OS VARÕES DE PALMA (1)
Nilto Maciel
OS VARÕES DE PALMA
Romance (Brasília, Ed. Códice, 1994)
Para Abdias Lima, Adriano Spínola, Airton Monte, Artur Eduardo Benevides, Audifax Rios, Batista de Lima, Caio Porfírio Carneiro, Carlos Emílio Correia Lima, Dimas Macedo, Diogo Fontenele, Edmilson Caminha, Francisco Carvalho, Francisco Sobreira Bezerra, F. S. Nascimento, Gilmar de Carvalho, Jorge Pieiro, José Alcides Pinto, José Hélder de Souza, José Lemos Monteiro, Márcio Catunda, Moreira Campos, Nirton Venâncio, Roberto Pontes e Sânzio de Azevedo.
In memoriam: Antonio Girão Barroso e Rogaciano Leite Filho.
O JOGO VERBAL DE NILTO MACIEL
F. S. Nascimento
Em seus mais recentes livros, Nilto Maciel tem se revelado um explorador irrequieto do estilo na prosa de ficção, justificando-se o interesse da crítica por algumas dessas bem sucedidas experiências. Partindo de consciente domínio do instrumental lingüístico, observa-se que esse procedimento vem se realizando dentro de um jogo verbal em que, usando os componentes da linguagem tal como estes se organizam no sistema expressivo convencional, subitamente o escritor rompe com esse eruditismo vernacular, definindo-se por arranjos estilísticos efetivamente representativos da sintaxe coloquial, em consonância com as variantes culturais dos seres projetados no espaço da ficção.
Portanto, ora manipulando a prosa bem comportada, obediente às lições dos clássicos da língua portuguesa, ora reproduzindo o estilo brasileiro e lhe enfatizando as cambiantes dialetais, é assim que Nilto Maciel se apresenta em Os Varões de Palma, em mais um passo ascendente na área da longa ficção. Para desenvolver a escritura artística estereotipada, dobrando-lhe a sisudez castilhiana com impregnantes diásporas estilísticas, duas conquistas se fariam necessárias: o conhecimento metódico da sintaxe literária e a noção de ritmo e cromatismo sonoro. E esses recursos aparecem em situações múltiplas nos textos anteriores do ficcionista e poeta Nilto Maciel.
Para estabelecer esse contraste entre o uso sistemático da linguagem e a prática de expedientes inovadores da escritura artística, já não se precisa recorrer às lições de um Gustave Flaubert e dos irmãos Edmond e Jules de Goncourt, como teria feito Oliveira Paiva. Entretanto, não se pode ignorar que a técnica para obter esses impactos sugestivos e plásticos se consolidou na prosa de ficção desses três escritores franceses1, recebendo significativos acréscimos nos romances de mar e floresta do norte-americano James Fenimore Cooper, em que Harold C. Martin conseguiu identificar múltiplos pés iâmbicos e anapésticos e colisões mais intensas a gerarem vibrações rítmicas em cláusulas predominantemente simples.2
Em dois ensaios, que presumo integralmente vistos por menos de vinte leitores e hajam motivado a curiosidade de pouco mais de cinqüenta manuseadores de primeiras páginas3, detive-me longamente na apreciação desses procedimentos formais renovadores do estilo na prosa de ficção, concluindo amargamente pela inutilidade do esforço. Com exceção de generosa referência ao método aplicado4 e de um comentário estimulador5, mais nenhum crítico deste país se arriscou a invocar em seus livros tais subsídios à chamada “estética de recepção". Daí a certeza de que, insistindo em analisar esses mesmos aspectos na prosa de Nilto Maciel, estaria contribuindo para reduzir o número de consumidores de Os Varões de Palma.
Nesta experiência de ficção, Nilto Maciel também desperta o interesse pela questão do ponto-de-vista ou processo de condução da narrativa. Igualmente frustrado na análise desse recurso técnico e ofendido pelo silêncio aniquilador, ainda assim, se tivesse que discorrer em torno da voz do protagonista-narrador ou observador em Os Varões de Palma, insistiria na mesma tecla, reproduzindo o que ficou escrito em A Estrutura Desmontada sobre Machado de Assis, William Faulkner, Francisco Ayala, Samuel Beckett, Malcolm Lowry e Alain Robbe-Grillet. Em acréscimo, alinharia algumas das colocações feitas por Stephen Ullmann a respeito da construção ficcional de Novembro, de Flaubert (1842), porque, tal como nessa novela marcada pelas antecipações formais, em Os Varões de Palma o narrador é também o "chief protagonist" na história6.
