O cabra que virou bode (2)
(Continuação)
Tentações
Apenas o bode rompia o silêncio, de vez em quando. Rosa chorava baixinho, ou então punha as mãos na cabeça, muda, transfigurada, absorta. Chico Pavão fungava e fumava. Só virava a cabeça quando a mulher aparecia. Piscava, como se ela fosse um cisco em seus olhos.
Nos primeiros momentos Rosa permaneceu fora de casa. Chegava à porta, voltava, espantava os bichos. Acocorou-se algumas vezes, ciscou o chão.
Depois Rosa não mais saiu de casa. Da cozinha passava à sala. Despejava água num caneco, recolocava a quartinha no seu canto, ia até o fogão. As brasas para o café haviam virado cinzas.
Na sala, olhava para fora, chegava a uma das janelas. As galinhas beliscavam tudo. Os porcos furavam o terreiro. Voltava, pelo corredor, passava diante do quarto onde Raimundo aprisionara o bode. Virava a cabeça para o outro lado ou seguia olhando firmemente para frente.
Nessas caminhadas percebia os olhos de Pavão grudados em suas pernas. Não lhe diria uma só palavra. Nem lhe daria um pingo de café. Fosse para o inferno.
Chico Pavão vigiava incessantemente o bode. Ao alcance de suas mãos, um cacete recostado à parede. Nos cós uma faca pontiaguda e afiada. Não fosse a obrigação, iria à cozinha tomar um gole de café. Ou beber um caneco d’água. Também largaria aquele banco duro, daria uns passos pelo terreiro.
Ora, devia falar com Dona Rosa. Se não fosse incômodo a ela, aceitava um pouco de água. Ela ofereceria café.
Vez por outra, Chico dava uma espiada nos movimentos da dona da casa. Uma tentação! Nem bode podia escapar daquele pecado.
Zé Bugre, amarrado, vigiado e preso, só fazia berrar. O vigia dava-lhe um grito. Deixasse de zoada, se não quisesse levar uns sopapos.
Apreensiva, Rosa largava suas cismas e aproximava-se da cela. Olhava para o carcereiro e mudamente ordenava que ele permanecesse quieto, longe do prisioneiro, inofensivo. Pavão repunha o cacete junto à parede, baixava a cabeça e sustinha a respiração.
Rosa dava meia volta, sossegada. E, ao chegar junto à quartinha, sentia o fogo dos olhos de Pavão queimar- lhe as ancas. Bebia toda a água do mundo e, mesmo assim, a sede não passava. Fazia um calor das profundas naquele dia. Jogava uns pingos de água sobre as cinzas do fogão. Quem quisesse café, fosse plantar. Chegada a época de colher, colhesse. Depois botasse para secar. Quando pudesse, torrasse e pilasse.
E o bode não parava de berrar.
Chico Pavão dava-lhe mais gritos. Ameaçava-o. Enfiava-lhe a faca na goela.
O animal não dava a menor importância às ameaças. Como se partissem de um homem sem nenhuma audácia. Um leguelhé.
– Vou te mostrar quem é o leguelhé.
E partiu para cima do bode.
Porém Rosa chegou a tempo de impedir o crime. Não, não molestasse o pobrezinho. E meteu-se entre os dois.
Aliás, queria um favor de Pavão. Em troca, daria tudo o que ele pedisse. Uma vaca, uma carga de rapadura, dinheiro.
– Que favor é esse, Dona Rosa?
Guardou a faca na bainha, olhou fundo nos olhos da mulher. Nunca vira aqueles olhos claros tão perto dos seus. Nem aqueles lábios da cor de sangue.
Ele devia facilitar a fuga de Zé Bugre. Bastava ir lá fora tomar um ar. Ela cuidava de desfazer o nó da corda.
Chico Pavão se enfezou. Cumpria ordens do patrão. Não trairia sua confiança. Além do mais, o preso havia cometido um crime. Ou ela perdoava as ofensas sofridas? Muito esquisito aquilo! Então uma senhora padecia toda sorte de violências nas mãos de um sujeito depravado e ainda queria protegê-lo?
– Não estou entendendo isso, Dona Rosa.
Ou então ela facilitara a entrada de Zé Bugre na casa, no quarto. E Raimundo Valente não passava de um corno.
