...” As imagens que nos chegam de um campo poético vêm com o poder de iluminar todas as reclusões da complexa criatura que somos em nosso tropel de eus. Vêm soltar, muitas vezes, nossas fantasmagorias, desnoitadas e madrugueiras, dançarinamente filtradas de lua. Vêm sem procedência e a explicação que lhes dermos poderá tocar de rápido nos detalhes minúsculos que nem de perto correspondem ao corpo inaugural desse campo. Para tal, as imagens hão que ser poetizadas – provindas, escorridas dessa fonte que não pára de jorrar, desse mar que não se basta, dessa pedra que mina o fio da água maravilhada. Trazem o próprio rosto, um rosto que não é de mais ninguém, feição e fotogenia, nuances e variações de seu corpo flexível e de sua alma navegada e navegadora.
Nunca terminamos de ler os belos poemas. Vamos até eles, retornamos, adentramos, mergulhamos em seu caudal de inspiração, colhemos algas e sargaços, conchas nostálgicas e rendadas, as mãos escorrendo de areia, flores boiando aleatoriamente... De cada vez que vamos, em cada vez que estamos, existe algo de novo ou de antigo para registrar mais, descobrir redescobrindo – nervuras de cartomancia, fetiches lunares, polidas unhas esmaltadas, revigorado velho coração... Do mesmo jeito que chegamos ao poema, ele chega até nós, nos incomoda e atinge, aloja-se no bolso do culote, pendura-se na lapela como adereço sinalizador e xifópago... Isso quer dizer que o belo poema atrai sempre, chama muitas vezes, eletriza e deslumbra, convida ao devagar, ao navegar, ao patrulhar caminhos/descaminhos de seu Poeta.
“Navegador” é um texto curto em seu tamanho físico, e desdobradamente longo em seu percurso poetizador. Haja pés e chão pra se tocarem velozmente! Ora é pelo som que o poema age, ora pela idéia, ora pelo não-se-sabe-o-que-seja. Tudo muito solto e preso na gente, sem proezas de intelectualidades: intelectualizar a Poesia é amordaçá-la, algemá-la até, privá-la de seus espaços de libertação... “O conceito dando estabilidade à imagem poética iria asfixiá-la...”O Poeta nem sabe que sabe, e às vezes nada sabe mesmo de contábil e lúcido, desconhece fórmulas e gráficos, extensões e capacidades, velocidades de som e luz... porque o que sente – sente por inteiro, e o abrasa e pacifica, desconforta/conforta, inebria, com suas porções de ar e fogo, seus elixires controversos, transparentes/alucinógenos de água e lua. A busca de expressão é sua guerra/paz que, dessa ou daquela maneira, ajeita sua alma e tenta alcançar aquela de quem lê e ouve. O sonho do Poeta é comum por um lado, porque é mortal e humano, de pura labareda e barro, pó; e incomum do outro, quando convida a ir além de além, ultrapassando normas e barreiras iguais de um cotidiano óbvio. Seu espaço é diferente dos demais e nele, Poeta e sonho se infundem, se confundem, intersolvem e coexistem sensivelmente invisíveis. Para chegar a esse extremo tal de devaneio, não há que se aparelhar de projetos e projetis...Simplesmente é o deixar-se, o consentir-se – sob sentidos apaziguadores guerreiros em uma comunhão total. Trata-se aqui do silêncio da Poesia, que confere a si mesmo o poder de pairar e transcender completamente – naquele que o experimenta.
O título do texto de Nilto Maciel dá nome ao livro a que pertence. É frase temerária, concentrada nominal, sincronicamente adjetiva e substantiva, derivada indiscutível de um termo verbal ao qual se acresce a determinação do sufixo agente – dor (aquele que age...no caso, aquele que navega e dirige sua embarcação – nave/corpo-espírito, através da amplidão do território surpreendente e vário do todo-existir). Visto por outro prisma, o título, nos oferece a possibilidade de um encaixe para duas peças diferentes: navega (verbo) e dor (substantivo-núcleo do sentimento/molde para o sofrimento...) E um acalanto de oceano conduzindo as duas...
Idéias e sonhos amparam os versos do Poeta e neles se inscrevem. Não podem ser radicalmente fortes, romantizadamente fracos e pueris, porque se perfazem e levam consigo o espírito da imaginação, que é titereira, sim, mas não escraviza nunca. Pelo contrário, irá libertar os dois, luminosa e oniricamente, em suas propostas fiéis. Refugiam-se no verso e se salvam, porque esse verso irá recebê-los em seu amplexo e colo de poema, idéias e sonhos que possam crescê-lo no desempenho de infinito.
