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OS VARÕES DE PALMA (3)

(Continuação)

VII

Em perseguição à égua saiu na dianteira o grupo dos devassos, capitaneados pelo escrivão Belchior. Logo atrás partiram os membros da nova seita, liderados por Rafael. Nem o padre, nem Félix, nem o espírita, nem os pedreiros deixaram de correr, num só grito de pega, pega, pega. Muito menos as mulheres, os meninos e os cachorros.
Quase toda Palma corria atrás da besta, unida de novo, incentivada pelos fogos de Pascoal, protegida pela religião e pela lei.
– Dominus vobiscum – rezava padre Inácio no rabo da procissão profana.
– Oh! Como é bom e agradável viverem unidos os irmãos! – salmodiava Félix.
Ao largo da igreja, já nenhuma diferença havia entre um grupo e outro, como se sempre tivessem vivido irmãmente.
– Corre, Seu Elias – incentivava Felipe.
– Vamos, Seu Elias – repetia Miguel.
Perseguido, mais o animal marchava e se distanciava do povo.
– Vamos, pessoal – gritava Jerônimo.
E mais gente saía das casas, para se juntar aos perseguidores da égua.
– Arranjem um laço.
Para gáudio geral e desgraça da potra, a figura imponente e respeitada de José Catulo apareceu numa esquina. Vestido de coronel da Guarda Nacional, empertigado e sério, ao avistar aquele estrupício, desembainhou a espada e ordenou:
– Pare, quem quer que seja!
A égua, porém, apenas fez meia-volta e meteu-se pelo primeiro beco, enquanto a multidão cercava o coronel, para suplicar-lhe ajuda.
– Deixem por minha conta. Vou prender esse palhaço.
– É uma palhaça, coronel – explicou Elias.
O homem mal se mantinha em pé, a pender para o lado da espada.
– Está cheio de cana – sussurrou Manuel Saldanha.
A Vingadora, no entanto, se havia metido num beco sem saída e de repente surgiu em cima do ajuntamento.
– Olhem, é ela – apontou Felipe.
A primeira reação dos perseguidores foi debandar, como se o telegrafista tivesse anunciado o diabo ou uma onça. Na confusão, o coronel levou um trambolhão e sua espada voou longe. O escrivão e o padre se chocaram e foram ao chão. E, no fim das contas, a égua escapuliu de novo.
Uns cinco minutos depois, Jerônimo conseguiu reagrupar todo mundo e teve início a segunda fase do acosso da besta.
– Agora é preciso ordem – explicou o chefe da estação.
E expôs seu plano de captura do animal: dividiam-se em quatro regimentos, cada um dirigido por um coronel. O primeiro, sob o comando do coronel Colombo, faria o cerco pela retaguarda. O segundo, comandado pelo coronel Catulo, atacaria pela dianteira. O terceiro, tendo à frente o coronel Oliver, cercaria pela direita, e o último, conduzido pelo coronel Felipe, fecharia o flanco esquerdo.
Nenhuma reação se verificou à criação dos regimentos, nem a entrega das patentes ao inglês e ao telegrafista, ou a outras quaisquer normas impostas pelo chefe da estação. A não ser quando se auto-patenteou comandante-em-chefe das forças anti-besta.
Colombo e Catulo quiseram se impor, mas os votos de Mister Oliver e de Felipe Perdigão deixaram os coronéis da Guarda Nacional em desvantagem no Estado-Maior, dado o voto de Minerva do próprio Jerônimo.
Houve ainda alguma desconfiança na formação dos regimentos. É que Jerônimo deixou de mandar para a frente de batalha o padre, Félix da Penha, Ângelo, Severo e eu.
Os quatro protestaram. Queriam porque queriam se juntar aos soldados.
– Ou o senhor pensa que sou um velho imprestável? – queria saber o fotógrafo.
– E essa batina não é saia, não, Seu Jerônimo – dizia Inácio, a levantar a roupa preta.
– Sou muito macho – exaltava-se o promotor.
– Quero ser ao menos cabo – suplicava o médico.
Eu me contive, para não estourar de rir.
O comandante fez-se mais sério e, dirigindo-se ao pároco, perguntou:
– Santidade, quem já viu um papa descer de seu trono para meter-se em guerras?
– Não estou falando do papa, mas de mim.
– Pois de agora em diante Vossa Santidade é papa.
O religioso esbugalhou os olhos e se benzeu.
– Papa Inácio I – completou o chefe da estação.
