As insolentes (2)
(Continuação)
ADEUS, ALZIRA
Cinqüenta anos. Hã-hã. O pessoal brinca com isso. Quanto mais anos, mais lascado o homem. Muita vida passada. Muita água corrida debaixo da ponte. Os rios correm para o mar e se perdem nesse mundão. É a vida, a vida que se vai. A infância, a juventude, os bons anos. Muitos anos. Tempo que não acaba mais. Mas o que passou, passou. E eu vivi o quê? Metade da existência com essa jumenta. Uma égua, depois de velha. Não serve mais para nada. Faz tudo como antigamente. Só sabe abrir as pernas. No começo, um paraíso, parecia um nunca acabar de prazer, todas as noites, tudo numa paixão doida, num amor sem tamanho. Amor? Isso existiu de verdade ou foi só impressão? A gente falava de amor, amor, amor, jurava amar um ao outro para sempre, e nem notou que um dia essa palavra não valia mais nada. “Amor, você está bem? Boa-noite, amor”. Qual nada! Amor e bosta são uma coisa só. Basta puxar a descarga e vai tudo de esgoto abaixo. Agora, paixão existiu, aquele fogo danado dentro das carnes, queimando as tripas, agitando o corpo, aquele desejo animal, furioso, incontrolável.
Da primeira noite nem me lembro mais. Bêbado que só uma cabaça, sei lá de nada. Mas ainda fui macho para fazê-la mulher. E só não fiz antes por respeito e porque ela não deixou. “Vamos esperar, amor, falta tão pouco tempo”. Ou não fui eu? Fui, sim. E se essa puta tiver me enganado? Pode ter ido antes com outro, algum namorado mais esperto, um primo qualquer. Agora é tarde para saber. Pergunto ou não? Não adianta, já faz muito tempo e ela vai dizer: “Você está achando que eu era o quê, seu cachorro?” Vamos brigar por besteira e eu nunca vou saber a verdade. Mas fui eu. De manhã eu vi o sangue, o lençol manchado, agora me lembro direitinho. Sim, até fiquei excitado só de ver aquilo. E ela encabulada, pelos cantos da casa, a mexer nas panelas, a fazer café, a lavar a louça, sem coragem de olhar para mim. Eu por ali, alegre, satisfeito, apesar da ressaca, fogoso que nem jumento de lote. Só faltava relinchar e partir para cima da eguinha. Como a meninada fazia no mato com as éguas.
Com as meninas o negócio funcionava de outra forma. Mais complicado, mais segredado, escondido. Com uma tal de Ritinha a gente fez o diabo. Começou quando fui tomar banho no rio. De longe, escutei aquela risadagem e fui me aproximando devagar. Avistei duas meninas nuas, na beira, a jogarem água uma na outra. Só podiam estar viçando. Naquela brincadeira, se encolhiam, corriam, davam gritinhos, até que pularam na água e nadaram para o meio do rio. Aí tive uma idéia: esconder as roupas delas, só de brincadeira. Não podiam me ver, senão iam enredar para minha mãe, e tome peia. Tinha que agir na surdina e saí a me arrastar feito cobra. Ao agarrar uma das trouxas, vi que voltavam para a beira e corri para detrás de u’a moita. O coração batia com força. Se me vissem, eu podia me considerar perdido. Mamãe ia me surrar até eu mijar. Mal me escondi, uma delas gritou: “Cadê minha roupa?” E passou a acusar a amiga: “Foi você quem escondeu, deixe de brincadeira, vamos, me dê logo minha roupa”. A outra ria e negava a acusação. Devia ter sido obra de algum porco ou bode. A dona das roupas desaparecidas, em tempo de cair no choro, se maldizia: e agora, como ia poder voltar para casa? Aquilo me deixava alegre. Ora, se não podia voltar, ia ficar. Além do mais, a amiguinha não tardou em apossar-se das próprias roupas e vestir-se, apressadamente, talvez com medo de ficar também na mesma situação de Ritinha. E arranjou a solução: “Fique aí, que eu vou buscar outra roupa pra você”. Assim mesmo, Ritinha não parou de chorar: “Mamãe vai me bater porque perdi minha roupa”. Já vestida, a outra saiu na carreira, prometendo voltar logo. E eu metido detrás da moita, por pouco não me acovardei e entreguei o vestido e a calcinha da coitada. Ao mesmo tempo, aquele corpinho nu me excitava e me fazia levar adiante o plano traçado desde o início da brincadeira. Deixei passar um minuto e me apresentei. “Ritinha!” Ela tomou um susto e primeiro levou as mãos ao sexo, para em seguida se acocorar e encolher-se toda. Está aqui sua roupa, menina besta, eu disse, mostrando-lhe o vestido e a calcinha.
Isso não me interessa mais, porém. Quem vive de passado é museu. E eu ainda sou homem para o que der e vier. Quando não levantar mais nem falso, aí posso até me deitar numa rede e desenterrar defunto. Agora não. Meu negócio é movimento, é viver mesmo, arranjar mulher. E nova, serelepe, fogosa, diferente dessa minha. Já estou enjoado dela. Há quanto tempo! Não dá mais. Ter que aguentar esse bagulho todo dia é fogo. Preciso primeiro tomar umas e outras, dar uma espiada nas gatinhas, imaginar sacanagens. Se não for assim, não dá.
De vez em quando dou umas voltas por aí para ver se arranjo umas gatinhas. Cobra que não anda não engole sapo. Ficar em casa é que não dá. Assistir à novela e depois ir para a cama com essa vaca é o mesmo que morrer. E o tempo vai passando e, daqui a pouco, se eu não cuidar, adeus vidinha. Por isso, vou é sair por aí. Mas é difícil, com essa idade. Elas não querem velhos como eu, não. Gostam é dos gatões, de carro, festinhas, rebuliço, zoada, doidice. Que gosto! Não sabem o que estão perdendo. Experiência, minhas filhas. Cinqüenta anos de cama.
