As insolentes (3)
(Continuação)
O VENCEDOR
A platéia lotava o auditório. Estudantes, professores, curiosos em geral, além de escritores locais e de fora. Repórteres de televisão, jornal e até rádio. Iluminavam o recinto com suas luzes importunas. Mocinhas mostravam os dentes, matronas se esparramavam nas cadeiras, velhotes faziam caretas. Ninguém queria perder um só detalhe da festa. O vencedor talvez até saísse carregado nos braços da multidão, consagrado para todo o sempre.
À mesa sentaram-se altas autoridades: o governador, acadêmicos, bispos. Ao centro, o patrocinador do concurso, doutor Miro Spiegel, que abriu a solenidade com um discurso enfadonho, de tão longo, repleto de citações — de Aristóteles a Zaratustra. Aplausos não lhe faltaram, o que o fez perder o fio da meada por diversas vezes.
— Como eu dizia... quero dizer, Nietzsche escreveu...
Ao virar a enésima folha sobre a mesa, anunciou finalmente o item mais importante de sua prédica e da festa — ia revelar o nome do vencedor. A platéia subitamente emudeceu. Suspiravam os corações esperançosos. Todos os olhos miravam a boquinha miúda do discursador.
— Vou anunciar o nome do grande vitorioso — repetiu Miro.
A multidão se fez mais atenta, pescoços esticados para a frente, mãos em concha ao redor dos ouvidos, como se a voz de Miro não jorrasse dos possantes amplificadores espalhados pelo auditório.
— O título da obra é...
Miro Spiegel empalideceu, sorveu meio copo de água, esfregou o lenço na testa.
— Desculpem, estou emocionado.
Alguém gritou um desaforo. Exigia brevidade.
— A obra vitoriosa foi Ao vencedor, as batatas.
Houve palmas, muitas palmas, na platéia e na mesa. O governador chegou a sorrir, acadêmicos tossiram, fungaram, pigarrearam, bispos beijaram crucifixos, e Miro Spiegel não parava de enxugar o suor do rosto. As luzes dos repórteres provocavam muito calor. E os corpos da multidão também.
Miro Spiegel, diziam seus biógrafos mais impiedosos, quer às mesas dos bares, quer às cadeiras dos lares, alimentou durante anos seguidos o sonho de ter editado um livro. Não numa edição qualquer, por conta própria, mas por editora de peso, que aprovasse sua obra. Escreveu desde a mais tenra barba e nunca conseguiu um só editor. Nem mesmo promessa. Participou de todos os concursos literários — nacionais, estaduais e municipais — e nunca sequer lhe devolveram os originais. Não desistia, porém, da mania de ser literato. Ou de conviver com a literatura. Daí o patrocínio do importante prêmio denominado “Machado de Assis”, para romance inédito. O gahador teria a obra editada por qualquer das grandes editoras do país, receberia uma quantia em dinheiro equivalente ao valor de luxuoso apartamento em Copacabana e seria divulgado nacionalmente. Tudo patrocinado pelo próprio Spiegel, acionista majoritário de um conglomerado de empresas do ramo de vidros.
A festa, então, chegava ao seu clímax. A platéia inteira já conhecia o título da obra vitoriosa. Logo a imprensa divulgaria a notícia para os quatro cantos do país.
— Não sei se está escrito aqui o pseudônimo ou o nome verdadeiro do autor — retomou a palavra Miro. — Quero crer que possa se tratar de uma singela homenagem...
Quando declinou o nome do vencedor, a platéia riu, entusiasmou-se, gritou, aplaudiu. Não, talvez houvesse algum equívoco. Ou uma brincadeira de mau gosto. Sim, queriam empanar o brilho da festa. E o rosto de Spiegel encheu-se de rugas, sisudez, pavor. Como se a morte se houvesse instalado nele. Ainda assim, retomou o microfone:
— Senhor Miro Spiegel, ou quem quer que se esconda atrás deste pseudônimo, queira aproximar-se da mesa.
Os olhos de todos se esbugalharam, prontos a ver primeiro o vencedor. Quem seria o genial romancista? Quem seria o irônico criador de tão estranho pseudônimo?
E, saído do meio da platéia, de algum lugar do mundo, surgiu no corredor, entre fotógrafos e retardatários, uma figura sisuda, silenciosa, solerte, quase inerte, não fosse caminhar em direção à mesa. Pausada e misteriosamente andava, sob os olhares estupefatos da platéia e da mesa.
— Quem é ele? — murmuravam.
Ninguém parecia conhecê-lo, pois todos o olhavam como se o vissem pela primeira vez.
— Talvez não seja o vencedor.
— Algum engraçadinho.
— Um doido qualquer.
O homem aproximou-se do tablado, subiu mecanicamente os degraus, e já Miro Spiegel o esperava, de pé, pronto para os parabéns da eternidade.
Sobre a mesa brilhava uma medalha de ouro, junto a um diploma em pergaminho e um cheque milionário.
A platéia, calada, parecia encantada, como se o tempo tivesse parado, toda voltada para o instante supremo. E então o desconhecido aproximou-se mais e mais de Miro Spiegel, apertaram-se as mãos, abraçaram-se e fundiram-se num só.
MUNDO LIVRE
Cena n. º 1
O casal caminhava distraidamente pela calçada. Parecia em lua-de-mel. Ele falava, ela sorria. Diante da Casa Preard, o sorriso da moça se desfez. Um rapaz se havia aproximado dela e dirigia-lhe a palavra. Gesto de susto, esgar de espanto. O marido (ou namorado) parou e fez o outro também parar. E sacou da cintura um revólver. A moça se encolheu, gritou e abraçou-se ao companheiro.
— Vou matar esse atrevido. Dar um tiro na boca desse moleque.
Não saiu bala nenhuma da arma. Só muito suor e tremor. O rapaz já ia longe, sumido no meio da multidão.
Cena n. º 2
O casal caminhava. Mudos, automáticos, sonâmbulos. Ele fumava, ela passava a língua nos lábios. Diante do Posto Telefônico da Rua Gione, ela acordou. Um sujeito perguntava se podia acompanhá-la. Talvez um cego. Ora, não dava para ver o marido ao lado?
Também acordado, o homem mudo sorriu, parou e se interessou pela conversa. Que dizia o jovem? Poderiam ir a um restaurante. Aliás, fossem na frente. Ele iria depois.
Cena n. º 3
Estava um homem sentado num banco da praça. Fazia muito calor, o sol abrasava. Restava descansar e ver os outros passarem.
Outro homem sentou-se a seu lado. Calor, falta de chuva, céu azul.
— Quer me vender uma orelha?
O primeiro homem olhou, assustado, para o outro. Talvez tivesse falado em ovelha. Melhor não responder nada.
O outro repetiu a proposta. E olhava, com seus olhos muito azuis, para a orelha do vizinho.
— Não vendo, mas troco.
O de olhos azuis assustou-se. Com certeza o primeiro não ouvia direito. Muita cera no ouvido. Talvez tivesse compreendido ovelha em vez de orelha.
— Estou falando de orelha — gritou.
— E eu estou falando de olho. Troco uma orelha por um olho.
Cena n. º 4
O homem pôs-se a atravessar a rua. Carros iam e vinham, em disparada. Súbito o homem voou. O carro parou. Algumas pessoas correram para junto do corpo caído. Saía sangue da cabeça do atropelado. Do nariz, da boca, dos ouvidos. O motorista atropelador olhou para um lado e outro. Já havia gente demais ao redor do homem. Ligou o motor e sumiu.
— Está quase morto — disse uma pessoa.
E retirou da bolsa uma navalha. O homem não sentiria dor nenhuma. Estava quase morto.
— Corta logo, Pedro.
O homem caído gemeu, quando a navalha decepou-lhe a orelha direita.
— Que belo orelhão!
Cena n.º 5
Armados de revólveres, um grupo de rapazes assaltou a estação de rádio. E prendeu num banheiro radialistas e funcionários em geral. Menos um. Precisavam de sua orientação técnica. Queriam ler um manifesto político. O governo representava uma minoria. Havia fome, miséria, desemprego.
