O cabra que virou bode (1)
Nilto Maciel
(Romance, 1ª ed. 1991, 2ª ed. 1992, 3ª ed. 1995, 4ª ed. 1996, Editora Atual, São Paulo, SP)
Rosa de cama
Certa manhã, dois cavaleiros conversavam. E os cavalos trotavam. o sol desenhava no chão umas figuras esquisitas. Nem pareciam imagens de cavalos montados. Talvez dragões. Ou fantasmas.
Os cavalos marchavam calados. E suados. Convinha um banho à beira do rio. Mas os cavaleiros não tinham pressa. Já dois ou três cavalos montados haviam passado à frente deles. A galope. Que fossem! Domingo era dia de descanso. Eles – Raimundo Valente e Luís Facundo – não tinham pressa.
Bem atrás deles vinham mais pessoas. Umas montadas em cavalos, mulas, jumentos. Outras a pé. Famílias inteiras. E também conversavam.
Vinham todos de Palma. Da igreja matriz. Missa dominical, comprida, cantada, com sermão e comunhão. Fila enorme para receber a hóstia.
Sim, o belo sermão do padre Divino. Contra o pecado da luxúria. Ai daqueles que pecavam! O inferno os esperava. A eternidade em chamas.
Iam os fiéis para suas casas. Seus sítios. Proprietários e moradores. Dever cumprido. Consciências leves. Prontos para mais uma semana de trabalho, negócios.
Luís Facundo pensava comprar um jipe. Ou camioneta. Gostava do progresso. Além disso, aquele cavalo quase não andava mais. E não queria outro. Não, não sabia guiar. Nem pretendia aprender semelhante ofício. Ora, contava com os filhos. Ou podia contratar um chofer.
O sol ficava cada vez mais quente. Mormaço terrível. E chuva não vinha? Não havia dúvida, o inverno ia ser dos melhores, a Deus querer.
Raimundo ajeitava o chapéu na cabeça. Se realmente o inverno fosse bom, também tinha em mente adquirir um veículo a motor. Na cidade qualquer bodegueiro andava montado em jipe. Embora caindo aos pedaços.
Avistou sua casa e puxou as rédeas do cavalo. Queria prosear mais um pouco com o compadre Luís. À sombra de quaisquer daquelas árvores. Ou então no alpendre. Bastava apearem. Tomavam café, quebravam o jejum. Aliás, queria mostrar um jerimum extraordinário. Colhido no dia anterior. De tamanho normal. A forma é que chamava a atenção. Parecia uma cabeça humana. Sim, apeassem. Ora, domingo era dia de descanso.
E a comadre Rosa, por que não fora assistir à missa? Adoentada, indisposta, acamada. Coisa de mulher. Não, nada grave.
Luís não quis desmontar. O café ficava para outra ocasião. Para que aborrecer Dona Rosa? Mandava lembranças, dele e de Sara. E desejava melhoras. Então conversassem mais um pouco. Como andava o Luisinho? Com catapora. Muito chorão, dando trabalho à mãe. E os porcos? Engordando. Muita banha.
Raimundo se entusiasmou e pôs se a falar de sua criação de bodes e cabras. Nem os contava mais.
Na curva do caminho apareceram os primeiros animais montados, trazendo o resto da gente daqueles sítios. Talvez ainda falassem da missa, do sermão do padre Divino.
Sim, ficava para outra vez o cafezinho. Lembranças à comadre Rosa. E não deixassem de ir visitá-los qualquer dia desses. Sara e ele – Luís Facundo – teriam muito prazer em receber o compadre e a comadre. O Sítio Itamaracá os esperava de portões e portas escancaradas.
Raimundo Valente sorria. Saúde para o menino. Catapora não brincava. E o Sítio Tijuca nem portões tinha. Para os amigos.
Gargalharam os dois. O cavalo de Luís pôs se a marchar.
A descoberta do outro
Mal Luís se retirou, Raimundo apeou, ainda longe do terreiro da casa. E caminhou, a puxar o animal pelo cabresto.
Algumas pessoas passavam diante da casa, no rumo dos sítios vizinhos. Outras meteram-se por caminhos estreitos, já dentro do próprio Sítio Tijuca. E Raimundo nem sequer olhava para eles. Fossem cuidar de suas vidas, limpar suas choças. Ia desencilhar o cavalo, ver Rosinha, tomar um café...