A princípio a mulher se encolheu, baixou a vista, recuou. Que besteira fizera! Antes tivesse embriagado aquele velhaco. Ou dado uma paulada em sua cabeça.
– 0 senhor me respeite – gritou, subitamente.
Exigia mais respeito em sua própria casa. Se continuasse a ofendê-la, iria se ter com Raimundo Valente.
Fustigado, o homem se calou. Deus o livrasse da ira do patrão. Nunca mais abriria a boca para chamar Dona Rosa de mulher infiel.
– Sou casada e exijo respeito.
Chico Pavão criou ânimo de novo. Ora, todo o povo daquelas bandas já sabia do caso. Zé Bugre e ela haviam se aproveitado da ausência de Raimundo. A dona da casa arranjou, então, um estratagema para fazer o homem se calar. Ele se aproveitara da situação para tentar seduzi-la. Raimundo ficaria furioso. Como já andava aborrecido, seria capaz de cometer uma loucura.
– Além disso, todos vocês estão enganados.
Ora, um homem jamais se transformaria num bode. Quando muito, em lobisomem. Zé Bugre achava-se longe, muito longe. Aquele bode não passava de um bode comum.
– Coitado do bichinho!
Tudo invenção, doidice.
Então quem havia saltado a janela e corrido pelo mato?
– Um bode, Seu Chico.
E talvez nem se tratasse daquele, do prisioneiro. Para ela, o intruso possuía chifres mais longos e grossos.
Restava um porém: as roupas de Zé Bugre. Como tinham ido parar no quarto?
Rosa ria. A história era realmente engraçada. Pois o bode aparecera vestido com aquelas roupas. Brincadeira de Zé Bugre ou de algum moleque.
O homem não riu sequer um milímetro. Não acreditava nas palavras de Dona Rosa.
– Vamos fazer uma caridade, Seu Pavão.
De jeito nenhum. Não cometeria traição a Seu Raimundo. Mesmo que aquele bode não fosse Zé Bugre.
Ela se pôs a chorar baixinho. Se o bode não fosse solto, morreria.
– A senhora não devia chorar por um bode.
Rosa aproximou-se do animal. Agachou-se. Parecia ter olhos de gente. A boca, as feições lembravam o rosto de uma pessoa.
– Se for meu primo mesmo, não vou deixar morrer.
E ergueu-se, cheia de coragem, olhos brilhantes. Soltasse imediatamente o preso.
Chico Pavão recuou. Dona Rosa procurasse se acalmar. Se fizesse o que ela pedia e mandava, ficaria em maus lençóis.
– E o patrão vai desconfiar ainda mais da senhora.
Excomunhão
Manduca parecia morto de cansado. Mal entrou na sala, espojou-se num sofá. E os outros o imitaram.
Padre Divino chegou assustado. Se fosse caso de extrema-unção, esperassem só um instantinho. Precisava arrumar a maleta de seus objetos.
Faltaram assentos para todos. Raimundo Valente ficou em pé. Ofereceram-lhe lugar. Não, não carecia daquilo.
– Sejam breves, pois tenho almoço para já – pediu o padre.
O chefe do grupo fez um longo e embaraçado preâmbulo. Ajudado aqui e ali pelos moradores de seu sítio.
Em dado momento, o padre se pôs a rir. Não podia acreditar em semelhante heresia.
– Ou loucura.
Onde tinham arranjado história tão absurda? Em algum livro? Sim, aquilo só podia ser coisa de romance. E dos bem antigos.
Os visitantes insistiram. Falavam a mais pura verdade. Um homem tinha virado bode, após manchar a honra de uma senhora casada.
– E quem é o marido?
Raimundo não perdeu o fio da meada. Disse mais algumas asneiras. Sua pobre mulher, indefesa rosa no meio do espinhal dos homens.
– Só vim saber se posso matar o tal bode.
Bastava uma palavra. Não gastasse sua sabedoria. Nada de sermões nem salmos. Muito menos latim. Em suma: queria apenas tirar uma dúvida. Porque, se fosse pela cabeça de seus moradores, o animal há muito teria virado almoço.
– É ou não é pecado matar o bode, tendo ele sido gente?