Leu o texto o nervoso Jesonias, aplaudido pelos companheiros.
Tudo em vão, porém. A rádio estava fora do ar.
Cena n. º 6
Alegres, rapazes e moças lotaram os estúdios da rádio. O locutor pediu silêncio. Não podia trabalhar daquele jeito.
— Só um minutinho — sorriu uma das moças.
— Hoje é o Dia da Poesia — argumentou outra.
Só queriam um minutinho. Célia iria ler um poeminha. Pouco mais de dez versos.
Conduzido para fora do estúdio, o locutor não ouviu uma só palavra do manifesto. Só a luta armada libertaria o país das mãos sanguinárias dos generais.
Imediatamente após a leitura da declaração, procederam-se prisões de alguns líderes oposicionistas. As forças armadas se puseram em prontidão. Talvez se decretasse estado de sítio.
***
As seis cenas narradas foram protagonizadas por participantes de uma gincana. Muitas outras aconteceram no mesmo dia. Quase todas semelhantes a estas.
Promoveu a brincadeira uma rede de televisão. Para divertir a cidade — dizia o locutor.
Ao término da competição, os dirigentes da TV falaram em êxito total e revolução na comunicação. Apesar de alguns incidentes. Inevitáveis, segundo os comunicadores. Aliás, sem eles, os incidentes, a brincadeira não teria graça nenhuma.
Uma das tarefas propostas consistia em um homem abordar uma mulher na rua. E convencê-la a acompanhá-lo a qualquer recinto onde pudessem manter relações amorosas. A proposta deveria ser feita diante do marido, amante ou namorado da mulher.
A cena seria filmada, de longe, por cinegrafistas da TV.
Os mais medrosos abandonaram a gincana ao tomar conhecimento do conteúdo da tarefa. Muito arriscado. Ainda havia homem ciumento e violento.
Realmente, ocorreram violências quase incontroláveis. A custo, o pessoal da televisão conseguiu convencer maridos, amantes ou namorados de que se tratava de brincadeira.
O protagonista da cena n. º 2 julgou ter cumprido a tarefa. Os julgadores, porém, disseram o contrário. Nenhum homem normal entregaria sua mulher a outro. Os três se haviam mancomunado, com certeza.
Algumas equipes recusaram participar da tarefa ora mencionada. Viram com naturalidade, no entanto, a da orelha. Ora, que importava uma orelha? Nenhum mendigo deixaria de vender uma orelha a bom preço. Enganaram-se, porém. Todos os mendigos abordados tiveram reações surpreendentes. Uns chegaram a agredir os autores das propostas. Fossem comprar orelhas de ricos. Valiam mais, além de serem limpas e sadias.
A tarefa consistia em levar aos estúdios da televisão uma orelha humana. Direita, esquerda, masculina, feminina, pequena, grande. De qualquer cor ou feitio.
Não valia, no entanto, orelha de defunto. Aliás, o ato de cortar a orelha deveria ser realizado diante das câmeras, no estúdio, na presença da comissão julgadora.
Assim, não valeu o esforço dos rapazes da cena n. º 4.
Uma das tarefas consideradas de mais fácil realização consistia na leitura pública de um manifesto político. A mensagem deveria ser transmitida por qualquer estação de rádio da cidade.
***
Noite de gala. Entrega dos prêmios milionários aos vencedores da gincana. Os patrocinadores felicíssimos. E a Rede de Televisão Mundo Livre de parabéns por divertir tão sadiamente o povo.
EUCARISTIA
São três meninos. Raquíticos, sujos, esmolambados. Talvez irmãos. Lutam entre si pela posse de restos de comida. Há bolinhos de arroz, fiapos de macarrão e carne. Pedaços de frango assado. Asas, pescoços, pés. Tudo já roído, descarnado, puro osso. Estão sentados no chão e não param de mastigar, falar, roer, rosnar.
Ao largo, pacientes, vira-latas esperam o fim do banquete. Há de sobrar algum osso. Por menor que seja. Dedos, bicos, pontas.
O jornal onde veio a comida amarrotou-se, rasgou-se. Só restam letras e fotos. Não é possível comer papel. Resta lamber. Chupar o óleo. Espremer as folhas.
Estão lambuzados os três meninos. Irreconhecíveis. Cobertos de partículas brancas, amarelas, incolores. Macarrão nos cabelos, arroz nos olhos, carne nas narinas. Catam-se uns aos outros. Nada pode se perder. Embora fartos. Barrigas inchadas, moleza nos corpos.
Do outro lado da grade de ferro, outros meninos brincam. Estão seminus. Apenas os sexos cobertos. Saltitam, pulam, riem, ao redor da piscina. São muitos, multiplicados pelo espelho da água. Todos enormes, limpos, bonitos. Talvez irmãos, amigos.
Acorrentado, um cão formoso espreita o mundo. Protege os banhistas, a piscina, o jardim, a mansão. Nenhum vira-lata transporá a grade de ferro. Nem sequer se aproximará dela. Nenhum menino sujo abocanhará seu filé. E rosna.
Assustados, os três meninos apanham os últimos ossos e correm. No seu encalço vão os cães famintos.
Guardião sossega e morde um naco de carne. Os meninos seminus caem na água.
AMAPA
Liana Bennato sorriu e fez mais uma pergunta. Se Amapa conhecia o Amapá. O grande astro também sorriu e tudo nele brilhou: os dentes, os olhos, os brincos, o cabelo.
O homem e a mulher não despregavam os olhos da televisão, enquanto as crianças brincavam, sentadas a um canto da sala.
— Não façam barulho.
Amapa não parava de sorrir e brilhar, e a bela repórter enrodilhava-se toda diante dele. O grande público certamente delirava à frente dos televisores. Como o homem e a mulher que ralhavam com as crianças em brincadeira.
— E a origem de seu nome?
— Eu já havia escolhido meu nome artístico, quando uns amigos criaram Amapa. Segundo eles, muito mais comercial.
Liana Bennato repetiu para os telespectadores o vasto nome de batismo do artista: André-Maria Ampére Parente.
— Alguma homenagem, Amapa?
— Acredito que à eletricidade. Meu pai era eletricista.
— Você se refere à palavra ampère, não é? E de onde vem André-Maria?
O homem e a mulher sacudiram-se no sofá e chamavam a atenção das crianças para a entrevista.
— André e Maria, vejam, vejam!!!
— Que coisa mais linda! — derretia-se a mulher.
A loira repórter também brilhava diante das luzes: qual teria sido então o nome artístico dado a si mesmo por Amapa?
— A. Parente.
— Não, não ia ficar bem — considerou o homem.
— Eu preferia Amperente — luziu a mulher.
Nem assim os dois pequenos desviaram a atenção de suas bugigangas.
— Amapa, fale-nos de seus planos para este ano.
O grande astro falou primeiro do disco a ser gravado nos Estados Unidos e, em seguida, passou à turnê pela Europa.
O homem e a mulher continuavam ligados à tevê, olhos arregalados, ouvidos abertos, respiração presa. Amapa cativava ambos os sexos, agradava a gregos e troianos, compunha, cantava, dançava. Um poeta inimitável.
— Compre o disco novo do Amapa — ordenava a mulher.
— Já comprei — adiantava-se o homem.
Ora, então ia deixar de ter à mão aquela voz maravilhosa? Há mais de dez anos acompanhavam o sucesso de Amapa. Desde o primeiro LP.
— Você se lembra, meu bem?
— Claro que me lembro.
Havia até um cantor muito parecido com ele.
— Quem era, hem?
— Não me lembro agora.
As crianças não ligavam para a televisão, nem para o homem e a mulher extasiados diante dela. Preferiam brincar. E tudo lhes servia de brinquedo. Tudo o que não interessava mais ao homem e à mulher.
— Me dá isso, pai.
E a velha lista telefônica virava aeroporto. Os aviões nem sempre tinham asas e só faltavam se espatifar na hora do pouso.
