Emanuel Medeiros Vieira
CONTOS
Emanuel Medeiros Vieira, contista, romancista e poeta. Diversos livros publicados.
NUM MOTEL TOSCO
Ela agora está dormindo (ou finge que dorme).
São três horas da manhã. Toalha na barriga, em frente ao espelho. Estou velho e devastado. Sim, pelo espelho observo que ela, por não perceber que também a estava vendo, está de olhos abertos. Olhos abertos, parados. Infinitos. E vi que ela também estava velha e devastada.
Quando a conheci, naquela zona de Luziânia, ela era nova, bonita e morena e a energia era grande. Já na primeira vez que saíra com ela, eu disse, “vou arrumar grana e te tirar daqui.” Dizia isso todos os meses.
Fevereiro: “Vou arrumar grana e te tirar daqui”.
“Vou arrumar grana e te tirar daqui.”
No começo ela ria, quem sabe, com uma ponta de esperança, continuou rindo alguns meses, depois apenas fez silêncio, mas o rosto era ainda generoso. Mas os anos passaram (certamente eu a amava), um, dois, cinco, dez e, no final, ela apenas enterrava o rosto no travesseiro, enquanto eu olhava o que fora feito do meu corpo naquele espelho de um motel vagabundo.
Nesta madrugada — enquanto um rádio toca uma guarânia —, fazem vinte e cinco anos da primeira vez.
“Vou arrumar grana e te tirar daqui.” (Isto queria dizer: casa, sustento, FAMÍLIA, churrasco aos domingos no parque, uma missa anual, sorrisos, uma cachaça ao anoitecer). Era o nosso anoitecer.
Fiquei me olhando e senti um arrepio (que nunca conseguirei descrever) pela minha devastação, os sulcos, as crateras no rosto, o ralo cabelo branco, o ventre enorme e eu a olhando através do espelho e ela, velha, carcomida também, ainda com algum traço daquela beleza tão pretérita.
“Fizemos nossas Bodas de Prata”, eu disse com um sorriso de dor (crispado), como se vomitasse todos os restos de uma comida de véspera e ficasse infinitivamente vazio. Ela não disse nada, olhos baços, parados. Infinitos.
É madrugada, eu a levo para a sua pensão, chove no asfalto, silêncio.
No rádio, uma outra música lancinante e vou deixando Lucinete na pensão em que vive com outras prostitutas que um dia também foram jovens e que deviam também ter ouvido promessas vãs (“Vou arrumar grana e te tirar daqui”) e nada temos a dizer um para o outro. Apenas, um sinal vermelho no painel do carro indica que o óleo está acabando.
Brasília, setembro de 1990
LONGA VIDA, CAPITÃO
“Longa vida, capitão”.
Eu me despedia do capitão. Ele era alto e volumoso, as mãos grossas e peludas, calça de brim, camiseta preta, alparcatas nos pés, boné surrado, capote bem antigo. Por detrás da barba grande, revelava-se um rosto bastante desgastado. Naquela época ele tinha cinqüenta anos que pareciam mais.
Era uma tarde cinzenta e de chuva fina, caía um vento sul que parecia não acabar nunca, o velho vento sul que parecia matéria constitutiva da ilha. Observei um rasgão no capote do capitão, na altura do cotovelo. As embarcações não ficavam sossegadas no trapiche do cais; agitados, os homens tentavam amarrar cordas para segurarem os barcos no pobre porto. As ondas balançavam intensamente barcos e respingavam as capas dos homens. Numa embarcação, vi sacos de feijão, arroz, farinha e garrafões de aguardente.
Eu era um rapaz de quinze anos. Para onde ia desta vez o capitão?
“Este homem não fica parado, tem um bicho carpinteiro dentro dele”, comentava o dono da quitanda. A ilha era pequena, quase sempre ventosa e todos se conheciam.
“Ele deve ser cigano”, observava outro ilhéu.
O capitão coçava a barba grande já bastante branca, os cabelos caindo sobre os olhos, olhos verdes que davam um semblante infantil para o seu rosto. Era um rosto cheio de sulcos e crateras; nariz bastante amassado, como o de um boxeador aposentado.