A confirmação do bipartite view no desenvolvimento da narrativa se dá logo no cap. I. Fracionado em dois segmentos, no primeiro, estruturado em linguagem impessoal, a voz dominante é a do protagonista-observador a descrever a cena da comemoração do aniversário de dona Perpétua. No segundo, ao serem adotadas as formas pessoais "disseram-me" e “de minha parte", ocorre o envolvimento do expectador, que se transforma em protagonista-narrador, recurso praticado por um Flaubert, mas certamente com espanto dos seus contemporâneos. Em 1925, na Tragicomédia de un hombre sin espiritu, Francisco Ayala chegou a usar três modalidades de ponto-de-vista, o tripartite view, considerando-se o bipartite view de Nilto Maciel um bom avanço em montagem ficcional.
No andamento de sua narrativa, Nilto Maciel suscita, de imediato, duas indagações: uma envolvendo o espaço (situação geográfica de Palma) e outra se relacionando com o tempo em que a ação fora testemunhada pelo protagonista-observador ou participada pelo protagonista-narrador. Na justificativa preambular do argumento do "Tema del traidor y del heroe", Jorge Luís Borges deixava abonada essa técnica de urdidura ficcional, com as situações de espaço e tempo figuradas enigmaticamente, ao escrever:
"La acción transcurre en un país oprimido y tenaz - Polonia, Irlanda, la república de Venecia, algún estado sudamericano o balcánico... Ha transcurrido, mejor dicho, pues aunque el narrador es contemporáneo, la historia referida por el ocurrió al promediar o al empezar el siglo XIX. Digamos (para comodidad narrativa) - Irlanda; digamos - 1824”.7
Na análise desse mesmo conto, Robert Scholes não somente admitia como regra esse procedimento técnico na prosa de ficção, como adiantava algumas observações relacionadas com a perspectiva e linguagem do ponto-de-vista (narrator’s viewpoint). E acrescentava que, apesar de sua brevidade, essa história consistia de enredos ou separadas linhas de ação, em que o mesmo narrador, que poderia chamar-se Borges (assim grifado para distinguí-lo do autor Borges) se confundia com o protagonista Ryan, o homem a quem havia sido imposta a tarefa de escrever uma biografia.8
Sendo múltiplos e dispersos os fragmentos existenciais que o ficcionista se propõe remontar, organizando a linguagem de modo que, reconstituindo situações incidentais ou situando-se como personagem do próprio contexto narrativo, termine por gerar a ilusão de realidade, do fato acontecido, haverá de convir-se que essa atribuição foi cabalmente exercida por Nilto Maciel em Os Varões de Palma. E assim, tem-se de reconhecer que esse poder de criar ou recriar impressões, de forjar intrigas ou relações humanas, de envolver o leitor no curso da linha de ação artificiosamente armada ou reproduzida, vem se revelando uma das características mais acentuadas desse produtor de ficção.
No cap. II, cuja seqüência enfoca uma das caminhadas madrugadoras do coroinha Raimundinho, na fabulação dos incidentes motivados por esse singular habitante de Palma os semantemas “a intendente" e "a intendência" podem ser tomados como marcos temporais, situando o acontecimento num cronológico "canto de galo" anterior a 1921. É que intendente era a "designação dada, até pouco depois de 1920, aos chefes do poder executivo municipal, hoje chamados prefeitos."9 E, efetivamente, a figura do intendente deixava de existir no Estado do Ceará ao ser promulgada a sua Constituição de 4 de novembro de 1921, definindo seu artigo 86: "São órgãos da administração municipal: 1o. - a Câmara como corporação deliberativa; 2o. - o Prefeito, como chefe do executivo".10
Incorporando à sua ficção remotas e fragmentárias notícias da "guerra dos bárbaros" ou elevando à condição de personagens os remanescentes das tribos jenipapo, canindé e paiacu, populares habitantes de Palma, Nilto Maciel vagueia pelo filão épico que mais contribuiu para a perpetuidade de José de Alencar, e o que é importante, sem absolutamente nada lhe tomar de empréstimo. Em fluxos que vão atemporalmente se integrando ao eixo da narrativa, põe o ficcionista o velho Jacinto a falar das lutas de sua nação jenipapo contra os regimentos dos paulistas, carregando de heroísmo as memórias do contador de lendas. E tudo fantasia, porque, na realidade, para assegurarem a posse de imensas conquistas sesmariais convertidas em monstruosos latifúndios, os paulistas é que mandaram contingentes nativos inteiros "para a terra-dos-pés-juntos”.