O padre finalmente perdeu a graça. Não podia rir diante de caso tão grave. Pôs-se a falar de pecados. O adultério levava ao inferno. O casamento era sagrado. Por outro lado, o homicídio também...
Pasmado, Raimundo Valente escutava o sermão. A dúvida, porém, persistia. Se Rosa e Zé Bugre haviam pecado e iam para o inferno, pecava quem os matasse? Aquele padre nunca falava claro. Ou ele, Raimundo, não conseguia entender a explanação?
Padre Divino falava sem parar. À primeira vista a morte do bode parecia um fato rotineiro e sem qualquer significação. No entanto, tendo sido homem, a coisa se complicava. Não chegava a ser homicídio, visto esta palavra significar assassínio de uma pessoa por outra.
– Preciso consultar o bispo.
Aliás, queria saber direitinho aquela história de transformação. Porque a solução do problema estava aí.
Puseram-se todos a falar. Uma algazarra infernal dentro da pequena sala. Irritado, o sacerdote pediu silêncio. Falasse um de cada vez. Primeiro Raimundo.
O dono do sítio tomou a palavra. Contava a história desordenadamente. Voltava de Palma, a cavalo, ao lado de seu compadre Luís Facundo.
– Nem imaginava um domingo como este.
O padre interrompia a narrativa, de vez em quando. Onde andava esse Facundo? Precisava ouvir todas as pessoas envolvidas no caso.
Não, o compadre não sabia de nada. E já contava o episódio da perseguição a Zé Bugre.
– Foi Chico Pavão quem primeiro viu o vulto correndo.
Pois deixassem Pavão falar. Infelizmente não ia ser possível, porque ficara para vigiar o preso.
– Quem mais viu a transformação?
Pedro Pontaria apontou o olho direito para o padre e pediu a palavra. Na verdade, não vira a transformação, mas sabia de cor as palavras de Pavão.
Padre Divino voltou-se para Pedro. Sim, não poderia mesmo ter visto muito. E riu um risinho de deboche.
– 0 homem cansou e parou.
Súbito pusera-se de quatro e em seu corpo surgiram pêlos e em sua cabeça chifres.
O sacerdote se irritou. Não acreditava numa só daquelas palavras. Se queriam matar o bode, por que tanta conversa fiada? Ou o bode era alheio?
Raimundo Valente respondeu. Se fosse bode mesmo, se aquele animal sempre tivesse sido bode, só podia ser seu. Pois o encontraram em seu sítio, junto aos outros bodes.
Pôs-se a rir o padre. Aqueles homens talvez tivessem ingerido alguma bebida extravagante. Mas não pareciam tontos.
– Se é bode, podem matar – e fez menção de retirar-se.
Restava mais uma dúvida: haveria algum pecado em comer a carne?
Já de costas para os visitantes, padre Divino parou e fechou os olhos. Impôs se um minuto de silêncio. A sala toda ouviria a palavra definitiva do reverendo. Se não houvesse pecado nenhum no erguer o machado e ferir o animal, toda a aflição terminaria ali. Em seguida viria a festa. Carne assada ou cozida. Ou ambas.
O olho direito de Pedro Pontaria tremeu. Havia espuma no canto da boca do sacerdote. E todo ele se amarelava.
– Pecadores!
Houve pânico na sala.
– Assassinos!
Arregalaram os olhos os visitantes.
– Bando de canibais!
Petrificaram-se os matutos.
Se não esquecessem aquela história, seriam excomungados. E presos. Primeiro, por inventarem heresias. Ninguém se transformava em animal. Segundo, por quererem matar um homem.
– Fora daqui, cambada de bruxos!
Sindicância
Tenente Benévolo cochilava. Sobre a mesa o quepe sujo. Moscas pousadas aqui e ali. Todas livres e pacíficas. Talvez fartas.
Na calçada, uns passos pesados e apressados despertaram os soldados. Seguiu-se um vozerio medonho. O delegado tomasse providências urgentes e enérgicas. Um bando de malucos tencionava sacrificar um bode humano.
Sobressaltado, o tenente apanhou o boné, espantou as moscas e, de um salto, se pôs diante do padre. Que diabo estava acontecendo? Quem queria sacrificar quem?
