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Francisco Miguel de Moura

POEMAS DE FRANCISCO MIGUEL DE MOURA

• Francisco Miguel de Moura é poeta, contista, romancista e crítico literário, com diversos livros publicados. Mora em Teresina, PI, Av. Juiz João Almeida, 1750 – e-mail: frmiguelmoura@ig.com.br – Fone: (86) 233-5218

(Do livro Poemas Ou/tonais)

uma vontade danada
de ser antes
do passado e me fazer presente
no futuro
de olho e mão
sem passo mágico
sem passo falso
em cima do vácuo

e a morte – decepá-la
em talvez poema
sem letra nem toada
prenhe de sentido indubitável.

* * *

dissolvo o tempo na madrugada
sem um amor, uma luz, um livro:
– eu só, sólido de nada.

* * *

as palavras não fogem
levemente como os loucos
em seus passos com ritmo
ficam nos interstícios
do corpo
onde sabem a suor
e se guardam
para novos sacrifícios.


POEMAS EM ESPANHOL

(Tradução de Kori Bolivia)

un deseo loco
de ser antes
del pasado y hacerme presente
en el futuro
de ojo y mano
sin pase de magia
sin pase de magia
sin paso falso
encima del vacuo

y la muerte – deceparla
en tal vez poema
sin letra ni tonada
preñada de sentido indubitable.

* * *

disuelvo el tiempo en la madrugada
sin un amor, una luz, ni un libro:
– yo solo, sólido de nada

* * *

las palabras no escapan
livianas como los locos
en sus pasos con ritmo
se quedan en los intersticios
del cuerpo
donde saben a sudor
y se guardan
para nuevos sacrificios.

* Kori Bolivia, poetisa e professora, tem quatro livros publicados. Reside em Brasília.
SONETO DE VÉSPERA

Para Mecinha, no seu aniversário
O que sentes não sei. Como saber
o que vai n’alma de uma criatura
ainda tão pequena, inda tão pura,
que faz-se amar e tenta compreender?

Sei que sinto por ti muita ternura,
muita vontade de por ti fazer
o que possa e não possa, até morrer...
E vejo neste amor uma loucura.

És toda a floração de uma beleza
cheia de risos, dengos e caprichos,
mas também de perfume e singeleza.

Só peço aos céus e aos deuses, nos seus nichos,
transformem a alegria, hoje tão sã,
nas tuas realizações do amanhã.

Teresina, 13 de abril de 2000

UMA ROSA


Um quase improviso para Eugênio de Andrade

A rosa é simples.
A beleza é simples
num poeta forte.
O inverno é mais.
Uma rosa no inverno,
desolada,
em companhia de quem
não escreve,
serve?

Vai morrer de mágoa!

Teresina, Piauí, Brasil, 19/6/2000

A VIDA, NÃO SEI...

(Ao poeta Francisco Carvalho)

A vida é feita de pequenas cousas,
o homem feito de pequenos laços,
a criança, do calor de nossos braços,
e a moça, pela forma como posa.

Já o rapaz tem a vida no que ousa;
se empregado, desfaz-se nos pedaços
do dia, do trabalho, dos percalços...
A vida nunca é mansa nem repousa.

Mas também ela é feita de defeitos,
de obrigações, de falhas, de direitos,
como as finas ciladas da raposa.

Teimosa, vai seguindo para a frente.
Quem a fez eu não sei se está contente,
mas sei que é feita de pequenas cousas.


SÉTICAS

Entre cinco paredes e sete espetáculos
me vi ao teu espelho cravado
de setas e cintas
ao meio de nada:
– nós!

É que de longe te vejo melhor
e calculo
o diferente ontem.

Vaidade? Liberdade?
Posteridade...

Amanhã, no além ou no aquém,
nos encontraremos?
Ou tudo são flechas perdidas
nos encontros
postergados?


PARA O SILÊNCIO


Não me dói a janela fechada,
o solitário pássaro, a música
tão bela
ante o verde nos meus olhos.

Não maldirei a sorte do país
no pórtico do milênio ciciante,
milhares de famintos que se sabem
roubados no salário infame
e nada fazem, nada dizem.

Mas bendirei o vento norte
que te trouxe até a mim,
e da serra o perfume e o verdor
e meu passado já fendido,
e os olhos negros de ternura,
e a boca em zero para o beijo.
Foi o silêncio quem nos consagrou
na pureza e doçura amanhecentes
entre o que vive e o que sonha.

Leve (e lindo) é o instante, irredutível
a um poema, a uma frase, um ai.
Poema eu vi na dobra do roupão
amaciando o corpo cor da tarde,
anunciando a noite lado a lado,
tão transparente quanto a carne que arde.

Que apenas se ardeu.

Mas tudo o que não houve é que haverá
Ficou, enfim, a sensação de ter-te
em minhas mãos e nos meus braços,
e o esperar de uma aventura ímpar
que da serra há de descer ainda.

Assim, não possa maldizer a vida
nem a sorte de ser um deserdado
no amor e no jogo e nas ações.

Assim, não possa desprezar a serra,
o vento, o clima de viver, verão...

Nem a casa, o café, a cerimônia,
nem o silêncio que entre nós se opôs.

Só no silêncio é que se guarda o ouro,
a eterna idade e a virtude do outro,
e o amor... Belo é o amor! Ilude.

Salve-se o silêncio a um, a dois.
Salvemo-nos de sempre para sempre
na poesia que de ti fluiu
neste poema que eu calar não pude.