Ficava olhando para o cais; era um suplício para os homens amarrarem e desamarrarem as embarcações com aquele tempo ruim.
Muitas vezes — quando ele estava na ilha — eu via o capitão contemplando o mar no trapiche, com as mãos no bolso. À noitinha, mamãe sempre me pedia para ir na venda, comprar pão, café, banha, óleo para o lampião, amendoim, mel. Eu observava o capitão tomando generosas talagadas de cana, agora com uma capa preta, enorme, rasgada.
Sentado em sacos de amendoim, moreno-pardo, pele fortemente queimada pelo sol, ele me parecia muito mais volumoso do que realmente era, contando histórias de outros mares e ilhas. Em casa, escutando o vento, deitado num beliche, ouvindo os gemidos de um bambuzal, eu pensava naqueles mares longínquos de que o capitão falava, e ficava fascinado e arrepiado, eu também queria partir.
Ele morava sozinho atrás de um depósito de frutas, perto do cais.
“Seu avó foi pirata”, dizia o boticário.
“O pai, um aventureiro”.
“A mãe, louca e dançarina”.
Só agora lembro que ele era manco da perna esquerda.
Diziam que ele recebera um tiro na ilha de Agres, quando era bem moço. No final de tarde, quase à noitinha os homens se reuniam na venda.
Contavam histórias daqueles dias, eles que iam para o mar de madrugada, do peixe que escasseava. Os pescadores pareciam sempre mais velhos do que realmente eram.
Diziam que o capitão tentara fazer muitas guerras, revoluções, ao norte, ao sul, a leste, a oeste e perdera todas. Queria ganhar uma. Definitiva, mas eu era muito jovem e não entendia quase nada.
“VIDA LONGA, CAPITÃO”
Quantas vezes pronunciei esta frase! Quantas vezes não pronunciei, mas pensava lá dentro, andando pelo trapiche, tapando o rosto com um cobertor, escutando o vento sul, os ruídos da casa de madeira tão velha, mamãe rezando, mamãe lavando, mamãe enxugando, mamãe colocando achas de lenhas no fogão. Um dia o Capitão perguntou se eu queria ir com ele.
“Não. Mamãe não tem mais ninguém. Nem meu pai, nem outro filho, Só quando ela morrer”.
Mas ela era uma mulher duradoura e eu não queria que ela morresse. Nem ela, nem o capitão.
Mas eu também queria ser marinheiro.
Não imaginava o capitão como general cheio de medalhas e uniformes lustrados e galões na lapela. Para mim, ele seria sempre capitão muito grande e alto, um capitão muito amigo.
“O capitão nunca mais foi o mesmo depois que a mulher o deixou” garantia a mulher do dono da venda.
“Ele é um louco”, esbravejava o coletor de impostos; é verdade que o coletor Luvanar não gostava muito dele.
“ADEUS, MARISCHIN”.
“ADEUS, MEU CAPITÃO”.
Quando me despedi do Capitão no trapiche, ele parecia mais cansado e velho do que era, a barba mais branca, tudo nele estava mais pesado e doído. Mancava mais. O Capitão tinha ficado um velho.
Tirou do bolso do envelhecido capote uma pistola muito antiga, parecia uma daquelas pistolas que eu via em velhas revistas tiradas de baús corsários. Ou uma pistola roubada de um museu. Sim, uma arma muito antiga, usada pelos nossos ancestrais ilhéus.
Ele se foi numa madrugada de julho, chuvosa e fria, estava muito barrigudo.
Hoje, tanto tempo depois, eu chego a pensar — quem sabe apenas fraturas da memória — que o Capitão mantinha um olhar sempre distante, ausente, uma contemplação que quase ninguém notava.
Trocara o boné por uma boina, a capa era a mesma, preta, rasgada e muito larga. Camiseta preta, deixara a alparcata “Roda” que não o protegia do frio, usava mesmo um sapato, o cabo da pistola aparecia no bolso, a barba mais branca ainda e ele já ofegava para falar. Só faltava o tapa-olho para assemelhar-se ainda mais a um pirata. Anos depois, eu fiquei com remorsos pela vontade de rir que sentira naquele momento, além da emoção. Eu, na época não sabia explicar, mas o capitão com aquela vestimenta heróica, quixotesca, me parecia um tanto ridículo, um tanto “fora de moda”. Ou não? Ou ele seria uma “coisa” mais atemporal. E havia algo de sublime ou imponderável no seu ar, generoso e sofrido. Eu o amava muito.