Trêmulo e cansado, o sacerdote tentava responder às perguntas do militar.
– Querem autorização para matar um homem.
Ainda sonolento, Benévolo não conseguia entender direito a história. Talvez estivesse sonhando. Porém o padre, os soldados, as moscas, a sala, tudo parecia tão evidente, translúcido.
– Padre Divino, o senhor está falando comigo ou estou ouvindo vozes vindas das regiões do sono?
Na sala da Delegacia outras vozes se juntavam às do padre e do delegado. E de mais espanto se enchia este.
– São estes os canibais – gritou o sacerdote, olhos arregalados para Raimundo Valente e seus amigos.
O delegado voltou à sua cadeira, sentou-se e deu um murro na mesa. Os objetos se deslocaram e as moscas voaram.
– Quem é o chefe do bando?
Todos olharam para Raimundo, que retirou o chapéu da cabeça e agradeceu o gesto de respeito dos moradores de seu sítio.
Explicasse, então, a história do bode humano. Fosse claro e nada de gracinhas. Primeiro justificasse por que tencionava matar o animal.
Raimundo deu três bons pigarros e iniciou a preleção. Falou da missa, do sermão do padre Divino, da conversa com seu compadre Luís Facundo. Mais mil palavras e chegou ao apresamento de Zé Bugre. Queria saber se podia ou não podia matar o bode.
– Sem risco de prisão, processo.
Benévolo coçou o queixo e olhou para o sacerdote. Não via mal nenhum na intenção daquele pobre marido traído. Ora, se o traidor se tratava realmente de um bode, não havia problema em o matarem.
– Nem pecado nem crime, não é, padre Divino?
O sacerdote parecia longe dali. Nenhuma palavra disse, embora olhasse fixamente para todos.
Se se tratasse de um homem, Zé Bugre ou outro, a coisa mudava de figura. Pois constituía crime, além de pecado, o homicídio. Restava, pois, esclarecer se pretendiam matar um bode ou um homem.
E o tenente se calou.
– Para mim, não existiu nenhuma metamorfose – afirmou o padre.
Tudo conversa fiada. Falta do que fazer. Ou todos aqueles matutos haviam ficado malucos.
Porém o olho direito de Pedro Pontaria mirava os lábios do sacerdote. Como se quisesse cosê-los.
– Chico Pavão viu quando Zé Bugre virou bode – gritou, finalmente, Pedro.
O delegado se assustou e por bom tempo esteve a olhar para o olho fechado do atrevido serrano.
– Conte a história então esse tal Chico Pavão.
Infelizmente não ia ser possível ouvirem da boca de Chico a maravilhosa história.
– Ele ficou vigiando o bode.
Decepcionado, o chefe de policia resolveu impor sua autoridade. Ninguém ali podia prender ninguém. A não ser ele mesmo. A polícia prendia e o juiz condenava. E diziam eles haver prendido e condenado uma pessoa.
– Vocês cometeram crime, ouviram?
– Mas, tenente, nós prendemos um bode – argumentou Raimundo Valente.
O padre coçava o queixo e olhava para o infinito. O delegado andava de um lado para outro, mãos enlaçadas.
– E de quem é o bode?
Raimundo fez um breve relato de suas posses. Criava bodes e cabras, mas não se atrevia a dizer quantos. De vez em quando mandava abater um deles. Por isso não sabia se o bode aprisionado pertencia ou não ao seu rebanho.
– Porém tenho quase certeza de pertencer.
Para acabar logo com a questão, Benévolo deu a sentença: Raimundo fizesse do bode o que bem quisesse.
No entanto, padre Divino se opôs à decisão policial. Ninguém tocaria no bode, se não ficasse provada a sua natureza puramente caprina.
– Como nós vamos tirar a prova?
O sacerdote se pôs a andar pelo aposento. Falava para si mesmo, como se assim pudesse descobrir a solução do problema.
– Pavão nunca mentiu, padre – informou Tabacão.
No meio da sala o padre parou. E sorriu. Não interessava a palavra de Pavão. Nem a de nenhum dos presentes.
– Quero ouvir o preso.
Como não tinham pensado nisso antes? Sim, bastava perguntarem ao preso o seu nome. Ou se era homem ou bode.