Debaixo de uma árvore deixou o animal. Cabresto amarrado ao tronco.O cavalo relinchou. Um homem espiou a cena de uma das janelas e desapareceu. Raimundo se dirigia à porta da frente da casa. Olhava ora para o cavalo, ora para galos, galinhas, pintos.
Pela porta dos fundos, um homem fugia. Apavorado, só de ceroulas, metia-se no mato.
Ainda na sala de estar, o dono da casa gritou o nome de Rosa. Do quarto, ela respondeu “já vou, meu bem." Vestia se, apressada, arrumava se dos pés à cabeça.
Raimundo não esperou por sua mulher. E foi ao quarto.
Primeiro viu, pela janela, um vulto a correr, esconder se detrás de árvores e moitas. Depois Rosa amarela, trêmula, olhos esbugalhados. E, ao pé da cama, umas roupas de homem.
– Quem estava aqui, mulher?
Aquela roupa pertencia a Zé Bugre. Não havia dúvida nenhuma. E que diabo ele fazia no quarto deles?
– Ele tocou em você, Rosa?
Ela gaguejou, sentiu uma tremedeira geral no corpo e fugiu do quarto. Raimundo saltou a janela, a gritar "cabra safado, moleque, cachorro."
O homem corria, sem saber que rumo tomar. Ora ia, ora vinha. Para onde fosse, encontraria casas de conhecidos. E as calças?
Os gritos de Raimundo Valente chegaram aos mais distantes ouvidos. Os bichos se alvoroçaram e se puseram a correr pelo terreiro, pelo mato. Parecia dia de incêndio ou prenúncio de tempestade.
A transformação
Pelas veredas do Tijuca andavam ainda os fiéis moradores, no rumo de suas choças. A outra parte já ia muito distante, pelo caminho largo, em demanda de outros sítios.
De faca em punho, Raimundo Valente perseguia o outro e gritava. Zé Bugre, o cachorro, não escapava. Podia se esconder feito tatu. Correr como veado. Não descansava, enquanto não pegasse aquele moleque.
Fazia tanta zoada o marido de Rosa, que um magote de gente deu meia volta. Todos bem trajados e calçados. Homens vestidos de camisas de manga comprida. Mulheres de vestidos engomados.
– O que foi, Seu Raimundo?
– Alguma onça?
Cansado e suado, o dono do sítio parou. Não, nada de bicho. Andava atrás de um homem. De um homem não, pois aquilo era um cachorro, um cabra safado, um moleque.
Os moradores quiseram saber o motivo verdadeiro de querer Raimundo agarrar o perseguido. Ladrão? Caluniador? Mentiroso?
Refeito, ele contou: acercava se de sua casa, quando avistou um vulto fugindo.
Calados, boquiabertos, os outros pareciam muito interessados na narração. O vulto não havia roubado nada. Talvez a honra de Rosinha. Devia ter abusado dela. O porco, o nojento.
– Vou matar esse danado.
Apiedado, o povo solidarizou se com Raimundo. Morte ao sedutor! Todos à perseguição!
– E quem é o cabra, Seu Raimundo?
Não podia dizer com certeza, mas tinha a impressão de se tratar de Zé Bugre.
O primo de Dona Rosa? Logo ele? Que fim de mundo!
A roupa, pelo menos, parecia ser dele. Sim, se fugira, boa coisa não devia estar fazendo. Ainda mais nu.
Como? Então a roupa dele ficara no quarto? Que safadeza!
A conversa se encompridou. Raimundo contava detalhes, fazia suposições, planejava vinganças terríveis. Os outros davam palpites, enchiam os ouvidos dele de perguntas.
– Primo carnal ou segundo?
– Quase irmão dela, não é, Seu Raimundo?
Se ficassem ali parados, a conversar, Zé Bugre escaparia. Urgia, pois, sair no encalço dele. Quem se oferecia a participar da perseguição? Ora, todos eram homens e não tinham medo de cabra ruim. E não gostavam de quem desrespeitava mulher. Além do mais, tinham nele, Raimundo Valente, um pai.
Assim, o bando se pôs a marchar. Zé Bugre seria facilmente capturado. Primeiro por ser um só. Segundo por estar nu.