O ficcionista parece haver se inspirado no Apocalipse para urdir os incidente que simultaneamente se desenrolam no interior da igreja (o sacerdote dizendo a missa) e, contrastando com o ato religioso, a presença de “uma égua lá fora", adorada como o bezerro de ouro de Arão. Tal como definiu um enciclopedista11, essa versão apocalíptica se dá com revelações, simbolismo, misticismo, concepções obscuras, mas tudo impregnado de muita poesia. Diante das atitudes iconoclastas e libertinas dos homens a dez metros de Deus, o "padre Inácio suspirou tão fundo que duas ou três velas se apagaram, uma galheta cheia de vinho virou, as páginas do missal se agitaram e o barrete levitou, para permanecer, entre sua calvície e os anjos do teto, por uma eternidade".
O fotógrafo Félix da Penha, que manejando seu equipamento de trabalho eternizara esse histórico dia de Palma, e segurando a bíblia “prenunciou o fim dos tempos da raça humana”, realmente aludia ao Apocalipse, a rilhar os dentes e a bater fotos da “divina égua, bendita potranca, fêmea misericordiosa, jumenta celeste”, ante a reprovação do padre Inácio, a gritar: “Isto é pecado!” Ver-se-á, logo adiante, que no episódio da égua estava o embrião da estratégia de um levante. E tudo contado em estilo picaresco, como nesta revelação: “Entusiasmado com a descoberta de Joaquim, o ideólogo e estrategista Jacinto desenvolveu a teoria da credulidade troiana, daí em diante posta em prática por inúmeros capitães vitoriosos, como consta dos anais das guerras”.
A flexibilidade do processo narrativo e o uso adequado do instrumental lingüístico fazem de Os Varões de Palma mais uma experiência afortunada de Nilto Maciel. Só pelo visto, deu para conferir que seu estilo é mesmo de prosa de ficção, investindo-se as palavras, semantemas ou significantes da condição necessária para atribuir credibilidade às suas invenções de realidade. Diante dessa consistência expressiva, será difícil admitir que Palma não tenha existido, que os episódios novelescamente reconstituídos não aconteceram e que as personagens integrantes dessa sociedade de estrutura simbólica não hajam sido tipos humanos dentro das devidas proporções existenciais. Ao acreditar na veracidade das tramas que se operam nesse mundo arquitetado e indefinidamente reconstruído por essa casta de fabuladores, o leitor estará plenificando tudo isso e dando por aceita a verdade da ficção.
Bibliografia:
1) - ULLMANN, Stephen. Style in the French Novel. Oxford, Basil Blackwell. 1964, p. 94 e segs.
2) - MARTIN, Harold. Style in Prose Fiction. New York, Columbia University Press, 1967, p. 118-119.
3) - NASCIMENTO, F.S. - A Estrutura Desmontada. Fortaleza, IUC, 1972 e Três Momentos da Ficção Menor. Secretaria de Cultura, 1981.
4) - MONTEIRO, José Lemos. O Compromisso Literário de Eduardo Campos. Fortaleza, Secretaria de Cultura, 1981, p. 51.
5) - LUCAS, Fábio. F.S. Nascimento (e) A Estrutura Desmontada. In Colóquio, N.º. 12. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1973, p. 102.
6) - ULLMANN, Stephen. Op. cit, p. 101.
7) - BORGES, Jorge Luís. “Tema del Traidor y del Heroe”. In Ficciones. Madrid, Alianza Editorial, 1972, p. 141.
8) - SCHOLES, Robert. Elements of Fiction. New York/London, Oxford University Press, 1968, p. 27 e 84.
9) - HOLLANDA, Aurélio Buarque de. Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira, 1969, p. 680.
10) - PINTO, Guilherme de Sousa. Anuário Estatístico do Ceará (para 1925). Fortaleza, Tipografia Moderna, 1929, p. 12.
