OS VARÕES DE PALMA (2)
(Continuação)
IV
No meio da missa, padre Inácio olhou de viés para sua platéia e empalideceu. Nos rústicos bancos de madeira, as fiéis cochichavam, viravam a cabeça para trás, impacientes, nervosas.
– É o diabo – falou mais alto a pequena Maria da Cunha.
O celebrante tornou-se mais pálido e chamou Raimundinho ao pé de si. Num segundo, o coroinha desceu os degraus do altar e chegou à porta central. Num minuto voltou e, sem qualquer pudor, falou da devoção e da libertinagem dos homens, a dez metros de Deus.
Padre Inácio suspirou tão fundo que duas ou três velas se apagaram, uma galheta cheia de vinho virou, as páginas do missal se agitaram e o barrete levitou, para permanecer, entre sua calvície e os anjos do teto, por uma eternidade.
Porém a reação mais virulenta do pároco deu-se ao sermão:
– A iniqüidade se abateu sobre nossa cidade. Diante do altar de Deus, pecadores adoram o bezerro de ouro de Arão. Tal como o sacerdote de Israel, os idólatras de Palma acabam de tirar as argolas de ouro das orelhas de suas mulheres, para fundi-las e transformá-las em animal de adoração.
As senhoras levaram as mãos às orelhas, apalparam-nas, e só pelancas encontraram.
– Tal como Jesus Cristo, falo por parábolas. Para o bom entendedor, meia palavra basta.
A meninada agarrava-se aos ouvidos das mães e, a conter os risos, tentava esclarecer-lhes o fato.
– Tem uma égua lá fora, mãe.
Furibundo, o sacerdote atacou também os que praticassem cousas abomináveis com animais.
– O fogo do inferno há de queimar os idólatras e os zooerastas.
Aterrorizadas, as mulheres se perguntavam a quem se referia o padre, e persignavam-se, reviravam os olhos, assuavam-se.
Raimundinho, ao canto do altar, olhava embasbacado para o sermão interminável.
Félix da Penha, tão logo soube das práticas ao redor do Cruzeiro, muniu-se da máquina fotográfica e da bíblia. Com uma, eternizou aquele histórico dia de Palma; com outra, prenunciou o fim dos tempos da raça humana.
Fotografou a égua nas mais belas poses, os seus adoradores ajoelhados e o bestialismo dos que pareciam possessos diante dela.
Legou-nos um álbum eterno.
Entre um clique e outro, lia trechos dos testamentos, misturados às suas próprias idéias:
– Com homem não te deitarás, ó homem de Palma, como se fosse mulher, nem te deitarás com animal, para te contaminares com ele, nem a mulher se porá perante um animal, para ajuntar-se com ele, seja cachorro ou cavalo.
Acompanhado do filho Lutécio, o fotógrafo lançava sobre os homens da égua sua ira:
– Esta Sodoma brasileira há de ter seu dia, antes que os anjos do Senhor Deus sejam possuídos por vós, ó filhos da luxúria.
– Que anjos que nada, seu bode velho, queremos é esta égua – dizia Vicente.
– Você já viu fêmea igual a esta? – perguntava Belchior.
O pequeno Lutécio, para ajudar o pai, atacava o outro grupo:
– Ninguém há semelhante a ti, ó Senhor; tu és grande, e grande é o poder do teu nome.
– Ela é enviada do Senhor! – gritava Rafael, mãos postas diante da égua.
– Virgem, virgem, virgem! – chorava Xavier.
***
Fustigado pela curiosidade, o chefe da estação deixou seu posto no Potiú, carregado de livros, e se abancou no Ford do coronel Catulo.
– Vamos logo, Tetéu.
O motorista ajeitou o boné, alisou as chaves e disse que precisava completar a lotação. Dava prejuízo conduzir só um passageiro, explicou.
Jerônimo quis saber com quantos passageiros o automóvel podia sair.
– Com três, já subo.
