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Caio Porfírio Carneiro(Contos)

Caio Porfírio Carneiro, nasceu em Fortaleza, CE. Vários prêmios, como o Jabuti e o Afonso Arinos. Romancista, contista, crítico literário.


ZECAPINTO

Zecapinto criava pinto. Criava um pinto, que morreu. Criou outro. Que morreu. E outro ele criou. Morreu. Tantos criava, tantos morriam. Um suceder de pintos criados, mal criados, e um rosário de pintos mortos.
Então pensou, pensou, mão no queixo, e concluiu que em vez de pinto o certo seria criar cabra. Criou a primeira e ela não morreu. Criou a segunda, a terceira, a seqüência numérica transformou-se em aprisco. A multiplicação tornou-se geométrica quando, por engano, comprou um bode, que cresceu e, crescido, não saía de cima das cabras.
Cabra a dar com pau. Então Zecapinto, que passou a ser chamado de Zecacabra, tomou uma resolução: vendeu todo o lote. Saíram berrando, estrada afora, o bode escanchado em cima de uma delas.
Zecacabra ficou só com seus cismares. Olhava o nascer do sol, o pôr do sol. Lembrou-se dos pintos frágeis e chorou. Lembrou-se das cabras e voltou a chorar.
Valeu se do amigo Ariosto:
– 0 que faço da vida?
A resposta veio seca e pronta:
– Case se.
Levantou a cabeça, um susto e um espanto:

– Com quem?
– Com uma mulher.
Outro susto e outro espanto:
– Onde vou encontrar?
– Procure.
Zecacabra, que passou a ser conhecido por Zecassó, pôs o apurado da venda das cabras no bolso, fechou a casa e mandou-se pelo mundo, uma única pergunta quando avistava uma mulher, quer casar comigo? Sempre uma única resposta, não. Nenhuma mulher o queria. Velha, gorda, alta, baixa, aleijada, barriguda, negra, branca, magra, todas lhe balançavam a cabeça na pronta negativa.
Ficou tão conhecido com o seu pregão que passaram a chamá-lo de Zecacasacomigo. E ele sempre alucinado, à procura da outra metade. Chegou a abrir o sorriso de esperança quando viu a bela saia vermelha:
– Quer casar comigo?
A voz áspera veio em reprimenda:
– Me respeite. Sou bispo.
Então Zecacasacomigo desistiu de vez. Voltou para o lar abandonado, roto, cansado, desanimado da vida e de tudo. Abriu a casa, escancarou as janelas, estirou-se na rede e dormiu dias e dias.
Acordou com a voz meiga e doce chamando o de muito longe. Que veio vindo, veio vindo. Quando abriu os olhos viu a beleza de moça ao lado, mão segurando o punho da rede, o colar de pérolas dos dentes abrindo o mais belo sorriso dos últimos tempos.
– Vim para ficar.
A surpresa enorme transformou-se em desejo e decisão. Rapidamente puxou a para a rede. Não perguntou de onde ela veio. Foi todo um dia e uma noite de aí meu Deus, eu morro, quero mais, ais e uis sem fim.
Quando suspiraram, o vento soprava forte e ela o chamou de Zecameu. E ele a chamou de Mulherminha. Só então o cenho franziu:
– De onde você veio?
Ela mal abriu os olhos, como se sonhasse:
– De muito longe.
– Fica mesmo comigo?
– Sou sua.
E dele ficou sendo. Zecameu, mais conhecido por Zecadela, criou alma nova. Plantou e colheu. Assoviava e ria. O jardim enfeitava se de flores, o pomar pejou-se de frutos.
Até aquela manhã orvalhada. Zecadela, que ia com disposição ao trabalho, voltou do meio do caminho para beijá la mais uma vez. Encontrou a pronta para sair, dedos ágeis dando retoques na pequena trouxa.
– Vou te deixar, Zecaera.
Como um raio que o fulminasse:
– Zeca o que?
– Zecaera, porque já não és meu.
