Poemas de Francisco Carvalho
Francisco Carvalho, vencedor do Prêmio Nestlé, 1983, com o livro Quadrante Solar. Reside em Fortaleza, Ceará.
FANTASIA PARA GUITARRA MOURA
Sei de um rio que corre
dentro do nosso peito
Um rio que se move
em seu fluir secreto
de serpe iluminada.
Como se fosse um réptil.
Rio que vem do âmago
de si mesmo e deságua
na memória, esse pântano.
Sei de um rio que se irriga
as artérias da amada
com ouro, incenso e mirra.
Esse rio, esse abismo
que nos mantém suspensos
do esturpor, da vertigem.
(São tantos os arcanos,
os usos desses búzios
onde sempre ancoramos.)
Sei de um rio que acende
seu cachimbo de ópio
nas chamas do teu ventre.
Rio que verte, amada,
da dor da própria carne.
Rio que sempre estava
florindo em cada messe
que o coração plantava.
Mas esse rio forma
um delta em tuas coxas
onde a beleza arde
nesse jardim sem folhas.
Rio que alteia a crina
entre o dorso do verso
e as madeixas da rima.
Sei de um rio que agita
as asas de albatroz
quando vai alçar vôo
para os confins do tempo
sonhado por nós todos.
Rio que nos habita
com tal profundidade
que passa pela porta
do corpo e ninguém sabe
onde começa e acaba
a espuma desse rio,
o enigma dessa cauda
que abarca o céu, o inferno.
Rio que nos carrega
por dentro de si mesmo,
como carrega o húmus
da infância soterrada
nos olhos dos cardumes.
Sei de um rio que bebe
o vinho dos teus ombros
mas nunca mata a sede,
amada, do que jorra
das praias do teu corpo
onde gaivotas dormem
singrando a tua anca
como se fossem barcos
que não tivessem âncoras.
Onde esse rio pasta,
aí somos cativos
do amor que não se gasta
nem perde o seu fastígio.
Onde esse rio espera
a volta do equinócio
com seu colar de espigas.
Onde esse rio abarca
remorsos de outras eras
que não deixaram marca
de infância em nossas vidas.
Onde esse rio alonga
o seu olhar de touro
ferido pela espada
de fogo do zodíaco.
Onde esse rio mora
sonhado pelas conchas
mordido pelos peixes,
tangido pelas ondas.
Onde esse rio ergue
os braços para amar-te
como se deusa fosses
no altar do meu delírio.
Onde esse rio encontra
nosso destino incerto
e os passos de quem ama
sangrando entre raízes,
aí somos cativos
do amor que em sendo chama
costuma ser eterno.
GAVIÃO
Um gavião sobrevoa
a ossada reluzente
da tarde límpida.
O seu olhar em chamas
é um feroz devaneio
de embriaguez e vertigem.
Ó arauto da morte
tuas plumas de fogo
são flechas de sangue.
Senhor das alturas
ó predador de anjos
sob as arcadas do dia.
Um gavião sobrevoa
esqueletos de ofídios
nas tardes de espantalho.
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Sobre a obra de Francisco Carvalho
FRANCISCO CARVALHO E A POÉTICA DO AZUL
Sérgio Campos
1.O vigamento da poesia de Francisco Carvalho é a um tempo vigoroso e leve, o bastante para, à semelhança das vivendas antigas, revelar porões e seus objetos misteriosos, on¬de excursionam as mãos, a curiosidade e a ternura do menino e do leitor. Carpintaria que resiste a um mundo de sismos e ás chuvas ácidas de um fim de tempo em que viver não é mais que um exercício de perigos.
Francisco Carvalho (Russas, Ceará, 1927) é o poeta que vai dar nessas rotas de fuga: um recanto iluminado, um ca¬tre azul (e solidário) entre os arcanos, e simultâneas caval¬gadas sobre o dorso das metáforas espumosas, em rumo à solidão, ao amor, à morte e à memória. Não freqüenta o grande mundo das letras, mas vive em companhia delas e que o sagram um dos maiores poetas de seu tempo. Dizem-no seus quinze livros de poemas (afora algumas aventuras de juventude) e um de ensaios, obras que cresceram em consistência e o fizeram poeta maduro, menos conhecido do que merece, mais admirado que gostaria, avesso aos sa¬lões e aos festins.
Francisco franciscano, poeta de oficio e reverência à humildade, ungido pelo talento que se recusa.
2. Para poeta da produção ciclópica de Francisco Carvalho, tomamos a leitura de cada obra como critério (reconhecemos algo arbitrário) à aferição dos temas e motivações que lhe são mais gratas. Os livros que nos revelassem
o mirante mais amplo de sua virtualidade. Tais nos pareceram os seguintes:
2.1. — “OS MORTOS AZUIS” (MA), de 1971
2.2. — “PASTORAL DOS DIAS MADUROS” (PM),1977
2.3. — “ROSA DOS EVENTOS” (RE), de 1982
2.4. — “QUADRANTE SOLAR” (QS), de 1983 (vencedor da “ 1ª Bienal Nestlé de Literatura”)
2.5. — “AS VISÕES DO CORPO” (VC), de 1984
2.6. —“BARCA DOS SENTIDOS”(BS),1989
2.7. —“ROSA GEOMÉTRICA”(RG),1990
2.8. —“EXERCÍCIOS DE LITERATURA”(EL),1990
Ressaltamos que os apontamentos sígnicos em seqüência à enunciação da obra nos apoiarão durante o trabalho (1).
