Os Guerreiros... (3)
(Continuação)
ÚLTIMOS PREPARATIVOS
A redação da mensagem aos povos do mundo se fez em duas sessões e, não fosse uma visita de João à vila, nem numa terceira o assunto se encerrava. Durante a primeira, iniciada ao alvorecer e terminada ao pôr do sol, cada palavra proposta motivou alterações de fazer a gruta estremecer. Chico propunha que o documento começasse assim: "Os guerreiros xocós jenipapos unidos comunicam..." José não gostou da proposição do índio e deu sua opinião: "Os guerreiros nativistas de Baturité anunciam..." João não aceitou nem uma nem outra idéia: "Os revolucionários da Serra de Baturité infomam..."
Como nenhum quisesse abrir mão de seus pontos de vista, resolveram os três aproveitar um pouco de cada e a declaração passou a ter inicialmente a seguinte abertura: "Os revolucionários na¬tivistas da Serra de Baturité informam..."
O resto da frase foi motivo também de prolongada discussão. No entender de João, devia ser o seguinte: "... anunciam a Vossa Mercê a extinção do Ceará e a criação do Estado..." Remenda aqui, remenda ali, reestruturaram os termos iniciais da mensagem, bem como quase todo o primeiro parágrafo: “O povo da Serra de Baturité, por intermédio de seus novos reis, os revolucionários nativistas abaixo assinados, informam a vosmicê que a antiga Província do Ceará foi dissolvida pela Revolução Jenipapo Xocó e em seu lugar criado o Estado..."
A denominação do novo país não ficou decidida nas duas sessões. Despediram-se e, na manhã seguinte, João desceu a serra, escoltado por Chico. Mal chegados à vila, regressaram, alegando o filho de Antônio ter visto o Presidente da Província. Na reunião que se seguiu, pintou o retrato da autoridade e tirou conclusões alarmantes: um homem gigante, cheio de barbas, fedendo a enxo¬fre, chegado da capital para comandar o ataque à Gruta. José, alarmado, não teve forças para contar aos companheiros o teor de uma conversa mantida com Pedro.
Na ausência do avô e de Chico, pediu opinião ao pai sobre o problema do nome do Estado a ser criado, expôs os planos gerais da revolução e falou do incrível xocó. O filho renegado de João não quis dar palpites, mas ouviu com atenção a fala de José. Só abriu a boca para dizer de sua vontade de conhecer o selvagem.
Conheceram se logo depois do término da reunião, realizada após o regresso de João da vila. José não pôde presenciar o encon¬tro, porque dirigia se para casa quando Pedro chegava ao terreiro de João, onde Xocó brincava com os porcos. Não houve conversa, nem cumprimentos. Apenas um olhar curioso do ex confederado para o índio. E voltou, para dizer ao filho quatro palavras de nojo: um bicho do mato. Francisca sorriu, pediu a José silêncio e voltou às rendas.
Ao certificar se da seriedade com que o marido encarava a nova aventura, Amparo enfezou se e lamentou se. Aquilo só podia resultar em desgraça. Melhor deixar daquelas manias de rei e cui¬dar do roçado e dos filhos. Seguisse o exemplo de Pedro, que não se metia em enrascadas. João se irritava, não tanto por ouvir a mulher chamar sua revolução disso e daquilo, mas por se ver julgado menor do que o traidor do filho. Um frouxo, plantador de café nas terras roubadas aos jenipapos. Bem que podia estar lutando com ele na revolução. Em vez de viver falando besteiras para a burra da mulher, devia criar jeito de homem e se alistar no Regimento Cardoso.
Falava aqui, falava acolá, a notícia da revolução se espalhou e logo todo o povo das redondezas sabia da nova loucura do filho de Antônio Cardoso.
Acostumado às conversas sem pé nem cabeça de João, os ha¬bitantes da serra riam. Achavam que o antigo “inconfidente" tinha voltado a contar lorotas. Sim, também quando ele apregoou sua intenção de construir igrejas, o povo apenas lembrou se dos velhos tempos das histórias contadas por um rapaz chamado João Cardoso e queria de fina força ouvir tintim por tintim o rimance do príncipe que levantava igrejas. Só Antônio reagiu à repentina mudança nos planos do filho. Chamou o disso e daquilo, enquanto rabiscava no terreiro a estratégia da futura guerra sertaneja. Micaela benzia se, pedia a Deus para tapar os ouvidos e não escutar tamanhas heresias.
MAJESTÍSSIMA TRINDADE
A discussão para determinar quem assinava primeiro o anún¬cio da vitória dos nativistas só faltou romper o pacto firmado pelos três cabeças da revolução. Nenhum aceitava ser relegado a planos inferiores. Ou eu, ou nada, dizia cada um.
As coisas se achavam nesse pé, quando João levantou se e levou a mão à testa. De repente, sorriu, olhou para os companhei¬ros e declarou solenemente ter encontrado a solução. Não se preocupassem, ninguém precisava mais subscrever o nome por último.
– Nós três vamos assinar em primeiro lugar.
A princípio, José e Xocó se alegraram, pularam, gritaram vivas a quase tudo. Sim, o movimento continuava, nada de atritos, todos unidos. Mas logo se aquietaram, espantados diante do absur¬do arranjado por João.
– O senhor ficou doido?
Só podia ser doidice a idéia de inscreverem seus nomes um por cima do outro.
O avô repreendeu o neto, não por traduzir tão mal seu pensamento, antes por julgá lo capaz de brincadeiras e borradeiras. E clareou a idéia: os três nomes deviam se ajuntar na mesma linha, formando um só.
– Entenderam agora?
Chicó e José balançaram as cabeças para os lados. Não havia coisa mais simples: esse assinante se chamava João José Xocó. Como se fossem três pessoas numa só. Na verdade, os três não lu¬tavam pela mesma causa? Então assinavam assim: Rei João José Xocó.
Boa idéia, tudo bonito, concordou o neto, porém ainda assim continuava o avô a aparecer em primeiro lugar.
A briga ia se animar de novo, Chicó já a bufar no seu canto, quando João pediu lhes calma. Esse Rei João José Xocó se dividia em três, porque podia ser chamado de Rei João, Rei José ou Rei Xocó. Três reis num só.
– A Majestíssima Trindade.
Encerraram a questão, empertigados, como se a pedra maior da Gruta dos Morcegos fosse um trono.
O PERU E O BODE
Satisfeitos com o bom desfecho da questão das assinaturas, ansiosos por se intitularem reis, deixaram a gruta em algazarra e di¬rigiram se à casa de João, quase abraçados, em tempo de se darem as mãos. Pareciam meninos em ciranda, cheios de risos, ofegantes, corados, saltitantes.
Do terreiro, gritou João Cardoso por Maria do Amparo. Apa¬recesse, desse o ar de sua graça, botasse a cabeça fora da casa, mostrasse os olhos. E assobiava, bailava, cantarolava versos de improviso, enamorado, moço, galante, faceiro.
