Os Guerreiros... (2)
(Continuação)
MORTE DA REPÚBLICA
Ao regressar da vila, após o fracasso da Confederação, João e Pedro encontraram Antônio a cachimbar, acocorado ao pé da jaqueira. Enlameados, esmolambados, a botar os bofes pelas bocas, sem fala, arriaram feito sacos vazios.
– Levante se, Coronel.
João olhou, espantado, para os pés espragatados do patriarca e jurou, mais tarde, ter visto dois bichos horríveis, de cinco cabeças cada, parecidos com cururus, a se arrastar para o seu lado, en¬quanto ele, pregado ao chão, incapaz de fugir ou reagir, chorava e pedia clemência.
Antônio, em pé, dava ordens para que seus subordinados deixassem aquela posição humilhante.
– Não sou imperador, não.
E chamava João de coronel e Pedro de capitão. Queria notícias dos campos de batalha, dos avanços e recuos de seu exército, das baixas em ambos os lados, das perspectivas da guerra. Ia para a frente, porque só sua figura afugentava os inimigos e dava ânimo aos revolucionários.
Enquanto o velho profetizava vitórias e glórias, João e Pedro levantaram se, devagar, e procuraram Micaela. Bênção, mãe; bênção, vó. A velha, estendida na tipóia, assustou se e pediu a prote¬ção dos anjos.
Ainda aos berros, Antônio entrou para a camarinha e pôs se a remexer no baú.
– Cadê minha espada, mulher?
Não sabia de espada nenhuma. Queria sossego, andava com reumatismo e o malvado do marido a futricar no seu pé do ouvido.
Filho e neto, em lágrimas, anunciaram à velha o fracasso da revolução. E pior: o governo caçava revolucionários para matá los. Dias, semanas e meses de refregas, corpo a corpo, sangue, dor, morte. Só não se lamentavam mais porque pelo menos uns cem im¬perialistas haviam sido estripados pelas mãos de cada um deles.
– Não é mesmo, Capitão Pedro?
Queriam esconder se por uns tempos, a coisa andava preta para o lado deles. Ao ouvir a lamúria, Antônio irritou se, chamou-¬os de traidores, desertores, covardes. Não admitia aquilo em suas hostes, sobretudo porque a vitória se aproximava. E ordenou que os dois voltassem à vila, antes do reaparecimento da espada – um facão rabo de galo cego, enferrujado e cheio de dentes.
– Vamos, dê conta da espada, imperatriz Micaela.
Obedientes, João e Pedro regressaram a Monte Mor, para sa¬ber da morte definitiva da República do Equador.
Depois disso, João sossegou por uns tempos e nunca mais pi¬sou na casa do filho. Se queria ver os netos, mandava chamá los. Afeiçoou se ao mais velho, José. Falava lhe de Canindé, de metais, de Antônio e contava lhe romances.
– Chorava a Infanta, chorava,
lá dentro da camarinha.
Perguntou lhe Rei seu Pai
– de que choras, filha minha?
Aos poucos, transformou o em seu discípulo.
– Vamos fazer uma revolução.
CANOA DOIDA
Até aprender a falar, José mal sabia distinguir o bisavô do bicho papão. Se pudesse matar o monstro com uma pedrada, que alí¬vio! Armava se como podia e nada de o medo passar. E, antes mesmo de esquecer aquele bicho medonho, o velho esticou o cam¬bito. Quando já não mais pensava no terror da infância, o pai lhe falava de imperadores e doze pares, senadores e alencares, conservadores e liberais.
Chegada a época de votar pela primeira vez, vestiu se da melhor roupa, cobriu se de chapéu novo, perfumou se e, decidido a votar nos caranguejos, montou Mansinho e rumou para a vila. No meio da viagem, porém, tomou umas jinjibirras para se alegrar.
À hora da partida, lembrava se bem, o pai o havia instruído como escolher bons governantes. Não votasse nos ximangos.
– Umas pestes!
Tinha em mente também a noite anterior, quando Pedro dor¬miu a esculhambar os conservadores.
Seguiu caminho, já zonzo, os pensamentos a galope, tudo misturado, a vizinha com jeito de rolinha, a sabedoria do pai, as políticas, o avô, a terra correndo para trás. De repente se viu no meio da rua e fulminado por uma voz arrogante que o fez frear Mansinho.
Diante dele erguia se a figura do juiz de paz, o padre Verdei¬xa, a repreendê lo com ríspidas palavras.
– Vosmicê está preso.
Atordoado, José gaguejava, tremia, sem atinar com a razão de tamanho despropósito.
O juiz olhou para José e seu cavalo e apontou a razão: a sela sem rabicho. E ordenou aos soldados conduzirem o homem à cadeia.
Tiririca, José jurou vingar se daquele padre maluco, o Canoa Doida, como o chamavam. Não conseguiu, porém, jamais ver de novo o eterno inimigo, apesar de este ter voltado a Monte Mor uns trinta anos depois, doido como sempre, e andar pela serra, sujeito a esbarrar no antigo eleitor, não vivesse José preso em casa, a se debater no poço da memória.
Três anos após o legendário acontecimento, manteve uma conferência com o avô e, juntos, passaram a tramar a continuação das guerras dos índios. Ao aparecer Chico Xocó, formou se o Regimento Cardoso.
AVÔ E NETO
Quando moço, escanchado no seu cavalo, José Cardoso cos¬tumava vagar pelos atalhos, feito marmota, perdido. Dias inteiros metido no mato, em tempo de dormir em cima do animal. E, não fosse ele, ia bater no reino da Bela Infanta, para nunca mais ver a terra dos jenipapos.
Esses modos estranhos, de quem vive no mundo da lua, vi¬nham desde sua saída da cadeia.
– Ficou broco.
Numa dessas andanças, ao primeiro que encontrou deu boa-¬tarde, puxou prosa sem fim. Recontou a epopéia de sua prisão, coi¬sa já esquecida do povo. Cansado de ouvir, sim senhor, Virgem Maria, pelo amor de Deus, o outro suava, cuspia, fungava, aflito. Na curva do caminho, apareceu um boi assustado, sem rumo, egresso dos sertões. E o outro aproveitou para fugir.
José esporeou o animal e saiu atrás de vivente menos medro¬so e mais civilizado do que o primeiro. E esbarrou no mais corajo¬so e menos bruto homem do mundo – João da Silva Cardoso, seu mirabolante avô, montado na mula Fujona, de regresso de pregações nativistas.
Após bênçãos e cumprimentos, o velho abriu a boca para fa¬lar de guerras e revoluções, enquanto o neto se dispõe a inventar o episódio lendário de seu encontro com o padre Verdeixa. Calava se José para escutar o canto de João, silenciava o avô para não perder uma só gota do choro do neto. E se olhavam como bichos sem lín¬gua, imóveis figuras à espera da palavra mágica.
Finda a trégua, o rapaz pediu permissão para expor seus pla¬nos revolucionários. Disse daquilo e disso, de governos e terras, índios, caboclos e lordes, enquanto o mais velho cochilava ao aca¬lanto das próprias idéias.