— Não façam barulho, filhinhos.
No televisor, Amapa cantava trechos de uma das músicas do novo disco. A repórter delirava. O homem e a mulher deram-se as mãos.
— Amapa, sempre Amapa.
Os pequenos esfregaram um objeto no chão da sala. Uma velha capa de disco. Ora, aquilo irritava. Parassem já com a esfregação.
— Amapa, conte-nos aquela história da festa – pediu Liana.
O astro sorriu e tudo nele brilhou: os dentes, os olhos, os brincos, o cabelo. Acreditava no destino. Desde menino sonhava com o sucesso. Um dia, descobriu que se parecia naturalmente com certo cantor de nome L. Veríssimo, então no auge da fama. E resolveu aproveitar-se daquilo, apesar de ser muito mais novo do que o cantor.
— A festa não tinha nada a ver com a música. Era o casamento da filha de um político importante, que, aliás, já morreu. E eu simplesmente fui à recepção, como se fosse L. Veríssimo.
— E ninguém desconfiou de nada?
— Não sei. Só sei que olhavam muito para mim. O resto você sabe.
O homem e a mulher gargalhavam, batiam palmas, faziam o maior barulho, enquanto as crianças rasgavam livros e capas de discos antigos.
OLHO MÁGICO
A campainha soou e Inácio assustou-se. O jornal chegou a escorregar de suas mãos. Por que só inventavam torturas? Bem podiam conservar as pancadas com os nós dos dedos, as palmas, os “ôi de casa”. Civilização do terror, era o que era.
A resmungar, deixou o jornal espatifar-se no chão e arrastou-se na direção da porta. Não deu tempo, ao menos, de meter os pés nos chinelos. Melhor, talvez fosse visita indesejável, vendedor de porcarias, cobrador de dívidas. Nem devia atender. Nem sequer levantar-se do sofá. Mas a campainha voltou a berrar e Inácio apressou o passo.
— Já vai.
Aproximou-se da porta, levou a mão à maçaneta e só então se lembrou do olho mágico. Primeiro precisava saber quem o procurava àquela hora. Seguro morreu de velho. O nariz chegou a doer. Olhou, olhou com atenção. E viu, do outro lado, o homem. Não, não podia ser verdade. A não ser que o olho fosse um espelho. Ou então houvesse um espelho do outro lado da porta. Ora, o homem era a sua imagem e semelhança. Deixou-se a olhá-lo, admirá-lo, investigá-lo. O mesmo rosto, o mesmo jeito, o mesmo corpo. Afinal, devia abrir ou não a porta? E se se tratasse de uma cilada? Um mascarado?
Imaginava mil possibilidades, e o outro postado diante da porta, pensativo, paciente, persistente. Não acionou mais a campainha, porém. Até que Inácio se cansou e voltou ao sofá.
— Ora, não há olho mágico — murmurava, enquanto apanhava do chão o jornal.
O DIÁRIO DE JUDAS
Por que estás abatida, ó minha alma?
Por que te perturbas dentro de mim?
Salmo 42 — O Livro dos Salmos
Cansado de mirar os quadros pendurados às paredes, João Batista se pôs a andar pela sala. Olhava para o chão, as pontas dos pés, em passo cadenciado de sentinela. Sentiu dor na nuca, parou perto da mesinha de centro e bruscamente levantou a cabeça. A lâmpada acesa parecia o Sol ao meio-dia. Martirizava-o a liberdade de ir e vir dentro de casa. Ninguém para falar mal das autoridades. Ninguém para lhe fazer perguntas cotidianas. Ninguém para incomodá-lo, até mesmo insultá-lo.
Talvez na rua encontrasse um homem revoltado. Ouviria mil ofensas ao Presidente, ao Governador, ao Prefeito. Poderia mesmo dar de frente com um policial astuto que visse nele o monstro da Rua Morgue. Tentaria convencer o polícia de que nem sabia onde ficava tal rua.
Na pior das hipóteses, um bandido o assaltaria. Durante alguns minutos se veriam frente a frente. Trocariam palavras, mesmo ásperas. O desalmado salteador levaria seu relógio, seu dinheiro, seus sapatos.
Não, nada de violência. Com certeza a rua estaria repleta de belas mulheres. E pelo menos uma delas solitária, necessitada de companhia.
João Batista baixou a cabeça, olhou para a porta fechada e partiu em busca da companheira ideal.
Mal chegou à rua, avistou a banca de jornais. E qualquer coisa o conduziu até lá. Talvez o bigode do jornaleiro.
— Já chegou o Diário?
João Batista nem ouviu a resposta. Nem sequer olhou para o enorme bigode do homem. Um jornaleco qualquer anunciava o leiloamento do diário de Judas Iscariotes.
— Quanto custa?
Meteu a mão no bolso, agarrou o jornal e se retirou. Queria ler sossegadamente aquela notícia maravilhosa.
O jornaleiro assanhou o bigode e pôs-se a contar dinheiro.
João Batista refestelou-se num banco da praça e arregalou os olhos para as letras do jornal. Interessava-lhe o diário do apóstolo da traição. Nada de abalos sísmicos, viagens de naves soviéticas, descobertas de animais pré-históricos. O discurso do Presidente não merecia comentários. O jogo de futebol, a cotação do dólar, as belas pernas da miss — tudo sem atrativos.
Um velho de roupas sujas e rasgadas aproximou-se dele e pediu uma esmola.
— Pelas chagas de Jesus! — completou.
João Batista olhou para o pedinte, sorriu e mostrou-lhe o jornal.
— Leia isto primeiro.
— Eu não sei ler, meu senhor.
— É uma notícia muito interessante. Fala do diário deixado por Judas.
— O traidor, aquele que entregou Jesus para ser crucificado?
— Sim, aquele mesmo.
O mendigo pediu licença para sentar-se. Sentia-se cansado, faminto, solitário.
— Na verdade, são apenas trechos, partes do diário. Foram encontrados em Jerusalém por um grupo de pesquisadores suecos. Escritos em hebraico.
— Deviam ter queimado tudo — observou o velho.
— Nada disso, meu amigo. Trata-se de um documento valiosíssimo.
— Que valor? Essa coisa não vale nada. Um homem que nem Judas...
— Pois fique sabendo que o tal escrito foi leiloado em Nova Iorque e o ganhador pagou uma fortuna.
— Deve ser algum judeu — advertiu o mendigo.
— Não, é um inglês chamado John Mock.
— É um nome engraçado.
Uma jovem a rebolar-se olhou de soslaio para os dois homens. Nenhum deles se interessou pelas ancas dela.
— Sabe o que Judas escreveu?
— Não.
— Ele fala o tempo todo de sua grande angústia de oprimido. Odiava os opressores romanos e lutou a vida toda contra eles. Ouça só essa frase: “Os meus ossos já se apegam à pele, por causa do meu dolorido gemer”.
— Deve ser tudo mentira — rosnou o pedinte.
— Ele acusa Jesus de trair a causa dos judeus, de não se dedicar à luta contra os romanos.
— Isso é uma heresia, meu senhor!
— Não sei do que se trata. E, se for heresia, isso não tem a mínima importância histórica.
— O que o senhor quer dizer?
— Escute esta outra frase: “Vou passando, como a sombra que declina”. É poético, não é?
— Vou me retirando.
— Espere, espere um pouco. Deixe-me ler o resto da notícia.
Nada, porém, impediu a retirada do mendigo. Irritado, João Batista rasgou o jornal e levantou-se do banco. A passos largos, tentou reencontrar o velho de roupas sujas.
Mais adiante parou, lembrou-se do jornal e se pôs a andar.
A ÚLTIMA FESTA DE UM HOMEM SÓ
Estirado no sofá, Fausto lia. Ou talvez apenas namorasse as letras. Não havia mulher no resto da casa. Ninguém mais. Apesar disso, ele vestia um roupão elegante e de seu corpo recendiam perfumes de devassidão.
O livro por pouco não lhe caiu das mãos, quando uma campainha tocou. Não eram horas de despertar. Quem estaria à porta?