Dirigiu-se a seguir ao fotógrafo e perguntou se havia alguma notícia na história da humanidade de que também um chefe de igreja protestante tivesse acompanhado algum Napoleão. À negativa de Félix, acrescentou:
– Pois Vossa Reverendíssima, Pastor Supremo da Igreja Protestante, não irá também a esta guerra, embora seja ela mais santa do que todas as outras.
Voltou-se para os dois maçons e indagou se algum grão-mestre da maçonaria esteve alguma vez numa frente de batalha. Os doutores também negaram e, incontinenti, receberam os títulos de Grão-Mestres da Maçonaria.
A mim me nomeou Cronista e Filósofo Perpétuo de Palma, sem me dirigir qualquer pergunta.
– Vossas Excelências, representantes máximos do catolicismo, do protestantismo, da maçonaria e da filosofia na Terra, estão convocados a participar da reunião de cúpula com o Imperador.
Todo mundo quis saber a quem Jerônimo se referia, se ao exilado D. Pedro II, talvez já morto há muito, ou a algum monarca estrangeiro em visita a Palma.
– Será Guilherme II? – disse baixinho o dr. Ângelo.
– Quero anunciar-vos ainda que o Infante Dom José, meu herdeiro, comandará a Infantaria do Imperial Exército de Palma.
Ninguém fez qualquer relação entre as palavras “imperador” e “herdeiro”, talvez porque não supusesse que o homem chegasse a tanta megalomania.
Chamou a meninada, que brincava à distância, para ordenar que se pusessem em ordem, comandados por seu filho, e seguissem um dos regimentos.
E todos, José, Raimundinho, Joãozinho Alencar, Sombrinha, Lutécio, Joãozinho Dias, Zezinho Sampaio, Luizinho Abreu, Luizinho Caracas, Carlinhos e mais uns cinqüenta, se compenetraram da seriedade dos fatos e pareciam soldados de verdade.
Convocou também as mulheres e, como se tudo estivesse imaginado há tempos, instituiu a Cruz Vermelha.
– Minhas senhoras, vosso trabalho será dos mais dignos. Caberá a vós amparar e socorrer os feridos e mutilados, com dedicação de esposas e amor de mães.
À própria mulher, chamada de Imperatriz Dona Rosa, confiou os destinos da instituição, e nada prometeu, a não ser os agradecimentos do Imperador.
Só então ouvi alguns rumores a indicarem que finalmente alguém se convencia da identidade do nosso monarca.
Após essas providências, dirigiu-se de novo aos soldados, sem mais esconder seus títulos:
– Eu, Imperador do Sacro-Império de Palma, Comandante-em-Chefe do Sagrado Exército Anti-Besta, Marechal Jerônimo Castello de Oliveira, vos anuncio o início da primeira e derradeira guerra contra a Besta-Fera e ordeno aos coronéis José Catulo, Colombo Thaumaturgo, Mister Oliver e Felipe Perdigão que avancem contra o inimigo.
Os quatro grupos, mais a infantaria, marcharam então no encalço da égua.
Daí a meia hora, enquanto ouvíamos as lambanças de Jerônimo, o animal se deixou capturar. Pastava junto ao oitão da última casa do Largo do Cacete, sossegado e inocente, quando dele se acercaram os meninos.
O coroinha não teve o menor trabalho para agarrar a ponta do cabresto e conduzir a Vingadora de volta ao Cruzeiro.
José não fez questão de nada, e os outros riam e pulavam atrás da presa, como se realmente brincassem de guerra.
Como se tudo não tivesse passado de um sonho medieval, padre Inácio deixou de ser o sumo pontífice, Félix voltou a simples ovelha, Ângelo e Severo passaram de novo a meros pedreiros-livres.
Só eu continuei conforme a nomeação de Jerônimo – cronista e filósofo, segundo a ironia de uns e a amizade de poucos. Tiraram-me apenas o “perpétuo”, porque também sou mortal.
Jerônimo voltou a chefe da estação e espírita, tão logo a turba regressou da caçada. Os coronéis vinham desmoralizados e os soldados decepcionados.
O numeroso exército desfez-se no próprio campo de batalha, sem desferir um só tiro, sem sequer ver o inimigo, e o império ruiu como num conto de fadas.
Ao avistarem a égua, porém, moralizaram-se de novo todos e as primeiras sensações e crenças renasceram.
– A bichinha voltou! – gritava Felipe, alegre.
– Santinha, santinha – prosternou-se Elias.
Tudo como de madrugada.
De novo só o coronel Catulo, ainda bêbado e vestido de gala, a espada a arrastar-se pelas pedras do calçamento.