11) - SEGUIER, Jayme de. Novo Dicionário Enciclopédico Luso-Brasileiro. Porto, Lello & Irmão, 1947, p. 1276.
I
Um a um, os músicos se reuniram diante da casa do intendente. Cumprimentavam-se, à medida que chegavam. Na semiescuridão da madrugada, confundiam-se uns com outros. Aproximavam os olhos dos rostos ainda cheios de sono e pediam desculpas pela confusão.
– Primeiro a valsa – alertou Viriato.
Ajuntaram-se todos e aguardaram o sinal do maestro.
A valsa soou compassadamente, despertou galos e cachorros, em orquestração esquisita. A clarineta de Elias misturava-se a um cucurico rouco. A requinta de Felipe aliava-se a um latido grave. A trompa de Miguel imitava o grito sem fim de outro galo. Tudo para desgosto de mestre Viriato.
– Esculhambaram minha valsa.
Em solidariedade ao regente, Vicente tocou bem alto o saxofone e chamou os galos de galinhas e os cachorros de cadelas. Em resposta, um maxixe de latidos se fundiu a uma polca de cocoricós.
– Aquele dobrado agora, mestre – opinou Faustino.
E ergueu mais alto o bombardão.
Porém Viriato não concordou com a opinião do barbeiro. Preferia a valsa Patinadores.
Aferraram-se os músicos aos instrumentos e mais uma vez galos e cachorros os acompanharam.
A alvorada prosseguiu em homenagem à senhora intendente.
– Viva Dona Perpétua!
– Viva a aniversariante!
***
Além da tocata, a bela dama devia ser preiteada ainda com missa solene, foguetório, almoço, danças, cumprimentos, beijos e abraços, presentes e poesias românticas.
O poeta Felício do Rego, seu intendente esposo, havia burilado uns versos, encontrados mais tarde no chão da delegacia.
“Se enleia meu ávido olhar
no teu deslumbrante colo...”
Disseram-me ser todo o poema cópia desleixada ou desonesta de uns versos de Teófilo Dias.
De minha parte, prestei meus respeitos à senhora num artigo intitulado “A Dama de Palma”, publicado no meu jornal Diabo a Quatro, edição apreendida pela polícia naquela manhã.
Dizia, entre outras verdades: “Faz anos hoje a cobiçada Madame Castro Pinto. Mais um dia de futricas e politiquices”. E não deu outra, se não destas, pelo menos daquelas. Pois, antes mesmo da missa, a cidade caiu na futriquice da descoberta de uma égua amarrada ao pé do Cruzeiro, para não sossegar até hoje. Tudo conforme os planos de um velho morador da Serra, chamado Jacinto. O Seu Jacinto Jenipapo.
O condutor do animal, um caboclo de nome Joaquim, após mil e uma estripulias – do irracional e de alguns humanos – conseguiu regressar ao convívio dos seus, muito depois da perseguida fêmea.
Quase tudo o que aqui vai narrado muita gente daquela época contou e recontou. Eu inclusive. E também o duplamente desgraçado Joaquim.
Para o povo de Palma, sobretudo, e também para os raros leitores de uma crônica intitulada A Guerra da Donzela, faz sentido a expressão “a dupla desgraça de Joaquim”. Pois o jovem condutor da égua desta narrativa é o mesmo velho daquela história, que um dia “arrumou a trouxa, montou a mula velha e saiu estrada a fora, mode retirante”, para logo depois encontrarem seu corpo “pendurado num juazeiro à beira de uma estrada no sertão de Quixeramobim”.
Toda a patranhada deste caderno chegou aos ouvidos da gente de Joaquim no mesmo dia de sua fuga, astuciosamente alcançada e ingenuamente permitida.
Este último incidente notável daquele festivo dia deu-se depois de uma interminável série de peripécias marciais, verbais, inquisitoriais e sexuais. As ultimas, sobretudo, ensejaram a lendária escapulida do rapaz.
Refeito da corrida e do pânico, relatou Joaquim, tintim por tintim, ao seu grupo, a novela de que se sentiu protagonista. Findo o relato, o velho Jacinto suspirou e solenemente declarou: estamos vingados.
As glórias, porém, não as mereceu o companheiro da égua. E ele mesmo deu o primeiro beijo no pescoço do animal. Durante o resto da noite trataram os caboclos de cobri-la de elogios, afagos, beijos, abraços, todos os seculares carinhos. Reconheceram ter sido ela a causadora de tudo e, como recompensa, batizaram-na de A Vingadora.
