As insolentes patas do cão (1)
(Contos, 1991, João Scortecci Editora, São Paulo, SP)
Nilto Maciel
***
ÍNDICE
Ícaro
A Menina dos Olhos
Rosa dos Ventos
Incubação
A Fala dos Cães
Teoria do Amor Socrático
Passeio
A Voz Indecorosa
Adeus, Alzira
Sonhos
Mon Amour
Joana D’Arc e os Amantes
O Riso do Gato
Ilusões de Gato e Rato
Casa Mal-assombrada
Os Comensais de Afonso Baio
O Sonho Impossível de Pã
O Confessor Lascivo
O Vencedor
Mundo Livre
Eucaristia
Amapa
Olho Mágico
O Diário de Judas
A Última Festa de Um Homem Só
O Primeiro Homúnculo
Um Simples Boneco
Os Belos Olhos de Sônia
A Condenação do Senhor Felício
Os Pés do Monstro
As Luvas de Vulpino
O Inseto
Homero e o Macaco
As Insolentes Patas do Cão
O Menino e o Bacamarte
ÍCARO
Rotineiramente nos meus sonhos sou levado de roldão no turbilhão das chafurdices mais absurdas. E acordo brigado comigo mesmo, por ser frágil, pequeno, indefeso — criaturinha atômica perdida na grandeza das coisas.
Há pouco eu ia ladeira abaixo, desembestado, numa carreira de doido. E se não conseguisse nunca mais parar, fosse bater no fim do mundo? Bem feito, quem me havia mandado sair daquele jeito! Não, eu podia me esborrachar nas pedras, terminar todo arranhado, quebrar perna, braço, rachar a cabeça. Ah meu Deus! E que vontade de voltar atrás, ao tempo da partida! De pelo menos estacar, tomar fôlego, andar apenas, passo aqui, passo ali, feito cachorro vadio. Porém já nenhuma vontade eu carregava, nada eu conseguia fazer para diminuir a velocidade, desgovernado seixo na correnteza. E descia, rolava, perdido, danado. Grão de areia arrastado pelo ar, eu sentia sumir-me o chão dos pés, levitar, alçar vôo. As pernas, soltas no espaço, balançavam agarradas ao resto do corpo, feito as de um enforcado. E me guiavam os quatro ventos do desespero para as alturas e as perdições. Na boca, o gosto do nada; nos olhos, o medo de precipitar-me; no peito, a ânsia da desgraça. Sim, a queda. Não podia durar muito minha aventura de pássaro sem asas. Como voar para sempre? A menos que eu buscasse o mar, seguro porto de todos os voadores. Nunca, ele não existia, e, se existisse, vivia longe, longe demais. Mas quanta burrice, eu quase alcançava tocar com os pés as cabeleiras das árvores. Não carecia preocupar-me tanto. Bastava soltar-me das argolas do céu e saltar.
Com alguma perícia, agarrava-me aos galhos e, macaco velho, evitava o tombo. E ainda dava cambalhotas no ar, pulava de galho em galho, imitava Tarzan. E se me estrepasse? Não, não me restava salvação, condenado a perambular entre as estrelas, até perder todas as forças e... ploft. Era uma vez um menino que desceu a ladeira da vida, tomou carreira, subiu feito balão e espatifou-se todo.
Não deixei de voar, não avistei o mar, não me agarrei aos galhos das árvores e o sonho terminou em gritaria.
Há muitos anos, eu vivia constantemente machucado, ferido, coberto de ronchas. E, ainda por cima, minha mãe me cobria de peia. Deixasse de ser tão molenga! Eu não me emendava, no entanto. Caía, apanhava, caía de novo, apanhava mais. Por que não largava essa mania de viver trepado, feito macaco? Porém as mangueiras me encantavam. Difícil só alcançar o primeiro galho. Daí em diante eu me perdia, metido entre as folhagens, escondido do mundo. E a sensação de poder cair! Aquele vento doido, o desequilíbrio, o chão coberto de folhas secas, pintinhos entretidos a caçar insetos, aos pios, frágeis, indefesos entre os pés sujos e desatentos dos porcos aos roncos! Então aconteceu qualquer coisa comigo e eu pulei? Ou caí? Tudo isso depois de me fartar de chupar as mangas amassadas e podres do chão. Caíam de maduras ou por arte dos meninos. Eu não participava dessas brincadeiras. E sempre pegava a sobra. Até o sobejo dos bichos.
Aprendi cedo a levar quedas, ou dar pulos; ou voar. Esses três tipos de ginástica se confundiam em mim. Eu caía, pulava ou voava da mangueira? Da janela de minha casa, porém, eu conseguia pular mesmo. E voava até o meio da rua. Chamava os colegas e fazíamos apostas.
Eu devia ter nascido pássaro. Essa vontade de pular, de jogar-me ao chão, de lançar-me do alto. Apenas o espaço vazio, chão, a terra. E o vento que bate, açoita, puxa, empurra.