Sentou-se, desarvorado:
– Para onde vais, Mulherminha?
Ela, resoluta, dava ligeiro nó no matulão:
– Vou me embora pra Pasárgada. Lá sou amiga do rei.
E se foi. A perplexidade dele transformou-se em ódio:
– Vá! Vá seguir o seu fado, ó mulher!
Desandou, desabou nos calcanhares, como sentindo cólicas, e a explosão de choro levou o ao desespero, mãos trêmulas a correr os cabelos. Assim ficou até escurecer e o vento entrou livre porta adentro.
Levantou-se, espantou as sombras com a luz do candeeiro, fechou portas e janelas, sentou-se à cabeceira da mesa, olhos neutros no vaso de flores murchas, trocadas diariamente por ela.
Pouco dormiu.
Pela manhã a resolução estava tomada. Barbeou-se, banhou-se, vestiu a melhor roupa, e valendo-se do velho Ford do velhíssimo vigário da vila foi para a grande cidade. Passeou ao léu no meio do trânsito. Parou frente à vitrina e ficou a admirar os vestidos vaporosos, que cairiam bem no corpo dela. E a viu no reflexo do espelho da vitrina. Rodou nos calcanhares, palpitando. Era outra, linda como ela. Ali parada, meio riso de simpatia. Sorriu largo para ela. Ela riu para ele.
– Oi.
A resposta dela ampliava a meiguice:
– Oi.
Aproximou-se, ajeitou a gravata, alisou o cabelo. Ela continuava sorrindo, um sorriso tímido que o encantava e lhe tirava as palavras. Pôs a mão no quadril. Desfez a posição. Apoiou-se num pé, no outro. Pigarreou. E surpreendeu-se com o próprio convite:
– Vamos ao cinema?
A resposta veio no sorriso mais tímido ainda:
– Vamos.
Pegou-a pela mão e ela apertou-lhe os dedos. O frenesi desceu-lhe pela espinha. Andaram, desviando do povo, algumas quadras. Ele procurava iniciar conversa, desesperadamente. Quando encontrou as palavras, sofreu de decepção:
– Não chove há quinze dias.
Ela olhava o, media o, rabo do olho. Ele se sentia examinado e sufocava se no paletó e na gravata. O desastre foi maior ainda:
– O Ford do vigário da vila está batendo biela.
Chegasse em casa se esbofetearia. O cinema, ali perto, foi a salvação.
– Cá estamos.
Aliviou-se intimamente pelas palavras salvadoras. Comprou os ingressos sem ler o cartaz. Conseguiram, no quase escuro, filme começado, duas poltronas isoladas. Poucas cabeças.
Ele olhava a tela, via as figuras e não via o filme. Passou, muito lentamente, o braço sobre o encosto da cadeira dela e dela sentiu a mão leve pousar-lhe na coxa. Disfarçou o extremeção com pigarro alto, seguido de psius de cadeiras diversas. A mão foi subindo e ele, surpresa crescente, petrificava se. A voz dela veio acariciante, hálito morno:
– Meu preço é alto.
Não compreendeu. Encarou a na penumbra e ela o olhava, sorrindo.
– Que preço?
– Pela metida.
– Pelo o quê?
– Depois não vamos meter gostoso? Cobro caro. E você paga o hotel.
E a mão chegava lá. Ela apertou a trouxa encolhida:
– Na cama dou um jeito nele.
Desabou de vez. Escorregou na poltrona. O pensamento, num lance, voou para ela, tão linda, sempre a cuidar do jardim, do pomar, das flores no jarro sobre a mesa.
Soltou sem pensar:
– Você é uma puta.
A mão largou a trouxa, a voz cortou áspera:
– Me respeite, seu veado.
A vontade súbita de chorar levou o a levantar se e sair tropeçando poltronas.
Na rua, desnorteado, olhou e olhou e não encontrou rumo a tomar. A buzina de um carro, seguida do palavrão, encaminhou o à esquina. De lá, pernas bambas, para o jardim da praça. Esparramou-se no banco, uma aflição indefinível a atropelar se em soluços que não vinham.