***

Ao tempo dessas fuzarcas, José Catulo podia ser considerado o homem mais rico de Palma. A ele pertencia a empresa d’água, que dividia com a “bomba” de Mr. Oliver o fornecimento do líquido para os chafarizes e algumas casas.
Possuía também o sítio Itamarati, um dos maiores e mais produtivos da serra, além do primeiro automóvel a rodar em solo palmense, um Ford de capota alta e iluminado a carbureto, verdadeira sensação para o povo, que logo o apelidou de “boi”.
Instalou, mais tarde, um cinema, palco de muitas gargalhadas e maiores suspiros de pavor, com a projeção de filmes como “O Grande Assalto ao Trem”, “Nosferatu, o Vampiro” e “O Sheik”.
Para dar vida à mudez das fitas, alguém tocava trechos de óperas e valsas, e ninguém se lembrava mais do velho realejo, trocado por uma pianola, nem da macaca dançarina, convertida em Greta Garbo ou Vivien Leigh.
Outros tempos, outras técnicas.


VIII

Depois da fuga da égua, ninguém queria mais nem pensar em perdê-la, ambos os grupos dispostos a tê-la como sua. Os idólatras se postaram à frente do animal, como se assim pudessem impedir que ele escapasse de novo.
– Olhem bem nos olhos dela – aconselhava Elias.
– É para hipnotizar? – queria saber Pascoal, ainda em dúvida sobre a santidade da Vingadora.
E adoravam o rosto de arcanjo dela, seu focinho de virgem, suas ventas celestiais, seus grandes olhos de mártir.
Os adeptos do bestialismo preferiram colocar-se aos flancos e à traseira da potra, para mais admirarem aquelas ancas sensuais, formas de ninfa.
– Olha só, Vicente – apontava Felipe.
– Só olha, hein! – brincava Miguel.
Uns não se conformavam com as blasfêmias dos outros e estes mangavam da idiotice daqueles. E passaram a se insultar.
– Pecadores!
– Abestados!
– Demônios!
– Beatos!
Lourenço deu língua e recebeu vaias. Belchior deu cotoco e Rafael lançou-lhe um graveto, que acertou o nariz de Felipe. Uma pedrinha batucou nos peitos de Florêncio.
Os primeiros a se atracarem foram Xavier e Felipe. Logo outras duplas se formaram, e o ringue se encheu de lutadores.
Em vez de mandar chamar a polícia, Faustino ordenou aos moleques que fossem buscar o juiz. E a meninada correu no rumo da casa do magistrado.
No meio da confusão, a égua tentava de novo romper o cabresto, aos solavancos e relinchos.
– Calma, pessoal, senão ela escapole outra vez – dizia Jerônimo, já mais para a sacanagem do que para a beatice.
Por um momento os pugilistas fizeram as pazes e, não fosse Pascoal tropeçar em Felipe, talvez tivesse sido possível uma trégua mais duradoura.
– Você quer briga, seu fogueteiro, é?
E o telegrafista sapecou-lhe um murro.
Tonto do escorregão e do soco, Pascoal foi ao chão, levando consigo Lourenço e Rafael.
– Abyssus abyssum invocat – sentenciou o doutor Felizmino, ao se aproximar do palco da peleja.
Os contendores se aquietaram com a chegada do juiz, como se tivessem diante de si o supremo pacificador.
– Hoc volo, sic jubeo (*) – falou com tranqüilidade o meritíssimo. E determinou que um dos demandantes apresentasse sua versão dos fatos e o pedido. Mas, como na torre bíblica, todos falaram ao mesmo tempo.
Felizmino Garrido ergueu o braço e socou o ar para baixo, para ordenar silêncio no foru.