Cuidaram, a lua voava sobre suas cabeças e nada mais conse¬guia José desembuchar. João bufou e pôs se a arranjar miolos para a lenda do neto: o diabo do padre agarrou as rédeas do cavalo, o danado deu um sopapo, relinchou – me larga, caranguejo da peste! – e saiu arrastando pelo chão o Canoa Doida.
Terminaram esconjurando Verdeixa, jurando vingança e às gargalhadas.
– Vamos dar um quinau no safado.
Acabavam com a raça do governo e varriam o Ceará daquela praga.
Mas havia um porém a intranqüilizar José. Ouvisse o avô: nem ia nem vinha. Enfiava se no mato, sem ligar para chão pisa¬do. Pisava, sim, mas com os pés tortos, zambeta. Quem se assom¬brasse, fosse ou viesse. Não ficasse feito jumento sem mãe, arredasse. Rezasse, se quisesse, ou corresse a dar parte. Por isso, morte a caranguejos e chimangos, como lhe ensinava o pai.
Assustados com os gritos do rapaz, os animais pinotavam, e João, desequilibrado, pedia lhes sossego, escutassem a fala do ho¬mem, ora essa!
Pela primeira vez tratava o neto como homem, de igual para igual. Antes não o deixava sequer abrir a boca, aprenda a prestar atenção às conversas dos mais velhos, fique no seu lugar, cabrinha malcriado. José baixava a crista, cabeceava de tanto escutar histó¬rias fiadas, quieto no seu canto, cachorro aos pés do dono. E o avô falante, matador de jaguar, viajante dos reinos mais distantes.
A partir daquele encontro, José fez se discípulo de João, dia e noite a ouvir lhe projetos revolucionários herdados de Antônio: armar com asas de aço e dentes de ferro os morcegos das grutas e adestrá los para um ataque mortal aos eternos inimigos da Serra.
Mas onde arranjar tanto metal? Ora, então não sabia com quem lidava? Por acaso não era ele conhecedor dos segredos dos metais, do íntimo da terra, da natureza dos bichos e do manejo das armas?
– Não é mesmo, Amparo?
O maior empacho podia estar em capturar os morcegos, criaturas ariscas, mensageiros do capeta. Deixasse, cuidava também disso, que quem sujiga onça é homem para todos os efeitos. E tudo agradecia ao pai, que Deus o guardasse em bom lugar.
A mulher arrastava os chinelos, largava o tear e chegava à porta para espiar as galinhas alvoroçadas no terreiro.
– Essa conversa assusta os bichos, João.
SABEDORIA DE JOÃO
Os bichos se reuniam diante de João para ouvir lhe a história da mais façanhosa guerra de todas as eras, enquanto José ria, es¬fregava as mãos e batia os pés no chão. Às perguntas embaraçosas do avô, só encontrava a resposta dos gestos. Desconfiava do verdadeiro motivo de sua prisão? Então ouvisse: a fama das pessoas não se apaga nunca, fica pregada na testa, e a terra, quando faz seu trabalho de comer as carnes, roer os ossos, não tem força para des¬truir os feitos do finado. De longe, Verdeixa viu a luz de José ca¬minhando em cima do cavalo e se assombrou. Entrava na vila o fi¬lho de Pedro, o neto de João, revolucionários da ativa durante a Confederação. Pisava o chão de Monte Mor o mais corajoso des¬cendente do jovem inconfidente dos velhos tempos. Ia votar o bis¬neto de Antônio, o líder da luta contra a criação da vila. Chegava a cavalo, feito um guerreiro, um matuto da serra de nome português, mas de sangue jenipapo.
Tais palavras, ouvidas nessa única oportunidade, jamais saí¬ram da cabeça de José. Assim, ao decidirem dar fim ao grupo for¬mado a partir dessas longas conversas, ainda tentou reviver a fantasia herdada do avô. Não encontrou, porém, apoio de ninguém e, desesperado, nunca mais conseguiu recordar por inteiro sequer uma só frase dita por João nesses bons tempos de otimismo. E, não fos¬se a tia Joana, tinha virado mendigo, doido de atirar pedra na lua.
Embalava se José ao compasso das interpretações do sábio avô, como se ouvisse uma história de trancoso de que fosse perso¬nagem. E João a falar, a ver o mundo com olhos de herói: então o padre ficou com medo, quis se vingar em José das humilhações so¬fridas por seus antecessores e deu, por antecipação, a primeira bo¬fetada na cara da revolução dos Cardosos. Sim, José não ia ser nunca um eleitor, mas, antes, um inimigo do sistema.
– E ele é profeta?
João dava lições de sabedoria. Podiam chamar Verdeixa e muitos outros de profeta.
Mas, quando uma cobra e um passarinho ficam de frente um para o outro, acontece o quê? Eles são profetas?
Não fizesse mais perguntas bestas. O governo já vivia avisa¬do do movimento e só lhes restava começar a revolução. Por onde? Pela morte do Canoa Doida. Assim, testavam a eficiência dos mor¬cegos e, ao mesmo tempo, davam início à revolta com uma vingança pessoal e familiar.
Se o encontrassem na rua, inventavam qualquer coisa, votos certos de eleitores da serra, e o lambanceiro caía na arapuca. Ia para casa todo satisfeito, vosmecês são uns conservadores indo e voltando, abanquem se, não façam cerimônia. Nessa lengalenga, se esquecia de perguntar que diabo havia dentro daqueles cestos e então soltavam os morcegos, por tal que não tivesse tempo nem de mandar servir um café.
José se escangotava de tanto rir, batia as mãos nas coxas do avô, despedia se e espantava a fauna de Maria do Amparo.
– Cuidado com os pintinhos, seu desastrado.
APARECIMENTO DO XOCÓ
Num de seus passeios mais prolongados, encontrou João, no meio do mato, um velho esfarrapado e marmotoso, acocorado ao pé de uma jaqueira. Arrepiou se, fez o sinal da cruz e não teve ânimo de despregar se do chão. Ainda no escuro, enxergou o estranho a coçar a barriga de um porco, que roncava de contente. Não quis saber se vinha de longe ou estava areado, se tinha pauta com o ca¬piroto ou peregrinava, se escutava ou se falava, se era gente, bicho ou assombração. Sem por isso e por aquilo, soltou a língua e mandou revolução para cima do porqueiro.
O velho, espantado, largou a pança do imundo e, sem se le¬vantar, pôs se a mirar o homem de voz de trovão e jeito de dono do mundo. O animal não esperou por mais agrado e escapuliu, aos roncos.
Nem a velha mula Fujona viu quando o estranho pegou uma pedra e jogou a na direção da cabeça de João. Antes de ser acerta¬do, porém, o filho de Antônio estatelou se feito um morto. A arma acertou em cheio a cabeça de uma cascavel que escorregava pelo galho de outra jaqueira.
Agradecido, João esqueceu suas idéias políticas e encheu o desconhecido de perguntas. Com pouco, rumavam para a casa do primeiro.
– De hoje em diante vosmecê é meu escudeiro.