“Adeus, Marischin”.
“Adeus, meu Capitão”.
Nunca fiquei sabendo de sua última guerra ou revolução. Só conseguiu fazer seu exército particular. Não ganhou qualquer batalha.
Mas de vez em quando ele me escrevia, letra muito grande, mas não muito legível, feita naqueles papéis de carta que vendem em papelarias. Não dizia o local, data, nada. Perguntava quando eu partiria. As cartas vinham naqueles barcos movidos a querosene e o seu Humberto, agente dos Correios, me entregava. Trechos de uma carta:
“Marischin, agora estou indo para o norte. Há um tesouro escondido. Quero achá-lo. Contratarei homens bravos para a empreitada. Creio que desta vez vai dar certo”. Ninguém acreditaria. Mas eu acreditava.
Contratara homens fortes, adquirira armas de um traficante chinês e dizia que, em remotas regiões, ainda haviam piratas com tapa-olho e tatuagens, que bebiam muito e blasfemavam. Ele vivia as histórias? Inventava?
O Capitão dava sonoras gargalhadas e o dono da venda dizia, “há crentes para tudo.” Um dia, à noitinha na venda, apareceu um forasteiro vindo do sul. Dizia ter visto um homem que dissera ter nascido na nossa ilha. Pela sua descrição, era o Capitão. Estava muito bêbado, perto de um grande porto nacional, contemplando bandeiras de várias partes do mundo — trêmulo e delirante — abordando marinheiros de muitas terras, convidando-os para grandes aventuras e revoluções redentoras.
“É um louco velho”, diziam muitos.
“É um bêbado”.
O Capitão enlouquecera no final? “Agarrava transeuntes, oferecendo recompensas em ouro para quem o acompanhasse”, relatava o forasteiro. “Muitos, amedrontados, desvencilhavam-se do homem com safanões e ele soluçava, resmungava.” O forasteiro come um amendoim e diz: “Dizia frases desconexas, mas uma eu ouvi: “Agora nada mais tem importância. A aventura acabou no mundo”.
Num dos seus bilhetes cheios de garranchos ele me dizia: “Marischin, estou formando um grande exército. Um exército vitorioso”.
Eu colecionava suas cartas de terras longínquas (pelo menos, ele dizia que era) e ficava lendo sentado no trapiche já estragado e cheio de limo do nosso envelhecido cais. Já não chegavam navios. Nas embarcações humildes chegavam apenas mantimentos. (Lembro-me, tantos anos depois, daquelas noites cheias de presságios quando ele me contava histórias de outros mares, peixes enormes que pareciam bichos de outras eras, dragões, sereias, ilhotas mágicas, corsários de uma perna só, beberrões, blasfemos, canhões enferrujados, seres misteriosos e homens que viviam mais de cem anos, vidas encantadas).
Hoje, velho, muito velho e ainda aqui nesta pequena ilha de onde nunca saí, esperando navios que não chegam, cartas que não vêm mais, cogito que o Capitão não suportou viver num mundo que não suportava aventuras (como o próprio forasteiro escutara de sua boca), um mundo cínico em relação ao sagrado e ao mito, um mundo cinzento, desencantado.
O forasteiro foi embora, mas, tempos depois, chegou uma carta de um homem que contratava marinheiros num grande porto, funcionário de uma empresa de fretes marítimos que selecionava marinheiros para uma longa viagem para a Ásia. Parece que este homem descobrira o Capitão. Alguém tentava, ofegante, subir umas escadas de madeira de um prédio velho, numa das partes mais infectas de um grande porto brasileiro. O Capitão buscava uma saleta (cheiro de salitre, sujeira e urina) de uma firma que fazia fretes marítimos. Ele não conseguiu chegar ao cume da escada. Tropeçou, cai, ainda ofegante. Era um homem febril. Apalparam o bolso de uma surrada calça de brim. Dentro, um cartão que nunca foi enviado e incompleto. “Marischin, que não quis ser marinheiro. Estou longe. Muito longe. Reuni homens. Desta vez vou ganhar a guerra, finalmente. Cansei de perder. Não quero mais explicar porque perdi. Quero ganhar”.