Novamente comportados e mudos, foi dada a palavra ao coronel Catulo, que ia e vinha ao sabor do fraco vento.
– Eminentíssimo prelado de Mercúrio, é o fato que estando eu, coronel da Guarda Nacional...
Em meia hora de engroladas palavras, contou Catulo uma história tão diferente da verdadeira que, ao seu término, o juiz menos sabia dos fatos.
– E desta maneira dou aqui a Vossa Excelência conta do que vi. E se fui além do tempo, perdoe-me, porque meu desejo foi tão-somente o de ser verdadeiro.
Vozes de protesto soaram aqui e ali, todas saídas das bocas do pessoal da adoração.
– É mentira, doutor – protestava Rafael.
– Ele não viu nada, não, seu juiz –atestava Lourenço.
O magistrado voltou a exigir silêncio e mandou latim na direção do magarefe, do zelador do cemitério e de seus comparsas.
– Nescit vox missa reverti. (**)
E escolheu outro litigante para falar, exatamente do lado contrário dos reclamantes – o médico, que expôs os fatos, em estilo menos pomposo, e apresentou uma acusação:
– Algumas pessoas aqui presentes querem se apropriar de uma égua pública, aquela amarrada ao Cruzeiro.
Felizmino quis saber quem eram os acusados. Ângelo, dedo em riste, relacionou os nomes de Pascoal da Cunha, Lourenço Calado, Elias Alencar, Rafael Ramos, Hipólito Xavier, Antonio Soares, Simão Veloso, Manuel Saldanha e mais os apelidos de Picoto, Zé Cururu, Tetéu e Doca.
Em prosseguimento à audiência, o juiz deu a palavra a Pascoal, para que apresentasse contestação. O fogueteiro aceitou a publicidade da besta, porém defendeu-se e aos seus companheiros de quererem dela se apossar.
– Pelo contrário, é o pessoal do doutor que quer possuir a egüinha.
No meio da sessão, como se presente não estivesse o representante da Justiça, os dois grupos voltaram a se insultar e, no empurra-empurra, Gonçalo deixou cair um cesto cheio de sabonetes. O chão, molhado de suor, fez-se liso e, num minuto, quase ninguém conseguia permanecer de pé. Até o juiz levantou a perna e ainda pôde demonstrar seu latinório, antes de consumar-se a queda:
– Potius mori quam foedari. (***)
Irritada com tanta conversa fiada, a potra rompeu novamente o cabresto e saiu a pisar os corpos caídos à sua frente, em busca de liberdade e sossego.

(*) Isto quero e assim ordeno.
(**) As palavras ditas não se podem engolir.
(***) Antes a morte que a vergonha.

***

Tão chateados, envergonhados e derrotados se sentiram meus conterrâneos com o desfecho do julgamento que não tiveram coragem de imputar a culpa pelo novo incidente a Gonçalo. Primeiro porque esmigalharam toda a mercadoria do coitado, depois porque o verdadeiro inimigo apareceu logo a seguir.
Vivia Gonçalo de fabricar sabonetes e vendê-los de porta em porta. Não havia dona-de-casa que não se perfumasse com os preciosos produtos. Até mesmo Dona Perpétua, acostumada a adquirir tudo na capital. E se ela, a mais perfumada, a mais cobiçada, a mais sensual mulher de Palma usava os sabonetes de Gonçalo, por que as outras não iriam usá-los?
Nas horas de folga, o saboneteiro se agarrava ao oficlide e treinava para soprá-lo com mais arte nas novenas e alvoradas da banda de Mestre Viriato.