*Laene Teixeira Mucci, professora aposentada de Português e Francês, nascida em Ponte Nova, Minas Gerais, 1928, publica seus livros artesanalmente.
SER POETA
Ser poeta é ter no peito a tormentosa
chaga funesta em ânsias retratada.
É ver em tudo a forma mais formosa
e num sonho incensar a coisa amada.
É sentir todo o tempo a melindrosa
alma do riso em pranto mergulhada
e querer, versejando ou mesmo em prosa,
dar forma ao sentimento que por nada
o priva do prazer e mais maltrata.
É mergulhar em tudo de repente,
é ser um deus alheio ao paraíso.
É ter fortuna, mais do que ouro e prata,
guardada para o sonho preso à mente
— ser entre o tudo e o nada algo indeciso.
NEM SEI DOMAR MEUS PRÓPRIOS CÃES
Para imitar o imortal Camões,
precisaria ser, meus cidadãos,
mil seres juntos, ter mil corações,
hidra gentil – cabeça, tronco e mãos.
Porém sou pobre, sem nenhuns tostões,
vivo perdido em devaneios vãos,
e sem botinas, becas e botões,
como esses loucos que se crêem sãos.
E velho estou, cabeça toda em cãs,
como meus pais, avós, as minhas mães,
as utopias, ancestrais e vãs.
Talvez pudesse ser padeiro – pães –,
tecer mortalhas – panos – doutras lãs,
porém domar nem sei meus próprios cães.
SONHO
E eu, que sou rei, porém rei
desta incoerência, quebro
copos de fino cristal
e rio da sisudez
dos inúteis soberanos.
E fujo para o quintal
de mim mesmo – sujo e puro –
e ergo altar de pedra tosca
para o deus da hediondez.
No quintal planto a semente
da brandura, mansidão.
Duro chão de minha tez.
Após, me elevo e debando
para o céu da fantasia.
CANTIGA DO POEMA PERDIDO
O verso que não escrevi,
levado em bolhas pelo vento,
coitado do meu pensamento!
O poema que se perdeu,
desbaratado pela fome
do despeito qualquer, sem nome.
Apenas pedaços de mim,
instantes fugidios, vãos,
mero abanar de minhas mãos.
Um verso a menos, nada mais,
poema desaparecido,
palavra sem nenhum sentido.
Serei o mesmo sonhador,
do mesmo jeito morrerei,
com a mesma dimensão irei.
Se o verso tal não rabisquei,
vivi o instante, o tempo, a vida
– e ela pra mim não foi perdida.
Ninguém nada perdeu com isso,
se o verso desapareceu
– coitado dele que morreu!
E quando eu desaparecer,
levado em bolhas pelo vento,
coitado do meu pensamento!
ANÚNCIO
Por secreto motivo indizível,
Oferta-se a preço vil, barato,
caderno limpo, muitas folhas brancas,
no qual um doido escreveria versos.
Sigilo absoluto, sob jura,
dos versos nunca escritos no caderno
pede o poeta a quem quiser comprá-los.
Principalmente os versos mais formosos,
versos de amor, de vida, morte e dor.
Aceita-se qualquer oferta boa:
fazenda em Minas, gado, pasto verde,
ou pedras preciosas de Goiás.
Qualquer dinheiro de valor no mundo:
dos alemães, franceses, japoneses,
milhões de dólares roubados cá.
Só não se aceita aquela vil moeda:
a do silêncio dos sepulcros rotos.
Interessados – se houver algum –
devem se dirigir, sem mais tardança,
à rua próxima do cais do porto,
onde há navios, barcos e veleiros
repletos de poetas esquecidos.
Corram, leitores curiosos, corram,
que as naves partirão de madrugada
e todas vão, como o destino quer,
vão naufragar no Mar da Eternidade.
Avisa-se também a toda gente:
só quem tiver um lápis cor de breu
e for capaz de rabiscar os versos
que Homero em vida redigir não pôde,
terá direito de comprar as folhas.
Sem macular querer a qualidade
de outros cadernos, mesmo cadernetas:
este é moderno, supermodernista,
desses que os guerrilheiros do Sendero,
de El Salvador, da América do Sul,
diariamente usam en las selvas,
para anotar as mil derrotas suas,
as mil vitórias de libertação.