Eu não o via há muitos anos, desde a nossa despedida. Naquela época ele já estava gasto e velho. Hoje, eu também estou muito velho, olho todos os dias o mar, de manhã à noite, nesta cadeira, uma bengala que me apoia, sentindo depois de tantos anos um arrepio de emoção, ele não precisava inventar nada, eu o amava muito, gostaria dele de qualquer maneira, ele poderia até ter perdido todas as guerras ou não ter feito nenhuma. Ele era o Capitão.
“Ele faleceu às seis horas da tarde e como não tinha nenhum documento resolvemos enterrá-lo nesta cidade”, conforme relato do homem que enviara a carta (a cidade era a do grande porto).
“LONGA VIDA, CAPITÃO”
Quantas vezes eu disse isso. De onde vinha essa alcunha, designação, epíteto de Capitão? Ninguém sabia. Desde cedo, acho que desde sempre, o chamaram assim. De certo, fora sempre Capitão.
Ele me contava histórias de terras distantes, vidas aventurosas, piratas da perna de pau, arcas com moedas de todas as partes.
Nunca soube a causa de sua morte. Não tem importância. Em alguma época, de um navio qualquer, quem sabe, apareça um outro Capitão.
(Texto premiado em concurso patrocinado pelo Sindicato dos Eletricitários de Florianópolis, 1992)
MÃE NA SOLEIRA DA PORTA
para Anderson Braga Horta
Tantas viagens interiores eu fiz. Estou morrendo nesta cadeira de balanço. Junto com a casa que foi vendida, amarelada, a grama alta, desfalecida goiabeira, pitangas que colhia com a irmã Pérola. Galinheiros vazios. Estou ficando cego, já não vejo aquela réstia de lua, vou deixar 34 páginas de um finado romance (para os ratos cínicos).
Minha tribo: estão todos mortos e eu quero ler-ler e os olhos me traem, queria até rir. Escurece, sim, eu sei, escurece. O mano Thiago foi baleado numa zona da periferia, bêbado, ouvindo um boêmio declamar Augusto dos Anjos. Me avisaram de madrugada, velei-o, enterrando seu corpo às cinco da tarde, sol caindo. Pérola resolveu ir embora, cigana, fugiu num navio que não era mais pirata, mas um cargueiro, lavando pias, privadas, banheiros, convés. Ela não queria uma vida acinzentada, mas o sonho, foi colher seu destino. Antes, quis ir embora num circo.
Restei eu, caindo, como a casa.
“Eu sempre quis ficar contigo, Pérola”, disse para ela.
Era minha irmã, eu a amava, mas era um amor interditado, clansdestino, ela me olhando com olhos piratas, mordendo os lábios, eu acariciei seus cabelos que não eram pequenos.
Foi há meio século atrás. Melhor assim, nunca mais a vi, não contemplar Pérola gorda, vetusta, com varizes, ela que sempre foi uma beleza solta, cheirando a quintais e suas árvores, descalça, vestidos de chita, seios pequenos. Eu tinha 15, ela 13 anos.
Sexagenário, sem autopiedade, tentando rir, não fiz o romance (o projeto maior), apenas um longo capítulo. O título: “Mãe na Soleira da Porta”.
O riso parece um outro fantasma nesta noite cheia de presságio rio e rio. É uma gargalhada interior.
Minha mãe apareceu na soleira da porta, olha para mim, eu estou com um cobertor nos joelhos, na cadeira de balanço.
Ela sorri, cabelos grisalhos, a velha doçura quieta.
— “Vem, mãe”.
Ela me olha, serena, ainda nada diz, eu insisto:
“Fiz um pão no fogão de lenha”. Não era verdade, quase já não enxergava, por que menti?, eu queria ficar com ela. Deus me perdoe, desejava que ela ficasse bem junto de mim, agora lembrando de mais de 50 anos atrás, quando ela ralhava comigo por causa das bagunças infantis. Depois segurava meus cabelos, eu fechava os olhos.