Para começar, encarregou o novo correligionário de conduzir-¬lhe o escudo – o chapéu de palha. E chegaram à presença de Amparo.
Acolhido como herói, durante uma semana o matador da cobra contou sua história e explicou o significado de seu nome – Chico Xocó –, reduzido imediatamente pelo hospedeiro para Chicó.
Armado de uma quicé sem préstimo e já vestido como gente, escoltava o protetor e chefe por onde andassem. Viravam e revira¬vam a serra, à cata de adeptos para a causa nativista, Xocó a pisar nos rastros de Fujona. Compadres apareciam a cada volta dos ca¬minhos e João não se cansava de apresentar lhes seu escudeiro.
Comumente, porém, cabia ao hóspede a tarefa de sozinho vasculhar as grotas mais perdidas da região, descobrir grutas, ensi¬nar aos morcegos a língua da revolução e, assim, criar a infantaria voadora que, dentro em breve, devia enfrentar os exércitos do império. E Xocó sumia nos matos, por dias e dias, alimentando se de frutos naturais, raízes e pequenas caças. Vez por outra, regressava ao novo lar, carregado de filhotes de morcegos. Apresentava os um a um a João, já batizados e acalentados.
– Este se chama Kiehó.
Cuidavam, o bicho escapulia e o chefe se irritava. Que mor¬cegueiro era aquele de quem os morcegos fugiam? Mas Chico jura¬va: achava se ensinado e armado de esporas, e no dia da guerra ia voltar, com toda certeza, pronto a esfolar o primeiro lorde que en¬contrasse pela frente.
Pelos caminhos, José ria e falava só, feria Mansinho e voava para junto do pai. Mas Pedro fazia ouvidos de mercador, resmun¬gava, acendia o cachimbo e escapulia para os fundos da casa. Não acreditava mais em fuzarcas. Tudo terminava na mesma: rei no tro¬no, povo no tronco.
Quando o Regimento Cardoso se dissolveu, gracejou, bateu no peito, balançou a cabeça, como a dizer: eu sabia!
Queria lá saber das doidices do pai!
– Não vão me meter em baralhas!
Sem jeito, José buscava apoio na mãe, mas só encontrava bil¬ros entre os dedos dela. Não entendia mesmo a natureza do pai: se puxava conversa, parecia falar do capeta, e, quando menos espera¬va, vinha ele a dizer cobras e lagartos de caranguejos e chimangos. Cambada de ordinários, trocava uns pelos outros e não queria volta.
FORMAÇÃO DO GRUPO
Impressionado com a valentia e a sabedoria do avô, volta e meia José corria à casa de João. Chegava aos pulos, feito bode.
– Que estrupício é esse, menino?
Numa dessas idas, descobriu a existência de um hóspede. In¬dagado de quem se tratava, João chamou Chicó e o apresentou ao neto como seu escudeiro e estrategista invencível, formado nos campos de batalha do Cariri.
Com uma hora de prosa, o decrépito e banguela Chico Xocó, um caco de gente, desgarrado índio da tribo de seu nome, tornou-¬se aos olhos do jovem um emérito adestrador de morcegos, guia da futura guerra nativista.
Enternecido pela biografia do desconhecido, José apertou lhe a mão com tamanha força que se ouviu um estalar de ossos. Mas, apertando estava, apertando ficou por um bom tempo a mão do desgraçado. A revolução precisava muito de homens daquela estir¬pe, de guerreiros como aquele. E espremia mais a mirrada mão do centenário xocó, que tentava livrar se do calor doloroso dos dedos do rapaz e não sabia a quem apelar. Desesperado, berrou e deu um pulo, para contar a última de suas façanhas sertanejas. Perseguido por cangaceiros dos fazendeiros, de uma só carreira deixou Jardim em demanda de terras mais frescas. Os xocós e minaús haviam se rebelado contra as humilhações e os maus tratos sofridos nas mãos dos estrangeiros, que armaram cabras para matar os rebeldes. Cor¬ria muito sangue para o sul. Mas ele, Chico Xocó, fugia da morte para levá la de volta aos reis do sertão. Por isso ali se encontrava, disposto a aplicar seus conhecimentos de guerra junto aos jenipapos.
– Quem é que é jenipapo, vovô?
João deixou a explicação pelo meio, como se espetado por um inimigo oculto. Coçou a bunda, olhou para todos os lados e pe¬diu mais atenção do neto e do escudeiro para o que ia dizer. O governo, preparado há muito para a contra revolução, tencionava pe¬gá los de surpresa e sem que o resto do mundo soubesse de mais uma guerra no Ceará. Por isso, aquelas histórias de cangaceiros pa¬ra atacar índios.
Xocó o interrompeu. Então era um mentiroso? João explicou-¬se. Ninguém ali mentia. No máximo, desconhecia a sombra dos acontecidos. Não negava a existência dos cangaceiros, nem que atacassem índios. Isso, porém, não podia deixar de ser apenas pre¬parativos para outras ações. Como a de lutar contra a revolução. Sim, quem conhecia melhor o povo do que os bandidos nascidos e criados no sertão? O governo não ia mandar soldados da capital, nem de Portugal para guerrear os serranos. Se matava índios, acusados de bandoleiros, e ninguém dizia nada, quando não batia palmas, por que não acabar com os revolucionários de Baturité, ser¬vindo se dos mesmos matadores, e chamá los de índios? Além do mais, o próprio Chicó se orgulhava de ser índio, João e José descendiam de jenipapos.
E, enquanto os três tramavam o fim do mundo, Maria do Am¬paro escapulia pelos fundos da casa e ia cochichar aos ouvidos de Pedro. Cuidasse do menino, com pouco se perdia para sempre à custa das conversas perigosas de João.
– Papai não tem jeito mesmo.
Entretida com os bilros, Francisca escutava o zunzum, calada.
Pedro nunca acreditou na revolução maluca do pai, do filho e do índio xocó. Como podia um só regimento, ainda mais composto apenas de três soldados, vencer um exército inteiro? E ria dos três, caçoava do Regimento Cardoso. Ora, se nem Tristão havia venci¬do, quanto mais aqueles capiongos.
– A vida só é grande nas palavras – dizia.
Sua decepção com atos de bravura resultou justamente da derrota da Confederação. A partir de então, amocambou se em ca¬sa, isolou se do pai e dos amigos, esqueceu todas as palavras novas aprendidas nos dias de entusiasmo revolucionário e, quando puxa¬vam conversa sobre política, antes de escapulir para os fundos, ju¬ruru e resmunguento, ou de tomar o caminho oposto ao de seu interlocutor, soltava faíscas dos olhos e berrava duas ou três palavras de irritação.
– Não quero saber de mundiças.
Em casa, porém, dava lições aos filhos, contava casos, mostrava-¬se tão sabedor dos acontecimentos passados e presentes quanto o pai. Mudava de partido conforme a primeira palavra que lhe saísse da boca, ora caranguejo, ora ximango.
Pendurado à parede da sala havia um quadro – de um lado cópia do retrato do imperador, de outro a cara de frei Caneca.
