POEMAS DE BATISTA DE LIMA
Batista de Lima, cearense, poeta, contista, ensaísta, professor de Literatura. Livros publicados: Miranças, Os viventes da Serra Negra etc.
A CASA
A casa
não cabe
na casa
Sua saga
vastafunda
fala
em salas
corredores
muito além
A casa
não se importa
se sala ou cozinha
ela fala
nos arredores
vasta se funda
Nos alicerces
construção construção
O PREGADOR DE BOTÕES
Ensina teu irmão
a pregar botões
não lhe dê linha
nem agulha
a verdadeira arte de pregar botões
não necessita de botões
Ensina teu irmão a fazer casas
tão belas e abertas casas
que os botões brotem de satisfação
como botões regados
por mãos que só fabricam
portas abertas
e janelas escancaradas
VERBO
no principio era o verso
e o verso se fez verbo
e o verbo se fez húmus
daí surgiram borboletas
e o branco livre
dos voares azuis
mas o verbo também
se fez homem
e o homem se fez mãos
para tudo desfazer
OLHOS
Lânguidos
ou mágicos
oceanos dos meus mergolhos
onde te vejo me vendo
e me rendo
às lacriamorosas gotas
dos teus sentires
Grandes
ou ocelos
só o plural
instaura-me
nos vastos e sempiternos
marolhos
que da tua face emergem
Olhos que me afogam
para que o luar?
para que a paisagem?
se tudo se me mostra
nas multicores do teu olhastro?
OS TRÊS TRADICIONAIS GÊNEROS LITERÁRIOS
(Analogias)
1. O lírico sente.
O épico mostra.
O dramático prova.
2. O lírico recorda.
O épico torna presente.
O dramático projeta.
3. O lírico se emociona.
O épico admira.
O dramático se espanta.
4. O lírico expõe.
O épico narra.
O dramático dialoga.
5. O lírico confessa.
O épico historia.
O dramático representa.
6. O lírico é o “eu”.
O épico é o “ele”.
O dramático é o tu .
7. O lírico é sílaba.
O épico é palavra.
O dramático é frase.
8. O lírico é sedentário.
O épico é nômade.
O dramático é evoluído.
9. O lírico é adolescente.
O épico é jovem.
O dramático é velho.
10. O lírico é emotivo.
O épico é referencial.
O dramático é conativo.
11. O lírico é expressivo.
O épico é narrativo.
O dramático é exortativo.
12. O lírico é o início.
O épico é o meio.
O dramático é o fim.
13. O lírico é o amanhecer.
O épico é o entardecer.
O dramático é o anoitecer.
14. O lírico é fala.
O épico é língua.
O dramático é linguagem.
15. O lírico é particular.
O épico é social.
O dramático é universal.
16. O lírico é subjetivo.
O épico é objetivo.
O dramático é a síntese de ambos.
17. O lírico é emocional.
O épico é figurativo.
O dramático é lógico.
18. O lírico é feminino.
O épico é neutro.
O dramático é masculino.
19. O lírico é arrebatamento.
O épico é força.
O dramático é indecisão.
20. O lírico é cantado.
O épico é recitado.
O dramático é dialogado.
21. O lírico é sentimental.
O épico é narrativo.
O dramático é representativo.
22. O lírico é abstração.
O épico é ausência.
O dramático é presença.
23. O lírico espera-se (pela inspiração).
O épico recolhe-se (da humanidade).
O dramático arranca-se (à força).
24. O lírico é do mundo interior.
O épico é do mundo exterior.
O dramático é do mundo conflituoso.
25. O lírico é das emoções.
O épico é das grandes ações.
O dramático é das ações em conflito.
26. O lírico centra-se no autor.
O épico centra-se no autor e no auditório.
O dramático centra-se no auditório.
.27. O lírico, o autor é protagonista.
No épico, o autor é expectador.
No dramático, o autor é coordenador.
28. No lírico, o sujeito e o objeto juntam-se.
No épico, o sujeito e o objeto observam-se.
No dramático, o sujeito julga o objeto.
29. No lírico, beija-se o mundo.
No épico, somos beijados pelo mundo.