3. É o próprio poeta que nos diz, em EL (2): “O ser do poema (ou da poesia) aspira à intemporalidade.” E de fato verdadeira esta afirmação, de cunho heidggeriano, que nos transmite. Entre todos os traços distintivos da poesia, perante outras formas de escrita (inclusive as não-lingüísticas), a diferença semântica entre poesia e não-poesia já não é procurada no conteúdo da significação, mas na maneira de significar (3). E essa busca de intemporalidade se encontra para além da narração dos fatos certos, reais, constitutivos, contextuais da prosa. Parte-se, pois, da conclusão de que o poeta procura traduzir a expressão do inefável, numa acepção romântico-germânica, de que falaram Schlegel, Novalis ou Schelling (poetas do chamado “círculo de lena”) bem como Kant, Goethe ou Solger. Poder-se-iam resumir assim os predicamentos da poesia complementares à acepção do devir poético, tal como postos por Francisco Carvalho:
a) o símbolo mostra o devir do sentido, não o seu ser; a produção, não o produto acabado;
b) o símbolo é intransitivo, não serve só para transmi¬tir a significação, mas também ser apresentado em si mesmo;
c) o símbolo é intrinsecamente coerente, o que significa para¬ o símbolo isolado, que é motivado ( e não arbitrário);
d) o símbolo realiza a fusão dos contrários, e, mais particularmente, o do abstrato e do concreto, do ideal e do material, do geral e do particular;
e) o símbolo exprime o indizível, isto é, o que os signos não-simbó1icos não conseguem transmitir, e, por conseguinte, intraduzível, e o sentido plural, inesgotável”.(4).
Vale dizer, ¬aqui, ser o texto esta entidade profunda (indizível) a ser reconstruída para além dos dados sensíveis...” (5).
De sorte que, ao referir-se à intemporalidade, decerto¬ estará Francisco Carvalho a lidar com o inefável, com estruturas arquetípicas do poema, tanto que transcreve, in verbis, Octavio Paz a asseverar: “O poema é tempo arquetípico. A palavra poética jamais é completamente deste mundo: sempre nos leva mais além, a outras terras, a outros céus, a ou¬tras verdades.” (6).
Esta nos parece a sede da poética carvalheana.
4. A partir dos predicamentos nominados, pode-se dizer, sobretudo, da pluralidade dos sentidos e da fusão de significante e significado. Pode-se, ainda, dizer que a poesia é uma arte da palavra: “a palavra como corpo, o corpo como palavra.” (7). E também, no campo da imagética, da imaginação formal e imaginação material, pela qual uma causa afetiva se torne uma causa formal,” para que a obra tenha a variedade do verbo, a vida cambiante da luz.” (8). Porque no abismo da matéria se divisa a irradiação de luz. Há luz lá embaixo. E disso sabe Francisco Carvalho. Des¬ce aos infernos e se eleva às constelações, e há luz em am¬bos os espaços. Sua escrita, ao trabalhar com as metáforas, que lhe dão sentido, e sentido às palavras solenes que pro¬fere, porta-se como se trabalhasse o vento, polindo a pe¬dra-texto para insculpir em seu dorso o nome das coisas, dos acontecimentos de sua vida, de suas sensações, a súmu¬la dos homens e seu tempo.
De fato: “Uma imagem custa tanto trabalho quanto uma característica nova à planta.” (9). A poesia viva tem a vida das espécies.
5. A tetralogia heraclitiana nos fornece pistas para localizar o logos, o espaço de criação e celebração da poesia do autor. Ali construiu sua poética (sua poétrie), a golpes de metáforas de afiado gume penetrando o cerne das coi¬sas, ou de metonímias imaginosas e cambiantes do sentido, para sentidos mais densos. Não será decerto o poeta da á¬gua (em que pese ao seu amado Jaguaribe). Falta-lhe o fluir manso e o caminhar para a foz. Ao contrário: é uma poe¬sia de busca, que abre vertentes rebeldes ao leito sonoroso e inevitável. Sua linguagem, antes se atira, como potro in¬domado em noite de plenilúnio, povoando o céu de seus es¬pectros, rastreando sóis adormecidos na faiscação dos cas¬cos. É uma poesia audaz, mas não isenta de ternura e ínti¬ma relação com os materiais da vida. Em que pese, por ou¬tro lado, a sua freqüente alusão às chamas, que não convoca, mas observa até as margens da fascinação, não é também o fogo a espiral de sua poesia. E no que tem de volatilidade, muito menos o ar, posto que o habite no coração dos espa¬ços. Sem o comburrir da matéria e o reciclar das cinzas nos grandes magmas, não sendo a água, o fogo ou o ar o nú¬cleo desta poesia desejosa, pode-se sem dúvida dizer de Francisco Carvalho que é o poeta da terra. Ou por atavis¬mo, filho de homem do campo, de quem recebeu a lição dos maiores, ou pela sedução da alimária prodigiosa que tanto celebra, eis uma poética eminentemente de natureza telúrica. A terra é mãe, nutriz, protetora, mas também a pá¬tria dos cavaleiros, da vida e da morte como fatos naturais, esta em especial, que celebra com fervor quase religioso ao curso de sua obra. Francisco Carvalho, o poeta da terra, da nordestina terra que soleniza em seus dinâmicos instantâneos de vida, com palavras polenizadas pela magia, como tangessem a alimária para a aradura e colhessem pêssegos no escuro.