Ando para cima e para baixo, feito jumento sem mãe. Olho para todos os lados, becos, bares, casas, lojas, à procura de u’a mulherzinha necessitada de carinho, e nada. Cobiço cada uma que passa, desejo cada uma que anda, chega lambo os beiços, e nenhuma percebe minha ânsia. Fogem, escorregam, desaparecem, feito visagens. Quando não suporto mais, passo a mão distraidamente nas nádegas das mulheres que vão e voltam pelas ruas, viajam nos ônibus, vasculham as lojas atrás de novidades. Termino levando desaforos, cabra sem-vergonha, velho safado, tarado. Estou lá ligando para isso!
O bom é descobrir uma delas sozinha, solta, perdida na rua. Chego, me aproximo, puxo conversa, invento perguntas, onde fica a rua fulano de tal. As mais espertas desconfiam logo e escapolem. Outras ainda esperam pela cantada e fogem, como se fugissem do capeta. Vamos tomar um refrigerante? Não, obrigada. Ofereço cigarro, balinha, chicletes. Umas aceitam e dizem tchau. E o abestado fica a coçar o queixo. Já ofereci até dinheiro e as santinhas saíram com quatro pedras nas mãos. Só faltaram chamar a polícia.
Um dia desses deu certo. Água mole em pedra dura tanto bate até que fura. Ela ia sozinha, parava aqui e acolá, olhava uma vitrine, perguntava preços, sem pressa. Percebi: está perdida no mundo, não sabe aonde vai. Entabulei conversa: não sei como essas mulheres agüentam calçar isso, e apontei para sandálias de salto alto. Sorriu, disse qualquer coisa. Acendi um cigarro, ofereci-lhe outro. Aceitou e não deixei a palavra escapulir de minha boca. Você não é dessas que gostam de se maltratar, não é? Está se vendo. Mulher bonita não precisa disso. E mandei conversa fiada e um convite para assistirmos a um filme. Topou. Comprei balinhas, entramos no cinema. Um breu de meter dedo no olho. Desci a mão para a coxa dela. Depois o convite para um motel. Não foi difícil, já devia estar esperando. Eu é que fui trouxa, de não ter percebido logo. E a bichinha tinha costume.
Depois disso, nunca mais consegui nada. Todo dia a mesma perseguição, a mesma busca, o mesmo tormento, as mesmas decepções. Todas fogem de mim. Como se eu não fosse mais homem. Desesperado, bebo, sonho, me encho de fantasias, corro para casa e lá vou eu atrás da mesma mulher, da cinqüentona, da coroa, da bicha velha, de peitos caídos, bunda mole. E o diabo é que passa semanas sem querer nada comigo. Diz que não me suporta bêbado. Ora, eu já bebo é para ter vontade e coragem. Ainda bem que a gente pode pensar. E, na hora do pega pra capar, eu imagino que ela é outra, novinha, bonitinha, durinha. Não penso nem nas artistas da televisão, que isso não é pra mim. Penso é nessas mocinhas da rua. Sei lá se são moças. Mas se fazem de santas. Dizem que não existe mais virgem. É bem capaz de ser verdade. Mas não importa. Penso nelas e me excito. E procuro a velha como se fosse uma delas. Quando termino, chega fico com nojo. E a égua nem imagina onde eu andava. Ora, sou doido é por garota nova, Dona Alzira. Ah! Se elas deixassem. Eu dava tudo.
De que adianta ficar só na imaginação? Isso é uma tortura, me mata de desejo, me deixa nervoso, doido. E a vida passando, o tempo se encurtando. Qualquer dia a morte me pega pelo pescoço e adeus vidinha boa. Adeus belas mulheres do mundo!
Mas vou é me danar. Quero lá saber de esposa, filhos, família, casa, responsabilidade! Vão tudo para o inferno. É, vou atrás das menininhas, nem que me lasque. Passar a mão e pedir desculpas. Encostar-me nos traseiros delas e me queixar da superlotação dos ônibus. Aproveitar o resto da vida. Antes que seja tarde. Ouviu, vaca velha? Ouviu, Alzira? Adeus!
SONHOS
Um dia, em plena lua-de-mel, ela amanheceu de cara fechada para o marido. Durante o café só abriu a boca para o leite. Nem biscoito quis. Não sentia fome. Indisposta. Ele insistia, ela recusava. Ele amável, ela áspera. Não, não se tratava apenas de inapetência. Falasse a verdade, deixasse de mistérios.
E ela contou o sonho horrível. Flagrava o marido com outra, no maior amor. E ainda riam da cara dela.
Ele riu, gargalhou. Que tolice acreditar em sonho! A mulher mais parecia criança. Pessoa de mentalidade atrasada.
Durante o almoço, ela conversou muito e comeu como nunca. Quis até biscoito na sobremesa.
À noite, quase não dormiram. Sonhos, só os de sempre: ela e ele. E acordaram amáveis, apetitosos, cheios de disposição, sem um só mistério nos lábios.
Passada a lua-de-mel, o sonho horrível se repetiu. E ela de novo amuada, a xícara de leite diante dos olhos mudos. Mistérios, mentiras, discussão.
Ele gargalhou, se engasgou, quase vomitou. Não concebia ter casado com mulher tão tola. Se fosse analfabeta, uma pobre camponesa, uma vassala medieval, dava-lhe até razão.
Ela chorou, não quis mais sequer o leite. O marido não a compreendia. Se soubesse quem ele era, não teria casado.
Compadecido, ele deixou de rir, pediu desculpas. Ela não tinha culpa de sonhar infidelidades. Sonho nenhum. Estudiosos, psicanalistas, Freud, Jung, fulano e sicrano, ninguém ainda conseguira revelar o misterioso mundo do sonho. Talvez coubesse a ele, o marido, a glória dessa revelação. Se ela, a esposa, tivesse mais confiança nele, contasse tudo, todos os sonhos. Futuros e passados.
