O cabra que virou bode (3)
(Continuação)
No reino de Ana Souto
A idéia de irem se divertir partiu de Tabacão. O dia todo para cima e para baixo, conversas sem fim, por causa de um bode safado. Sentia-se cansado. Queria tomar uma cerveja e dar um cheiro no cangote de uma rapariga.
Jantavam na pensão de Dona Mundoca. Restos do almoço, mais uns ovos fritos na hora e a promessa de cuscuz com leite de coco.
Pedro Pontaria se opôs a Tabacão. Nem deviam estar jantando. Se não voltassem logo, Zé Bugre podia até fugir.
– Aquele Chico Pavão gosta muito de dormir.
Tabacão, porém, não tirava os olhos de cima da copeira. Ora, ninguém ali era de ferro.
Os outros riram, enquanto lambiam os beiços engordurados.
Raimundo Valente não dizia nada, atento ao prato. Precisava voltar ao sítio, sim, mas com uma decisão. Talvez Ana Souto pudesse ajudá-lo. Ela ou as suas meninas. Em casos de amor, mais valia a ciência feminina do que conversa de padre, juiz, delegado, prefeito e poeta.
– Preciso mesmo falar com Ana Souto.
E o grupo rumou para o Potiú. Sem pressa, no mais vagaroso trote. Afinal, acabavam de jantar.
– Lá tem sempre mulher nova e bonita – garantiu Tabacão.
Os cascos dos animais pisavam com força as pedras da Avenida Dom Bosco. Debruçadas nas janelas das casas, moças olhavam admiradas para a novidade. A luzinha fraca das lâmpadas dos postes acompanhava o ritmo lento da tropa.
– Cobram caro, mas vale a pena – avisava Tabacão.
Mais duas informações alentadoras e chegaram à porta do cabaré. Desmontaram, amarraram os animais e deram boas noites.
Ana Souto sorria, esfregava as mãos, dava ordens às raparigas. Atendessem logo e bem o Senhor Raimundo Valente e seus amigos.
– Vão se abancando.
E que música queriam ouvir? Tinha discos novos, últimos sucessos.
Copos e garrafas de cerveja apareceram sobre a mesa. Mulheres andavam de um lado para outro.
– E as novidades, Seu Raimundo?
Mal sorveu o primeiro gole, Tabacão se pôs a contar a história do bode.
Sentada no colo de Manduca, deu Santinha uma gargalhada. Nunca ouvira caso tão engraçado.
– A senhora duvida? – irritou se Raimundo. – Quer dizer, você duvida?
A dona da casa intercedeu por Santinha. Não, ela não duvidava coisa nenhuma. Apenas gostava de rir, sem motivos. Na cama, então, só faltava morrer de rir.
Apaziguado, o chefe do grupo chupou a espuma da cerveja e riu. Os outros deram prosseguimento à história. Falavam ao mesmo tempo, aos gritos, como se fosse urgente contar o caso.
Mais de dez garrafas vazias em cima da mesa e a novela ainda pelo meio.
– Pavão escorregou e o bode deu um pulo.
Gracinha pediu licença para ir urinar. E levou consigo Pureza. Aqueles homens só podiam estar tresvariando. Ora, não tinham bebido quase nada. Além do mais, já entraram contando a história.
Um cantor se esgoelava na vitrola. Morria de amor por uma vagabunda.
Por acaso todos se calaram durante meio minuto. Obra do menestrel, talvez.
– Só tenho pena de Dona Rosa – deplorou Pedro Pontaria, o olho direito entre as pernas de Inocência.
Como a coitada devia ter sofrido! Não gostava nem de imaginar seu padecimento.
– Por quê?
Ora, Dona Rosinha parecia tão delicada. Tinha um corpo de menina.
As mulheres se puseram a rir. Depois a gargalhar e dizer tolices.
– Eu adoro homem assim – gritava Santinha, a fazer gestos com as mãos.
Queriam conhecer o tal bode. Devia ser muito bonito. E não deixariam que nada de mal acontecesse a ele.
– Pois eu vou matar aquele safado – bravejava Raimundo.
Não, nada de morte ou castração. Um bode daqueles precisava estar inteiro e vivo.
Copos e garrafas se misturavam na mesa. Mãos nervosas iam e vinham. Derramava se cerveja. A voz do cantor inundava o salão. Amores e dores incontidas.
Zeca Rucinho ria feito um menino e chamava Pureza para um dos quartos.
– Pode me chamar de Puteza.
E saíram, abraçados, a rir.
– Vamos, meu bode louro.