Às vezes, ocorria a Pedro ser monarquista de manhã e republica¬no de tarde. Nas horas em que exaltava Dom Pedro e lhe perguntavam pelo retrato do frei, irritava se e perdia a compostura. Na sua casa o nome daquele monstro não devia sequer ser pronunciado.
– Homem é este – e se perfilava diante da coroa do monarca.
Se, porém, o surpreendiam a admirar o verso do quadro, inflama¬va se igualmente e chamava frei Caneca de herói, gigante, exemplo de coragem.
Assim, transmitiu aos filhos o hábito da indecisão política. So¬bretudo a José, pelo menos enquanto este não se deixou seduzir pelos sonhos do avô. Se lhe perguntavam a que agremiação pertencia, deixa¬va a resposta por conta de Pedro, se andavam ou se se encontravam juntos. Sozinho, gaguejava e terminava conservador ou liberal, con¬forme o partido do indagador.
Tal qual o pai.
FUNÇÕES DE CADA UM
Durante todo o tempo da existência do trio, nunca um aprendeu a ouvir outro. Falavam ao mesmo tempo, Xocó a contar e recontar casos de rusgas com cangaceiros, José a vociferar contra o padre Verdeixa e João a explicar estratégias, falar de morcegos e outras armas maravi¬lhosas e recordar o pai e suas guerras imaginárias. Para atrapalhar mais, a qualquer pretexto, corria ao baú e voltava carregado de pedaços de enxada, facas e facões velhos.
Maria do Amparo zangava se, deixasse de futricar naquelas catrevages, criasse juízo, fosse dar de comer a Fujona. João fazia de conta que nada ouvia, continuava a ir e vir ao baú, coberto de poeira e ferrugem.
– Ainda não perdeu essa mania desgraçada, homem de Deus?
Havia também as horas de recreio e então João recitava os velhos romances de sua juventude, cheios de reis e príncipes:
– Delgadinha, Delgadinha,
Vais ser minha namorada,
De prata serás vestida,
De prata serás vestida,
De ouro serás calçada.
Noutros momentos, exasperava se e ocorria munir se Chicó do vocabulário de sua estranha língua, para admiração de seus companheiros.
– Que ingresia é essa?
Como braço militar do grupo, a José cabia o planejamento das ações. Apesar disso, nem o fracassado ataque à vila deixou de ser programado por João, encarregado da elaboração da estratégia política. A Xocó competia auxiliar um e outro, além da captura e do adestramento dos morcegos.
Na primeira fase do movimento, trataram de elaborar planos de guerra, assim como expor vagas idéias político administrativas. Por exemplo: qual a patente a ser conferida a cada um? João não abria mão do marechalato, primeiro por ser o idealizador não só do exército revolucionário, mas da própria revolução.
José se zangava. Então não ia mais planejar nada.
Para acalmar o neto, João às vezes prometia torná lo mare¬chal, contanto que a si mesmo ficasse reservado o cargo de mare¬chal mor.
– E existe isso?
Se a pendenga se desse apenas aí, nada mais fácil de resolver. Ocorria, porém, que Chicó não desejava também ficar por baixo: ou marechal ou merda nenhuma.
– Coronel é alta patente.
Numa das últimas discussões, João fez uma proposta irrecu¬sável: Xocó, na qualidade de adestrador de morcegos, seria o ma¬rechal do ar.
PRIMEIRAS TRAMAS
Para destruir as cidades e vilas, necessário se fazia acabar com os donos delas – os políticos. Empolgado com a descoberta do avô, José elaborou, em cima das buchas, a idéia da liquidação físi¬ca de um dos mais importantes deles – José de Alencar. E explicou o plano: Chicó procurava o homem, pedia audiência, entrava com mula e tudo na casa do chimango e, quando estivessem a sós, destampava os caçuás. Num minuto, os morcegos davam fim ao dun¬ga. Os amigos dele botavam a culpa nos caranguejos e, em menos de um mês, não restava mais ninguém para contar a história.
O plano foi derrotado por três votos a zero, mal acabou de ser exposto. Alegou José correr o companheiro o risco de não ser re¬conhecido pelos morcegos e desfalcar o regimento. João, antes de votar, chamou seu ex escudeiro de irresponsável.
– Não se brinca com morcego.
O xocó votou com uma enorme gargalhada e nada mais discutiram nesse dia.
De conversa em conversa, compreendeu João a necessidade de criação de um exército, antes de iniciar a guerra nativista, a maior guerra desde o começo do mundo. Coisa para ficar nos li¬vros, nunca ser esquecido. Como as guerras dos faraós, cheias de pragas mil. Como as guerras dos levitãs, coatitas e gersonitas, nas terras de Canaã. Como as guerras em Jericó, no rio Jordão e entre as tribos israelitas. Como a guerra de Sansão contra os filisteus e a de Davi contra Golias, nos tempos do Rei Salomão e seu reino de riquezas. Como as guerras em Damasco, na Etiópia, no Egito, na Babilônia, na Arábia, em Jerusalém e em Judá. Guerras de todo ti¬po, armas de todo feitio, homens aliados a bichos contra outros homens e outros bichos. Gafanhotos contra rãs, piolhos contra moscas. Chuva de pedras, lutas nas trevas, rios de sangue.
– E o exército, Coronel?
Bem, o exército precisava ser o mais poderoso possível, ca¬paz de mandar de volta os puças e restabelecer o antigo domínio da terra pelos nativos. Trabalho para homens fortes, inteligentes, corajosos. Um pequeno grupo, um embrião, um comando, primeiro. Quem mais podia fazer parte desse grupo? Apontaram se nomes, todos rejeitados por ele. Um por se chamar também João. Ora, não podia haver duas pessoas com o mesmo nome, se um mandava e outro obedecia. O segundo por falar mal de Tristão. O terceiro por desconhecer Carlos Magno. Desconfiava de todos eles. Muito ca¬paz de já estarem trabalhando para o governo. Ora, como! Então não sabiam que, com promessas de terras, o governo andava comprando gente da serra, para espionar todos os passos dele, João, de José e de Xocó? Nunca ouviram uns assobios de aviso, folhas se mexendo, galhos se balançando, à moda de assombração? Pois, nem duvidassem, eram os espias atrás deles. Não dizia que todo mundo tivesse se vendido, mas suspeitava de um bocado de gente. Não, de Pedro não. Assim mesmo não o aceitava no regimento nativista.
– Mas, vovô, é seu filho.
ESPIÃO FAMILIAR
Não obstante o respeito e a devoção ao avô, José não se con¬formava com a deliberação dele e muito menos aceitava suas opi¬niões sobre Pedro. E o embrião da revolução esteve para morrer, avô e neto nervosos, vermelhos de raiva, bufantes. Para acalmá¬-los, Chicó chamou aos fundos da casa seu cavaleiro e protetor e ousou pedir clemência para aquele a quem nem sequer conhecia. O ve¬lho Cardoso enfureceu se mais ainda, não arredava pé de sua deci¬são: ou ele ou Pedro. Não fosse o filho, a Confederação havia vencido. A culpa da desgraça cabia toda àquele medroso. E se espritou a condenar de novo o filho, aos brados – carrasco da execução de tantos Confederados.