Quando menina, sonhava brigas, safadezas, castigos. Acordava com raiva da irmã, nojo do coleguinha, ódio da mãe.
Cresceu e nada mudava. Vivia brigando, discutindo, arranjando inimizades. Chamavam-na de menina problemática. Doida até.
Depois da confissão, viveram em paz por dias e meses seguidos. Toda manhã ela contava sonhos para ele. Riam, pacíficos, civilizados e apetitosos. Ele, porém, nunca contava sonho nenhum. Não sonhava ou não se lembrava dos sonhos.
Numa dessas manhãs, ela acordou de cara fechada para ele. De biscoito nem queria saber. Derramou o leite. Patife, bandido, safado! Ele também se exaltava. Maluca, sonhadora, problemática!
Mesa posta: xícaras, copos, pratos, garfos, facas — tudo luzidio, intacto, perfeito. Como num sonho de fartura e felicidade. Ela empunhou uma faca pontuda. Ele arregalou os olhos. Ela continuou a xingar. Não suportava mais tanta infidelidade. Traidor, adúltero, marido perverso!
A faca reluzia na mão trêmula. Havia ódio nos olhos dela. Não sentia fome? De jeito nenhum. Nem para um biscoitinho? Não, muito indisposta. Ele insistia, ela recusava. Falasse a verdade, deixasse de mistérios.
Flagrara o marido com outra, no maior amor. E ainda riram da cara dela.
Ele riu, gargalhou. Que tolice acreditar em sonho! Não concebia ter casado com mulher tão tola.
Ela empurrava a cadeira para trás, furiosa, faca em punho. Bandido, traidor, safado! O leite transformava-se em sangue. Não podia haver amor onde havia traição.
Sonho desfeito.
MON AMOUR
A história não tivera começo. Ele não se lembrava de onde viera nem como conhecera aquela mulher. Não se lembrava de nada anterior àquele momento: sentado na cadeira, mãos sobre a mesa, de frente para a mulher.
O garçom servia, retirava-se, voltava, e eles a conversar. Ela queria saber o nome dele. Perguntava, insistia. Ele não se lembrava de ter tido um nome algum dia. Talvez tivesse apenas apelido. Bebia um gole de champanhe, sorria. Não via importância nenhuma no seu nome. Tanto fazia ser José ou Abraham. Ela, porém, não desistia. Não gostava de conversar com pessoa sem lhe saber o nome.
Ele imaginava alguns nomes famosos. Mentiria com elegância. Marco Antonio? Não, ela poderia ser metida a intelectual e passar o resto do tempo a falar de Roma, imperadores, e talvez até recitasse versos latinos. Arma virumque cano.
Olhava para as mãos, a roupa, os sapatos. Sim, um homem como outro qualquer. Exceto por estar ao lado daquela mulher excepcionalmente bonita. O restaurante inteiro olhava para ela. Olhos de inveja, sedutores, maliciosos.
Por que não se dizer lorde ou príncipe inglês? Ou escritor norte-americano, amigo de Hemingway, Fitzgerald e Jack London? Aliás, por que não se chamar Jack? Não, este nome jamais.
O garçom rondava a mesa deles. Os fregueses não tiravam os olhos de cima da mulher. E ele não encontrava um nome para si mesmo. Melhor acabar logo com aquilo.
— Você conhece o Mon Amour?
Só de nome. Devia ser um lugar lindo.
— É o mais luxuoso motel daqui.
Paga a conta, entravam num táxi. Ela perdia o interesse por saber o nome dele, toda deliciada com a idéia de conhecer o Mon Amour.
Já no quarto, ela se despia lentamente, voltada para sua própria nudez. Ele também se despia, porém de olho nos movimentos dela.
Primeiro ela dava um gritinho. Depois ria e voltava a gritar.
— Você é um macaco puro!
Irritado, ele acordou. A seu lado, uma velha macaca roncava.
JOANA D’ARC E OS AMANTES
Jacques olhou para a cama e sorriu. Isabel despia-se, lentamente.
— Posso acender a luz? — ele perguntou.
Haviam se conhecido duas ou três horas atrás. Num cinema. A história de Joana d’Arc sempre o interessava. Além do mais, gostava de filmes. Isabel, porém, não se lembrava de algum dia ter ouvido qualquer referência à donzela de Orléans.
Logo no início da projeção, trocaram olhares e algumas palavras. Jacques viu certa rudeza em Isabel. Não estava gostando da fita. E parecia não ler as legendas. Entendeu perfeitamente, porém, a cena grotesca em que a famosa ré foi queimada viva.
À saída do cinema, Jacques acompanhou Isabel. Perguntou se tinha compromisso. Poderiam conversar mais. Se ela tivesse interesse, contaria outros detalhes da história de Joana d’Arc. Depois — pensou — iriam a um motel. Afinal, a moça era bonita e parecia disposta a aventuras.
— Jeanne d’Arc é heroína e mártir — explicou.
Pararam diante de uma lanchonete. Cheiro de frituras, gente se acotovelando. Melhor irem a um barzinho.
Jacques se pôs a falar das lutas entre franceses e anglo-borgonheses, do reinado de Carlos VII, da prisão de Joana no castelo de Rouen, do Tribunal da Santa Inquisição. Quando encontraram um bar, Isabel parecia aborrecida.
— Você quer o quê?
Ela olhou para o garçom, como a pedir ajuda. Talvez um uísque. O mais caro que houvesse.
O rapaz percebeu, então, que não precisava mais demonstrar erudição. A moça estava rendida.
— Você defende muito essa Joana — ela se atreveu a dizer. — Para mim a morte dela foi merecida.
Jacques ingeriu, de um gole, a bebida. Não sabia se devia rir ou ouvir o resto da opinião de Isabel.
