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OS VARÕES DE PALMA (5)

(Continuação)

XVI

Afobados, Felício e Perpétua entraram na delegacia, sem nenhum aviso, e encontraram o delegado a rabiscar números e nomes num pedaço de papel.
– Que história é essa, Seu Carmelitano? – indagou o intendente.
O padre nem tirou os olhos dos rabiscos. Os soldados contavam piadas para Joaquim e nem sequer deram pela presença do casal.
Passado um minuto, o policial largou o papel e o lápis, olhou para dona Perpétua, fechou a cara, virou-se para o preso e abriu a boca cheia de espanto:
– História?!... Sim, a história da égua... Onde está ela?
Felício e sua mulher fuzilaram Carmelitano de perguntas, acusações, exigências, informações. Quem era o bandido? A cidade andava em rebuliço, por culpa da incompetência dele, delegado. Então a própria intendente, a pessoa feminina mais importante da cidade, a dama de Palma, era insultada publicamente, chamada de égua, e não se fazia nada para punir os culpados?
A balbúrdia aumentou quando Carmelitano resolveu também falar:
– É mentira tudo, Seu Intendente? Dona Perpétua não virou égua?
A mulher, nervosa, negava que tivesse sofrido qualquer transformação.
– Não é verdade, Felício?
Nesse momento, chegaram também o juiz e o promotor.
– Doutor Felizmino, prenda já esse incompetente – ordenou o intendente.
Fazendo-se de mal-entendido, Carmelitano agarrou o preso e apresentou-o às três autoridades.
– Esteja preso de novo, seu incompetente, seu feiticeiro ordinário.
Dona Perpétua não parava de negar qualquer metamorfose, a exigir de Felício que a ajudasse a desfazer o engano.
– Você notou alguma diferença de noite?
Sem saber se enveredava pelos caminhos nupciais ou se ouvia o delegado, o intendente não dizia coisa com coisa:
– Você é mulher para todos os efeitos, quero dizer, o bruxo existe mesmo?
Severo e Felizmino tratavam de acalmar a senhora e de pôr Felício a par dos acontecimentos:
– Esse homem é o feiticeiro.
– Nós o prendemos cedinho.
– E onde entra minha mulher nessa história?
Os soldados crucificaram de novo Joaquim, enquanto o juiz, o promotor e o padre crivavam o intendente de informações.
– O senhor não soube de nada?
Felício falava do almoço, do aniversário de Perpétua, da longa espera pelos convidados, dos maus pensamentos, e fumava, suava, olhava para o preso.
– Quem me falou de um bruxo foi o filho do coronel Colombo.
– É bruxo mesmo? – indagava a mulher.
A uma chicotada de Carmelitano, o prisioneiro gritou, e todos se calaram.
– Quem é a égua, então, seu safado?
Joaquim se contorcia e gemia, sem nada dizer, o sangue a escorrer-lhe de novo dos lombos.
Padre Inácio pediu ao delegado que lhe concedesse o direito de interrogar o réu.
– Vamos tornar mais solene a inquisição. Eu canto a pergunta e os senhores repetem meu canto.
Fêz-se um coro forte, só afinado pela voz suave de Dona Perpétua.
– Ergamos um hino,
com santo entusiasmo,
ao nome divino
de Cristo Jesus.
Todos cantaram o trecho do hino, mãos postas e olhos na cruz erguida às costas do preso.
– A égua quem é,
seu bruxo nojento?
Se tu não tens fé,
serás um jumento.
E mais uma vez Joaquim calado ficou, gemente e tristonho, à parede encostado.
– Assim ele não responde – concluiu o juiz. – Em vez da pergunta coral, façamos perguntas no singular. Cada um pergunta de um jeito.
E ordenou a Tomaz que interrogasse o prisioneiro.
– A égua quem é? – falou, teso, o soldado.
Joaquim cuspiu e a palavra coube ao segundo guarda.
Repetiu a pergunta Rocha, endurecido feito uma pedra.
Também não houve resposta. Duarte fez a mesma interrogação, retesado como um cipó esticado.
Dada a palavra a Carmelitano, as palavras de sempre soaram na sala, porém silabadas.
O padre persignou-se e cantou:
– A besta é quem?
O promotor levou as mãos em concha à boca e bradou:
– A fêmea do cavalo é resultado da metamorfose de que ser humano?
Chegada a sua vez, Felício pôs-se de quatro e fanhosamente dirigiu-se a Joaquim:
– Quem é a nossa jumentinha?
O jeito arranjado por Perpétua para inquirir causou espanto a todos: aproximou-se do preso, deitou-se no chão, levantou as pernas e mostrou a lingüinha vermelha, que mais parecia um rubi.
Como por milagre, dos galhos endurecidos da cruz escorreu uma resina amarelada.