– Então pago três tostões.
No caminho, o chefe da estação anunciou a Tetéu a causa de sua pressa, enquanto folheava Alan Kardec.
– Pode ser minha mãe que queira me enviar mensagem.
O automóvel só faltava voar, célere, no rumo da matriz.
– Esse bicho é um celerado mesmo, não é, Seu Jerônimo?
– Celerados são esses cristãos – disse o espírita, a indicar os homens ao redor da égua.
O carro parou a dois metros do Cruzeiro e Jerônimo pôs-se a ler sua bíblia em voz alta.
– Cala a boca, esprito de porco – gritou o carreteiro Picoto.
O chefe da estação fechou o livro e iniciou sua prédica: ninguém ousasse tocar na égua, porque ali podia estar o espírito de qualquer ser humano. A própria mãe de Picoto.
– É a sua, aquela égua... – enfureceu-se o carreteiro.
Prosseguiu Jerônimo a falar de espíritos e encarnações, mediunidades e desencarnações, a citar Kardec e Flamarion, Léon Denis e Alexander Aksakof, olhos grudados na Vingadora e na multidão que a cercava.
***
Pelas sete horas já toda Palma masculina se concentrava nas imediações do Cruzeiro. Padre Inácio havia deixado o altar para atacar de perto os profanadores, secundado por Félix e Jerônimo, aos quais foram ajuntar-se o médico Ângelo Ribeiro e o promotor Severo Brito, maçons de primeira linha.
Ao vê-los, Belchior correu a apertar-lhes as mãos, nervoso, avermelhado, rouco.
– O senhor não pode estar com essa gente – sussurrou-lhe Ângelo.
E explicou-lhe que la maçonnerie abominava práticas méchantes e immorales como aquela.
– Ma foi! je n’en savais rien!(*) – apatetou-se o escrivão.
– Cet jument est très jolie – deixou escapar o promotor.
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(*) Palavra! eu não sabia nada disso!
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Não durou muito a convivência pacífica entre os representantes das diversas crenças. Logo uns passaram a imputar a outros a culpa pelos acontecimentos. O apóstolo romano, aliado ao protestante Félix da Penha, acusava o espírita Jerônimo da prática de bruxaria.
– Ele encarnou neste animal o espírito de algum morto.
O chefe da estação buscava apoio nos pedreiros-livres, para incriminar seus inimigos.
– Vejam, doutores, como estão unidos os corruptores de Jesus Cristo.
Dois minutos depois padre Inácio se havia associado aos maçons para vergastar o espiritismo e o protestantismo.
– Doutor Severo, denuncie à Justiça esses dois.
– Perfeitamente, vigário. Pode ser pelo crime de feitiçaria?
– E peça pena máxima: de morte na fogueira.
Na contra-ofensiva, Jerônimo e o fotógrafo discursavam sobre as imagens e os símbolos inimigos.
– Quem sabe, esta é a jumenta de Cristo e vai virar santa de altar.
– A loja deles vai servir de estrebaria.
A seguir, já a maçonaria apertava as mãos de Félix, para se fortalecer contra os petardos católico-espiritistas.
Irritados com a multidão, que nem sequer olhava para eles, o padre, o fotógrafo, o espírita e os maçons armaram-se cada um de suas ferramentas e não mais fizeram as pazes entre si.
– Vocês todos, filhos do Diabo... – gritava Inácio.
– A Bíblia é a salvação! – espumava Félix, agarrado ao filho.
– A égua é humana e... – explicava Jerônimo.
– Religião e merda são a mesma coisa – declaravam os doutores.
***
Como livre-pensador, eu não podia meter-me com aquela gente fanática, e, como jornalista, só me restava ver e ouvir.
Notícias para meu jornal não iam faltar, nem matéria para meus comentários. De cima do fícus, eu queria rir e só não chorei para não perder um único lance da comédia.