A mulher correu dos fundos para a frente, amarela, arrepiada, querendo saber se tinha acontecido alguma infelicidade. Ao avistar o marido, o neto e o índio a bailar ao redor de um peru, perdeu a fala e amunhecou.
Ao ver Amparo no chão, João tentou saltar por cima do ani¬mal, desequilibrou se e deu com as ventas no barro. Enraivecido, o bicho partiu para as pernas de Xocó que, na tentativa de safar se, esbarrou em José, caindo um para cada lado.
Vitoriosa, a ave pôs se a rondar os corpos estirados no terrei¬ro. Com gluglus, conseguiu despertar seu dono.
– Eles nos atacaram.
João levantou se, passou as mãos na cara suja e continuou o discurso. A série de quedas tinha sido o sinal: os inimigos se pre¬paravam para marchar sobre a Serra.
Ainda zonzos, José e Chicó conseguiram se erguer, enquanto a mulher recobrava a cor e se acocorava.
– Acordem, bando de éguas.
Não podiam mais retardar o início da luta, urgia atacar, antes de serem agredidos em seu próprio terreno.
– Quede a mulinha?
Com o estardalhaço causado pelo peru, Fujona rompeu o ca¬bresto e desapareceu na buraqueira, como se adivinhasse os propósitos de seu amo.
– Vamos atrás dela.
Vasculharam os quatro as cercanias da casa, e nem notícia da mula. E João a vociferar insultos e pragas contra o animal. Traido¬ra, covarde, portuguesa, monarquista, diaba, filha de uma égua.
– Vá então buscar Nazaréu, Capitão José Cardoso.
Desorientado pelo inesperado da ordem e por não saber a quem se referia João, o filho de Pedro não se despregou do chão e tentou espiar para dentro da memória.
Corresse, levasse um cabresto e as gaiolas. Fosse com o Capitão Chicó e, da mesma viagem, seguissem para a gruta. Trouxes¬sem todos os morcegos em pé de guerra. Na volta, iniciavam a marcha sobre Monte Mor.
Com medo de repreensões, arribaram os dois, sem perguntas e sem rumo, enquanto João descrevia para a mulher as feições do substituto de Fujona: um bode famoso, barbas patriarcais, chifres recurvos e nodosos, estirpe de cavalo majestoso, olhos nazarenos.
Pelos caminhos, José e Chicó filosofavam. Não podia ser um cristão esse Nazaréu, posto que levavam cabresto. Pelo nome, não havia de ser um burro.
– Não será um galo?
Só se fosse filho de alguma galinha xocó. Ia o outro rebater o insulto, quando avistaram um magote de bodes a berrar.
– Lá está ele.
Era um pai de chiqueiro patriarcal, barbas recurvas e nodosas, chifres famosos, estirpe de nazareno, olhos de cavalo majestoso.
No terreiro, Amparo pedia calma ao marido, não fosse ainda para a guerra, esperasse ao menos pela volta de Fujona.
Sem dar explicação à mulher, João amolava a quicé há muito sem uso, enquanto aguardava o regresso de José e Chicó. Deixasse para outro dia, arranjasse mais homens, não se precipitasse. O po¬bre do peru não imaginava quem fosse monarquista, nem sequer distin¬guia um macho duma fêmea.
– Esse safado gosta muito é de saia.
Não dissesse asneiras, os brutos eram criaturas respeitadoras.
As palavras de Amparo só serviam para irritar mais o marido. Não passava daquele dia a primeira hora da revolução, desse no que desse. E, para começar, ia cortar o pescoço do peru.
– Não se vingue no bichinho, João, pelo amor de Deus.
Mal a mulher terminou de fazer o pedido, ele partiu feito uma fera para cima da ave. Corria, pulava, gritava, tropicava, caía e nada de alcançar o sátiro de penas.
– Filho de uma cadela.
Descompunha o bicho, toda vez que perdia a oportunidade de pegá-lo, raivoso, vermelho, cansado.
– Pare com isso, homem.
Ao avistarem o estrupício, José e Xocó quiseram recuar, crentes de terem os monarquistas agredido o pobre João, aproveitando-se da ausência deles.
– Calma, Capitão, que vamos atacar com morcegos.
Alertado, João deixou o peru escapulir. Não precisavam gastar munição com aquele emboanceiro. Poupassem tudo para os puças.
Ia perder-se em novas falações, porém a figura imponente do bode capturado pela tropa nativista fê-lo engolir a língua e pasmar-se por bom tempo.
– Por onde ele andava?
Trocaram olhares de espanto os capitães. Então não se tinham enganado, adivinharam tudo, desde a natureza de Nazaréu até sua própria pessoa.
– Nós somos é decifradores.
Esfingético, João se deu por satisfeito com a resposta, enfiou a faca no cós e despediu-se de Amparo.
– Vamos, que já é tarde.
E rumaram para Monte-Mor, ele à frente, seguido de José e Xocó a puxar o bode pelo cabresto. Das ilhargas do animal pendiam duas gaiolas repletas de morcegos, amarradas com embiras à cangalha.
O Regimento Cardoso entrou na vila a passo lento e foi recebido a vaias pelos moleques.
– Não se incomodem com os aplausos.
Avançavam sob os espetos dos olhares de espanto do povo. Para onde iam aqueles doidos esmolambados?
– Pensam que é dia de feira.
Os vira latas perdiam o sossego, latiam, corriam no encalço deles. E cada boca indicava um cafundó diferente como antro de partida daqueles marmotosos. Pretendiam esmola, pousada ou co¬mida? Carregavam passarinhos ou pássaros sem nome?
– São morcegos.
– É feitiçaria.
Alcançaram a matriz e João deu ordem à tropa para se perfi¬lar. E, de olhos fitos na rua, iniciou o discurso.
– Morte aos chimangos!
Sua voz espalhava se pelo patamar, chamava a atenção dos vilões, deitava se por Monte Mor.
– Morram os caranguejos!
GOLPE DE XOCÓ
De acordo com a estratégia traçada no interior da Gruta dos Morcegos, o primeiro ato de guerra do grupo consistia na invasão da casa paroquial e na conseqüente subjugação do padre.
– Para ele aprender a respeitar a confissão.
Respeitava muito a Igreja, dizia João, mas esse sentimento não o impedia de dar uma lição no safado do padre. Em verdade, confessava, já não nutria a mesma devoção da juventude pelas coi¬sas da religião, de tal maneira que não pensava mais em construir igrejas, antes em demolir as existentes.
– E vosmicê conhece Canindé?
A indagação do xocó o deixou furioso. Havia por acaso al¬guma vila ou povoação que não tivesse sido pisada por ele? E re¬contou sua epopéia na terra de São Francisco. Nada falou, porém, dos acontecimentos protagonizados por Antônio e Micaela e pelos pais de Maria do Amparo logo após sua desastrada viagem.