***
Legou-me Félix da Penha todo o seu acervo de fotografias, principalmente aquelas do chamado “dia da égua” ou “dia da bruxaria”.
Morreu há alguns anos, já descrente de toda e qualquer fé. Abandonou aos poucos sua velha bíblia, que se cobriu de mofo e traças, para depois ser recuperada por seu filho Lutécio.
Para o dr. Ângelo, alguma demência tomara o lugar da crença do fotógrafo, pois nos últimos tempos vivia a vituperar os personagens bíblicos, para ele cidadãos de Palma. Todos fomos rebatizados com nomes sagrados: Daniel, Salomão, Saul, Ageu, Zacarias, Josué, Balaão.
Não quis mais saber também da arte fotográfica, para ele ciência diabólica. Um dia jogou às pedras da rua sua primitiva máquina, bem como as fotografias históricas. Salvei-as da sanha dos moleques e dos bichos, por um acaso. Amarrotadas, bicadas, carimbadas de pés de galinha. Tentei restitui-las. Não as aceitou de volta e, picado de lucidez, disse:
– Fique com elas, já que o senhor é um historiador.
Embora desbotadas, ainda são visíveis todas elas. Aqui se vê a própria família de Félix, sorridente e arrumada. O menino Lutécio, vestido de branco e magro, parece uma figura antiquada.
Interessam-me, porém, apenas aquelas batidas no “dia da égua”. Numa aparece o animal, enfeitado, amarrado ao Cruzeiro, rodeado por alguns homens. Noutra a égua é adorada por Elias, Lourenço, Rafael, Xavier e não sei quem mais. Nesta Jerônimo surge em primeiro plano, carregado de livros. Esta outra mostra o padre entre o dr. Ângelo e o dr. Severo, dedo apontado para a câmera.
São mais de dez fotos, de valor histórico inestimável. Registro fiel daqueles remotos fatos.