Aos olhos chegaram imagens do pomar com frutos podres no chão, do jardim em abandono, das flores mortas no vaso.
Mais impulso que decisão, levantou-se e tomou o rumo de casa. Paletó no braço, laço frouxo na gravata, sapatos na mão, feria se nos pedregulhos da estrada, sufocava ao sol de espelho. Descansou à sombra da árvore copada. E cochilou.
Despertou ao ouvir muitos pios. Perto da cerca vários pintos em torno da galinha que ciscava. Olhou para os lados, lá se foi de quatro, e mais que ligeiro pegou um deles. E caminhou depressa, paletó entrouxado ao sovaco, sapatos presos aos cadarços pendurados ao ombro, piar aflito do pinto no bolso.
Avistou a casa, sozinha ao escurecer. O vulto passou ao largo, sentido contrário.
– Quem vai lá?
– Zecapinto!
Seguiram se à resposta uma leveza interior e uma santa alegria.
Abriu a porta assoviando, acendeu o candeeiro, jogou longe, pela janela, o vaso com flores murchas. Pôs o pintinho sobre a mesa, e ele mal piava, asfixiado como viera no bolso sacolejante.
Olhou-o cheio de pena e esperança. Pena por saber, pela experiência, que ele não viveira muito. Esperança de que o próximo, que adquiriria logo cedo, sobrevivesse. Do contrário outro viria, e outro, mais outro...
Cruzou os braços sobre a mesa, ouvindo ao longe o piar muito tênue do pintinho, ali próximo à sua cabeça bambeada.
Dormiu feliz.


DUETO
Ao cair daquela tarde fagueira, à sombra das bananeiras e sem borboletas azuis, ele, assoviando, gingando, enxada dançando no ombro, viu-a tomando banho nuinha, nuinha. Esbugalhou os olhos, estacou e disse, Vixe, que coisa mais linda, mais cheia de graça, Jesus Cristo Nosso Senhor. E ficou de olhos acesos nos peitinhos, na xoxota, nas coxas de alabastro, na bunda arrebitada. Desandou um pouco, levado pelo nervosismo, o graveto quebrou, ela ouviu e descobriu:
– Por que estás me olhando, Caturapota?
– Ele se entortou todo, mordeu o talo de capim, sem saber onde se meter.
– Não estava te olhando não, Viviane das Dores.
Ela, mais nua que nunca, pôs as mãos nos quadris: – Não estava, hem. Pois pode olhar. Olha. E porque ela se oferecia toda, cabeça levantada, plantada nas pernas, desafiante, ele amunhecou. Perdeu o rebolado, esqueceu a fagueira tarde, e voltou, rabo entre as pernas, a roçar o pasto, antes de escurecer de todo. Ela ainda cantarolou e enxugou os cabelos longos, torcendo-os como quem torce pano. Vestiu o vestido transparente, quase camisola, que grudou rápido no corpo. E lá se foi cantarolando, Não há , ó gente, ó não, luar como este do sertão. A bacia, com roupas lavadas, segura à cintura.
Ele roçou à toa, que entre os olhos e o milho e o feijão que nasciam se interpunha o corpo de leite, os bicos dos seios, o chumaço de entre as pernas. A enxada por pouco não lhe alcança o pé.
– Porra.
E foi para casa. Chutou a cobra que passou coleante. Lá do alto viu a casa dela e ela a se pentear.
O braço acenou:
– Olá, Caturapota!
– Oi!
– Vem cá, criatura.
Ele se achegou, mudando a enxada de ombro, o coração desesperado, aflito por não saber o que dizer a ela. A vergonha que sentia era uma enormidade.
– Senta aí, Caturapota.
Ele aquietou-se no cepo, chapéu na mão, enxada entre as coxas.
Ela veio, encostou-se nele, um roçar de vai e vem que lhe despertou o fogo sagrado.