— “Como está meu pai?”
— “Dedilhando o rosário, lendo a Bíblia.”
— “E Thiago?”
Ela agora fica triste, ele era seu filho, ela também o havia enterrado. Ele só tinha 19 anos, cabelos curtos do Exército Nacional, baleado por um caixeiro viajante, ele namorou uma das moças do bordel, e o caixeiro viajante a queria só para si, ele soube, ele o matou.
— “Em breve eu me reencontrarei com vocês”, eu digo.
— “Eu sei”, ela confirma.
— “E Pérola?”, agora é ela que pergunta.
— “Nunca mais a vi, mãe, desde aquele dia irremovível da minha memória, aquela cristalina manhã de maio, ela foi ao porto e não voltou para a casa”.
— “Eu a amava, mãe”.
Amava Pérola, como a casa, o quintal, aquele galo onipotente parecendo um príncipe, a goiabeira, o riacho, o violino, manhãs de sol; as conchas de uma praia deserta.
— “Você terminou o romance, filho?”
— “Não, mãe, não consegui. Queria um romance-catedral e sou apenas um cantor da decadência, um lírico sentimental, mãe, não trágico, um lusitano/lânguido/brasileiro/negróide/pobre índio dizimado.” Isso tudo, em verdade, eu não disse, só havia falado, “não, não consegui mãe.” Não, não consegui por ter na minha carne uma herança pesada e ambivalente (mas a frase me soa agora como dispensável literatice). Não consegui porque me faltou talento, disciplina. A ansiedade me derrotou.
Amanhã virá o novo proprietário da casa, com o oficial de justiça, tecnocrata governamental, certamente vão derrubar as últimas árvores, matar o último galo, porteiros eletrônicos, armados, condomínios fechados. “Me leva contigo, mãe, por que todos querem viver tanto?” Eu supliquei.
“Quero manhãs claras, quero circos, piqueniques, pão feito em casa.”
— “Adeus, filho. Sua estrada ainda não acabou, mas é logo ali.”
Ela sorri, eu queria tocá-la, mas ela vai embora, e eu estava preso numa centenária cadeira de balanço, ouvindo a l2ª badalada daquele relógio de parede que pertencera ao meu avô, que era alquimista e um doce mágico amador. Não casei, há mais de 50 anos amava Pérola, os vizinhos me chamavam de “aquele velho bêbado” (ao que tinham razão), fumante inveterado de mata-ratos, comedor de feijoada e de gorduras — é surpreendente que ainda esteja vivo —, bebedor compulsivo de cana vagabunda, dipsomaníaco inveterado, fecho meus pobres olhos, por si já quase fechados e fico pensando naquela outra manhã de maio, antes de Pérola partir no navio cargueiro, naquela manhã em que tomamos banho num riacho perto de um bambuzal, atrás do quintal da nossa casa, esta casa, subimos em goiabeiras e toquei nos seus cabelos, cogito que foi o episódio mais significativo desta minha vida sexagenária, a única coisa que realmente me emocionou — não, “emocionou” é pouco, é mais que isso —, queria falar em algo SAGRADO, MÍTICO, sim, afora a idéia malograda do romance, eu vejo agora aquela límpida manhã, azul, as 34 páginas do romance, elas são uma homenagem àquela menina que partiu no navio cargueiro, àquela perdida (para sempre) manhã, eu queria me referir ao infinito, às coisas belas, queria falar do que permanece, naquele dia de maio, no riacho, eu a beijei no rosto, devagarinho, fui chegando perto da boca, no começo ela não deixou, virou para o lado, dela escorreram lágrimas soltas, mas ela sorria, estava linda de cabelos soltos, de minha parte, como sempre, deve ter escorrido uma só, seca, famélica. A mãe já partiu. O cobertor aquece o meu corpo, os ouvidos são bons, tento me abraçar, eu mesmo, eu comigo, eu com meu corpo, balançando a cadeira, cantarolando uma música de ninar que ouvi a primeira vez 55 anos atrás, esperando o final da estrada, “logo ali”, anunciado por minha mãe, querendo ver como ficariam minha face e meus olhos no minuto seguinte ao momento derradeiro.
(Brasília, maio de 1992)