Concluída a narrativa, suspirou e acocorou se, como se esti¬vesse em casa. E, mal encostou a bunda nos calcanhares, se viu obrigado a soerguer se: Chico Xocó, embrabecido, proclamava se o chefe da revolução. Sim, primeiro porque Nazaréu e os morcegos lhe pertenciam, um por ter sido por ele achado e conduzido até a vila, os outros por isso e ainda por terem sido adestrados por ele. Depois porque encontravam se em seu poder e sem ele nada valiam.
– Só obedecem as minhas ordens.
De início, João perdeu a fala, tão espantado ficou. Olhava para José, em busca de apoio e explicação, mas este, ao abrir a boca, não conseguiu fechá la tão cedo.
Passado o susto, o filho de Antônio arranjou explicação para a inesperada rebeldia de Chico. Vendeu se aos inimigos, passou para o outro lado, traiu a revolução. Devia ter desconfiado antes. Que burrice! Como podia se deixar engabelar por um índio velho daqueles?
Chico negava a acusação, jurava ódio aos portugueses, pela honra de todos os xocós mortos. Se resolveu assumir o comando, foi por amor à causa nativista.
– Sou mais forte, experiente, corajoso.
Aquilo não estava direito, não fazia parte dos planos, lamentavam se os Cardosos verdadeiros diante da rebeldia de Chico.
– Isso não é coisa que se faça, capitão.
Quanto mais falavam, mais o índio se afastava deles, junto com o bode e os morcegos. A situação piorava para João e José de palavra em palavra.
Na tentativa de frear o xocó, o filho de Antônio partiu para os elogios.
– Magnífico guerreiro de Jardim...
Espantado, Nazaréu desembestou e só não escapuliu porque Xocó fincou os pés no chão e segurou o cabresto com as duas mãos.
– Sossegue, carneirinho real.
Calassem a boca, antes que o animal se zangasse e fosse embora. Porque, nesse caso, ele, Francisco Xocó, também ia. Voltava para Jardim, onde reinava absolutamente e tinha sob suas ordens mil guerreiros, afora trezentas e tantas gaiolas cheinhas de ratos mais ferozes e bem armados do que aqueles raquíticos morcegos de pé de serra.
– Sou ou não sou o chefe?
Apalermado, João olhava para o neto, como se vivesse o mais espantoso momento de sua vida. Lembrava um outro: quando se viu frente a frente ao naturalista Feijó. Com uma diferença: fosse verdadeiro o motim de Chicó, todos os seus sonhos se acabavam num sopro, enquanto ter diante de si o famoso estrangeiro signifi¬cou o começo da realização do grande sonho de sua mocidade.
Com a rebelião de Xocó, iam por terra todos os planos de avô e neto. De chefes, passavam a meros ajudantes do índio. E não po¬diam renunciar ao velho, sobretudo porque, sem ele, a revolução fracassava. Pois, como adestrar novos morcegos, como arranjar um bode sabido, imponente e valente igual àquele?
– Ou eu ou o fim.
João abaixou se de novo, pôs se a cutucar o chão com um graveto e reconhecia o poder de seu antigo escudeiro. Não, Chicó não se vendeu aos inimigos, apenas fingiu ter se vendido, para po¬der dar o golpe.
– Pode ser o chefe, Coronel Chicó Cardoso.
Mesmo assim, não duvidava da manobra realizada pelos mo¬narquistas. Ofereceram dinheiro e terras ao índio, em troca de sua traição. Se não aceitou, despertou para outra atitude.
REI DOS REIS
Finalmente dominados, João e José se aproximaram de Xocó e, em tom quase piedoso, o aclamaram chefe do regimento e da revolução.
– Reconhecemos Vossa Majestade.
João parecia outro, faIa mansa, gestos contidos, olhar de hu¬mildade. José nem tanto. Se nada dizia, ameaçava o índio com o sangue dos olhos e inquietava se sobre os pés, pronto a saltar sobre ele.
– Não vá se ajoelhar.
João curvava se, em tempo de cheirar o fundo do bode. O chão sujo do patamar por pouco não alcançava as suas mãos, como a pedir para ser tocado com mais cuidado. E, se tal acontecesse, que mal havia naquilo? Não tinha sido daquela forma o seu apren¬dizado com a vida? Se cresceu assim, por que não se abaixar quan¬do preciso? Mas José não admitia ver o avô se humilhar, como se beijasse os pés do xocó.
– Ele não tem coragem de voltar.
E o índio anunciou sua segunda decisão, tão inesperada quanto a anterior: a criação do Partido Xocó. Os Cardosos não qui¬seram acreditar nas palavras do novo chefe.
– Ficou doido.
Calasse a boca o neto, não irritasse o morubixaba, ficasse quieto.
Chicó aprumou se diante de Nazaréu, ergueu o braço livre e definiu o programa da organização: destruição das vilas e povoa¬ções, morte aos estrangeiros e retorno de todo mundo às matas e cavernas.
João e José bateram palmas, deram vivas a Xocó, ao bode, aos morcegos, ao novo partido e gritaram morte aos inimigos da revolução.
Cheio de si, o índio inchava, crescia, agigantava se. Exigia mais aplausos, mais gritos, o mundo todo à sua frente.
– Sou rei dos reis.
Um moleque aproximou se e balbuciou qualquer coisa, o su¬ficiente para assustar João e fazê-lo anunciar a marcha de tropas de Fortaleza em direção a Monte Mor, reforçadas pelos exércitos vin¬dos de Portugal.
ESPANTO E PAVOR
Quer pelo aparato com que se apresentavam os três serranos, quer por suas vociferações, o povo da vila parecia alarmado.
Além do bode e dos morcegos engaiolados, causava espanto o aspecto dos revolucionários. Meses, semanas, dias descuidados de asseio, as cabeleiras assemelhavam se a grenhas; os olhos, empapuçados e encarnados, davam lhes feições de bichos; as roupas, remendadas e sujas, mal cobriam lhes as vergonhas; as unhas, crescidas e empretecidas, figuravam garras; as botas, rústicas e enormes, comparavam se a cururus.
Os mais crédulos habitantes de Monte Mor acreditaram trata¬rem se João, José e Xocó de encarnações do Beiçudo. Outros fala¬vam de leprosos e corriam a se trancar em casa.
– São doidos.
O pavor tomava conta de crianças, jovens e velhos, que se armavam em suas trincheiras, prontos a dar fim àquelas criaturas atacadas pela maldição.
Poucos ousaram lembrar histórias de monstros e tremiam na sua pequenez. Que heróis haviam de aparecer em seu socorro?
Os sábios e estudiosos concluíram serem bichos os invasores, embora só um entre eles porfiasse pela semelhança dos repre¬sentantes da espécie em estudo com os macacos.