– Um homem nu é um homem pela metade.
O fugitivo corria, escondia-se aqui e ali, a tremer de medo, a suar, olhos esbugalhados. Se o pegassem, com certeza seria morto. Que azar! Ou a missa terminara mais cedo, ou a cama de Rosa era macia demais.
De tanto buscar a salvação, Zé Bugre encontrou uma loca. E nela se meteu. Nem pensava em cobras e lagartos. Só queria livrar a pele.
Enquanto isso, o bando capitaneado por Raimundo Valente vasculhava o sítio. O desgraçado talvez já andasse longe. Nas terras vizinhas, no alto da serra, no meio da mata.
Formaram-se três grupos. Um seguiu para o nascente, no rumo da casa dos pais de Zé Bugre. Outro tomou a direção do poente. O rapaz podia ter atravessado o rio. O grupo de Raimundo explorou a região central do sítio, onde Zé Bugre se achava.
Depois de uma hora de buscas infrutíferas, reuniram-se de novo os caçadores do homem nu. Nem sinal do filho de uma égua. Parecia até coisa do Beiçudo.
– Ele não me escapa.
Raimundo esbravejava, quando Chico Pavão arregalou os olhos, deu um grito e esticou o braço para a frente.
– Eu, eu vi, correu por ali.
Todos seguiram Chico, na maior algazarra. Não vira o rosto direito, mas com certeza se tratava de um homem nu. E só podia ser Zé Bugre.
– É para matar, patrão?
De faca em punho, Chico comandava a tropa. E o vulto corria pelo mato, assustado, aos pulos.
Os perseguidores escorregavam, iam ao chão, feriam-se nos espinhos. E não faltavam ameaças, pragas, lamentações.
– Cadê o homem, Chico Pavão? – gritava Raimundo, suado, furioso.
Na verdade, o vulto havia desaparecido. Perderam-no de vista.
– Você viu mesmo ou foi só imaginação?
Chico não gostou de Raimundo duvidar de sua palavra. Ora, não costumava mentir. E contava: O homem, de costas, a bunda cheia de cabelos, andava abaixado.
– Quando gritei, ele saiu aos pulos.
Para ouvir melhor a história, muitos se sentaram. Aquilo ainda ia virar romance. Se na serra houvesse um cantador dos bons...
– Lá vai ele de novo – gritou Chico Pavão.
E todos se puseram a correr atrás do vulto. Quebravam galhos, saltavam pedras, atropelavam porcos e galinhas, em grande estrupício.
– Olhem, ele vai ali – indicou Chico.
– Aquilo é um bode, seu besta – alertou Raimundo.
Um enorme bode de pêlo amarelado, chifres pequenos, olhava para o bando de homens, cansado, assustado.
– É um bode, sim, senhor, mas já foi homem – concluiu Chico Pavão.
E jurou ter visto a transformação de Zé Bugre em bode.
– Artes do Cão, minha gente.
Agarraram então o pobre bode. Não podia escapar. Dera muito trabalho, sem dúvida. Agora estava preso. E nem Satanás o livraria.
Eu sempre desconfiei desse sujeito – observou sisudamente o marido de Rosa.
Gólgota
A captura do bode não se deu com facilidade. Apesar de serem muitas as mãos que tentavam agarrá-lo.
Chico Pavão teve o privilégio de ser o primeiro a tocar o animal. Porém desequilibrou-se, caiu e deixou a presa escapulir.
Outros tiveram sorte idêntica. Mal atingiam o pêlo do caprino com a ponta dos dedos, iam ao chão.
Raimundo Valente corria para um lado e outro, gritava, dava ordens. Prometia boas recompensas a quem conseguisse segurar Zé Bugre.
Apesar disso, o bode sempre escapava das mãos humanas. Parecia ter pele de muçum. E corria, fazia piruetas, dava saltos espetaculares. Verdadeiro acrobata.
Como fosse um contra muitos, não tardaria a sua desgraça. E assim ocorreu. Pelas mãos de Zeca Rucinho. Que mergulhou no chão e alcançou as pernas traseiras do animal.
Houve muita resistência ao apresamento. Até com valentia e heroísmo. Pois Zeca foi arrastado por mais de cinco metros, barriga esfregada nas pedras ásperas.