IX

Ao ver tombarem os varões de Palma, preparou-se Joaquim para saltar do benjamim, montar a égua e fugirem. Porém caiu em falso e, enquanto tentava se equilibrar, o animal tomou distância e os primeiros inimigos o cercaram e agarraram.
Defendeu-se como pôde o espião, aos murros e pontapés, mas as grossas mãos de Rafael e Xavier conseguiram segurá-lo.
– Agarra o bicho – gritava Elias, a erguer-se do chão.
– É um índio, meu povo – constatou Belchior.
Num instante, o estranho se viu cercado por todos os lados e aquietou-se. A besta já ia longe e não adiantava acreditar em milagres.
Diante daquele tipo esquisito, seminu, pintado de urucu e jenipapo, feito um selvagem, os homens de Palma novamente se uniram, dispostos a enfrentar qualquer perigo, por mais assombroso que parecesse.
– Deve ser o dono da égua – opinou Pascoal.
– É bem possível – concordou Miguel.
E já todos se haviam levantado, e batido a poeira das roupas, e recuperado a lucidez, e esquecido as contusões.
– Quem é você? – indagou Severo Brito, a afastar os companheiros e aproximar-se de Joaquim.
Nervoso, o caboclo mantinha-se mudo, os olhos muito arregalados, como se buscasse ainda um jeito de fugir.
As mulheres e os meninos também se aglomeraram ao redor do coitado e se perguntavam do que se tratava, curiosos e inventivos.
– Deixa eu ver – pedia uma, e se punha nas pontas dos pés.
– É um lobisomem – dizia um dos meninos.
De repente Joaquim viu-se diante da melhor oportunidade para escapar. E tudo graças a Dona Catarina. Ou talvez ao diálogo de duas comadres:
– Quem é aquele de cabelo assanhado?
– Só pode ser o Seu Elias.
Ao ouvir o nome do marido, Catarina desesperou-se, pôs-se a gritar, chorar, sapatear. E outra confusão se fez: meninos e mulheres correram, Félix deu um pulo de gato, Jerônimo trombou com Florêncio, todos se viraram para trás, empurraram-se, desuniram-se. E o magarefe largou o braço do preso.
O milagre quase acontecia, não fosse a providencial mão de padre Inácio, que abarcou o pulso do caboclo.
– Segure firme, padre! – alertou Félix.
Catarina conseguiu chegar ao pé do marido, trêmula, chorosa, quase sem fala.
O incidente só serviu para que a vigilância sobre Joaquim fosse redobrada: Rafael cuidava do braço direito, Xavier do esquerdo, Picoto de uma perna e Doca de outra.
– A égua é sua ou não é? — interrogava Vicente.
Também faziam as vezes de juiz o padre, o telegrafista e Mister Oliver, cada um à sua maneira. Inácio como se confessasse um pecador, Felipe como se estivesse ao telégrafo e o inglês como se falasse a comanches e apaches. Um utilizava-se do código canônico, outro do código Morse e o terceiro do código inglês.
Discutiam os demais questões as mais variadas. O grupo formado por Colombo, Félix e Belchior interessava-se pela procedência de Joaquim:
– Deve ser de Juazeiro.
– Tem cara de cangaceiro.
– Pode ser um marinheiro.
Já Pascoal, Elias, Miguel, Faustino, Felizmino, Ângelo e Severo voltavam-se para o destino a ser dado à presa:
– Vamos enforcá-lo.
– Melhor esquartejar.
– Que tal matá-lo?
– Prefiro surrar.
– É bom capá-lo.
– Com faca de cortar?
– Temos de espancá-lo.
Lourenço e Jerônimo ainda trocavam idéias sobre se existia alguma relação entre o caboclo e a égua, enquanto Florêncio e João Fortes se dedicavam à aparência do capturado.
– Tem jeito de doido.
– De doido e doente.
Soares, Viriato, Simão e Saldanha teorizavam sobre a natureza de Joaquim:
– Para mim é homem.
– Se não for o diabo, é bicho.
Para Zé Cururu e Tetéu o homem se havia encantado, enquanto o coronel Catulo, ainda cambaleante, firmava-se em Gonçalo, alheio aos novos acontecimentos:
– Essa égua deve ser do meu sítio.
Metido no meio daquela gente maluca, eu apenas avaliava o seu comportamento.