– Não sei mesmo como não fui também enforcado.
E alisava o pescoço enrugado.
Ao fim de algum tempo, cansado de gritar, calou se, pediu um caneco dágua a Amparo e acocorou se. Com pouco, voltou ao normal, readquiriu a cor morena de sempre e nem parecia o homem cheio de ódio de minutos antes, como se tivesse esquecido toda a discussão. Admirados, José e Xocó olhavam se, mudos, como a esperar uma reviravolta na situação – João a pedir perdão ao neto pela rabugice com que havia se portado, a perdoar também Pedro e, até, a convocá lo para subcomandante do regimento.
Esvaziado o caneco, lavrou a sentença: fosse José atrás do pai e levasse também Chico. Deixassem no em paz para a guerra que ia desencadear, primeiro contra os três e depois contra o império. Sabia onde moravam os morcegos, conhecia o útero da terra, compreendia as táticas e estratégias de Carlos Magno.
José não foi, nem carregou Chicó. Renderam se os dois aos pés do patriarca.
Porém o acordo não se fez em poucas horas. Era noite alta quando apertaram se de novo as mãos e, sonolentos, deliberaram realizar a próxima reunião no mais fundo da Gruta dos Morcegos, longe dos olhos e ouvidos curiosos dos estranhos.
Que estranhos eram esses, se na casa nenhum outro vivente vivia, senão Maria do Amparo e os animais domésticos, além do próprio João e do hóspede revolucionário? Mas todos viram quan¬do Pedro, feito gato, se abeirou da choça, espiou pelas brechas das paredes e bateu palmas. Os três conspiradores se esconderam de¬trás da jaqueira e ouviram a conversa dele e Amparo.
– Estão aí fora.
O visitante deu meia volta e sumiu na escuridão. Aquilo só podiam ser modos de vigia do governo. Queria o neto outras provas?
Nascia outro espião, o mais terrível de todos. Afastava se em definitivo a hipótese de Pedro vestir a farda da revolução.
A pauta desse primeiro congresso não ia além de decidir o próprio motivo de estarem reunidos. A questão dos nomes de adeptos da causa surgiu por acaso. De qualquer forma, quase não se entendiam: Chicó utilizava mais a antiga e esquecida língua dos xocós do que propriamente o português medieval e estropiado de João e José. Por sua vez, avô e neto, alheios à fala do escudeiro, ainda, aqui e ali, recordavam vocábulos e expressões dos extintos jenipapos.
BATISMO DE XOCÓ
No decorrer de uma de suas prolongadas falas, perdido nas brenhas do passado de seus avôs, esqueceu João de que já não contava somente com o neto.
– Nós, os Cardosos.
Chico Xocó franziu a testa, amuou se, pigarreou. Se não o queriam para a guerra, se o excluíam do regimento, preferia voltar a Jardim, enfrentar de novo os cangaceiros, morrer nos sertões, feito bicho brabo.
E João teve a mais emocionante idéia do dia. Jogou fora o graveto com que escavava o chão, cuspiu de banda, levantou se, caminhou para o velho e iniciou outro discurso. Não fosse precipitado nos juízos, reconhecesse nele um homem leal, um herdeiro dos valorosos jenipapos. Só existiam três guerreiros de verdade em todo o Ceará. Um o povo conhecia desde muitas eras por João Cardoso e desse não gostava de falar. Outro carregava o nome de José Cardoso, em início de carreira, mas de futuro glorioso garantido.
Apanhou um ramo, cheirou-o, benzeu o e, enquanto o pousa¬va sobre a cabeça do índio, concluiu: o terceiro se chamava Chico Xocó Cardoso ou Chicó Cardoso.
José nada disse e, durante toda a cerimônia, permaneceu a babar. O escudeiro, a princípio, fechou a cara e fixou os olhos no batista, porém, ao compreender o significado do ato, foi alargando a boca, cobrindo de brilho a íris, até encher se todo ele de uma alegria nunca manifestada diante dos novos companheiros. E ga¬guejava, ia e vinha, olhava para tudo ao seu redor, para si mesmo, o céu, o fundo dos olhos de João e José, feito uma miríade de meninos.
BATALHA DE CAIÇARA
As reuniões do grupo se realizavam quase sempre na Gruta dos Morcegos, para onde levavam vianda suficiente para uma se¬mana: paçoca e chibé.
Entravam no segundo ano de grandes discussões e pequenas ações, quando aconteceu o incidente denominado Batalha de Cai¬çara. De volta da gruta, após dias seguidos de paçoca e rusgas ver¬bais, perderam o rumo de casa e, areados, perambulavam por gro¬tas e brocotós. De repente João ordenou se esconderem. Mal se meteram num buraco, passaram alguns homens armados. Julgando-¬se perseguidos, fugiram para Caiçara e entocaram se numa tapera. Aos cochichos, João acusava José de ter atraído os inimigos, enquanto este culpava Xocó de os haver metido na enrascada.
Ao primeiro tiro, Chicó caiu, dizendo se ferido de morte. Os outros prontamente o acudiram.
– Ele não tem mais uma gota de sangue.
Do lado de fora, gritos, disparos, insultos.
De olhos grelados, João enfiou a cara numa brecha da parede de taipa: tropas cercavam e rendiam dois homens.
Mesmo assim, os três nativistas não se arriscaram a deixar logo a tapera. Podia ser uma cilada. Mais algum tempo, ainda sem dar um pio, e compreenderam que nada os ameaçava.
No caminho de casa, após quase uma hora calados, em fila indiana, João parou e ordenou que o índio assumisse o cargo de guia. E trocaram as posições.
A marcha determinada pelo filho de Antônio variava a todo instante. Ora apressava o passo, ora andava como a pisar em ovos, a exigir dos outros maior atenção. Já a marcha do xocó parecia medida, cadenciada, embora lenta. Por isso mesmo, o dedão do pé de José roçava a cada passada o calcanhar do guia, fenômeno re¬petido pelo pé do avô no calcanhar do neto.
– Aqueles dois são chimangos ou caranguejos?
Como João não desse resposta, Chico Xocó afirmou serem cangaceiros. José irritou se. A pergunta havia sido feita ao avô.
Apesar do incidente, os dois não perderam a cadência dos passos e o do meio repetiu a indagação. E, mais uma vez, nada de João abrir a boca. Desconfiado, José virou a cabeça para trás.
– Cadê ele?
Sem ferir o ritmo da caminhada, o guia também torceu o pes¬coço e, ao perceber a inversão dos papéis, colocou o resto do cor¬po em consonância com os olhos.
José corria sobre os rastros e Chicó resolveu persegui lo.
Mais atrás, João, parado diante de uma mangueira, conversa¬va só. Se rezava, não conheciam os outros a oração. Se se confes¬sava, não ouviram seus companheiros nenhum pecado. Se contava história, não escutavam José e Xocó nenhuma aventura.
