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OS VARÕES DE PALMA (4)

(Continuação)

XI

Afobado com a algazarra feita pelo povo, no meio do caminho o delegado parou e gritou:
– Podem voltar daqui; ou vocês estão pensando que isto é procissão?
Houve uma debandada geral. No atropelo alguns saíram pisoteados.
Agarrados à cruz, Joaquim continuou rumo ao calvário, escoltado pelos soldados.
Ao término da caminhada, os mais curiosos ou corajosos se postaram diante da delegacia e novamente Carmelitano os expulsou.
– Vão cuidar dos seus quefazeres.
A maioria obedeceu. Saíram uns a resmungar, outros caladinhos e encabulados, feito vira-latas escorraçados. Alguns fizeram ouvidos de mercador e não abandonaram a janela e a porta da delegacia. Talvez não tivessem nada a fazer fora dali ou achassem que o delegado não se havia dirigido a eles. E até se comportaram como pessoas especiais.
– Vão, vão – dizia Faustino, a afugentar o povo com as mãos.
– Todos para seus lares, meus filhos – aconselhava o padre, cheio de bondade e compreensão.
O preso está preso – falava um fulaninho desconhecido.
Porém Carmelitano não queria ninguém a espionar sua casa e ameaçou chicotear os desobedientes.
– Ficam só o padre e Seu Faustino.
Os últimos curiosos correram e iniciou-se a inesperada inquirição das privilegiadas testemunhas. O delegado desejava saber direitinho do crime praticado pelo acusado e pela co-ré.
O barbeiro e o sacerdote puseram-se a falar ao mesmo tempo, voltados sempre para Joaquim, encostado à parede e vigiado pelos três guardas. A cruz mantinha-se erguida atrás de Carmelitano, como a abençoar o julgamento.
No meio do palavrório, percebeu o inquisidor uma palavra essencial e interrompeu os matracas:
– Êpa! quem falou em feiticeiro?
Faustino inventou então uma história fabulosa, capaz de colocá-lo em maior evidência no conceito do delegado e mudar os rumos dos acontecimentos:
– Esse homem, se assim posso dizer, tem as artes da magia e dos enfeitiçamentos, pois é capaz de transformar pessoas em animais.
O padre primeiro riu, como se acreditasse numa brincadeira, depois se fez carrancudo e assustado, enquanto o delegado aproximava do narrador os ouvidos, enfeitiçado pela revelação.
– O senhor não viu a égua, viu?
Carmelitano deu um pulo da cadeira, enfureceu-se, voltou-se para os soldados, a gaguejar e espumar: onde andava o animal, por que o deixaram fugir?
O barbeiro procurava acalmá-lo, prestasse atenção, não adiantava querer lutar contra as feitiçarias.
– A égua é Dona Perpétua.
Com a nova denúncia, houve como que um momento de profunda estupefação entre os presentes. Fez-se um silêncio tão grande que até as moscas pararam no ar. A cara de Tomaz tornou-se patética, Rocha perdeu a cor, Duarte enrijou-se. Os olhos do padre cresceram desmesuradamente, feito duas bolas de assombro. Todo o delegado parecia um retrato de pavor. Só Joaquim olhava preocupado.
Ainda sob o impacto da revelação, os policiais, o padre e o preso ouviram de Faustino uma verdadeira aula de magia.
– Nunca fui feiticeiro, mas conheço a fundo a ciência do Diabo.
Falou de encantamentos, espíritos imundos e metamorfoses.
– Eles, os feiticeiros, usam um ungüento para produzir a transformação de seres humanos em animais.
Os soldados tremiam e aos poucos se afastavam de Joaquim. O delegado não conseguia fechar a boca e nem sequer se mexia, como se ouvisse um mago. Padre Inácio parecia entorpecido.
– Esse ungüento é feito de banha de crianças, baba de sapo, mioleira de gato e substâncias vegetais.