II
De longe o coroinha Raimundinho avistou apenas a igreja, e seu coração nem pulou mais, de tanto vê-la e venerá-la. Caminhava vagaroso, feito um sonâmbulo, ao compasso de uma valsa distante, talvez sonhada – ecos quase sumidos de um bailado. Parecia vagar pela calçada, como se o conduzissem passos de pássaro.
Caminhava, e mais e mais o toque se perdia, a acordar a intendente no outro lado da cidade.
Já despertava de todo o coroinha, mais lesto, saudado por um ou outro canto de galo, cumprimentado aqui e ali pelos boêmios da noite de Palma – os incontáveis e anônimos cães da rua.
Protegia-o sempre o escapulário pendurado ao pescoço, suado e sujo de tantas correrias, e o nome de Jesus-Maria-José guardado entre os dentes para as horas de aflição.
Deu as costas para a Intendência e meteu-se entre as duas fileiras de arbustos. Nenhuma tentação o assaltaria, nenhuma cobra lhe daria o bote, nenhum besouro picaria sua pele. Guardavam-no também os anjos, custodiavam-no os arcanjos.
Apressou o passo, o coração aos pulos, feito cabrito assustado, olhos fitos na cruz da praça. Persignou-se seguidas vezes, a pronunciar sacras palavras – cruz, Deus, inimigos.
A igreja parecia se afastar cada vez mais, e crescer, agigantar-se, alcançar o céu.
O sol ainda andava no outro lado do mundo, escondido, enterrado detrás das serras. Uma luz de lamparina sem gás apenas tingia uma pontinha do horizonte. E talvez fosse mesmo a claridade da lua que se apagasse vagarosamente.
Ia passar pelo Cruzeiro e livrar-se dos perigos desconhecidos, das traições dos espíritos maus, das almas penadas, do capiroto e seu rabo sagaz, seu chifre mendaz, seu garfo letal, mas fungaram ao lado e o coroinha perdeu-se do caminho de Deus. Esbarrou, olhou, sossegou e se encantou com a mais bela égua de sua vida.
Durante um minuto, ou dez ou mais, esteve o menino ao redor do animal, admirado, enamorado, quase apaixonado. Tentou alisar-lhe as ancas coloridas, porém o coice se armava e ele recuava. Imaginou montá-la e cavalgá-la, porém aos pés da santa cruz arrependeu-se do pecado. Quis dizer palavrinhas de carinho, inventar onomatopéias, sibilar aos ouvidos dela, porém assobiava, suspirava e gemia, apenas.
Avistou-o a pequena Maria da Cunha, acanhada, amarela, magricela, coberta de véus, amarrada ao rosário, passo torto no rumo da matriz. E seguiu em frente, caladinha.
Apareceu depois meu filho mais velho, o Sombrinha, alegrão, saltitante, aquele seu jeito de falar. E logo outros e outros, até formar-se ao redor do Cruzeiro o primeiro grupo de amigos da égua.
***
O pequeno Raimundo, sábio já do latim cristão, demonstrou naquela madrugada quão ímpia queria sua vida. Uns dez anos adiante, trocou as missas pelas moças das terras de seu pai, para engravidá-las com seu loção de cidadão.
Uma delas teria o nome de Mirtes e ao tempo da égua nem sequer havia nascido.
O mais fascinante de tudo, porém, é que Mirtes nasceria de Joaquim, o condutor da Vingadora.
Talvez esteja aí a explicação do destino do dom-joão de Palma: sua mais importante conquista, ainda gameta perdido no universo de Joaquim, o conheceu a seduzir uma égua.
Daquela união resultou Antonio, motivo da mais santa guerra dos tempos modernos – a chamada Guerra da Donzela, já referida no capítulo anterior.
***
A história da égua tem início, no entanto, no velho Jacinto, morador do Sítio Tijuca, propriedade do coronel Colombo, pai do coroinha.
O ancião se dizia neto de jenipapos e vivia a falar de seus antepassados, a contar lendas e barbaridades.
– Meu avô, que Deus o guarde, morreu, mas também mandou muito paulista para a terra-dos-pés-juntos.