Por mais de uma vez tive ímpeto de gritar, ora a meu filho, para que não se deixasse conduzir por aqueles tolos, ora aos outros, para que abrissem os olhos e vissem a égua, apenas ela – um animal enfeitado e nada mais. Percebi, no entanto, que nenhum grito, nem mesmo uma catástrofe, poderia alertar aqueles seres idiotizados por anos e anos de mistérios e mentiras.
Ao redor do cruzeiro achava-se o espírito de Palma – de nossa terra, de nossa civilização – e não seria eu, um mortal comum, o elemento gerador de uma revolução, de um salto da amplitude de meu desejo.
Durante muito tempo vi a cara estupidificada de homens tidos como padrão de bom-senso, como se diante deles tivesse aparecido em matéria qualquer abstração: Deus, o Diabo, o Amor, o Ódio, o Perfeito, o Nada. O coronel Colombo nem parecia o rico cidadão de Palma de outros dias. Felipe Perdigão nada tinha do circunspecto telegrafista do cotidiano. O dentista Miguel não guardava nenhum gesto que dissesse ter um dia tocado a trompa da banda, tão maravilhado se apresentava.
Todos, enfim, aparentavam ter sido tocados pela magia do desconhecido, como se a hipnose do novo os houvesse transformado em seres de outra dimensão.
Assim, como pôde um cidadão como Rafael Ramos, um magarefe, é certo, mas pai de família e católico, ver numa égua a perfeição feminil, e, sóbrio, sentir-se quase que incontrolavelmente excitado, a ponto de esforçar-se para não causar escândalos?
***
Ninguém procurou saber a quem pertencia a égua e muito menos como fora parar ao pé do Cruzeiro. Só nos dias seguintes, quando o povo de Palma ainda vivia os efeitos daquela aparição fantástica, pude desvendar toda a trama.
Alta noite, o jovem Joaquim deixou o acampamento dos revolucionários, acompanhado da potra, e dirigiu-se à cidade.
Pelos planos do velho Jacinto, deveriam chegar a Palma por volta das três horas. No máximo às quatro.
Não faltaram recomendações de última hora:
– Cuidado para não assustar a bichinha!
– Se a burra-de-padre aparecer...
Um a um, homens e mulheres despediram-se, com carinho, do animal e do rapaz, confiantes no desempenho da difícil tarefa.
– Vá com Deus, meu filho.
Ninguém dormiu mais. Os guerreiros porque esperariam pelo aviso de ataque, os outros porque, de uma forma ou de outra, participariam do golpe.
E, iluminados pela lua, caminharam Joaquim e a Vingadora rumo ao destino de sua gente.
– Seja o que Deus quiser – disse por último Jacinto.
Durante toda a viagem apenas um incidente. Nada de cobras, onças, lobisomens, burras-de-padre, assombrações. O caminho esteve sempre livre, como se a natureza se juntasse aos propósitos dos caboclos.
No Beco do Labirinto, os cachorros que guardavam a entrada sul da cidade acordaram, ao pressentirem a aproximação da égua e seu acompanhante, e se puseram a latir. Porém não passaram disso, e os dois seguiram em frente.
Após amarrar a ponta do cabresto ao Cruzeiro e subir ao fícus-benjamim mais próximo, Joaquim olhou para o relógio da matriz, satisfeito.
Quatro fortes badaladas acalentaram o último bom sono do povo de Palma.
V
Faustino empurrou a porta, escondeu o bombardão detrás do guarda-roupa e dirigiu-se à cozinha.
– O café já está pronto – gritou sua mulher.
Tomou um gole às pressas e perguntou pelos filhos.
– Zezinho foi para a missa.
– E ainda não voltou?
A caneca de ágata rolou pela mesa e Faustino retirou-se.
Em vez de subir, desceu no rumo do Potiú, olhos atentos e buliçosos metidos nas frinchas das portas. Aqui uma voz de mulher, ali um choro de menino, acolá um berro de macho.