***

Um dos episódios mais fantásticos da chamada “Guerra da Donzela”, denominação dada aos acontecimentos que redundaram na morte do prefeito Raimundo Thaumaturgo, é aquele em que meu desventurado filho Sombra, herói para uns, covarde para outros, doido para a medicina, “se viu” a comandar o combate às “feras” da caverna.
Para mim, um fato é conseqüência do outro, embora não se possa dizer que o feitiço virou contra o feiticeiro.
Nem valeria a metáfora, porque no caso Joaquim (o feiticeiro) não teve o feitiço virado contra si. Se mais adiante se desgraçou, a história já é outra.
Quero dizer apenas que a invenção de Faustino se concretizou mais tarde – durante a caçada ao suposto raptor de uma fictícia donzela. Assim, reformulo o ditado: o feitiço virou contra os inventores do feitiço. Ou contra seus descendentes. Ou a geração seguinte.
Pois meu filho perdeu o juízo; Cabo Jacó e Franco Abreu, neto de Florêncio, se mataram; padre Queiroz fugiu, deixando a paróquia ao abandono; o sacristão Joaquim entregou-se à cachaça e morreu bêbado; Maestro Permínio, filho do dentista Miguel, também não durou muito, depois de alguns dias de completa mudez; Carlos Ramos, filho do magarefe Rafael, abandonou a família e partiu para o Acre; afora outras pequenas desgraças.
E o motor de tudo isto foi Antonio Jucá, neto de Joaquim, o suposto feiticeiro, que vingou de uma só vez o extermínio de seus antepassados indígenas, a tortura e o suicídio do avô e a desgraça de sua mãe – emprenhada e abandonada por Raimundo Thaumaturgo, o coroinha desta crônica.


XII

Aos poucos, João Carmelitano conseguiu voltar a si, fechar a boca, dar sinal de vida. E voltou como antigamente: os olhos, duas labaredas; os gestos, de danação; a voz, do diabo:
– Então, cabra, você é mesmo feiticeiro?
Joaquim encostou-se mais à parede, mirou a figura do delegado e ainda nada falou.
– Não adianta negar, seu bruxo – berrou novamente o policial, dentes a ranger, punhos fechados, o chicote a estalar no ar.
O padre benzia-se, rezava, pedia a Deus favores despropositados: levasse aquele demônio dali, fizesse a égua Perpétua virar dama outra vez, protegesse seu rebanho da metamorfose.
Os soldados agarravam-se a si mesmos, apalpavam-se, amarelos de fazer dó.
Como Joaquim se mantivesse mudo, Carmelitano saltou da cadeira e, possesso, pôs-se a surrá-lo com o chicote, enquanto rugia maldições: Belzebu, mosca do inferno, fedorento, bode nojento.
E inventava perguntas de todo tipo, ajudado por Faustino:
– Onde está a égua?
– Pergunte pelo mágico Merlim.
O preso, coberto de sangue, apenas gemia, e seus gemidos eram interpretados pelo barbeiro como palavras mágicas.
– Ele falou em Leviatã.
– Quem é esse tal?
As explicações de Faustino amainavam a fúria do delegado, que baixava o braço e ouvia.
– É um demônio das águas. Seduz as mulheres e...
Depois de tanta tortura e já meio sábio do jargão mágico, Joaquim resolveu falar: confirmou que praticava a bruxaria, tinha dons de enfeitiçar, trazer miséria e transformar pessoas em bichos.
Não disse muito, mas, enquanto falou, esteve livre das chicotadas.
– Posso transformar o senhor num besouro – ameaçou.
Carmelitano fez-se manso e humilde. Largou o chicote e implorou piedade:
– Não, seu feiticeiro, me deixe como estou.
Joaquim encheu-se de coragem, exigiu curativos para os ferimentos, comida, água, puxou a cadeira do delegado e sentou-se.
– O senhor quer virar um cavalo?
O policial ajoelhou-se aos pés do caboclo e, quase a chorar, fez um pedido extraordinário:
– Quero ser um feiticeiro.
Tomaz pôs-se a chorar e também caiu aos pés de Joaquim:
– Não, não faça isso. Ele vai me transformar num burro.
E explicou: o chefe vivia a chamá-lo de burro e, se se tornasse mágico, seu primeiro trabalho seria fazer aquela maldade.
– Posso então ser seu ajudante – propôs Carmelitano.
Enquanto o padre lhe sarava as chagas com mercúrio, ajudado pelos soldados, Joaquim apenas ouvia os rogos e as propostas, incapaz de se impor.
– A gente podia transformar esse povo todo em vaca, porco, galinha, cabra – sugeria mais o delegado.
E, já alegre, traçava planos de fartura e riqueza: leite, queijo, carne, banha, ovos, pele, nada ia faltar na cidade. E ainda podia vender para fora.
– Que tal abater cinco bois por dia?
Diante dos sonhos pecuaristas de Carmelitano, tanto o padre como os soldados e o barbeiro resolveram render outros tributos ao todo-poderoso Joaquim.
– Vossa Excelência pode me nomear capataz da fazenda – autorizou Inácio.
– Eu cuido da granja – escolheu Faustino.
Tomaz desejou tomar conta da pocilga, Duarte prontificou-se a ordenhar as vacas, Rocha pediu para encarregar-se de curar o gogo das galinhas.
Falavam, falavam, sem se importar com as opiniões de Joaquim, que cada vez mais se mostrava embasbacado, a dizer “sim, sim, sim”, quando não respondia por simples gestos. Talvez não acreditasse no que via e ouvia. Talvez estivessem fazendo mangofa, brincando de bobos.
De qualquer forma, enquanto assim permaneciam, o delegado não fazia uso do chicote. Mas, se tivesse intenção de voltar às torturas, por que tantos cuidados com os ferimentos?
– Rocha, vá buscar almoço para o nosso chefe – ordenou. – Diga a Dona Izabel que prepare o melhor prato do mundo – acrescentou.
Porém Faustino se antecipou ao soldado e se ofereceu a prestar tão relevante serviço.
– Pode deixar comigo.
Mais uma vez Joaquim apenas olhou para um e outro, sem saber que palavras dirigir a tão esquisitas pessoas.