Dominado, o caprino se pôs a berrar, desesperadamente. Cercaram-no seus caçadores, também combalidos.
– Os olhos não negam; são do Zé Bugre – percebeu Tabacão.
Para garantir a imobilização do quadrúpede, Chico Pavão passou-lhe uma corda ao redor do pescoço e fez um laço.
– É para matar logo, patrão?
Raimundo puxou a faca dos cós e chegou bem perto do preso. Tremia, bufava, suava.
Deixe isso comigo – pediu Zeca Rucinho, barriga à mostra, arranhada, suja de terra e sangue.
E ergueu uma perna, para desferir um chute nos testículos do inimigo. Aprendesse a respeitar mulher direita, casada.
Além de chutes, recebeu o animal socos e cusparadas. Sem contar os insultos verbais. Chamaram-no de traidor, covarde, filho do Diabo.
Enquanto se deleitavam com essas torturas, recriavam a figura de Zé Bugre.
– Avaliem se não fosse primo de Dona Rosa.
Bem fazia quem não queria saber de parentes da mulher. Todos uns patifes.
– O senhor não devia ter dado ajuda a esse sujeito.
Sim, se não existisse Raimundo Valente, coitado daquele desgraçado. Dele e de sua família. Talvez já tivessem morrido de fome.
Muita gente cuspia no prato em que comia.
– Uns mal agradecidos.
Essa conversa durou bom tempo. E já derivava para os assuntos mais estranhos ao momento. Tudo em razão de ter alguém falado em cuspir no prato.
– Uma porcaria.
Chico Pavão tomou a palavra e lembrou o porco morto no dia anterior. Zeca Rucinho pôs se a falar de banha. Outro, desatento, ouvia a palavra banho, e o assunto passou ao rio.
– Está enchendo.
Logo anunciaram chuva, inverno, fartura.
O rival do caprino andava para lá e para cá, furioso, faca em riste. E ora resmungava insultos inomináveis, ora enchia a boca das mais absurdas ingresias.
– Esse diabo vai me pagar caro a diabação que fez comigo, com ela, Rosa, com moedas, trinta mil réis, judas, judeu, judiador...
Incitados, os outros deixaram para trás a conversa fiada e se voltaram de novo para o preso. Tabacão armou se de um pau e propôs quebrar os chifres do traidor a pauladas. Zeca Rucinho queria se encarregar dos olhos. Com a ponta da faca cegava o bicho.
– Ele nunca mais vai ver mulher.
Para Pedro Pontaria não havia melhor meio de castigar Zé Bugre do que a castração. Segurassem bem o safado. Ali mesmo fariam o serviço. Coisa de minutos.
– Minha faca está bem amolada.
E ofereceu arma a quem quisesse cortar as coisas do sedutor. Aliás, o direito de dar o castigo pertencia ao marido ofendido. Para lavar a honra com sangue. Os urubus cuidavam do resto.
E deram boas gargalhadas, que se misturaram aos berros do bode.
Mas Raimundo não concordava com aquilo. O animal podia morrer. E ele não tinha certeza do crime. Talvez Zé Bugre estivesse apenas trocando de roupa. Afinal, entre irmãos e mesmo entre primos sempre aconteciam certos exageros.
– Eu quero ouvir a confissão dos dois.
Se Rosa confirmasse as suspeitas, então não restava outro jeito senão castigar Zé Bugre. Para servir de lição a todos. Assim, ninguém ousaria se aproximar de Rosa.
Ora, ora, não havia dúvida nenhuma. Então um homem entrava no quarto de uma senhora, tirava a roupa dele e dela, e ainda assim não estava fazendo safadeza? Aquele sem vergonha havia abusado de Dona Rosa, sim, senhor.
– Mulher tão bonita e direita – murmurava Chico Pavão.
Deviam não só castrar e cegar, como também sangrar e esquartejar o pecador. Deus e a Virgem Santíssima iam abençoar tudo.
O dono do sítio ordenou silêncio. Deixassem de heresias. Não, não ia tomar qualquer atitude por enquanto. Faria um julgamento justo. Levaria Zé Bugre à presença de Rosa. Queria ouvir dela, tintin por tintin, aquela história. Todas as suas dores, todo o seu sofrimento. Tudo o que houvesse sofrido nas mãos dele.