Apesar da ladeira, media os passos para não perder um só detalhe das estreitas cenas domésticas: gatos sonolentos debaixo das mesas, vestidos amarrotados em muitas e moles carnes, bocas entupidas de pão e café.
Mais cem, duzentas passadas e pisava a calçada da estação.
– Novidades, Tetéu?
– E muita, Seu Faustino.
Conversa foi, conversa veio, o barbeiro esperou que o carro lotasse, e nada de aparecer mais passageiros.
– Liga o “boi” logo, Tetéu – e subiu ao veículo.
– Hoje o coronel me mata.
– Você sabe quem vai comprar um?
O automóvel partiu devagar, a soltar fumaça por todos os buracos. Portas e janelas abriam-se, braços roliços a arrastar as tábuas.
– E a égua é nova?
A cachorrada andava pela rua, vadia, ossuda, pestilenta.
– Arreda, bicho.
De volta da igreja, a menina Maria da Cunha, espantada e triste, amassava um terço nos dedos.
– Você já viu o Pascoal?
Passaram pela Intendência e de longe avistaram o magote de gente no Cruzeiro.
– Acelera, Tetéu.
O “boi” deu um sopapo, soltou mais fumaça e parou debaixo do benjamim onde eu me escondia. O barbeiro saltou feito um macaco e esfregou o lenço na testa.
– Venha rezar, Seu Faustino – propôs Elias, ainda ajoelhado.
Outros repetiram o convite, e nas suas feições e nos seus gestos via-se o quanto se sentiam em harmonia consigo mesmos.
– Rezar é uma ova – gargalhou Felipe, imitado por Miguel.
– Passe a mão nesse lombo – aconselhou Vicente Dias.
Todos falavam a um só tempo, e as sagradas palavras misturavam-se às profanas imprecações: divina égua, bendita potranca, fêmea misericordiosa, jumenta celeste.
– Isto é pecado – gritava o padre.
– O apocalipse – replicava Félix, a rilhar os dentes e bater fotos.
– Vi ainda outra besta emergir da terra... – lia o pequeno Lutécio, já rouco e cansado.
– É uma encarnação, Seu Faustino; não vá na conversa dessa gente, não – explicava o chefe da estação.
– Bando de idiotas! – enfureciam-se os maçons.
Tetéu largou o carro e se juntou aos idólatras, para desconsolo do outro grupo.
– Deixa de ser besta!
Pressionado de todos os lados, o barbeiro não sabia o que fazer e dizer. Olhava para os beiços rezadores de uns e lembrava-se da clarineta de Elias. Virava-se para as sacanagens de outros e recordava a trompa de Miguel. E não tirava os olhos de cima da égua, imensa arara de quatro pés, aquela bicha formosa e colorida, pintada de urucu e jenipapo, misto de índia e dama.
– Viva Dona Perpétua do Rego Castro Pinto! – bradou, e todos se assustaram e calaram.
Encheu-se então de ânimo e fez quase um discurso. Falou dois dedos da aniversariante, um palmo do natalício e uma légua do presente que algum cidadão honrado e rico, bondoso e desprendido dava à Senhora Intendente.
– Talvez um fã anônimo, um namorado estrangeiro.
Os olhares de todos voltaram-se imediatamente para Mister Oliver, que se fez róseo e gaguejou qualquer coisa como I never knew you: depart from me, ye that work iniquity(*).
– Que ingresia é essa?
O partido comandado por Elias e Rafael irritou-se com as insinuações de Faustino e ameaçou linchá-lo.
– Fora daqui, língua de trapo!
– Arreda, satanás!
Os adeptos da beleza luxuriante da égua convidaram o barbeiro a participar da pândega, enquanto riam de suas ironias.
– O fã da intendente tem bom gosto, pessoal – dizia Miguel.
Preocupadas, algumas mulheres olhavam de longe para a aglomeração masculina.
– Vai sair briga dali – vaticinava Dona Catarina, ainda de véu, missal e terço.