Usaram-no também, antigamente,
exploradores da Amazônia rude,
onde escreveram copiosamente
seus desesperos, suas dores todas.
Informa-se ao público leitor:
o dono do caderno não tem nome
e só deseja (quase nada quer)
poucos punhados, dois ou três, de nada,
pra se perder na vida de uma vez,
e nunca mais chorar, nem triste ser.
De sono bêbado o encontrarão
os compradores de quinquilharias,
esses senhores da seriedade,
donos das edições mais luxuosas,
dos livros raros, das mais caras obras.
Lendo estará cadernos, livros seus,
antigos versos, prosas parabólicas,
de autores mortos, que jamais viveram.
E a musa dele, eternamente bela,
repousara sua nudez divina
no bom divã do sonho sem limites.
Num canto escuro da existência em dor,
as cinzas do caderno jazerão
no fogo infame desta solidão.
A musa bela velará o defunto
– o insone vate, o eterno pensador.
O lúbrico cantor que faz poemas
na cama alegre das mulheres todas,
perdido, louco, nos sutis meandros
do amor, da carne, do prazer, da vida.
TEMPOS
O meu passado, feito sanguessuga,
se gruda a mim, nojento e pegajoso,
e me atormenta no meu dia-a-dia.
Tento sorrir, fugir desse fantasma,
porém termino em choro convulsivo,
feito o menino que vivia em mim.
E, como grude, esse passado meu
se cola a mim, depois de tanto tempo,
embora eu queira ser presente e vivo.
Inconformado, digo, então, aos gritos:
De mim desgruda, verme do passado,
antes que seja tarde e eu morra em ti?
SAUDADES
Tudo passa, tudo passa.
Até as paredes largas,
as janelas e as portas.
Passam porteiras, portais,
altas portas de madeira
e as calçadas cimentadas.
Escadas de musgo feitas,
de escorregadio verde,
lembranças de chuvas, ventos.
Passa a lâmpada na praça,
e o busto do herói exposto
ao sol e à solidão.
Jardins, flores e beleza,
margaridas, açucenas,
rosas vermelhas - perfumes.
Tudo passa, tudo passa.
Tempo de medo e espanto,
de crescer, ser gente grande.
Passa até essa tristeza,
passa até essa saudade
– quando eu nem sequer passava.
HERANÇA
Para Edinardo
Não me ficou um latifúndio,
pedaço de capitania,
nem uma pequena gleba;
deixaram-me esta vontade besta
de andar léguas e léguas.
Não me tocou uma casa-grande,
nem mesmo uma choupana
no meio da mataria,
herdaram-me esta solidão
noturna e cotidiana.
Não me restou um baú
repleto de quinquilharias
ou crônicas familiares
legaram-me esta busca intensa
de novidades e velharias.
Não me sobrou mala de pregaria
ou mocó de couro de ovelha,
cederam-me esta aparência
de cidadão de bons princípios.
Não me coube espelho de gaveta,
que me lembrasse a vaidade,
ficou-me esta surpresa
diante de minha tristeza.
Não me deixaram crucifixo d’ouro
ou de madeira carcomido;
tocou-me esta descrença doida
em todos os santos e santas.
Não me herdaram relógio
de algibeira ou parede;
restou-me esta monotonia
de ver o tempo correr pelos dedos.
Não me legaram botinas pretas
e pesadas com que pudesse amassar
o chão de meus ancestrais;
sobrou-me este cansaço de andar
ao redor da macieza no sangue.
Não me cederam uma rede de tucum
onde pudesse descansar minha paz;
coube-me esta pressa de ir
para não ruminar minha dor.
Não me ficou um pente de chifre
com que pudesse amansar a revolta;
herdaram-me esta cabeça pesada
de tanto sonhar com partir.
Não me tocou um tinteiro de louça,
sequer uma pena de prata
com que pudesse escrever um bilhete;
legaram-me este semblante poético
que me faz não dizer nada.
Não me restou um chapéu de couro,
de sol, do chile ou fino de massa;
cederam-me esta incerteza
com o tempo que há de vir.
Não me sobrou um cavalo ruço,
pedrês, torto ou castanho;
deixaram-me este trote manco
de quem anda perdido e a esmo.