O nó
Durante o almoço, Rosa e Pavão só trocaram duas ou três palavras. A comida estava muito boa, gostosa. Então comesse. Não fizesse cerimônia.
O vigia do bode não se fez de rogado. E se empanturrou de arroz, feijão com toicinho, jerimum, farinha, carne de porco, rapadura, água, tudo. A colher e a mão cansaram de tanto ir e vir.
Teve ainda sobremesa, um doce de coco feito a capricho. E, de arremate, café quente.
Chico Pavão voltou ao seu banquinho e não tardou a cochilar. Talvez por educação, talvez por dó, Rosa ofereceu-lhe rede. Podia tirar uma soneca, ali mesmo junto ao bode. Ou no alpendre.
– Lá é mais fresco.
Ficava muito agradecido, porém o dever o chamava. Precisava vigiar o bode. Nem pensar em dormir.
Sentado no tamborete, Pavão não tirava o olho do prisioneiro. De vez em quando, fechava os olhos, bambeava, assustava-se. Aquele almoço pesado dava-lhe sono. Bem que podia deitar se numa rede. Descansar um pouco. O bode não ia fugir, amarrado como estava. Só se fosse arte do Cão.
Impaciente, Rosa ia e vinha. Com pouco, o marido voltava e acabava de desgraçar o pobre Zé Bugre. Se ao menos aquele Pavão amaldiçoado cochilasse, dormisse!
O tempo voava, Rosa não se cansava de andar pela casa, e Pavão só faltava desabar do banco. Arregalava os olhos para o bode, sorria, mão no cacete.
Confiante, o homem recostou se à parede. Não demorou muito, a boca se abriu e os olhos se cerraram. A mulher ia passando, parou, quis rir. A cara de Pavão parecia a careta do Cão. Talvez já dormisse. Ou fingia?
Rosa aproximou-se mais do dorminhoco. Feições de quem dormia de verdade. Os primeiros roncos se faziam ouvir. Vulcão dormido, prestes a explodir.
Uma mosca pousou na testa de Chico. Passou ao nariz, deslizou, meteu se numa das cavidades – cratera peluda e suja. Num átimo, a mão pesada do gigante ergueu-se e acertou em cheio o rosto de Rosa.
Grito de dor, atropelo, pernas contra pernas. Apavorado, ele acordou. Que diabo era aquilo? Onde estava o bode?
Custaram a se entender. Ela gaguejava, vermelha, nervosa. Tropicara no chão, escorregara. E o tapa? Um susto, desculpasse.
Encabulada, ela correu para a porta da frente.
– Mosca infeliz!
Desconfiado, Pavão tudo fez para permanecer acordado, olhos bem abertos. Deus o livrasse do sono. E de todas as tentações. Mulher, perdição do homem! Por causa dela havia o pecado. E o inferno. O fogaréu, as brasas, os espetos quentes. Capetas de todos os feitios, dançando, rindo, rabudos, chifrudos. E os desgraçados dos homens dentro dos caldeirões, no meio do fogo, cozidos, a gemer, chorar, desesperados por toda a eternidade.
Os lábios de Chico Pavão se desgrudaram. A língua vermelha balançava entre os poucos dentes. Os olhos se fecharam, lentamente. Muitos de seus amigos no inferno. Safados, mulherengos, criminosos. Quando bebiam, se transformavam em feras. Ficavam valentes.
O bode mastigava restos de comida. Não se importava com a presença armada de seu guarda. Não se olhavam mais. Os olhos do homem talvez vissem pecadores em um passado distante. Sua boca escancarou-se. Roncava ruidosamente.
Rosa reapareceu, pé ante pé. Aquele barulho de fole enchia toda a casa. Se nenhuma mosca pousasse naquele focinho sujo, ela soltaria Zé Bugre.
A boca de Pavão parecia mais aberta e nojenta. Rosa parou diante dele e olhou para sua cara torta. Com todo o cuidado do mundo, avançou. Em fren¬te do bode, pôs-se de cócoras.
À porta, Chico Pavão não parava de roncar.
Cheia de ternura, ela alisou o lombo do bode. Ele pousou nela seus tristíssimos olhos de prisioneiro.
As mãos de Rosa davam a Zé Bugre carinhos de amante. Apalpavam-lhe o focinho, a testa, o pescoço. E os lábios beijaram com paixão os beiços moles do animal.
Não berrasse, não fizesse nenhum barulho. Ia buscar uma faca e cortar a corda. De um só golpe desfaria o nó.
O vigia ressonou, deu um longo e estrondoso roncado e abriu os olhos.
– Vim trazer comida para o coitado.