— Mulher não pode agir como homem — sentenciou a moça.
No meio da segunda dose, Jacques mudou de assunto. Gostava de mulheres ousadas.
— Como você.
Ela sorriu. Também gostava do jeito dele. Parecia fogoso, ardoroso, apaixonado.
Jacques disse adorar as mulheres que se consumiam no fogo, no amor.
E se retiraram, abraçados.
O RISO DO GATO
Nunca ria o gato. Sisudo, posava dia e noite para os de casa e os de fora. Costumeiramente vivia em cima da mesinha de centro. Às vezes nas prateleiras da estante, ao lado da Bíblia, da enciclopédia, dos discos. Mil vezes escapou do fim. Quando a arrumadeira se zangava. Quando os meninos brincavam de bola na sala. Quando qualquer mão descuidada o abanava.
Não lhe faltavam elogios. Chamavam-no gato bonito, gatinho lindo, belo gatão. Mesmo quando percebiam sua circunspecção. Talvez até vissem nela o melhor de sua beleza.
As visitas chegavam a ser impertinentes, mal-educadas. Queriam saber onde a dona da casa havia comprado tão fino bibelô. Que loja vendia adornos como aquele? Onde encontrar enfeite tão raro? Se era de gesso, porcelana, barro.
Imune à curiosidade geral, o gato olhava muito sério para o meio da sala. Nem sequer mexia os longos fios do bigode colado às faces. Como se falassem do fim do mundo, de mortes e dores.
Um dia, porém, o gato amanheceu outro. Um largo sorriso enchia seu rosto formoso. O bigode mais espalhado, os olhos mais brilhosos. Não, não se tratava do mesmo objeto. Alguém andava brincando naquela família.
A dona da casa se irritou. Queria de volta seu gato sisudo. Ou não servia o café. O dono da casa apoiou a mulher. Ou o gato antigo, ou muita briga.
Desconfiaram da arrumadeira. Se não desse conta imediatamente do gatinho lindo, perdia o emprego. E ganhava um processo na Justiça. Por roubar um enfeite raro.
A cozinheira jurou inocência pelas chagas de Cristo. Adorava o gato bonito. Só não falava em verdadeira paixão para não ser chamada de doida.
A moça da casa chamou os pais de idiotas. Deixassem de besteiras. Ninguém roubara o gato. Simplesmente o bicho resolvera mudar de cara.
Terminado o café, todos já concordavam com a mocinha. Cada um, no entanto, defendia, com unhas e dentes, sua opinião a respeito do motivo daquela tão esquisita mudança de feições. Para a mãe, o gatinho lindo ria por um só motivo — estava amando. Segundo o pai, o belo gatão ria à toa. Como um débil mental. O rapazinho achava o gato um gênio, que ria da imbecilidade humana.
A copeira limpava a mesa e resmungava. O gatinho sorria como qualquer pessoa. Mais tarde, talvez chorasse.
Um dos meninos achou por bem dar palpite. O bichano ria de satisfeito. Durante a noite pegara um ratinho. Só podia ser aquilo.
Houve gargalhadas em toda a casa.
Zangado, o garoto quis arriscar outra opinião. E se aproximou da mesinha de centro. Seus pais e irmãos gargalhavam ainda.
Súbito agarrou e ergueu a peça. A gargalhada teve fim. Havia realmente um ratinho no fundo oco do objeto.
ILUSÕES DE GATO E RATO
No meio da tarde, um gato deu por concluído o banho e a espulgação. Julgava-se limpo e livre de pulgas. E se pôs a espreguiçar, abrir a boca e fechar os olhinhos verdes. Sentia muito sono.
Estirou-se debaixo de uma cadeira e se entregou à leveza do nada. Havia bebido leite, água? Que iguaria almoçara? A gata vizinha gostava de amar no telhado ou no quintal? E os ratos, aqueles larápios noturnos?
Num piscar de olhos, já dormia, já sonhava. Esquisito sonho. Era um ratinho cinzento e esperto. Vasculhava a cozinha à cata de um naco de queijo que lhe quebrasse o longo jejum. Andava por armários, prateleiras, latas, caixas. Súbito descobria o queijo de seus sonhos. Redondo, branco, enorme.
Nem queria acreditar naquilo. Talvez sonhasse. Ou se tratasse de armadilha. Os homens não perdiam o hábito da crueldade e da perfídia. Refinadas feras!
Aproximou-se do queijo, um olho na porta, outro na vida. Cheirou, a boca se encheu de água, encostou o focinho na casca. Deu mais uma volta pelo ambiente, olhos e ouvidos abertos. Não, ninguém para estragar sua festa.
E deu a primeira lambiscada.
Até fechou os olhos para melhor sentir a delícia que invadia sua boca, seu corpo inteiro.
De repente um calafrio percorreu-lhe a espinha. Virou-se, e eis diante de si um enorme e belo gato.
Tudo então se tornou feio para ele. Vida de rato — desgraça pura. Escondido nos buracos, perseguido dia e noite. Um inferno!
Corria, e o felino no seu rasto. Metia-se atrás dos móveis e a pata asquerosa o cutucava.
Amedrontado, vendo a morte a um palmo de seu focinho, o ratinho decidiu arriscar, buscar o derradeiro abrigo – estreita greta na parede. E correu. O felino deu um salto, escorregou, miou.
Coração aos pulos, o pobre rato conseguiu alcançar a fenda salvadora. Não, não seria aquele seu último dia. Muitos queijos roeria ainda. Muitas emoções sentiria ainda.
Nervoso, enfiou a cabeça no buraco, forçou a passagem. Porém o devorador de ratos já abocanhava seu traseiro. Mordia, arrastava-o para o suplício.