Quando me senti bem treinado, resolvi pular do muro alto do quintal. Embaixo só pedras, espinhos, formigas. Caí e quase desmaiei. Levantei-me, cambaleante, machucado, arranhado. Ainda bem que não havia ninguém por perto. Só minha decepção. Quando entrei para casa, mamãe ficou muito nervosa e agitada. Eu disse ter pulado uma cerca, com medo de um touro. Eu não podia dizer a verdade. Ou touro, ou tourada. “Esse calção encarnado”.
Antes da seguinte experiência tive a idéia de fazer testes com formigas. Primeira etapa: arranjar uma caixa de fósforos, qualquer latinha. Segunda: encontrar uma porção de formigas. Terceira: ter paciência e coragem de pegar com o maior cuidado as bichinhas. Ninguém consegue fazer isso, porque formiga é bicho danado de esperto. Mas eu era esperto e meio. E conseguia juntar dez, doze, dezenas delas. Subia ao muro, abria a caixinha, as formigas saíam apressadinhas e eu dava um sopro. As coitadas voavam, caíam e não acontecia nada de mais. Ao chegarem ao chão, corriam, apavoradas. Talvez fossem leves demais.
Experimentei também as bonecas de minhas irmãs. Do lugar mais alto do mundo — a torre da igreja. E de lá soltei uma a uma, encantado com suas quedas lentas. Corri as escadas para ver o estado delas. No patamar, porém, não encontrei mais nenhuma. Teriam voado? Para a serra, lá onde moravam os passarinhos? Ou haviam voltado para o alto da torre, à minha procura? Espiei para cima, para todos os lados e cadê boneca? Só passarinho voando. E não podiam ser bonecas de pano. Ou podia boneca se transformar em passarinho?
Noutro dia o sacristão não me deixou subir à torre. Precisava enfeitar a igreja para a procissão. Voltei para casa, doido para ver de novo boneca transformar-se em passarinho.
Na hora da procissão, o povo em fila, as casas fechadas. Nos parapeitos das janelas nenens de colo e suas avós, e nas portas velhinhos sentados em cadeiras de balanço. Tomei a dianteira, impaciente. Ao nos aproximarmos, deixei a fila e subi à torre. Debruçado sobre a janelinha, tive vontade de cuspir na boiada. A igreja se entupiu de gente. No patamar ficou quem não pôde entrar. Tantas cabeças juntas nunca tinha visto assim de cima. Admirado, ia me esquecendo das bonecas. Deu-me vontade de novo de cuspir. Desisti: o sacristão podia me mandar descer. Devia era jogar logo as bonecas. E joguei. Vôo bonito. Pareciam anjos descendo do céu. Tive medo de olhar, vontade de me retirar da janela e me esconder dentro do sino ou detrás do sacristão.
O povo, ao avistar a chuva de anjos, gritava e corria. As bonecas caíam. O padre pedia calma aos fiéis. Eu me espremia de medo. As bonecas assustavam o povo de Deus. E se o povo subisse as paredes para me castigar? Aranhas vingativas que me jogassem ao solo. Eu me espatifaria feito uma boneca. Não, voaria e viraria anjo ou passarinho e sobrevoaria a cidade e fugiria para a serra. O padre me amaldiçoaria, me chamaria de Maligno. Mostraria a cruz e eu voltaria a ser gente, menino maligno. Cairia, me despedaçaria todo. Não precisava nem cair. Bastava pular da torre. Todas aquelas ovelhas correriam, fugiriam de mim e me deixariam morrer. Nenhuma abriria os braços para me aparar. Eu me quebraria de encontro ao duro chão do patamar. A menos que o povo se juntasse de novo. Então eu cairia em cima dele e me salvaria. Não, aquelas cabeças eram duras. Serviam então as mãos. E se seus dedos me furassem, me espetassem? Nem isso. Aquele povo imenso abria caminho para minha morte. Furava um buraco para eu me enterrar. Eu e as bonecas.
Todos olhavam para cima, embasbacados, como se eu fosse a papa-ceia. O vento soprava. O espaço vazio, cinzento. Minhas irmãs choravam a morte de suas bonecas que voavam para a serra e às vezes caíam como frutas maduras. Por onde andava o sacristão que não vinha bater o sino? A procissão continuava, mas no patamar não cabia sequer mais um cristão. Os fiéis esperavam Deus. Se eu caísse? Se eu voasse? Se eu virasse anjo, passarinho, aquele homem de asas?
A MENINA DOS OLHOS
Corríamos pelo campo, não sei bem com que intenções. Possivelmente desejávamos pegar borboletas ou grilos. Talvez quiséssemos apenas correr. Não consigo lembrar-me dessas migalhas. Já faz muito tempo. Eu devia ser um pedacinho de gente de uns cinco ou seis anos.