6. Em torno desta poesia há que se observar o processo da escrita. O repertório do autor é praticamente inesgotá¬vel, chegando por vezes à própria abolição do verso. Conquanto o disc¬urso da poesia se caracterize pela natureza versificada, o poeta ousa abandonar seus cânones. Mas é, em síntese, uma escrita do verso e da palavra. Do chamado mo¬dernismo, seduzido (não na primeira hora) por Drummond e Bandeira, sobretudo aquele, praticando o versilibrismo (que aparece inúmeras vezes em MA), pode-se dizer que Francisco Carvalho foi fortemente motivado pelas grandes transformações sociais ocorridas na virada da 1ª. metade do século, em especial as ocorridas no exterior, como a guer¬ra, as ditaduras e a iniqüidade das estruturas e ideologias. Sua poesia de então lembra muito, v. g., a de “A ROSA DO POVO”. Drummond, posto que originário da província, veio cedo para o grande centro urbano, a capital, seus jornais, a então fervilhante vida intelectual citadina em que se debatiam os fatos ¬do dia, palco de polêmicas e paixões. Francisco¬ Carvalho, de longe, da província, a tudo acompanhava, e expunha com vigor seu sentimento do mundo. Mas não detinha a formação/informação intelectual do poeta que foi seu paradigma, a quem celebrou em inúmeros poemas e artigos. Mais tarde, viria Francisco Carvalho a aplaudir o rigor¬ formal com que se lançaram à reconstrução do poema os poetas da chamada geração de 45, mas recusou-se a fazer deste ideário seu “hortus conclusus”. Assim, do romantismo (há mesmo sonetos seus de extração parnasian¬a), aos versos de arte-menor, ao modernismo e a tímidos contactos com o construtivismo das vanguardas dos anos 50, Francisco Carvalho preferiu manter-se desatrelado, livre, e o que se pode hoje concluir, ao ler-lhe a obra, é de que se trata de um poeta que não se enquadra em modelos estéticos de época e rotulação diversas.
Deles é até mesmo descrente, e assevera:
“São bastante remotas as possibilidades de vir a sur¬gir, no momento, uma nova vanguarda poética no Brasil” (10).
Nesse sentido, trata-se de um poeta singular, sem vínculos de qualquer espécie.
7. Ainda com vista à escrita como processo, cabe no¬tar que o poema tem como núcleo nome e predicado, pressupostos do discurso e de sua intelegibilidade (11). Cada poeta, como instância de ofício, geralmente cunha nomes que o individualizam e individualizam sua poesia. Francis¬co Carvalho não foge à regra. Seu inventário de palavras é rico e extenso. Para não enfastiar o leitor, escolhemos al¬guns termos-chave do vocabulário carvalheano (à seme¬lhança do que fizemos com os livros, expediente que nos será de grande valia agora). Listaremos as palavras e as o¬bras em que surgem de maneira mais enfática, ou particu¬larmente feliz:
MEMÓRIA: 22/VC, 42/VC, 52/VC, 114/PM, 13/BS, 11/QS, 23/QS, 54/RE, 59/RG, 13/RG, 7/RG
MORTE: 22/VC, 41/VC, 47/VC, 9/PM, 16/PM, 16/PM, 13/QS, 17/QS, 18/RE, 3I/RE, 65/RE, 125/RE, 52/BS, 67/BS, 215/BS, 51/RG, 42/RE, 34/RE
SOLIDÃO: 25/VC, 46/VC, 50/VC, 68/VC, 66/QS, 19/RE, 46,48/RE, 70/RE, 29/RE, 11/RG
ALIMÁRIA: 14/QS, 18/QS, 22,24/QS, 60/QS, 60/QS, 46/ RG, 44/RG, 38/RG
PALAVRAS: 122/BS, 135/BS, 25/VC, 82/VC, 86/VC, 90/ VC, 124/VC, 29/QS, 30/QS, 37/QS, 52/RG
TEMPO: 20/QS, 51/VC, 18/PM, 49/PM, 5/PM, 27/RG, 15/ RG
SOCIAIS (bomba, miséria): 23/BS, 31/BS, 31/BS, 32/BS, 6/QS, 47/QS, 24/RE, 50/RE
AMOR: 70/QS, 71/QS, 21/RE, 138/RE, 192/BS, 49/BS, 18/RG, 21/RG
FOGO (chama): 16/BS, 18/BS, 84/BS, 41/RG, 40/RG, 21/RG
Outras palavras típicas do vocabulário poético de Francisco Carvalho se demonstram PAI (figura forte, impressiva de sua poesia), adeus, cristal, âncora, pássaro, potro, espuma. Imperioso citar a extrema fascinação que lhe desperta a cor AZUL, presente em praticamente toda sua obra, não obstante, curiosamente, um de seus livros, ao la¬do de “OS MORTOS AZUIS”, chamar-se “VERDES LÉGUAS”.¬
Note-se, ainda, o alto grau de fabulação nas situações existenciais de seus poemas. Entre outros, notamos grandes momentos, no particular, nas construções de págs. 31/VC, 111/BS, 56/BS, 140/BS e 202/BS. De fato, sobretudo na ficção, a linguagem não se afasta de um relatório regular. Daí poema-estória tão bem elaborado (entramado) pelo autor (12).