Faca em punho, Pavão se pôs de pé.
Madrugada
Havia silêncio na casa e na rua. De vez em quando, porém, galos cantavam.
Raimundo acordou meio assustado. Não sabia onde estava. Abriu os olhos e vislumbrou o vulto dormido de uma mulher. Resmungou duas ou três palavras de desagrado. Lembrou-se quase perfeitamente de tudo. Não devia ter dormido naquele chiqueiro. Levantou se, buscou as roupas. Santinha parecia morta. Uma cadela!
Abriu a porta. Urgia acordar os outros. Voltar imediatamente ao sítio. As autoridades de Palma iam saber do desfecho da questão. Ficassem com suas leis. Matava o bode, e fim. Podia ser quem fosse. Até seu pai. Quanto mais aquele cabra safado. Sempre desconfiara de Zé Bugre, seus modos, roupas engomadas, bigodinho aparado, cabeleira ensopada de brilhantina.
Bateu à porta do quarto vizinho. Zeca Rucinho gritou. Pureza também acordou. Pedro Pontaria deu um salto e quase levou Cabrocha ao chão.
Atracados, Tabacão e Gracinha custaram a acordar. Manduca roncava sobre as coxas de Inocência.
– Vamos embora, cambada de porcos!
Não deviam ter dormido naquele lugar. Nem em qualquer outro. Talvez nem mesmo no Tijuca. Não era tempo de dormir. Muito menos de farrear.
Além do mais, deixara Rosa com Chico Pavão e o bode. E se acontecesse algum imprevisto? Não, o animal jamais fugiria. Amarrado como fera, nem se fosse touro escaparia. E se rompesse a corda, Pavão saberia agir.
Ana Souto não dizia nada. Apenas ouvia e aguardava o pagamento das despesas.
– Voltem sempre.
Os cavalos e burros relinchavam. Quando chegassem ao sítio, comeriam à vontade.
Ainda era madrugada quando Valente e seus companheiros deixaram o cabaré. Ana Souto sorria. A casa e as meninas ficariam à espera de outra noitada como a passada.
As raparigas não largaram as camas. Fossem para o inferno com seus bodes.
Artes do Capeta
Alguns galos ainda cantavam, quando o tropel alcançou o Sítio Tijuca. O povo todo devia estar dormindo.
Raimundo diminuiu a marcha. Não fizessem zoada. Talvez fosse até melhor apearem. Cada um conduzisse seu animal pelo cabresto. Permanecessem no terreiro, nas proximidades da casa. Ele entraria sozinho.
Pulou da sela e, enquanto amarrava o cavalo, passou a vista pelo sítio. Tudo em paz. Chamaria o nome de Rosa? Bateria à porta? Não, talvez a dos fundos estivesse só encostada, como de costume. Entraria por ela, pisando mansinho. Queria ver se Pavão vigiava direito o bode.
Um galo esbelto passeava diante das galinhas. Sua crista real tornava se rubra à luz da aurora.
O dono da casa não precisou empurrar a tábua da porta. Rosa nunca cuidava de fechar portas e janelas. Tarefa exclusiva dele.
Duas ou três galinhas beliscavam o chão da cozinha. Apenas cinzas no fogão.
Deitada na cama, Rosa dormia. Devia estar muito cansada. Coitada! Nem a porta do quarto fechara. Força do hábito. E Pavão?
Dirigiu se ao quarto cárcere. O vigia com certeza cochilava. Ora, ninguém resistia ao sono. A não ser numa farra.
Uma rede armada. Só podia ser Pavão deitado. Sim, o sono fora mais forte.
E o bode? Onde estava o bode? Talvez tivesse se metido atrás dos trastes.
Pôs se a vasculhar o aposento e resmungar. Bateu nos punhos da rede e Pavão acordou.
– Cadê o bode, Chico? – bradava Raimundo, inquieto.
Rosa apareceu, a esfregar os olhos. Por que Valente não voltara mais cedo? Ele só queria saber do bode. Nada de conversa besta. Dessem logo notícia do preso.
E não parava de andar e gritar. Vasculhassem a casa toda.
A mulher arrolava justificativas. Sentira sono e fora dormir cedo. Não sabia de nada. O vigia era Chico.
– Quando fui dormir, ainda vi o bichinho ali no canto.
Pavão também se justificava. Não tirara o olho de cima do bicho, durante todo o tempo. E sempre com as armas à mão.
– Você também vê dormindo?
Pois é, só naquele instantinho cochilara. Porém a todo minuto abria os olhos.
O dono da casa não sossegava. Queria o bode imediatamente. Custasse o que custasse.