Ao fim de suas aventuras, clamava por vingança. Os filhos, netos, afins não riam de suas conversas nem se atreviam a fazer ouvidos de mercador, contudo não conseguiam entender na pessoa de quem haviam de vingar a morte de seus avós.
Referia-se sempre a paulistas, capitães e soldados, e nunca indicava onde viviam. Assim mesmo, um ou outro se mostrava interessado na vingança.
As pregações do velho dia a dia se tornavam mais agressivas, apesar dos conselhos do filho Baltazar. E logo chegaram aos ouvidos dos moradores mais afastados, de amigos e parentes de seus netos. Todo dia aparecia um novo ouvinte para suas arengas, até formar-se um grupo de rapazes dispostos a seguir suas orientações.
O centenário Jacinto, pouco a pouco, se tornou aos olhos de seus ouvintes um sábio, um profeta, um guia. E os ouvintes viraram seus discípulos. Interessou-se pela origem de cada um e com facilidade descobriu a que nação pertenciam.
Seu neto João carregava sangue jenipapo peio lado paterno, e canindé pelo materno.
Os demais “guerreiros” possuíam os sangues jenipapo, canindé ou paiacu. Uns, metade jenipapo, metade canindé; outros, metade jenipapo, metade paiacu; e assim por diante.
Porém não se preocupassem com as misturas. Importava que fossem todos descendentes dos antigos índios de Palma.
– Quero união entre todos – dizia.
E mandava o jenipapo Pascoal pegar a mão do canindé Antonio e este a do paiacu Domingos. Formassem uma roda para a dança.
– As nações unidas – aconselhava.
Ao final, todo o exército constituía-se de João, Pascoal, Antonio Canindé, Miguel, Domingos, Joaquim, Severino, José Andrade, Faustino, Antonio Correia, Pedro e Francisco – doze guerreiros contra os paulistas, capitães e soldados de Portugal.
III
O enxame de meninos avistaram primeiro Vicente e Rafael – um a caminho do espírito, outro no rumo da carne. Um subia a rua, outro descia, até se darem bons-dias.
– Espere um pouco, Seu Rafael.
O boticário queria saber de dianteiros e traseiros, enquanto ia à devoção. Mas antes que o magarefe passasse à sua obrigação, um alarido chamou-lhes a atenção.
– Que diabo é aquilo?
Uns dez meninos riam e gritavam ao redor do Cruzeiro, seduzidos pela égua e desgarrados de Deus.
Não tiveram idéia os dois homens do divertimento dos pequenos e durante cinco minutos só falaram palavras sabidas – falta de educação, vergonha e respeito. Para ajudá-los, apareceu o trompista Miguel, ainda suado de soprar valsas.
– Que tal a alvorada?
– Pelo visto vai até meio-dia – respondeu Rafael, dedo apontado para a meninada.
E voltaram as usadas palavras: desrespeitadores, sem-vergonhas, miuçalha mal-educada.
No meio da lição, um casal vinha para disciplinar a cátedra.
Elias sapateava para acompanhar véus e saias de sua senhora.
– Aposto que falam da alvorada.
O sino tocou de novo e, enquanto tocava, o sapateiro empurrava Catarina para o chamado litúrgico. Ia logo a seguir, precisava conversar um pouco com os amigos.
– O senhor já viu a molecada?
Enquanto tentavam descobrir o motivo de tão madrugadora molecagem, os quatro se viram transformados em pequena multidão, com a chegada do resto da banda e de outros curiosos.
– Se o espírito não me engana, aquele de blusa verde é o seu filho, Seu Miguel – alertou Vicente.
– E aquele que não pára de rir é o seu – replicou Elias.
O primeiro passo na direção do Cruzeiro partiu do pé direito do boticário. Do segundo ao centésimo não se sabe mais o dono. E a marcha deu-se firme, compacta, compassada.
– Vamos acabar com a brincadeira – dizia Vicente, resoluto, vanguardeiro, capitão de tropa.
– Com a brincadeira vamos acabar – repetia Miguel, o queixo a bater, os braços rijos, as mãos encolhidas.
Não os viram logo os peraltas, entretidos com a égua, alegres, festivos. Raimundinho batia palmas, Joãozinho Alencar sapateava, Sombrinha discursava, Manuelzinho gargalhava, o filho de Miguel fazia das mãos uma trompa, o de Vicente fazia do fura-bolo agulha de injeção, postado atrás do animal. Todos no mundo da lua, como se seus pais fossem minúsculas figuras inofensivas.