8. Conquanto singular a poesia de Francisco Carvalho, cabe menção a inúmeros poetas que lhe marcaram indelevelmente a trajetória. De Drummond, chega o autor a re¬criar poemas inteiros. Outros nomes de sua devoção: Joaquim Cardoso, Manuel Bandeira, Murilo Mendes (“a poesia sopra onde quer”), Vinícius, Rilke, Lorca, Neruda, Saint-John Perse, Borges (a quem dedica memoráveis sonetos) e Fernando Pessoa, que jocosa, mas carinhosamente poderíamos dizer... heterônimo de Francisco Carvalho (!). Dialoga o poeta com grande intimidade com Álvaro de Campos, que acompanha nas divagações metafísicas, não raro amargas.
9. Quanto à escrita de Francisco Carvalho, a par de fluidez, musicalidade (senso rítmico) e profundidade indagativa, cabe menção ao uso da metonímia e da metáfora no epicentro da matéria poética trabalhada. É sua usina de significação, forja, reciclamento permanente das cambiações. No particular, emblemáticos são estes versos:
“Passou a tristeza
por esta cancela.”
O cruzamento de cancela (elemento móvel) e a triste¬za (elemento anímico) dá ao poema pungência, sem perda de movimento. A significação é de natureza metafórica, na medida em que se trata de processo analógico. Note-se a 1eveza do conjunto, a brevidade, a economia expressional face ao peso do conteúdo emocional do vivido/acontecido.
Passemos a um conjunto diametralmente oposto nas ênfases e nos clímaces:
“Guardarei minha cólera pelo resto da vida
para acender os castiçais de tua solidão”.
Aqui há um vigor, a força de uma maldição irrogada contra a decepção amorosa e os versos são dotados de um “pathos” intenso. Abandona-se a melancolia dos versos anteriores e as metáforas chocalham como a cauda da serpe. Da tristeza à ira, do sentimento ao ressentimento.
Eis outra das grandes construções do autor:
“O verso é um potro em cio desfraldando o
estandarte do sol.”
Aqui se revela outra facies da poesia de Francisco Carvalho: a heroicidade, a saga, o salto para o épico. Impressionante a especialidade deste verso, sua amplitude. O poe¬ma flagrado em estado de plena rutilância. Nem o bucolismo, o ressentimento, mas a conquista, a imagem da legen¬da dourada.
Encerra-se esta súmula poética de Francisco Carvalho com um exemplo típico de fabulação, consoante menção anteriormente feita:
“As três solteironas moravam num casario à antiga
cercado de reminiscências e alegorias.”
São “casos”, estórias, cujo contar muito lembra Drummond, mas ¬aos quais Francisco Carvalho confere seu toque pessoal.
10. Indispensável registrássemos — em registro muito pessoal — a presença paterna na poesia do autor. É maiúscula e ¬não se conhecerá a significação de sua obra sem que o santuário dessa vida, paixão e morte do pai, desse Evangelho Segundo Francisco Carvalho. Convém percorrê-lo,¬ quadro a quadro, e verificar a que dimensão telú¬rica é lançado pelo poeta. Vejamos:
“E tu meu pai que agora te divides
Com a terra e com as dimensões do tempo
Que apalpaste o assombro com as mãos
Os signos da morte dependurados no âmado olho
As patas dos cavalos deslizando em teu peito
A morte caudalosa como um rio
A escorrer das vertentes de teu corpo...”
Trata-se de parte do Canto IX da “ODE VISIONÁRIA”, poe¬ma primeiro de “BARCA DOS SENTIDOS”, quiçá o canto maior do poeta.
A imagem do pai e a imagem da terra fundem-se numa só, são a mesma raiz de homem e de terra, em discurso impres¬sionante. Talvez seja por isso que fale o autor, na pág. 56 de “QUADRANTE SOLAR”, “numa lavoura que se deita.” Não morremos em verdade: nossa lavoura adormece...
11. Este breve perfil do poeta Francisco Carvalho demonstra, a nosso ver, o mundo isotópico, o universo onde se trava o duelo dialético de uma criação congenial. Unimo¬-nos, nesse particular, à visão crítica que dela fazem, entre outros, Anderson Braga Horta, Sânzio de Azevedo e José Alcides Pinto, que há muito freqüentam as páginas dos li¬vros de vate cearense. Justamente por dominar um vasto seletivo mundo de temas e de referências, e por ter, de um de eleição, um vocabulário, uma sintaxe e uma escrita de ca¬ráter personalíssimo, Francisco Carvalho ara em sua POÉTICA, à margem de injunções e compromissos alheios a su¬a esfera creacional.
Sua poesia é poesia maior, e que se cumpre. Espaço de audiências. E de comunhão. Pois como disse, ao receber o “Prêmio Nestlé de Literatura”, em 1982, “a poesia me ensinou que a linguagem é a casa do ser.” Casa e raiz, dizemos nós. Os pés sobre a terra e os olhos no azul.