Alguns novos portugueses não tiveram dúvidas em chamar João, José e Xocó de índios, mas o padre e outros velhos montemorenses trataram de corrigir a acusação.
– Mamelucos inofensivos.
Um ou dois reconheceram o antigo contador de histórias e seu neto favorito. Ninguém sabia da origem do terceiro.
O corre corre tomou conta da vila após alarmante grito saído da garganta de Xocó, ruído jamais explicado, quer por seus com¬panheiros, quer pelos vilões. Falava se em dupariá, dupari, duca¬ri, palavras sem significado para uns e outros.
Num piscar de olhos, nenhuma porta ou janela permaneceu aberta, nem um só pio se ouviu e até os bichos antes soltos pelas ruas desapareceram.
Monte Mor ficou deserta num repente, habitada apenas pelos três visitantes.
A revolução nativista concebida por João da Silva Cardoso parecia finalmente vitoriosa, e sem um tiro, sem que um só morcego voasse da gaiola para a picada mortal, sem sangue. Tudo às avessas do imaginado por ele. Um malogro. Guerra era guerra. Não admitia aquilo. Se ao menos um fenômeno tivesse impedido o de¬senrolar dos fatos, o choque dos combatentes! Entendia, por exem¬plo, a impossibilidade de sua marcha sobre Icó, por ocasião da aclamação de Pedro I. Amparo se preparava para mais um parto. Embora a revolta icoense significasse a confirmação dos ideais de seu pai, não podia abandonar a mulher num momento daqueles. Se tivesse ido, com certeza não tinham precisado da Confederação. Não foi, por amor à família.
Sós, as três aparições se calaram e permaneceram, por um instante, imobilizadas diante da igreja. Nem o vento soprava, e uma noite inesperada cantou ao longe. Sombras quase apagadas se es¬condiam às pressas e João descobriu a existência de soldados à paisana nas esquinas, detrás das portas, nos telhados, nas torres da matriz.
– Morte aos escondidos!
Pôs se a gritar palavras de ordem, cheio de braços, aos puli¬nhos, e a mandar, com os olhos, que José e Chicó o imitassem.
O sol piscou junto ao sino do templo e desapareceram de vez os inimigos.
– Viva o Rei João José-Xocó!
O índio parecia esquecido de sua própria rebelião.
SURPRESA NA VILA
Talvez dormissem os caranguejos desde a entrada do Regi¬mento na vila. Ou discutissem tão profundas questões que não des¬sem pela novidade barulhenta. Estivessem entregues ao sono ou aos sonhos, só se desuniram, apenas despertaram para os aconteci¬mentos da rua, somente interromperam sua reunião aos brados de João. E saíram às portas, apalermados, como se fora o mundo fosse outro. Certamente, pois não viviam em terra de três únicas marmotas e um bode de cangalhas com balaios cheios de morcegos.
– Estamos onde?
Ao ver os políticos, João deu uma gaitada de assombrar o pó do chão, apontou lhes um indicador e imitou papoco de espingarda com a boca. Sem detença, alguns dos inimigos dos ximangos se abaixaram, outros correram para a toca e um caiu à soleira da por¬ta, como se atingido por desgraçada bala.
Não se conteve José e só parou de rir por causa do carão da¬do pelo avô. Não era hora de brincadeira, sossegasse e se preparas¬se para a luta. Não acreditasse nos olhos: os inimigos demonstra¬vam medo para os ludibriar.
– Querem nos pegar de surpresa.
Chicó segurava Nazaréu pelo cabresto, teso, boca fechada, sério, apenas os olhos num vaivém de sentinela. Readquiria a sere¬nidade dos tempos da gruta, dos discursos de seu ex cavaleiro. Tornava a se pasmar diante de João, como se fizessem peso em pratos opostos da mesma balança.
– Fique aqui no meio, José.
Conforme o filho de Antônio dava ordens, Xocó mais se en¬colhia. Olhassem para os seis lados, destapassem os ouvidos, dei¬xassem as armas em ponto de bala.
– Se o Capitão Antônio Cardoso fosse vivo...
DOIS CHEFES
Certos da vitória antecipada, Xocó já não se apegava tanto ao bode e José fez menção de acocorar se. João, porém, não tirava o olho da casa onde se escondiam os caranguejos. Na certa, prepa¬ravam alguma cilada. Sim, deviam ter se unido aos ximangos para dar combate à revolução. Apostava como se abraçavam e aponta¬vam as armas na mesma direção.
– São da mesma laia.
E, interrompendo o discurso, voltou aos "vivas" e "morras", secundado pelo neto e o índio. Marchassem contra os falsos cons¬piradores, tomassem a iniciativa do ataque, antes de se virem cer¬cados pelas tropas inimigas.
Alertado pelas ordens de João, o velho xocó se excitou e deu duas passadas à frente, obrigando Nazaréu a pular, para não ter o pescoço arrancado.
– Sou o chefe.
Prosseguiu Chicó sua caminhada, seguido do animal e dos companheiros, no rumo dos caranguejos.
Que opção restava a João? A guerra estava começada e, se não respaldasse seu rival, dificilmente escapavam de uma chacina. Arrependia se de não ter expurgado Chicó na fase preparatória da rebelião.
– Agora é tarde.
Entenderam os outros querer capitular o antigo chefe e trata¬ram de reanimá lo. Confiasse no seu comando, apressou se o xocó a dizer, com voz forte. Não fraquejasse no último instante, os do outro lado não passavam de uns frouxos – enchia se de coragem José.
Como se as palavras dos camaradas não lhe fossem dirigidas, João tentou passar à frente do bode.
– Não deixe seu posto, capitão João Cardoso.
Realmente só lhe restava obedecer, contentar se com a situa¬ção, ver seu antigo escudeiro comandar o Regimento Cardoso. Se tomasse uma atitude enérgica naquele momento, as coisas ficavam pretas para a própria revolução. Estivessem ainda na gruta e man¬dava Chicó plantar batata.
DEBANDADA GERAL
Como os gritos de João, José e Xocó se aproximassem sem¬pre mais da casa onde se reuniam os conservadores, acorreram es¬tes pela segunda vez à porta da rua e, perplexos, se viram frente a frente aos novos adversários.
– Salve se quem puder.
No empurra empurra, tropicavam uns nos outros, pragueja¬vam, desequilibravam se, machucavam se todos.
Despreparado para badernas, Nazaréu espantou se, despren¬deu se, finalmente, das mãos do índio e desembestou pela rua.
João ainda tentou apaziguar os ânimos do animal com pala¬vras de carinho – volte aqui, meu bichinho; sossegue, carneirinho manso. De nada adiantou seu esforço. José quis correr para percalçar o danado e desistiu. Chicó, sem fala e plantado ao chão, apenas levou as mãos à cabeça e fez uma careta que lembrava riso e choro misturados.