Tocou de novo. Fausto largou o livro e correu ao telefone. Alô, boa noite, quem fala?
A voz dizia ser de Sardanapalo.
No entanto, Fausto não se lembrava de ninguém com esse nome. Não seria Assurbanipal?
De qualquer forma, desejava o quê?
Ajuda. Preciosa ajuda. Só ele, Fausto, poderia ajudá-lo. Queria promover uma festa em seu palácio.
Fausto riu. O sujeito só podia estar brincando. Ora, não entendia nada de festas nem de palácios. Fosse para o inferno.
Ia desligar o aparelho e dizer, embora para si mesmo, mais uns desaforos.
— Sou o rei da Assíria.
Conteve-se e comprimiu o fone contra o ouvido. À festa deveriam comparecer os monarcas de todos os tempos. Vivos e mortos.
Riu mais uma vez Fausto. Aquele rei vivia em algum manicômio. Continuasse, pois, a dizer disparates. Rir até fazia bem.
Como Fausto fosse pessoa bem relacionada, amigo de reis e rainhas, contava Sardanapalo com a valiosa ajuda dele. Em troca, oferecia-lhe a sua amizade. Aliás, precisavam se conhecer pessoalmente. Aguardasse, pois, sua visita. Assim arranjariam juntos a relação dos nomes dos convidados. Porque nenhum monarca poderia faltar à sua festa.
Despediam-se e Fausto voltava ao sofá. Conversa mais sem sentido. Parecia até sonho.
O livro jazia aberto sobre o sofá. Nem se lembrava mais do que havia lido. Seriam versos de Goethe? Histórias do Diabo? As vidas dos imperadores romanos?
Fausto agarrou o livro, leu um trecho. Riu satisfeito. Não havia perdido a memória. O livro chamava-se A morte de Sardanapalo.
Preocupou-se de novo. A “conversa” de há pouco teria sido sonho ou realidade? No entanto, sonhos não faziam mal a ninguém. Além do mais, costumava sonhar com personagens de livros. Sobretudo quando o personagem o impressionava muito. Sardanapalo, então, comovia o leitor mais insensível. Sua vida era de uma riqueza sem limites. Até sua morte, durante o incêndio do palácio real.
O livro caiu-lhe das mãos, quando tocou uma campainha. Mais uma vez o louco? Não, nem pegaria o telefone. Tocasse à vontade.
A campainha tocou de novo. Porém a da porta. Talvez algum amigo.
Correu e girou a chave. Um sujeito esquisito deu-lhe boa-noite. Vestia roupas fosforescentes. E se dizia Sardanapalo.
Mudo, Fausto deixou-o entrar. E o homem entrou, luminoso, esquisito.
E toda a casa se pôs a pegar fogo.
O PRIMEIRO HOMÚNCULO
Chegado à velhice, Leonardo Ratisbona abandonou o projeto de criar homúnculos. Morreria insatisfeito, incompleto. Como a maioria dos mortais. Porém nunca infeliz. Pois tudo fizera para tornar real seu sonho maior. Os cálculos mais complicados executara. De todas as fórmulas mágicas se servira. As orações mais exigentes rezara. Todas as poções, todos os ungüentos manipulara. As bruxarias mais exóticas praticara.
Havia um consolo: talvez seus netos tivessem o orgulho de mostrar ao mundo a grande invenção da humanidade — o homúnculo. Sim, não se sentia totalmente infeliz. Podia morrer em paz. Quase realizado, quase feliz. Até mandaria inscrever em seu túmulo: “Aqui jaz um feiticeiro quase feliz”.
E numa noite de muito frio preparou-se para morrer. Rezou a Deus e ao Diabo, tomou chá de beladona, untou-se de variados ungüentos, calculou o tamanho da Eternidade e deitou-se na cama repleta de signos. E era mais cedo que sempre, quase dia ainda, o sol mal morrente. Cobriu-se com o cobertor do cotidiano — sujo de todas as sujeiras do sonho — e se preparou para sonhar. Talvez a noite lhe trouxesse a derradeira idéia para a criação do homúnculo. Sua salvação, sua vida eterna. Queria, no entanto, sonhos lógicos, aristotélicos, cartesianos. Nada de absurdos, de fantástico. Pois andava sonhando com grifos infantis que o tratavam como avô caduco. Com gnomos adolescentes que o não deixavam dormir, tão barulhentos se faziam. Com harpias horríveis que tentavam seduzi-lo. Vontade incontrolável de acordar, ser homem comum!
Mal se deitou, Leonardo se entregou ao devaneio. Se sonhava ou pensava, ninguém sabe. De uma forma ou de outra, aparecia-lhe um serzinho invisível a voejar ao redor de seu nariz. Talvez um mosquito. Irritado, o feiticeiro sacudia a mão para lá e para cá, na tentativa de afastar de si o inseto. Gesto inútil, pois o serzinho se pôs a falar:
— Você não pode me atingir, Ratisbona, por mais bruxo que seja.
A princípio, Leonardo teve medo e apenas arregalou os olhos. Podia estar diante de um monstro. De quem seria aquela voz?
— Sou um homúnculo.
E o invisível ser expôs a razão de sua presença no quarto de Leonardo: queria se transformar em homem e contava com a ajuda do feiticeiro.
— E o que eu ganho com isso?
— Ensino a você a fórmula de criar homúnculos.
— Você é mágico também?
— Fui, meu caro Ratisbona.
A conversa durou mais alguns minutos. Porém os dois não chegaram a nenhum acordo. Pois, para criar homúnculos, Leonardo teria que renunciar à condição de homem e feiticeiro — ele mesmo seria transformado em homúnculo. Para sempre. Ou até encontrar um bruxo que aceitasse a idéia de se metamorfosear em homúnculo.
— Depressa, Ratisbona, decida.
E o feiticeiro deu um pulo da cama, mais assustado que nunca. Recostou-se à parede, olhos voltados para a cama tosca, como a vigiar seu invisível inimigo. Logo, porém, compreendeu a inutilidade de tanto medo — o sonho acabara.
Atordoado ainda, meteu-se no banheiro. E, enquanto se lavava, sorriu. Sim, não morreria sem criar homúnculos. Bastava transformar-se num deles. Como não imaginara isso antes! ? Grande idiota!
E correu ao laboratório. Trataria imediatamente da metamorfose. Ao lá chegar, porém, uma dúvida o paralisou: como poderia dizer a seus colegas que descobrira a fórmula de criar homúnculos? Não, não tomaria logo decisão tão radical. Amadureceria a idéia. Discutiria com outros feiticeiros. Não, isso nunca.
Súbito um inseto entrou no laboratório e pousou num frasco onde um líquido avermelhado borbulhava. Leonardo Ratisbona nada viu. Nem mesmo a pequena chama que logo se agigantou.
Do incêndio só restaram cinzas.
UM SIMPLES BONECO
Aberta a porta, Joaquim passeou a vista pela sala e pôs-se a abrir as janelas de vidro. Tudo em perfeita ordem, como haviam deixado no dia anterior. Mesas, cadeiras, armários, carimbos, cinzeiros, tudo em seus devidos lugares. Com pouco, chegariam os outros. E mais um dia igual ao passado. O mesmo toque-toque das máquinas, as mesmas perguntas, as mesmas tarefas, as mesmas horas lentas.
Seguiu em frente e chegou ao banheiro. Nada escapava ao seu olhar vigilante. Precisava ver se também lá havia ordem e respeito. Um dia pegaram um rapaz e uma moça agarrados no banheiro destinado ao público, ao fundo do corredor.
Empurrou a porta, como se tivesse medo de encontrar fantasmas, e virou pedra. Que horror! Deus, que horror! Meu Deus!!! Um corpo pendurado, horrível, rijo, apavorante. Ou não era verdade, sonhava, delirava? Abriu, arregalou os olhos. Talvez fosse pura impressão, um pensamento de medo, desses de todo dia. Olhou para o vaso, a pia, o espelho. Sim, havia um corpo pendurado, os pés enormes entre o chão e a vida. E se estivesse vivo, se ainda não tivesse morrido?