ANJO BOM/MAU


Tudo o que te veste
me devasta.
E assim me anima.
O branco sobre preto
o róseo, o verde, o encarnado.

A pele de tão fina, afina-se
e anseia desvestir-se
meio a meio,
– o vento já se inclina.

Anjo meu, ao contrário,
que subiu do inferno
para trazer-me o céu
pecado...
No teu passeio lindo
sobre a terra
de ponte pênsil,
duro de medo,
eu paro.
SER POETA


Ser poeta é andar por sobre um fio
de acrobata, é imolar-se por prazer,
não vacilar jamais contra seu ser
e no poema escorrer-se como um rio.

É não ceder à forma por desvio
e, assim, matar certezas sem alarde,
sepultando os desejos que mais tarde
ou bem mais cedo explodirão sem brio.

Ser poeta é ser deus e, por tão pouco,
deixar que o chamem de profeta ou louco...
É ter, sem vaidade, a alma sem hímen.

E muito mais que isto, ao tempo impune,
gozando das delícias que amor une,
ir sofrendo as paixões que nos redimem.

A BELA E A FERA

Minha santa de outrora era uma data
loura, de olhos azuis, dos meus anseios,
róseos os lábios, túmidos os seios,
boca cheirando a lua e serenata.

E em corpo e alma, a bela, a insensata,
de olho no sexo, em danças e rodeios,
iluminava os céus com seus meneios,
festa no coração, riso em cascata.

Hoje, minha alegria se destrata,
o calendário se transforma em fel,
não quero mais saber daquela ingrata.

Meu futuro é fumaça e tem venenos...
Sem mais tempo, esvazio o meu tonel,
que um dia a mais é sempre um dia a menos.


A CADA DIA...

A cada dia a gente é um desafio
à grande noite e vai sonhando o mundo
sem tempo... A gente vai chegando ao fundo
da gente mesmo! E o cheio está vazio.

A cada dia a esfinge fere o fio
do medo, da avareza... E, de segundo
a segundo, o buraco é mais profundo
das coisas que passaram como um rio.

A cada dia a gente se amargura
com o futuro mais perto. Uma loucura!
E então desabam as tristezas de antes.

E a cada dia a gente é tão pequeno,
que o próprio doce é mais do que veneno
pois já morreram todos os amantes.


A INTEIRA VOZ

Ser bela e jovem pela vida em fora,
desejo ardente e tanto acalentaste,
não percebendo as horas do contraste.
como o florir da pedra que não flora.

Mas sei quem foste, sei quem és agora.
Verás, com pouco, a foto que ofertaste
escorando qual flor que caiu d’haste:
És teu pai de ontem, tua mãe, demora...

Contra as marcas das nossas aventuras
verás, no que inda sou, tuas loucuras,
teu futuro verás no que hei de ser.

Tudo por si se acaba, não tem jeito,
mas tua voz calada no meu peito
há de durar comigo até morrer.


SONETO DA ROSA
(Improviso para Eugênio de Andrade)

Tua rosa é beleza e sofrimento,
casar que juntos, juntos não separam
a arte e a poesia – oh grande invento
de tudo o que se parte e se reparte!

Tua rosa no inverno arde em amor,
e dor que todo amor traz sobre si,
por isto canta e no seu canto vai
toda a ternura que devolve a pira.

Uma rosa é uma rosa, é uma rosa,
já disse um bom cantor antes de mim,
mais ainda – se exala os sentimentos.

No inverno ou verão, em qualquer tempo,
uma rosa sozinha serve a todos...
E o poeta é um poeta, é um poeta.

FRANCISCO MIGUEL DE MOURA*

A LÍNGUA


A língua portuguesa que falamos
palmilhou, no Brasil, ínvios caminhos,
ganhando mais bondades e carinhos,
debaixo deste sol que muito amamos.

Junto à mãe preta e junto à índia em flor,
o português saudoso, em seu transporte,
aqui chegado do hemisfério norte,
pega brilho nos olhos e na cor.

Selvagem, forte e dúctil, na verdade,
rica e serena, triste na saudade,
franca nas decisões, porém com calma.

A língua portuguesa é, docemente,
a minha voz (e a de milhões de gente)
como parte profunda de minh’alma.




TERNURA MIÚDA

Pelas coisas serenas me contenho
se ternamente nasçam da vontade,
do amor e do carinho, da bondade
daquilo que mais prezo e pouco tenho.

Venham sutis carícias pelo vento,
beijos da natureza em nossa pele,
fazendo estremecer o que a impele
bem voar pelo espaço em movimento.

Quero os pequenos vidros. Mais perfume
têm – que a filosofia não resume,
pois lhe faltam ternura e tentação.

Nas invisíveis coisas me retiro,
nelas canto e me encanto e mais suspiro...
Todo o meu corpo é todo o coração.


A PARTIDA

Na partida os adeuses, gume e corte
dos prazeres do amor, quanto tormento!
Cada qual que demonstre quanto é forte,
lábios secos mordendo o sentimento.

Do ser brotam soluços a toda hora,
as faces no calor do perdimento,
olhos no chão, no ar, por dentro e fora,
pedem aos céus a força e o alimento.

Ninguém vai, ninguém fica. Ah! se reparte
no transporte que liga e que desliga!
Confusão de saber quem fica ou parte.

Não se explica tamanha intensidade
amarga e doce, e errante, que interliga
os corações perdidos de saudade.