Havia uma cerca de arame a dividir o terreno em dois mundos opostos: de um lado capim rasteiro; de outro, terra nua. E tratamos de transpô-la. E já então arrastava-nos a determinação de achar não sei o quê. Uns pareciam mais decididos, como se comandassem os demais. Raquel sobretudo, que caminhava à frente e de vez em quando parava, abaixava-se, cutucava o chão. Uns acercavam-se dela, faziam-lhe perguntas, arranjavam gravetos e espetavam a terra. Imitavam-na ou queriam agradá-la. Outros, como eu, permaneciam ao largo, mais curiosos que agitados, à espera de novas invenções de Raquel.
Aqui e ali a terra se apresentava fofa, como se a tivessem revolvido profundamente. E eu sentia medo, a imaginar cadáveres enterrados, tesouros encobertos, buracos que fossem dar no país dos anões. Raquel, porém, parecia saber de tudo, conhecer palmo a palmo o terreno e nem sequer se espantava quando metia o pé num buraco mais fundo.
Pouco a pouco, só eu permaneci mais afastado e até voltei à cerca. O ciúme não me deixava ir atrás de Raquel, feito um qualquer. Por que não me havia falado nada? Por que não me dava atenção? Por que preferia a companhia dos outros?
Ela falava sem parar e todos a escutavam. Apontava para o chão, como se explicasse coisas muito interessantes, a origem dos buracos, o nome dos mortos, o valor dos tesouros, a vida dos anões. Eu não conseguia ouvir sua voz, e mais me emburrava.
Para onde fosse Raquel, iam os outros, como se ela os tivesse atados por cordões. Arrastava-os de lá para cá, de cá para lá. E eu sem saber o que tanto buscavam. A casa do preá, o ovo da galinha, a cova da avozinha?
Primeiro Raquel apalpava o chão com um pé, o corpo sustentado no outro, para só então seus súditos criarem coragem de avançar, como se a terra pudesse abrir-se para os engolir.
A cada passo de Raquel meu coração dava um pulo e eu fechava os olhos para não vê-la desaparecer. Abria-os, o coração de novo a pular, e já ela aparecia noutro lugar, um passo aqui, pum-pum, um passo acolá, pum-pum.
Súbito Raquel afundava e gritava, estarrecida, chorava e agitava as mãos, perdida. E os outros corriam, chocavam-se, tombavam, e eu ainda agarrei-me à cerca, a ferir-me as mãos, paralisado, frio.
E muitos anos depois, toda vez que eu via Raquel, eu a imaginava morta, a passear na sua transparência através das paredes, dos objetos, de mim mesmo, e vir alojar-se bem dentro de meus olhos.
ROSA DOS VENTOS
Nenhum livro dormia à cabeceira da cama, nem havia copo ou comprimido à espera da mão sonâmbula de Rosa, que apalpava a cabeça, assanhava o cabelo, os olhos feito tochas a incendiar o quarto. Com a mão direita amassava o lençol e as dobras do pano fugiam-lhe entre os dedos. Com a outra buscava o corpo ausente de José, seu peito cabeludo, seus largos ombros, suas coxas grossas, seu duro queixo.
Escorregou para ele, a boca cheia de gemidos, os seios doloridos, o sexo a latejar. Esfregou-se, contorceu-se, enrodilhou-se em si mesma — alva serpente a chocalhar de vida.
Meio corpo ergueu, para a frente engatinhou e de novo sentou-se, entre as pernas da cama. Pôs-se de pé, andou pelo quarto, por seus quatro cantos, a camisola amarrotada, transparente, incapaz de esconder tanto pecado. Transpôs a porta, alcançou o corredor, a pisar maciamente, como se voasse à maneira das gaivotas. E num instante esteve no banheiro, nos quartos, na cozinha, na sala.
Os filhos dormiam, maleáveis, feito bonecos. Ajeitou-os, moldou-os à semelhança de homens, cobriu-os de lençóis e carinhos, maternalmente.
Uma barata andava tonta de norte a sul da cozinha, doida no país das panelas.
No espelho do banheiro Rosa mirou-se, sorriu, meteu entre os cabelos o pente das mãos.
Na sala, aninhou-se num sofá, acendeu um cigarro, fechou-se os olhos e pôs-se a olhar para os quatro cantos do tempo — o homem que a chamou de beleza, o olho viril de José, seus próprios seios mal cobertos. Naquela rua passavam todas as pernas do mundo – mulheres gordas e magricelas, bonitas e desbotadas; homens apressados e bem vestidos, velhos e malandros. Todos a farejar deslizes, aventuras, libertinagens. Os mil olhos do monstro, cobiçosos, acesos, danados. As mãos safadas e sujas, penduradas feito cachos de banana. Pegajosas, cobertas de nódoa.
Sugou o cigarro, soprou a fumaça, abriu e fechou os olhos. O carro de bois do quadro gemia pelo caminho da parede, a ferir a lei da gravidade. Tão pobre aquela vida no campo! Talvez fizesse melhor comprando um quadro feérico — uma corrida de cavalos, apostas, binóculos, mulheres de leque, homens de cachimbo. Ou uma tourada, Pablo, Juanito, um toureiro de muita fama, manchete de jornal. A viagem de navio, com festas, champanhas, eróticos play-boys, astros e estrelas, strip-tease, camarins fabulosos. E a aparição de Sherlock Holmes depois do suicídio da princesa.