***
Joaquim não foi propriamente escolhido para cumprir aquela missão, porque não havia no embrionário exército dos caboclos uma noção clara de disciplina e hierarquia. Tudo se deu de maneira mais ou menos empírica. Assim, ele mesmo se propôs fazer o reconhecimento de Palma e conduzir a égua.
Na verdade, poucos entre os comandados de Jacinto tinham ido à cidade alguma vez. E mesmo estes não chegaram a percorrer as ruas, a conhecer as pessoas. Permaneceram no recinto da feira, metidos no meio da multidão.
Para que a invasão se fizesse com a maior garantia de sucesso, precisavam de um mapa da cidade, onde fosse registrada principalmente a localização da delegacia, da intendência, das igrejas e das casas das autoridades.
A Joaquim recomendaram verificar se os homens andavam sempre armados, quantos eram ao todo, quais seus hábitos, o que faziam durante o dia.
E tudo o espião investigou. Por um dia inteiro andou pela cidade. Da Praça da Matriz ao Potiú, do Alto da Cadeia às Lajes. Visitou as igrejas, ajoelhou-se, rezou. Esteve diante do cemitério, da cadeia e da Intendência. Na Rua do Comércio observou lojas e mercearias. Meteu-se pela Rua dos Sete Pecados, sujeito a convites e tentações. Viu o trem, aquela geringonça enorme e fumacenta, a correr em cima de um caminho de ferro. Estarreceu-se ao ver a correria de dois bichos chamados automóveis – um do coronel Catulo, outro do dr. João Fortes. O “boi” e a “vaca”, como o povo os batizou. Os primeiros carros a rodar sobre as pedras das ruas de Palma.
Finalmente referiu-se à cena da macaca de Manuel Saldanha, apenas para dar conta de todos os seus passos. E só então o velho Jacinto se interessou pela descrição feita por Joaquim.