Nova Friburgo, 1991
Bibliografia:
1. Os Mortos Azuis, 1971 (MA)
Pastoral dos Dias Maduros, 1977 (PM)
Rosa dos Eventos, 1982 (RE)
Quadrante Solar, 1983 (QS)
As Visões do Corpo, 1984 (VC)
Barca dos Sentidos, 1989 (BS)
Exercício de Literatura, 1990 (EL)
Rosa Geométrica, 1990 (RG)
2. Exercício de Literatura, 1990, UFC, pág. 14
3. Todorov, T., Teorias da Poesia, Porto, pág. 10
4. Todorov, T., idem, ibidem
5. Ginzburg, C, Mitos, Emblemas, Sinais, pág. 158 Cia de Letras
6. Paz. O., Signos em Rotação, pag., Perspectiva
7. Kristeva. J, Na Princípio Era o Amor, pág. 47, Brasiliense
8. Bachelard, G., A Água e Os Sonhos, pág. 2, Martins Fontes
9. Bousquet. J., cf. cit. Bachelard, idem, ibidem, Martins Fontes
10. Carvalho, Francisco, Exercícios de Literatura, pág. 18, UFC,1990
11. Ricoeur, P. Teoria da Interpretação, pág. 13, Edições 70, Lisboa
12. Hartman, G., A Voz da Lançadeira, Porto, pág. 44.
Obs.: Palavras de Francisco Carvalho – “Bienal Nestlé”, 1982 - orelhas de Quadrante Solar
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CRÔNICA DAS RAÍZES
Linhares Filho
Prossegue o poeta Francisco Carvalho no seu perseverante fecundo ofício de produzir versos e criar beleza, atingindo, para o prazer espiritual dos leitores, o décimo sexto volume de poemas realizando-se magnificamente como artista da palavra numa admirável trajetória que começa em 1955 com Cristal da Memória e chega a 1992 com esse Crônica das Raízes, trigésimo sétimo livro da Coleção Alagadiço Novo, edição bem cuidada da Casa de José de Alencar, sob a responsabilidade gráfica da Imprensa Universitária da Universidade Federal do Ceará.
Ao lado de alguns motivos inusitados, impostos pela realidade do dia-a-dia, encontra-se, a cada novo livro de Francisco Carvalho a mestria do poeta saber repetir-se nos temas, na imagística, nos leitmotive, nos ritmos, de tal modo que cada vez mais ele se carac¬teriza com as suas pecualiaridades criativas, confirmando-as e conseguindo, num superlativo grau de poeticidade, a novidade na constância pelas inéditas sutilezas e os matizes inesperados.
Acha-se em Crônica das Raízes, como em outros livros do autor, a crítica à sociedade de consumo, a expressão das angústias de toda a problemática da sociedade tecnocrata, a consciência da transitoriedade da vida e o sortilégio do mistério da morte, a sugestão da inelutável e instintiva inclinação erótica do homem, a marcante influência das imagens bíblicas e, sobretudo, seguindo a indicação do próprio título, uma forte presença de memorialismo rural com ampla valorização telúrica. Tudo isso representa o conteúdo existencial do poeta em sua parte mais ponderável, configurando —, ao lado de processos de que sobressaem as repetições expressivas, a semântica ora insólita, ora sensorial, ora afetiva, e uma simbólica apaixonante, ora hermética ora de “claro enigma” —, toda uma complexidade poética, que bem traduz a essência humana, que deve ser a razão não só do literário, mas de toda obra de arte.
Mantém-se, assim, o autor numa atitude a nosso ver de modernista ou ¬pós-modernista mais atento à busca da legitimidade poética do que à inserção numa corrente ou escola literária específica, emborca se perceba que ele, sem desprezar princípios estéticos tradicio¬nais válidos, se deixa mais influenciar por postulados neo-simbolistas, a¬lgo surrealistas às vezes e próximos de uma espécie poética de realismo mágico.
Destaquem-se algumas peças do livro em causa que mais força estética e valor humano nos parecem encerrar. A “Elegia do Tempo Neutro” focaliza a estranheza, a insensibilidade, a crueldade do Tempo (“Este é um tempo de ferida aberta”). O “Cântico dos Filhos da Terra”, sentido, convivido, significativo, segue o espírito telúrico de muitas composições da obra do autor (“Estou ligado/à vida pela placenta da terra”). Seus vários enjambements afinam com a descrição da ação desses filhos na lavoura. A “Serenata do Adeus para Antônio Girão Barroso” prima pela emoção austera com que retrata encantatoriamente o poeta seresteiro, “sósia de Chaplin”¬, de quem o autor se despede. Da mesma altura dessa elegia são as “Sextilhas de Pedro Nava”. Dentre uma concepção meio surrealista, ¬momentos de uma incontrolada e bela confissão de entrega carnal em “Sortilégio em Gomorra”, pois “é preciso iluminar este corpo e a cidadela de musgo desta cicatriz alumiada”. O poema termina com a exaltação de amante louvando os dons sensuais da mulher, quando idéias e ritmo se combinam para configuração do enaltecimento.