Esfregou o cigarro no fundo do cinzeiro, levantou-se do sofá, chegou à janela. A cidade piscava feito um chão de estrelas.
Tocaram a campainha, insistiram. Assustou-se, agarrou os seios, resvalou no rumo da porta. Um dos meninos tossiu. José gemeu do lado de fora.
Rosa abriu a porta. O vento assobiava uma cançãozinha que falava de bares e mulheres perdidas.
INCUBAÇÃO
O dia todo na labuta do campo, João e Maria nem tiveram tempo de se amar. Mal se deitaram, o sono chegou. Ainda trocaram duas ou três palavras. A cobra enroscada na árvore, promessa de chuva, fadiga no corpo.
No meio da noite, Samael se aproximou do tugúrio do casal. Sorrateiro, entrou. Há tempos seguia os passos de Maria. Quando a encontrava a sós, sussurrava-lhe lascivas palavras. E ela fugia, cega de ódio.
Cientificado do sono profundo dos dois, o forasteiro deitou-se junto à amada. Beijou-lhe suavemente os lábios. Despiu-lhe os seios, e também os beijou. Colou-se mais ao corpo dela. Retirou-lhe o resto das roupas. Abraçou-a, já deitado sobre ela. Nenhuma rejeição. Pelo contrário, Maria aceitava passivamente tudo.
Ao ser penetrada, porém, ela gritou. Samael assustou-se, deu um salto e fugiu.
Tempos depois Maria se sentiu grávida. E finalmente nasceu-lhe o filho. Um menino feio.
Quando o via, Samael parecia lembrar-se daquela noite de prazer e susto. E o seguia, como se quisesse protegê-lo, dizer-lhe alguma palavra. No entanto, o menino não o via.
Na verdade, ninguém sabia das origens do menino. E Samael só existia na crendice de alguns. De Maria, sobretudo.
A FALA DOS CÃES
O cervo conseguiu escapar à fúria de seus perseguidores e meteu-se na selva. Acteão talvez tivesse tido pena dele. Chamara de volta seus terríveis cães. Descansassem um pouco. Havia tempo de sobra. O dia mal começava.
O caçador avistara uns corpos nus à beira do rio. E tratou de impor silêncio. Nada de gritos nem latidos nem gemidos.
Agachado atrás de moitas, pôs-se a espiar as banhistas. Todas muito belas, cheias de curvas, dengosas. Sim, Diana e suas ninfas, em total nudez.
Os cães farejavam o chão, imunes a qualquer volúpia. Que o caçador satisfizesse seus mais caros desejos.
Acteão só via os corpos nus em contorções sensuais. Seus olhos pareciam poucos e pequenos para tanta beleza. Nada existia além daquele pedaço de rio. Nem cervos nem cães. E muito menos serpentes.
Havia, porém, uma serpente à sua volta. E escorregava pelo chão, maliciosa.
Um cão ladrou e correu para o réptil. Irritado, Acteão apanhou uma pedra e, de olho no rio, quis calar o animal. No entanto a rocha atingiu a cobra, que fugiu.
Diana e as ninfas apenas se banhavam, como se no mundo não existissem caçadores, cães e serpentes. E parlavam, riam e se faziam mais belas.
Havia, porém, outra serpente a dois passos de Acteão. E outro cão ladrou.
Furioso, o caçador de cervos atirou outra pedra contra o latido inoportuno. E, como da vez anterior, houve erro de pontaria.
No rio, as águas banhavam ainda as formosas fêmeas. E o lascivo Acteão gemia de prazer.
A terceira serpente apareceu. Terceiro latido, terceira pedrada.
A mesma cena repetiu-se pela quinta, sexta ou sétima vez. E os cães perderam a paciência. Aquele maldito Acteão ia terminar picado e morto. E adeus cervos.
Um dos cães propôs deixarem o caçador à mercê das cobras. Não, não podiam trair o amo. Apesar das pedradas que haviam recebido.
Outro sugeriu o mais difícil: falariam a Acteão da existência de serpentes naquele local. Falariam, em vez de latir.
Não, os deuses jamais dariam voz humana aos cães.
E se pedissem ajuda a Diana?
Acteão ouviu os sussurros caninos. Aqueles malditos cães só serviam para estragar prazeres.
E atirou-lhes mais pedras.
Nota: Naquele mesmo dia (ou noutro), Diana surpreendeu Acteão detrás das moitas e o transformou em cervo. Ato contínuo, os cães o devoraram.
TEORIA DO AMOR SOCRÁTICO
O professor Mendes não sabia com precisão quando tivera a idéia de escrever seu inconcluso livro. E não se arriscava sequer a falar do ano.
— Mais ou menos — instavam seus amigos.
— Pode ter sido em 64, muito antes, ou muito depois; não sei.