XIII

Felício ia à janela, vasculhava a rua de uma ponta a outra, franzia a testa, voltava ao sofá.
– Mas não é possível uma coisa dessas!
Perpétua levantava-se do sofá, ia também à janela, enfiava os olhos no mundo, sem um sorriso nos lábios pintados. E enchia a sala de queixumes.
– Será que todos se esqueceram do meu aniversário?
O casal se unia, se desunia, se calava, falava ao mesmo tempo, impaciente, vestido de gala.
– Você convidou o doutor Felizmino?
O cinzeiro se fartava de cinzas e pontas de cigarro, e mais o intendente fumava, quase a não poder falar. As vestes da mulher se amassavam, de tanto sentar-se.
– Estou pensando uma besteira – disse ele, depois de fixar a vista num diminuto fiapo de pano aos pés do sofá.
A aniversariante parou a caminho da janela e voltou-se para ouvir o pensamento do marido.
– Será que convidamos mesmo?
– O meritíssimo?
Felício largou o fiapo para lá, riu e encontrou os olhos tristíssimos da mulher: e se tivessem apenas imaginado ou sonhado os convites, se nunca tivessem falado do natalício e do almoço, nem ao padre, nem ao juiz, nem ao médico, a ninguém?
– Não me lembro desse sonho.
À parede, personagens antigos guardavam o doce lar dos Castro Pinto – Judas enfiava a mão felina no prato de Jesus, aqui o bigode sem par do pai de Felício, ali a candura da mãe, acolá o próprio casal intendente vigiava o presente.
Não, não podia ter sido um sonho. Lembravam-se dos risos do doutor Severo, dos agradecimentos do doutor João Fortes, da euforia do coronel Catulo, fardado e xambregado.
– Vou beber um licor.
Uma criada chegou à sala, alegrete, a transpirar coentros e cebolas.
O cuco forcejava para abrir a portinhola do relógio, cantar e dar parabéns pra dona Perpétua.
– A folhinha está certa?
Felício provou a bebida, lambeu o bigode e acendeu outro cigarro.
– Será hoje mesmo?
A mulher só faltou chorar. Então até ele, seu marido, não sabia mais do aniversário dela!
– Não, não é isso, queridinha.
E correu de novo à janela, a cabeça em revolução, a testa sanfonada, os olhos ensangüentados.
Um cheiro triste de comida especial invadia a sala, atiçava a gula de Judas, mexia com o bigode do sogro, sujava a alvura da sogra, conspurcava seu casamento – e Dona Perpétua já chorava.
– Calma, calma, eles vão chegar.
A um canto, o piano nada falava, só brilhava, imponente, paciente.
– Toque uma valsa.
Não. Ela se desesperava, amassava o vestido, murchava os lábios e perdia a compostura – o coronel Colombo que levasse um tombo.
A Florêncio desejou quebras e rateios, de Felizmino disse cobras e lagartos. Ao dr. Ângelo chamou de curandeiro; a João Fortes, de caloteiro. O promotor Severo Brito que tratasse de ajeitar sua venta de bezerro novo e o coronel Catulo que se lembrasse da raposa.
Não escapou sequer a barba de arroz doce de Mister Oliver, nem a cara de mamão macho do padre Inácio.
O intendente já não se ocupava com fiapos, nem gravuras, nem pianos, nem licores. Arranjava desculpas, inventava hipóteses, tecia premissas.
– E se todos tiverem esquecido?
– Só se forem doidos.
Da cozinha vinha uma cantiga alegre de senzala e um aroma de quitutes e petiscos.
– Então todos morreram.
Dona Perpétua saltou do sofá e riu como nunca rira.