Durou o tempo de uma reza longa a fala de João, mas confes¬sou depois ter ouvido o próprio nome. A voz, a de Antônio. Procu¬rou a e encontrou-a vinda da mangueira. Aconselhava seu pai, em tom imperioso, que ele reorganizasse o Regimento Cardoso e inva¬disse, imediatamente, a capital.
MORTE ENVENENADA
Lembrado dos episódios da Confederação, quando só ele e o filho, por um triz, não derrubaram o império, apenas apoiados na retaguarda pelos revolucionários de Tristão Gonçalves, João pro¬pôs aos demais chefes de sua revolução nativista marcharem imediatamente sobre Monte Mor e tomá la de assalto, sem exército, sem Pedro, sem mais ninguém. Bastavam os três. Na hora, surgiam adeptos até em demasia.
A repentina decisão de João se devia ao fato de o governo ter tomado a iniciativa na guerra. Não podiam esperar por novos acontecimentos. Do contrário, acabavam sendo surpreendidos em seu próprio campo. Antes que isso acontecesse, melhor desenca¬dear oficialmente a luta armada. E o que tinha feito o governo? Simplesmente invadiu sua casa, às caladas da noite.
– Quando foi isso, comandante?
Surpresos, José e Xocó queriam saber tudo sobre o ataque inimigo. Na noite anterior foram dormir horrorizados com a traição de Pedro e tiveram sonhos de sangue.
João levou os à camarinha, onde Amparo gemia e vomitava. Estava envenenada. Alguém havia tentado envenená los.
– Não terá sido meu pai?
A mulher tomava chás e se queixava de dores de barriga. Só podia ser obra de uns torresmos velhos. Mas João não acreditava nas conversas de Amparo e acusava o governo de levar à sua casa a morte envenenada.
– Deixa de besteiras, homem.
Alvoroçados, os três rumaram para o quartel general. Havia urgência na preparação da estratégia do revide. João rabiscava no pó da pedra da gruta o mapa da vila.
– Aqui fica a Casa da Câmara.
Mal passou aos detalhes, Xocó pediu para ser nomeado Coronel das Milícias e Comandante de Todos os Regimentos Revolu¬cionários, pedido aceito por José, ainda impressionado com sua história.
João, porém, afobou se e saiu da gruta. Quem era o dunga ali? Por acaso quem coroa um rei não é um rei maior? Pois ele, Dom João I, havia coroado Dom Pedro I, o qual não aceitou o tro¬no. E só ele podia criar patentes e comandos.
O neto retirou o apoio dado ao escudeiro e se prontificou a seguir o avô, abandonar a gruta, deixar Xocó entregue aos morcegos.
– Podem ir, mas eles estão comigo.
Nisso, uma saraivada de bichos saiu da caverna, como se obedecessem ordens do índio, sobrevoou o chapéu de João e regressou. Atônito, amarelo, miúdo, o filho do finado Antônio parou, voltou e rendeu se.
– Para não desfazer o que está feito, viu?
Ao desistir da desarticulação do embrião do regimento revolucionário, como se nada de extraordinário tivesse acontecido, João expôs a estratégia do primeiro ato de guerra do grupo: rendiam o pároco e não mais Verdeixa, conduziam no ao alto da torre do sino da matriz e de lá ameaçavam soltar sobre a vila toda a frota de morcegos, atados uns aos outros, por cordões, formando uma rede viva, pássaro de mil asas, e sobre ela, amarrado e deitado, o padre, caso não se entregassem todos os soldados e homens armados do lugar. Obtida a primeira vitória, prendiam o alcaide e demais auto¬ridades e decretavam pena de morte aos puças.
José e Xocó concordaram em tudo com os planos de João. Melhor do que se envolverem numa batalha campal, logo de saída.
– Arranje muito cordão, Coronel Chicó Cardoso.
PRELEÇÕES ELOQÜENTES
O plano da primeira investida do grupo contra o império con¬sistia ainda, após tomada Monte Mor, numa marcha sobre Fortale¬za, arrasando tudo quanto fosse arraial e lugarejo existente no ca¬minho. Acreditavam os três na sublevação do povo dos matos após a vitória inicial e à medida que avançassem no rumo do mar. Assim, às portas da capital, deviam contar com as multidões de índios e caboclos. Cercados por todos os lados, só restava uma saída para as autoridades e os habitantes da cidade – as muitas águas.
Empolgado, João engendrava a mais majestosa de todas as guerras e se esquecia de que os companheiros não podiam conce¬ber aventuras tão inimagináveis. Cuidava, José e Chicó babavam, apalermados, encantados.
– Estão me ouvindo?
Alertados, pareciam vindos de repente de outro mundo. Que¬riam saber onde havia se metido o povo, aquele mar de gente. João alargava os braços, como se o mundo coubesse dentro de seu peito. Entusiasmava se, deixava se levar pela eloqüência. Tomada a ca¬pital, declaravam ao mundo a criação de um estado tapuio, inde¬pendente de Portugal e do Brasil, no lugar da província do Ceará.
José e Chicó concordavam com João. Sim, a guerra; sim, uma terra só de índios. Não entendiam, porém, o significado de muitas palavras.
– Estado, o que é estado?
Inventor de histórias e de armas, João também inventava teo¬rias e teorias. No estado tapuio, queria dizer, na Serra de Baturité, o povo ia ser rei e rainha, uma nação de príncipes e princesas. E pronto: aquilo era o estado.
– Entenderam?
Não havia mudado nada ao longo da vida, continuava o mes¬mo sonhador da infância. Apenas não contava mais com o estímulo do pai. Nem precisava mais disso, desde há muito.
MENSAGEM AO MUNDO
Na declaração aos povos do resto do mundo, que devia anun¬ciar a criação do país dos jenipapos, decidiu João entranhar alguns princípios da futura lei magna, tais como o da abolição das penas de açoites, rodas de pau e palmatoadas.
José e Chico aplaudiam cada nova invenção do chefe e a re¬volução se tornava dia a dia mais próxima.
No meio dos entusiasmos, o espanto. Desenhos estranhos nas pedras da gruta, marcas de rastros desconhecidos, galhos quebra¬dos na vegetação vizinha, catinga de bicho morto. Sim, a gruta violada, visitada por inimigos. Quem sabia, lá no fundo da terra, escondidos, cangaceiros e soldados, em conluio com onças e co¬bras, preparavam se para o ataque.
– Chame os morcegos, Chico.
O velho índio tremia, gaguejava, mal sustinha se em pé.
João pigarreou e da barriga do chão um eco respondeu: ram. Bater de asas, chiados, algazarra. Os regimentos noturnos massa¬cravam os invasores sobreviventes. Isso mesmo, a catinga vinha dos cadáveres do governo. Não se preocupassem mais, os bichi¬nhos estavam acabando com a raça de cangaceiros e soldados.
– Vivam os morcegos nativistas!
Enraivecido, quase não parou mais de falar. Recontou velhas histórias, acontecidos, relembrou pai, avô, bisavô, recordou decepções, motivos de sua revolta pessoal e da revolução já começada. Como o caso do milagre de Canindé. Sim, não fosse ele, o pedreiro Antônio tinha se espedaçado. Quem chamou a atenção do santo no momento da queda do coitado? No entanto nem um só cristão contava a verdade, lembrava o seu nome.