Bem, se não se lembrava do tempo da fecundação, dissesse então por que decidira criar a obra — exigiam os outros. Por querer celebrizar-se? Por admiração ao filósofo? Por puro diletantismo?
Mendes ou não levava a sério as preocupações dos colegas, ou também vivia em dúvida:
— Se não me engano, nasci para escrever este livro — e abanava um bloco de folhas escritas a mão, como se desse bananas ao mundo inteiro.
As tais folhas andavam sempre entre as páginas de um livro impresso e este debaixo do braço, o que as fazia suadas, amassadas e emporcalhadas. Dias e dias com o mesmo livro, embora já o tivesse lido e relido.
— Ainda com a República? — ignorava alguém.
E Mendes aproveitava a observação para mostrar suas “anotações filosóficas” ao curioso. Alguns bons minutos de leitura, quer o outro tivesse pressa, quer pudesse perder tempo.
As pessoas queixavam-se constantemente da impertinência de Mendes.
— Ele enche o saco com essas suas anotações — lastimava-se uma.
— O pior é que não escolhe suas vítimas. Podia chatear apenas seus colegas de Filosofia — opinava outra.
Para Mendes, todo ouvinte era um ouvinte, bastava ter ouvidos. Com certeza, iria entender tudo e gostar do texto.
Apesar de ninguém saber exatamente quando a primeira idéia germinara naquele crânio incompreendido, o certo é que o livro há anos vinha sendo escrito. Ou anotado, como o próprio Mendes dizia.
Um de seus amigos pilheriava: primeiro conhecera o livro, depois o autor. Até aí nada de engraçado, porque geralmente o leitor não conhece o escritor.
— Ocorre que não fui leitor, mas simplesmente ouvidor. O leitor foi ele, o Mendes — contava o piadista. — Primeiro leu para mim umas anotações filosóficas e só depois se apresentou: — “Sou Pereira Mendes, filósofo”.— “Prazer em conhecê-lo”.
Os ouvintes da pilhéria se enchiam de curiosidade: quando havia ocorrido o fatídico primeiro encontro dos dois?
— No primeiro dia de aula do primeiro ano de minha carreira de professor.
— Então já faz algum tempo! — admiravam-se todos.
— Se não ocorrer nenhum incidente na minha vida, deverei me aposentar daqui a dez anos.
Ao tempo do fato, Mendes devia ser ainda estudante, talvez calouro de faculdade.
Estranhavam ainda seus ex-mestres, colegas, amigos, alunos, todos quantos o ouviam diariamente, o não se apresentar ele como Apolodoro. Assinava-se A. Pereira Mendes, quer nos artigos que escrevia para a revista da escola, quer em documentos e papéis da vida civil.
— Não quero que digam: dedicou-se à filosofia só porque tem nome de filósofo.
Do nome do filho passavam à pessoa do pai. Com toda a certeza, o falecido José Mendes adorava filosofia.
– De jeito nenhum — replicava o professor. — Aliás, ele mal sabia ler. Não ia além dos jornais mais vagabundos.
E completava a informação: a lenda falava de um vizinho do pai, um sujeito metido a intelectual, como autor da idéia do nome.
De qualquer forma, aquele nome o levara a se interessar por filosofia. Primeiro procurou saber quem diabo tinha sido o tal Apolodoro.
— Para vocês terem uma idéia de como meu pai era um idiota, escutem só esta: ele me disse que Apolodoro era um influente político do tempo de Getúlio, um ex-tenente revolucionário, ou coisa assim.
E durante muito tempo o menino acreditou na história política de seu nome. Só descobriu a verdade quando chegou ao ginásio, às aulas de latim. Falavam de Apolo, e para Apolodoro foi um pulo.
Mendes nunca se mostrou um menino prodígio, desses que lêem Homero aos sete anos de idade. Pelo contrário, só lia o estritamente exigido pelos professores: sonetos da Escola Mineira, capítulos do Iracema, trechos de Rui.
Só às portas do vestibular conseguiu ler dez páginas sobre o pensamento grego, onde o jornalista falava de Sócrates, Platão e Aristóteles, além de meia dúzia de nomes de boa pronúncia.
— Havia Apolodoro?
— Nesse tempo eu era doido por Fátima e passava dias e noites a imaginar encontros aventurosos, palavras amorosas e beijos sulfurosos.
No entanto, a vida também passava. Mendes ingressou na faculdade, meteu-se no movimento estudantil, leu centenas de jornalecos, distribuiu panfletos incendiários e quase pegou em armas. Quando parou para de novo sonhar amores, Fátima havia casado com um comerciante de São Paulo e sumido para sempre.
Mendes queria ser jornalista. Se não fosse possível, advogado. Não havia vaga, porém, nem para uma nem para outra. Restava um lugarzinho na Filosofia.
— Do assunto eu só conhecia mesmo o amor platônico.
— Donzelo até essa idade? — brincavam os amigos.
Não, ele até poderia ser considerado um estróina prematuro. Freqüentava cabarés desde os treze anos, na companhia de um primo. Chegavam a gazear aulas, para ir atrás das mulheres, em pleno dia.