***
Segundo me informou Faustino, um prato singular aguardava a fome dos convidados – testículos de bode ao molho nagô. E até francês ia correr a farta mesa, entre uma garfada e outra.
Esta última informação merece mais crédito, de vez que fui eu o professeur de madame Perpétua.
Queria ela afrancesar tudo, inclusive seu nome.
– Professor Tomé, como é Perpétua em francês?
Achou horrible ser chamada de Madame Immortelle e preferiu Madame Intendant.
Aprendeu ainda algumas palavras, como colonel, juge, promoteur, prêtre, docteur e simplesmente monsieur, com as quais trataria os convives.
Decorou também uns poucos adjetivos, interjeições como miséricorde! salut! e Mon Dieu! e locuções variadas que pretendia empregar a três por quatro durante o almoço.
Eu, naturalmente, não fui convidado, não por não ser autorité municipal, mas por ser exatamente a anti-autoridade.
Ela ainda esboçou um convite, embora a princípio não me tivesse falado sequer do almoço.
– A senhora vai a Paris?
– Não, vou dar um almoço chic.
– Sei, um almoço à francesa.
Num instante e sem que ela percebesse, deixei de ser professor e me fiz jornalista. Belo prato para minha gula!
Reunir-se-iam em torno dos testículos de bode as mais ricas e influentes pessoas de Palma: Colombo Thaumaturgo e José Catulo, coronéis da Guarda Nacional e donos de dois dos maiores sítios da serra; Florêncio Abreu, o mais conceituado comerciante da região; os doutores Felizmino Garrido e Severo Brito, guardiães da Justiça; João Fortes, coletor de impostos e proprietário de outro formoso sítio; Ângelo Ribeiro, médico de todos, pronto a atender qualquer chamado, até mesmo de madrugada, contanto que o doente morasse numa bela casa; padre Inácio, o santo representante do Deus católico na terra palmense; e Mister Oliver, o ex-súdito de Sua Majestade, a Rainha Vitória, e um dos pioneiros da revolução industrial em Palma, ao instalar uma bomba no rio para, com auxílio de um cata-vento, levar água para um tanque no alto da cidade e daí distribuí-la às casas.
Para receber tão caras personagens, os anfitriões se vestiram a rigor e tanto se enfeitaram que até perderam o espetáculo da ceia e do sacrifício de Cristo.
Perderam muito mais: a primeira e única encenação da comédia sem título protagonizada pela égua A Vingadora.