XVII

Perdido todo o respeito, Elias perguntou a Belchior se preferia ser porco ou cachorro. O escrivão irritou-se e largou o companheiro à sua própria sorte.
– Vou ver como andam as coisas por aí.
E nem viu o sapateiro desequilibrar-se e agarrar-se ao balcão para não cair. Saiu no rumo da delegacia, o mundo a andar e rodar.
– Vai-te, filho de barrão – gritou Simão.
Saldanha não se conformava com o destino, e chorava. Tanto sonho, tanta luta, e terminar animal!
– Você quer virar o quê? – indagava-lhe Zé Cururu.
– Qualquer um serve, menos jia.
Entraram no botequim Rafael, Xavier, Gonçalo e Doca.
– Vocês querem virar raposa, é? – brincou o saboneteiro.
Simão ofereceu bebida aos novos fregueses. Não precisavam pagar, nem um vintém. Aproveitassem enquanto podiam beber.
– Deixe de agouro, homem – ralhou o magarefe.
– Então você pensa que vai ficar assim mesmo?
Discutiram, beberam, e Rafael terminou optando pela espécie bovina.
– Já cortei muito boi, agora é a vez de me retalharem.
Zé Cururu preferia transformar-se em peru. Assim, morria bêbado.
Da observação do cambista prevaleceu a referência à ave, e outras correram de boca em boca. De galinhas passaram às mulheres da Rua dos Sete Pecados.
– Se a Teresa virar cabra, eu quero ser um bode – anunciou Doca.
Para Vicência arranjaram as formas de gata, e Xavier se candidatou a gato. Teixeira, se se tornasse cachorra, ia ter um par de rua – o vira-lata Saldanha.
O lamparineiro não gostou da piada de Gonçalo e pediu explicações.
– Em vez de cortar, você agora vai virar lata.
– Vá lamber sabão preto.
Simão meteu-se entre os dois para evitar encrenca. Deixassem de briga e tratassem de viver desde logo como bichos mansos.
– Ou vocês preferem ir para a terra do Lourenço?
Calaram-se, e o dono do botequim traduziu a metáfora. A voz de Elias ressurgiu para desejar ao zelador do cemitério que se transformasse em tatu.
– Pelo menos não precisa deixar o lugar dele.
Já pacificados os dois brigões, invadiram o bar Florêncio, Miguel, Vicente e Faustino. E, mal estes bebiam a primeira cerveja, chegaram Jerônimo e Tetéu.
Por um momento, a alegria contagiou todos, como se não vivessem os últimos minutos de sua humanidade. Logo, porém, Simão ressuscitou o assunto das metamorfoses, e metade da fauna do jogo do bicho voltou à baila.
– Se eu puder escolher, vou ser pavão – disse Jerônimo.
O dentista se apegou ao elefante. Florêncio preferia ser leão. Vicente optou pelo jacaré. Tetéu se preparou para altos vôos, e quis ser águia.
Faustino, antes de dizer sua preferência, fez uma explanação sobre a importância de certos animais para a magia. Citou o lobo, o bode, o gato, a coruja, e elogiou as escolhas feitas pelo motorista e pelo lojista.
– Eu vou ser um grifo.
Fez-se silêncio no bar. Ninguém sabia da existência de tal animal.
– Só para vocês terem uma idéia, o grifo é a mistura de três animais. Tem asas de morcego, cabeça de águia e patas de leão.
Discorria ainda sobre o fabuloso bicho, quando chegaram Felipe, Pascoal, Soares, Viriato e Picoto.
– E tem mais: só pode existir um de cada vez.
Enquanto o barbeiro falava, ninguém abriu a boca, quer para interrompê-lo, quer para tomar um gole de cerveja.
– Se eu conseguir isso, vocês todos serão mortos.
Tetéu defendeu-se: uma águia não ia ter medo de um grifo. Florêncio predispôs-se a enfrentar o terrível bicho. Os outros mudaram logo de idéia, e o salão se encheu de cascavéis, onças, gaviões, touros, tigres e escorpiões. Até de pequenos, mas valentes besouros, piolhos de cobra e pássaros de fogo. Apareceram monstros: dinossauros, cavalos alados, leviatãs.
Acossado por tão terríveis feras, Faustino fez-se mais prodigioso:
– Se vocês querem guerra, então se preparem: vou ser vampiro.
Houve estupefação geral no botequim. E o barbeiro descreveu suas novas características: o ser chamado vampiro vive para chupar o sangue dos vivos até a morte.
– Para matar um vampiro basta um tiro de bala de prata com uma cruz gravada.
Mas qual o animal capaz de empunhar uma arma de fogo?
Entreolharam-se os ouvintes de Faustino: não havia escapatória para ninguém. A menos que se unissem todos para dar combate ao vampiro – o inimigo público número um.
– Já que ele não quer ser mais grifo, nós todos seremos grifos – imaginou Elias.
– Formaremos um exército de grifos – concluiu Miguel.
Ninguém, nem mesmo o barbeiro, se lembrava mais de que só podia existir um grifo de cada vez. Florêncio, porém, lembrou-se de uma promessa de Faustino de devolver a natureza humana a todos os seus amigos transformados em bichos pelo feiticeiro.
– É verdade, Seu Faustino? – adiantou-se Picoto.
Temeroso de uma revolta, o barbeiro não desmentiu o lojista, e o riso abriu-se na cara de todos.
– Tem um porém: eu falei apenas dos meus amigos.
Um a um, os presentes fizeram juras de amizade a Faustino, ofereceram cerveja, cigarro, deram-lhe palmadinhas nas costas, limparam-lhe a roupa, elogiaram-no, chamaram-no de professor, sábio, profeta, guardião e defensor perpétuo de Palma.
Mesmo assim, o barbeiro não se rendeu: havia um segundo porém.
– Qual, qual? – gritaram.
– Se eu virar bicho também, não poderei fazer nada por vocês.
Felipe pensou, pensou e arranjou uma idéia salvadora: esconderiam Faustino.
– Ninguém pode se esconder dos bruxos – explicou o sapateiro.
– Então o senhor foge daqui – argumentou Pascoal.
Também não adiantava fugir, porque os bruxos vão atrás e só sossegam quando capturam a presa.
– Só resta o senhor se fantasiar de bicho – idealizou Rafael.
– Pode até ser de égua – balbuciou Vicente.
– Ele vai pensar que o senhor é a égua do Cruzeiro – falou Viriato.
O plano se formava com a participação de todos. Botavam um cabresto no pescoço do barbeiro, amarravam-no ao Cruzeiro e repetia-se a cerimônia da manhã, com idolatria, bestialidade e tudo.