***
O grande erro de Joaquim foi não ter cumprido à risca os planos estratégicos traçados pelo velho Jacinto. Devia ter saltado da árvore antes da primeira fuga da égua, quando alguns palmenses faziam troça ao redor do animal e outros o adoravam.
Errou também no modo de deixar o esconderijo. Nada de saltos escandalosos, de pulos barulhentos. Descesse sorrateiramente do benjamim, feito uma cobra. Não se precipitasse. Aguardasse a chegada de uns dez curiosos.
Pelo exemplo do caso da macaca, contavam os caboclos com a presença da maioria dos palmenses ao redor da besta.
Nada escapou ao planejamento de Jacinto: por mais civilizado que fosse o povo da cidade, ninguém ia deixar de passar pelo menos uma hora a admirar a égua. Tempo suficiente para que Joaquim voltasse ao acampamento e os guerreiros chegassem ao Cruzeiro.
Dada a beleza da potra, os cidadãos de Palma, distraídos, não perceberiam a aproximação dos serranos e seriam pegos de surpresa.
Um ou outro poderia trazer na cintura faca ou arma de fogo, além de serem mais numerosos. Mesmo assim, a resistência se daria tardiamente. Quando quisessem atacar, pelo menos onze já teriam sido derrubados pelos cacetes inimigos.
Os mais sabidos tentariam fugir, os mais bestas e espertos resistiriam, se sobrasse algum dos segundos golpes. Os frouxos, provavelmente a maioria, seriam encurralados e mortos. Os corajosos cairiam assim mesmo.
Porém Jacinto não podia imaginar a existência do fogueteiro Pascoal, porque dele não teve ciência o espião. E aí certamente está a absolvição de Joaquim. O inesperado dos foguetes levou-o à confusão.


X

Enquanto os homens discutiam, investigavam, decidiam, Raimundinho correu à delegacia, onde encontrou apenas o soldado Duarte, que cabeceava à mesa do delegado.
O policial alertou e meteram-se os dois em longo e difícil diálogo. O coroinha tentava contar a história da égua, interrompido a toda hora por Duarte.
– E quem é o dono do animal?
Ao reconhecer a necessidade da presença da polícia no Cruzeiro, o guarda arranjou outra dificuldade: tanto o delegado como os outros soldados não se achavam presentes.
– Só se eu fechar a delegacia.
Porém não podia abandonar seu posto, sob pena de severa punição.
– Você vai atrás deles, garoto – decidiu.
Mal assim resolveu, mudou de idéia.
– Por que eu não posso ir?
Explicou o policial o motivo de não poder o menino chegar ao seu superior: João Carmelitano se encontrava na Rua dos Sete Pecados, na casa de Teresa.
– E os soldados?
Como tudo fosse calma na cidade, Tomaz e Rocha também tiveram direito a folga durante a noite passada, e caíram entre as pernas de outras raparigas.
– Eu sei onde é – interessou-se Raimundinho pelo destino do delegado e dos outros policiais.
– Não. Você fica aí no meu lugar, que eu mesmo vou.
E assim o coroinha perdeu a oportunidade de ver Carmelitano, Tomaz e Rocha saltarem de seus noturnos pecados para seus matutinos deveres, o que me privou de ter uma versão infantil do despertar de meus carrascos numa casa de tolerância.
Durante anos e anos, gabou-se Raimundinho de ter sido delegado de Palma, para inveja de seus coleguinhas.
Duarte não teve tempo de repetir a história que lhe foi contada pelo menino e falou a Carmelitano apenas o mais urgente: um caboclo montado numa égua apavorava a cidade.
Em cinco minutos o destacamento chegou ao Cruzeiro. O delegado bufava, assanhado, amarelo, cheirando a cachaça.
– Arreda, gente, arreda!
E mandava chicotada a torto e a direito, sem ver a quem atingia.
– Esteja preso, cabra – gritou, ao defrontar-se com Joaquim, ainda agarrado por Rafael, Xavier, Picoto e Doca.
Os três soldados se apossaram da presa, enquanto Carmelitano vociferava e chicoteava o coitado.
– Todos para a delegacia – ordenou, e o séquito pôs-se a cruzar a praça.
Na primeira fila iam o preso e a escolta. Atrás, o delegado, furioso, malvado, cheio de gestos e ordens, acompanhado da caterva masculina de Palma, inclusive de mim. Por último, as mulheres e os meninos.
– Crucificai-o! – exigiu Félix.
E todo mundo repetiu a palavra e aplaudiu o fotógrafo.
– Arranjem uma cruz – recomendou Jerônimo.
Imediatamente quebraram galhos dos benjamins e fizeram uma cruz.
– Toma, carrega – disse Rafael, a entregar os paus a Joaquim.
Padre Inácio aproximou-se do preso e lembrou-se de perguntar por seus companheiros, como se soubesse de tudo.
– Que companheiros!?
Um dos guardas deu uma bofetada em Joaquim, dizendo: É assim que você fala a um sacerdote de Deus?
E novamente o cortejo andou.