O vigia desarmou a rede. Sono miserável! Um cochilo de nada, e acontecia uma infelicidade daquelas. Também não se tratava propriamente de um bode.
– Esse Zé Bugre é muito esperto.
Valente escancarou portas e janelas. E, aos brados, anunciou aos cavaleiros a fuga do prisioneiro.
Num repente, a casa ficou lotada. Um se meteu debaixo da cama, outro subiu ao telhado, todos em ação.
Ao cabo de intensa devassa, Pedro Pontaria manifestou, em nome de todos, a terrível constatação!
– Fugiu mesmo.
E o olho direito parecia enxergar com agudeza aquela verdade.
Artes do Capeta! Ora, se o homem virara bode, podia muito bem ter escapulido, sem ninguém o ver.
– Isso acontece – confirmou Tabacão, a grande cabeça virada para o além.
O Capiroto fazia daquelas. Chico Pavão não podia ser culpado de nada.
– Nem Dona Rosa – acrescentou o vigia.
O dono do sítio tremia da cabeça aos pés. Aquele maldito Zé Bugre então tinha pauta com o Tinhoso?!
A mulher mirava os crédulos semblantes de seus conterrâneos. Os olhos brilhavam, como se o medo andasse muito longe dali.
Raimundo Valente não quis mais conversa: Rosa tomasse conta da casa. Ele e os homens iam caçar o bode. Sem corda. A primeira bala devia ser mortal.
Um santo rapaz
Raimundo dava as ordens. Vasculhassem o sítio de ponta a ponta. Farejassem bibocas, grotas, morros. Nenhuma casa devia ser esquecida. O bode podia ter se escondido numa delas. Dificilmente conseguira fugir para longe.
– Quem encontrar o bicho dá um grito e traz ele pra cá.
E cada um tomou um rumo. O dono do sítio se dirigiu logo à casa de Zé Bugre. Queria conversar com os pais do desgraçado. Saber a opinião deles sobre o filho. Se costumava virar bicho. Se demorava a voltar a ser gente.
Os velhos rezavam diante de uma imagem. Já sabiam da confusão. Menos do paradeiro daquele menino danado.
– Que horas ele saiu de casa?
A mãe chorava. Deus haveria de proteger seu bom filho. Não, não acreditava naquela história. Tudo conversa fiada, calúnia, mentira. Zezinho não era capaz de maldades. Adorava brincar, dançar, namorar, beber uns goles de vez em quando.
– Coisas de rapaz, compadre Raimundo.
– E de virar bicho, ele gosta?
A mulher se benzeu seguidas vezes. Pura falsidade! Seu filho rezava, comungava, ia à missa, era devoto de São José e temente a Deus. Virar bicho ficava para quem vivia no pecado, afastado da religião. Como o finado Serafim.
– Deus tape-lhe as oiças!
Zezinho era um menino bom, incapaz de ofender a honra de qualquer moça. Muito menos de mulher casada. Respeitava muito o namoro e o casamento. Coisas sagradas.
– Ele nunca falou na Rosa?
– Não, senhor, ele nunca tocou no nome dela.
O velho ajudava a mulher na defesa de Zé Bugre. E responsabilizava as línguas compridas de Zeca Rucinho e Chico Pavão pelas calúnias feitas a seu filho.
– Dois linguarudos de primeira.
Valente se acalmou durante um tempinho. Na verdade, nunca tinha ouvido falarem mal de Zé Bugre. E sempre o via na igreja.
– Pois é, ele reza todo santo dia.
O pai do beato arriscou mudar de assunto. Um café quente para acalmar os nervos.
O visitante não deu ouvidos à proposta do dono da casa. E onde andava o rapaz? Sim, desde quando não o viam?
– Ele dormiu aqui?
A mulher arranhou umas desculpas esfarrapadas. Ela e o marido dormiam cedo. Os rapazes ficavam conversando do lado de fora, saíam a passeio, não tinham hora para se deitar. Zezinho, esse então adorava dormir bem tarde.
– Fazendo o quê?
Urgia traçar um perfil de santo para o rapaz. Aquele homem andava muito desconfiado. Caviloso como ele só.
– Zezinho tem falado em ser padre.
A informação atingiu Raimundo Valente feito um soco na cara. E rir não podia. Nada naquele momento merecia o menor riso. Talvez um grito de desespero, revolta ou ódio.
– Só se for para pagar os pecados.
Desculpassem se os ofendia, mas não podia acreditar na santidade de Zé Bugre. Ora, não era doido nem cego. Vira tudo com seus próprios olhos.
– Ele pulou a janela e correu para o mato.