Todos ouviam, calados, os argumentos do religioso. O preso poderia até mesmo revelar detalhes de seu encontro amoroso com Dona Rosa.
– No caso de ser Zé Bugre, logicamente.
Uma voz, porém, se levantou para protestar contra os planos do sacerdote. Com certeza o preso não falaria nada.
– Ele só sabe bodejar, pessoal.
Houve confusão na Delegacia. Todos falavam a um só tempo. Pareciam um bando de bodes soltos no mato.
– Silêncio!!! – berrou o tenente.
Mais alguns gritos, e o silêncio se fez. Não adiantava tanta conversa. O caso se mostrava muito grave. Uma vida estava em jogo. A honra de uma senhora e a de seu marido haviam sido manchadas. Além do mais ocorrera o fenômeno da metamorfose. Tudo muito complicado.
– Acho, pois, mais prudente irmos ao doutor juiz.
Talvez alguma lei muito antiga servisse para o caso. Algum código ultrapassado.
– 0 doutor Talião é muito sábio.
A justiça de Talião
À frente da multidão caminhavam o padre Divino, o delegado e Raimundo Valente. Sim, o pequeno grupo de matutos já não andava só. O primeiro a se incorporar a ele havia sido o sacristão. Talvez por puro hábito: para onde fosse o sacerdote, ele também ia.
Faziam parte da comitiva três soldados. O caso exigia policiamento ostensivo. A Delegacia ficaria fechada até o encerramento daquela novela.
– Sigam-me – ordenara Benévolo.
Ao verem o padre entrar na Delegacia, algumas pessoas se encheram de curiosidade. Que diabo queria ele com o tenente? Talvez tivesse ido dar extrema-unção a algum preso.
Logo à frente da Delegacia cerca de cem pessoas cochichavam.
– Já devia ter morrido o moribundo.
– Agonia bem demorada, essa.
O chefe de policia apareceu à porta. Quis recuar, tremeu.
– Que querem aqui, vagabundos?
E levou o braço ao ombro do padre Divino.
Diante da casa do doutor Talião, dirigiu-se de novo aos vagabundos. Fossem para suas casas. O assunto a ser tratado com o juiz não lhes dizia respeito.
O povo recuou. Uns se sentaram nos bancos da praça defronte. Outros subiram às árvores.
Uma voz de mulher informou ao delegado a ausência do magistrado.
– Preciso falar urgentemente com ele.
– 0 caso é de vida ou morte – completou o sacerdote.
De dentro da casa saiu informação mais precisa: Talião se achava, com certeza, no Café.
O tenente e o padre trocaram olhares. O assunto não podia ser tratado em café. Melhor mandarem alguém chamar o juiz.
O recadeiro devia ter muito cuidado. Primeiro cumprimentasse o doutor. Em seguida dissesse quem mandava o recado. E falasse baixo. Do contrário, terminaria preso.
– Indique um dos seus homens, Seu Raimundo Valente.
Despachado o recadeiro, a mulher de Talião apareceu e convidou o padre e o delegado a entrarem na sala.
Houve rebuliço na pracinha. Gente pulou das árvores, ninguém permaneceu sentado nos bancos.
– Quem são aqueles matutos?
– Um deles fugiu e ninguém viu.
Na sala servia-se café e água.
– Faz muito calor hoje – comentou a dona da casa.
Sobre uma mesa havia uma deusa de olhos vendados. Livros numa estante. Cauda em riste, um gato olhava para trás, no meio do corredor.
De vez em quando, os dois visitantes viravam os olhos para a rua. Os chapéus de Valente e seus amigos brilhavam ao sol.
– Quem são?
O caso parecia sem solução. Daí estarem ali. Uma história esquisita.
– Uma loucura – murmurou o chefe de polícia, a mão em pala na boca cheia de café.
O povo da praça se agitou pela segunda vez quando o juiz surgiu numa esquina. Ao seu lado vinha o poeta Rui de Alencar. Mais atrás, Pedro Pontaria.
– Hoje tem feira, Rui?
– Só se hoje for sábado.
– Para mim é domingo.
– Então não tem feira, doutor.
Ao perceberem a chegada de Talião, o delegado e o padre se puseram de pé. E a dona da casa pediu licença para se retirar. Precisava cuidar do almoço.