XIV

Na primeira esquina da delegacia deparou-se Faustino com Rafael Elias e Pascoal.
– Quem é o homem?
– O homem ou o bruxo?
O fogueteiro riu, e ficaria rindo se o barbeiro não falasse em comprar alho.
– Para quê?
– O melhor remédio para afugentar os maus espíritos é comer sete cabeças de alho.
E continuou sua caminhada, enquanto os três se benziam e também fugiam das imediações da delegacia.
Diante da casa de Félix parou de novo Faustino. O fotógrafo consertava a bíblia com goma arábica e paciência de Jó.
– O senhor já sabe que o preso é um bruxo de primeira grandeza?
– Temos recebido o bem de Deus, por que não recebermos também o mal?
O barbeiro não esperou pelo resto da ladainha e atirou-se pela rua em fora. E onde encontrava gente dava notícias do preso.
– É um feiticeiro renascido dos antigos índios.
– Que índios, Seu Faustino?
Mais adiante interrompeu a caminhada do dr. Ângelo para dar-lhe alvíssaras. O médico suava às bicas, doido para se livrar da conversa fiada.
– Isso não existe mais, a Inquisição acabou com todos os bruxos há quase dois séculos.
E deitou erudição para cima do barbeiro: o Santo Ofício, papa-não-sei-das-quantas, doutor Hipócrates, doutor Angélico, Medéia, Argonautas, Velo de Ouro, Apuleio, O Burro de Ouro, e daí por diante.
Emudecido, Faustino desejou bom-dia ao sábio médico e afastou-se, o suor a inundar-lhe o corpo, a língua ressequida de tanto ouvir. Saltitou, saltitou e enfiou-se no botequim do Simão Veloso.
Mal pediu cerveja, uma chusma de curiosos cercou-o de perguntas.
Primeiro deu o mote:
– O que é que anda, anda, e vai para detrás da porta?
– Barata – gritou Picoto.
Os outros não se interessaram pela adivinha e exigiram linguagem clara.
– Se ninguém sabe, é vassoura.
Só faltaram esganá-lo. Deixasse de brincadeiras, desembuchasse logo.
– Está bem: vassoura lembra o quê?
– Palha – antecipou-se mais uma vez o carreteiro.
Mandaram-no calar-se, e Faustino finalmente anunciou: O preso se tratava de um bruxo.
– Desses que voam montados numa vassoura.
Nem assim largaram o mensageiro. Falasse sério, quem era o homem do benjamim, de onde tinha vindo, o que pretendia.
O barbeiro perdeu a paciência, bebeu o resto da cerveja e se encaminhou para a porta da rua. Se não queriam acreditar na sua informação, fossem à delegacia.
Só então todos se acalmaram e pediram a Faustino que contasse a história direito.
– Como eu disse, é um feiticeiro. Saiu das grutas, das bibocas, do oco da serra. É um ente renascido dos nossos antigos índios.
Simão deixou o balcão e passou ao salão, para juntar-se aos fregueses.
– Tem pacto com o Diabo?
– Agla! – deixou escapar Zé Cururu.
– Vocês sabem mesmo o que é um feiticeiro?
Uns disseram “mais ou menos”; outros, “sim” e “não”, mas todos queriam saber muito mais. De posse da palavra, o barbeiro afiou a língua, passou espuma na cara dos curiosos e meteu a navalha no mundo:
– Feiticeiro é um bruxo. Isto é, uma pessoa má que pratica a magia negra.
E chamou Apuleio de Apolônio, Santo Ofício de Sant’Ofídio, argonauta de astronauta – o bruxo do futuro.
Interrompeu-o Saldanha para anunciar que de manhãzinha tinha visto uma aranha caminhando na parede de sua casa.
– Mau presságio, não é?
– Para baixo ou para cima? – quis saber o sábio da magia.
O lamparineiro vasculhava a memória, quando entraram Miguel, Vicente e Viriato. Do outro lado da rua o dr. Ângelo olhava para o interior do botequim.
– É um bruxo mesmo, Seu Faustino? – indagou o boticário.
– E dos mais mágicos.
Pediram mais cerveja, enquanto a língua do barbeiro inundava o salão de malefícios, metamorfoses, mistérios, mortes e mutações.
E para se livrarem do bruxo?
– Antigamente a prática era queimá-los vivos – explicou Faustino.
– Ouvi falar também que cortavam suas línguas – informou o dentista.
– Eu por mim posso afugentar até o Diabo com minha música – anunciou mestre Viriato.
A pena, porém, não podia ser executada assim, sem mais nem menos, disse o barbeiro. Primeiro o feiticeiro seria condenado pela Igreja, para só então ser instituído o auto-de-fé.
– Que diabo é isso? – admirou-se Picoto.
Restava saber se não se dava no momento uma epidemia de bruxaria em Palma, alertou Faustino.
– Geralmente um bruxo contagia outras pessoas e ocorre a epidemia. Uma vez pegaram mais de duzentos numa só cidade da França.
O pânico tomou conta de todos. O botequineiro pulou o balcão e tomou uma talagada de cachaça.
– Não adianta beber, Seu Simão.
– Será que existem outros? – perguntou Zé Cururu, a tremer.
– A gente só sabe depois da prova da água – explicou Faustino.
E um só grito encheu os ouvidos de Simão: tem água aí?
– Vocês querem se afogar num copo d’água? A prova é feita num poço fundo, num rio, no mar. Pulam todos n’água. Quem flutuar é bruxo.
E Faustino passou à rua, a boca cheia de notícias trágicas e palavras mágicas, e tomou o rumo da estação.