Preso aos dentes do monstro, o roedor apenas chiava. Só lhe restava esperar a morte. Nem Deus o salvaria das garras daquele demônio. Nem milagre. Talvez muita sorte. Sim, os gatos costumam praticar um ritual macabro, antes de matar e devorar suas presas. Fingem dar fim à tortura, concedendo-lhes um minuto de liberdade. A vítima tenta escapar, iludida, e recebe mais violenta mordida. É sempre assim. E quem não sabe disso?
Se tivesse sorte, aproveitaria da melhor maneira a oportunidade de fugir. Não buscaria mais a greta estreita. Esconder-se-ia debaixo da geladeira, dentro do fogão, detrás do armário. De tanto esperar, o torturador desistiria da perseguição. Cansado, dormiria, o preguiçoso.
Não havia concluído ainda seu raciocínio, e eis que o gato o libertou dos dentes, largando-o ao chão. Correr logo seria loucura. Melhor aguardar um cochilo da fera. Quando fechasse os olhos, coçasse a barriga, virasse a cabeça para alguma barata idiota.
O felino lambia os beiços, os olhos enormes fitos no rato encolhido, pensativo.
Aquele maldito não cochilava, não fechava os olhos, não coçava a barriga. Nem aparecia uma barata, uma aranha, um inseto qualquer.
E se se transformasse em gato? Por que não? Melhor ainda se aquele patife se transformasse em rato. Então a história seria outra.
Na sua ilusão, o ratinho perdeu o acanhamento, cresceu, levantou-se do chão e pôs-se a miar. Aquele animalzinho metido a valente precisava levar uma boa lição.
E partiu para o gato.
Ocorreu então a cena mais trágica da história: o felino desferiu uma tapa tão espetacular que o mísero rato rodopiou feito um pião e estatelou-se no chão. Não satisfeito, de um salto o malvado caiu sobre a inerme vítima e cravou-lhe os dentes.
— Deixa-te de ilusões, rato.
Debaixo da cadeira, o gato deu um pavoroso miado. E pôs-se a lamber as doídas ancas.
Já era noite.
CASA MAL-ASSOMBRADA
Vez por outra, Hulda desaparecia dentro de casa. Parecia fantasma. Eu a chamava, ela nada respondia. Vasculhava todos os cômodos e não a encontrava. E a casa era pequena. Sala, três quartos, dois banheiros, cozinha e quintal.
Hulda desaparecia como por encanto. Às vezes estávamos na sala, eu lendo jornal ou livro, ela polindo unhas. Eu comentava notícia ou capítulo. Ministro demissionário, homem perdido em casa mal-assombrada. Ela se aborrecia. Pouco lhe importava o destino da república. Menos ainda o fim dos livros. E deixava de lado as unhas e a sala. Eu a chamava, ela nada respondia. Largava o jornal ou o livro e ia ao banheiro. Não estava. Corria ao quarto do casal, ansioso, sôfrego, impaciente. Ninguém deitado na cama. Nenhuma mulher dormida, a sonhar.
E o ministro? Talvez já estivesse demitido. E o homem, coitado, morto de medo, perseguido por assombrações na casa velha! Hulda que se cuidasse. Ela não valia a república. Nem uma casa de fantasmas. E eu lia e relia o jornal ou o livro. E queria comentar notícia ou capítulo. Chamava Hulda, ela não respondia. Largava então o jornal ou o livro e ia ao quarto dos nossos filhos. Não, não sabiam da mãe. Devia estar na cozinha. Eu corria para lá. A cozinheira resmungava besteiras. Importava-lhe apenas o destino do frango. O ministro, o homem assombrado, a patroa, fossem todos para o inferno.
Eu voltava ao sofá, reabria o livro ou o jornal. Não entendia mais nada. Ou o mundo enlouquecera, ou jornalistas, escritores e tipógrafos brincavam comigo. Um ministro assombrado, um homem demissionário. Eu ria, gargalhava. Hulda precisava ouvir aquelas barbaridades. Talvez ela estivesse no quarto da cozinheira. Ou no banheiro. Não, ela não se aviltaria tanto.
Restava o quintal. Sim, colhendo flores, aguando plantas, catando frutas. Quem sabe, dando comida ao cachorro. Atirando pedras às lagartixas. Estendendo roupas no varal. Simplesmente aspirando ar puro.
Durante a noite, o mesmo tormento. Eu acordava sobressaltado e queria conversar. Generais davam golpes, fantasmas debaixo da cama. E Hulda, por onde andava? Passava a mão, e só encontrava travesseiro, lençol, vazio.
Ia ao banheiro e me assustava. Um homem assombrado à minha frente. Era o espelho. Corria à sala. O jornal espalhado pelo chão, o livro aberto sobre o sofá. As crianças dormiam em paz. A cozinheira estendida no catre, desarrumada. O cachorro latia, o vento abanava as roupas estendidas no arame, a lua clareava tudo.
Esse tormento durou dias e noites. Anos e anos.
Ainda bem que tudo acabou. Não leio mais jornais nem livros. Pode cair a república, pode o homem morrer de medo na casa mal-assombrada. Agora sou um homem sossegado. Quanto a Hulda, se desapareceu definitivamente, não sei. Se virou fantasma ou se morreu, pouco me importa. Esta casa é que não deixo.
OS COMENSAIS DE AFONSO BAIO
No meio da noite sentiu seca a garganta. Como se tivesse engolido fogo. Nem sequer uma gota de saliva na boca. Buscou entre os dentes um resto de comida. Na certa haveria líquido em qualquer pedaço de arroz. No entanto, a língua — pedaço amargo de carne — nada encontrou.
A geladeira, porém, devia estar repleta de garrafas com água. Por que, então, não pular da cama e correr à cozinha? O tormento desapareceria num minuto.
Bebia Afonso o segundo copo, quando avistou um rato a correr junto ao pé da parede. Feito um raio, a idéia de atirar a taça contra o animal sumiu. Talvez pudesse matá-lo com o pé. Não, não pisaria rato nenhum, sem antes se calçar.