– Nas patas, Seu Raimundo – remendou Zeca Rucinho.
O coitado podia até ser inocente. E estar sofrendo uma grande injustiça.
Inquisição
Raimundo Valente arrastava o bode pelo cabresto. Os outros voltaram a cuspir e chutar o animal.
– Cabra safado! – resmungava Pedro Pontaria.
E lamentava as dores sofridas por Rosa nas mãos daquele lúbrico e violento animal. Parecia até chorar.
O preso resistia, fincava as patas no chão. Talvez pressentisse o pior. E berrava, desesperadamente.
Ao chegarem ao terreiro, Raimundo amarrou a ponta da corda a uma das pilastras do alpendre. Daria início ao julgamento em um minuto. Precisava apenas da presença de sua mulher – a vítima do crime. Iria chamá-la. E também trocar a roupa, vestir o terno novo. Vigiassem, pois, o criminoso.
Rosa chorava, deitada na cama. E nem sequer olhou para o marido, quando ele entrou no quarto.
– Ele está aí fora, amarrado.
E resumiu o que ia fazer: julgá lo perante o povo. Tudo, porém, dependia dela. De suas respostas. Se confirmasse ter sido atacada, obrigada a tirar a roupa, então Zé Bugre seria condenado.
A mulher deixou de chorar e levantou se. Olhou para o marido e perguntou se Zé Bugre estava bem.
– Ele virou bode – rosnou o homem.
Rosa empalideceu, arregalou os olhos e deu um gritinho. Talvez não tivesse ouvido direito.
– Você disse que ele virou bode?
– E dos mais feios.
Meteu na cabeça um chapéu coco marrom e vestiu o terno de linho. Ela não precisava se arrumar.
– Vamos começar logo o julgamento.
E se dirigiram ao alpendre.
O bode não parava de berrar e os homens riam.
– Meus senhores – anunciou Raimundo – vou dar início à condenação do criminoso Zé Bugre.
A mulher examinava cada centímetro do corpo do caprino. Ia dos chifres ao rabo, passando pelo ventre. Como podia um homem bonito como Zé Bugre se transformar num bode feio como aquele? E chorava baixinho.
Raimundo Valente explicava como iria proceder. Primeiro faria a acusação, em seguida dirigiria perguntas à vítima e, por último, ditaria a sentença. O acusado não seria interrogado, por não saber falar.
A acusação consistia em ter o animal invadido a casa e abusado de Rosa, aproveitando se da ausência de Raimundo. E também em ter se transformado em bode. Crime este talvez até mais grave do que o primeiro. Porque cometido contra a natureza.
– Coisa do Capeta, bruxaria!
E todos se benzeram.
O dono do sítio aproveitou o gesto dos moradores para interromper o libelo.
– Vamos rezar uma ave-maria.
Rezaram, em voz alta, a oração. Ajoelhados, contritos, mãos juntas.
Terminada a reza, Raimundo se voltou para Rosa e ordenou lhe que contasse tudo. Ela se pôs a chorar e tremer. Balbuciava monossílabos, pedaços de frases.
– Fale alto, para todo o mundo ouvir – gritou seu marido.
Ela continuou cabisbaixa, chorosa, quase muda. Talvez não soubesse contar o começo da história. Ou se lembrasse apenas do meio.
– Ele se deitou na cama?
Rosa balançou a cabeça, como a dizer sim.
– Ele tirou a roupa?
A mulher repetiu o gesto.
– Toda?
Os moradores do sítio não tiravam os olhos dela. Pareciam hipnotizados, embasbacados, queixos caídos, a babar.
– Ele tirou sua roupa ou obrigou você a se despir?
Após a centésima pergunta, Raimundo se disse satisfeito. Dava por encerrada a inquirição. As respostas dadas por Rosa esclareciam os crimes.
– Não precisa mais chorar.
Restava dar a sentença. Não guardava dúvida nenhuma sobre o desfecho da questão: Zé Bugre precisava ser condenado.
– Só não sei qual deve ser a condenação.
Para Chico Pavão, o bode tinha de ser capado e depois retransformado em homem. Pois, se permanecesse bode, não sentiria nenhuma vergonha.