O memorialismo poético de “Cântico em Louvor da Casa” coordena-se com poemas como “Memorial do Sótão”, “Crônica das raízes”, “O Sótão” e “Poema da Casa Revisitada” para reafirmação enfática de que “Teus espaços verticais é que me sustentam no mundo/ Teus sólidos mistérios me acalentam/ com seu ubre de flor.”
Misto de ode e elegia é “Canto Fundo para Madre América”, porque canto de sofrimento e esperança, no qual se ouve desde “o grito elementar das entranhas da diáspora” ao “silêncio de todas as servidões do homem”, mas também se prevê levantar-se “a pálpebra sonolenta das cordilheiras/ sobre uma nova raça de homens”. Dificilmente se terá escrito, em comemoração aos Quinhentos Anos do Descobrimento da América, texto tão abrangente e empolgante de natureza poética quanto esse. “Balada Cínica” constitui a face irreverente de uma concepção da América Latina, “onde gregos e gringos” (note-se a paródia) “semeiam deuses e dólares/ aos sábados e domingos”.
Enquanto a “Canção da Hora Primeira” canta a esperança, incentivando o leitor a esperar, “Reflexões sobre a Esperança”, quase dialeticamente (e lembre-se que a dialética é um vezo do autor), traz questionamentos irônicos e filosóficos desse sentimento.
“Elegia Industrial”, “Pó-Omo” e “Canção da Ira” coordenam-se pelo mesmo propósito do autor focalizar atitudes e efeitos subjugantes e, muitas vezes, inarredáveis do mundo burguês da sociedade de consumo. O segundo caracteriza-se pelo desdém à propaganda industrial veiculada pela mídia. O último, concebido com repetições nominais, invectiva explosivamente toda a engrenagem do mundo burguês, irritantemente simétrico na aparência, mas fingido, rotineiro e convencional.
Poemas como “Lixo Atômico” sobre a queda do Skylabe (“Dragão de cauda acesa/um signo em cada asa/ mais fera do que anjo/mais besta do que pégaso”), como “Improviso/ II” e “Emboscada” retratam os sinais dos tempos. Esse último, descrição de muita força expressiva e trágica de um quadro de guerra, faz sobressair sensorial como valor poetizante:
Os olhos da sombra
espreitam o silêncio.
Passos ungidos de sangue
chegam das encruzilhadas da noite.
Um estampido abafado
assusta o vento.
A solidão de que se fala na segunda estrofe desse poema, figura com outros nomes, “vento", “pêssego”, “âncora”, “pestana” etc. como um leitmotiv do livro, constituindo-se, juntamente com o medo, que também comparece muito à obra do autor, um dos signos mais caracterizadores da pós-modernidade, que contraditoriamente é, com os seus satélites espaciais, um tempo de potencial ultracomunicação.
Digno ¬de nota é o soneto “Entendimento do Amor”, que intertextualiza criativamente o soneto “Amor é fogo que arde sem se ver ”atribuído a Camões. Como esta composição, desenvolve-se de modo admirável com freqüentes conceitos paradoxais.
Aquele que escreveu O Tempo e os Amantes (1966), As Visões do Corpo (1984) e no livro em estudo “Sortilégio em Gomorra”, ¬concentra as mais finas sugestões eróticas e as mais enge¬nhosas metáforas conceituais nas vinte e uma partes da Saga do Corpo, das quais as mais sedutoras e significativas serão as dos números I, VI, IX e XX. O corpo que aí se descreve e canta “é a porta do mito./Um dos sete pecados capitais”.
Texto criativamente apócrifo, a “Falsa Introdução ao Livro de Jó” apresenta um longo miserere, em que a lamentação da desgraça existencial da nossa condição humana é extraordinariamente conce¬bida com a maior ênfase e com grande fôlego em vinte e sete partes. Note-se que o paratexto desse poema é importante não só pela epígrafe do ¬livro de Jó, mas ainda pela dedicatória à memória de destacados intelectuais falecidos de câncer: tal circunstância justifica cerca imagística usada pelo poeta. Distingamos as partes sob os números VIII, XVIII, XXIV, XXV e XXVI. O texto XVIII focaliza o vento. Como se sabe, esse elemento da Natureza na obra de Francisco Carvalho é símbolo complexo, motivo mágico, herança, companheiro,¬ confidente, voz múltipla e inspirador. No presente texto, o vento concentraria a tensão entre o efêmero e o eterno. Há preocupação, ¬anseio e dúvida da imortalidade aí: “O vento que arranca as insígnias da tumba do patriarca / o vento testemunhará meu nome?” O último texto do poema em apreço descreve belamente a libertação daquele que se dizia acorrentado: “O sangue de Deus me ressuscitou/às portas do inferno”.
Relacionem-se os versos desse texto XVIII com os de outros poemas que se prendem ao vento como o fatalista “O Dia em que o Vento te Disser Adeus” e “Coroa de Espinhos”, lendo-se neste: “De onde venho e para onde vou / — só o vento saberá”.
Por todas essas considerações é lícito entender que a poesia de Francisco Carvalho continua vigorosa e sábia, convincente e emo¬cionante, registrando, no novo livro, a expressão cada vez mais pri¬morosa e essencial do humano em Língua Portuguesa.