– Você já prendeu o criminoso? – gaguejou o juiz, olhos grudados no tenente.
Sim, o bode já estava preso. Por obra e graça da vítima, o Senhor Raimundo Valente. E apontou para a janela.
– Resuma o fato, delegado – ordenou o magistrado.
Obediente, Benévolo contou toda a história, desde a hora da missa. Talião, porém, parecia alheio às palavras do delegado. Ora olhava para a deusa de olhos vendados, ora observava o padre.
– 0 senhor pode me dizer o motivo de sua presença? – tartamudeou o dono da casa.
O sacerdote sorriu. Afinal, aqueles senhores do lado de fora da casa o haviam procurado em primeiro lugar.
– Para quê?
Padre Divino pôs-se a recontar a história. Desde a hora da missa.
– 0 adúltero, então, se transformou num ser caprino.
Como se pela primeira vez ouvisse falar do episódio da metamorfose, Talião arregalou os olhos e deu um grito. Exigia a presença imediata de Maria, a copeira. E uma moça apareceu entre a sala e o corredor.
– Traga copos e a garrafa.
Puseram se todos a falar ao mesmo tempo. Inclusive Raimundo e seus amigos.
– Quem são eles?
– Os protagonistas da história – respondeu o sacerdote.
– Pois entrem e dêem suas versões.
Maria reapareceu à entrada da sala. Trazia copos e uma garrafa numa bandeja enorme. Como se já estivesse acostumada àquilo, depôs tudo em cima da mesa de centro e se retirou.
– Vamos fazer um brinde, meus amigos – anunciou o juiz, despejando bebida nos copos.
Como dono da casa, serviu se primeiro. E engoliu dois dedos do líquido.
Raimundo Valente criou coragem e também se serviu.
– Doutor, nós só queremos saber se podemos matar o bode.
Talião tomou outro gole e olhou, espantado, para o desconhecido. De que bode ele falava?
– Ora, do bode de Dona Rosa – explicou o padre.
– Ou seja, Zé Bugre, o rapaz transformado em bode.
O juiz tentou deixar a poltrona, cambaleou e desistiu da aventura. Na verdade, o código penal era omisso em assuntos daquela natureza. Lembrava-se de já ter lido, em algum tratado, o caso de um burro condenado à morte. Salvo engano, por ter praticado roubo. Talvez, por analogia, pudesse aplicar ao caso em tela a lei antiga. Não, não ia ser possível, pois o burro era francês. Aliás, chamava-se Baudet. Seu dono, um tal de Baudelaire, havia lutado ao lado de Napoleão Bonaparte.
– Vou consultar o desembargador Roderico Anzoleiro.
Calado até então, Rui de Alencar subitamente despertou e pediu licença para expor sua opinião.
– A palavra é toda sua, poeta – aquiesceu o magistrado.
O rapaz empertigou-se, ajeitou o colarinho e caminhou para o centro da sala. Modestamente, sabia como solucionar o problema. Antes, porém, queria fazer um preâmbulo filosófico e filológico.
– A metamorfose, assim como a metempsicose...
Boquiabertos, os matutos não tiravam os olhos da figura esquisita do orador.
Rui falou de gregos e troianos, passou por trompistas, trombetas, trombones, até chegar a trovas e trovadores.
Mais dez palavras sem sentido e o mundo inteiro olhava para ele.
– Vou recitar um de meus poemas.
Padre Divino coçou a cabeça, fez menção de falar. Ninguém, no entanto, lhe deu a menor atenção, e Rui de Alencar continuou com a palavra.
– Trata se de uma écloga.
No meio da recitação, Raimundo Valente deu um berro. O poeta tomou um susto e calou-se.
– Não vim aqui para escutar conversa mole, mas resolver um caso de adultério.
Gritava, dedo apontado para Rui.
Pasmado, Talião bebeu mais um gole.
– Exijo silêncio e respeito.
Afinal, aquela sala fazia parte da residência do Juiz de Direito da Comarca de Palma.
– Aqui é a casa da lei.
Raimundo sentou-se. Desculpasse, não quisera ser arrogante, mal educado, desrespeitoso.
– Só quero uma solução para o problema do bode.