***
João Carmelitano assumiu o posto de delegado de polícia graças aos seus dotes de fera, depois de passar metade da vida cortando sola, na pequena sapataria em que transformou sua sala.
Acostumado a lidar com facas, tratava os filhos e a mulher a chicotadas. E, de tanto lamber solas, logo se fez hábil no lamber as botas dos poderosos. Só faltava quebrar-se diante dos coronéis.
Ao se ver içado à condição de policial-chefe, num instante aprendeu coisas complicadas, como ordem e lei. O meu jornal, por exemplo, representava a desordem, porque nele eu escrevia a crônica de todos os dias do povo de Palma.
No Diabo a Quatro eu ria do espiritismo de Jerônimo, de suas teorias sobre encarnação e desencarnação. Inventava histórias de mortos que comigo se comunicavam para contar os podres de nossos vivos.
No jornal eu chamava Félix de Lutero e o defendia das ofensas dos católicos, ou o criticava por sua mesquinhez ideológica.
Ninguém passava imune à minha pena: nem as reuniões secretas dos maçons, nem as alvoradas da banda de Mestre Viriato, nem o enriquecimento do coronel Catulo.
Eu não esquecia os sabonetes de Gonçalo, que se derretiam com a maior facilidade, nem as boticadas inúteis de Vicente Dias.
Aprendi inglês para ler Shakespeare e entender Mister Oliver, a quem eu chamava de testa-de-ferro dos Rothschild.
– What would ye that I should do for you?(*) – perguntou-me certa feita, ao ler o meu pasquim.
O meu nacionalismo, porém, me fazia falar sempre a nossa língua, quando me dirigia ao estrangeiro. Ele que procurasse aprender português para me ler e entender.
– A mim nada, Seu Oliver. Quero apenas que trabalhe como qualquer um de nós.
Quis se explicar, como um judeu:
– I have coveted no man’s silver, or gold, or apparel.(**)
– Vá para a baixa da égua, seu gringo – disse-lhe irado, já farto de ouvir o seu inglês requintado.
A princípio não percebi, mas depois tive certeza de que ele não sabia falar de outro modo, senão como se lesse a bíblia.
Nem mesmo a mulher do intendente escapava à minha pena ferina. As futilidades feminis mereciam também algumas linhas.
Para se defenderem de meu jornalismo, todos contavam com a mão-de-ferro do delegado e constantemente eu me via perseguido, minha folha apreendida e queimada a mando da lei e da ordem. E mais eu me tornava crítico, mordaz, irreverente.
Meu grande mestre chamava-se João Brígido, que me transmitiu boa parte do veneno que por tantos anos destilei. Em conseqüência, sofri na carne a intolerância dos coronéis e dos padres, dos protestantes e dos especuladores, dos espíritas e dos comerciantes, dos servis e dos hipócritas – a cujo serviço estavam a ordem e a lei daquele tempo.

(*) Que quereis que eu vos faça?
(**) De ninguém cobicei a prata, nem o ouro, nem o vestido.

(Continua)