FRANCISCO CARVALHO
CONTINUIDADE DE UMA OBRA
Jaci Bezerra
Teve razão Artur Eduardo Benevides ao dizer, a propósito do livro de Francisco Carvalho, Barca dos Sentidos, que havia sido escrito com o cajado dos grandes patriarcas. De fato, esse livro de Francisco Carvalho, diante do conjunto de sua obra, é um livro monumental. Um marco de referência obrigatório para quem se propõe a escrever sobre sua poesia. Não apenas por se tratar de uma criação de grande fôlego, com uma riqueza de formas e metros capaz de deixar o leitor alumbrado e suspenso, como por revelar um poeta raro, com uma poesia, na sua totalidade, impregnada de tudo o que é humano. Para Francisco Carvalho tudo constitui matéria de poesia. A vida, o amor, a infância, a morte. O trágico, o cômico, as descobertas de leitura, as referências aos seus poetas prediletos.
Lembramos tudo isso por entender que a sedução que ilumina Barca dos Sentidos, sua multiplicidade de temas, as circunstâncias superiormente líricas de um poeta no domínio de sua linguagem, também se faz presente, alongando-se, no seu novo livro de poesia, Galope de Pégaso, publicado pela Mundo Manual Edições com tiragem de 300 exemplares. É, nesse sentido, um livro que dá continuidade à sua obra e, creio, ao seu projeto de vida enquanto poeta. O projeto de quem, para lembrar Bachelard, constrói com o que é humano a sua casa de sonho e poesia. E a constrói conscientemente, sem aquela “pressa que aniquila o verso” recomendada pelo poeta Edson Régis. Entendendo, e, de certa forma nos ensinando, se considerarmos o conjunto de sua obra, que o que vem construindo é um só livro, para o qual, como no geral acontece com todos os grandes poetas, vem transferindo em forma de poesia o que nele é expressão de vida. Nesse livro, bem podemos supor que o poeta cumpre o que aconselha:
Escreva seu nome com sangue
na soleira de pedra
da casa ancestral, agora deserta.
Faça a coisa certa (pág. 27).
Por todas essas razões podemos afirmar que o novo livro de Francisco Carvalho se acrescenta ao conjunto de sua obra, inclusive Barca dos Sentidos. Não porque seja um livro que se diferencia dos seus livros anteriores, mas porque nele, dando seqüência à sua aventura do espírito, o poeta reafirma todos os seus dons de expressão. Francisco Carvalho conhece os fundamentos da crítica, o que é visível sobre o que escreve sobre poesia. Por isso mesmo sabe que
O poema é um cardume
cego, punhal
de afiado gume
e (...)
um feixe
de âncoras
nas rotas do peixe (pág. 25).
Entende, portanto, à luz da razão, que ao poeta, alcançada a sua linguagem, cabe levá-la às suas últimas conseqüências. Poderíamos dizer, utilizando Ortega, que cabe ao poeta ver coisas antigas e, acrescentamos, coisas atuais, de maneira nova. O que só se obtém, acreditamos, através da reflexão subordinada à linguagem como um só corpo. E o seu novo livro é um livro no qual reflexão e emoção se incorporam a uma linguagem dotada de um ritmo interior próprio; à mesma linguagem que caracteriza os seus poemas anteriores e os poemas desse livro.
Em Galope de Pégaso predominam os versos curtos. Nele o poeta pouco utiliza os cantantes decassílabos de sua predileção e, menos ainda, os versos longos e epifânicos. O seu é um verbo clarificado e em chamas, mas o corpo interior desse verbo, a sua linguagem, é acinzentada de melancolia. O humor e a alegria, tão presentes ao longo de sua obra, não habitam as páginas desse livro. Para Francisco Carvalho a vida,
Essa pátria de anseios (...) passa
com seu cortejo
de dissipações (pág. 13)
e
Na escuridade súbita
as almas dos aflitos
voltam-se para trás
e só encontram o vazio (pág. 12).
Os versos fremem de luz e música, mas (...)
o céu está calado
e o deus da infância se afogou num lago (pág. 15).
É um livro que, com raras exceções, se estende num despojado discurso sobre a vida e a morte. A fragilidade do homem sobre a terra. Porém um discurso pontuado de entendimento, isento de amargura. Para Francisco Carvalho (...)
Só se
ouve o ressonar dos anjos na tarde límpida
como um pedaço de cristal
jogado ao sol, prestes a romper
a inconsútil, a derradeira reminiscência
que nos separa da morte.
Mas para ele, também, uma árvore é a “Pátria dos Pássaros” (pág.20) e (...)
As árvores parecem
esculturas da solidão de Deus (pág. 32).
E ele sabe (...)
de um rio que corre
dentro do nosso peito.
Um rio que se move
Onde
aí somos cativos
do amor que em sendo chama
costuma ser eterno.
A vida justifica a morte, portanto. Inclusive, através da compreensão, justifica os poemas que tornam esse Galope de Pégaso, na obra de Francisco Carvalho, um livro denso e sedutor, que respira e anda, e que merece, por tudo isso, ser lido e amado.
Jaci Bezerra é alagoano, autor de Comarca da Memória, entre outros.