— Ainda me lembro da primeira vez. A mulher riu, mas eu me fiz forte, como se fosse experimentado garanhão.
Esse relacionamento com as raparigas se estendeu ao longo da vida de Mendes, a tal ponto de nunca querer se casar. Morou com os pais até a mãe morrer. A seguir, o velho também deu adeus à vida. Os irmãos e as irmãs então já tinham constituído suas famílias, cheios de filhos.
— Eu só casaria com aquela que eu amasse muito, e eu nunca encontrei este amor — confessava.
Não admitia as chamadas repúblicas de rapazes. Coisa de homossexuais enrustidos, defendia-se. Preferia viver só. Habitavam sua casa, porém, livros, discos e quadros. A biblioteca tomava conta de quase tudo, da sala ao quarto. Pura mania de colecionador, porque nos últimos tempos mal conseguia ler uma página por semana.
— Primeiro preciso ler tudo sobre Sócrates.
Sua escrivaninha vivia abarrotada daquilo que considerava essencial ao seu interesse: histórias da Grécia antiga, dicionários de filosofia e grego, obras filosóficas, especialmente o Banquete, Fédon, Memórias de Sócrates, Apologia de Sócrates e outras relacionadas ao mestre de Platão. No entanto nem só de filosofia vivia Mendes. As mulheres ocupavam lugar especial em sua mente. Como Maria Helena.
Tratava-se de uma secretária epicurista, que conhecera num bar. Em suas conversas, no entanto, nenhuma filosofia tinha vez. Falavam de si mesmos, generalidades, palavras à toa. Primícias de cópulas sonhadas.
— O amor não precisa de filosofia — justificava-se.
Apesar disso, não abandonava nunca as folhas soltas de seu projeto de livro sempre espremidas entre as páginas de um filósofo qualquer, grego ou troiano. E, aqui e ali, relia para os amigos suas obscuras anotações, repletas de acrologias, agnosias e alegorias.
— Eu precisava saber mais sobre Xantipa, que tipo de amor havia entre ela e Sócrates — comunicava aos amigos, em meio à leitura.
Na faculdade, nem o mais humilde funcionário desconhecia o livro de Mendes. O livro e suas lacunas.
— Não descobriu nada ainda sobre o amor de Xantipa? — indagava o porteiro.
— Não.
— Nem vai descobrir — atrevia-se o outro. — O amor é o mesmo em qualquer época e em todo lugar – ensinava.
Professor e porteiro se perdiam então em longas digressões pelos caminhos do conhecimento. Cuidavam, formava-se verdadeira assembléia ao seu redor, composta de funcionários, alunos e professores. Muitas vezes chamaram a polícia, a fim de dispersá-los. Do contrário, ninguém trabalhava nem estudava — garantia o diretor.
Além da filosofia ou, mais especificamente, de Sócrates, se deixava seduzir por outras manias o celibatário Mendes. Assim, adorava também música e pintura. Em todas as paredes de seu pequeno apartamento havia quadros e mais quadros. A maioria reproduções de pinturas famosas, como A Banhista, As três graças e Mona Lisa.
— Para mim não existe mulher mais bela em toda a pintura universal.
— Você sabe que é um auto-retrato? — provocava-o um colega.
– Se for, não deixará de ser mulher, para mim.
Chegou a confessar que a personagem de da Vinci só perdia em beleza para um retrato de sua mãe quando jovem. No entanto nem só por figuras pictóricas apaixonavam-se os olhos filosofais de Mendes. Assim, além da pretérita Fátima, da epicurista Maria Helena, de tantas e tantas mulheres, morava também em seus sonhos Rosana, tida por alunos e professores como a ninfa da escola.
— Pena que ele tenha chegado tarde — debochava a garota.
E isto — apaixonar-se por moças bonitas — constituía-se uma quarta ou quinta mania nele.
— Quem sabe, Mendes, ela muda de idéia — confortava-o um amigo.
— Não se preocupe comigo — resignava-se. — Afinal, as mulheres são efêmeras.
E Sócrates voltava à baila, e também a cicuta, os sicofantas, Xantipa, Platão, Apolodoro, ele mesmo, suas famosas “anotações” para o sempre inconcluso O amor socrático.
— Mas o que vem a ser mesmo esse amor socrático? —impacientou-se, um dia, seu melhor amigo.
— Se eu soubesse, já teria concluído o livro — aborreceu-se Apolodoro.
E o aborrecimento virou ira, o sentimento pelo melhor amigo desfez-se e as “anotações filosóficas” para o livro terminaram reduzidas a mil pedaços de papel, que voaram, por todo o resto do dia, pelo pátio da Filosofia.