A dona da casa não se deixou vencer pelos argumentos de Valente. Pular a janela e correr, toda gente nova fazia. Só os velhos e os aleijados não conseguiam fazer aquilo.
O pai do rapaz também cuspia filosofias e psicologias. E o outro acabou novamente manso. Zé Bugre talvez gostasse mesmo de pulos e correrias. Daí sua transformação em bode.
– Não, isso não – gritou a mulher.
Zé Bugre podia fazer tudo na vida: dançar, correr, pular. Menos virar bicho. Afinal, rezava todo dia.
Ainda manso, o visitante não abria mão da segunda acusação feita ao rapaz.
– 0 senhor viu meu filho virando bode, viu?
Não, já dissera. Porém outros viram. Acreditava na palavra de Chico Pavão. Por que iria inventar semelhante esquisitice? Longe gritavam. Raimundo olhou para os velhos e sorriu.
– Pegaram Zé Bugre.
O casal saiu atrás do visitante.
– Quem disse isso?
Porém o homem já corria para o mato, aos pulos.
Prisão de suspeitos
Os planos traçados por Valente parecia terem se cumprido antes do tempo previsto. Em uma hora de caçada – anunciara – o bode devia ser capturado e conduzido ao terreiro de sua casa. Onde seria mais uma vez julgado e condenado. Agora pelo crime de fuga.
Porém algo muito estranho devia ter acontecido. Certamente o bode havia sido agarrado. No entanto, qual daqueles animais representava Zé Bugre? Pois um a um foram chegando os homens. E cada um deles conduzia um bode.
Ao ver aquilo, Raimundo se espantou e até fechou os olhos. Talvez a claridade do sol reproduzisse o preso.
Rosa apareceu à janela. Chorava ou ria. De qualquer forma, parecia mais bonita.
– Que diabo está acontecendo? – balbuciou o dono do sítio.
Os caçadores seguravam, com firmeza, as cordas amarradas aos pescoços de suas presas. E olhavam uns para os outros. Os bodes berravam, sem parar. Como se fossem morrer enforcados.
Passou pela cabeça de Valente uma idéia maravilhosa. Se Zé Bugre tinha se multiplicado, o castigo seria muito pior. Em vez de morrer uma só vez, teria muitas mortes. E se teimasse em se reproduzir, infinitamente, morreria por toda a eternidade.
– Ele pensa que é esperto.
Os homens miravam Raimundo. Por que ria e tinha os olhos enfiados no sem fim?
Enquanto o chefe vagava pelas plagas da fantasia, os homens se puseram a discutir. Cada um jurava ser o herói do dia, o captor de Zé Bugre.
Para Zeca Rucinho, o bode fugitivo tinha pêlos amarelados, como o seu. E o de Chico Pavão era preto como o diabo. Tabacão queria montar um enorme pai de chiqueiro. Manduca alisava o lombo de uma cabra. Pedro Pontaria apontava o olho direito para os chifres de um cabrão avermelhado.
Muitos outros animais disputavam o direito de ser homem. E cada um com suas características próprias.
Despertado pela confusão, Raimundo ainda sorria.
– Quantos são?
Mais de dez bodes, além da cabra de Manduca.
– Ele se multiplicou, pessoal.
Os homens se calaram. Aquilo os alarmava. E igualava uns aos outros. Todos captores de Zé Bugre, todos heróis.
– Zé Bugre quis enganar a gente, mas acabou mal.
Chico Pavão, no entanto, não acatou a tese de seu patrão. Só o seu bode representava Zé Bugre. Os outros eram falsos.
– Eu passei o dia de ontem com ele, e conheço bem o danado.
Os outros também defenderam a autenticidade de suas presas. E a confusão retornou ao terreiro.
Preocupado com o desenrolar da discussão, o marido de Rosa impôs silêncio. Os homens não podiam se matar por causa de bodes.
– Então Zé Bugre não se multiplicou?
Todos os gritos disseram "não".
Como, pois, saber qual dos bodes havia um dia sido homem? Só Rosa, talvez, soubesse responder.
Dedicou se o casal a examinar os animais.
– Veja este aqui, Rosinha.
A mulher corria a atender seu marido. Os chifres nodosos chamavam a atenção. Salvo engano, o bode Zé Bugre tinha um par de cornos muito parecido com aqueles.
A alegria de Raimundo, no entanto, não durava muito. O focinho do animal examinado não guardava nenhuma semelhança com a cara do bode-homem.
– Ele tem uma pinta enorme entre os olhos – lembrava Pavão.
Além do mais, devia estar ferido no lombo esquerdo.