Quase todos apoiaram essa proposta. Não existia castigo como esse. A não ser a morte – observou Pedro Pontaria. E fez um discurso inflamado a favor da pena capital.
– Não merece viver quem desmancha um lar.
E apontava, iracundo, o olho direito para as partes pudendas do caprino.
Coitada de Dona Rosa. Como devia ter sofrido nas mãos daquele cabra imoral! Reparassem bem nas feições do bicho. Aquela boca gulosa, aquela testa dura, aquele corpo de monstro.
Decidiram todos, então, dar morte a Zé Bugre. Morte imediata, violenta, sem clemência.
Rosa chorou mais ainda. Todo o seu rosto estava molhado e triste. Como se fosse ela a condenada.
Raimundo Valente nem olhava mais para ela. Muitas questões ainda careciam de respostas.
– Que tipo de morte nós vamos aplicar?
Para Zeca Rucinho o condenado devia ser enforcado. Os outros, porém, disseram ser difícil enforcar um bode.
Uma das propostas mais aplaudidas partiu de Tabacão. Como qualquer bode, Zé Bugre receberia morte. Após o sangramento, viria o esquartejamento. A terceira etapa do sacrifício seria o cozimento das carnes.
– Vamos almoçar bode cozido – gargalhava Tabacão, a enorme cabeça a pender ora para um lado, ora para outro.
Nem todos, porém, concordavam com o modo de fazer a ingestão dos restos mortais de Zé Bugre. Alguns preferiam a carne assada.
– Eu arranjo a lenha, faço o fogo – entusiasmava se Manduca, o líder do grupo dissidente.
Durante muito tempo o marido de Rosa permaneceu calado, absorto, distante. Como se não visse ninguém ou estivesse só. Despertou o a briga entre os partidários da carne cozida e os da assada. Preparavam se já para o enfrentamento armado, com promessas e juras de morte.
– Calma, pessoal, calma!
E impôs silêncio e paz ao ambiente. Ouvissem bem: pretendia fazer uma cruz e nela pregar aquele filho de uma égua.
Ninguém gritou nem ousou censurar a pretensão do dono do sítio. Havia estupefação nos olhos de todos. Como crucificar um bode?
No entanto, a crucificação não podia ser feita logo. Precisava consultar padre Divino. Afinal, tratava-se, o condenado, de um homem.
– Muito embora feito bode – argumentava Raimundo, sereno como nunca.
E se o animal tomasse de novo a forma humana? Ele, Raimundo Valente, católico apostólico romano, não queria crucificar um homem, nem mesmo o sedutor de sua legítima esposa.
– Não sou judeu, minha gente.
Questões antropofágicas
Manduca amuou-se. E retirou se para um canto, a resmungar. Se sentiam pena do bode, então fossem lamber o rabo dele. Coisa daquele Raimundo Valente.
– Unha de fome!
Não acreditava nem um bocadinho naquela história de homem virar bode. Conversa para boi dormir.
O dono do sítio cuspia argumentos em defesa de seus próprios receios. Aquele não era um bode como os outros. Já fora homem. Exatamente Zé Bugre, o primo de sua mulher. Não podia, pois, matá-lo, assim sem mais nem menos. Carecia de consultar pessoas mais sabidas. Principalmente o padre Divino. Sem o consentimento dele, não mataria o animal. Podia cometer pecado mortal.
– Deus me livre disso!
E benzia se.
Convencidos, os outros se aquietaram e guardaram suas facas. Até Manduca. Talvez Raimundo falasse certo. Um dia a mais não dava para matar ninguém de vontade de comer carne caprina.
Raimundo Valente decidiu: iria a Palma imediatamente. Contaria tudo ao padre Divino.
– Quem quiser ir comigo, vamos.
Todos queriam voltar à cidade.
– Só vai quem tiver montaria.
E o prisioneiro? Bem lembrado. Alguém precisava ficar, para vigiá lo.
– Não confio nessa corda – ponderou o marido de Rosa.
Além do mais, a mulher não teria forças suficientes para segurar o animal. Se metesse os pés para fugir, nunca mais o pegariam. Bicho danado de tinhoso.
– Mulher sempre é mais fraca.
Ficasse, pois, um homem. Bastava um. Quem se oferecia?
– Então fica você, Pavão.