PASSEIO
Se a escada parasse de súbito, eu rolava e levava de roldão todo o mundo. Talvez fosse mais engraçado do que lamentável. Não, não posso cair nem machucar essa gatinha. É mesmo um amor de garota. E por que chamar as mocinhas de gatinhas? E nós de gatos, gatinhos, gatões? Eu, um gato? Qual nada! Sou antes um macaco, um bicho qualquer. Vou me olhar direito. Mas aqui não tem espelho. A não ser os vidros das vitrines. É isso mesmo. Faço de conta que estou olhando os calçados, os preços, como um possível comprador. Que tal uns sapatos pretos? Ou marrons? Uma ruguinha aqui, uns pés de galinha. Que sapato mais gaiato! E caro.
— Diga, freguês.
— Estou só olhando.
Sujeito mais chato! Então não se pode mais olhar uma vitrine? Ui! Quase atropelo o menininho. Ele e a mãe. Deve ser a mãe, apesar de ser ainda muito nova. Ou então irmã. Até que se parecem. Bem parecidos, sim. Ela então é uma gatinha. De novo o assunto dos bichos. Não importa, é uma fofura. No mínimo, come bem, dorme bem, vive bem. Se passasse fome, morasse nos buracos da Ceilândia, do Gama, do Paranoá, eu nem reparava nela. Eu e ninguém. Mudava de vista. Mas deve morar aqui mesmo. Nas quadras mais nobres. Quem sabe, no Lago. Numa daquelas mansões. Não, madame do Lago não deve andar pelo Conjunto Nacional. Ainda mais arrastando um filho pelo braço. Cansando, suando à toa. Podia estar em casa, na beira da piscina, tomando suco. Deve estar com sede. Não sei. Eu estou. Que tal um chopinho? Ali adiante tem uma pizzaria. Um chope e só. Nada de ficar sentado por muito tempo. Já basta o serviço. É bom passear, andar, olhar as pessoas. Quem sabe, encontro um conhecido, um velho amigo, um conterrâneo. Então a gente toma dois chopes. Ou quatro. Enquanto conversa. Assuntos variados: futebol, mulher, política, trabalho. “E Brasília, você gosta daqui, doutor Lima?” “Não; mas para que isso de doutor? Aqui eu sou apenas o Lima. Deixe de cerimônias”.
— Um chope, por favor.
— Sim, senhor.
Acho que estive aqui um dia desses. Sim, no mês passado. Não, foi noutro lugar. Mas aqui mesmo no Conjunto Nacional. Havia um desenhista bebendo e retratando os fregueses. Um velho, meio desarrumado, com cara de quem vive bêbado. Na parede, uns retratos expostos. Tudo feito a lápis ou coisa parecida. Desenho é uma coisa, pintura outra, não é? Pintura é aquilo dos quadros da Torre. Ruelas do interior, casarões, paisagens. Tudo colorido, pintado, artístico. Obras de arte finalizadas. Está geladinho. Para matar a sede e passar o tempo. Depois peço outro. Não, eu disse que ia tomar só um. Olhe, conheço aquele sujeito. Pelo menos tem a mesma cara, as mesmas feições do... Quem é mesmo? Deixe ver. Do Ministério da Justiça. É ou não é? Não, é só parecido. Uma vez, no Beirute, aconteceu um caso assim. Eu pensava que era a Martinha, cheguei a falar com a pessoa e tive a maior decepção. A garota devia estar cheia de maconha. E a Martinha nem de chope gostava. Essa juventude de hoje só quer saber disso. Filhinhos-de-papai, de deputados, ministros, juízes. Eu, não, fico no meu chopinho e não tem perigo de nada. É legal e ajuda. Embora seja droga também.
— Garçom, por favor.
Esse parece que não comeu nada hoje.
— Fique com o troco.
Fique com o troco ou fique com o troço? Troçar é bom. Quem acha ruim é quem é troçado. “Olhando para mim, beleza? Não quer me conhecer? Que tal tomarmos um chopinho? Com pizza. Pago com o maior prazer. Quer não, é? Orgulhosa! Não importa, tem muitas por aí”. Aqui deve estar circulando agora umas duas mil pessoas. E eu talvez não conheça nenhuma. Todo mundo vivendo sua vidinha, comprando, pagando, passeando. Será que há alguém como eu? Não, todos têm um rumo certo, horário de voltar para casa, família, tudo. Mais hora, menos hora, pegam o carro ou o ônibus e voltam para os seus. A mãe para o filho, o marido para a mulher, a mocinha para os pais. Deixa esse povo para lá. Que tal subir outra escada? Pode ser que em cima encontre algum conhecido. Ou conheça alguém. Aquela deve ser excelente garota. Bonita é. Mas nem olha para mim. E os filmes de hoje? Como sempre, mulheres e homens nus. A maior sacanagem do mundo. Talvez fosse bom assistir. Passar o tempo. Não, é melhor passear, olhar as pessoas. Tantas mulheres sós. E todas lindas. Muito mais do que as do filme. Aquela ali então nem se compara com aquelas depravadas. E olhou para mim. “Que tal irmos agora para o meu apartamento? Fica na Asa Norte. Garanto que você vai gostar. Você e eu. Quem sabe até a gente leva adiante essa aventura. Casamento, filhos, um lar. Ou só uma união mais ou menos passageira. Todo dia a gente vem passear pelo Conjunto Nacional. Ou então viaja para o litoral, de férias. Lua-de-mel em Guarapari. Ou aqui mesmo no Hotel Nacional”.