E bebeu mais água. Depois cuidaria do seu indesejado hóspede. Aquilo não eram horas de matanças domésticas. Melhor dormir.
Nas noites seguintes, Afonso sentiu outras sedes e correu outras vezes à geladeira. E outros ratos avistou. Não, devia ser um só, o mesmo da primeira noite. A mesma cor, o mesmo tamanho, os mesmos olhinhos arregalados, o mesmo chiado estridente, a mesma insolência. E era esta insolência que o enfurecia. A ponto de o fazer lançar contra o pequenino animal os mais variados objetos: copos, talheres, tampas de panela.
Se sua mulher estivesse em casa, aquilo talvez não acontecesse. Ora, não iria acordá-la com tanta zoada. E as crianças? Jamais faria aquilo com seus queridos filhos.
Mas há meses morava só. O juiz decidira separá-lo do resto da família. E, como não havia com quem conversar e brincar, passava parte da noite a beber cerveja. Quando não agüentava mais, caía na cama.
Alertado do perigo do alcoolismo, decidiu dar aulas à noite, após o trabalho de oito horas. Sentiu-se cansado. E para quê mais dinheiro? Poderia muito bem se divertir, em vez de trabalhar mais. Não faltavam cinemas, teatros e livrarias na cidade. Sim, veria muitos filmes, muitas peças, leria muitos livros.
Logo não falava a não ser de filmes, peças teatrais, livros. Um importuno de primeira!
— Volte a beber, Afonso — suplicavam seus colegas, vizinhos, amigos.
E o já supererudito Afonso Baio deixou de lado cinemas, teatros, livros, e se dedicou outra vez às bebidas. E logicamente voltaram as crises de secura na garganta, as sedes infernais, os sonhos estapafúrdios. Eram guerras intermináveis entre ratos e gatos, carnificinas terríveis. Ou um mundo dominado pelos ratos. A União das Repúblicas dos Ratos-de-Casa invadia os Estados Unidos dos Ratos-Pretos. E ele, Afonso Baio, espectador apavorado, único homem a zelar pela paz na Terra.
Havia, porém, sonhos de outra natureza. Num deles, uma praga de ratos atormentava o reino de Dom Afonso I. Ninguém conseguia dominá-los, exterminá-los ou expulsá-los. Eis, porém, que um homem descobre a sedução que sobre os roedores exerce a música de sua flauta. E, assim, sai pelas ruas da cidade a soprar. Em poucas horas, consegue atrair todos os ratos da corte. E sai pelo portão, levando atrás de si toda a corte maldita.
O mágico era precisamente Afonso Pires Gatacho Baio.
Assim, Afonso voltou às turras com os ratos domésticos. Ou com aquele insolente rato de tempos atrás. Sim, o bichinho voltara, mais crescido embora. E mais travesso, mais lépido.
Só uma ratoeira pegaria aquele endiabrado roedor. Do contrário, logo a casa estaria infestada de ratos. E adeus sossego!
Porém um sonho heróico fez o nosso Afonso mudar de idéia. Em tal sonho, o ratinho travesso o salvava de morte certa — as garras de um majestoso e terrível leão.
De manhã, em vez da ratoeira, comprou o homem um enorme queijo.
E toda noite Afonso supria a cozinha — território do rato — das mais variadas iguarias. Para refestelo do animal. E este, aos poucos, perdeu o medo.
Na terceira noite seguinte ao sonho da transformação de Afonso Gatacho em Afonso-dos-Ratos, o travesso roedor recebeu um nome — Inquilino.
Não tardou, Inquilino difundiu a notícia do batismo a seus irmãos, parentes e amigos. Nenhum deles, porém, deu crédito à conversa do esperto rapaz. Jamais acreditaria em amizade de homem. Pior do que gato. Com certeza o tal Afonso preparava uma armadilha para o pobre Inquilino. Tomasse cuidado!
O tempo passava, e nada de Inquilino morrer. E os queijos!? Nunca lhe faltava comida. Até conversavam, ouviam música. Precisavam ver a cama. Um móvel digno de qualquer príncipe.
— Cuidado, ele vai te pegar dormindo!
— Deve ser um funestíssimo sádico.
O primeiro a ceder aos rogos de Inquilino recebeu o nome de Narciso. Ao chegar à casa de Afonso quis se ver. Não acreditava em sua própria coragem. E correu para diante de um espelho.
Ao cabo de uma semana, viviam na casa, sob a tutela e o beneplácito de Afonso, mais três ratinhos: Lutero, Buda e Ícaro. O primeiro não parava de chiar. O segundo vivia sentado, as patas traseiras cruzadas, como a adorar seu deus Afonso. O terceiro, na sua faceirice de criança, brincava o tempo todo de saltar obstáculos, tentando voar, feito morcego.
Nem tudo, porém, era amor naquela casa. O crescente aumento do número de hóspedes compeliu o hospedeiro a revelar suas simpatias e antipatias por uns e por outros. Assim, decidiu rebatizar alguns ratos. E depois adiou a escolha dos nomes. Para não chamar nenhum joão-ninguém de Napoleão ou Vietcongue.
Terminou fazendo distinção entre bons e maus. Aos primeiros dava comida, carinho, proteção. Aos segundos, as sobras dos opíparos jantares de seus favoritos, além de pontapés, torturas várias e a morte. Não qualquer morte, mas a mais terrível — entregava os condenados, indefesos, à sanha de gatos famintos.
Não há dúvida de que Afonso criava ratos como diletante. Pois nunca havia sequer estudado biologia ou zoologia. Mesmo assim, logo adquiriu alguns livros sobre os pequenos roedores. Os primeiros foram Como eliminar ratos e Os ratos e a saúde pública. Mas não era exatamente esse tipo de literatura que desejava conhecer. Vasculhou livrarias e bibliotecas e achou obras como A origem dos ratos e Comportamento dos ratos. Chegou a constituir pequena biblioteca de obras sobre o milenar mamífero. Tornou-se, assim, um dos maiores conhecedores do assunto. Quantos gêneros, quantas espécies. Comprimentos máximos em cada gênero. Hábitos, esconderijos, alimentação preferida. A “peste negra”, suas causas e conseqüências. O terror vivido pelos europeus. Os milhares de mortos.