***
O misterioso Faustino Sampaio exercia na vida três importantes funções. A primeira de barbeiro, o dia todo a lambuzar de espuma a cara dos barbados, enquanto fazia perguntas indiscretas e dava notícias levianíssimas.
Nas horas de folga cumpria a segunda. Tocava bombardão na banda de mestre Viriato.
A terceira, talvez sua verdadeira vocação, o levava a perder o sono todas as noites para vigiar o dos outros. Espécie de guarda-noturno por vontade própria. Saía de casa justamente quanto todos se recolhiam às suas. Buscava os becos mais escuros, os cantos mais sombrios, os olhos felinamente abertos, os ouvidos de morcego prontos a recolher até o mais silencioso gemido. Todo cachorro vadio lhe parecia marido ladino. Toda gata em telhado se lhe figurava mulher de chifrudo.
Nenhuma luz merecia a sua desatenção, assim como nenhuma escuridão. Nada escapava ao seu faro de espião: uma porta entreaberta, um perfume a evolar-se, um pedaço de bilhete, um cabelo perdido.
Vivia de olhos inchados e vermelhos de tanto não dormir. Comumente cochilava em pé, enquanto preparava espuma ou navalhava um saliente gogó.
– Cuidado, Seu Faustino!
– E aquele fulano já voltou da serra?
Adorava também uma leitura exótica ou esotérica, como dizia. Apesar disso, não lia muito e até mal sabia ler. E tanto fazia ser a Bíblia como Alan Kardec, o livro dos adivinhos como o manual da magia. Devorava este e aquele, e tudo confundia.
Seu grande sonho era tornar-se invisível, onipresente e onisciente, para tudo ver e saber – a vida alheia por dentro e por fora.
Interressou-se pela magia negra, na crença de um dia adquirir os poderes aos mortais negados.
Em tudo acreditava – inclusive no que sua curiosidade inventava.
– Eu vi: Dona Perpétua e o padre na torre do sino.

XV

O preso, dizia Jerônimo, podia ter sido no passado um grande homem, um Bonaparte, um Carlos Magno, um Alexandre.
Felipe não podia perder uma só palavra da erudita explanação de seu chefe e largou o telégrafo para juntar-se aos outros ouvintes.
– Ele pode ter sido até um santo – disse Pascoal – mas estão falando que vai transformar a gente em bicho.
Soares teve um estremecimento, Viriato suspirou fundo, Tetéu olhou para o automóvel e Picoto fez o pelo-sinal.
***
De costas para a matriz, Félix passava dos provérbios de Salomão ao sonho de Nabucodonosor, da rainha de Sabá ao mágico Simão.
– Ele se chama Simão? – cambaleou o coronel Catulo.
– Quem?
– O preso.
Felizmino folheou o latim da memória e sentenciou:
– O sancta simplicitas!(*)
Agarrado aos códigos, Severo Brito aproximou-se do grupo e, a gaguejar, perguntou ao juiz se podiam fazer alguma coisa para impedir que o feiticeiro consumasse a desgraça.
– Ele fugiu, doutor?
– E nem precisa fugir, porque é mágico – conseguiu responder.
E resumiu em dez palavras curtas as cem sílabas da desgraça: o bruxo ia converter em animais as pessoas de Palma.
João Fortes virou-se para seu carro e tratou de despedir-se, enquanto Mister Oliver entortava a boca para nada dizer.
***
Detrás do balcão de pedra, Rafael cortava tripas e corações para o jantar de Xavier.
– Um quilo?
Os olhos de Doca iam e vinham pelo gume afiado. Da boca de Gonçalo saltavam moscas e aberrações.
– Carmelitano já virou cavalo, e os soldados, coitados! vão também andar de quatro.
– Conversa para boi dormir – falou o magarefe, a faca a sangrar.
E o padre? Qual o destino dele?
Xavier não acreditava que o bruxo tivesse poderes suficientes para mudar a figura do sacerdote.
– Ele só age contra os malvados.
Fez-se um minuto de meditação. Doca limpou as mãos na calça suja de barro, o carroceiro abocanhou um pedaço de sebo, Rafael palitou os dentes e Gonçalo engoliu a mosca mais atrevida.
***
Entre as sepulturas, Lourenço e sua mulher riam das novidades. O cavalo do delegado devia estar manco.
– Você viu, Inácia?
E precisava ver? Por acaso o povo todo podia mentir a mesma mentira?
– É um pangaré, não é?
Isso a mulher não podia afirmar. Talvez fosse até um cavalo bom, bonito, gordo, bralhador.
Riu de novo o zelador, a catar raminhos aos pés de uma cruz.
– E os macacos?
A mulher brincou: esses não precisavam de feitiço.
– Macaco não trabalha, nem tem dono.
Jerônimo não riu mais, como se não tivesse entendido nada.