– E perdeu muito pêlo – advertia Rucinho.
Examinados os animais, concluíram Raimundo e Rosa serem todos simples bodes. Nenhum deles poderia um dia ter sido gente.
– Podem soltar os bichinhos.
Decepcionados, os moradores do sítio recostaram-se à parede do alpendre. Depois se sentaram no chão e se puseram a coçar as cabeças.
– E agora?
Rosa não quis permanecer entre tantos homens e se refugiou em casa. Raimundo, porém, queria ação. Zé Bugre talvez estivesse escondido em algum sítio vizinho.
– Vamos, pessoal, para a luta.
Montaram cavalos e mulas e rumaram para o Sítio Itamaracá.
Batalha do bode Ensinado
Luís Facundo se surpreendeu, quando avistou a tropa de Raimundo Valente. Não esperava visita de seu compadre.
– Dona Rosa melhorou?
Raimundo mal respondeu. E sequer perguntou por Dona Sara e seu afilhado Luisinho. Também não queria saber de café.
– Estou procurando um bode.
Facundo riu. Seu compadre nunca procurava bodes. Talvez por não saber quantos criava. Devia ser um bode muito especial, então.
– É o Capeta, compadre Luís, o Diabo.
O anfitrião riu à vontade. Valente brincava, com certeza. Ou tinha bebido uns bons goles de caninha.
Não, o vizinho não estava para brincadeiras. E até não gostou do riso de Luís.
– Você viu ou não viu o bode Zé Bugre por aqui?
O dono do sítio continuou a rir. Muito engraçado o nome do bode.
– Esse não é o nome de um morador seu?
Valente olhou bem para a cara de seu compadre. Por que ria tanto?
– Você está escondendo alguma coisa de mim, está?
Manduca resmungou qualquer palavrinha de incitamento à ação. Perdiam tempo conversando.
E Raimundo ordenou a invasão do sítio.
Num instante o riso desapareceu do rosto de Facundo.
O bando de Valente já vasculhava o Itamaracá, de ponta a ponta. Zé Bugre devia estar entre os bo¬des de Luís.
Preocupado, o dono do sítio saiu atrás da tropa. Aquilo assustava seus bichos. Além do mais, significava um desrespeito à sua condição de proprietário. Não autorizara busca de bode nenhum. Apesar de feita por seu compadre.
No entanto, Raimundo e seus seguidores não deram a mínima importância aos gritos do outro. E agarravam e examinavam os bodes do sítio.
– Cuidado com o Ensinado.
Luís não queria ver seu mais belo bode molestado. E tanto falou que acabou indicando o Ensinado aos inimigos.
– É aquele?
Mal ouviu a confirmação, Zeca Rucinho saltou de cima de sua mula e caiu sobre o bode.
Ao ver tamanha desgraça, Luís perdeu a cabeça. Largassem imediatamente seu bode de estimação. Deixassem de loucuras. Aquilo significava crime.
Nada, porém, demovia Raimundo e seus homens de aprisionar o bode Ensinado.
– Ele deve ser Zé Bugre.
Desesperado, o dono do Itamaracá se retirou.
– Vocês vão se arrepender disso.
Livres de Facundo, puseram se a examinar o bode. Não, nada indicava ter sido ele Zé Bugre. Faltava a pinta entre os olhos.
Atentos ao exame, não perceberam a chegada de um bando de homens armados.
E teve início violenta batalha. Facas e facões reluziam. Cacetes dançavam no espaço. Corpos rolavam pelo chão. Sangue espirrava de cabeças e lombos.
Batalha do bode Velho
Escorraçada pelo povo do Itamaracá, a tropa de Valente meteu os pés na estrada.
– Aquele não era Zé Bugre de jeito nenhum – sustentava Chico Pavão.
De qualquer maneira, fora preciso invadir o sítio de Luís Facundo. Só procurando poderiam descobrir o paradeiro do bode homem.
– Ele está escondido em algum lugar da serra – esclarecia Raimundo Valente.
Restava vasculhar todos os sítios. Nem que houvesse reação, como a de seu compadre.
Os seguidores de Valente se diziam dispostos a tudo. Apesar dos ferimentos recebidos.
– Enxugue esse sangue da testa, Tabacão – aconselhava o chefe.
Descansaram ao pé de copada mangueira, carregada de frutos recém nascidos.
– E agora vamos aonde?
Mais adiante ficava o Sítio Itamarati. E nem precisavam chegar à casa do dono. Bastava transporem a cerca.
– Agarrem o primeiro bode que avistarem.