***
Assim como os palmenses se sentiram indecisos na hora de eleger o animal em que queriam se metamorfosear, também o velho Jacinto e seus comandados se lembraram de quase todos os bichos quando decidiram mandar a Palma um cavalo de Tróia.
Não fosse o aparecimento misterioso da égua, talvez nunca tivessem pensado sequer num cavalo. De gregos e troianos nem sabiam da existência, quanto mais de Ulisses e de sua ardilosa invenção.
Inicialmente pensaram em canguçus, suçuaranas e maracajás. Como conduzir, porém, qualquer deles à cidade e torná-lo motivo de curiosidade dos cidadãos de Palma? Quem se atrevia a cometer façanha tão heróica?
Ninguém se mostrou disposto a arriscar a vida.
Outro deu a idéia de levar uma cobra dentro de um caçuá e soltá-la no meio da rua. E pelo menos quatro delas apareceram na conversa: boipeba, caninana, jararaca e surucucu.
Não, o objetivo não era assustar o inimigo, fez ver Jacinto. Precisavam de bicho menos assustador.
– Que tal um caititu?
– Ou uma capivara.
O velho pediu a opinião de todos. Seguiu-se uma ladainha de nomes de bichos menores: cuandu, guabiru, guariba, guaxinim, punaré, quati, tamanduá, tejuaçu e timbu.
Houve quem preferisse bichos de pena, como arara, caburé, carcará e mutum.
– Vou pensar – decidiu o chefe.
Já então ninguém duvidava mais da sanidade mental de vovô Jacinto, quanto mais de sua sabedoria.
Porém, nos primeiros tempos, quando ele falava de vingança, até seus filhos o chamavam de velho doido e caduco. Sua conversa, no entanto, era equilibrada, lógica, serena e, pouco a pouco, deixaram de rir de suas palavras e de não dar ouvidos a elas. Tanto insistiu que, com pouco tempo, não só os filhos e netos, como também os vizinhos, trocaram os forrós e romances por suas preleções revolucionárias.
A princípio ninguém conseguia entender porque deviam se vingar, nem para quê, nem em favor de quem e contra quem tal vingança devia ser exercida.
– A gente precisa se vingar – dizia o velho.
– Que gente, Seu Jacinto?
Ele contou então uma história muito mais extraordinária do que a de Carlos Magno e os doze pares de França.
Quando as nações que viviam soltas no mato foram quase todas destruídas na guerra contra os paulistas, só restaram as aldeias das missões, constituídas de índios mansos, e alguns núcleos de bugres espalhados pelos sertões.
Estes índios mansos lutaram ao lado de seus inimigos naturais contra seus próprios patrícios e nem assim tiveram recompensa alguma após a guerra. Pelo contrário, tratavam-nos os estrangeiros como a animais de carga.
A revolta estourou no meio dos paiacus. A eles se uniram os anacés, jaguaribaras e outras tribos, e atacaram a vila de Aquirás, a capital da província. Desse ataque resultou a morte de mais de duzentas pessoas, tendo os sobreviventes fugido para Fortaleza.
Os brancos não tardaram a contra-atacar. Nas margens do rio Choró deu-se o primeiro confronto. Depois de um dia de luta, os rebeldes saíram derrotados. Muitos foram aprisionados para serem mortos ou distribuídos como escravos entre as famílias brancas.
A rebelião, porém, se dava por todo o sertão. Aqui os canindés, ali os acriús, acolá os tremembés, mais adiante os arariús, noutro extremo os anacés.
No terceiro ano de luta, no entanto, os poderosos soldados do rei de Portugal conseguiram eliminar a maioria dos rebeldes e escravizar o restante.
Daí em diante os índios viraram capangas dos donos das terras.
– E, depois, gente como a gente. Caboclos, como dizem os coronéis – explicava Jacinto.
Os discípulos queriam saber quando havia acontecido essa guerra. O velho esfregava um dedo no outro, a indicar muito tempo.
– Quem me contou tudo foi papai. De segunda mão, pois ele também não era ainda gente naquele tempo. O pai dele, sim, viu tudo de perto. Era da nação dos jenipapos, parentes e vizinhos dos paiacus e canindés, os mais valentes inimigos dos invasores estrangeiros.