URUBUS DO IMPÉRIO
A quem devia ser enviada a mensagem anunciando a criação do novo Estado? O primeiro nome a sair da boca de José foi o de Jerusalém. De jeito nenhum, tal país não existia mais, havia sido destruído pelo dilúvio, se opôs João. Então não sabia mais a História Sagrada? Pôs se a cutucar o chão, a forçar a memória. Descon¬fiado da momentânea ignorância de seu antigo cavaleiro, Xocó lembrou os nomes de Icó, Jardim, Crato.
Sempre sabedor de tudo, João explicou ao seu ex escudeiro serem aqueles nomes de vilas do Ceará e não de países estrangei¬ros. Não metesse a tramela naquele assunto, para não falar besteiras. Deixasse para dar palpites mais adiante, quando fossem tratar de táticas de guerra.
– Agora estamos no capítulo da diplomacia.
Enumerou os nomes dos países mais importantes do mundo. A Rússia, reino dos bárbaros; a secular França de Carlos Magno e seus doze pares; a China, onde todos eram, chineses; a Macedônia de povo guerreiro; a Pérsia dos mágicos; a Galícia dos galegos; Flandres dos metais, terra de sua admiração. Não, Portugal não. Esse ficava de fora, não recebia nenhum recado. Precisava de ex¬plicação? Não era ele, Chicó, uma vítima, assim como todo o seu povo, das barbaridades praticadas pelos portugueses? Ora, a revo¬lução ia ser feita justamente contra esse país, destruidor de tantas nações, a dele próprio e muitas outras.
Uma nuvem de pássaros a fazer cambalhotas no céu obrigou João a deixar a geografia política do mundo e apurar a vista. Exer¬citavam se os morcegos em plena luz do dia?
– Foi ordem sua, Chicó Cardoso?
Bailavam periquitos da serra em louvor da guerra nativista?
– São urubus, Coronel.
Bastou a palavra maligna para o velho Cardoso esquecer a metafísica das aves, dar por encerrada a reunião e meter se no en¬calço dos carniceiros.
Marchavam os três de cabeças erguidas, furibundos, como se a revolução tivesse rebentado para além do alcance de suas mãos e fosse preciso voar para retomar a dianteira.
– Depressa, meus milites.
Mais alguns passos e uma revoada de urubus se espantou. Enxotaram nos a pedradas e berros, mas os bichos apenas se escon¬deram no mato, cangueiros, desconfiados, sem pressa. E abriram espaço para o corpo de um cavalo, caído ao chão, bicado, esfarra¬pado.
– É Mansinho, é Mansinho.
Enquanto José chorava abraçado a seu cavalo e Xocó se apavorava diante da morte, os urubus do império – como os insultava, aos gritos – se preparavam para se repastar de novo nas carnes de Mansinho.
NOME DO PAÍS
A reunião para a escolha do nome do país devia começar após o almoço, mas João acordou mais impaciente e nervoso do que de costume e mandou Chicó às pressas chamar José.
Assustado com os gritos do índio, o filho de Pedro pulou da rede e agarrou a primeira arma que encontrou – uma colher de pau.
– Começou a guerra?
Xocó não sabia explicar o motivo de tamanha precipitação, porém garantia: João tinha novidades. Como, se acabava de ama¬nhecer o dia e todos dormiram em suas fiangas? No meio da noite os regimentos do império atacaram?
Encontraram se os três no terreiro da casa do patriarca e rumaram para a Gruta dos Morcegos. José doido para saber dos ocor¬ridos, João à frente, Chico pesado de paçoca e chibé.
Antes de passarem à pauta, a nova: o padre da vila havia se aliado ao governo e traiçoeiramente revelava às autoridades os segredos do confessionário. Fazia perguntas fora de sua alçada: se o penitente sabia onde se reuniam os revolucionários, quantos eram eles, quando iam atacar Monte Mor. Precisavam, por isso, espalhar notícias falsas: juntavam se no Pico Alto, em cavernas cheias de jararacas, jaguares, toda sorte de bichos, e ainda costumava apare¬cer por lá o Guajara; contavam com mais de mil guerreiros, vindos de todas as partes; pretendiam primeiro assaltar a capital, isso no outro ano.
José e Xocó, de início, se avermelharam de raiva do padre e se mostraram nervosos. Logo, porém, passaram a rir, a aplaudir as idéias de João, aos pulos e gritos.
– Agora vamos escolher o nome do nosso país.
O filho de Antônio fez um longo preâmbulo, falou da impor¬tância da ocasião, dos diversos nomes anotados como sugestão, mas desejava saber das propostas dos companheiros. Não se acanhassem, botassem para fora as sabedorias.
Animado, José abriu a boca para pronunciar, pela primeira vez sem ódio, a palavra com que sempre se engasgou.
– Que tal, Império Jenipapo?
A reação do Xocó se fez pronta e calorosa. Não admitia tão grande desconsideração ao seu heroísmo. Afinal de contas, repre¬sentava os xocós. Por que excluí-lo do nome? Então não contassem mais com sua participação na revolução.
– Você quer Império Xocó?
Também não, porque o país pertencia a jenipapos e xocós. E, se a ambos chamavam de tapuios, por que não usar esse nome?
Nem José nem João gostaram de Império Tapuio. Para o primeiro, tapuio significava selvagem, bruto. Para o outro, império lembrava os portugueses.
– Nesse caso, fica República Imperial dos Tapuios.
A proposta de Chico recebeu nova desaprovação por parte dos demais e João anunciou uma de suas moções: Repúlica Nati¬vista do Siará. E já se preparava para receber aplausos e continuar o discurso, quando José arregaçou as mangas para dizer não, se¬cundado pelo xocó.
Como não fosse possível qualquer conchamblança, apesar de João buscar aliança com o neto para derrotar as pretensões do índio e, em seguida, cochichar ao ouvido deste, ao não obter o apoio da¬quele para a aprovação de sua moção, embora as alianças se fizessem e se desfizessem, decidiram adiar a discussão.
Prepararam se para se retirar, Chicó despediu se dos morce¬gos, ofereceu lhes os restos da comida, José deu pulinhos e atirou pedras no mato e João varou as redondezas com os olhos pru¬dentes.
– Não hão espiães.
E teve outra idéia: caso não chegassem a um acordo na pró¬xima reunião, adiavam a escolha do nome para o momento da proclamação da criação do novo Estado.
– Às vezes é sem pensar que o pensamento decide melhor.
E argumentava: coroou Pedro sem pensar. Resultado: desco¬briu ser pai de um traidor.
A caminho de casa, elaborou uma nova teoria: os mortos não deixam seus continuadores errar, dificultam as suas decisões, se estas são nocivas aos ideais deles. E pôs se a falar das guerras de seu pai, dos exércitos de Antônio, das fantasias do menino rebelde da Missão. Sim, quem sabia, o espírito do velho Cardoso não apa¬recia a qualquer hora, para dar luz a todos eles?