– Já para a missa – gritou o boticário, dedo em riste para Joãozinho Dias, que encolheu o indicador e escapuliu.
Um a um berraram os pais, e um a um correram os filhos. E o motivo da festa apresentou-se imponente aos olhos dos novos curiosos – a égua e seus encantos, sua fantasia, suas cores vermelha e preta, suas penas de arara, sua beleza, sua ternura.
A princípio nenhum disse nada, embasbacados, como se uma santa ou formosíssima mulher os paralisasse de admiração. E ela, a égua, requebrava-se, aos olhos de uns, ou os abençoava, ao entendimento de outros. Parecia pura criatura divina, ou impudica dama profana.
– Quem será? – balbuciou Vicente.
– Uma aparição – disseram alguns.
Que coisa mais linda! – extasiaram-se outros.
Ajoelhou-se primeiro Elias, seguido de Rafael, mãos postas, olhos contritos – a alma enlevada. E Simão, Antonio Soares e mais outros os imitaram.
– Seus bestas! – entredisse Miguel, que riu e alisou os quadris da venerada, arremedado por Vicente, Belchior e Mestre Viriato.
– Comportem-se, seus blasfemadores! – Irritou-se o magarefe, já devidamente convicto de um milagre.
E outras repreensões – hereges! ateus! endemoninhados! infiéis! – saltaram dos lábios dos adoradores do animal.
Os outros não se afobaram logo, antes levaram na brincadeira o espetáculo, ruidosos, corados, moleques, a chamar seus repreensores de hipócritas, fariseus, pagãos, idólatras, ao mesmo tempo em que convidavam os transeuntes a se chegarem.
– Vem cá, Seu Jerônimo.
– Xavier, deixa a carroça e vem apreciar esta potranca – gritava o boticário.
Não tardou, já havia mais homens ao redor da égua do que mulheres diante do padre a rezar missa. E nenhum deixou de tomar partido – ora crentes da divindade do animal, ora seduzidos por sua beleza.
– Vale por dez Teresas – garantia o dentista-trompista – Olhem só os dentes!
– Ave-Maria, cheia de graça – murmurava Antonio Soares.
***
Quando cheguei à praça, já os partidos se tinham formado. Para melhor observar o desenrolar dos fatos, subi a um fícus benjamim próximo ao Cruzeiro, onde permaneci escondido durante um bom tempo.
De lá pude ver melhor a égua. Nunca poderia aliar-me aos partidários de sua divindade, por mais atrasado que fosse. A beleza da poldra era de causar não só admiração, como, sobretudo, sedução.
Até eu, homem avesso a paixões, deixei-me engabelar pelo velho Jacinto. E talvez só me tenha salvado por estar invisível entre as folhas da árvore.
Belo trabalho o dos caboclos! Pois enfeitaram tanto e tão majestosamente a égua, que ninguém, nem o mais incrédulo, nem o mais pudico homem, deixaria de adorá-la e, conseqüentemente, expor-se a um ataque traiçoeiro.
A Vingadora foi tão perfeitamente domesticada e ensinada que suportou servir de objeto de adoração religiosa e profana, sem um relincho, sem um coice, estoicamente, embora cheia de requebros e modos feminis, durante quase uma hora. E só fugiu aos ensinamentos por força de um fato estranho aos planos traçados pelo vovô jenipapo.
A formosa potra, antes de conhecer Palma e suas extravagâncias, vivia solta no meio da serra, indomável e selvagem, livre e rústica, e só o carinho do povo de Jacinto conseguiu transformá-la.
Homens, mulheres e crianças dedicaram dias seguidos a amansá-la, de início amarrada, para que não fugisse.
Domada, passaram a ensinar-lhe como requebrar-se, erguer ora uma pata, ora outra, andar feito uma dama, sorrir brejeiramente, seduzir com olhares langorosos, mostrar-se ora circunspecta e casta, ora debochada e lasciva, no só intuito de causar estupefação nos varões de Palma.
Cuidou disso sobretudo Jacinto, mas também sua nora Mariana e as mulheres dos guerreiros, além de um ou outro homem, que dava idéias, remendava opiniões, aperfeiçoava conceitos.
(Continua)