XVIII

Chegamos à delegacia, Belchior e eu, quase ao mesmo tempo, e já o gabinete do delegado se encontrava lotado.
– Elas devem estar chegando – sossegou Carmelitano.
Deixei o escrivão para lá e perguntei a Félix quem estava para chegar. Um vozerio do lado de fora respondeu pelo fotógrafo. Conduzidas pelos três soldados, umas dez mulheres apareceram à porta.
Empurra daqui, empurra dali, demos passagem às damas da Rua dos Sete Pecados. Boas-tardes, boas-tardes, cumprimentaram-nos. A sala encheu-se de perfume e mais calor, misturados a suor e cachaça.
– Agora diga, seu bruxo, qual destas madames o senhor transformou em égua – esgoelou-se o delegado.
Joaquim não pôde falar. As meninas se irritaram, espernearam, protestaram, choraram. Então eram chamadas à delegacia para serem insultadas? Se soubessem disso, não tinham deixado suas casas.
Na tentativa de apaziguá-las, Belchior e Félix mais lenha jogavam à fogueira. Sossegassem, o feiticeiro não ia mais fazer aquilo. Ainda bem que tudo se havia normalizado. Queriam só esclarecer o inusitado fato. Quem chamasse a vítima de égua, jumenta, besta, seria preso.
– Responda logo, bruxo imoral – bradava Carmelitano.
Dona Perpétua, resguardada pelo marido e outras autoridades, olhava para as meretrizes, assustada, como se nunca tivesse visto nenhuma delas.
O padre beijava o crucifixo e suava no meio de tanta tentação.
– Foi esta? – e beliscava o braço de Teresa.
Grudado à parede e protegido pelos guardas, o preso parecia noutro mundo, inerte, mudo, os olhos parados.
– Atenção – gritou o juiz – atenção, vou dar início à audiência. – E dirigiu-se à mesa.
Chamou o promotor e Belchior para iniciarem os trabalhos.
– E o advogado do réu? – lembrou o escrivão.
Felizmino pediu que um de nós se apresentasse para defender o acusado. Félix olhou para Ângelo, Colombo para Oliver, João Fortes para Felício, o padre para Catulo, e Perpétua para mim.
Terminei patrono de Joaquim.
– Pergunto ao réu a qual destas senhoras transformou ele em fêmea de cavalo.
Servido de papel e lápis, o escrivão brigava com a mão direita para que se comportasse e desenhasse com simetria as palavras ditadas.
– Meritíssimo, pergunte ao acusado pelas características originais da fêmea de homem mais tarde feita animal – requereu o dr. Severo.
Os vermelhos olhos de Belchior largaram o papel e espantaram as meretrizes, enquanto o magistrado reformulava a questão para o preso.
– Diga-nos, spont sua(*), se a eva pelo senhor escolhida para transmudar-se em égua usava brincos ou não, se seus lábios dela eram carnudos ou murchos, se trazia sinais na face, no colo ou em outras regiões mais absconsas, tais como a lombar, a axilar e mesmo a ventral.
Pedi a palavra para protestar pelo penumbroso da pergunta. Nem o mais letrado dos presentes podia entender palavreado tão barroco. E sugeri que, em vez de interrogar o réu, inquirisse as raparigas.
– A senhora – começou Felizmino, dedo apontado para Teresa – deixou de ser mulher alguma vez na vida e especialmente hoje?
A inquirida perdeu o equilíbrio e só não chamou o juiz de santo. Era mulher indo e voltando. Perguntasse a qualquer um daqueles machos se mentia.
Os risos se misturaram à estupefação. Carmelitano escondeu-se detrás do padre, o promotor coçou o nariz, Felício baixou a cabeça.
– O delegado, Tomaz, Rocha, Vicência e Teixeira estão de prova.
E contou a história da noite passada: estiveram juntos até altas horas, bebendo, dançando e contando anedotas.
– Mais tarde fomos para o quarto, eu e Tomaz.
O soldado encabulou-se, mil olhos grudados na sua farda suja.
– A Vicência ficou com o delegado e a Teixeira com o Rocha. Perguntem a eles se não é verdade.