Desesperado, Joaquim tocou o corpo, exatamente a perna do enforcado, e, a esperança num olho, a piedade noutro, olhou o rosto desfigurado do morto. E deu um pavoroso grito. Aquele corpo era o seu. Sim, tudo no outro semelhava a ele.
Preocupado, deu dois passos para trás e se viu no espelho, triste e pesaroso. Ora, aquilo devia ser um boneco. Brincadeira dos colegas. Sim, só podia ser um boneco. Horrível boneco morto.
Olhou mais uma vez para a língua estirada do outro. Aquele rosto, na verdade, parecia o seu. As mesmas feições, os mesmos braços cabeludos, sua roupa preferida, aqueles sapatos rotos e sujos, tão idênticos aos que usava todo dia. Pura coincidência, mero acaso, como diziam. E, decidido, puxou a porta do banheiro. Precisava avisar a polícia. Antes da chegada dos colegas. Com urgência. Um crime bárbaro na repartição, uma desgraça, um suicídio talvez. E pôs-se a discar números e mais números. Que não davam em nada. Discava, discava, e nada. Melhor mesmo ir à polícia. Pegava um táxi, contava tudo ao motorista e, em poucos minutos, se livrava daquilo. Deixava janelas e portas abertas. Os colegas chegariam logo. Não podia esperar.
— Quem é o morto, Seu Joaquim? — irritou-se o policial de plantão.
Não sabia, talvez o conhecesse, porém não lhe sabia o nome. Além do mais, podia ser um simples boneco. Trabalho perfeito, obra de artista. O policial trancou a cara mais ainda, deu um murro na mesa e urrou. Não admitia gracinhas. Ou Joaquim não desconfiava das boas surpresas reservadas a quem brincava com a polícia? E acendeu um cigarro nauseabundo, soprou a fumaça na direção do interrogado, gargalhou.
— Confesse logo, seu engraçadinho.
Joaquim diminuiu de tamanho, encolheu-se todo e pôs-se a balbuciar inúteis defesas. Sim, tudo não passava de sonho. Ninguém se matara, ninguém se enforcara. Não havia corpo nenhum pendurado no banheiro da repartição. Que tolice procurar a polícia para contar sonhos!
— Confesse, Seu Joaquim — gritou de novo o policial, arma apontada para a cabeça do pequenino informante, que diminuiu ainda mais de tamanho.
E os colegas? Já teriam visto o cadáver? Certamente lamentavam seu derradeiro ato. Tão trabalhador, tão honesto, tão cumpridor dos deveres! Por que se matara? Dívidas? Amor? Dúvidas? Tumor? Precisava voltar logo, tudo não passara de sonho, alucinação, pensamento ruim. Continuaria abrindo a porta e as janelas da repartição, averiguando palmo a palmo as salas, como sempre fizera.
— Confessa ou não confessa? — berrou mais alto o policial.
Assustado, Joaquim Xavier fechou a porta do banheiro. Os colegas chegavam, em grupo, na alegria de um novo dia.
OS BELOS OLHOS DE SÔNIA
Bonita, para alguns. Simpática, gentil, generosa, para muitos. Seus olhos, porém, todos cortejavam. Os belos olhos de Sônia.
Aos vinte e poucos anos, descobriram-lhe mais um atributo: azarenta. Sim, só podia ser azar aquilo. Muito caiporismo. Ora, ninguém é atropelado três vezes em menos de um mês.
Muita sorte a dela, diziam os médicos. Escapar com vida de três atropelamentos! A maioria morre da primeira vez. Uns poucos chegam à segunda. Por milagre!
Sônia se dizia sempre atenta ao trânsito de veículos. Nunca atravessava rua sem antes ter certeza de não correr perigo.
— Não existe mais certeza, minha filha.
— Todos corremos perigo, até quando dormimos.
Além de prudente, Sônia se mostrava ágil. Como nos tempos de ginasta. Quando adolescente, nadava, praticava esportes, ganhava medalhas.
O primeiro acidente causou-lhe apenas escoriações leves. O carro surgiu de repente. Parecia encantamento. Um descuido, e quase perde a vida. Se não fosse tão ligeira...
Uma semana após este pequeno incidente acabou num hospital. Um braço quebrado, ferimentos da cabeça aos pés, dores de toda ordem.
Não durou muito, aconteceu o terceiro acidente. Salvou-a a grama aonde foi lançada. Por pouco não teve o crânio rachado e a bacia espatifada.
Nem quando viu um homem morrer baleado, Sônia não suspeitou de estar sendo perseguida. Não havia motivos para perseguições. Não tinha inimigos, não guardava segredos, não detinha poderes.
A única bala disparada atingiu a cabeça do homem. Pacífico comerciário. Marido doméstico. Paizinho de estimação.
O inquérito policial nunca desvendou o crime. Homicídio imotivado — concluiu.
Sônia e o homem trocaram ainda duas palavras. Ele perguntou a hora. Ela olhou para ele e respondeu. A seguir, ele deu um grito agudo e tombou.
Sônia ainda não morreu. Uns a chamam de azarenta. Outros dizem-na cheia de sorte. Na verdade, ela não mais trabalha, quase não sai de casa, protegida dia e noite por parentes e amigos. Diz-se perseguida, ameaçada de morte. E poucos dela duvidam. Só os médicos de um banco de olhos.
— Uma louca! — resmunga um deles.
— Que belos olhos! — sussurra outro.
A CONDENAÇÃO DO SENHOR FELÍCIO
Nunca mais vi o Dr. Aderaldo Ascegas. Dizem já ter morrido, de velhice, do coração, de qualquer doença. Lembro-me bem da última vez que estivemos juntos, no dia do meu julgamento. Mostrava-se muito preocupado comigo, não tanto em razão da condenação, mas sobretudo porque eu não admitia ser acusado por aquela promotora e julgado por aquele juiz. Aconselhou-me repouso e tratamento médico. Procurasse uma boa clínica psiquiátrica, com urgência. Aquilo me deixou mais nervoso ainda. Tive ímpetos de ofendê-lo fisicamente, chamá-lo de morcego, ou rato. Sim, ele me lembrava um roedor. Cheguei a ansiar matá-lo. Não precisei, no entanto, cometer o crime. Velho como era, não duraria muito. E contive-me.
Na verdade, eu andava mesmo transtornado e, à medida que se aproximava o dia do meu julgamento, mais eu me sentia nervoso. Na véspera, quase enlouqueci. Passei a noite em claro, não consegui pegar no sono sequer por um minuto. Imaginava-me condenado e desgraçado para o resto da vida. Até tarde fiquei diante da televisão, a ver filmes de violência, noticiários, shows. Nada via, no entanto, a não ser eu mesmo refletido no espelho do vídeo. Tentei outras distrações e passatempos. Coloquei discos na radiola, fumei uma infinidade de cigarros, bebi uns dois ou três conhaques e terminei lendo artigos do Código Penal.
Esses modos já se haviam tornado rotina em minha vida, há algum tempo. Depois de um dia de trabalho, corria para casa, tomava banho, jantava, ligava a televisão. E assim passava a noite, quase sempre acordado. Como seria o julgamento? Pedi mil vezes ao Dr. Aderaldo que me descrevesse minuciosamente um julgamento. Lembrava-me de filmes americanos. Aqui era diferente, dizia-me. Decidi ir ver de perto um julgamento qualquer. Pedia licença ao chefe e corria ao fórum. Nunca pedi licença nenhuma, com medo da simples palavra fórum. E o juiz, como seria? O Dr. Aderaldo não o conhecia direito. Havia sido lotado recentemente na Vara. E o promotor? Passava horas e horas a imaginar as feições de ambos. O juiz seria um velhote de óculos, careca, sério, olhar enigmático. O promotor, um senhor de bigodes grossos, carrancudo, feioso.