Para manter erguido o moral da tropa, João Cardoso qualifi¬cou a desgraça como pequeno incidente de ordem estratégica. Nem tudo estava perdido. Muito pelo contrário, até ali só vitórias. Vis¬sem, os caranguejos debandavam.
– E o bode?
Não esquentassem a cabeça, ele ia se cansar logo e parar mais adiante. Pessoa de responsabilidade, carregava o armamento da re¬volução. Ou brincava de esconde esconde, ou tinha medo de fuzuê.
– Não é hora de brincadeira, capitão João Cardoso.
Se foliava ou não, só restava uma explicação para tamanho disparate: Nazaréu havia virado a casaca, traído o nativismo, em¬bora nascido e criado na serra.
– Talvez por uns caroços de milho.
A praça parecia de guerra sem quartel. Não se chocavam as forças, corriam no mesmo sentido. Uns batiam em retirada, os ca¬ranguejos, crentes da perseguição, porém atrás do melhor dos ini¬migos – as armas. Os atacantes, supostamente no encalço dos pri¬meiros, só queriam recapturar a carga de armamentos.
Ao perceberem o engano, os caranguejos pararam e deram passagem aos donos do bode.
– Vão para o inferno, bando de bichos.
Incapazes de acompanhar os passos de Nazaréu, os três nati¬vistas cada vez mais se distanciavam de suas armas e cansavam. Depois, o de quatro pés pôs se a dar voltas na praça. Passava pelos fundos da matriz, metia se entre a linha das casas e o lado esquer¬do da igreja, dobrava para a Casa da Câmara, contornava o Obelis¬co e o Cruzeiro.
Em determinados momentos, a situação se invertia: o animal alcançava os calcanhares de seus donos, os quais, perseguidos, in¬ventavam novas formas de andamento: dois passos com uma perna, um passo com outra; dois passos com uma e dois com outra; três, quatro ou mais passos com uma, a outra erguida; aos saltos, feito cururus, de cócoras. Intentaram voar e não conseguiram se despre¬gar mais do chão. Poças de suor duplicavam o sol, o bode, quando sobre eles pulava, ampliava lhes para seis a tropa, toda horrorosa, compridas línguas atadas de par em par.
Nazaréu não se fatigava de tanto correr, berrava sem parar e tomava sempre maiores impulsos. Enquanto o diabo esfregava o olho, dava uma volta completa na praça.
– Ele está é voando.
Talvez carregado pela força propulsora dos morcegos, já não pisava o chão, deslizava à altura das casas, em tempo de se chocar contra as torres da matriz.
O vento crocitava doido e o mundo girava e gemia.
– Vem tempestade por aí.
Talvez nenhum dos três nativistas tivesse previsto o desencadear de tantas forças. Mesmo João, tão vivido e imaginoso. Quiçá Antônio, se fosse vivo, não se abismasse tanto. Sim, o pai nunca achava nada exagerado. Quase tudo ainda não existia, como aquela arma poderosa, mistura de faca e escopeta, a cujo fabrico se dedicou durante anos.
MASSACRE DOS MORCEGOS
Não tardou, os caçuás se soltaram do bode e, no entanto, ainda voaram por algum tempo. Impulsionados apenas pelo vento, pouco a pouco, perderam altura e velocidade e, ao se atritarem contra o chão, rolaram pela rua e se despedaçaram. As gaiolas, po¬rém, antes do desastre, se desprenderam dos caçuás e ainda contornaram a igreja uma vez. Conduziam nas os morcegos, a bater as asas nos tetos de suas prisões.
Tudo horrorizava a vila e os revolucionários.
– É o fim do mundo.
Não podia durar para sempre aquele vexame, aquele pesadelo. E, diante dos olhos de todos, as duas gaiolas se desequilibraram no ar, chocaram se e foram se arrebentar bem à porta da casa do padre.
Nunca Monte Mor tinha visto espetáculo tão horroroso. Com a queda das gaiolas, os morcegos, estonteados, tentavam fugir aos olhares de ódio dos habitantes da vila, queriam voar, mas o ferro e o aço, a pesar sobre seus pequenos corpos, os ataram à terra e os tornaram presas dos homens. Dezenas de pernas fizeram o cerco e teve início a maior matança de morcegos já narrada. Pisoteados por botas impiedosas, como se fossem serpentes; esmagados a pauladas, como se fossem monstros; queimados vivos, como se fos¬sem hereges e bruxas; insultados dos piores adjetivos, como se fos¬sem criminosos – não sobrou uma só daquelas criaturas.
Não esperou pela vingança Nazaréu. Ao se ver livre da carga, baixou à terra e meteu se no mato.
Ante a desordem causada pelo bode, João, José e Xocó acordaram.
– Volte aqui, cabra fujão.
Chamaram no de covarde, traidor, imperialista, português, tudo quanto pudesse insultá lo.
– Filho de uma égua.
Como o bicho não voltasse e se sentissem perdidos, criaram ânimo e também azularam.
DISPERSÃO E PERDIÇÃO
Na fuga precipitada, dispersou se o Regimento, indo Chico Xocó esconder se na Gruta dos Morcegos, lugar seguro e destino dos homens, segundo afirmava. José nunca falou por onde andou, só aparecendo em casa quase um mês depois do desastrado desen¬lace da revolução. João não cometeu nenhum excesso e voltou para os braços de Maria do Amparo antes do sol raiar.
– Nunca dormi fora de casa.
Se não o fez antes, tinha suas razões. Pois rumava distraído, despreocupado, sem pensar mais nos acontecimentos do dia, quan¬do avistou a burrinha de padre, a galopar no seu rumo, a deitar fogo pelas ventas. Voltar para a vila, nunca. Meter se no mato, tam¬bém não. Só restava enfrentar a bicha. Sim, arrebentar o freio da boca dela e quebrar o encanto. Preparou se, arrancou uma estaca da beira do caminho e partiu para cima da encantada.
Achavam se a uns dez passos um do outro, quando apareceu Antônio. Daí em diante não se lembrava de mais nada, não sabia para que lado a burra havia corrido, nem se chegou a conversar com o pai.
– Não era Fujona, meu velho?
Não conseguiu pegar no sono. Estirou se na fiança e agrade¬ceu a Antônio mais aquele amparo.
– Deite a cabeça aqui, cabeçudinho.
Sim, andava muito cansado, porém não se preocupasse: con¬tinuava odiando os puças com o mesmo ódio que o pai lhe havia ensinado. Descansasse em paz na vida eterna, continuasse acredi¬tando no filho. Não ia desistir da luta. Nunca.
Nascia o dia e Maria do Amparo quis saber do netinho e do biruta do índio.
– E derrubaram o imperador?
João cochilava, olhos pregados nas palhas de carnaúba que cobriam a cabana.
– E Nazaréu?
– Foi a nossa perdição, meu amparo.
A revolução cardosa fracassou logo no primeiro embate. Não por culpa de um ou de outro. Segundo João, a responsabilidade di¬reta pelo fracasso cabia ao condutor das armas – o bode Nazaréu, o último dos traidores. Com isto não concordava José, e se valia dos ensinamentos do avô.