No dramático, entrebeijamo-nos (nós e o mundo).
30. No lírico, a linguagem está na fase da expressão sensorial. No épico, a linguagem está na fase da expressão figurativa. No dramático, a linguagem está na fase da expressão do pensamento conceitual.
SÓ
O que faz mais dura a solidão
é tirar de mim o que me falta
O que faz doer a solidão
é sua sede
é ter que arrancar
destas entranhas
um oceano de pedridade
de quem freqüentou a escola das facas
onde o que corta não é o gume
mas a falta da lâmina
O que fere não é a dor
é sua ausência assassina
pendurada nos cabides da alma
O que dói na solidão
é ter que amar
e amar é perder uma banda
é extrair um bonde de um homem
é extrair um bosque de uma mulher
O que mais fere na solidão
é sua inscrição cravada em brasa
no braço inútil do verso
uma família em torno da mesa
comendo pratos de silêncio
O que mais dói na solidão
é perder de mim
os outros que carrego
o segundo contra o primeiro
o terceiro que instiga
o quarto que dorme
o quinto que inicia
uma infinidade de outros
O que dói na solidão
é essa batalha que não acaba mais
entre guerreiros invisíveis
enquanto um boi passeia nas nuvens
e uma bicicleta muge
já que os verdes anos foram nulos
para quem nasceu maduro
para quem perdeu o ciso
na primeira dentição
e o cordão umbilical
nos bicos de um galo cego
lá pras bandas da Cipaúba
Quanto dói
ver a velha mangueira se desfazendo
Velha! Velha mangueira
por quanto tempo roerei
teus nós
por quanto tempo aguardarei
a manga que os passarinhos
bicam
no último dos galhos
O que dói na solidão
é o vira-lata sozinho
revirando o deserto
da cidade esquecida nas ruas
é ter um pai com muitas capas
todas com seus mistérios
se desfazendo em barro
por um caminho que mespera
O que mais dói na solidão
é ter na mão uma chave
que nada abre
que nada abre
O que mais dói na solidão
é não se poderem conter
os fantasmas que teimam
em saltar das sombras
de cada canto
São essas cobras
passeando em nossa cabeça
serpentário infindável
Difícil conviver
com a inesgotável solidão
mas difícil mesmo
é compor o verso
sem a vaca no divã
triste luna
rodonoite
áspera/mente
Só mesmo a roda grande
sescondendo em menor roda
Só mesmo a bicicleta
pendurada no trem noturno
Só mesmo a melancia
no rio em cheia
boiando
E os carneiros na mesa grande boiando
os teus olhos boiando na bandeja
os teus seios boiando no cuscus
os teus sais boiando nas iguarias
os teus ais boiando na rememória
O que mais dói
não é tua ausência
mas tua presença
estando longe
Lembra-te pois do açude
onde as águas ainda nos guardam
e os peixes nos carpem
em lágrimas de cumplicidade
Lembra-te da porta marcada
pelos mistérios de estar fechada
da casa retendo a mesa onde
saboreávamos os silêncios familiares
e escrevíamos a história da solidão
no livro branco do cotidiário
A solidão mora lá e é manca
e usa bengala preta
e óculos no nariz
e se veste de uma veste que nunca muda
e tem na mão fechada a chave da
nossa libertação
Solidão solidão
meu coração é uma cidade
entre muralhas
esperando tuas chaves
Solidão solidão
certa vez em Mombaça
pedia esmolas p’ra São Sebastião
e desenhei teu corpo num surrão de mangas
e em bandas de coité de brejo
Desenhei teu corpo
num portão de vidro
éramos dois
que não eram dois
Éramos dois e só um sol
a claridade e seu dorso
a clara idade e sua dor
Solidão solidão
estamos em pleno mar e não
há mar nenhum
Estamos em pleno sono
e não há qualquer sonho
só minha mão como um rosto
cortando em muitos
o luar de agosto
O que dói na solidão é ter
Ter é estar preso
pesar pesadamente fixo
Não ter
é poder voar
Leve
levo-me às alturas
lavo-me candura
com o vôo esculpido
no azul azul
o azul está no prato
servido e sorvido