– Você gosta mesmo de mim, Caturapota?
Depois que o vento amainou, depois que duas galinhas subiram ao poleiro, animou-se a suspirar:
– Se gosto...
Ela ergueu as saias até surgir a pontinha negra:
– Você me quer mesmo, tesão?
Novo tempo de espera, nova lufada de vento, novo suspiro:
– Se quero...
Ela acomodou-se ao lado dele, tomou-lhe a mão:
– Então me terás e poderás me levar à camarinha.
Ele levantou-se, encostou a enxada à parede de taipa, voltou, reverenciou-a em curvatura longa, o chapéu furado varrendo o terreiro:
– Com prazer. Dispôs-se a conduzi-la nos braços. Ela, porém, puxou-o para si:
– Ainda não. Ando preocupada.
– Com o que, Viviane das Dores?
– Com os problemas econômicos do país, a péssima distribuição de renda...
Ele, esquálido, sujo de muitos dias sem banho, coçou a barba espinhenta:
– É para pensar.
Ela balançou a cabeça:
– Se a política financeira...
Ele cuspiu seco:
– Por falar em finanças, Viviane das Dores, me dá água, mata a minha sede.
Ela entrou e ele ficou entregue às sombras. Brisa leve. Latido ao longe, para os lados da vila. Escurecera quase completamente. Apenas, lá para os confins, uma tira de vermelhidão.
De repente uma claridade tênue, amarelada, tangeu um pouco a escuridão. Virou-se. Ela avivava o lampião da sala. Veio com a caneca dágua. Ele a sorveu em poucos goles. E ela voltou a se sentar ao lado dele.
– De que a gente estava falando, Caturapota?
Ele pensou, pensou, concluiu mais para si:
– Acho que na merda deste país.
Olhou na direção da vermelhidão que se fora:
– Vamos falar de coisa mais séria?
– Fala.
– Você é muito bonita.
Ela pegou-o pela mão:
– Vinha dele um cheiro forte de suor.
– Para onde, Viviane das Dores?
– Para o quarto.
– Ah.
O silêncio perdurou. A mão dela veio vindo, veio vindo, alcançou:
– Ele está que parece ferro, nossa.
Ele baixou a cabeça, envergonhado. Ela puxou-o num repelão:
– Vambora, cara.
Conduziu-o casebre adentro. O sexo atrapalhava-lhe as pernas. Pararam na sala. Ela baixou o bico de luz. Foi ao pequeno oratório, pregado no canto da parede, trouxe de lá, de junto aos pés de Nossa Senhora, o pequeno rádio de pilha. Riu para ele, um riso mais convidativo:
– Com uma musiquinha é melhor.
Ele apenas fez gesto de tanto faz. Ficou ali esperando, tamborilando os dedos calosos na mesinha de centro. Ela acendeu o toco de vela:
– Vem.
O toco de vela num pires seguro com a mão direita, a esquerda puxando-o como quem dirige um cego. Ele, uma vontade louca, praticamente resistia.
– Quer ou não quer, sujeito? Que merda.
Ela pôs a vela sobre o velho móvel, verniz descascando, tirou o vestido pela cabeça e estirou-se na cama de varas, um oferecimento só. A luz oscilava e desenhava sombras no corpo alvo.
Ele petrificou-se. Os olhos estourados em cima daquela visão que o esperava.
– Vem ou não vem? Meu Deus.
Despertado, como emergindo de um mergulho, ele, aos repelões, jogou os trapos no chão e caiu, fome canina, em cima dela, e nela começou a navegar.
– Devagar, Caturapota.
O desespero dele era sorver aquele corpo de leite num gole apenas, sugá-lo, subir aos céus e enovelados chegarem à mão direita de Deus Pai. E gemia, e grunhia, e vai e vem, e ai minha Vivivaninha meu bem, eu morro, juro que morro, Vi...
– Acabou?
Ele, molengado, largado ao lado dela, ainda não saíra de todo do rodopio. Veio o soninho, leve, passageiro, passos de animal distante, o vento vibrando nas portas e janelas.