A cada nova descoberta científica, Afonso Baio ampliava o seu criatório. Logo, dispunha de pelo menos um exemplar de cada espécie.
Outro sonho, porém, induziu nosso herói a dar fim aos seus inquilinos. A peste negra havia ressurgido na Terra. E o ponto de partida da epidemia se dera exatamente no seu casarão. Nas cidades e nos campos morriam diariamente milhares de pessoas. Com medo da terrível morte, elas se flagelavam em público, chicoteavam-se e pediam a Deus que as salvassem.
Desatinado, Afonso iniciou, ainda de madrugada, a impiedosa desforra. O primeiro a ser capturado foi Jesus, um jovem rato-de-espinho. A seguir se deu o suplício de Madalena, uma sensualíssima ratinha-de-palmatória. Pelo simples motivo de tentar socorrer o outro.
Nesse dia os gatos da casa — hóspedes recentes — fizeram um banquete digno do rei Sardanapalo. E assumiram o lugar dos ratos na vida de Afonso Pires Gatacho Baio.
O SONHO IMPOSSIVEL DE PÃ
Doido fauno senil, quebrando as finas
Lianas que se erguem no cipoal em que erro,
O ar farejo com sôfregas narinas,
Percebo indícios duma ninfa, e berro...
(Humberto de Campos)
Ela mais parecia saída dos bosques da mitologia, juvenilmente bela como as ninfas, os olhos mais cândidos do mundo. E ele, vendo-a todo dia, nada mais fazia que sonhar. Erguia castelos de areia, fundava cidades, viajava pelo cosmos. Ela se chamava Quésia, ele Arion.
E viveram infelizes para sempre.
***
Um dia, antes da eternidade chegar, Arion se dispôs a contar todos os seus sonhos a Quésia. Queria ser eterno. Ansiava viver eternamente junto a ela. Desejava, ao menos, um minuto dessa eternidade nos braços dela.
Quésia riu. Não acreditava numa só palavra de Arion. Tudo engodo de homem. Pura sedução maliciosa. Quando muito, sonho de poeta.
Além do mais — brincou — não era exatamente mulher, mas uma ninfa. Logo, nenhum homem poderia jamais alcançá-la.
Brincadeira por brincadeira, Arion se disse um fauno. Sim, também não se sentia exatamente um homem. Logo, só o destino o separava dela.
A conversa fez-se amena e culta. Falaram de mitologia grega. Que nome ela gostaria de ter, se fosse ninfa? Talvez Galatéia, a cavalgar cavalos-marinhos entre as ondas do mar. Quem sabe Aretusa, para rimar com musa. E por que não Climene, a bordar constantemente? E ele, que fauno desejaria ser?
De noite, Arion teve um sonho esquisito. Era Pã, o fauno da Arcádia, pernas e pés de bode, peludo e de chifres, tendo o resto do corpo a forma humana. Um bicho horrível, com certeza. No entanto, de coração apaixonado. E o objeto de sua desmedida paixão chamava-se Quésia, a mulher dos olhos mais cândidos da Terra.
Um dia, no meio da eternidade de suas vidas, Pã encontrava Quésia perdida no bosque. Queria ser humano e mortal, contanto que tivesse o prazer de a ter em seus braços. Por um minuto sequer.
A jovem se zangava. O fauno só podia ter enlouquecido. Ora, um fauno jamais poderia amar uma mulher. Fosse procurar suas ninfas. E, mais zangada ainda: buscasse as fêmeas de sua espécie, se existissem.
E desaparecia entre as árvores, deixando o pobre Pã tristonho e só.
Arion acordou assustado, olhou para as pernas e os pés, e levou as mãos à cabeça. Não, não era um fauno. Permanecia tão humano quanto antes. De qualquer forma, o sonho não deixara de ser interessante. Devia até contá-lo a Quésia. Falariam de novo de mitologia grega. Pretexto para revê-la. E telefonou para ela.
Quésia não se encontrava. Fora embora. Para a Índia. E nunca mais voltaria. O motivo? Não suportava mais a presença de um tal Arion. Não queria vê-lo nem em sonho — informou a voz no telefone.
Tudo engodo. Quésia nunca viajou à Índia e naquele dia riu como nunca.
Arion pensou, pensou, e terminou conformado. Ora, ela tinha razão de sobra para agir assim: tão jovem e bela, como poderia querer um homem tão defeituoso? E seu pior defeito era viver sonhando. Não a procurou mais, certo de que só lhe restava erguer castelos de areia, fundar cidades e viajar pelo cosmos. E, dia e noite, continuou a sonhar histórias mitológicas, em que era Pã, o fauno apaixonado por Quésia, a dos olhos cândidos de ninfa.
O CONFESSOR LASCIVO
O primeiro livro de Frederico Ozanam fez muito sucesso. Talvez em razão do título: Histórias indecorosas.
Começa por onde poucos terminam — chegaram a dizer. Na verdade, o livro foi editado pela empresa editorial mais rica do país. Os direitos autorais foram pagos antecipadamente. Jornais, revistas, televisões se referiam, diariamente, ao novo fenômeno literário. Nunca um livro vendera tanto em tão pouco tempo — meio milhão de exemplares em questão de dias.
Ozanam teve que se esconder, viajar para a Europa. Não suportava mais tantos repórteres à sua porta. Queriam entrevistas, depoimentos, fotografias, um simples alô. Pagavam fortunas por uma palavra sua. Ozanam dizia não. Lessem o livro. Bastava isso. Não entendia de política, economia, comportamento.