seres vivos
estamos nele
e ele em nós
pasto de pasto
repasto
solitariamente circular
rondando em torno da roda
A solidão eixa e deseixa
em roda
quanto mais vemos
menos vivemos
coração coração
Tenho ossos e mais ossos
a rodear
Que tenho feito senão rodear
nunca quebrei o fêmur do que está posto
nem a tíbia das situações sem jeito
Rodear é fugir
Solidade
quando chegamos ao trem
não havia trilho
No açude não havia água
só a dor do pesca/dor
dois meninos
engolindo uma duna
e uma duna engolindo um astro
uma foto de uma foto partida
onde o instante enterrou-se
A solidão é uma foto em que se retorce
um inconformado instante
Solidão é desencontrar-se nos próprios passos
nos próprios ossos
perder o azul do firmamento
deixar de extrair gerânios
das pedras e de suas raízes
deixar de pentear os raios do sol
desarredondar a lua em luares
atravessados
Uma casa é uma caixa
se de apenas portas
e abertas todas
uma casa é um avesso
um delírio espesso
vasto berro de barro
vagido e gozo
vôo espargido
de sonho e suspiro
Minha solidão é nódoa grudada
no ombro esquerdo do corpo
onde jaz a mala
das minhas desventuras
Minha mãe é a terra
e cumpro seu estatuto
em retornar ao seu ventre
meus filhos todos me seguirão
vastíssimos sonhos
de/verão
Tarde tarde
a solidão me salga as horas
a mulher que retém o homem
suas asas e águas
rio seco
areia de leito
íngua cortada
ferida tratada a urina
caborge
no meu pescoço levo teu pescoço
teus passos laçados
teu poder de vôo
teu grito guardado
Solidão é Laura de costas
Laura láurea loura
minha querida Laura
chorarei lágrimas douradas
quando tua nudez
se esculpir no relâmpago
Querida Laura
recupera aquele instante
em que nossos dedos se tocaram
e nos perdemos
Recupera o instante anterior ao toque
quando a correnteza era mais forte em mim
o despencar mais vertical
retendo aqui esse abismo
que me engole
Recupera teu pai
e a cuia
que enchíamos de esperanças
antes do leite
Recupera tua mãe
e a chuva fina
no telhado
Recupera as águas
que nos levaram
e lavaram
nossos sais
o céu azul
o curto mundo
onde só o coração era vasto
Recupera as curvas
dos caminhos
Recupera o fogo de
monturo em nós
Se não me queimo
não posso iluminar
se não te firo
não extraio de ti o coração
“rosa vermelha
do meu bem querer ”
Na noite tarde
o que resta é meu corpo lá
e eu daqui
olhando sua/minha posição fetal
e essa angustia de perdê-lo de vista
Não sei quando perderei
essa dor
de perder a casca
a casa do ser não importa tanto
se tantas se erguem
Só o ser é uno
solitariamente nu
e eu molusco
a vida inteira tenho construído essa casca
que me expele e me retém
escravo da construção
construir é viver
terminar a casa é terminar-me
é expulsar-me da casca construída
Foi fácil colocar a flor
atrás da flor
e ficar de uma só flor
reinventando pomares
Foi fácil reverter a manhã
colocando alvoreceres
de sol a pino
Foi fácil engatinhar
pelas galáxias
semeando brancas nuvens
Houve no entanto
um momento difícil
mudar o destino da tarde
Solidão solidade
quando procurei no bolso
o poema
encontrei aberta uma artéria
e teu rosto de fada
tua avó morrente
uma floresta escura
Quando procurei no bolso
o poema
encontrei um mistério esculpido
algumas lavadeiras
oito bicicletas
e uma tia puxando um terço
solitária
Quando procurei no bolso
o poema
te vi mais uma vez
prima/vera/ndo
Vi também uma dor sangrando
solitária
Nos nossos bolsos pulsam
os meninos que enxotam o demônio
escondido num cupim
e uma mulher de tarrafa
tentando pescar o mar
nas entranhas de um peixe
Nos nossos bolsos
pulsa o destino do poetar o
revirar cada coisa para desvendar seus mistérios
enquanto meus mistérios
para traz vão ficando
cada vez mais distantes.