— Como é seu nome, gatinha?
Fez que nem ouviu, a cadela. Deve se julgar intocável. Ih! está falando com o guarda. Mas eu não sou um peão qualquer. Além do mais, estou só passeando comigo mesmo. Pacificamente.
A VOZ INDECOROSA
João Canoro passava quase todo o tempo nas ruas. Não perdia um minuto dentro de casa. Dormia, acordava e corria para a rua. Como um pássaro que fugia da gaiola. E punha-se a voar, isto é, a andar, andar, andar, até cansar. Tanto gostava de andar pelas ruas que jamais quis ser escriturário, balconista, barbeiro. Preferiu ser office-boy durante alguns anos, caixeiro viajante por mais outros, oficial de Justiça incompetente, vendedor de assinatura de todas as revistas...
Embora andasse como poucos, João nunca se julgava cansado e, mais mundo houvera, mais andara. Calculava, insatisfeito, já ter dado algumas voltas ao mundo. Queria bater recordes. Sem alardes. Modestamente.
Enquanto caminhava, João Canoro não parava de falar. Uma fala sussurrante. Quase inaudíveis palavras. Exclusivamente aos ouvidos de todas as mulheres da Terra. Curtas frases decoradas. Eternas expressões de amor. Cicios, leves gestos labiais. Mil tipos de indecências.
Às vezes, a mulher sorria, mas não passava disso. Outras, fechava a cara e fugia. Adiante a mocinha cuspia insultos. Além se fazia de surda. E tudo o satisfazia. O sorriso lhe parecia rendição certa ou apenas promessa de entrega. A fuga o excitava. O palavrão soava sonoro. A indiferença o empurrava para novas e velhas mulheres.
Quase nunca a vítima se fazia cúmplice. E quando isto ocorria, por mais bela que fosse a dama, João se calava, virava o rosto, perdia o equilíbrio e sumia no meio da multidão.
João Canoro não podia, no entanto, voltar para casa, calar-se, arranjar emprego de barbeiro, balconista, escriturário. Deus o livrasse de tão desgraçado destino. Terminaria passando a navalha no pescoço de qualquer barbudo. E adeus liberdade de ir e vir, voar pelo céu da cidade, passarinho cercado de avezinhas por todos os lados.
Para escapar às ameaças freqüentes de misteriosas mulheres, havia uma saída de gênio — a ventriloquia. E João estudou, exercitou-se, fez-se hábil ventríloquo. Passava pelas mulheres, dizia-lhes suas curtas frases indecorosas, suas indecências, e permanecia tranqüilo, ereto, sério, como se um só cicio tivesse dito. As moças e senhoras, no entanto, apressavam o passo, irritavam-se, voltavam-se contra pacatos e mudos senhores. E criavam-se enormes confusões de meio de rua.
Em compensação, nenhuma criatura de saia sorria mais para João Canoro. Nenhuma mais lhe cuspia insultos, nem lhe fechava a cara.
Ora, restavam o telefone e a noite. De dia trabalhava, andava, falava sem abrir a boca. De noite descansava, parava e telefonava para anônimas mulheres. Horas e horas à cata de ouvidos carentes de palavras excitantes. E escancarava a boca, para compensar os exercícios diurnos de ventriloquia.
Cortavam a ligação, diziam-lhe insultos, reagiam de mil maneiras. Umas, porém, riam, e ele gastava todo o seu repertório de frases, expressões e cicios. Até se cansar e largar o aparelho.
Uma noite, saciado, foi dormir. Roncava e sonhava palavras de lascívia. O telefone gritou, tilintou, zuniu. João pulou da cama, levou o fone ao ouvido. Uma voz de mulher. E um desfile interminável de palavrões.
Olhos arregalados de pavor, mãos trêmulas, o coração aos solavancos, o corpo inteiro em calafrios, João não disse um ai durante todo o tempo. E só sossegou quando nenhuma voz humana provinha mais do telefone.
Na noite seguinte o fato se repetiu. E mais uma vez João tremeu, se transtornou, perdeu o sossego. Até largar o aparelho e correr em busca de água, o suor a escorrer-lhe por todo o corpo.
Nas noites subseqüentes, a mesma agonia de João. Porém, mal atendia o chamado e reconhecia a voz da mulher dos palavrões, obstava a ligação. Enlouquecido, na sexta noite cortou o fio do telefone.
No outro dia, passo lento de quem perdeu o ânimo de viver, João Canoro andava pela rua feito um sonâmbulo, mudo como nunca fora, uma voz indecorosa a zunir em seus ouvidos. Apesar de tudo, sorria um leve sorriso, os olhos demasiadamente brilhantes, enquanto por ele passavam mulheres, todas belas, cândidas, excitantes.
(Continua)