Nenhuma dificuldade encontraram os invasores para entrar no sítio de Quincas Mororó. O arame da cerca cedeu facilmente. E eles avançaram.
– Olhem lá – gritou Pedro Pontaria.
Todos olharam, prontos para o bote. E a galinha correu, assustada.
Mais alguns alarmes falsos, e se viram diante do próprio Mororó.
– Aqui ele não está – bradou.
Valente se engasgou. Os outros pararam à sua retaguarda, silenciosos.
Sim, o dono do sítio já sabia de tudo. Aquela história esquisita rodava o mundo. O fim dos tempos. Pois antigamente homem virava lobisomem, mulher virava burrinha de padre...
– Nunca ouvi falar que homem virasse bode.
– Pois virou, Seu Quincas – desengasgou se Valente. – E vou pegar o maldito.
O outro nem sequer mudou o tom da voz. Não costumava desmentir ninguém. Se Raimundo Valente dizia ter um homem se tornado bode, não seria ele, Quincas Mororó, quem iria negar o fato. Por outro lado, queria repetir: o tal bode não se encontrava no Itamarati.
– Você viu Zé Bugre em forma de bode?
Não, Quincas nunca o vira. A não ser em forma de homem. Poucas vezes, aliás.
– Se nunca viu, não conhece – argumentou o marido de Rosa. – Se não conhece, não pode ga¬rantir que ele não esteja aqui.
Encantados com os argumentos de Valente, os homens babavam. A cabeça de Tabacão só faltava rolar do alto. Pedro Pontaria arregalava o olho direito, como se quisesse ver e entender as complicadas palavras de seu patrão.
E tão arregalado estava o olho de Pedro que avistou no meio do mato um vulto suspeito. Podia ser um capanga de Mororó. Uma onça pintada. Ou o próprio Zé Bugre.
O diálogo de Raimundo Valente e Quincas Mororó não chegava ao fim. Tornava se cada vez mais embaralhado. Pedro Pontaria, no entanto, já não ouvia nada. A não ser os distantes e talvez inexistentes berros da criatura vislumbrada por seu milagroso olho. Sim, o vulto se tornava nítido. Tratava se, com certeza, de um bode.
E Pontaria partiu feito uma fera no rumo do inimigo.
– Que foi isso? – alarmou se o dono do sítio.
No seu ímpeto de guerreiro, o morador do Tijuca agarrou se ao pescoço do animal, derrubando o.
A luta não demorou nada. Como se lutassem uma jibóia e uma ovelha.
Triturado pelos músculos de Pedro, o bode expirou. E foi arrastado pelo seu matador. Até os pés de seu dono.
– Maldito! Você matou o bode Velho!
Desesperado, Quincas Mororó correu a gritar por socorro. E logo teve início a segunda batalha da guerra do bode.
E durante uma hora os dois bandos tripudiaram sobre o cadáver de Velho.
Batalha do bode Casto
Longe do Sítio Itamarati, à beira de um regato, Valente e seus companheiros trataram de curar as novas feridas. Tudo em vão!
– Aquele bode Velho não parecia nada com Zé Bugre – comentava Manduca.
– Você agiu mal, Pontaria – ralhava Raimundo Valente.
O mundo, porém, era vasto. Muitos outros sítios havia na serra.
E marcharam para nova aventura.
– Vamos entrar no Olho d’água.
A caminho do sítio de Manuel Comaru, o capitão do bando pediu mais cautela aos soldados. Aliás, usariam estratégia diferente da anterior. Nada de invadir o sítio, pular cercas. E ninguém agisse por conta própria. Aguardassem as ordens.
Avisado da presença dos vizinhos, Comaru dirigiu se à porteira. Saudaram se, embora friamente, e Valente anunciou seu problema.
– Já sei, já sei – interrompeu o o dono do Olho-d’água.
E se prontificou a colaborar na procura de Zé Bugre. Não admitia safadezas.
– Cabra de peia!
Perdoava tudo, menos roubo e indecência. Lugar de ladrão era na cadeia. Ou debaixo da terra.
E fez um longo discurso acusatório.
O marido de Rosa concordava com o outro. Pelo menos não entrariam em luta. Ao contrário, ganhara um aliado.
– Vou reunir meus caboclos e vamos juntos caçar Zé Bugre.
Chamou uns moleques, deu recados e ordens. Queria todos os moradores no terreiro da casa.
E mandou preparar um café forte para todos.
Aos poucos, os homens foram chegando. Pareciam assustados.
– Às ordens, Seu Comaru.
Tomaram café, trocaram idéias, organizaram a caçada.
– Você dá nome aos seus bodes, Raimundo Valente?