Ela se deteve um instante ouvindo a vibração da janela:
– Este vento não me engana, Caturapota. Este ano não chove mais.
Ele deteve o leve bocejo:
– Bata na boca, Viviane das Dores. Será mais um ano de tormento.
Calaram-se. O silvar do vento lá fora. Ruído no galinheiro. O desejo voltando. A mão, de leve, passou a acariciar o sexo dele. E ele foi despertando, despertando, despertou.
– Agora é a minha vez, Caturapota. Prepare-se.
Montou-se nele. Foi um nunca acabar de gemidos, nas gargantas e nas varas da cama. Então suspiraram, ela desabada sobre ele.
– Foi ótimo, Caturapota. Você é bão. Puxa. Pensei que era a primeira vez.
– O caralho.
Depois pensou, pensou, arriscou:
– Quero a vossa mão em casamento.
Ela sentou-se na cama, olhou-o ternamente:
– Sou vossa.
– Para quando serão as bodas?
Ela olhou as telhas, dedo no queixo:
– No próximo outono, está bem?
– E que tal na primavera?
Ela passou as mãos nos cabelos longos:
– Tanto faz. É tudo uma seca mesmo.
A música do radinho, lá na sala, só então foi percebida.
– Que tal esse conjunto de rock, Caturapota?
Ele se deteve ouvindo os sons estridentes dos metais e o pensamento voou para outros acordes:
– Minha viola está com duas cordas quebradas. Cadê dinheiro para comprar outras?
O estrídulo eletrônico foi se desfazendo e substituído pela informação:
– O preço do dólar...
Ela acariciou-lhe o peito:
– E o dólar, Caturapota?
– Haja saco.
Ela levantou-se, nua e linda, foi à sala, fechou o rádio e o conduziu ao seu lugar aos pés de Nossa Senhora, uma mão tapando o sexo, que o pudor era grande diante da mãe de Deus.
Voltou e vestiu o vestido leve pela cabeça.
– Está tarde, Caturapota. Amanhã tenho um monte de roupa para lavar. E só recebo uma merdinha de dinheiro.
Ele coçou a barba, que lhe espinhava o rosto:
– A gente aqui em baixo comendo bosta e eles lá em cima comendo doce. E se a seca continua...
– Pelo jeito...
Ela ia perdendo o sono, desalentado:
– E o meu roçado, tão bonito...
Ele voltou a sentar-se no cepo, no terreiro enluarado. Ela avivara o lampião e veio aninhar-se ao lado dele. Parecia dia. A lua corria no céu estrelado. Olhavam-na, embevecidos.
– Nem uma nuvem, Caturapota meu noivo.
– Nem uma nuvem, Viviane minha noiva.
Ela prendeu-lhe o rosto com as duas mãos, olhou-o bem nos olhos, um fio de lágrima a correr:
– E o que vai ser das nossas vidas? Até o fio dágua onde lavo as roupas está se acabando. E o socialismo, meu noivo, a nossa velha esperança?
Uma lágrima, igual à dela, saiu do olho dele. Encolheu os ombros:
– Se foi com o vento, Viviane minha noiva. Mas volta.
Um raio de esperança bailou no rosto dela:
– Será?
Ele franziu a testa, alisou o queixo, não disse nada. Voltaram a olhar a lua. Então ela se levantou de repente, entrou na sala, pôs o rádio de pilha no parapeito da janela. Aumentou o volume. A sonata inundou até muito longe, levada pelo vento. Ele bateu nas coxas:
– Já vou, Viviane das Dores minha noiva. A minha enxada.
Mas não se dispôs a pegá-la. Ela suspirou, um suspiro profundo:
– Vou lhe acompanhar um pouco.
Lembrou-se, segurou-o pelo braço:
– Espere. Volto já.
Foi ao velho baú, tirou dele a peça colorida, voltou, abraçou-se a ele:
– Está um pouco frio. Vamos nos proteger.