– Houve traição!
Não queria cometer o pecado de acusar o próprio pai, mas não duvidava de que alguém muito próximo tenha avisado o inimi¬go da marcha do regimento sobre a vila.
Para Xocó, no entanto, só havia uma causa – o não terem permitido seus companheiros que ele, guerreiro provado e compro¬vado, assumisse tranqüilamente o comando das operações. Se João e José tivessem se comportado como bons e leais soldados, a república xocó jenipapo já podia ser realidade.
O CASO DOS CAMELOS
Após três anos de fracassos, o grupo se desfez. José, porém, não desistiu da luta e logo saiu à cata de antigos jenipapos, percor¬reu sítios e mocambos, lugarejos e cabanas, conversou com uns e outros, sempre a olhar com insistência para a cara das pessoas, disposto a formar pelo menos uma grei de três, capaz de dar início à guerra no mato.
O primeiro a quem expôs seus novos planos assustou se, quis correr, apavorado. Nem falasse em briga. Então não sabia? Bandos armados, chamados cangaceiros, andavam à solta, pagos para matar índios. A coisa andava feia para os sertões, as fazendas infestadas de cabras de rifle à mão. Escreveu, não leu, o pau comeu.
Enquanto o homem falava, José manteve se frio, curioso, interrogante. Como funcionavam essas tais armas? Podiam os dois formar um bando de jenipapos e atocaiar esses cangaceiros. O outro não quis conversa, ensebou as canelas e desapareceu.
Atordoado, José caminhou para casa, devagar, pensativo. Acocorou se junto à jaqueira, pediu o cachimbo da mãe e pôs se a olhar para não se sabe o quê. Daí em diante, nunca mais deixou de cachimbar, nunca mais abriu a boca para falar nada do entendi¬mento dos outros, parado, feito cururu, banzo.
Quando a mãe descansou, nem sequer chorou. O pai vivia pelos matos, a sonhar com roçados de café.
Sem teres nem haveres, José passou a viver de favor dos parentes, que mulher nem filhos nunca teve.
No fim da vida, acoitou se na casa da tia Joana, aquela mesma menininha que um dia seu pai João utilizou na chantagem para convencer Pedro a se fazer revolucionário. Casada com um tal Francisco não sei das quantas, um criador de cabras e bodes de um certo Seu Carloto, vivia cercada de filhos que morriam de medo do primo doido, mesmo estando a mais nova com peitinhos a nascer.
Esse Francisco afamou se por causa de um susto. Andava pela cidade, quando avistou uns bichos enormes, espécie de bodes do tamanho de cavalos gigantes. Pensou que estivesse vendo visa¬gem e atirou se ladeira abaixo no rumo de casa, a boca aberta sem poder gritar. Se tivesse encontrado onça, o medo tinha sido menor. Os olhos saltavam da testa, a língua lambia o vento, o coração feito maluco dentro da caixa dos peitos. Embarafustou pela casa, branco que nem vela, sem se agüentar em pé. Cercado da mulher, dos fi¬lhos e vizinhos, olhava para trás, como se fugisse dos monstros dos romances de João. Fugia da polícia, de inimigos, do capeta?
– Responde, homem de Deus!
Traz um copo d’água ligeiro, o que foi, o que aconteceu, quem te mordeu, criatura? E ele sem fala nenhuma nos dentes, mu¬do feito um saco de farinha, lerdo, perdido, todo arrepiado, como se houvesse visto alma penada.
Deram lhe uns muxicões e gritos para que acordasse, abrisse a boca, explicasse o sucedido.
– Engoliu a língua?
Tentou falar, mas ninguém entendia seu cansaço.
Mangaram do coitado, chamaram no de cabra frouxo.
Acalmado com água e assopros, falou de assombração e contou as estripulias feitas para fugir dela. Meteu se no mato, pu¬lou cercas, esbarrou numa vaca chega a bicha virou a perna, pisou em cobras e lagartos, numa carreira medonha de causar redemunho. Cuidou, se achava no fundo de uma gruta, a cem léguas do mundo, areado, demente. Descansou, sentiu catinga de onça, aprumou se, guiou se por uma réstia e conseguiu sair do buraco.
– Pois cá estou, salvinho da silva.
Os outros queriam saber que diabo de assombração era aque¬la, capaz de assustá lo tanto, se zombava até de lobisomem. Um jaguar preto?
– Muito pior, meu povo.
Cascavel, alma penada, caipora? Qual nada! Então só podia ser o Guajara. Cantava como galo, mugia como vaca, assobiava, transformava se em lenhador e as árvores caíam com estrondo diante do pobre Chico? Imitava bodes, jumentos, toda sorte de bichos?
– Você arremedou o guajara, meu velho?
Joana desenhava o gênio com todos os traços do seu entendimento: fica enfezado, se o arremedam, e então se torna invisível e persegue a pessoa de todos os lados.
Refeito do susto e zangado com o falatório da mulher, gritou: fossem fazer mangofa com outro. Ia lá correr de cobra, acostumado a matar jararaca, caninana, surucucu; nem de alma nem de caboclinho encantado! Não, não se tratava de bicho invisível. Aqueles olhos que a terra havia de comer viram de pertinho os bichos. Prestassem atenção – os bichos. Depois não fossem inventar mo¬das. Muitos bichos iguais, com aparência de bodes, porém enormes de grandes, obra de uns trinta palmos de altura.
– Virgem Maria!
Não traziam chifres e, mais atrás do toitiço, uns mundurus, à maneira de touro. Tudo tal qual havia previsto João Cardoso, mais de meio século atrás.
Os filhos se agarravam à saia de Joana, os vizinhos, de queixo caído, olhavam de viés, mãos amarradas aos cabos das peixeiras. De cócoras, o velho José ciscava o chão, na tentativa de desenhar um baita dum padre com a bota prestes a esmagar um cavalei¬ro escanchado num cavalo, pequeninos como uma formiga a carre¬gar uma pedrinha miúda.
– E esse panema, não diz nada?
Na cidade, nas vilas, nos pés da serra, em todos os cafundós o povo só falava nos estranhos bichos de cacunda. E Francisco foi esquecendo o medo, o susto da primeira visão. Já se arriscava a se aproximar deles.
– Dão coice?
Depois parecia encantado pelos tais camelos e puxava conversa com os estrangeiros chegados junto com eles. Não passava dia sem ver os dromedários ou ouvir a fala complicada dos homens que cuidavam deles. Deixava se seduzir pelos boatos: os árabes precisavam voltar às suas terras e, por isso, queriam ensinar aos homens do Ceará como cuidar dos animais. E Francisco não espe¬rou por mais conversa: candidatou se a adestrador de camelos.