O editor se irritava, coçava a cabeça, praguejava. Uma entrevista no canal 10 valia mais meio milhão de exemplares. Ozanam enlouquecera. Um idiota!
Saiu o segundo livro. Título também muito sugestivo: Gemidos de amor. O grande público, porém, virou a cara para seu ídolo. Passado um mês do lançamento, uns cem exemplares haviam sido vendidos. As livrarias brigavam com a editora. Queriam devolver tudo. O editor coçava a cabeça, praguejava. O público enlouquecera. Idiotas!
Ozanam escancarava as portas de casa. Onde andavam os repórteres, os fotógrafos? Telefonava para as redações. Desligavam o telefone na sua cara. Insolentes!
O mal de Frederico Ozanam — diziam críticos e leitores — era meter latim na cama. Referiam-se, de maneira geral, a seu eruditismo. Apesar da vulgaridade dos títulos e da tradicionalidade da técnica de narrar.
O editor, que não lera os livros de Ozanam, ameaçou: ia requerer indenização. O prejuízo poderia levá-lo à falência.
Dedicado ao terceiro livro, o escritor esqueceu os dissabores e deixou a briga por conta dos outros. Escrevia à noite, pacientemente. Buscava a perfeição. O erotismo mais requintado. Nada de Sade, Laclos, Henry Miller.
Passados alguns anos, deu por concluído o trabalho. Restava cuidar da edição. Menos pelo editor dos primeiros livros. O homem ainda ameaçava matá-lo, se o visse.
Dois ou três anos depois, conseguiu convencer um pequeno editor a financiar a publicação de O pecado do prazer. Não importava a quantidade de exemplares. Podia ser cinco mil. O editor propôs mil. Chegaram a um acordo: três mil.
Nenhum dos dois tinha razão: ao cabo de um ano, venderam-se duzentos livros.
Nos vinte anos seguintes, Frederico Ozanam escreveu muitos outros contos eróticos. E gastou muito dinheiro. Pagou a impressão de todos eles. Em pequenas gráficas de máquinas obsoletas.
Já não ouvia bem e discutia com os tipógrafos. Diziam-lhe uns preços, ouvia outros. Resmungava, irritava-se com facilidade, envelhecia.
***
Frederico Ozanam é o pseudônimo de Vicente de Paulo Azevedo. O padre Vicente. Religioso recatado e erudito. Nunca fez sermões, nunca celebrou missas solenes, nunca visitou o bispo. Em compensação, sempre leu a Bíblia, Santo Agostinho, São Tomás de Aquino. E também Virgílio, Júlio César, Horácio. No original.
Confessa ele só ter tido interesse por escrever depois de sua ordenação. Muito depois. Quando seminarista, mal rabiscava as redações escolares. Nem cartas escrevia. A caneta caía da mão, o papel se enchia de desenhos enigmáticos. Não negava, muitos desses desenhos escondiam mulheres nuas. Seios de todos os feitios, ventres exuberantes, coxas e pernas cheias de curvas.
A vontade de escrever só se manifestou mais tarde. Ia para o confessionário e passava horas seguidas a ouvir pecados. Ouvido grudado na boca do pecador. Aquele cicio, aquele balbucio medroso, quase mudo, como se vindo de muito longe, do mais fundo da alma.
Todo dia, rosários e rosários de pecados desfiados. Homens e mulheres repletos de pecados. Uns mais acanhados, discretos. Falavam pouco, medindo as palavras, temerosos de pronunciar obscenidades. Outros mais francos. Abriam a boca e contavam as mais íntimas cenas de alcova.
Nos primeiros tempos, Vicente ouvia, perdoava, esquecia. Vinha outro fiel. E assim o tempo passava.
Algumas cenas, porém, ele não conseguia esquecer com facilidade. Por mais que lesse os salmos, os evangelhos, a guerra gaulesa. Repetiam-se aos seus ouvidos, como se os pecadores não parassem de ciciar seus pecados. Vicente lia e relia, rezava, ajoelhava-se, martirizava-se.
Ouvir confissões tornou-se um hábito, um passatempo, um prazer. Se não havia pecadores a confessar, Vicente se amofinava. Não sossegava enquanto não chegava a hora das confissões. Ia e vinha pela casa, impaciente. Corria à igreja, excitado. Postava-se diante do confessionário, a morder os lábios.
Via de regra, a confissão de cada cristão não durava menos de meia hora. Vicente se valia de um caderno de perguntas, por ele mesmo elaboradas. Interessavam-lhe os grandes pecados, os atos incomuns, os hábitos esquisitos. A história em si. A biografia dos personagens. Do narrador, sobretudo.
Os mentirosos, os desonestos, os perversos, esses recebiam pronto perdão. Rezassem, jejuassem, resistissem ao pecado. Os gulosos, os preguiçosos, os gananciosos, esses também não precisavam contar muito. Pecados leves, penas brandas. E fossem com Deus.
Contudo, se o fiel tinha a confessar pecado da carne, padre Vicente se enchia de ouvidos. Contasse tudo, tintim por tintim. E fazia perguntas, reperguntas, insinuações. Falasse devagar e com clareza. Não queria confundir dedo com gelo, chutar com chupar, gemer com tremer. Muito menos alhos com bugalhos.
Os ouvidos de Vicente, porém, já não ouviam direito. E os pecadores foram, pouco a pouco, se afastando dele. Preferiam outros padres, outras igrejas.
Desiludido, o velho sacerdote tirou a batina. Em compensação, mandou publicar mais um livro: Memórias de um confessor lascivo.
Frederico Ozanam deixava de ser autor para se tornar um amargo personagem.
Como de costume, não faltou latim. Desde a epígrafe: Cornu bos capitur, voce ligatur homo. (*)
(*) O boi se pega pelo chifre, o homem pela palavra.
(Continua)