(*) De própria vontade.

***
Na Rua dos Sete Pecados viviam as prostitutas de Palma, a maioria delas vindas de muito perto, e algumas das bandas do Cariri, do Jaguaribe, dos sertões. As primeiras traziam-nas os donos dos sítios onde viviam, como o coronel Colombo, José Catulo e João Fortes. No início, serviam apenas a seus senhores. Com o passar do tempo, tornavam-se públicas e, às vezes, rés de culpas diversas. Como de estarem doentes, de engravidarem, de se tornarem velhas e feias.
Nenhum homem em Palma deixava de visitá-las de vez em quando, mesmo os mais velhos, os mais católicos, os irmãos da Confraria de São Vicente de Paulo, os músicos da banda, os mais ricos e os mais pobres.
Pascoal da Cunha só não fazia soltar foguetes na rua dos pecados. Lourenço às vezes se aborrecia dos mortos, largava seu posto no cemitério, contava lorotas a sua mulher e caía nos braços de qualquer Inácia mais nova. Elias trocava sapatinhos envernizados por carícias variadas. Jerônimo, embora doido por apito de trem, só faltava morrer nos tremores apimentados das meninas. Felipe não ficava para trás e brincava de telégrafo nos seios das mocinhas. O dentista aqui e ali vestia o avental e ia cuidar dos dentes das pecadoras. O boticário aviava tudo para as pobres mundanas, para depois cobrar com juras altíssimas sua benevolência. Florêncio presenteava cortes de organdi a uma Juraci e partia feliz do organismo. O escrivão nem escrevia nem lia na casa de Raquel, mas durante sete anos pastoreou o rebanho perdido. Rafael dava quilos de dianteiro por horas de quadris. O carroceiro Xavier, de tanto tanger a burra, terminava de chicote armado na casa das éguas. Carmelitano prometia mundos e fundos a Vicência. Severo Brito promovia a deusa a parceira de cada noite. Soares, o fabricante de piões, rodava, rodava e, tonto, caía nos braços de Marcelina. Mestre Viriato regia a banda e mandava dobrado para as messalinas. Simão fechava o botequim e aqui e ali corria ao pecado. Saldanha, quando a lamparina apagava, virava vagalume e partia em busca de mariposas. Picoto, cansado de carregar fardos, vivia a gemer na rua das perdidas. Zé Cururu, o dia todo a vender bichos, passava as noites a comprar cadelas, lobas e peruas. Tetéu, o chofer do “boi”, não perdia tempo atrás de vaca e sempre estacionava à beira do curral das damas. Doca de dia trabalhava tijolos e barros, de noite descansava na toca dos burros. Mister Oliver, dizia Faustino, preferia bombear água e ganhar dinheiro a perder-se nos meandros do pecado. Segundo outros, tanto bombeava como se perdia. Gonçalo, enquanto vendia sabonetes, sujava-se de outra forma.
Porém o mais assíduo freqüentador da rua dos pecados era Faustino, não tanto para pecar por luxúria, antes por bisbilhotice. Dificilmente aproximava-se das mulheres. Seu olho buscava ansioso os fregueses, caçava-os, descobria-os, mesmo entre quatro paredes.
De Félix, dizia-se que jamais pisou sequer o chão da rua da perdição. Assim também Felizmino, Ângelo e Felício. Nunca foram vistos na companhia suspeita daquelas mulheres tão cobiçadas. Preferiam freqüentar sítios mais afastados, na capital.
E finalmente eu, feito do mesmo pó deles e delas, muitas vezes me antecipava a todos e trocava o jornal e os livros pela palavra viva da carne.