O dono do Tijuca penteou a cabeleira com os dedos. Na verdade, sempre se afeiçoava aos bichos. E gostava mais de uns que de outros.
– 0 Zangado morreu de zanga, mas só recebeu esse nome depois de morto.
Os homens dos dois sítios se misturaram e conversavam com animação. Até parecia uma festa. Chico Pavão falava ao ouvido de um rapaz do Olho-d’água.
Quando Valente acabou de contar a história do bode Zangado, Manuel Comaru retomou a palavra.
Gostava de suas criações, porém não distinguia um bode de outro. Não podia ter mais afeição a um pai de chiqueiro do que ao cachorro Fustão. Ou ao seu cavalo, o Correlato.
– Porém existe aqui um bode diferente dos outros.
E chamou a atenção dos moradores do Sítio Tijuca. Ouvissem aquilo.
– Qualquer bode pode ser Zé Bugre, menos um.
E descreveu as formas do caprino excepcional – o bode Casto. O pêlo parecia de seda. Os chifres rosados e lisos. Uns olhos de estrelas.
– Não anda com cabras e prefere a solidão.
Talvez por ser muito novo ainda – atreveu se a dizer Raimundo Valente.
Qual nada! Com certeza já passara dos cinco anos.
– Ele não gosta nem de cabras nem de mulheres – gargalhou Comaru.
O marido de Rosa permaneceu carrancudo. Não via motivos para risos. E quis saber o significado daquela frase.
– Eu quero dizer que o bode Casto não dormiu com sua mulher.
Valente se zangou. Não admitia achincalhes. E insultou o outro.
Não tardou, o terreiro parecia um campo de batalha.
Batalha do bode Cheiroso
A mais cruenta peleja se deu no Sítio Caridade. Lugar de precipícios e cavernas. Covil de onças e cobras venenosas. Onde sempre chovia e nevava.
Apesar disso, Antônio Balaio criava bodes e cabras. E se orgulhava deles.
Chico Pavão nunca deixou de odiar esse homem. Não fosse ele, seus modos de falar, sua conversa mole, a batalha não teria acontecido.
Assim, porém, não pensava Pedro Pontaria. O causador de tudo se chamava Cheiroso, a menina dos olhos de Balaio.
Na verdade, a confusão começou quando o dono do sítio falava do bode.
– Parece até um anjo.
Fazia as mais absurdas comparações. O animal lembrava uma flor. Rapaz muito formoso. Cavalo de coronel. Ser de lendas.
Embasbacados, Raimundo Valente e seus homens ouviam a poesia de Antônio Balaio.
– Às vezes desaparece, como se fosse invisível.
E o copo da desconfiança transbordou. Queriam ver o tal bode maravilhoso.
– Desde quando ele vive aqui?
Sim, talvez não se tratasse de um simples bode.
Possivelmente escondia espírito de gente.
– É bem capaz – concordou o dono do sítio.
Nesse momento apareceu diante deles um formoso bode.
– Chegou minha paixão.
– É Zé Bugre, pessoal – gritou Raimundo Valente.
Um agudo berro de dor ecoou. Tabacão degolava o animal.
Desesperado, Balaio caiu sobre o inimigo.
Súbito surgiram moradores do sítio. E a batalha se generalizou.
O bode e Tabacão estrebucharam numa poça de sangue.
Um homem atacou Valente. A primeira facada já o vergou. Quis reagir e levou outra.
Zeca Rucinho correu em defesa de seu patrão. Tentou erguê-lo. Parecia morto. Restava vingá-lo. E atacou o inimigo, a espumar de ódio.
Só escapou da morte quem correu, escondeu se no mato.
Os mortos de ambos os lados, no entanto, permaneceram unidos durante o resto do dia. A solidão da morte os igualava. Até na espera de quem os quisesse velar e sepultar.
Epílogo
Rosa esteve apenas uma vez na Delegacia Policial de Palma. Não sabia de nada. Nem do paradeiro de Zé Bugre.
Condenado por homicídio, Zeca Rucinho passou alguns anos na cadeia.
Outros tiveram melhor sorte. Chico Pavão, por exemplo, deixou o trabalho pesado no Sítio Tijuca e se fez capanga da viúva. Dia e noite a protegê-la. Chegava a dormir na cama dela.
Passados muitos anos, chegou a Palma e aos sítios circunvizinhos a fama de um cantador. Vivia numa cidade muito grande e cantava seus versos nas rádios e até na televisão. Cantava, sobretudo, a história de um homem que se transformara em bode. Para não ser agarrado pelo marido de sua amada.
FIM