Após a morte do último deles, voltou aos bodes e às cabras de Seu Carloto, mas dessa vez disposto a matá los um a um. Con¬teve se, com medo do patrão. E, como não agüentava mais ver nem pintado um só bicho que lhe lembrasse camelo, fugiu para a cida¬de. Apagou da língua as palavras bode, cabra, cabrito, ovelha, car¬neiro, aos quais chamava de filhotes de camelo. Tornou se tão in¬flexível em suas atitudes que jurou jamais chegar perto de um ente de nome de animal. E até procurou outro patrão.
O FIM, OS FINS
Durante anos, quase diariamente, João, José e o índio xocó se encontraram no interior da Gruta dos Morcegos. Mantinham vivo o fogo da rebelião contra os portugueses e seus descendentes puros, o império e suas instituições. Não desistiam de formar um poderoso exercito de índios e caboclos, apesar dos fracassos. Quando des¬truir, porém, a vila? Todas as vilas? Sobretudo, como realizar tal façanha? Durante anos se interrogaram e a esperança nos morcegos adestrados os alentava. Chegou, no entanto, o dia de todas as soluções por tanto tempo tidas como ideais parecerem ultrapassadas. João desconfiou do tempo e propôs uma imediata declaração de guerra aos políticos: deputados, senadores, presidentes, seguida da invasão de Monte Mor, prisão das autoridades locais e destruição do casario, inclusive da igreja matriz, que no passado sonhou remodelar. José também não agüentava mais esperar e, em vez de ir ao encontro dos inimigos, imaginava o contrário: atraí los para os buracos da serra, onde mais facilmente podiam massacrá los. Xocó ouviu e ouviu a discussão, sem dar palpite e, quando os dois o procuraram, já era tarde. Com um jucá, esmigalhou um a um centenas de morcegos catequizados, para espanto dos companheiros.
– Não faça isso, Chicó.
A última reunião do trio terminava também em massacre. Saiu cada um para o seu lado, após declararem extinto para sempre o Regimento Cardoso.
A notícia se espalhou por toda a região como uma revoada de pássaros. Na vila houve comemorações e vivas ao imperador. Ao saber do trágico desenlace, Francisca chorou. Pedro irritou se com a reação da mulher. Deixasse de besteiras, o caso não merecia uma lágrima. Nada comentou sobre o ato final dos três bestas, como chamava o pai, o filho e o índio.
Ao ouvir do marido a novidade inacreditável, a velha Amparo pulou da rede, como se lhe anunciassem o fim do mundo. Empali¬deceu, pôs se a tremer, perdeu a fala, revirou os olhos e caiu como morta aos pés de Chico Xocó.
Ainda durou um bocado de anos o mirabolante João, não com o mesmo entusiasmo, porém. Tomou se caseiro, voltou às cachaceiras e virou de vez adivinho. Deu nomes a todos os seus princi¬pais descendentes, como se deixasse um testamento lei a ser cum¬prido ao pé da letra. Predisse toda a história da família Cardoso, até o ano 2000.
Ao perceber a aproximação do fim, mandou chamar todos os parentes e abençoou um a um. Perdoou todos os crimes de Pedro: o de covardia, cometido ao longo da vida e especialmente ao recusar a coroa de rei; o de traição, praticado contra a Confederação do Equador; e outros de menor gravidade.
Afeiçoado como era a José, deu 1he mil bênçãos e desejou lhe mais de cem anos de vida.
– Não vá esquecer a revolução.
Predisse, porém, o triste fim do neto: solitário por toda a existência e um padre na consciência.
– Nem se assustar com os bichos de cacunda.
Sua última brincadeira. Uma das poucas, aliás.
No entanto nem os camelos conseguiram arrastar José do passado: consumia o tempo a falar num tal de padre Verdeixa, a excomungá lo, cheio de ódio, relembrando o dia de sua prisão. De intervalos em intervalos, calava se, sossegava, cochilava e pegava no sono. Despertava, assustado, aos pulos, não me prenda, seu padre.
Nessa caminhada, chegou a ponto de nunca mais conseguir pensar em outra coisa. Nem no ídolo de toda sua vida, o avô, ainda a pregar a revolução nativista, deitado numa rede, imprestável. Nem no pai nem em Xocó, cujo finamento se deu pouco depois da dissolução do Regimento.
O pobre Chicó, desde sua chegada à serra, viveu como um cachorro fiel aos pés de João Cardoso, afora o passageiro momento de rebeldia durante o episódio da tomada da vila. Obedecia como um filho as ordens do protetor. Ao sentir a aproximação da morte, revelou todos os seus segredos e mistérios ao amo, como numa confissão, e pediu desculpas por não poder viver mais e lutar pela causa nativista.
– Vá em paz, meu escudeiro.
José, depois da desilusão sofrida com as palavras do jenipapo a respeito de cangaceiros, só teve um lampejo de luz no dia em que lhe anunciaram o fim da vila. Os olhos se incendiaram, sorriu, quis gritar, correr, dar vivas aos ideais da mocidade. Não parecia o velho broco a quem nem sequer as galinhas respeitavam. Imaginava a destruição física de Monte Mor, a morte dos estrangeiros, o ressurgimento da tribo. Perguntou se o avô, então já descido à cova, encontrava se à frente dos acontecimentos. Ao completarem a informação, quase esticou o cambito de decepção e susto: a vila havia virado cidade. Em vez de Monte Mor, chamava se então Baturité.
Não morreu logo José, no entanto. Ainda viu a cidade dar os primeiros passos, embora já nada no mundo o fizesse tirar da cabeças a figura do padre Verdeixa.
Brasília, entre 1977 e 1987.
G L O S S Á R I O
Afinar o cabelo – ficar rico.
Ajudante – na hierarquia militar do Brasil colonial e imperial, ajudante significava também capitão.
Alcaide – antigo administrador de vila, correspondente ao atual prefeito.
Almotacé – inspetor incumbido de taxar gêneros alimentícios e fiscalizar pesos e medidas.
Amocambar-se – esconder-se, ocultar-se.
Amunhecar – cair.
Apragata – alpercata. Usado na expressão “inchar nas apragatas”, que significa zangar-se, querer brigar.
Arco-da-velha – arco-íris.
Areado – perdido, desorientado.
Arribar – sair, às ocultas.
Atoleimado – tolo, apatetado.
Azular – fugir.
B
Baita – grande.
Baixa-da-água – lugar muito distante e indesejável.
Baladeira – atiradeira, badoque e estilingue.
Balangandã – penduricalho, pingente, ornamento em forma de medalha, etc.
Banzo – triste, pasmado.
Baralha – desordem.
Barrer - varrer.
Bater a bota - morrer.
Beiçudo - Diabo.
Blasonar – alardear, fanfarronar.
Bombarda – antiga máquina de guerra com que se arremessavam pedras.
Borco – usado na locução "de borco”, que significa de boca para baixo.
Broco – amalucado.