– Será uma santa mesmo? – perguntou a mulher de Felipe.
– Deve ser pior do que aquelas da Rua dos Sete Pecados – presumiu outra.
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(*) Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade.
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Dona Perpétua considerava-se a mulher mais formosa de Palma, além de qualquer outra beleza feminina do lugar. As demais mulheres não passavam de bruxas, mesmo as mocinhas mais jeitosas.
Mandava buscar os mais afamados retratistas de Fortaleza e até de mais longe, para que perpetuassem seu rosto e seu busto. E expunha os quadros por toda a casa, a ponto de transformá-la, com o tempo, em imensa galeria.
Vestia-se como princesa, quer para ir à igreja, quer para um simples passeio pelas ruas de Palma. Enfeitava-se de mil maneiras e, mais ainda, pintava-se.
– Lá vai a pavoa misteriosa.
Invejada por umas, ridicularizada por outras, nada a impedia de ser cobiçada por todos os homens. Falavam-se de paixões desenfreadas, de poetas martirizados, de desesperos românticos.
Pelo menos de um suicídio se tem notícia, o do irmão de Vicente Dias, de nome Alexandre, metido a poeta e boêmio. Não é certa, porém, a causa de seu gesto. Uns falam de doença incurável, outros de loucura.
Dos que fugiram para o Amazonas, supostamente atraídos pela borracha, Faustino citava três que morriam de amores pela mulher do intendente.
Das brigas de casais, a maioria se dava por culpa da bela Perpetua.
– Que diabo você vê nessa espevitada?
Os mais afoitos, vez por outra, eram surpreendidos rondando a casa de Felício Pinto. Os sustos desses namorados noturnos nunca se davam por obra do marido platonicamente traído, mas graças aos passeios de Faustino.
Despediam-se. O assustado amante ia embora, encabulado e cheio de desculpas, enquanto o barbeiro se metia por outros becos e esquinas, à cata de novidades para sua irremediável curiosidade.
No outro dia contava tudo aos mais íntimos, a mim principalmente, e os fuxicos viravam notícia, crônica, capítulos da História de Palma. Meu jornal percorria as mãos trêmulas e os olhos buliçosos dos leitores, até parar debaixo das botas do delegado.
Faustino nada sofria. Eu geralmente acabava no índex das morais reinantes: linguarudo, difamador, mexeriqueiro.
VI
Pascoal da Cunha apareceu no canto da praça, carregado de foguetes de todos os tipos e tamanhos, sem atinar com o verdadeiro sentido da aglomeração. Tocou fogo no rabo do primeiro, o bicho subiu, subiu e espocou nas alturas.
– Viva a aniversariante! – gritou, enquanto se preparava para lançar o segundo foguete.
Na multidão houve susto e começo de pânico. Os ajoelhados ergueram-se de supetão e se chocaram com os gaiatos que alisavam os quadris da égua.
– Arreda, beato velho!
– É o fim dos tempos!
Padre Inácio procurava transmitir tranqüilidade, com palavras ordeiras e mansas, enquanto outros foguetes incendiavam o céu.
No meio da confusão, o animal perdeu a calma e pôs-se a relinchar, a dar coices e pinotes. A primeira patada alcançou a virilha do sapateiro, que caiu aos pés de Faustino, encolhido e gemebundo.
O fogueteiro aproximava-se, a soltar foguetes e dar vivas à intendente. A cada papoco a égua mais se agitava, a forçar a corda que a prendia ao Cruzeiro.
Quando o cabresto se rompeu, a potra desembestou e saiu levando de roldão quem se achava pela frente. Elias, mal se tinha erguido, levou uma cabeçada de perder os sentidos. Felipe não suportou o impacto e rodopiou. Miguel livrou-se do bicho, mas tombou ao encontrão de Vicente. Florêncio tentou saltar de lado e chocou-se contra o corpo de Belchior.
Na segunda roda, a Vingadora pegou de frente Rafael e prostrou-o, derribando também Xavier, Mestre Viriato e Simão.