Exposta a teoria, João desgarrou se dos companheiros, me¬teu se no mato. Antes, ordenou que o neto fosse pedir a bênção aos pais e Chicó seguisse o caminho da casa e desse milho às galinhas.
A noite voltou e nada de João chegar. Amparo culpava o ín¬dio de abandonar seu velho e o exortava a sair em caça ao marido. Chicó se negava a obedecer a mulher. Lembrava se bem da ordem recebida: tomar o rumo do galinheiro e salpicar o terreiro de milho. Discutiam, quando o chefe deu boa noite e quis saber se ela se re¬cordava ainda dos tempos das bordoadas.
– Isso é coisa que se faça, homem?
Deixasse as reclamações e respondesse logo. Amparo não sa¬bia de bordoadas nenhumas. João zangou se. Não andava com mentiras, conhecia as revoluções todas, os inconfidentes, os confe¬derados, os nativistas. Sim, tinha lembrança do caso, riu a mulher. Porém nesse tempo não passava de uma menina velha que tomava banho no rio, nua, inocente.
Satisfeito, João chamou Chicó para escutar a história do mi¬lagre de Canindé. Onde andava o pedreiro Antônio?
– Vou preparar seu escalda pés.
Nisso, Pedro chegou. Não podia ser verdade a conversa de José. O pai caducava, com certeza. Aquilo ficava para rapazes.
– Como vai a revolução?
João pediu silêncio ao xocó. Não soltasse uma só palavra na frente de Pedro. Considerava o quase um inimigo. O visitante riu, beijou as mãos da mãe e foi embora.
Em casa, chamou José e, até pegar no sono, falou tudo o que pensava do governo, do imperador, dos donos das terras, dos polí¬ticos.
– Uns mandriões!
QUESTÃO DAS ASSINATURAS
Desde a sua formação, o grupo não teve sequer um dia de paz interna, sobretudo enquanto seus componentes discutiram as minú¬cias da estratégia política e militar. Assim, também a discussão conseqüente à elaboração da primeira declaração pública em nome do novo país – qual a ordem a ser dada às assinaturas dos signatá¬rios da mensagem dirigida aos chefes de Estado estrangeiros – qua¬se o levou ao esfacelamento.
Apesar de só vez por outra se dizer o chefe, João se achou no direito de encabeçar a lista tríplice dos assinantes do documento. Primeiro porque o próprio inimigo via nele o cabeça do motim, tanto é que contra José e Xocó nunca praticou qualquer represália.
– Algum de vocês já foi ameaçado?
Pois sua casa sofria ataques constantes dos monarquistas e estrangeiros. Ainda na noite passada haviam roubado uma de suas galinhas, fato que não podia ser atribuído aos vizinhos.
Conhecedora do estado do marido, Amparo não ousou pedir a sua autorização para puxar o pescoço a uma das penosas e preparar canja para o resguardo da neta Julia.
Falou João de pegadas estranhas no terreiro. Não tinha dúvi¬das: andavam rondando sua casa e preparavam o ataque mortal. Apesar disso, não temia aqueles lambanceiros. Enfrentava os de cara a cara, de dia ou de noite. Gastou palavras a se pabular, até convencer José e Xocó do mais grave: sua cabeça estava a prêmio. E, se tal acontecia, por que não ser o primeiro a assinar a mensa¬gem? Além do mais, dos três era ele o único conhecido fora da Serra e até no estrangeiro, quer por suas façanhas como revolucio¬nário, quer por sua sabedoria como construtor de igrejas, inventor, naturalista, cantador, poeta e tantos outros predicados, e ainda por ter viajado quase meio mundo. Conhecia Crato, Icó, Jardim, Barbalha, Jaguaribe, Canindé e uma infinidade de terras. Menos o estrangeiro. Mesmo assim, podia afirmar também isso, porque já ha¬via lido romances passados em reinos desconhecidos. Como a História da Imperatriz Porcina, mulher do Imperador Lodônio de Roma e filha do Rei da Hungria.
Interrompeu-o Chico, que alegou também conhecer muitas terras, pois de uma só viagem passou por não sabia quantas vilas. Se fosse por isso, não arredava pé de assinar primeiro.
José pediu a palavra para reconhecer a fama, a valentia e a sabedoria do avô. Sim, o nome de João andava de boca em boca, varava os sertões, entrava e saía pelas portas do governo, mas nada disso lhe dava o direito de encabeçar a lista. E sugeriu a adoção do critério da ordem crescente das idades dos assinantes como solução do problema.
Demonstrou João o quanto as pessoas não dão importância aos atos praticados pelos jovens, depois de apoiar a descoberta do neto. Sim, o tal critério das idades evitava discursos em louvor de si mesmos. Daquelarte, o nascido por último assinava por derradeiro.
Xocó apoiou a proposta de João e se declarou o mais velho de todos.
– Quantos janeiros vosmicê tem?
Pôs se a contar nos dedos os anos de vida. Passava da mão direita para a esquerda, desta para aquela, cochilou, babou e nada de chegar ao presente. Anotou no chão um símbolo e mandou seu concorrente fazer também as contas da vida.
– Não preciso disso.
Voltou aos dedos, para impaciência dos Cardosos.
– Esse já morreu.
No fura bolos da mão esquerda parou. Olhou para trás, como se tivesse esquecido algum ano enganchado no mato e respondeu: cento e cinqüenta e três.
– Eu não sabia que vosmicê sabia contar tanto.
O índio se zangou. Sua vida vivia anotada até antes de fugir de Jardim. Se falava do nascimento, era para lembrar o quanto já tinha vivido. Se contava nos dedos, não contava os anos, mas os anos anotados. Guardava na cabeça os nós todos.
Derrotado, João retirou sua última proposta e voltou a se vangloriar. Mais valiam sessenta e oito anos de luta incessante contra os portugueses do que cento e tantos anos de fuga.
Chamado de fujão, covarde e retirante, Chicó revidou o in¬sulto e atirou imateriais flechas contra seu ex coiteiro. Da rusga aproveitou se José para tirar partido: vissem, o mais velho carrega¬va no tuntum século e meio de carreiras, o do meio só não se igualava ao outro porque os soldados não o deixaram correr. E isso o fazia mal visto aos olhos do povo.
João exigiu respeito. Um neto não devia tratar um avô da¬quela maneira. Medisse as palavras. Por outro lado, existia maior honra do que bater se contra soldados? E maior heroísmo, quando esses soldados formavam um batalhão? Só um revolucionário en¬frentava as armas do governo.
– Só um herói do povo.
Importava saber quem dos três representava melhor o povo – retomou a palavra o xocó. Se a revolução se propunha criar um estado nativista, por que não a ele, um índio puro, o direito de re¬presentar em primeiro lugar esse povo?
João ainda intentou se dizer índio puro, porém lembrou se da memória da mãe e se deu por vencido. José conhecia toda a histó¬ria dos Cardosos, dos jenipapos, da Serra de Baturité, da aldeia, tudo contado pelo avô. Não adiantava mentir. Micaela carregava nas veias sangue estrangeiro.
(Continua)