Brocotó – terreno cheio de altos e baixos.
Bucha – usado na expressão “em cima da bucha”, que quer dizer “sem demora”.
Cabeça baixa – porco.
Cabra – matuto, camponês, mestiço de mulato e negro.
Cabra cabriola – assombração de origem portuguesa.
Caçuá – cesto feito de cipós, que se prende à cangalha.
Cacumbu – machado ou enxada imprestável.
Café escoteiro – café sem mistura e não acompanhado de qualquer outro alimento.
Cafuçu – cafuzo, mestiço de negro e índio.
Cafundó – lugar ermo, no meio do mato.
Caititu – porco do mato.
Cambito – perna fina. Usado na expressão “esticar o cambito", que significa morrer.
Candeeiro – lampião.
Canguçu – jaguar, onça.
Cangueiro – curvado a um peso.
Capiongo – triste.
Capiroto – Diabo.
Capote – galinha d’angola, guiné.
Caranguejo e ximango – Ao tempo do Império, disputavam o poder dois partidos: o dos conservadores, apelidados no Ceará caranguejos, e o dos liberais, chamados ximangos ou chimangos.
Caroá – certa planta.
Catinga ou caatinga – tipo de vegetação, formada por pequenas árvores, etc.
Catinga – cheiro forte e desagradável.
Catrevage – restos de materiais ou utensílios.
Chibé – pirão feito com farinha de mandioca, água e açúcar, mel ou rapadura.
Confederação do Equador – A Confederação das Províncias Unidas do Equador, mo¬vimento revolucionário surgido em Pernambuco em 1824, visava a derrubada de D. Pedro I e a instauração de uma República Federativa.
Coisinha boa – pessoa de quem não se quer pronunciar o nome.
Coiteiro – quem dá coito, asilo a bandido ou pessoa desconhecida.
Conchamblança – acordo, conchavo, conluio.
Corrimboque – tabaqueiro, caixa de tabaco.
Coscuvilhar – mexericar, mexer.
Cotruco – lambedeira, faca de ponta.
Cu de boi – usado na expressão “abrir um cu de boi", que significa brigar.
Curumim – menino.
Cururu – designação comum a alguns sapos de grande porte; sapo cururu.
Descansar – morrer.
Descompor – injuriar, censurar asperamente.
Desembestar – correr impetuosamente.
Ducari – o que ama (termo do idioma falado pelos cariris).
Dunga – chefe, maioral.
Dupari – matador (termo do idioma falado pelos cariris).
Dupariá – matar (termo do idioma falado pelos cariris).
Embarafustar – entrar com ímpeto.
Emboanceiro – loroteiro.
Empacho – embaraço, empecilho.
Emperiquitar – enfeitar.
Enrascada – embaraço.
Escalda-pés – banho dos pés com água quente.
Escanchado – montado a cavalo, de pernas abertas.
Espragatado – estendido no chão, como uma alpercata.
Espritar – de espiritar, enfurecer.
Estrambólico – esquisito.
Fazer arte – ferir se, machucar se.
Fazer ouvidos de mercador – fazer que não ouve, fazer se surdo, por conveniência.
Fianga – rede de dormir.
Frangote – rapazinho.
Gaitada – gargalhada.
Ganjento – vaidoso.
Garapu – designação comum a duas espécies de veado de chifres simples, veado roxo.
Giboso – que tem corcunda, geba, gebo.
Guajara – entidade mítica do Ceará.
Ingresia – linguagem ininteligível.
Jinjibirra – certa bebida fermentada.
Jucá – madeira usada como tacape pelos índios; porrete, cacete.
Jururu – triste.
Lacambeche – antiga espingarda de pederneira.
Lambanceiro – mexeriqueiro, mentiroso, gabola.
Libertas quae sera tamen – (latim) liberdade ainda que tardia. Lema da Inconfidência Mineira.
Lordaça – estrangeiro, rico.
Maçaranduba – designação comum a duas árvores da família das sapotáceas.
Malazarte – personagem mítico trazido de Portugal para o Brasil.
Mandrião – preguiçoso, ocioso.
Mandriar – preguiçar, viver ociosamente.
Mangofa – zombaria.
Marinheiro – designação dada a portugueses no Brasil colonial.
Marmotoso – com jeito de marmota, espantalho.
Matar o bicho – beber cachaça.
Matolão – alforje de couro.
Mequetrefe – joão ninguém, indivíduo sem préstimo.
Milite – soldado.
Mocó – bolsa de tiracolo.
Mocororó – certa bebida feita de caju.
Moura encantada – entidade fantástica que vivia nos rios e nas fontes, segundo a cren¬dice popular portuguesa.
Mucufa – indivíduo tratante, ordinário, reles, insignificante.
Mulungu – o mesmo que corticeira, árvore regular, ornamental da família das leguminosas.
Mundiça – imundícia.
Munguba – árvore da família das bombacáceas.
Muxicão – safanão, repelão, sacudidura.
Oiça – variante de ouça, ouvido.
Ora-veja – usado na locução “ficar no ora-veja", que significa ficar esquecido.
Orelhudo – morcego.
Pacoveira – bananeira.
Pamonha – individuo mole, preguiçoso.
Panema – caipora, azarado.
Papoco – estalo, estampido.
Pé de pau – pé de árvore, pé de mato.
Pelo-sinal – oração que acompanha o ato de persignar-se. Fazer o pelo-sinal significa persignar-se, fazer o sinal-da-cruz.
Pendenga – discussão, bate-boca.
Penosa – galinha.
Percalçar – alcançar.
Pinguelo – gatilho.
Puça – designação pejorativa dada a portugueses no Brasil colonial.
Quebrar da barra – primeiras claridades da manhã.
Quede – cadê, quedê, que é de?
Quengo – cabeça
Queto – forma sincopada de quieto.
Quicé – faca velha e imprestável.
Quinau – lição. Dar quinau: corrigir com palavras.
Repastar – comer abundantemente.
Resguardo – período subseqüente ao parto, em que a mulher observa certos cuidados.
Ribaldo – patife, velhaco.
Rimance ou romance – gênero literário em versos e cantado, trazido pelos portugueses para o Brasil.
Sarará – albino.
Seribolo – desordem, confusão.
Sujigar – sojigar, subjugar, dominar.
Talagada – porção de bebida alcoólica que se toma de um gole.
Taludo – corpulento, grande.
Ter pauta com o tinhoso – ter pacto com o Diabo.
Tiborna – porcaria, coisa sem valor.
Tijupá – palhoça, choupana.
Tipóia – rede pequena e velha.
Tiririca – furioso.
Torar – partir em toros, cortar.
Tramela – objeto que serve de estorvo à caminhada. Usado na locução “meter a tramela", que significa entrar em conversa alheia, falar demasiadamente.
Tuntun – costas, o dorso.
Vianda – qualquer tipo de alimento.
Xambregado – embriagado.
(FIM)