Cansado, sonolento, cheio de olheiras, deixei a cama na manhã do dia D como se saísse de um caixão de defuntos. A cabeça parecia enorme, pesada, disforme. Olhei-me ao espelho e me pareceu ver um monstro saído do fundo da terra. Tomei um banho demorado. A partir daí, agarrei-me ao telefone. Precisava conversar com o Dr. Aderaldo. Não se encontrava no escritório, informava a secretária. Tomei calmantes, deitei-me no sofá, ouvi música suave. Necessitava relaxar. Num minuto estava de novo ligando para o advogado. Sem sossego, ia e vinha pela casa. Chegada a hora do almoço, nada comi. Não tinha apetite, embora uma espécie de mal-estar me lembrasse pratos variados e exóticos. Imaginei jias assadas, cobras picadinhas, baratas no arroz. Saí de casa às carreiras, a fugir do almoço indigesto. Por sorte, passava um táxi livre. Direto para o escritório do Dr. Aderaldo. Achou uma loucura eu ter saído tão cedo de casa. Devia até estar trabalhando. O julgamento só começaria às 15 horas. Fosse passear, espairecer, fazer hora. Eu parecia excessivamente abatido e agitado, como se fosse ser executado. De qualquer forma, eu continuaria solto, com direito a sursis. Não me preocupasse tanto.
Li ou tentei ler jornais, revistas, códigos. As caras do juiz e do promotor teimavam em emergir das páginas, das letras, cresciam, vinham ao encontro do meu rosto. Línguas, narizes, olhos saltavam do papel para me lamber, cheirar, espiar. Apavorado, largava o impresso e me punha a andar pelo escritório, a falar e atrapalhar o trabalho do doutor.
Nem sei como cheguei ao foro. Não me lembro do percurso, de sua duração, do que conversamos. Recordo-me a caminhar pelos corredores da Justiça, atônito, sonâmbulo, cheio de medo. E, de repente, o susto. Nem sequer mais um passo consegui dar, tão profundo choque senti ao chegar à porta da sala de audiências. Sim, o palco montado e os personagens terríveis em seus lugares. O juiz, aquele cachorro, sentado ao centro da grande mesa, circunspecto, pronto a decidir o meu destino. Então eu ia ser julgado por aquele animal?! Tive ímpetos de gritar, dizer uns insultos e fugir. Porém o Dr. Aderaldo me arrastava para o interior da sala, respeitoso, solene, decidido. Eu não tirava os olhos daquele sujeito asqueroso à minha frente e então quis rir, gargalhar. Ora, um cachorro daqueles na função de juiz! Cochichei aos ouvidos do meu advogado: “Você já percebeu quem está ali?” Ele apertou-me o braço com força e retribuiu o cochicho: “Não ria, não fale nada, comporte-se”. Do contrário, eu poderia até ser preso, antes mesmo do início da audiência, por desrespeito à Justiça.
Atraído pela figura medúsica do magistrado, custei a desviar os olhos para as outras pessoas. Quando o fiz, encontrei o olhar firme de uma sujeita, sentada à esquerda do juiz. “É a promotora”, segredou-me o Dr. Aderaldo. E já não tive susto nenhum. Só vontade de rir de novo. Ora, aquilo já me parecia cômico. “Comporte-se, Felício”, sussurrou-me o advogado.
Voltei os olhos novamente para o juiz. Ele continuava muito sério em sua toga, a boca sempre aberta, feito um idiota. Olhei para a sua direita, onde um indivíduo batia à máquina. Tanto podia ser novo como velho, escondido que se achava na penumbra. Podia até ser um bicho. Porém não me preocupei com isso.
Despertei de minhas observações ao som de uma sineta. A audiência ia começar. Olhei para o juiz, Dr. Luís Bernardo Galgo (informou-me depois meu advogado), e notei sua boca cheia de saliva, parecendo baba, a língua comprida a projetar-se na minha direção, os enormes dentes caninos, as patas horríveis sobre a mesa. Eu quis rir, mas todos permaneciam muito graves. Procurei o escrivão e não o distingui na sombra. Olhei para o Dr. Aderaldo, em busca do cúmplice necessário, e desisti do riso. Dada a palavra à promotora, desviei minha atenção para ela, que também babava, tinha dentes enormes e boca animalesca. Não dava para agüentar. Aquilo merecia uma boa gargalhada. “Comporte-se, Felício”, beliscou-me o advogado, por baixo da mesa.
Durante longo tempo a cadela latiu, enquanto o escrivão datilografava, certamente os latidos da doutora Cândida Platino Canavieira. E eu com gana de gritar, para não ouvir mais tanto o latir daquela cadela metida a bonitona.
Depois falou o Dr. Aderaldo, enquanto eu não perdia um só gesto dos dois cachorros. Não, não dava para conter mais o riso. O juiz olhou para mim e latiu qualquer coisa como: “Comporte-se, Seu Felício!” Tive vontade de saltar sobre ele, rasgar-lhe o focinho com as unhas, mordê-lo, matá-lo. “Mais um miado, e mando prendê-lo” — latiu. Foi o fim de tudo.
OS PÉS DO MONSTRO
Quando identificaram o verdadeiro “homem das botas furadas” já era tarde. Ele estava morto, há muito enterrado. Assim mesmo, fizeram a exumação.
Junto à ossada encontraram as velhas botas do “bandido”. Quase intactas (não fossem os buracos nas solas), como se os vermes tivessem nojo delas.
A má fama do pobre homem durou quase um ano. A primeira acusação deixou toda a cidade estarrecida: perseguira e violentara a louríssima Adalgisa Liutprand, filha do industrial Genwulf Liutprand.
Seguiram-se dezenas de crimes escabrosos — crianças, mocinhas, senhoras estupradas. O monstro atacava sempre em rua escura, sem transeuntes ou carros. E quando a futura vítima andasse ou estivesse só. Perseguia-a, por mais que corresse, e terminava alcançando-a.
Para todos, seria um mendigo louco, cuja única riqueza estaria nos pés: pesadas botas de ex-soldado. Algum ex-combatente.
Houve até quem insinuasse que, quando capturado, algum general o socorreria. Clemência para uma pobre vítima das guerras! Merecia, antes, tratamento psiquiátrico. Não o torturassem.
Durante quase um ano a polícia e a imprensa se ocuparam do “homem das botas furadas” — o monstro dos novos tempos. Dezenas de idiotas foram presos e torturados. Quer tivessem botas, quer andassem descalços. Alguns não suportaram o primeiro soco dos brutamontes. Outros confessaram tudo. Só um, porém, foi condenado. E se enforcou na penitenciária.
Nenhum deles era o “homem das botas furadas”.
No entanto, a mais sensacional descoberta se deu quando desenterraram os ossos de um homem que usara as pesadas e rotas botas do estuprador de Adalgisa Liutprand e outras mulheres — ele não tinha pés.
Mal andava, portanto.
AS LUVAS DE VULPINO
Quando desapareceu das ruas (e seu passo pesado e cadenciado de autômato deixou de ser medido com os olhos até dos mais velhos), a criançada nem percebeu, mas já brincava mais sossegada. Recolheram-no as autoridades da nova segurança, psiquiatras, algum padre caridoso, damas unidas da beneficência.
O passo medido, cronometrado do velho Vulpino costumava fazer mexerem-se milimetricamente as pupilas de todos – parentes de desaparecidos, gerentes bancários, mocinhas caseiras. O mundo inteiro da cidade se hipnotizava por onde aquele homem calado passava, pedra a pedra pisada e repisada.
Uns achavam-no soberbo em sua musculatura de touro, e berravam por dentro. De noite, em sonhos sangrentos, choravam. Cada banana esmagada ao pisar de Vulpino virava pasta para o escorregão de vacas, bois e bezerros. Vaiavam-nos seus vizinhos, risonhos.
Muitos comparavam suas pernas grossas e seu calção preto a craques mitológicos de seleções e times imbatíveis. Mais adiante, no entanto, todos, ao mesmo tempo, cuspiam e escarravam recordações de copas, campeonatos e vitórias. E brigavam como nas eras de brigas.