Porém, para maior segurança, achava melhor levar o bode para dentro de casa. Se conseguisse roer a corda, só fugiria se as portas e janelas estivessem abertas.
– Melhor ainda é trancar o cabra num quarto – sugeriu Chico Pavão.
Ótima idéia. Amarrado ao pé da cama. E o vigia postado à porta, de faca em punho. De olho no safado.
– Se ele se soltar, passe a faca.
Mas não matasse.
Enquanto aguardava os outros, Raimundo ditava instruções a Pavão e Rosa. Queria estar de volta antes do entardecer. Com a decisão definitiva. Confiava na sabedoria do padre Divino.
– Então até mais tarde.
E saiu a comitiva no rumo de Palma. À frente, montado num belo cavalo, ia o dono do sítio. Dava explicações e ordens a seus comandados.
No chão, suas sombras quase desapareciam debaixo das patas das cavalgaduras.
No meio do caminho, ordens e explicações deixaram de existir. Só havia sol e solidão. Além deles. De vez em quando alguém exalava uma frase já dita.
– Nunca na minha vida vi coisa tão esquisita.
Algum bichinho no chão, pulando, voando? Não, falava de Zé Bugre.
Quem diria que o cabrinha fosse capaz daquilo.
– De mexer com Dona Rosa?
Não, de virar bode.
Manduca resmungava de novo. Por que diabos não abria a boca direito? E aquela mania de sempre ficar para trás! Se não queria ir, voltasse. Ainda estava em tempo.
Manduca achava inútil aquela caminhada. Já deviam ter matado o bode. Aquela carne tinha jeito de ser uma delícia. Até ficava com água na boca quando pensava nela, na carne assada.
– Prefiro cozida – gritou Tabacão.
E todos viram a sombra de sua cabeçorra engolir a de sua mula.
Raimundo Valente impôs se como capitão. Calassem a boca, deixassem de besteiras. Por acaso não se lembravam mais que o bode era homem?
– Ninguém come carne humana.
Sentia até nojo de ouvir semelhantes imundícies.
Como pensar em roer as costelas de Zé Bugre? E quando chegasse às nádegas, aos testículos, ao pênis?
– Vocês não pensam nisso, animais?
E encheu se de fúria.
Meteu as esporas no cavalo, que disparou. Os outros o seguiram.
Adiante, cansados os animais, pararam. Não havia tanta pressa. O padre talvez dormisse depois do almoço.
Puseram se de novo a cavalgar. Calor dos seiscentos diabos.
– Nunca vi coisa tão estranha em toda a minha vida.
Falava do calor? Não, de Zé Bugre. Pois aquela cara de cabra desconfiado não negava que fosse capaz daquilo. De se aproveitar de Dona Rosa?
– Não, de se tornar bode.
Manduca confabulava com sua mula velha. Tanta carne e ele com fome. Em vez de se matarem debaixo daquele sol, podiam muito bem estar almoçando carne assada.
– Deixe de heresias, homem! – ralhou Raimundo Valente.
Não eram canibais para comer carne humana. Ou se esqueciam de que o animal havia sido Zé Bugre?
E por longo tempo pregou aos moradores do Tijuca sua indignação. Nem pensar em comer carne de homem.
– E se fosse uma cabra? – insistiu Manduca.
Raimundo e os outros se voltaram para ele, desconfiados. Onde fora arranjar a cabra?
– Quer dizer, se uma mulher virasse cabra.
Ninguém deu ouvidos à conversa de Manduca. Talvez tresvariasse. Calor e fome juntos. Qual nada, costumava dizer besteiras. Um desmiolado!
Enquanto os outros discutiam, Pedro Pontaria falava só. Aquele bode devia ser muito safado.
– Coitadinha!
E lamentava os sofrimentos tidos por Rosa. Aquele focinho cheio de pêlos cheirando a pobrezinha.
Raimundo mudava de assunto. o destino do bode nojento repousava nas mãos de padre Divino. Sua palavra bendita, sua sabedoria, sua decisão – ninguém poderia opor se a elas. Zé Bugre, o traidor, iria para o inferno.
– Não gosto nem de pensar no que ele fez com Rosa.
Sentia até um arrepio na espinha. Um calafrio medonho no corpo inteiro.
(Continua)