O POETA FRANCISCO CARVALHO
César Leal
A poesia de Francisco Carvalho parece me que ainda não foi submetida a uma análise dos valores que colocasse em evidência as forças atuantes no interior de sua língua poética. Ainda que a crise do historicismo já não possa mais ser negada, e isso comprova se em trabalhos altamente técnicos e banhados por um reflexo filosófico de importância estratégica nos estudos literários e históricos, tais como os mais recentes de Hayden White e, noutro nível, os do jovem filósofo francês Luc Ferry, acredito que estamos necessitando urgentemente de uma nova história da literatura brasileira. Nossas histórias da literatura estão envelhecidas. Mesmo as melhores nunca foram completas. Apresentam defeitos e omissões, como se pode observar a cada página da Literatura Brasileira de Sílvio Romero, ou da de José Veríssimo, de Afrânio Coutinho e até mesmo a de Antônio Cândido. Tais obras não refletem, como mostram pesquisas recentes, a própria realidade de nossa literatura colonial. Esses grandes panoramas históricos – parodiando Ernst Robert Curtius – comparados aos sistemas de comunicação, seriam como o telégrafo na década de 20 posto em contraste com o telefone celular na transição do século XX par o século, XXI. Nossas histórias da literatura não podem sequer ser atualizadas. Nem mesmo reescritas. Estão obsoletas. Precisamos de uma História do Literatura que opere uma integração mais ampla entre crítica e teoria e tenha como princípio apresentar uma visão transnacional da literatura, afastando os resíduos dos nacionalismos, com justa razão combatidos pelos romanistas, criadores, em grande parte, de uma nova ciência: a ciência da literatura. São observações sumárias que me chegam à mente ao ler Barca dos Sentidos, de Francisco Carvalho. Seu universo poético, é um universo literário por excelência, pelo menos para quem não aceita a separação entre expressão literária e expressão poética. Deixo o tema aos cuidados do sistematismo de Benedetto Croce. Mas concordo, com a tese de Coleridge ao afirmar que a "poesia é a identidade do conhecimento". Os poemas de Francisco Carvalho possuem aquela unidade descontínua própria da lírica. Seu ritmo oracular é perfeito como nesse belo Estudo da alma: Te carrego nas entranhas / como um cão uivando / Um cão dilacerando / a memória.// Te carrego nas entranhas / como se levasse uma / labareda de relâmpagos / se esvaindo. // Te carrego nas entranhas / como se agasalhasse / um pássaro banido / do céu. // Te carrego nas entranhas / como se tivesse medo / aos olhos de areia / da eternidade.
O que vemos neste poema é uma série sucessiva de imagens. Imagens quase metáforas. Metáforas típicas de um poeta da modernidade. Não são metáforas tradicionais, em que as velhas funções comparativas eram o fim buscado pelo poeta e a pedra de toque capaz de fazê-las íntimas do leitor. Baudelaire intentou algo parecido, mas o verdadeiro, criador desse sistema de imagens é Rimbaud. Depois dele, não há poeta moderno que as despreze, em especial quando somos guiados pela noção de "identidade do conhecimento", tal como proposta por Coleridge. A poesia moderna não teria o interesse que desperta neste século entre as melhores mentes se não contasse com essa técnica metafórica de transformação do mundo. Hugo Friedrich lembra, entre outras, as metáforas de Apollinaire e Lorca: "A língua é um peixe vermelho no vaso de tua voz", "A lua ceifa lentamente o antigo tremor do rio". As metáforas de aposição: "Igreja, mulher de pedra" (Jouve); "outubro, ilha de perfil preciso" (Guillén). Em Francisco Carvalho as metáforas do genitivo, são freqüentes e o situam como um dos melhores criadores de imagens da poesia brasileira, ao lado de Murilo Mendes e mais uns poucos: "dourado coração da ursa"; "um vento de andorinhas"; "a solidão branca da asa delta"; "O relâmpago acende a candeia dos mortos"; "a coruja ponteia mortalhas de seda"; "o céu flutua nas águas do pântano". A poética de tensão do Dr. I. A. Richards dava importância fundamental aos poemas onde tais metáforas fizessem sua aparição. Outras metáforas de Francisco Carvalho: "... meus olhos foram desterrados nas praias da insônia", "ceifo o trigo da cólera, "os pardais brincam de ciranda enquanto a tarde sangra". São apenas alguns exemplos de metáforas que já nada têm de semelhantes as velhas metáforas, quando se buscava aproximar o conceito de imagem. Agora o que se busca é justamente o contrário: lançar trevas sobre o real para assegurar uma luminosidade mais forte no campo poético. Esse é um tema que tem mantido ocupados os grandes romanistas, inclusive Hugo Friedrich, cujos estudos sobre os fundadores da lírica moderna são universalmente reconhecidos.
Em "Soneto a um velho poeta", ainda que não cite o nome do autor, Francisco Carvalho nos dá esse perfeito retrato de Jorge Luís Borges: "Vejo te andando pelas ruas claras / Nalguma tarde recendendo a antúrios / Desfolhados. Vais entre adagas e urdes / Tempo e magia de Buenos Aires. // Urdes o arcano e a música diversa / Das coisas. Urdes a insígnia e os espelhos / Do Monarca. A reminiscência e os velhos / Emblemas das metáforas do persa. // Andas perdido entre relógios de areia / Mapas azuis de remotos países / Livros de Stevenson, cismas de Heráclito. // Enquanto o céu dos mortos devaneia / Teus olhos fitam com o fulgor do hábito / Outras distâncias, outros paraísos."