XIX

Depois de horas e horas de torturas, inquisições e loucuras de todo tipo, Joaquim resolveu tentar a sorte. Interrompeu a solenidade da audiência para fazer a revelação mais estarrecedora do dia:
– A égua não é mulher.
O espanto na delegacia foi tão grande que até desmaios aconteceram. Dona Perpétua passou mal e só não se machucou graças ao pronto socorro de seis ou oito braços.
Cada um reagiu à sua maneira. Padre Inácio pronunciou o nome de Deus em vão. O doutor Felizmino berrou um vigoroso sufficit!(*) O doutor Severo murmurou um frágil idem. Felício Pinto escancarou a boca, como se fosse engolir o mundo. Carmelitano inchou feito um sapo. Félix amparou-se em Jesus. O doutor Ângelo curvou-se. João Fortes fechou os punhos. Catulo tombou para a esquerda e Belchior para a direita. O coronel Colombo pareceu levitar. Mister Oliver levou a boca à orelha. Os três soldados empalideceram. As dez meretrizes se ruborizaram. E eu nada entendi.
Ainda sob o impacto causado pela declaração de Joaquim, uma segunda surpresa acabou por nos assombrar definitivamente:
– Ela voltou.
Os olhos de todos saíram pela janela, ultrapassaram as paredes, percorreram as ruas, atrás da égua.
– Onde ela está? – impacientou-se Belchior.
O preso prendeu as palavras, a frear a curiosidade de seus inimigos.
– Diga logo, pelo amor de Deus! – implorou o juiz.
A pequena multidão acercou-se de Joaquim, mansa e humilde, quase de joelhos, como se a delegacia fosse um templo.
– Ela está no Cruzeiro.
Ninguém se preocupou com saber se o estranho falava a verdade ou preparava uma cilada. Como podia ter acompanhado os passos do animal, se desde cedo se achava preso? E como sabia que no Cruzeiro havia uma égua, se de dentro da delegacia não se avistavam sequer as torres da matriz?
– Se duvidarem de mim...
O padre nem deixou Joaquim concluir a frase e por três vezes disse não. Ninguém duvidava de nada.
– Vamos para lá – ordenou Catulo.
A porta tornou-se estreita para tanta gente.
– As damas primeiro – observou o cavalheiro João Carmelitano.
Oliver e Ângelo preferiram saltar a janela, e logo se distanciaram dos outros.
– Esperem, seus apressadinhos – brincou Perpétua.
No ruge-ruge, a espada do coronel Catulo rasgou a batina do vigário, e Belchior ficou para trás.
Na rua nem os vira-latas davam sinal de vida, como se até os bichos tivessem sumido.
– Depressa, depressa! – bradava o intendente.
Joaquim caminhava livre, sem escolta, a passo retardado, quase ao lado do escrivão, enquanto os demais se adiantavam, cansados, suados.
Os soldados e o delegado se faziam acompanhar das quengas, na maior intimidade, e nem ligavam para o preso.
Nesse caminhar, o caboclo meteu-se pelo primeiro beco, apressou o passo e correu.
– Quem me dera aquela potranca – sonhou o médico.
De longe avistamos o Cruzeiro e uma aglomeração.
– É ela! – entusiasmou-se Colombo, e uma alegria infantil generalizou-se.
Aos gritinhos, homens e mulheres se puseram a correr, enquanto eu arrastava Belchior pelo braço.
Quando nos reunimos aos demais, já uma briga se formava. De um lado, Elias, Rafael, Xavier e mais um bando de bestas intitulavam a égua de santa, divina, angélica. De outro, Miguel, Vicente, Viriato e não sei quantos pândegos elogiavam a potra e chamavam-na de gostosa, linda, gracinha.
À distância, a menina Maria da Cunha olhava para o céu e mais parecia uma santa.
– Adoremos! Adoremos! – conclamava o histérico Elias.
– As ancas dela – completava Vicente.
No outro lado da praça mulheres pias rezavam pelo bom termo da contenda, enquanto a meninada brincava e ria no patamar da igreja.
Os primeiros a se atracarem foram Xavier e Felipe. Logo outras duplas se formaram, e o ringue se encheu de lutadores.
No meio da confusão, a égua tentava romper o cabresto pela terceira vez, aos solavancos e relinchos.
No céu, já Vésper luzia, e o povo de Palma, compenetrado de sua ilusão, olhava para o sol, que morria, e imaginava a aurora.
Para quase todos aquele dia ainda raiava.
_______________
(*) Basta!

FIM