Penúltima instância
De chinelos, pijama, óculos pendurados no nariz, o prefeito parecia dormir na espreguiçadeira. Lia um jornal e olhou com espanto para a pequena multidão à sua porta.
O juiz pediu licença para entrar e só faltou se ajoelhar aos pés de Jeremias Coqueiro. Cambaleou e caiu num sofá.
O delegado tirou o boné e bateu continência.
– Alguma revolução na cidade?
O padre cruzou as mãos, como se fosse rezar, e cumprimentou com devoção o comendador.
Rui de Alencar fez uma saudação estrepitosa, com salamaleques e vocábulos em desuso.
Raimundo Valente conseguiu um cantinho. Outros se postaram às janelas e portas.
– Que querem de mim?
Padre Divino esboçou um resumo dos fatos vividos no Sítio Tijuca.
Duas ou três vozes completavam a informação, de vez em quando.
– 0 senhor confirma a transformação do homem no bode?
O sacerdote se benzeu. Jamais diria semelhante heresia. Deus o livrasse de tão grande pecado.
O comendador Jeremias se voltou para o juiz. Só restava o caminho do Direito, da lei. Talião, no entanto, continuava desnorteado. O sofá talvez lhe parecesse uma cama. Tinha muitas dúvidas.
– Para mim não se trata de questão de Direito.
Tentou ajeitar se no assento, por se sentado. Resvalou para um lado e quase caiu nos braços de Rui.
– Que se pode fazer então?
Talião olhou para os circunstantes e sapecou a resposta: sacrificavam o bode, comiam lhe a carne, enterravam os ossos.
Tenente Benévolo, no entanto, ainda se opunha a tão temerária atitude. Achava mais direito uma punição severa ao homem, o adúltero, o tal Zé Bugre. Nada de matança de bodes. Se um homem cometera adultério, violara o recinto de um lar, conspurcara a honra de uma senhora casada, merecia exemplar castigo.
– Uma punição, uma pena.
Houve tumulto na sala e do lado de fora da casa. Uns apoiavam a moção apresentada pelo chefe de polícia. Outros queriam a cabeça do bode.
– Morte ao bode! – gritou alguém.
O prefeito impôs silêncio. Não admitia anarquia em sua casa. Quem não se comportasse com educação, se retirasse. E, mudando o tom da voz, voltou-se para o delegado.
– Que punição deve ser aplicada ao adúltero?
– Castração sumária.
Pedro Pontaria deu um grito de aprovação. Sim, nada mais justo para o caso. Quem mexia com mulher direita, fosse casada, viúva ou solteira, só merecia aquilo.
De seu olho direito saíam faíscas. Desde o primeiro instante quisera cortar os ovos daquele bode nojento.
– Coitada de Dona Rosa!
Jeremias Coqueiro quis saber onde estava o marido enganado. Raimundo se apresentou, apontado por dedos duros e olhos arregalados.
– 0 caso parece grave – observou o comendador.
Aliás, não conhecia casos recentes de transformação de gente em bicho. Até estranhava ainda ocorrerem semelhantes fenômenos. Na verdade, não acreditava muito em metamorfoses.
– Histórias de livros.
Contou algumas. De lobisomens e mulas-sem-cabeça.
– Tudo lendas – advertiu o padre.
De qualquer forma, o prefeito queria conhecer em detalhes a historia da metamorfose do Zé Bugre.
– Simples curiosidade.
Todos se puseram a falar ao mesmo tempo. Parecia uma feira livre, onde mil mercadores oferecessem seus produtos a um só comprador.
Prevaleceu, porém, a enorme cabeça de Tabacão, emoldurada pelas quatro linhas de uma janela.
No momento em que Zé Bugre se pôs de quatro e de sua testa surgiram chifres, padre Divino deu um grito. Mentira, pecado! Impossível acontecer aquilo. Deus não permitiria que um homem tomasse forma de bode.
– Sobretudo em tempos de fome.
Se dessem crédito às fantasias daquela gente ignorante, estariam voltando ao tempo do canibalismo.
– Vão terminar comendo o homem.
– Bem feito – replicou o tenente.
Escurecia em Palma e na casa do comendador Jeremias imperava a barafunda.
(Continua)