Havia quem pensasse em vestir camiseta qualquer, de portuário, carregador de fardos, como aquela de Vulpino. Mas pensava duas vezes e não saía da beira da fantasia. O touro mudo podia se ofender. Perceber ironias, heresias no imitador. E acordar, enfurecer-se.
O nome Vulpino seria obra de intelectuais ou de seus pais. Dele mesmo ou do folclore. Não escondia qualquer razão e tanto podia ter sido Getulino como Mussolino. Porém os mais medrosos viviam de olho no latim, às escondidas.
O pobre homem, no entanto, não fazia mal a ninguém. Não espancava cachorros, não olhava para crianças, não falava a desconhecidos. E até um dia se disse incompreendido, desprezado, esquecido, apesar de tudo o que fizera, a vida inteira dedicada ao trabalho. Assim mesmo, sentia-se bem e realizado. Daí seu passo cadenciado, seu silêncio, seu orgulho.
Nunca contou um só capítulo de sua epopéia, porém os mortos, se pudessem falar ou escrever, teriam incontáveis histórias para atormentá-lo.
Esses mortos viveram instantes terríveis nas mãos de Vulpino. Seus punhos de aço, escondidos por grossas e invejadas luvas, quebraram ossos como se quebram ovos, sangraram peitos como se sangram porcos, fizeram gemer por noites e dias as vozes de muitos presos.
Tudo isso, porém, é apenas passado. E nem os mais velhos se lembram dos tempos áureos de Vulpino.
O INSETO
Sonhou João Cordeiro que subia aos céus, no bojo de uma nave estranha, tripulada por seres esquisitos.
Contou o sonho primeiro a sua mulher. Levaram aquilo muito a sério e durante toda a manhã engendraram novas teorias, que à tarde deixaram seus ouvintes em estado de graça.
A sabedoria de João assentava-se em Os fundamentos da vida, de um tal Krishnaradha, edição apócrifa do Rigveda, traduzida do francês para o português pelo carioca Sidarta Hastinapura. E também em Sodoma e os deuses, de Jack Morton, e Os extraterrestres, de Teddy Young.
Armado de tão maravilhosas armas, levava a vida a combater os leitores de porcarias e inutilidades, como Homero, Camões, Machado, Graciliano.
Os materialistas, coitados, mereciam dele as mais ferinas farpas, por voltarem as costas à vida, à energia cósmica, à realidade impalpável.
Sua sábia boca enchia-se de espuma diante de bebedores de cerveja, fumantes, freqüentadores de motéis, revolucionários, admiradores de Lampião, Pelé e Carlitos.
No seu sonho privilegiado, acompanhado apenas dos navegantes do infinito, olhava para a Terra, aquela minúscula bolinha azul, e ria dos bichos humanos, salvo da catástrofe.
A palavra jorrava de seus olhos feito chispas incendiárias. Onde permanecesse por mais de um discurso, deixava plantado o vírus de sua ciência.
— Só existe uma verdade e esta eu a sei. Ela está nas palavras dos seres, não destes imbecis chamados filósofos, mas daqueles que nunca aprenderam nada, porque já trouxeram consigo todas as explicações.
Se alguém se interessava por suas pregações, não mais parava de falar, a citar Krishnaradha a três por dois.
Parecia viver o sonho: liberto da mentira da Terra, a navegar no rumo da Verdade, passageiro da Nave da Vida.
No trabalho contava com alguns ouvintes e uns poucos adversários. Aos primeiros dedicava uma ou duas horas por dia e aos outros chamava de vermes, bichos e cadáveres.
Se falavam de salários, carestia, injustiça, irritava-se com tanta mesquinhez. A vida vibrava dentro de cada um, lá fora, na selva, na água, no ar.
— A realidade está além de tudo isto, porque antes da roupa que vestimos, do livro que vocês lêem, das preocupações que vocês têm, já a vida existia.
Lembrava-se bem: a espaçonave de seu sonho tinha formas variadas — achatada, pontiaguda, circular — e os tripulantes não falavam, comunicavam-se com ele por meio de sinais, gestos, cores, sentimentos materializados.
Conhecia pessoalmente o mestre Krishnaradha, que vivia na Suíça, ocupado apenas com os ensinamentos da vida, em conferências diárias.
— Quantos seres existem entre nós?
— Dez, cem, milhares. Eles estão por aí, vivendo, aguardando o momento da Viagem.
A ciência de João ia além dos livros indianos, da sabedoria antiga e eterna dos seres como Cristo e Krishnaradha.
— Os homens, como os outros animais, nasceram de sementes lançadas à Terra por seres superiores, habitantes de outros mundos.
Os extraterrestres podiam apresentar formas humanas. No sonho, por exemplo, os tripulantes da nave até falavam português e vestiam-se como lavradores.
— De longe percebi tudo e nem me espantei quando perguntaram se eu já queria partir.
A reputação de João variava de pessoa para pessoa: sábio, sabido, doido, besta. Para sua mulher talvez chegasse a santo.
Apregoava o fim da raça humana, por se ter distanciado da vida, dos objetivos do Criador, e ao mesmo tempo abria baterias contra postemas como Hitler.
— A catástrofe não tarda — bradava.
— A guerra? — perguntavam, espantados, seus ouvintes.
– Ela e tudo: maremotos, furacões, terremotos, incêndios, inundações. E dela só se salvarão os seres, porque vocês, a grande maioria, não são seres, são bichos.
No sonho, deixava a Terra, essa morada podre de vermes, e alcançava a dimensão dos deuses.
Não viajou em vida, porém. Morreu recentemente, após ingerir um litro de inseticida.
HOMERO E O MACACO
A dois passos do portão, Homero parou, esfregou o lenço na testa, acendeu um cigarro. Homens e mulheres espiavam para o interior do zoológico, como a planejar visitas. Carros iam e vinham, em disparada.
— Bom-dia!
O guarda apenas resmungou e nem despregou os olhos da lata de lixo.
— Eu queria falar com o diretor.
Outro homem se aproximou do portão, olhou para o guarda e seguiu em frente.
— Pode falar comigo.
Homero jogou fora o cigarro, esfregou as mãos, acompanhou com os olhos os passos do outro homem e gaguejou: o assunto, como podia dizer?, o seu caso...
— Talvez o senhor nem saiba da história.
O guarda empertigou-se, deixou de lado a lata de lixo. Então contasse, mas fosse rápido. Não dispunha de muito tempo.
— É o seguinte: o Mico, meu macaco, um dia fez uma besteira.
Acendeu mais um cigarro, soprou muita fumaça, ofereceu a carteira ao vigilante e voltou à história: O bicho estranhou um menino, vizinho seu.
— O senhor sabe como são esses moleques.
Contou que Mico mordeu o menino, mordidinha besta, é verdade, porém o suficiente para criar o maior rebuliço do mundo. O pai do garoto muito revoltado, a mãe aos gritos, ambulância, correria, o diabo.
— E esse macaco vivia onde?
Homero tomou fôlego, atirou longe a ponta do cigarro, coçou a cabeça.
Coitadinho do macaco, ente inofensivo, animal doméstico, ensinado, cheio de artimanhas. Adquirira-o há muito tempo e cuidava dele em casa mesmo, assim como se cria um gato, uma criança.
— Como se fosse meu filho, o senhor entende?
O guarda mal conseguia abrir a boca. Não saía do “sim, senhor”, dos gestos com a cabeça, os lábios, as sobrancelhas.
Pelo quarto ou quinto cigarro, Homero chegou ao recolhimento de Mico ao zoológico.
— Requeri a devolução, porque estou no meu direito.
Emas passeavam ao largo, altaneiras, vagarosas, tranqüilas, e já Homero concluía sua história.
— Primeira porta à direita — orientou o guarda.
Agradecido, risonho, fumacento, o dono do macaco transpôs o portão, a passos curtos. Seguiram-se passos médios, depois longos, como se suas pernas crescessem de um a outro e o último passo tivesse medido cem metros.
— Bom-dia, seu diretor.