No ruge-ruge, ninguém deixou de receber ao menos um empurrão. A bíblia do fotógrafo espatifou-se, a batina do padre acabou rasgada, os livros de Jerônimo nunca mais puderam ser lidos, pedaços de Kardec por todos os lados.
À distância, as mulheres se escabelaram, aos gritos de “socorro” e “valha-me Deus”. Umas se plantaram ao chão, atônitas, feito estátuas; outras correram para cá e para lá, tontas, feito baratas.
E a égua escapuliu, aos pulos, para as bandas do Largo do Cacete, livre das preces de uns e da putaria de outros.
– Pega a bichinha! – gritava Miguel, a recompor-se e caxingar.
– Atrás da santa, meu povo! – murmurava Elias, ainda estendido ao pé do Cruzeiro, uma revoada de anjinhos ao redor da cabeça.
– Mon Dieu! elle a disparu! (*) – lastimou-se Severo Brito.
Eu, mais curioso, saltei da árvore e corri para o patamar da igreja.
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* Meu Deus! ela desapareceu!
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Com tamanha esculhambação não contavam os caboclos. Ora, a idéia de reunir ao redor da égua os homens de Palma nascera justamente de uma observação de Joaquim no dia da espionagem: dezenas de pessoas aglomeravam-se para ver uma macaca e, tão entretidos pareciam, que um só homem poderia matá-los.
De volta à serra, o espião contou o curioso fato ao astuto Jacinto, apenas para dar conta de sua missão. Não imaginava nunca que naquele insignificante episódio estivesse o embrião da estratégia do levante.
– E essa macaca fazia o quê?
– Pulava de um lado para outro.
O ancião arrancou de Joaquim muitas e preciosas informações, com paciência e argúcia. Assim, soube dos atavios do pequeno primata e de seus atrativos.
– Parecia uma menina sapeca, vestida de sainha e cheia de brincos e argolas.
O dono dessa macaca chamava-se Manuel Saldanha, mais tarde fabricante de lamparinas, canecos e outras peças de flandres e latas velhas.
As peripécias da bichinha, porém, muito cedo deixaram de chamar a atenção do povo. Mesmo os matutos mais bestas não viam graça nenhuma naquilo, e o lucro de Manuel não deu para fabricar a terceira lamparina.
Morreu sem uma vela, a rogar pragas ao coronel Catulo.
O motivo dessas pragas é humaníssimo: José Catulo chegou a Palma pobre de pedir esmolas e terminou dono de metade da cidade. Trazia apenas um realejo enferrujado e uma macaca feia. Com o primeiro tocava trechos de polcas para fazer a segunda dançar.
Acrescento um terceiro pertence: um chapéu roto e ensolarado, no qual recolhia as espórtulas que os admiradores da faceira símia pagavam para ver o espetáculo.
Entusiasmado com a descoberta de Joaquim, o ideólogo e estrategista Jacinto desenvolveu a teoria da credulidade troiana, daí em diante posta em prática por inúmeros capitães vitoriosos, como consta dos anais das guerras.
Consistia ela em mandar a Palma um animal, de preferência estranho à região, como um leão ou um canguru. Mesmo um bicho raro nas redondezas, como um jaguar ou um camelo. Preferível ainda um bicho manso e engraçado, para não assustar ninguém, antes para encantar a todos.
– Eu arranjo um sonhim – prometeu Domingos.
Jacinto teorizou mais: nada de imitações, nem macaco nem sonhim. Talvez um cururu dos grandes.
E toda a fauna da Serra desfilou pelos sonhos do grupo: do acauã ao zabelê, passando pelo caxinguelê, pelo guaxinim e pelo maracajá.
Quando os palmenses estivessem distraídos ao redor do bicho, os guerreiros atacariam e tomariam a cidade. Saqueada e destruída, estariam vingados os índios mortos nos séculos passados.
(Continua)