Não me herdaram pares de esporas,
cangalhas, cilhões, estribos,
bridas, cabeçadas nenhumas;
coube-me este não ter que fazer
dos pés, das mãos, de mim mesmo.
Não me legaram uma parabélum,
um clavinote de bom atirar,
espingarda velha que fosse;
ficou-me esta fúria contida
de tocaiar a fala e o grito.
Não me cederam a botija
enterrada no fim do quintal,
sequer moeda de dez réis;
tocou-me este credo de pobre
de acreditar num mundo melhor.
Não me deixaram uma vaca só
e seu chocalho insistente;
restou-me esta tristura de boi
a caminho do matadouro.
Não me coube uma negra banto
ou jovem e morena tapuia
que me fizesse cafunés
e me lavasse a alma;
sobrou-me esta solidão de alcova
que me faz perder o sossego
no meio do sonho e da vida.
MINHA CANÇÃO DO EXÍLIO
Minha terra não tem nada,
palmeiras nem sabiás.
Minha terra é feia, é triste,
como tristes são seus filhos.
Minha terra tem ruelas,
por onde não passam carros.
Minha terra tem subidas,
tem calvários, tem descidas.
Minha terra é tão distante,
que nem sei onde ela fica.
Minha terra não tem nada,
a não ser minha saudade.
ACALANTO
Teus olhos me espreitam vazios
pelos punhos puídos da rede
- são aranhas tecendo teias
para o pesadelo de minha sede.
O range-range deste balanço
não me vem do pêndulo do corpo
- é teu desastre indo e vindo
no galho da velha mangueira.
E o medo que me acalanta
corre o espaço de tua loucura
- da cozinha, da fúria e da faca
ao sol de intensa brancura.
Em teus ombros cobertos de anos
pousavam as mesmas luzes
que te desenhavam gigante
ao chão repleto de cruzes,
e em tuas roupas esfarrapadas
o vento zunia o mapa e as eras
da terra dos antepassados,
das tribos, das matas e das feras.
És espantalho de muitas feições:
há das moscas da morte o rasto
enquanto voam por tua coroa
os nunca esperados urubus do repasto.
Primeiro a faca e a fúria comuns
com que iniciaste a terrível balada
- e já eras o predestinado que vai
para além da corda comprada.
Era uma faca de muito tamanho
com que se cortava o osso
da sopa de após o banho
e o mato que cobria o quintal.
E o peito que incendiaste
com ódios tão inclementes
era o mesmo que amamentava
o choro de teus descendentes.
Depois foi tua vez chegada
- a cozinha já não te cabia,
a faca já não te servia,
a fúria para ti se voltava.
A corda de fibra tesa
dos que morrem serenamente
- a alma como fogueira acesa
queimando os campos de junho.
E as mãos que a sustentavam
as mesmas das frutas colhidas
- a disposição de só se cansarem
depois de as forças perdidas.
Despedida nenhuma nos bolsos
pois que de fins sabias somente
o lado pobre e selvagem
- matar e morrer impunemente.
Agora me acordas e embalas
com teus olhos sanguinolentos
- as mãos rompendo os nós e os calos;
o corpo um pêndulo podre.
CAVALOS A CAMINHO DE HOJE
O que acicata, fere fundo, mata
não é de fato o ferro em ponta, duro;
é a própria fúria desumana, vil,
de quem se suja e não se lava nunca.
É a cólera dos grandes furibundos,
que suas pulgas buscam, catam, matam,
e se contorcem feito vagabundos
no largo leito da carpida dor.
ESCURIDÃO
Escureceu, e nada nesta noite
posso fazer além de alumiar
a escuridão que se instalou em mim.
Os homens bêbados adormeceram,
dormindo vão as pálidas mulheres,
o vento é frio, glacial, mortal,
e as mil estrelas se apagaram todas.
Aqui na sala há solidão demais,
nenhum fantasma me aparece agora,
como se eu fosse a própria fantasia.
Mas na verdade ando bastante feio,
de fazer rir fantasma o mais sisudo,
pois vejo estrelas nas mulheres nuas
e o paraíso nesta escuridão.
SEIXOS
Minha alma pesa
– fardo de pedras
prestes a rolar
no abismo.
Sísifo,
sem forças, só,
infinitamente triste,
irmão desprezado
da araponga,
olhos fitos no mundo
a girar, perdido,
sem rumo,
seixo solto no espaço.
(Continua)