Um inumerável cigarro pregou-se aos lábios de Homero, um atropelo de palavras encheu a sala, cheios de emes e mês.
— Meu macaco Mico...
A caminho das jaulas, gaiolas e cercados, a impaciência de Homero arrastava a sonolência do diretor — geringonça de carnes, maria-fumaça descarrilada a puxar vagão de preguiça.
— Faz tanto tempo, Seu Horácio...
— Homero da Silva, Seu Leocácio.
Numa casinhola, cinco ou seis macaquinhos pulavam de cá para lá, agarravam-se aos ferros, mordiscavam-se, lambiam-se, atônitos, olhinhos arregalados.
— É, faz muito tempo mesmo.
E Homero passava em revista a macacada, ansioso, maravilhado, transido de emoção.
— Mico, papai voltou.
— Qual deles é o seu?
Tão parecidos aqueles micos, tão cheios de graça, tão traquinas.
— O senhor não sabe, Seu Leocácio?
Meia hora durou a vistoria, e nada de Homero reconhecer seu Mico. Um, porém, entre os macacos, desde o primeiro momento arreganhava os dentes no rumo de Homero e só faltava falar grego.
AS INSOLENTES PATAS DO CÃO
Daquela noite lembro quase nada, tudo a se confundir na memória. Chego a pensar que foram muitas as noites, condensadas numa só ao longo do tempo e da angústia crescente. Às vezes ainda me digo: foi um sonho, foram muitos sonhos, misturados a lendas, histórias de trancoso, simples imaginações.
Brincávamos na sala, meus irmãos e eu, de trenzinho de caixas de fósforo, de bois e cavalos imaginários, de artista e bandidos de gibi, qualquer fantasia. E não existiam homens como nosso pai, nem mulheres como nossa mãe, e muito menos cachorros como aquele que nos apareceu de repente, patas à janela, a latir para dentro de nosso mundo.
O medo paralizou-nos e todos os brinquedos sumiram de nossos olhos, como se destruídos pela língua do diabo. Quis correr para os quartos, a cozinha, o quintal, agarrar-me às saias de minha mãe, meter-me entre as brasas do fogão, fugir pelo esgoto, ir bater nas grotas. Não movi um pé, enquanto meu irmão mais velho saltava feito um gato e agarrava as insolentes patas do cão, para empurrá-lo à calçada.
Tudo esforço inútil. Já meio corpo do bicho se debruçava na janela, a grande cabeça agitada, a boca cheia de baba, a latir dentro de casa.
O medo empurrou-me para os brinquedos e, num gesto nunca mais imitado, tomei ao bandido um facão, entreguei-o a meu irmão e ordenei que decapitasse o vira-lata.
Diante da ameaça, primeiro se escondeu a cabeça do outro lado da janela, depois as patas escorregaram, num ganido de covardia.
Corremos à janela e só vimos o pobre do cão, rabo entre as pernas, encolhido, apressado, de vez em quando a olhar para trás, perdido na escuridão da rua.
E por muito tempo nos deixamos debruçados na janela, olhos enfiados nas pedras do calçamento, esquecidos das fantasias espalhadas pela sala.
De mais nada consigo lembrar, se o trenzinho corria, se os bois mugiam, se os cavalos galopavam, se o artista e os bandidos se matavam, se nossos pais dormiam ou já haviam morrido, se o tempo passou, se fui eu que sonhei.
Só ficaram as patas do cão, garras apontadas para meus olhos.
O MENINO E O BACAMARTE
Para Airton Monte
De batismo chamava-se João Alves Mendes, nome depois reduzido a Jão. Apelidou-se Carcará, dizendo-se danado.
Virou índio aos cinco anos. Despia-se e corria pelo quintal, espantando galinhas e porcos. Subia às laranjeiras e de cima atirava laranjas podres nos bichos. Deu para fabricar arcos e flechas com que irritava os galos. Queria matar todos os brancos da cidade com as armas nativas amontoadas no canto do muro. Crescia analfabeto e grosseiro, metido nos cafundós do quintal, sem reza e sem hora para nada.
— Vem comer, menino.
— Já comi.
Devorava bananas quase verdes e chupava as laranjinhas mal brotadas.
Aos doze anos organizou uma tribo e saía pelas ruas a experimentar seu arsenal nos ossos dos cachorros. Os vizinhos reclamavam, o povo todo se maldizia.
— Mataram meu gato.
— Foi o moleque do Pedro Mendes.
— O doidinho?
Já rapazinho, viu-se só. Nenhum dos companheiros de infância queria mais brincar de índio. Preferiam namorar nas pracinhas. E Jão seminu, armado de arco e flecha, pintado de jenipapo. Correndo o mato atrás de preás, pescando no Potiú. Mal dormia em casa.
Um dia deram-no por perdido. Vasculharam toda a cidade e arredores, e nada de notícia dele. Nos leitos dos rios nem sinal de corpo apodrecido. Nos açudes talvez nada. Nos matos nenhum mau cheiro. A mãe só faltou morrer de chorar. O pai resmungava.
Dias depois a notícia chegou: Carcará havia tentado invadir Parangaba, onde brancos escravizavam Jaguaribaras. Repelido, foi bater na Precabura. E em seu encalço saíram trinta soldados e alguns habitantes da Fortaleza. Acossado, embrenhou-se nos matos.
— Vamos pegar o doido.
Em Parangaba criou fama. Andava armado e voltaria para matar qualquer inocente. Talvez até uma criança. O povo todo do bairro só falava nele e alguns se armavam para caçá-lo.
Foi visto às margens do Choró e correu espantado feito bicho do mato.
— Querem ocupar também aqui?
Depois passaram pelo Pacoti.
Sua fama se espalhou. Todo o Ceará já sabia de um doido fantasiado de índio que andava pelos sertões. A confusão se fez logo. Qualquer rapazote visto de calção no mato era perseguido. Muitos apanhavam até provarem nunca ter ouvido falar de índio. Houve casos de barbaridades. E o estopim se alastrava pelo Rio Grande do Norte. Todo o sertão pegava fogo: Carcará atacava vilarejos com suas flechinhas que mal ofendiam um passarinho, e os homens o perseguiam com revólveres e metralhadoras.
Certo coronel João de Barros, saudoso de seus tempos de chefe de capangas, prometeu caçar e prender o delinquente. Procurou o padre João da Costa e prometeu-lhe entregar o doido. Dito e feito. Com poucos dias de caçada, lá estava Jão acuado numa grota, cercado por mais de vinte homens, seguro e amarrado. Levado à presença do padre, aquietou-se e prometeu viver pacificamente daí em diante.
Na conversa, conseguiu fugir, deixando o padre atarantado. Dessa carreira foi bater no Banabuiú. Vagou pelos sertões à cata de companheiros. Chegava às fazendas e convocava os caboclos para uma guerra.
— Que guerra, seu menino?
— Para acabar com os brancos.
Aliciou alguns rapazes que já tinham ouvido falar em reforma agrária.
— Vamos expulsar os ricos das terras?
A guerra começaria em Aquiraz. De lá partiriam para outras cidades e as fazendas. E seguiram, ele nu e armado de arco e flecha, os outros vestidos de calça e camisa e armados de foice e facão. No meio do caminho encontraram uns capangas, que dispersaram o regimento, mas Carcará conseguiu escapar e continuar viagem. E entrou em Aquiraz, onde disparou centenas de flechas contra indefesos e pacatos aquiraenses atônitos. Ciente da carnificina causada, fugiu para o rio Choró, onde se defrontou mais uma vez com o coronel João de Barros, saindo ferido.
Em Aquiraz o pânico crescia. Organizou-se uma expedição para caçar o louco, caçada que nunca deu em nada. Carcará então já vagava por Pacatuba, Pacoti, Catu, Cocó, espiando as coisas.
Um dia foi ter numa fazenda de certo Senhor Feitosa, que disputava terras a uns tais Montes e precisava de homens valentes, cabras machos. A partir daí a vida de Carcará mudou. Deram-lhe um bacamarte. E virou capanga, com mais de cem mortes nas costas.
FIM