***

Na loja de Florêncio as fazendas olhavam enroladinhas para os fregueses de sempre, quietas nas prateleiras.
– O senhor acredita nisso, coronel? – perguntou Miguel.
– Acreditar eu não acredito, mas o pobre do delegado deve estar sofrendo que só sovaco de aleijado.
Vicente passava a mão no queixo e também lamentava a sorte de João Carmelitano.
– Quem viu? – queria saber o dr. Ângelo. – Deve ser boato daquele mexeriqueiro.
Pelo sim, pelo não, Colombo anunciou que ia para seu sítio. Lá estaria livre do feitiço.
– Não precisa fugir, coronel – gritou Faustino, da porta.
– Entra, homem.
O barbeiro apresentou-se como salvador. Tanto entendia de bruxarias como de antibruxarias.
– Esse bruxinho está muito enganado. Se ele transformar algum dos meus amigos em bicho, vai se ter comigo.
Sabia da fórmula secreta que possibilitava a reversão da metamorfose. E até a pessoa voltava mais jovem, sadia e...
– Já não digo bonita, porque boniteza é só para mulher.
***

Teresa levantou uma perna, coçou as partes e gargalhou. Não podia imaginar um cavalo chamado Carmelitano.
– Será que vão arranjar outro nome para ele?
Queria saber também quem seria seu dono. O coronel Colombo ou o padre Inácio?
– Deixa de bobagem, menina – repreendeu-a Teixeira.
Devia ter era pena do pobrezinho. Afinal, nunca mais ia poder passar a noite na safadeza.
– É só ir para a baixa da égua – continuou Teresa, a escangotar-se de rir.
– Cuidado com essa língua! – advertiu-a Vicência.
Qual nada! O delegado, de qualquer forma, com duas ou quatro patas, seria sempre um cavalo.
– E o Tomaz?
– Não metam o meu Rocha nessa conversa – preveniu Teixeira.

***
– Vai todo mundo virar bicho – gritava Saldanha, derreado sobre a mesa, bêbado e babado.
Simão servia a todos, a trambecar do outro lado do balcão.
– E quem vai jogar no bicho? – perguntava Zé Cururu, as pules amarrotadas na mão, a cuspir de desgosto.
Abraçados, Elias e Belchior amparavam-se num choro de condenados.
– Tu também vais ser bicho, Zé Cururu – anunciou o lamparineiro. – E alguém vai apostar em ti, peste.
O cambista atirou o bolo de apostas na direção de Saldanha e escorregou no próprio cuspe.
– Arre égua!

***
A besta dos caboclos apareceu misteriosamente no terreiro da cabana do velho Jacinto num dia claro e calorento.
Nunca souberam de onde veio, nem a quem pertencia. Não trazia marca nenhuma e mostrava-se mansa e pacífica.
À aproximação dos homens, não se perturbou e deixou-se alisar, como se buscasse proteção e carinho.
Nada trazia sobre seu corpo limpo, lustroso e gordo, nem selas nem cilhas nem arreios.
Parecia domesticada, apesar de tudo, pois entendia palavras e gestos.
A aparição da égua, por se ter dado tão envolta de mistérios, deixou os serranos crentes de ter sido ela enviada por alguém, para ajudá-los na sua missão redentora.
– Foi o espírito de nossos antepassados, meus filhos – anunciou Jacinto.
E cuidaram dela como de nenhum outro animal haviam cuidado antes. Como se fosse gente, um deles, uma filha carinhosa e sabida.
Não tinham como descobrir-lhe o nome, porém, e chamaram-na pelos adjetivos mais suaves – mimosa, bonita, gordinha. Nunca a trataram de animal, bicho, égua, a não ser como forma de afago – bichinha, bestinha, bobinha.
Assim como apareceu, também desapareceu. Logo após as homenagens que lhe prestaram. Para nunca mais dar notícias, nem de vida nem de morte.
– Foi para junto dos nossos – rezou Jacinto.
E todos choraram durante dias.
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(*) Ó santa ignorância!

(Continua)