Envolveram-se com a bandeira verde e amarela, e foram ladeira abaixo, maltrapilhos e descalços, a enxada no seu silêncio cansado escorada à tapera, o caminho leitoso e serpenteado à frente, o dueto contrapondo-se aos acordes da sonata:
Não há, o gente, ó não,
Luar como este do sertão...


NÃO DÁ...

– Quero isto pronto ainda hoje.
– Hoje?
– Hoje.
Olhou o sol declinado e descobriu, aflito, que não conseguiria cumprir a tarefa antes do cair da noite. Mas baixou a cabeça e entregou-se, com a máxima rapidez, a ladrilhar, o suor pingando do queixo, das axilas. Na pressa e no nervosismo quebrou alguns ladrilhos.
– Meu Deus.
O sol descia e o ladrilhado avançava pouco. A vista turvou. Sentou-se no chão, abanou-se com o velho chapéu. Fome medonha. Sede medonha.
Os passos aproximaram-se:
– E então?
Olhou para ele, súplice:
– Não dá...
Primeiro o pigarro, depois a decisão aborrecida:
– Tudo bem. Chamo outro para o serviço. Pode ir. Venha amanhã receber as horas de serviço.
Ainda quis argumentar, o alpendre era grande. Apenas levantou-se, pôs o chapéu na cabeça e rumou para casa.
A primeira pergunta, logo à entrada, os olhos dela esperançosos:
– Arranjou serviço?
A sede confundia-se com a fome. Olhou além dela e viu o monte de ladrilhos e o vasto alpendre.
– Não deu...
Sentou-se à mesa, mãos cruzadas ao queixo, à espera de alguma coisa que ela lhe pudesse trazer para comer.


ELE

Ele sempre se sentava na mesma cadeira de encosto alto e se balançava, olhando o tempo através da janela. Ele não mudava de roupa, o mesmo terno amarfanhado e sujo. Ele não calçava sapatos, meias furadas e chinelos, embora engravatado. Ele nunca sorria quando contava os cúmulos-nimbos que corriam no céu. Ele não cortava as unhas. Ele só se levantava para fazer suas necessidades. Ele dormia na velha cama, vestido como estava, mãos cruzadas ao peito, como morto ou como se rezasse. Ele só tomava a sopa chupando muito o caldo da colher, numa sonoridade de doer nos ouvidos e nos ossos. Ele chamava a criadinha, balançava-se na cadeira, e ordenava que ela se despisse. Ele a mandava embora em seguida com um gesto de mão e tédio. Ele pedia o jornal, qualquer jornal, para uma corrida ligeira pelos títulos com os óculos na ponta do nariz e jogava-o depois para o lado. Ele não se escanhoava quando fazia a barba, sentado na cadeira e a criadinha com um espelho na mão. Ele ficava com o rosto pontilhado de espuma. Ele não tomava o remédio que o médico receitara. Ele não cortava os cabelos. Ele roncava, cabeça bambeada, a saliva pingando da boca, quando o tempo ia mal e não se podia abrir a janela. Ele rezava e dizia palavrões. Ele recitava versos e os repetia até ficar rouco. Ele tossia e escarrava no chão. Ele soltava gazes, em seqüências sonoras que alcançavam a vizinhança. Ele resmungava e não dizia palavra. Ele cantarolava surdamente sempre a mesma canção. Ele me olhava com olhar neutro. Ele tossia a noite toda, sujava-se nas calças e não permitia que tocassem nele. Ele infernizava a minha vida e a vida da criadinha. Ele era o nosso pesadelo.
Ele ficou assim depois que ela se foi, entre círios e flores.
Ele então foi despachado para a companhia dela, depois que trocamos, eu e a criadinha, um olhar de cumplicidade.
Ele continuou presente com a sua ausência.
Ele me assusta quando olho para a criadinha. Ele a assusta quando ela olha para mim.
Ele aumentou enormemente a carga de nosso pesadelo.
Ele nos deixou sem remissão.